PARA UM PROGRAMA FEMINISTA CLASSISTA

Por Mariana Luppi

Esse texto corresponde a uma fala que eu fiz no seminário de construção de programa da candidata Isa Penna, do PSOL. Como apontado nessa oportunidade, nosso coletivo não apoia nenhuma candidatura em específico, as aproveitará o período eleitoral para discutir com aquelas que se propuserem a apontar uma perspectiva classista e revolucionária.

Pertenço ao coletivo Feminismo sem Demagogia, que é um coletivo feminista classista. Então primeiramente é importante explicar o que significa para nós, do ponto de vista do programa, defender uma perspectiva de classe sobre o feminismo. É comum nos discursos da esquerda a opressão à mulher, bem como outras opressões, serem tratadas como aspectos “acessórios”, secundarizados; então é importante destacar que o patriarcado e o machismo, como sua expressão ideológica, são aspectos estruturais, essenciais para a manutenção do modo de produção atual, de forma que o capitalismo não teria se desenvolvido sem a opressão à mulher.

O TRABALHO NÃO REMUNERADO DA MULHER

Em primeiro lugar, o trabalho doméstico é necessário para a produção social, mesmo deixemos em aberto o status econômico específico desse trabalho, algumas coisas são certas: é um trabalho essencial, é um trabalho compulsório não pago (escravo, por que não?) e é feito em geral pelas mulheres. Nesse sentido, mesmo os diversos avanços tecnológicos nunca serão capazes de desonerar as mulheres desse trabalho, e por isso a esquerda deve colocar em pauta a socialização do trabalho, defendendo restaurantes, creches e lavanderias públicas e, além disso, defendendo a obrigatoriedade desses mesmos restaurantes, creches e lavanderias nos locais de trabalho, onerando o patrão. Nesse sentido, é interessante lembrar que alguns direitos sociais conquistados, como o vale- alimentação, mantêm a necessidade do trabalho da mulher, para cozinhar nesse caso. Apenas para ilustrar a importância do trabalho feminino não pago, em 2009 as mulheres gastavam em média 22h por semana com os trabalhos da reprodução social, contra 9h e meia dos homens. Juntando o trabalho dentro e fora de casa, as mulheres em média trabalhavam 5h a mais do que os homens.

O TRABALHO REMUNERADO DA MULHER

Em segundo lugar, é importante ressaltar que quando trabalha fora, a mulher tende a receber salários menores e a estar nos trabalhos mais precarizados e mal pagos- apenas para citar um dado, em 2012 os homens recebiam em média 2118 reais, enquanto as mulheres recebiam 1447 reais (68% do salário masculino), – sabemos que além de ser terrível para a mulher, isso significa a manutenção dos salários de toda a classe trabalhadora mais baixos. É fundamental, assim, a criação de mecanismos para garantir a equiparação salarial e a igualdade de direitos entre homens e mulheres em seus empregos.
Talvez falar em classe trabalhadora na discussão feminista pareça “economicista”, por isso é importante esclarecer: não temos uma visão “dura” de classe trabalhadora, estamos nos referindo à totalidade da classe que sobrevive do próprio trabalho. Além disso, não estamos nem de longe afirmando que as únicas ou piores consequências do patriarcado para a mulher são as relativas a elementos econômicos, estamos apenas afirmando que esses são os fundamentos pelos quais o machismo e o patriarcado não podem ser superados sem a superação do próprio capitalismo, pois ambos são interdependentes.

VIOLÊNCIAS CONTRA A MULHER
Claro que se a participação da mulher como sujeito na produção social é constantemente desvalorizada, seja por ter salários mais baixos seja por fazer trabalhos não-remunerados, parece normal, natural, a mulher ser considerada um ser humano de segunda categoria, o que justifica ideologicamente todos os tipos de violência contra a mulher. Um programa de esquerda tem que se debruçar também nas formar de prevenção e combate a essa violência. Vou citar algumas formas de fazer isso, mas há certamente muitas outras propostas que podem ser formuladas para cada um dos problemas que eu vou tratar:

- É necessário garantir a aplicação da lei Maria da Penha, e garantir principalmente que todas as mulheres que passaram por situações de violência sejama acolhidas. Sabemos que a violência é algo que enfraquece as mulheres, as traumatiza e as afasta dos espaço de socialização e da política – não podemos aceitar que nenhuma mulher passe por esse tipo de situação sem acolhimento e garantia de segurança para si e para seus filhos

- Na educação, é importante combater os elementos machistas e sexistas, procurando dar conta da realidade das mulheres. Além disso, é importante uma educação sexual não moralista nem biologista, mas que considere as jovens como portadoras de desejo próprio e o prazer como necessário ao desenvolvimento humano.

- Em relação à saúde, é importante a existência de unidades voltadas para a saúde da mulher em seus diversos aspectos, com destaque para a maternidade (de forma a haver mais hospitais-maternidade), a situação das mulheres lésbicas (sobre cuja saúde paira muita ignorância) e das mulheres trans*. Além de, é claro, os programas voltados à prevenção em geral e à saúde da família (afinal também é a mulher que em geral leva crianças ao médico).

- Aliás, é importante em geral que as militantes feministas apoiem as pautas de mulheres em situação de dupla opressão, como as mulheres negras, lésbicas e trans*. Nesse sentido, a luta contra o racismo e o genocídio da população negra, a luta contra a lesbofobia e a invisibilidade lésbica, bem como contra a transfobia e pelo reconhecimento das identidades trans* (como coloca a PL João Nery, por exemplo) são fundamentais.

- E apenas para fazer outras pontuações : o direito ao aborto, a necessidade de campanhas institucionais contra a violência e o combate a iniciativas que culpabilizem as vítimas, como aquela do vagão rosa, são também elementos prógramaticos essenciais.

PROSTITUIÇÃO

Agora, vou destacar mais um ponto, para o qual a esquerda dá também pouca atenção, que é a situação das mulheres prostituídas. Como estamos debatendo com companheiros do PSOL nesse espaço, vou começar dizendo que temos sérioas discordâncias com a lei Gabriela Leite e que consideramos alguns de seus pontos retrocessos.
Antes de se aprofundar nesse ponto, no entanto, é importante que compreendamos a prostituição como o outro lado da moeda da família nuclear monogâmica que é a unidade básica de organização social há milênios. Se a esposa está em sitação de constante opressão e exploração de seu trabalho dentro da família, submetida à maternidade compulsória e ao trabalho doméstico compulsório, a mulher prostituída é aquela que, à margem da família, tem seu corpo explorado, em geral para enriquecer uma terceira pessoa. Apesar de todos os discursos sobre a liberdade sexual, não podemos hoje considerar que a prostituição seja produto da livre vontade de uma mulher: em geral é a falta de trabalho, ou de trabalho que garanta sua sobrevivência, que leva as mulheres a essa situação – nesse sentido consideramos incorreto pensar nas mulheres em situação de prostituição seja como “profissionais do sexo”, seja como lumpenproletariado: para nós elas em geral pertencem ao número de trabalhadoras desempregadas, ao exército industrial de reserva, por isso organizá-las em conjunto com o resto da classe, garantir que elas desenvolvam consciência de classe é fundamental. A prostituição não acabará, também, enquanto houver desemprego e patriarcado, enquanto houver capitalismo.
Apesar disso, devemos ter um programa de demandas democráticas para dar maior escolha a essas mulheres e melhores condições (até para elas começar a pensar políticamente suas situações). O feminismo, nesse sentido, se divide normalmente em posições abolicionistas e regulamentacionistas sobre o assunto. Embora nós tenhamos construído até pouco tempo atrás um comitê abolicionista, consideramos que muitas medidas defendidas pelo abolicionismo tendem a piorar imediatamente a vida das mulheres – como a criminalização do cliente – e tendem a ser elementos que não podemos discutir diretamente com essas mulheres (estamos já a uns meses acompanhando um trabalho com mulheres prostituídas na Luz).
Não consideramos, a princípio, que seja impossível criar um bom projeto de lei para a regulamentação da prostituição, mas esse projeto ainda não foi construído. A Lei Gabriela Leite tem efeitos bastante problemáticos como a descriminalização da cafetinagem e das casas de prostituição e não tem grandes avanços quanto aos direitos sociais dessas mulheres, principalmente as que querem sair da prostituição.
Antes mesmo de pensar em termos de legalizar ou criminalizar qualquer aspecto da prostituição, creio que cabe às feministas pensar projetos para dar opção e apoio às mulheres em situação de prostituição: antes de tudo programas específicos de saúde, mas também cursos profissionalizantes remunerados, casas de acolhimento para que elas tenham onde morar e, é claro, todos os direitos férias e aposentadoria.
Consideramos esses pontos essenciais para que as mulheres em situação de prostituição cada vez mais possam discutir e pensar suas próprias pautas, e se enxergar como parte (constantemente excluída) da classe trabalhadora – pois sem elas, como sem as mulheres trabalhadoras em geral, não avançaremos na nossa luta contra o capital e pela construção de um novo mundo.

