Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual 2014

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo Coletivo Audre Lorde.

O dia da visibilidade lésbica não tem esse nome à toa. A invisibilização é uma das coisas mais sentidas por nós.

Podemos ter problemas muito concretos relacionados com nossa orientação e eles são amplamente ignorados pela sociedade como um todo.

A expulsão de casa é muito frequente quando uma pessoa jovem sai do armário ou sua homossexualidade é descoberta. Mas são duas coisas muito diferentes uma mulher não ter para onde ir ou onde dormir e um homem passar por isso.

Mulheres já costumam ter remuneração mais baixa pelos mesmos cargos ou cargos de remuneração mais baixa. Mulheres lésbicas podem sofrer ainda mais com isso por preconceito com relação à sua orientação ou pela aparência, se tiverem uma aparência que é socialmente entendida como masculina. Pelos mesmos motivos, podem ser vítima de violência física, sexual (incluindo estupros corretivos), verbal e/ou psicológica.

Na saúde pública, na privada e mesmo no conhecimento geral da população, as necessidades específicas da saúde sexual de uma pessoa que tem atividade sexual que não envolve pênis é completamente ignorada. A mulher cisgênero que se envolve com uma mulher trans* não transgenitalizada ainda pode ter parte da sua sexualidade contemplada pelas práticas médicas de rotina, mas a que se envolve com outra mulher cis ou a bissexual que se envolve com um homem trans* não trangenitalizado, não.

Muito disso se explica pela necessidade do modo de produção sob o qual vivemos de grandes grupos da população para formarem exército de reserva: pessoas que ficam às margens do mercado de trabalho e podem ser contratadas por salários mais baixos em momentos de crise do lucro. As opressões – qualificar uma pessoa como um cidadão de segunda categoria, como menos capaz, menos competente, menos merecedor – servem muito bem para isso. Serve para que mulheres recebam menos ou tenham trabalhos de menos prestígio. Ainda mais se forem lésbicas, ainda mais se forem negras e ainda mais se forem periféricas. As opressões combinadas são um prato cheio para o lucro.

Outra parte se explica pela ideologia que deriva do controle sexual da mulher. O controle sexual da mulher surgiu junto com a propriedade privada. Para poder concentrar a propriedade em poucas mãos era necessário que ela passasse como herança do pai para os filhos legítimos. A garantia de que os filhos eram legítimos, num período pré-exames de DNA, era controlar a vida sexual da mulher. E embora já tenhamos exames de DNA  e a maior parte da população esteja alijada da propriedade dos meios de produção, essa ideologia opressora persiste. A mulher é ignorada como sujeito desejante. É constantemente vista como um objeto e como um objeto de desejo. A ideia de que a mulher se envolve em atividade sexual para ter prazer, e não para satisfazer a um homem, nunca é cogitada. A ideia que subjaz é a de que onde se tem duas mulheres não há desejo, logo não há sexo.

Por esses motivos, teremos muitos dias da visibilidade lésbica de batalha pela frente. Conquistar uma vida plena para as lésbicas e bissexuais, especialmente as mais oprimidas e exploradas, passa por exigir os mínimos direitos, como segurança, saúde e amparo para emprego e habitação, mas é indispensável que mudemos por completo o sistema sobre o qual desconfortavelmente nos assentamos hoje.

Roubo da página do coletivo Feminismo Sem Demagogia

A única página do facebook moderada pelo Coletivo Feminismo Sem Demagogia é a Feminismo Sem Demagogia – Original. A página chamada apenas “Feminismo Sem Demagogia” nos foi roubada no fim de 2013 e está neste instante fazendo publicações com conteúdo da corrente do feminismo radical, inclusive transfóbicas, com a qual não temos nenhum acordo.
Peço POR FAVOR que parem de segui-la e informem tantas pessoas quantas puderem!

Chamada para Blogagem Coletiva pelo 29 de Agosto – Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual

Post originalmente publicado pelo Coletivo Audre Lorde.

 

Eu passei a acreditar que o mais importante para mim deve ser falado, tornado verbal e compartilhado, mesmo com o risco de isso ser ferido ou mal interpretado. Que falar me beneficia, além de qualquer outro efeito.

Audre Lorde

Ser mulher numa sociedade machista é precedente para ser diminuída constantemente e estar exposta a possibilidade de violências diversas. Ser mulher lésbica ou bissexual nesta mesma sociedade que além de machista prima pela heteronormatividade* é ser tida como a que “ainda não encontrou um homem de verdade”, a que está “passando por uma fase”, que quer “chamar atenção”, aquela que é “Lésbica por modinha”, são as mulheres que sofreram algum “trauma” ou “violência sexual”, são as mulheres “feias”, “gordas”, “mal amadas”, “mal comidas” e que por estas razões tornaram-se lésbicas. Ser lésbica ou bissexual neste contexto é ter sua afetividade e sexualidade reduzida a “fetiche para homens” ou um “convite para um ménage”. Todos estes argumentos e atitudes geram os estupros corretivos, a violência psicológica e física, o abandono, o medo e a vergonha de ser quem se é.

Porém, como diz Audre Lorde, “Seu silêncio não irá te proteger”.

“Por causa do silêncio, cada um de nós desenha o rosto de seu próprio medo — medo de desprezo, de censura, de algum julgamento, ou reconhecimento, de desafio, de aniquilação. Mas acima de tudo, penso eu, nós tememos a visibilidade sem a qual não podemos viver verdadeiramente.

A visibilidade que nos torna vulneráveis é a mesma que liberta e nos permite lutar por nossos direitos já tão negados quanto mulheres, acabam por tomar outras proporções quando se é negra, periférica, trans*, quando se possui uma necessidade especial, se é mães, esta em situação de rua ou cárcere, quando se está em um país onde ser quem se é pode levar a morte.

O Coletivo Audre Lorde convoca a Blogagem Coletiva pelo 29 de agosto – Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, no intuito de permitir um olhar sobre sobre estas mulheres plurais que não raro tem sua existência negada. Vamos marcar esta semana com muitos textos e relatos pessoais.

É urgente dizer que existimos, que temos desejos, necessidades, sonhos, e que eles são nossos, específicos, e tão importantes como qualquer outro. Somos cidadãs e exigimos nosso lugar nessa sociedade que não titubeia em exigir nossos deveres, mas é omissa com nossos direitos.