DEIXE A ESQUERDA LIVRE DE MACHISMO – Uma luta histórica

Por Denise Laizo

* Este texto faz parte do caderno de teses que está sendo produzido pelo Coletivo Feminismo Sem Demagogia, a partir do evento “Deixe a Esquerda Livre de Machismo, que aconteceu dia 26 de julho de 2014.

A existência de machismo nas organizações da esquerda é um fato dado. A questão colocada é poder compreender o porquê as palavras machismoesquerda, quando juntas, expressam uma grande contradição. Só assim poderemos fazer uma batalha contra essa praga e construir organizações coerentes com seu programa.

Primeiramente, é preciso evidenciar que estamos chamando de esquerda os grupos políticos que estão do lado das pessoas que sofrem exploração e opressões, sejam de classe, raça, gênero, identidade e orientação sexual etc. e, portanto, buscam uma transformação radical dessa sociedade. A palavra radical aqui não é usada por acaso, mas para falar daquilo que está na raiz do problema dessa sociedade, ou seja, da sua estrutura baseada na propriedade privada de produção e na sua divisão em classes.

Tendo em vista essa definição, fica evidente a contradição em se falar de uma esquerda machista. Porém, o machismo na esquerda não vem de hoje, este já possui uma história. Sim, infelizmente já podemos falar de história do machismo na esquerda! Mas essa mesma história nos conta o quanto as mulheres enfrentaram o machismo, se fizeram presentes e se tornaram um setor fundamental dentro da esquerda. Olhando por este ângulo, vamos contar a história de como as mulheres enfrentaram séculos de “mudez política” e se tornaram pessoas ativas no processo de transformação do mundo.

É óbvio que o machismo na esquerda reflete um contexto e uma época, mas também fica evidente que os avanços conquistados pela esquerda ocorrem em paralelo com os avanços que as mulheres obtiveram dentro do mundo da política e, mais especificamente, dentro da esquerda. O ponto de partida dessa história é a entrada e o aumento das mulheres no mercado de trabalho, ou seja, quando a outra metade da população passa a fazer parte da produção social. Sem esse setor da população, por seu número e sua representação, não é possível realizar uma revolução. Porém, isso só foi percebido com grande esforço.

Retrato do primeiro congresso da I Internacional, em 1864

A primeira grande dificuldade que as mulheres enfrentaram foi conseguir entrar nos espaços de militância. A I Internacional, fundada por Marx e Engels, em 1864, teve como uma de suas principais polêmicas o tema da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Marx, em 1866, coloca-se a favor das mulheres na seguinte resolução:

“Se seus efeitos imediatos (do trabalho) são terríveis e repugnantes, nem por isso ele deixa de contribuir, ao dar às mulheres, jovens e crianças de ambos os sexos uma participação importante no processo de produção fora do meio doméstico, na criação de novas bases econômicas, necessárias para uma forma mais elevada de família de relação entre os dois sexos.”

No entanto, muitos homens, militantes socialistas, entendiam que nem o trabalho fora de casa e nem a militância política eram lugares para as mulheres. Acreditavam que o fato de a mulher ocupar o mercado de trabalho era mais uma distorção do capitalismo, afinal consideravam que o seu lugar natural era o lar. Assim, dirigentes da I Internacional chegaram a afirmar:

“Em nome da liberdade de consciência, em nome da iniciativa individual, em nome da liberdade da mãe, devemos arrancar da fábrica, que a desmoraliza e a mata, essa mulher que sonhamos livre… a mulher tem por objetivo essencial o de ser mãe de família, ela deve permanecer no lar, o trabalho deve ser-lhe proibido.”

Este pensamento era muito parecido com o de Proudhon, um dos principais teóricos do anarquismo. Para Proudhon “lugar de mulher é no lar”, afinal ela deveria se restringir as suas funções, ou seja, procriar e cuidar da casa, e não ficar roubando o trabalho do homem.

“Ele chegou a propor que o marido tivesse direito de vida e de morte sobre sua mulher, em caso de desobediência ou falta de caráter, e demonstrava, mediante uma relação aritmética, a inferioridade do cérebro feminino em relação ao masculino.” (Toledo, Cecília)

Já o SPD (Partido Social-Democrata Alemão), fundado em 1875, principal partido socialista do período da I Internacional, demorou dezesseis anos para inserir em seu programa a necessidade da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. August Bebel foi um importante dirigente do período, e, desde o primeiro congresso do partido, lutou para que a igualdade de direitos para as mulheres fizesse parte do programa do SPD. Porém, Lasalle e seus seguidores se opunham ferrenhamente ao grupo de Bebel, afirmando que, com o estabelecimento do socialismo, seria possível proporcionar bons salários para os homens, os quais poderiam assumir o papel de provedor e sustentar toda família. Dessa forma, o papel da revolução para as mulheres seria o de lhes proporcionar o retorno ao seu habitat natural, ou seja, ao lar. Bebel foi derrotado neste debate com o argumento de que as mulheres não estavam preparadas para assumir os seus direitos.

Durante este primeiro período, podemos encontrar o erro mais medíocre que um revolucionário pode cometer. A explicação é simples! No capitalismo, um pequeno setor da população, os donos dos meios de produção, explora os trabalhadores, os quais trocam sua força de trabalho por dinheiro. O produto contém o valor de custo, que inclui o salário do trabalhador, já o valor restante após a venda do produto é aquilo que o capitalista vai embolsar como lucro. Dado que o valor dos meios de produção, ou seja, os materiais, as máquinas, a manutenção do espaço etc. é um capital constante, o que se pode mexer para conseguir mais ou menos lucro é o capital variável, isto é, o salário do trabalhador. Quanto mais baixos forem os salários pagos aos trabalhadores, mais lucro (trabalho não pago) o capitalista terá.