Se tiver blog, publique lá, inclua a frase “Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo Coletivo Audre Lorde”, com o hiperlink dessa página, e nos envie o link para divulgação até as 22h00 do dia 29 de Agosto.

Caso não mantenha um blog, nos envie seu conteúdo no máximo até dia 28 de agosto, para que seja publicado em blogs parceiros. Durante este dia utilize o twitter, o instagram e outras redes sociais e publique imagens e conteúdo que possam nos tornar cada vez mais visíveis e respeitadas com a hashtag #VisibilidadeLés&Bi.

…Não é a diferença que nos imobiliza, é o silêncio. E há tantos silêncios a serem quebrados. (Audre Lorde)

PARA UM PROGRAMA FEMINISTA CLASSISTA

Por Mariana Luppi

Esse texto corresponde a uma fala que eu fiz no seminário de construção de programa da candidata Isa Penna, do PSOL. Como apontado nessa oportunidade, nosso coletivo não apoia nenhuma candidatura em específico, as aproveitará o período eleitoral para discutir com aquelas que se propuserem a apontar uma perspectiva classista e revolucionária.

Pertenço ao coletivo Feminismo sem Demagogia, que é um coletivo feminista classista. Então primeiramente é importante explicar o que significa para nós, do ponto de vista do programa, defender uma perspectiva de classe sobre o feminismo. É comum nos discursos da esquerda a opressão à mulher, bem como outras opressões, serem tratadas como aspectos “acessórios”, secundarizados; então é importante destacar que o patriarcado e o machismo, como sua expressão ideológica, são aspectos estruturais, essenciais para a manutenção do modo de produção atual, de forma que o capitalismo não teria se desenvolvido sem a opressão à mulher.

O TRABALHO NÃO REMUNERADO DA MULHER

Em primeiro lugar, o trabalho doméstico é necessário para a produção social, mesmo deixemos em aberto o status econômico específico desse trabalho, algumas coisas são certas: é um trabalho essencial, é um trabalho compulsório não pago (escravo, por que não?) e é feito em geral pelas mulheres. Nesse sentido, mesmo os diversos avanços tecnológicos nunca serão capazes de desonerar as mulheres desse trabalho, e por isso a esquerda deve colocar em pauta a socialização do trabalho, defendendo restaurantes, creches e lavanderias públicas e, além disso, defendendo a obrigatoriedade desses mesmos restaurantes, creches e lavanderias nos locais de trabalho, onerando o patrão. Nesse sentido, é interessante lembrar que alguns direitos sociais conquistados, como o vale- alimentação, mantêm a necessidade do trabalho da mulher, para cozinhar nesse caso. Apenas para ilustrar a importância do trabalho feminino não pago, em 2009 as mulheres gastavam em média 22h por semana com os trabalhos da reprodução social, contra 9h e meia dos homens. Juntando o trabalho dentro e fora de casa, as mulheres em média trabalhavam 5h a mais do que os homens.

O TRABALHO REMUNERADO DA MULHER

Em segundo lugar, é importante ressaltar que quando trabalha fora, a mulher tende a receber salários menores e a estar nos trabalhos mais precarizados e mal pagos- apenas para citar um dado, em 2012 os homens recebiam em média 2118 reais, enquanto as mulheres recebiam 1447 reais (68% do salário masculino), – sabemos que além de ser terrível para a mulher, isso significa a manutenção dos salários de toda a classe trabalhadora mais baixos. É fundamental, assim, a criação de mecanismos para garantir a equiparação salarial e a igualdade de direitos entre homens e mulheres em seus empregos.
Talvez falar em classe trabalhadora na discussão feminista pareça “economicista”, por isso é importante esclarecer: não temos uma visão “dura” de classe trabalhadora, estamos nos referindo à totalidade da classe que sobrevive do próprio trabalho. Além disso, não estamos nem de longe afirmando que as únicas ou piores consequências do patriarcado para a mulher são as relativas a elementos econômicos, estamos apenas afirmando que esses são os fundamentos pelos quais o machismo e o patriarcado não podem ser superados sem a superação do próprio capitalismo, pois ambos são interdependentes.

VIOLÊNCIAS CONTRA A MULHER
Claro que se a participação da mulher como sujeito na produção social é constantemente desvalorizada, seja por ter salários mais baixos seja por fazer trabalhos não-remunerados, parece normal, natural, a mulher ser considerada um ser humano de segunda categoria, o que justifica ideologicamente todos os tipos de violência contra a mulher. Um programa de esquerda tem que se debruçar também nas formar de prevenção e combate a essa violência. Vou citar algumas formas de fazer isso, mas há certamente muitas outras propostas que podem ser formuladas para cada um dos problemas que eu vou tratar:

- É necessário garantir a aplicação da lei Maria da Penha, e garantir principalmente que todas as mulheres que passaram por situações de violência sejama acolhidas. Sabemos que a violência é algo que enfraquece as mulheres, as traumatiza e as afasta dos espaço de socialização e da política – não podemos aceitar que nenhuma mulher passe por esse tipo de situação sem acolhimento e garantia de segurança para si e para seus filhos

- Na educação, é importante combater os elementos machistas e sexistas, procurando dar conta da realidade das mulheres. Além disso, é importante uma educação sexual não moralista nem biologista, mas que considere as jovens como portadoras de desejo próprio e o prazer como necessário ao desenvolvimento humano.

- Em relação à saúde, é importante a existência de unidades voltadas para a saúde da mulher em seus diversos aspectos, com destaque para a maternidade (de forma a haver mais hospitais-maternidade), a situação das mulheres lésbicas (sobre cuja saúde paira muita ignorância) e das mulheres trans*. Além de, é claro, os programas voltados à prevenção em geral e à saúde da família (afinal também é a mulher que em geral leva crianças ao médico).

- Aliás, é importante em geral que as militantes feministas apoiem as pautas de mulheres em situação de dupla opressão, como as mulheres negras, lésbicas e trans*. Nesse sentido, a luta contra o racismo e o genocídio da população negra, a luta contra a lesbofobia e a invisibilidade lésbica, bem como contra a transfobia e pelo reconhecimento das identidades trans* (como coloca a PL João Nery, por exemplo) são fundamentais.

- E apenas para fazer outras pontuações : o direito ao aborto, a necessidade de campanhas institucionais contra a violência e o combate a iniciativas que culpabilizem as vítimas, como aquela do vagão rosa, são também elementos prógramaticos essenciais.