Pois bem, entendendo-se a lógica de funcionamento do capitalismo, é de se esperar que manter salários baixos é a busca desesperada de qualquer capitalista. Assim, a opressão, como o machismo, serve de mecanismo para levar os salários para baixo. As mulheres, as pessoas negras, os homossexuais, as pessoas trans* e travestis etc. compõe um imenso exército de reserva, que podem ser contratados a qualquer momento por salários mais baixos, por serem considerados mão de obra inferior. Claro que essa mão de obra não é inferior, mas sustenta-se ideologicamente que determinadas diferenças entre as pessoas devem ser vistas como inferioridade para que se possa colocar em desvantagem certa parte da população. No entanto, os setores oprimidos, quando utilizados pela burguesia, quando contratados por salários menores, nivelam por baixo o salário de toda a classe trabalhadora. Assim, o problema não são as mulheres, ou qualquer outro setor oprimido, mas a utilização da opressão enquanto mecanismo para aumentar a exploração. Por isso, o homem da classe trabalhadora, o homem militante da esquerda, quando sustenta o machismo, apenas contribui para fortalecer a sua própria exploração e o sistema capitalista.

Clara Zetkin discursa para a classe trabalhadora na década de 1930

Dando continuidade ao processo histórico, os anos se passaram e, após mais de uma década, a polêmica em relação às mulheres passou a ter como centro a questão sufragista. Os reformistas defendiam que apenas os homens deveriam ter direito ao voto, pois acreditavam que as mulheres tenderiam a votar em setores conservadores, como os ligados à Igreja Católica. Porém, nesse período já existiam mais mulheres de destaque dentro de organizações da esquerda, como Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo.

Clara Zetkin foi fundamental para a aprovação de uma campanha pelo sufrágio feminino, na II Internacional. Esta mesma militante também obteve êxito ao propor ao SPD, em 1896, a formação de organizações especiais de mulheres. Lembrando que, cinco anos antes, o mesmo partido havia finalmente aprovado o programa que exigia a igualdade de direitos para as mulheres e a abolição de todas as leis discriminatórias, ou seja, a mesma proposta que Bebel havia apresentado muitos anos antes. No entanto, esse período não foi nada fácil para as mulheres militarem, afinal, além de toda opressão dentro e fora dos espaços de militância, até 1908 as mulheres eram proibidas de se filiarem a grupos políticos.

Nessa passagem de um período para outro, podemos perceber como a maior participação de mulheres na militância que batalhavam por suas demandas e o avanço das concepções da esquerda caminharam juntos. É nesse momento que a esquerda divide-se entre reformistas e revolucionários. Os primeiros contentavam-se com reformas no sistema, o que, para eles, naturalmente levaria ao socialismo. Para tanto, não se preocupam em inserir as mulheres nesse processo, mas apenas em como atingir a superestrutura. Já os revolucionários marxistas entendiam que a opressão das mulheres era estruturante para o sistema capitalista e, portanto, as demandas das mulheres por igualdade era crucial para combater tal sistema. Além disso, apostavam em uma revolução realizada pelas massas, ou seja, pela classe trabalhadora e oprimida e boa parcela desse setor não poderia simplesmente ficar de fora.

Isso se evidenciou com o advento da Revolução Russa. A participação das mulheres nesse processo foi fundamental, afinal muitos homens estavam nas trincheiras da I Guerra Mundial, e para as mulheres da Rússia sobrou o fardo de sustentar o processo de exploração de seu país. Assim, a Revolução de Fevereiro, que abriu as portas para a derradeira Revolução de Outubro, partiu de uma manifestação de mulheres em Petrogrado. Essas mulheres reivindicavam a saída da Rússia da guerra e criticavam a situação de miséria que viviam. Nesse período, era tão evidente a importância da participação das mulheres que as organizações da esquerda as disputavam acirradamente. Inclusive cada uma dessas organizações tinham jornais especiais para esse público.

Após a revolução, a luta das mulheres se reverteu em conquistas. Assim, adquiriram direitos e benefícios de políticas públicas de uma só vez, como nunca ocorreu na história, nem antes e nem depois da revolução. Como direitos conquistaram:

Abolição das leis que colocavam a mulher em uma relação de desigualdade no casamento, como as leis sobre divórcio, os filhos e pensão alimentícia;
Abolição dos privilégios do homem em relação à propriedade;
Equiparação salarial, proteção legal no trabalho e seguro social;
Legalização do aborto, o qual deveria ser feito pelos hospitais públicos de forma gratuita;
O direito ao voto e de serem votadas.
Além disso, o governo soviético se preocupava com a liberação da mulher do trabalho doméstico. Na concepção de Lenin, o verdadeiro comunismo estava atrelado à verdadeira emancipação da mulher:

“A verdadeira emancipação da mulher, o verdadeiro comunismo, só começará onde e quando comece a luta das massas contra a pequena economia doméstica, ou melhor, onde comece a transformação em massa dessa pequena economia em grande economia socialista.”

Assim, nesse momento criaram-se refeitórios, creches e lavanderias públicas. Porém, não foi possível que essa nova vida da mulher se estabelecesse por completo. A dificuldade econômica e a guerra civil não permitiram que se criassem a quantidade de serviços públicos que eram necessários. Além disso, tratava-se de um país extremamente atrasado em relação aos aspectos morais e culturais, sendo muito difícil quebrar as resistências do preconceito.

Essas arcaicas ideias só poderiam mudar com a implementação de novas práticas, mas sua concretização não foi possível, pois o stalinismo enterrou as recentes conquistas das mulheres. O governo stalinista passa a fazer uma extensa propaganda a favor da família nos moldes burgueses. Assim, estimula-se que a mulher volte a assumir seu papel de mãe e dona do lar. Isso não se dá simplesmente por questões ideológicas, mas de fundo tem uma base material. Primeiramente, deve-se considerar que a situação econômica da União Soviética era bastante precária, e, como nos ensina Trotsky, “a verdadeira emancipação da mulher é impossível no campo da ‘miséria socializada’”.

Então, para não ficar tão evidente essa miséria, para não gerar descontentamentos ao usar os serviços públicos que se tornaram de péssima qualidade (como nas lavanderias públicas que as roupas saiam rasgadas ou eram roubadas), para não sentir falta de serviços que antes existiam (creches foram fechadas ou tiveram seu horário reduzido), as tarefas de subsistência e cuidados com as crianças voltaram a ser função das mulheres, e, assim, o Estado se viu livre desses compromissos. O que se passou aqui é o mesmo que acontece no capitalismo, para se manter privilégios de uma pequena parte da sociedade é necessário explorar ao máximo a outra parte. O trabalho doméstico realizado pela mulher tira do Estado a responsabilidade por esses serviços e, no caso da União Soviética, a burocracia se beneficiava enormemente dessa situação.

Dentro dessa mesma lógica, o aborto foi colocado na ilegalidade novamente. Faz parte do discurso em prol da família burguesa a supervalorização da ideia de que ser mãe não é um direito, mas um dever. Trotsky nos conta que Solz, membro do Supremo Tribunal Soviético, “justifica a proibição do aborto dizendo que a sociedade socialista não conhecendo o desemprego, ela, a mulher, não pode ter o direito de rejeitar ‘as alegrias da maternidade’”. E, então, Trotsky rebate dizendo que “eles esquecem visivelmente que o socialismo deveria eliminar as causas que levam a mulher ao aborto e não fazer intervir a polícia na sua vida íntima para lhe impor as ‘alegrias de ser mãe’”. De qualquer forma, o que vemos aí é, novamente, a desresponsabilização do Estado pela saúde física e mental da mulher, já que, ao tornar o aborto ilegal, o Estado não necessita mais garantir o procedimento em seus hospitais. Retomam-se as velhas ideias moralistas e abandonam-se as mulheres à própria sorte, em nome dos privilégios da burocracia.