PROSTITUIÇÃO

Agora, vou destacar mais um ponto, para o qual a esquerda dá também pouca atenção, que é a situação das mulheres prostituídas. Como estamos debatendo com companheiros do PSOL nesse espaço, vou começar dizendo que temos sérioas discordâncias com a lei Gabriela Leite e que consideramos alguns de seus pontos retrocessos.
Antes de se aprofundar nesse ponto, no entanto, é importante que compreendamos a prostituição como o outro lado da moeda da família nuclear monogâmica que é a unidade básica de organização social há milênios. Se a esposa está em sitação de constante opressão e exploração de seu trabalho dentro da família, submetida à maternidade compulsória e ao trabalho doméstico compulsório, a mulher prostituída é aquela que, à margem da família, tem seu corpo explorado, em geral para enriquecer uma terceira pessoa. Apesar de todos os discursos sobre a liberdade sexual, não podemos hoje considerar que a prostituição seja produto da livre vontade de uma mulher: em geral é a falta de trabalho, ou de trabalho que garanta sua sobrevivência, que leva as mulheres a essa situação – nesse sentido consideramos incorreto pensar nas mulheres em situação de prostituição seja como “profissionais do sexo”, seja como lumpenproletariado: para nós elas em geral pertencem ao número de trabalhadoras desempregadas, ao exército industrial de reserva, por isso organizá-las em conjunto com o resto da classe, garantir que elas desenvolvam consciência de classe é fundamental. A prostituição não acabará, também, enquanto houver desemprego e patriarcado, enquanto houver capitalismo.
Apesar disso, devemos ter um programa de demandas democráticas para dar maior escolha a essas mulheres e melhores condições (até para elas começar a pensar políticamente suas situações). O feminismo, nesse sentido, se divide normalmente em posições abolicionistas e regulamentacionistas sobre o assunto. Embora nós tenhamos construído até pouco tempo atrás um comitê abolicionista, consideramos que muitas medidas defendidas pelo abolicionismo tendem a piorar imediatamente a vida das mulheres – como a criminalização do cliente – e tendem a ser elementos que não podemos discutir diretamente com essas mulheres (estamos já a uns meses acompanhando um trabalho com mulheres prostituídas na Luz).
Não consideramos, a princípio, que seja impossível criar um bom projeto de lei para a regulamentação da prostituição, mas esse projeto ainda não foi construído. A Lei Gabriela Leite tem efeitos bastante problemáticos como a descriminalização da cafetinagem e das casas de prostituição e não tem grandes avanços quanto aos direitos sociais dessas mulheres, principalmente as que querem sair da prostituição.
Antes mesmo de pensar em termos de legalizar ou criminalizar qualquer aspecto da prostituição, creio que cabe às feministas pensar projetos para dar opção e apoio às mulheres em situação de prostituição: antes de tudo programas específicos de saúde, mas também cursos profissionalizantes remunerados, casas de acolhimento para que elas tenham onde morar e, é claro, todos os direitos férias e aposentadoria.
Consideramos esses pontos essenciais para que as mulheres em situação de prostituição cada vez mais possam discutir e pensar suas próprias pautas, e se enxergar como parte (constantemente excluída) da classe trabalhadora – pois sem elas, como sem as mulheres trabalhadoras em geral, não avançaremos na nossa luta contra o capital e pela construção de um novo mundo.

DEIXE A ESQUERDA LIVRE DE MACHISMO – Uma luta histórica

Por Denise Laizo

* Este texto faz parte do caderno de teses que está sendo produzido pelo Coletivo Feminismo Sem Demagogia, a partir do evento “Deixe a Esquerda Livre de Machismo, que aconteceu dia 26 de julho de 2014.

A existência de machismo nas organizações da esquerda é um fato dado. A questão colocada é poder compreender o porquê as palavras machismoesquerda, quando juntas, expressam uma grande contradição. Só assim poderemos fazer uma batalha contra essa praga e construir organizações coerentes com seu programa.

Primeiramente, é preciso evidenciar que estamos chamando de esquerda os grupos políticos que estão do lado das pessoas que sofrem exploração e opressões, sejam de classe, raça, gênero, identidade e orientação sexual etc. e, portanto, buscam uma transformação radical dessa sociedade. A palavra radical aqui não é usada por acaso, mas para falar daquilo que está na raiz do problema dessa sociedade, ou seja, da sua estrutura baseada na propriedade privada de produção e na sua divisão em classes.

Tendo em vista essa definição, fica evidente a contradição em se falar de uma esquerda machista. Porém, o machismo na esquerda não vem de hoje, este já possui uma história. Sim, infelizmente já podemos falar de história do machismo na esquerda! Mas essa mesma história nos conta o quanto as mulheres enfrentaram o machismo, se fizeram presentes e se tornaram um setor fundamental dentro da esquerda. Olhando por este ângulo, vamos contar a história de como as mulheres enfrentaram séculos de “mudez política” e se tornaram pessoas ativas no processo de transformação do mundo.

É óbvio que o machismo na esquerda reflete um contexto e uma época, mas também fica evidente que os avanços conquistados pela esquerda ocorrem em paralelo com os avanços que as mulheres obtiveram dentro do mundo da política e, mais especificamente, dentro da esquerda. O ponto de partida dessa história é a entrada e o aumento das mulheres no mercado de trabalho, ou seja, quando a outra metade da população passa a fazer parte da produção social. Sem esse setor da população, por seu número e sua representação, não é possível realizar uma revolução. Porém, isso só foi percebido com grande esforço.

Retrato do primeiro congresso da I Internacional, em 1864

A primeira grande dificuldade que as mulheres enfrentaram foi conseguir entrar nos espaços de militância. A I Internacional, fundada por Marx e Engels, em 1864, teve como uma de suas principais polêmicas o tema da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Marx, em 1866, coloca-se a favor das mulheres na seguinte resolução:

“Se seus efeitos imediatos (do trabalho) são terríveis e repugnantes, nem por isso ele deixa de contribuir, ao dar às mulheres, jovens e crianças de ambos os sexos uma participação importante no processo de produção fora do meio doméstico, na criação de novas bases econômicas, necessárias para uma forma mais elevada de família de relação entre os dois sexos.”