Outro ataque importante às conquistas das mulheres foi tornar o divórcio cada vez mais difícil. O divórcio passou a se dar apenas mediante pagamento. Assim, podemos imaginar que, como qualquer sociedade fundada no ideário patriarcal, as mulheres por ganhar menos do que os homens, quando ganhavam, tinham menos possibilidades em escolher se divorciar. De qualquer forma, divorciar passa novamente a ser um privilégio de quem tem mais dinheiro. Dessa forma, impondo limites objetivos, impulsiona-se o retorno da economia familiar, enquanto se elimina a possibilidade da coletivização da educação, dos cuidados em saúde e do trabalho doméstico.

Tal retomada dos antigos valores foi tão brutal que outros imensos retrocessos foram impostos, como a volta da criminalização da prostituição e da homossexualidade. No entanto, sabe-se que, no caso da prostituição, esta cresce na mesma proporção que a pobreza e o abandono das mulheres. Novamente as mulheres são criminalizadas por sua própria marginalização.

Tudo isso traz muitos ensinamentos para as organizações da esquerda. Como o próprio Trotsky disse, “onde há privilegiados, há párias”. Isso é uma regra não apenas para o capitalismo, não apenas para o stalinismo, mas para qualquer espaço em que se mantenham os privilégios. Por isso, as organizações da esquerda não podem sustentar dentro de sua militância os privilégios dos grupos que já são privilegiados em nossa sociedade e/ou criar novos tipos de privilegiados.

Isso traz inevitavelmente distorções como pudemos observar com os conservadores da época de Marx, com os reformistas do período do sufragismo, ou com o stalinismo. A esquerda que reivindica para si a estratégia revolucionária não pode se parecer com nenhum dos tipos anteriores. A história já nos ensinou que qualquer alternativa anterior nos leva a caminhos bem diferentes de uma sociedade realmente igualitária. Privilégios sempre dividem!

Portanto, não desdenhemos as mulheres como os conservadores fizeram, não nos utilizemos do machismo para adquirir supostas vantagens para a luta como propunham os reformistas, não digamos que a batalha contra o machismo é coisa para realizar apenas quando as condições materiais forem totalmente favoráveis, como fizeram os stalinistas. É verdade que somos produtos do nosso contexto atual. No entanto, nos propomos a não sermos reprodutores deste atual contexto, mas sim transformá-lo completamente. Para tal, devemos começar sendo coerentes e, mesmo que seja difícil, ter atitudes condizentes com as transformações que pretendemos fazer.

Se for verdade que a sociedade futura contém elementos da sociedade passada, pelo menos os materialistas-dialéticos devem concordar que a sociedade atual já possui elementos da sociedade futura. E, no presente, o espaço que tem por obrigação e necessidade de produzir e reproduzir os novos elementos da sociedade futura é, sem dúvida nenhuma, a esquerda.

A Culpa é do Sistema!

Por Denise Laizo
É isto mesmo! A culpa pela pobreza, opressão (machismo, racismo, homofobia, transfobia…), exploração e até mesmo por muitos dos problemas físicos e mentais que adquirimos ao longo da vida, é do sistema capitalista. Sei muito bem que esta afirmação é causadora de muita irritabilidade e, portanto, acabo de provocar um clima de inimizade com boa parte das pessoas que estão lendo, que já devem estar elaborando contra-argumentos raivosos. Mas tudo bem, a intenção é provocar a reflexão e a discussão.

De forma geral, o desacordo é motivado, porque a maioria das pessoas compreende que ao culpar o sistema capitalista, estou tirando a responsabilidade dos maldosos seres humanos, que precisamos suportar na face da terra. A sensação é a de que estou mudando o foco, tirando-o do indivíduo vilão e colocando em algo externo, no mundo, algo que é tão abstrato que é impossível apenas pegar e jogar na cadeia e/ou eliminar.

De fato estou mudando o foco da individualização da culpa para a sua coletivização, afinal de contas este sistema não é algo natural, mas sim uma construção social, humana. Assim, quando digo “a culpa é do sistema”, não tiro a responsabilidade individual, mas a partilho com um coletivo, distribuindo a parcela de culpa que cada parte merece por produzir e reproduzir este sistema.

Não estou afirmando, por exemplo, que um estuprador não deve ser penalizado. Um estuprador merece ser preso e o mais rápido possível. Porém, as pessoas que se levantam apenas contra o estuprador, mas não lutam contra o sistema capitalista, por mais contraditório que pareça, não estão atingindo o status-quo. Isto porque o inimigo é encarnado em indivíduos, contribuindo para que a luta ocorra entre pessoas; o problema passa a ser os defeitos dos outros e não todo um sistema que ao passo que pune um estuprador, faz brotar mais 100 em diversos pontos do planeta.

Ao mesmo tempo, o inverso também é verdadeiro, ou seja, as pessoas que apenas lutam contra o sistema e não combatem as opressões cotidianas, na realidade não são consequentes com sua luta. Afinal estas mantém o cerne do sistema, que é categorizar grupos de indivíduos e dividi-los entre os que têm mais valor e menos valor. O primeiro grupo domina o segundo e o sistema de opressão e exploração permanece o mesmo. Infelizmente este é o grande mal que assola a esquerda.

Mas por que o sistema é o grande vilão da história?  Porque o sistema capitalista – como qualquer sistema baseado na propriedade privada de produção – é gerador de desigualdades. Quero deixar claro que quando falo de desigualdades não estou falando de diferenças. As diferenças entre as pessoas é algo mais natural e saudável no mundo. O problema é se utilizar das diferenças para submeter determinados grupos, gerando assim desigualdades financeiras, legais, sociais, etc. Pois bem, o pilar de sustentação das desigualdades no sistema capitalista é a formação de uma sociedade dividida em classes. Ou seja, poucos têm muito e muitos têm pouco! O grau desta desigualdade é tão grande que o relatório da ONG britânica Oxfam, divulgou no inicio de 2014 que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio de US$ 1,7 trilhão, o que equivale ao patrimônio de 3,5 bilhões de pessoas, as mais pobres do mundo. E os ricos não têm a mínima pretensão de dividir seu patrimônio, afinal este mesmo relatório afirma que nos últimos 25 anos, a riqueza ficou cada vez mais concentrada nas mãos de poucos.

Sem dúvida nenhuma, esse fato é gerador de conflito social. Já imaginaram se os 3,5 bilhões de pessoas mais pobres resolvessem forçar as 85 pessoas mais ricas a dividir de forma igualitária o seu valiosíssimo patrimônio? Não parece difícil, mas é. Isto porque a classe dominante tem todo um sistema (modus operandi) que a protege melhor do que qualquer fortaleza. Destaco aqui três pontos-chave deste sistema: o Estado, as forças armadas e mecanismos de divisão da classe trabalhadora, como as mais diversas formas de opressão.

Mas como funciona o sistema?

Eu trabalho no tratamento de pessoas dependentes de álcool e outras drogas. Em sua maioria são pobres, desempregados e negros (as mulheres são minoria, pois o machismo dificulta a aproximação delas ao serviço). Bom, estou contando isso porque tem dia que eu chego no meu trabalho e digo para os pacientes: “O problema do mundo é o sistema!”.  Eles estranham e questionam: “Que sistema?”. Eu digo: “Ah, vocês sabem do que eu tô falando… O sistema, oras”. E então, começamos a montar nosso quebra-cabeça.

Eu começo: Por que o mundo tem tantos problemas; por que a vida está tão difícil?

O grupo responde: Por causa dos bandidos! Esses direitos humanos ficam defendendo os bandidos, e quem é trabalhador, não tem direito a nada.

Então eu pergunto: Por que bandido é bandido?

Um integrante do grupo responde: Porque é tudo vagabundo! Eles não querem trabalhar!

Eu questiono: O que aconteceria se todos os bandidos do mundo resolvessem trabalhar?

Alguém diz: Ah, ia ser difícil! Não tem emprego pra todo mundo! Eu mesmo estou desempregado há um tempão. E pra ter emprego bom mesmo, tem que ter estudo; e eu te digo mais, não é qualquer estudo não, tem que ser estudo bom, tipo coisa de rico.

O outro fala: A gente faz mais é bico, sabe? Um servicinho aqui, outro ali. Não tem direito a nada; isto só com carteira assinada. Aí é difícil!

Então começamos a montar nosso sistema:

Dentro desta primeira parte da construção do sistema, podemos analisar que na discussão do grupo, aparece a culpabilização individual pelos problemas sociais. Para alguns integrantes do grupo o foco do problema é a pessoa que mora ao lado, alguém que muitas vezes é tão pobre quanto eles, que enfrenta as mesmas dificuldades devido a sua classe e sua cor para conseguir um emprego. Para quem tem alguma dúvida de que o machismo e o racismo influenciam na hora de conseguir um emprego, dados do IBGE, divulgados em setembro de 2012, apontam 59% das pessoas desocupadas em 2011 eram mulheres e 57,6% eram pessoas negras. Então, não temos apenas “trabalhares” e “bandidos”, existe uma grande parcela que está desempregada, a qual empurra muitas pessoas para o subemprego ou para a criminalidade.

E aí entra o papel da mídia. Os programas de televisão (principalmente os jornais sensacionalistas) buscam reforçar preconceitos e demonstrar que o problema do mundo está no defeito de caráter de algumas pessoas. “Por acaso”, estas, em sua maioria, moram na periferia. A partir de todo tipo de apelo, a população, inclusive as pessoas de baixa renda, apoia intervenções nefastas da polícia nas comunidades pobres, e assim, em pleno 2014, vivenciamos um verdadeiro genocídio da juventude negra neste país.

Este é um exemplo de como a classe dominante faz para dividir a classe trabalhadora. Coloca pobres contra pobres, em nome de um “bem comum”. Não demonstram o contexto que leva meninos e meninas da periferia para o mundo do crime. Não mostram que o verdadeiro crime está na falta de oportunidades, as quais deveriam ser oferecidas por pessoas que, realmente sem qualquer caráter, roubam de forma sistemática toda a população, ou seja, as pessoas da classe política e do empresariado. Então, raríssimas vezes somos chamadxs a ver como o capitalismo desumaniza os seres humanos, os quais possuem uma vida que não vale nada. Um sistema perverso produz perversidade. E assim, nasce x bandidx:

Bom, vamos continuar que o sistema não pode parar…

Voltando para o grupo do meu trabalho, eu faço a seguinte colocação para os meus pacientes: Se o problema são os bandidos, tá tudo certo, pois temos a polícia, cada vez mais forte, mais armada… leis mais duras…

Então, alguém do grupo me interrompe com ar de revolta, e diz: Até parece, polícia é pior que bandido. Tudo corrupto. Só porque tem uma arma na mão, acha que pode fazer o que quer. Eu já cansei de ser parado por policial; e eu uso droga, mas não sou do crime!

Outro participante do grupo complementa: “Você falou que as leis estão mais duras, né?! Que leis? As leis são mais duras só para o pobre. O cara que é rico, paga um bom advogado e sai rapidinho da cadeia. Pra eles não tem lei não.

Então eu sigo com a seguinte conclusão: Se vocês estão me dizendo que polícia só elimina bandido pobre (e pelo visto os que não são bandidos também) e que a lei só serve para prender o povo da periferia, quer dizer que a polícia e as leis servem para manter os ricos no domínio e conter os pobres.

Então conseguimos avançar ainda mais no nosso esquema:

As forças armadas são um dos mais importantes instrumentos da classe dominante para se manter no poder. Fica claro que esta não serve para a proteção da população, mas sim para conter uma grande maioria de explorados. Nas mãos das forças armadas está a permissão para matar, prender e até mesmo reprimir movimentos sociais.

No entanto, quem são os policiais? São trabalhadores e trabalhadoras, em sua grande maioria faziam ou ainda fazem parte da periferia. Afinal de contas, a burguesia não vai colocar seus filhos para encarar um trabalho tão perigoso. E aí mais uma vez se coloca trabalhadorxs contra trabalhadorxs. Colocam as pessoas da classe trabalhadora umas contra as outras para fazer o controle sobre sua própria classe.

Mas quem faz isso? Quem manda na polícia? Quem autoriza as chacinas? Quem autoriza as invasões na periferia? Quem permite os abusos da polícia?

Agora sim, estamos nos aproximando de um dos mais importantes instrumentos de poder da classe dominante… Estamos nos aproximando do Estado. Instituição esta que tem o poder político, a qual vai definir quem será o beneficiado e quem será o prejudicado.

Não precisamos repetir nosso esquema, esta imagem já esclarece muita coisa:

Poxa vida, mas não dá para beneficiar as duas classes? Por que este dualismo?

É simples, porque para beneficiar a classe trabalhadora é necessária a divisão de renda, é preciso que a riqueza produzida seja compartilhada entre todas as pessoas, principalmente entre aquelas que a produz, ou seja, entre pessoas da classe trabalhadora. Mas a classe dominante não quer. Afinal, para esta se manter no poder, para continuar mantendo sua própria existência, necessita acumular cada vez mais riqueza. O seu poder é maior, quanto maior for seu distanciamento da classe trabalhadora, quanto mais a classe dominante acumula e quanto menos riquezas tiver a população em geral.

Mas quem é esta classe dominante? Meus pacientes dizem com frequência: as pessoas ricas também trabalham, se estão em um lugar de destaque é porque merecem…

Pois é, mas esta posição de destaque não tem a ver com merecimento, mas sim com diferenças de oportunidades. E quem tem mais oportunidades? Quem possui os meios de produção, é claro. Estas pessoas não produzem diretamente nada, seu trabalho é explorar a mão de obra de quem não é proprietário dos meios de produção. Ou seja, esta divisão de classes não está baseada em capacidades individuais, até mesmo porque boa parte da população não tem como explorar e desenvolver suas próprias capacidades e potencialidades, mas sim em quem tem e quem não tem propriedade dos meios de produção.

Aí meus pacientes dizem: Ah, mas precisamos dos empresários, sem eles não temos empregos.

Então questiono: Se os empresários são tão necessários, por que nem todas as pessoas têm emprego?

Alguém responde: Por conta da tecnologia, não se necessita mais de tantos trabalhadores para produzir algo.

Então faço a seguinte provocação: Se os empresários existem para gerar empregos, por que eles não aproveitam a existência de tamanha tecnologia para diminuir a carga horário de trabalho das pessoas? Assim outros poderiam ser contratados e todos teriam a possibilidade de ter bens materiais e de ter tempo para se desenvolver em outras áreas da vida.

Aí, alguém diz: Ah, mas patrão nenhum vai fazer isso! Eles querem mais que a gente faça hora extra e ainda paga uma mixaria. A tendência é sempre demitir e não contratar mais!

Então, concluímos nosso sistema:

Como é possível observar, poucos estão na parte superior do sistema. A grande maioria está na parte inferior, sem ter como ascender, salvo raríssimas exceções. A maior parte da população tem como perspectiva a falta de oportunidades, a desapropriação dos bens que ela própria produz, a violência, o encarceramento, a morte precoce.

E este sistema só se mantém funcionando enquanto houver competição entre os próprios integrantes da classe trabalhadora. Dessa forma, as opressões (machismo, racismo, homofobia, transfobia, etc) são mecanismos de divisão da própria classe, ao canalizar o ódio gerado pelo sofrimento que vivencia para certos setores da população que já são marginalizados. Assim se mascarara qual é o verdadeiro grupo social gerador do sofrimento.