No entanto, muitos homens, militantes socialistas, entendiam que nem o trabalho fora de casa e nem a militância política eram lugares para as mulheres. Acreditavam que o fato de a mulher ocupar o mercado de trabalho era mais uma distorção do capitalismo, afinal consideravam que o seu lugar natural era o lar. Assim, dirigentes da I Internacional chegaram a afirmar:

“Em nome da liberdade de consciência, em nome da iniciativa individual, em nome da liberdade da mãe, devemos arrancar da fábrica, que a desmoraliza e a mata, essa mulher que sonhamos livre… a mulher tem por objetivo essencial o de ser mãe de família, ela deve permanecer no lar, o trabalho deve ser-lhe proibido.”

Este pensamento era muito parecido com o de Proudhon, um dos principais teóricos do anarquismo. Para Proudhon “lugar de mulher é no lar”, afinal ela deveria se restringir as suas funções, ou seja, procriar e cuidar da casa, e não ficar roubando o trabalho do homem.

“Ele chegou a propor que o marido tivesse direito de vida e de morte sobre sua mulher, em caso de desobediência ou falta de caráter, e demonstrava, mediante uma relação aritmética, a inferioridade do cérebro feminino em relação ao masculino.” (Toledo, Cecília)

Já o SPD (Partido Social-Democrata Alemão), fundado em 1875, principal partido socialista do período da I Internacional, demorou dezesseis anos para inserir em seu programa a necessidade da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. August Bebel foi um importante dirigente do período, e, desde o primeiro congresso do partido, lutou para que a igualdade de direitos para as mulheres fizesse parte do programa do SPD. Porém, Lasalle e seus seguidores se opunham ferrenhamente ao grupo de Bebel, afirmando que, com o estabelecimento do socialismo, seria possível proporcionar bons salários para os homens, os quais poderiam assumir o papel de provedor e sustentar toda família. Dessa forma, o papel da revolução para as mulheres seria o de lhes proporcionar o retorno ao seu habitat natural, ou seja, ao lar. Bebel foi derrotado neste debate com o argumento de que as mulheres não estavam preparadas para assumir os seus direitos.

Durante este primeiro período, podemos encontrar o erro mais medíocre que um revolucionário pode cometer. A explicação é simples! No capitalismo, um pequeno setor da população, os donos dos meios de produção, explora os trabalhadores, os quais trocam sua força de trabalho por dinheiro. O produto contém o valor de custo, que inclui o salário do trabalhador, já o valor restante após a venda do produto é aquilo que o capitalista vai embolsar como lucro. Dado que o valor dos meios de produção, ou seja, os materiais, as máquinas, a manutenção do espaço etc. é um capital constante, o que se pode mexer para conseguir mais ou menos lucro é o capital variável, isto é, o salário do trabalhador. Quanto mais baixos forem os salários pagos aos trabalhadores, mais lucro (trabalho não pago) o capitalista terá.

Pois bem, entendendo-se a lógica de funcionamento do capitalismo, é de se esperar que manter salários baixos é a busca desesperada de qualquer capitalista. Assim, a opressão, como o machismo, serve de mecanismo para levar os salários para baixo. As mulheres, as pessoas negras, os homossexuais, as pessoas trans* e travestis etc. compõe um imenso exército de reserva, que podem ser contratados a qualquer momento por salários mais baixos, por serem considerados mão de obra inferior. Claro que essa mão de obra não é inferior, mas sustenta-se ideologicamente que determinadas diferenças entre as pessoas devem ser vistas como inferioridade para que se possa colocar em desvantagem certa parte da população. No entanto, os setores oprimidos, quando utilizados pela burguesia, quando contratados por salários menores, nivelam por baixo o salário de toda a classe trabalhadora. Assim, o problema não são as mulheres, ou qualquer outro setor oprimido, mas a utilização da opressão enquanto mecanismo para aumentar a exploração. Por isso, o homem da classe trabalhadora, o homem militante da esquerda, quando sustenta o machismo, apenas contribui para fortalecer a sua própria exploração e o sistema capitalista.

Clara Zetkin discursa para a classe trabalhadora na década de 1930

Dando continuidade ao processo histórico, os anos se passaram e, após mais de uma década, a polêmica em relação às mulheres passou a ter como centro a questão sufragista. Os reformistas defendiam que apenas os homens deveriam ter direito ao voto, pois acreditavam que as mulheres tenderiam a votar em setores conservadores, como os ligados à Igreja Católica. Porém, nesse período já existiam mais mulheres de destaque dentro de organizações da esquerda, como Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo.

Clara Zetkin foi fundamental para a aprovação de uma campanha pelo sufrágio feminino, na II Internacional. Esta mesma militante também obteve êxito ao propor ao SPD, em 1896, a formação de organizações especiais de mulheres. Lembrando que, cinco anos antes, o mesmo partido havia finalmente aprovado o programa que exigia a igualdade de direitos para as mulheres e a abolição de todas as leis discriminatórias, ou seja, a mesma proposta que Bebel havia apresentado muitos anos antes. No entanto, esse período não foi nada fácil para as mulheres militarem, afinal, além de toda opressão dentro e fora dos espaços de militância, até 1908 as mulheres eram proibidas de se filiarem a grupos políticos.

Nessa passagem de um período para outro, podemos perceber como a maior participação de mulheres na militância que batalhavam por suas demandas e o avanço das concepções da esquerda caminharam juntos. É nesse momento que a esquerda divide-se entre reformistas e revolucionários. Os primeiros contentavam-se com reformas no sistema, o que, para eles, naturalmente levaria ao socialismo. Para tanto, não se preocupam em inserir as mulheres nesse processo, mas apenas em como atingir a superestrutura. Já os revolucionários marxistas entendiam que a opressão das mulheres era estruturante para o sistema capitalista e, portanto, as demandas das mulheres por igualdade era crucial para combater tal sistema. Além disso, apostavam em uma revolução realizada pelas massas, ou seja, pela classe trabalhadora e oprimida e boa parcela desse setor não poderia simplesmente ficar de fora.

Isso se evidenciou com o advento da Revolução Russa. A participação das mulheres nesse processo foi fundamental, afinal muitos homens estavam nas trincheiras da I Guerra Mundial, e para as mulheres da Rússia sobrou o fardo de sustentar o processo de exploração de seu país. Assim, a Revolução de Fevereiro, que abriu as portas para a derradeira Revolução de Outubro, partiu de uma manifestação de mulheres em Petrogrado. Essas mulheres reivindicavam a saída da Rússia da guerra e criticavam a situação de miséria que viviam. Nesse período, era tão evidente a importância da participação das mulheres que as organizações da esquerda as disputavam acirradamente. Inclusive cada uma dessas organizações tinham jornais especiais para esse público.