Sempre digo para meus pacientes que ao oprimir uma mulher, por exemplo, eles estão servindo para a manutenção desse sistema perverso, que eles mesmos são desfavorecidos. Quando oprimem uma mulher, quando sustentam a lógica de que elas são inferiores, estão contribuindo para que os empresários se sintam no direito de contratá-las por salários mais baixos e assim nivelar por baixo os salários de toda classe trabalhadora. Quando eles oprimem uma mulher, eles estão deixando que os Estado não se responsabilize por parte importante da produção social, que é o trabalho doméstico. Quando eles oprimem uma mulher, estão fortalecendo a divisão entre a própria classe trabalhadora, ou seja, estão fortalecendo a classe que os domina. A breve sensação de poder que se tem ao oprimir é ilusória, como se diz, é dar um tiro no próprio pé.

Por tanto, é preciso ter foco. É necessário visualizar que o grande culpado por toda exploração e opressão é o sistema. As pessoas que oprimem devem ser penalizadas e, se possível, educadas, pois elas fortalecem o status-quo. Mas não vamos desviar o foco, não é eliminando essas pessoas, que vamos solucionar os problemas de uma sociedade fundada em uma estrutura perversa. É preciso ter em mente, que a culpa é do Sistema!

A SOCIEDADE TOLERA A INFIDELIDADE DOS HOMENS, MAS SÃO AS MULHERES QUE SEMPRE PAGAM O PATO

Por Carolina Vitoria

Saiu uma matéria na rede (Leia aki) sobre o STJ (Superior Tribunal da Justiça) que negou o reconhecimento de união estável a uma mulher por falta de fidelidade por parte do parceiro. Os ministros da 3ª turma do STJ por unanimidade entenderam que mesmo atendendo os requisitos legais da união estável, a falta de lealdade e fidelidade entre parceiro desconfigura este direito.

Sinto-me pessoalmente muito tocada por esta matéria, já que o mesmo aconteceu em minha família, meus pais nunca se casaram legalmente, mas conviveram por mais de vinte anos até meu pai falecer. Meu pai anos após se desquitar da primeira esposa, com que teve duas filhas, se relacionou com minha mãe e com ela teve mais três filhos. E assim, com todo o aparato da liberdade e tolerância que a sociedade dá aos homens, meu pai nunca foi fiel, teve outros filhos fora do relacionamento com minha mãe, e nunca foi cuidadoso para esconder suas aventuras. Minha mãe por sua vez, sempre cumpriu a saga da mulher que foi orientada sobre a concepção de suportar as traições do marido, pois a dedicação aos filhos é que deve ser priorizada.

E desta forma, minha mãe se desdobrou em suas triplas jornadas de trabalho para ajudar meu pai a conquistar uma vida digna, e quando ele faleceu seus familiares, que nunca aceitaram a minha mãe pelo fato dela ser negra, interviram no processo de união estável e estrategicamente apresentaram na audiência as várias amantes com quem ele se relacionou. Com isso, a decisão da justiça foi exatamente à mesma da matéria, “não se pode considerar uma relação estável se não existir fidelidade em ambas às partes”, foi um dos termos utilizados na decisão. E para completar a humilhação, as audiências se tornaram um espetáculo à parte já que o juiz, um fanfarrão, se deliciou com a historia e deu um show de piadinhas e deboches machistas como no seguinte comentário, “mas gente, que homem foi esse, comendo tanta mulher assim o que ele conseguia comer a noite?”.

Vivemos numa sociedade que considera a monogamia o pilar da estrutura familiar, porém apenas as mulheres estão condicionadas a obedecer às regras, as puladas de cerca dos homens são tratadas como algo natural que faz parte da genética e não há como lutar ir contra isso. Depois, a responsabilidade da infidelidade vai para as mulheres que segundo a tradição, “são elas que não conseguem segurar os maridos em casa ou na cama”, a justiça até pode assegurar o direito á união estável desde que “nenhum rabo do marido apareça”, e isso nada mais é que o machismo institucionalizado!

Quando minha mãe se queixava das saídas do meu pai, sabe lá pra onde! Ele usava uma expressão que nunca vou me esquecer, “*Fica Na Sua, Que Eu Fico Na Minha*”, quando cresci aprendi o que significado dela, “*fica na sua casa, que eu fico na minha rua, eu sou livre!*”. Inclusive, há pouco tempo vi uma entrevista do Zeca Pagodinho que personificou a fala do meu pai e provavelmente a de outros milhares maridos, “*não gosto de dar satisfação da minha vida, e até minha mulher já sabe, a rua é minha e a casa é dela*”, disse o Zeca. E é desta forma se legaliza o adultério dos homens e se tortura as mulheres que ousam sair do espirito familiar monogâmico.

A ministra Nancy Andrighi e relatora do voto, afirma que “uma sociedade que apresenta como elemento estrutural a monogamia não pode flexibilizar o dever de fidelidade – que integra o conceito de lealdade e respeito mútuo – para inserir no âmbito do direito de família relações afetivas paralelas (sic). A análise dos requisitos para configuração de união estável deve centrar-se na conjunção de fatores presentes em cada hipótese, como a affectio societatis familiar (intenção de constituir família), a participação de esforços, a posse do estado de casado, a continuidade da união, e também a fidelidade”.

Então demagogicamente sobre a justificativa da monogamia, muitas outras mulheres serão lesadas com o aval da justiça, já que não há nenhuma lei ou cultura que impeça os homens de trair.

Marcha das vadias, a cultura de estupro e o capital

A Marcha das vadias, que ocorre e diversos lugares do mundo, tem como principal foco o combate à cultura de estupro. Essa cultura culpa as vítimas por todo tipo de assédio sexual, trazendo a ingerência sobre como as mulheres se vestem, como se suas roupas curtas determinassem  que elas (na frase disseminada com a pesquisa do Ipea) “merecessem ser estupradas”.

É por isso que as manifestantes gritam alto que “todas somos vadias”, se ser vadia significa ter controle sobre o próprio corpo. É por isso que também em muitas marchas ao redor do mundo as mulheres vestem roupas curtas, ou mostram os seios. Afinal, temos direito a nossos corpos, somos livres.

Algumas observações, no entanto, são importantes acerca dessa liberdade. Embora seja claro que as mulheres devam defender seu direito de se vestir e portar conforme suas vontades, o questionamento dessas vontades é importante para que não tenhamos a ilusão de que elas são produto de uma individualidade não influenciada pelo meio social. Nesse sentido, é interessante  lembrar que as roupas curtas também tendem a ser usadas para a sexualização e objetificação do corpo das mulheres –  por isso também o uso do termo “vadia” pode ser entendido como objetificador .

Por isso talvez a ideia de que não somos putas nem santas, mas mulheres, combata melhor a cultura de estupro e evite que nossa liberdade seja reconduzida, de novo, a imagens construídas pelo desejo masculino. 

Apesar disso, participamos da Marcha das Vadias por entender que ela se embate com um problema real das mulheres, e nossas diferenças de formulação não devem impedir a unidade nessa luta.

Há outro aspecto, no entanto: a cultura de estupro não paira no ar – e o feminismo deve atacar suas origens. Se hoje existe uma noção de que todas as mulheres devem pertencer a algum homem, isso acontece porque as mulheres foram historicamente escravizadas pelos homens, para produzir filhos e garantir a manutenção da vida dos homens com trabalhos não pagos essenciais, como cozinhar, lavar e limpar. Embora sem esses trabalhos nenhuma sociedade sobreviva, quem os faz nessa sociedade não é valorizada nem remunerada.

E quem ganha com isso? Por um lado os homens, é claro. Sendo nossa sociedade patriarcal, são eles que têm maiores privilégios e estão em geral nos espaços de exercício de poder.

Mas, além disso, ganham também as empresas, que não precisam ter creches, refeitórios e lavanderias (ou não pagam impostos a mais para que o Estado os forneça), pois podem contar com o trabalho não pago, e podem também pagar salários mais baixos às mulheres, que tem seu trabalho desvalorizado,  e, assim, nivelar por baixo também o salário de toda a classe dos trabalhadores.

A opressão às mulheres e sua exploração são parte do mesmo movimento  - por isso o feminismo, para ser consequente, deve ser classista. 

Pesquisa do IPEA e as mulheres que gostam de apanhar

Por 

Pesquisa do Ipea – Mulher que gosta de apanhar

A polêmica pesquisa do Ipea sobre violência sexual e doméstica ficou conhecida principalmente por um erro que tornou exorbitante o número de pessoas que consideram que há mulheres que “merecem ser estupradas”. Com a correção do instituto, algumas pessoas pareceram aliviadas, outras, como em geral as feministas, ainda consideraram 26% um absurdo.

Curiosamente não se atentou para um “detalhe”: o erro não foi aleatório, foi uma TROCA de resultados. Daí, temos que alguns resultados sobre a violência doméstica assumiram números escandalosos:

Percebamos,pelo quadro, que aqueles 65% dos brasileiros, na verdade, acham que a mulher que apanha e continua com o parceiro gosta de apanhar. Gosta de apanhar. Gosta de apanhar.

Parece que teremos que refletir aqui sobre elementos básicos. A violência doméstica é um problema social epidêmico. Não à toa temos uma lei específica contra ele. Ocorre que, apesar disso, recai-se em muitos erros ao pensar esse problema.

Em primeiro lugar, há um mito de que o agressor é necessariamente um homem violento em todas as suas relações sociais, incapaz de afeto, não tem virtudes, muito provavelmente um alcoólatra desempregado. Não. Um agressor pode um homem comum, respeitado nos seus círculos, carinhoso na frente dos outros, inseguro muitas vezes (pode manifestar essa insegurança com ciúmes), pode chorar depois de cada agressão, pode ter um bom emprego. Na verdade nesses casos é que fica mais difícil qualquer tipo de denúncia, pois em geral a sociedade desqualifica o discurso da vítima.

A culpabilização da vítima é comum em qualquer caso de agressão machista. Em parte a denúncia é desqualificada, inclusive nas delegacias da mulher Brasil a fora, porque os crimes acontecem em esferas privadas, porque as mulheres não tem como provar (a violência psicológica não deixa marcas, embora esteja tipificada na lei Maria da Penha) ou demoraram muito tempo para denunciar, por vergonha ou medo.

Medo, aliás, que não parece ser muito vislumbrado por 65% que acham que as agredidas gostam de apanhar. A agressão física traumatiza, cala, cria mecanismos psicológicos de escape. O medo da próxima agressão, o medo de ser morta (vide os dados sobre femicídio) coloca a mulher em uma posição passiva, de imobilidade.

Também a colocam nessa posição a falta de solidariedade de parentes (que não quereriam ver a família destruída), a falta de perspectiva de uma punição ao agressor (afinal a justiça incrimina poucos agressores, entre os já poucos denunciados) e ainda mais de afastamento permanente do agressor. A vergonha também pesa, isso parece também ser ignorado: é vergonhoso estar em uma situação de submissão física, e a violência psicológica reforça essa vergonha diminuindo a autoestima e independência da mulher.

Não ignoremos também que há um fator econômico muitas vezes em questão. Muitas mulheres dependem financeiramente de seus maridos ou companheiros. Em geral culpabiliza-se a vítima ainda assim, entendendo que é por falta de vontade que ela não tem independência financeira. A realidade, no entanto, é um pouco mais agressiva: além de desestimuladas de estudar e trabalhar fora, principalmente se há filhos e o marido pode sustentá-las, as mulheres tornam-se escravas domésticas (pois não há outro nome para trabalho trocado por comida e cama) e trabalham sim, mais de oito horas por dia. Mas não têm um centavo para sair de situações de violência quando essas ocorrem. Há ainda as que trabalham, mas não recebem o suficiente para se sustentar e aos filhos, afinal também são comuns nichos femininos de subemprego.

Por fim, cabe ainda lembrar que existe o chamado ciclo da violência doméstica, do qual é difícil escapar, e que mantém também a mulher presa psicologicamente ao agressor. O ciclo é composto de três fases que se repetem em diferentes tempos e intensidades: 1. Momento de acirramento de tensões cotidianas, reclamações e ameaças, a mulher se sente insegura; 2. Momento da agressão psicológica ou diretamente física, que pode se intensificar com a repetição do ciclo; 3. Momento das desculpas do agressor, das promessas de não violência, do carinho e das flores… que abre caminho para mais um acirramento das tensões.

E não, a mulher não tem dificuldade de sair desse ciclo porque ela é burra, mas porque há um envolvimento emocional, além de uma ideologia circulante de que ela não será nada se não tiver um marido, filhos etc. Uma ideologia de que depende dela a felicidade da família, e ela tem que abrir mão de tudo para isso. Uma ideologia de que ela só será completa quando tiver um homem e que o prazer dela mesma pode ficar em segundo plano. Faltam pesquisas que mostrem também como são cobrados das mulheres o casamento e a maternidade. Uma mulher agredida, para sair do ciclo, deve além de tudo lidar com a alguma noção de que foi ela que “fracassou”.

Bom lembrar, no entanto, que a agressão existe em todas as classes sociais (e mesmo na intelectualidade, e mesmo na esquerda) e em qualquer tipo de relação – pais que batem em filhas, filhos que batem em mães, irmão que batem em irmãs, namorados que batem em namoradas. E as mulheres se submetem não por fraqueza, ignorância, muito menos por “gostar de apanhar”. As mulheres se submetem porque é isso que é esperado delas pelas sociedade e pelos homens: que elas sejam passivas, obedientes e submissas.

Para as mulheres que já foram agredidas certamente o resultado dessa pesquisa é em si mesmo violento. Uma mulher que já foi agredida tem medo de conhecer outras pessoas, de ter novos relacionamentos, de viver. Uma mulher que já teve que explicar um hematoma dizendo que bateu na porta tem vergonha sempre. Uma mulher que já foi julgada por uma violência que ela mesma sofreu nunca mais questiona. Uma mulher que foi calada fica calada.

A menos que as outras demonstrem sororidade, a menos que ela encontre a força para denunciar na garantia de que ela será a última. A menos que ela saiba que ela não está sozinha e que haverá mulheres para acolhê-las, sabendo que:

NÃO EXISTE MULHER QUE GOSTA DE APANHAR, O QUE EXISTE É MULHER HUMILHADA DEMAIS PARA DENUNCIAR, MACHUCADA DEMAIS PARA REAGIR E POBRE DEMAIS PARA IR EMBORA.

FEMINISMO EM LUTA CONTRA OS ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO

Nós mulheres estamos acostumadas a ouvir que, devido a sermos mulheres, temos certas características, atitudes, dificuldades e facilidades relacionadas ao nosso gênero. Essas noções em geral consideram que há algo por natureza na mulher que a leva a ter certas características e por vezes as próprias mulheres acreditam que é assim .