Após a revolução, a luta das mulheres se reverteu em conquistas. Assim, adquiriram direitos e benefícios de políticas públicas de uma só vez, como nunca ocorreu na história, nem antes e nem depois da revolução. Como direitos conquistaram:

Abolição das leis que colocavam a mulher em uma relação de desigualdade no casamento, como as leis sobre divórcio, os filhos e pensão alimentícia;
Abolição dos privilégios do homem em relação à propriedade;
Equiparação salarial, proteção legal no trabalho e seguro social;
Legalização do aborto, o qual deveria ser feito pelos hospitais públicos de forma gratuita;
O direito ao voto e de serem votadas.
Além disso, o governo soviético se preocupava com a liberação da mulher do trabalho doméstico. Na concepção de Lenin, o verdadeiro comunismo estava atrelado à verdadeira emancipação da mulher:

“A verdadeira emancipação da mulher, o verdadeiro comunismo, só começará onde e quando comece a luta das massas contra a pequena economia doméstica, ou melhor, onde comece a transformação em massa dessa pequena economia em grande economia socialista.”

Assim, nesse momento criaram-se refeitórios, creches e lavanderias públicas. Porém, não foi possível que essa nova vida da mulher se estabelecesse por completo. A dificuldade econômica e a guerra civil não permitiram que se criassem a quantidade de serviços públicos que eram necessários. Além disso, tratava-se de um país extremamente atrasado em relação aos aspectos morais e culturais, sendo muito difícil quebrar as resistências do preconceito.

Essas arcaicas ideias só poderiam mudar com a implementação de novas práticas, mas sua concretização não foi possível, pois o stalinismo enterrou as recentes conquistas das mulheres. O governo stalinista passa a fazer uma extensa propaganda a favor da família nos moldes burgueses. Assim, estimula-se que a mulher volte a assumir seu papel de mãe e dona do lar. Isso não se dá simplesmente por questões ideológicas, mas de fundo tem uma base material. Primeiramente, deve-se considerar que a situação econômica da União Soviética era bastante precária, e, como nos ensina Trotsky, “a verdadeira emancipação da mulher é impossível no campo da ‘miséria socializada’”.

Então, para não ficar tão evidente essa miséria, para não gerar descontentamentos ao usar os serviços públicos que se tornaram de péssima qualidade (como nas lavanderias públicas que as roupas saiam rasgadas ou eram roubadas), para não sentir falta de serviços que antes existiam (creches foram fechadas ou tiveram seu horário reduzido), as tarefas de subsistência e cuidados com as crianças voltaram a ser função das mulheres, e, assim, o Estado se viu livre desses compromissos. O que se passou aqui é o mesmo que acontece no capitalismo, para se manter privilégios de uma pequena parte da sociedade é necessário explorar ao máximo a outra parte. O trabalho doméstico realizado pela mulher tira do Estado a responsabilidade por esses serviços e, no caso da União Soviética, a burocracia se beneficiava enormemente dessa situação.

Dentro dessa mesma lógica, o aborto foi colocado na ilegalidade novamente. Faz parte do discurso em prol da família burguesa a supervalorização da ideia de que ser mãe não é um direito, mas um dever. Trotsky nos conta que Solz, membro do Supremo Tribunal Soviético, “justifica a proibição do aborto dizendo que a sociedade socialista não conhecendo o desemprego, ela, a mulher, não pode ter o direito de rejeitar ‘as alegrias da maternidade’”. E, então, Trotsky rebate dizendo que “eles esquecem visivelmente que o socialismo deveria eliminar as causas que levam a mulher ao aborto e não fazer intervir a polícia na sua vida íntima para lhe impor as ‘alegrias de ser mãe’”. De qualquer forma, o que vemos aí é, novamente, a desresponsabilização do Estado pela saúde física e mental da mulher, já que, ao tornar o aborto ilegal, o Estado não necessita mais garantir o procedimento em seus hospitais. Retomam-se as velhas ideias moralistas e abandonam-se as mulheres à própria sorte, em nome dos privilégios da burocracia.

Outro ataque importante às conquistas das mulheres foi tornar o divórcio cada vez mais difícil. O divórcio passou a se dar apenas mediante pagamento. Assim, podemos imaginar que, como qualquer sociedade fundada no ideário patriarcal, as mulheres por ganhar menos do que os homens, quando ganhavam, tinham menos possibilidades em escolher se divorciar. De qualquer forma, divorciar passa novamente a ser um privilégio de quem tem mais dinheiro. Dessa forma, impondo limites objetivos, impulsiona-se o retorno da economia familiar, enquanto se elimina a possibilidade da coletivização da educação, dos cuidados em saúde e do trabalho doméstico.

Tal retomada dos antigos valores foi tão brutal que outros imensos retrocessos foram impostos, como a volta da criminalização da prostituição e da homossexualidade. No entanto, sabe-se que, no caso da prostituição, esta cresce na mesma proporção que a pobreza e o abandono das mulheres. Novamente as mulheres são criminalizadas por sua própria marginalização.

Tudo isso traz muitos ensinamentos para as organizações da esquerda. Como o próprio Trotsky disse, “onde há privilegiados, há párias”. Isso é uma regra não apenas para o capitalismo, não apenas para o stalinismo, mas para qualquer espaço em que se mantenham os privilégios. Por isso, as organizações da esquerda não podem sustentar dentro de sua militância os privilégios dos grupos que já são privilegiados em nossa sociedade e/ou criar novos tipos de privilegiados.

Isso traz inevitavelmente distorções como pudemos observar com os conservadores da época de Marx, com os reformistas do período do sufragismo, ou com o stalinismo. A esquerda que reivindica para si a estratégia revolucionária não pode se parecer com nenhum dos tipos anteriores. A história já nos ensinou que qualquer alternativa anterior nos leva a caminhos bem diferentes de uma sociedade realmente igualitária. Privilégios sempre dividem!

Portanto, não desdenhemos as mulheres como os conservadores fizeram, não nos utilizemos do machismo para adquirir supostas vantagens para a luta como propunham os reformistas, não digamos que a batalha contra o machismo é coisa para realizar apenas quando as condições materiais forem totalmente favoráveis, como fizeram os stalinistas. É verdade que somos produtos do nosso contexto atual. No entanto, nos propomos a não sermos reprodutores deste atual contexto, mas sim transformá-lo completamente. Para tal, devemos começar sendo coerentes e, mesmo que seja difícil, ter atitudes condizentes com as transformações que pretendemos fazer.

Se for verdade que a sociedade futura contém elementos da sociedade passada, pelo menos os materialistas-dialéticos devem concordar que a sociedade atual já possui elementos da sociedade futura. E, no presente, o espaço que tem por obrigação e necessidade de produzir e reproduzir os novos elementos da sociedade futura é, sem dúvida nenhuma, a esquerda.

A Culpa é do Sistema!

Por Denise Laizo
É isto mesmo! A culpa pela pobreza, opressão (machismo, racismo, homofobia, transfobia…), exploração e até mesmo por muitos dos problemas físicos e mentais que adquirimos ao longo da vida, é do sistema capitalista. Sei muito bem que esta afirmação é causadora de muita irritabilidade e, portanto, acabo de provocar um clima de inimizade com boa parte das pessoas que estão lendo, que já devem estar elaborando contra-argumentos raivosos. Mas tudo bem, a intenção é provocar a reflexão e a discussão.

De forma geral, o desacordo é motivado, porque a maioria das pessoas compreende que ao culpar o sistema capitalista, estou tirando a responsabilidade dos maldosos seres humanos, que precisamos suportar na face da terra. A sensação é a de que estou mudando o foco, tirando-o do indivíduo vilão e colocando em algo externo, no mundo, algo que é tão abstrato que é impossível apenas pegar e jogar na cadeia e/ou eliminar.

De fato estou mudando o foco da individualização da culpa para a sua coletivização, afinal de contas este sistema não é algo natural, mas sim uma construção social, humana. Assim, quando digo “a culpa é do sistema”, não tiro a responsabilidade individual, mas a partilho com um coletivo, distribuindo a parcela de culpa que cada parte merece por produzir e reproduzir este sistema.

Não estou afirmando, por exemplo, que um estuprador não deve ser penalizado. Um estuprador merece ser preso e o mais rápido possível. Porém, as pessoas que se levantam apenas contra o estuprador, mas não lutam contra o sistema capitalista, por mais contraditório que pareça, não estão atingindo o status-quo. Isto porque o inimigo é encarnado em indivíduos, contribuindo para que a luta ocorra entre pessoas; o problema passa a ser os defeitos dos outros e não todo um sistema que ao passo que pune um estuprador, faz brotar mais 100 em diversos pontos do planeta.

Ao mesmo tempo, o inverso também é verdadeiro, ou seja, as pessoas que apenas lutam contra o sistema e não combatem as opressões cotidianas, na realidade não são consequentes com sua luta. Afinal estas mantém o cerne do sistema, que é categorizar grupos de indivíduos e dividi-los entre os que têm mais valor e menos valor. O primeiro grupo domina o segundo e o sistema de opressão e exploração permanece o mesmo. Infelizmente este é o grande mal que assola a esquerda.

Mas por que o sistema é o grande vilão da história?  Porque o sistema capitalista – como qualquer sistema baseado na propriedade privada de produção – é gerador de desigualdades. Quero deixar claro que quando falo de desigualdades não estou falando de diferenças. As diferenças entre as pessoas é algo mais natural e saudável no mundo. O problema é se utilizar das diferenças para submeter determinados grupos, gerando assim desigualdades financeiras, legais, sociais, etc. Pois bem, o pilar de sustentação das desigualdades no sistema capitalista é a formação de uma sociedade dividida em classes. Ou seja, poucos têm muito e muitos têm pouco! O grau desta desigualdade é tão grande que o relatório da ONG britânica Oxfam, divulgou no inicio de 2014 que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio de US$ 1,7 trilhão, o que equivale ao patrimônio de 3,5 bilhões de pessoas, as mais pobres do mundo. E os ricos não têm a mínima pretensão de dividir seu patrimônio, afinal este mesmo relatório afirma que nos últimos 25 anos, a riqueza ficou cada vez mais concentrada nas mãos de poucos.

Sem dúvida nenhuma, esse fato é gerador de conflito social. Já imaginaram se os 3,5 bilhões de pessoas mais pobres resolvessem forçar as 85 pessoas mais ricas a dividir de forma igualitária o seu valiosíssimo patrimônio? Não parece difícil, mas é. Isto porque a classe dominante tem todo um sistema (modus operandi) que a protege melhor do que qualquer fortaleza. Destaco aqui três pontos-chave deste sistema: o Estado, as forças armadas e mecanismos de divisão da classe trabalhadora, como as mais diversas formas de opressão.

Mas como funciona o sistema?

Eu trabalho no tratamento de pessoas dependentes de álcool e outras drogas. Em sua maioria são pobres, desempregados e negros (as mulheres são minoria, pois o machismo dificulta a aproximação delas ao serviço). Bom, estou contando isso porque tem dia que eu chego no meu trabalho e digo para os pacientes: “O problema do mundo é o sistema!”.  Eles estranham e questionam: “Que sistema?”. Eu digo: “Ah, vocês sabem do que eu tô falando… O sistema, oras”. E então, começamos a montar nosso quebra-cabeça.

Eu começo: Por que o mundo tem tantos problemas; por que a vida está tão difícil?

O grupo responde: Por causa dos bandidos! Esses direitos humanos ficam defendendo os bandidos, e quem é trabalhador, não tem direito a nada.

Então eu pergunto: Por que bandido é bandido?

Um integrante do grupo responde: Porque é tudo vagabundo! Eles não querem trabalhar!

Eu questiono: O que aconteceria se todos os bandidos do mundo resolvessem trabalhar?

Alguém diz: Ah, ia ser difícil! Não tem emprego pra todo mundo! Eu mesmo estou desempregado há um tempão. E pra ter emprego bom mesmo, tem que ter estudo; e eu te digo mais, não é qualquer estudo não, tem que ser estudo bom, tipo coisa de rico.

O outro fala: A gente faz mais é bico, sabe? Um servicinho aqui, outro ali. Não tem direito a nada; isto só com carteira assinada. Aí é difícil!