Antes de tudo, é importante ressaltar que em muitos casos esse tipo de estereótipo ou construção ideológica sobre a ‘essência do feminino’ justifica a violência machista, aagressão doméstica, o estupro, o assédio moral e sexual. Isso pode acontecer quando um homem acredita que a mulher por natureza é inferior, e por isso deve ser dominada.

Mas nem todo homem precisa defender essa posição extrema para na prática apresentar ideias que a reproduzem. Há um disseminado discurso pseudocientífico que aponta para as diferenças naturais entre homens e mulheres. Para a sorte dos homens, ironicamente, as características ‘naturais’ mais valorizadas socialmente (competitividade, agressividade, racionalidade, por exemplo) são as características consideradas masculinas.

Óbvio que existem diferenças naturais entre homens e mulheres, mas a generalização delas e sua valoração é ideológica. Muitas feministas já trataram do assunto – disponho-me aqui não a repeti-las, mas a comentar alguns dos estereótipos femininos e questioná-los, reconduzindo ao seu sentido social.

As carreiras que podemos seguir

Primeiramente uma série de características que muitas vezes nos são atribuídas têmrelação com a divisão sexual do trabalho. Em determinado momento da história as mulheres passaram a ser isoladas no ambiente doméstico (principalmente para o homem garantir a legitimidade dos filhos e a transmissão da herança). É visto como natural, a partir daí, que a mulher assuma o trabalho doméstico e o cuidado dos filhos. Mesmo que as mulheres hoje trabalhem fora, muitas vezes são vistos como “feminismos” os trabalhos ligados à reprodução e ao cuidado – limpeza, enfermagem, magistério (principalmente para crianças e jovens), por exemplo.

Mesmo outros estereótipos, aparentemente desligados dessa lógica, têm na verdade, profunda relação com ela. É o caso de quando ouvimos de que as mulheres não tem inteligência própria para as ciências exatas, por isso optariam mais pelas humanas. Ora, vejamos, em números, esse raciocínio é correto, há mais mulheres nas humanas do que nas exatas. Transformar isso em um dado biológico, porém, é absurdo.

Observemos o exemplo da filosofia. Embora seja uma ciência humana, o número de ingressantes mulheres na graduação da Universidade de São Paulo fica, nos últimos anos, entre 30% e 25%. A mesma discrepância existe nas universidades norte-americanas1 Não se trata, portanto, de algo intrínseco às ciências exatas que afasta as mulheres. Ocorre que em geral as ciências humanas encaminham as/os estudantes mais para a licenciatura e o magistério do que para a pesquisa acadêmica ou para áreas aplicadas. No caso da filosofia, principalmente dos cursos de bacharelado “de ponta”, há uma tendência a priorizar a pesquisa acadêmica. O curso de bacharelado em música na universidade de São Paulo também têm mais homens (64% dos ingressantes em 2013), o que talvez surpreenda alguns que consideram as mulheres mais “sensíveis” ou “artísticas”. De novo, trata-se de um curso conceituado e que exige que o ingressante já tenha formação em um instrumento musical.

O que quero concluir aqui é que fazer um curso na universidade não é apenas uma livre escolha. É consequência também de uma situação socioeconômica, e de suas relações com preconceitos e ideologias. Faz parte dessa ideologias que as mulheres não são capazes de compreender bem as ciências exatas, afinal são maternais, não são competitivas nem agem segundo a razão. Em última instância o que se diz é: uma mulher nunca vai usar matemática, física e lógica para cuidar da casa e dos filhos melhor.

As coisas que podemos fazer

Também há certos preconceitos quanto às capacidades femininas para realizar certas atividades. A lenda urbana de que as mulheres dirigem mal vem daí, embora elas na realidade se envolvam em menos acidentes,e portanto recebam mais descontos nas seguradoras. Por um lado, dirigir é visto como uma atividade masculina devido a seu status, a estar relacionado com potência e força. Por outro lado, esse preconceito sobre as mulheres é reproduzido nas autoescolas, em que elas são alvos de piadas, ofensas e até agressões. Nesse contexto, as mulheres são desestimuladas a começar a dirigir, e quando tentam, encontram apenas discriminação. Fácil manter, assim, um preconceito.

Essa ideia da má direção evoca outros preconceitos similares: mulheres se orientam mal, não têm pensamento objetivo, não conseguem se focar com clareza. Por isso ninguém nos estimula a jogarmos xadrez ou sermos cirurgiãs, por exemplo.

Quem devemos ser?

Não vamos esquecer que cotidianamente a mídia, os produtos culturais em geral e as instituição dizem a nós mulheres o que devemos ser. Aparentemente há poucas opções para uma mulher:

  1. Ser a mãe dedicada, amorosa, de preferência dona de casa, ou profissional também dedicada a seu trabalho de cuidados, daí ela será cuidadosa, carinhosa e abnegada.

  2. Ser a mulher de meia idade, divorciada e/ou sem filhos, bem sucedida profissionalmente, mas infeliz pessoalmente, em crise com o sentido de sua vida. Às vezes também essa profissional bem sucedida, ou intelectual crítica, se jovem, é aquela jovem desastrada, incapaz de fazer serviços de casa, pouco cuidadosa com a aparência – está apenas esperando um homem aparecer em sua vida.

  3. Jovem  virginal, sendo apresentada pela primeira vez ao amor.

  4. Jovem sensual, independente, que usa os homens para seus intentos (sejam profissionais ou pessoais). Tem como principal arma a sedução, muitas vezes não tem princípios e é dependente de álcool ou outras drogas.

Claro que esses são estereótipos genéricos, mas presentes em muitos filmes, novelas, best sellers e outros produtos culturais com que as mulheres têm contato diariamente, que são suas referências sobre o que é aceitável em uma mulher. Deve-se reparar, principalmente, uma coisa que é comum entre eles: o papel de protagonista que é dado aos homens na vida das mulheres, principalmente as mais felizes. Impõe-se à mulher, constantemente, a ideia de que sua relação com um homem é o que vai ser determinante para sua felicidade.

Essas reflexões, embora iniciais, deixam claro que é necessário estarmos atentas para não aceitarmos que o patriarcado defina quem somos ou devemos ser. Além disso, é importante que as mulheres não recaiam nesses estereótipos para cobrar atitudes de outras mulheres nem aceitem que os homens o façam. A crítica em geral à mídia e à produção cultural que favorece esses estereótipos em prol da exploração maior das mulheres também é fundamental para nossa luta feminista.

 

1Vide a série de artigos “Women in Philosophy” publicada pelo New York Times. Em um dos artigos, inclusive a autora indica também uma reflexão sobre os estereótipos.: “Filosofia é frequentemente introduzida através de sua história, que começa com Sócrates, que baniu as mulheres chorosas, como prelúdio para o real filosofar. Outros banimentos seguiram-se , de forma que é tentador ver na filosofia uma sucessão masculina ininterrupta, como listas do curso (incluindo o meu) ainda testemunham. Isso também é enganoso. A princesa Isabel da Boêmia, em sua correspondência notável com Descartes, ofereceu a objeção mais duradoura para o dualismo de Descartes: como pode mente imaterial e corpo material interagirem? Ela está embaraçosamente ausente das edições padrão que incluem os críticos contemporâneos de Descartes. Maria von Herbert provocou uma questão profunda para Kant: é a perfeição moral compatível com a apatia total? Ela está embaraçosamente ausente da mais recente biografia Kant e suas cartas sobrevivem em algum lugar por seu valor de fofoca (sexo! suicídio!). Com omissões como essas que nós lesamos filósofos do passado, presente e futuro. Nós alimentamos o estereótipo e os preconceitos que Descartes desprezava.”