Então começamos a montar nosso sistema:

Dentro desta primeira parte da construção do sistema, podemos analisar que na discussão do grupo, aparece a culpabilização individual pelos problemas sociais. Para alguns integrantes do grupo o foco do problema é a pessoa que mora ao lado, alguém que muitas vezes é tão pobre quanto eles, que enfrenta as mesmas dificuldades devido a sua classe e sua cor para conseguir um emprego. Para quem tem alguma dúvida de que o machismo e o racismo influenciam na hora de conseguir um emprego, dados do IBGE, divulgados em setembro de 2012, apontam 59% das pessoas desocupadas em 2011 eram mulheres e 57,6% eram pessoas negras. Então, não temos apenas “trabalhares” e “bandidos”, existe uma grande parcela que está desempregada, a qual empurra muitas pessoas para o subemprego ou para a criminalidade.

E aí entra o papel da mídia. Os programas de televisão (principalmente os jornais sensacionalistas) buscam reforçar preconceitos e demonstrar que o problema do mundo está no defeito de caráter de algumas pessoas. “Por acaso”, estas, em sua maioria, moram na periferia. A partir de todo tipo de apelo, a população, inclusive as pessoas de baixa renda, apoia intervenções nefastas da polícia nas comunidades pobres, e assim, em pleno 2014, vivenciamos um verdadeiro genocídio da juventude negra neste país.

Este é um exemplo de como a classe dominante faz para dividir a classe trabalhadora. Coloca pobres contra pobres, em nome de um “bem comum”. Não demonstram o contexto que leva meninos e meninas da periferia para o mundo do crime. Não mostram que o verdadeiro crime está na falta de oportunidades, as quais deveriam ser oferecidas por pessoas que, realmente sem qualquer caráter, roubam de forma sistemática toda a população, ou seja, as pessoas da classe política e do empresariado. Então, raríssimas vezes somos chamadxs a ver como o capitalismo desumaniza os seres humanos, os quais possuem uma vida que não vale nada. Um sistema perverso produz perversidade. E assim, nasce x bandidx:

Bom, vamos continuar que o sistema não pode parar…

Voltando para o grupo do meu trabalho, eu faço a seguinte colocação para os meus pacientes: Se o problema são os bandidos, tá tudo certo, pois temos a polícia, cada vez mais forte, mais armada… leis mais duras…

Então, alguém do grupo me interrompe com ar de revolta, e diz: Até parece, polícia é pior que bandido. Tudo corrupto. Só porque tem uma arma na mão, acha que pode fazer o que quer. Eu já cansei de ser parado por policial; e eu uso droga, mas não sou do crime!

Outro participante do grupo complementa: “Você falou que as leis estão mais duras, né?! Que leis? As leis são mais duras só para o pobre. O cara que é rico, paga um bom advogado e sai rapidinho da cadeia. Pra eles não tem lei não.

Então eu sigo com a seguinte conclusão: Se vocês estão me dizendo que polícia só elimina bandido pobre (e pelo visto os que não são bandidos também) e que a lei só serve para prender o povo da periferia, quer dizer que a polícia e as leis servem para manter os ricos no domínio e conter os pobres.

Então conseguimos avançar ainda mais no nosso esquema:

As forças armadas são um dos mais importantes instrumentos da classe dominante para se manter no poder. Fica claro que esta não serve para a proteção da população, mas sim para conter uma grande maioria de explorados. Nas mãos das forças armadas está a permissão para matar, prender e até mesmo reprimir movimentos sociais.

No entanto, quem são os policiais? São trabalhadores e trabalhadoras, em sua grande maioria faziam ou ainda fazem parte da periferia. Afinal de contas, a burguesia não vai colocar seus filhos para encarar um trabalho tão perigoso. E aí mais uma vez se coloca trabalhadorxs contra trabalhadorxs. Colocam as pessoas da classe trabalhadora umas contra as outras para fazer o controle sobre sua própria classe.

Mas quem faz isso? Quem manda na polícia? Quem autoriza as chacinas? Quem autoriza as invasões na periferia? Quem permite os abusos da polícia?

Agora sim, estamos nos aproximando de um dos mais importantes instrumentos de poder da classe dominante… Estamos nos aproximando do Estado. Instituição esta que tem o poder político, a qual vai definir quem será o beneficiado e quem será o prejudicado.

Não precisamos repetir nosso esquema, esta imagem já esclarece muita coisa:

Poxa vida, mas não dá para beneficiar as duas classes? Por que este dualismo?

É simples, porque para beneficiar a classe trabalhadora é necessária a divisão de renda, é preciso que a riqueza produzida seja compartilhada entre todas as pessoas, principalmente entre aquelas que a produz, ou seja, entre pessoas da classe trabalhadora. Mas a classe dominante não quer. Afinal, para esta se manter no poder, para continuar mantendo sua própria existência, necessita acumular cada vez mais riqueza. O seu poder é maior, quanto maior for seu distanciamento da classe trabalhadora, quanto mais a classe dominante acumula e quanto menos riquezas tiver a população em geral.

Mas quem é esta classe dominante? Meus pacientes dizem com frequência: as pessoas ricas também trabalham, se estão em um lugar de destaque é porque merecem…

Pois é, mas esta posição de destaque não tem a ver com merecimento, mas sim com diferenças de oportunidades. E quem tem mais oportunidades? Quem possui os meios de produção, é claro. Estas pessoas não produzem diretamente nada, seu trabalho é explorar a mão de obra de quem não é proprietário dos meios de produção. Ou seja, esta divisão de classes não está baseada em capacidades individuais, até mesmo porque boa parte da população não tem como explorar e desenvolver suas próprias capacidades e potencialidades, mas sim em quem tem e quem não tem propriedade dos meios de produção.

Aí meus pacientes dizem: Ah, mas precisamos dos empresários, sem eles não temos empregos.

Então questiono: Se os empresários são tão necessários, por que nem todas as pessoas têm emprego?

Alguém responde: Por conta da tecnologia, não se necessita mais de tantos trabalhadores para produzir algo.

Então faço a seguinte provocação: Se os empresários existem para gerar empregos, por que eles não aproveitam a existência de tamanha tecnologia para diminuir a carga horário de trabalho das pessoas? Assim outros poderiam ser contratados e todos teriam a possibilidade de ter bens materiais e de ter tempo para se desenvolver em outras áreas da vida.

Aí, alguém diz: Ah, mas patrão nenhum vai fazer isso! Eles querem mais que a gente faça hora extra e ainda paga uma mixaria. A tendência é sempre demitir e não contratar mais!

Então, concluímos nosso sistema:

Como é possível observar, poucos estão na parte superior do sistema. A grande maioria está na parte inferior, sem ter como ascender, salvo raríssimas exceções. A maior parte da população tem como perspectiva a falta de oportunidades, a desapropriação dos bens que ela própria produz, a violência, o encarceramento, a morte precoce.

E este sistema só se mantém funcionando enquanto houver competição entre os próprios integrantes da classe trabalhadora. Dessa forma, as opressões (machismo, racismo, homofobia, transfobia, etc) são mecanismos de divisão da própria classe, ao canalizar o ódio gerado pelo sofrimento que vivencia para certos setores da população que já são marginalizados. Assim se mascarara qual é o verdadeiro grupo social gerador do sofrimento.

Sempre digo para meus pacientes que ao oprimir uma mulher, por exemplo, eles estão servindo para a manutenção desse sistema perverso, que eles mesmos são desfavorecidos. Quando oprimem uma mulher, quando sustentam a lógica de que elas são inferiores, estão contribuindo para que os empresários se sintam no direito de contratá-las por salários mais baixos e assim nivelar por baixo os salários de toda classe trabalhadora. Quando eles oprimem uma mulher, eles estão deixando que os Estado não se responsabilize por parte importante da produção social, que é o trabalho doméstico. Quando eles oprimem uma mulher, estão fortalecendo a divisão entre a própria classe trabalhadora, ou seja, estão fortalecendo a classe que os domina. A breve sensação de poder que se tem ao oprimir é ilusória, como se diz, é dar um tiro no próprio pé.

Por tanto, é preciso ter foco. É necessário visualizar que o grande culpado por toda exploração e opressão é o sistema. As pessoas que oprimem devem ser penalizadas e, se possível, educadas, pois elas fortalecem o status-quo. Mas não vamos desviar o foco, não é eliminando essas pessoas, que vamos solucionar os problemas de uma sociedade fundada em uma estrutura perversa. É preciso ter em mente, que a culpa é do Sistema!

A SOCIEDADE TOLERA A INFIDELIDADE DOS HOMENS, MAS SÃO AS MULHERES QUE SEMPRE PAGAM O PATO

Por Carolina Vitoria

Saiu uma matéria na rede (Leia aki) sobre o STJ (Superior Tribunal da Justiça) que negou o reconhecimento de união estável a uma mulher por falta de fidelidade por parte do parceiro. Os ministros da 3ª turma do STJ por unanimidade entenderam que mesmo atendendo os requisitos legais da união estável, a falta de lealdade e fidelidade entre parceiro desconfigura este direito.

Sinto-me pessoalmente muito tocada por esta matéria, já que o mesmo aconteceu em minha família, meus pais nunca se casaram legalmente, mas conviveram por mais de vinte anos até meu pai falecer. Meu pai anos após se desquitar da primeira esposa, com que teve duas filhas, se relacionou com minha mãe e com ela teve mais três filhos. E assim, com todo o aparato da liberdade e tolerância que a sociedade dá aos homens, meu pai nunca foi fiel, teve outros filhos fora do relacionamento com minha mãe, e nunca foi cuidadoso para esconder suas aventuras. Minha mãe por sua vez, sempre cumpriu a saga da mulher que foi orientada sobre a concepção de suportar as traições do marido, pois a dedicação aos filhos é que deve ser priorizada.

E desta forma, minha mãe se desdobrou em suas triplas jornadas de trabalho para ajudar meu pai a conquistar uma vida digna, e quando ele faleceu seus familiares, que nunca aceitaram a minha mãe pelo fato dela ser negra, interviram no processo de união estável e estrategicamente apresentaram na audiência as várias amantes com quem ele se relacionou. Com isso, a decisão da justiça foi exatamente à mesma da matéria, “não se pode considerar uma relação estável se não existir fidelidade em ambas às partes”, foi um dos termos utilizados na decisão. E para completar a humilhação, as audiências se tornaram um espetáculo à parte já que o juiz, um fanfarrão, se deliciou com a historia e deu um show de piadinhas e deboches machistas como no seguinte comentário, “mas gente, que homem foi esse, comendo tanta mulher assim o que ele conseguia comer a noite?”.

Vivemos numa sociedade que considera a monogamia o pilar da estrutura familiar, porém apenas as mulheres estão condicionadas a obedecer às regras, as puladas de cerca dos homens são tratadas como algo natural que faz parte da genética e não há como lutar ir contra isso. Depois, a responsabilidade da infidelidade vai para as mulheres que segundo a tradição, “são elas que não conseguem segurar os maridos em casa ou na cama”, a justiça até pode assegurar o direito á união estável desde que “nenhum rabo do marido apareça”, e isso nada mais é que o machismo institucionalizado!

Quando minha mãe se queixava das saídas do meu pai, sabe lá pra onde! Ele usava uma expressão que nunca vou me esquecer, “*Fica Na Sua, Que Eu Fico Na Minha*”, quando cresci aprendi o que significado dela, “*fica na sua casa, que eu fico na minha rua, eu sou livre!*”. Inclusive, há pouco tempo vi uma entrevista do Zeca Pagodinho que personificou a fala do meu pai e provavelmente a de outros milhares maridos, “*não gosto de dar satisfação da minha vida, e até minha mulher já sabe, a rua é minha e a casa é dela*”, disse o Zeca. E é desta forma se legaliza o adultério dos homens e se tortura as mulheres que ousam sair do espirito familiar monogâmico.

A ministra Nancy Andrighi e relatora do voto, afirma que “uma sociedade que apresenta como elemento estrutural a monogamia não pode flexibilizar o dever de fidelidade – que integra o conceito de lealdade e respeito mútuo – para inserir no âmbito do direito de família relações afetivas paralelas (sic). A análise dos requisitos para configuração de união estável deve centrar-se na conjunção de fatores presentes em cada hipótese, como a affectio societatis familiar (intenção de constituir família), a participação de esforços, a posse do estado de casado, a continuidade da união, e também a fidelidade”.

Então demagogicamente sobre a justificativa da monogamia, muitas outras mulheres serão lesadas com o aval da justiça, já que não há nenhuma lei ou cultura que impeça os homens de trair.