FEMINISMO EM LUTA CONTRA OS ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO

Nós mulheres estamos acostumadas a ouvir que, devido a sermos mulheres, temos certas características, atitudes, dificuldades e facilidades relacionadas ao nosso gênero. Essas noções em geral consideram que há algo por natureza na mulher que a leva a ter certas características e por vezes as próprias mulheres acreditam que é assim .

Antes de tudo, é importante ressaltar que em muitos casos esse tipo de estereótipo ou construção ideológica sobre a ‘essência do feminino’ justifica a violência machista, aagressão doméstica, o estupro, o assédio moral e sexual. Isso pode acontecer quando um homem acredita que a mulher por natureza é inferior, e por isso deve ser dominada.

Mas nem todo homem precisa defender essa posição extrema para na prática apresentar ideias que a reproduzem. Há um disseminado discurso pseudocientífico que aponta para as diferenças naturais entre homens e mulheres. Para a sorte dos homens, ironicamente, as características ‘naturais’ mais valorizadas socialmente (competitividade, agressividade, racionalidade, por exemplo) são as características consideradas masculinas.

Óbvio que existem diferenças naturais entre homens e mulheres, mas a generalização delas e sua valoração é ideológica. Muitas feministas já trataram do assunto – disponho-me aqui não a repeti-las, mas a comentar alguns dos estereótipos femininos e questioná-los, reconduzindo ao seu sentido social.

As carreiras que podemos seguir

Primeiramente uma série de características que muitas vezes nos são atribuídas têmrelação com a divisão sexual do trabalho. Em determinado momento da história as mulheres passaram a ser isoladas no ambiente doméstico (principalmente para o homem garantir a legitimidade dos filhos e a transmissão da herança). É visto como natural, a partir daí, que a mulher assuma o trabalho doméstico e o cuidado dos filhos. Mesmo que as mulheres hoje trabalhem fora, muitas vezes são vistos como “feminismos” os trabalhos ligados à reprodução e ao cuidado – limpeza, enfermagem, magistério (principalmente para crianças e jovens), por exemplo.

Mesmo outros estereótipos, aparentemente desligados dessa lógica, têm na verdade, profunda relação com ela. É o caso de quando ouvimos de que as mulheres não tem inteligência própria para as ciências exatas, por isso optariam mais pelas humanas. Ora, vejamos, em números, esse raciocínio é correto, há mais mulheres nas humanas do que nas exatas. Transformar isso em um dado biológico, porém, é absurdo.

Observemos o exemplo da filosofia. Embora seja uma ciência humana, o número de ingressantes mulheres na graduação da Universidade de São Paulo fica, nos últimos anos, entre 30% e 25%. A mesma discrepância existe nas universidades norte-americanas1 Não se trata, portanto, de algo intrínseco às ciências exatas que afasta as mulheres. Ocorre que em geral as ciências humanas encaminham as/os estudantes mais para a licenciatura e o magistério do que para a pesquisa acadêmica ou para áreas aplicadas. No caso da filosofia, principalmente dos cursos de bacharelado “de ponta”, há uma tendência a priorizar a pesquisa acadêmica. O curso de bacharelado em música na universidade de São Paulo também têm mais homens (64% dos ingressantes em 2013), o que talvez surpreenda alguns que consideram as mulheres mais “sensíveis” ou “artísticas”. De novo, trata-se de um curso conceituado e que exige que o ingressante já tenha formação em um instrumento musical.

O que quero concluir aqui é que fazer um curso na universidade não é apenas uma livre escolha. É consequência também de uma situação socioeconômica, e de suas relações com preconceitos e ideologias. Faz parte dessa ideologias que as mulheres não são capazes de compreender bem as ciências exatas, afinal são maternais, não são competitivas nem agem segundo a razão. Em última instância o que se diz é: uma mulher nunca vai usar matemática, física e lógica para cuidar da casa e dos filhos melhor.

As coisas que podemos fazer

Também há certos preconceitos quanto às capacidades femininas para realizar certas atividades. A lenda urbana de que as mulheres dirigem mal vem daí, embora elas na realidade se envolvam em menos acidentes,e portanto recebam mais descontos nas seguradoras. Por um lado, dirigir é visto como uma atividade masculina devido a seu status, a estar relacionado com potência e força. Por outro lado, esse preconceito sobre as mulheres é reproduzido nas autoescolas, em que elas são alvos de piadas, ofensas e até agressões. Nesse contexto, as mulheres são desestimuladas a começar a dirigir, e quando tentam, encontram apenas discriminação. Fácil manter, assim, um preconceito.

Essa ideia da má direção evoca outros preconceitos similares: mulheres se orientam mal, não têm pensamento objetivo, não conseguem se focar com clareza. Por isso ninguém nos estimula a jogarmos xadrez ou sermos cirurgiãs, por exemplo.

Quem devemos ser?

Não vamos esquecer que cotidianamente a mídia, os produtos culturais em geral e as instituição dizem a nós mulheres o que devemos ser. Aparentemente há poucas opções para uma mulher:

  1. Ser a mãe dedicada, amorosa, de preferência dona de casa, ou profissional também dedicada a seu trabalho de cuidados, daí ela será cuidadosa, carinhosa e abnegada.

  2. Ser a mulher de meia idade, divorciada e/ou sem filhos, bem sucedida profissionalmente, mas infeliz pessoalmente, em crise com o sentido de sua vida. Às vezes também essa profissional bem sucedida, ou intelectual crítica, se jovem, é aquela jovem desastrada, incapaz de fazer serviços de casa, pouco cuidadosa com a aparência – está apenas esperando um homem aparecer em sua vida.

  3. Jovem  virginal, sendo apresentada pela primeira vez ao amor.

  4. Jovem sensual, independente, que usa os homens para seus intentos (sejam profissionais ou pessoais). Tem como principal arma a sedução, muitas vezes não tem princípios e é dependente de álcool ou outras drogas.

Claro que esses são estereótipos genéricos, mas presentes em muitos filmes, novelas, best sellers e outros produtos culturais com que as mulheres têm contato diariamente, que são suas referências sobre o que é aceitável em uma mulher. Deve-se reparar, principalmente, uma coisa que é comum entre eles: o papel de protagonista que é dado aos homens na vida das mulheres, principalmente as mais felizes. Impõe-se à mulher, constantemente, a ideia de que sua relação com um homem é o que vai ser determinante para sua felicidade.

Essas reflexões, embora iniciais, deixam claro que é necessário estarmos atentas para não aceitarmos que o patriarcado defina quem somos ou devemos ser. Além disso, é importante que as mulheres não recaiam nesses estereótipos para cobrar atitudes de outras mulheres nem aceitem que os homens o façam. A crítica em geral à mídia e à produção cultural que favorece esses estereótipos em prol da exploração maior das mulheres também é fundamental para nossa luta feminista.

 

1Vide a série de artigos “Women in Philosophy” publicada pelo New York Times. Em um dos artigos, inclusive a autora indica também uma reflexão sobre os estereótipos.: “Filosofia é frequentemente introduzida através de sua história, que começa com Sócrates, que baniu as mulheres chorosas, como prelúdio para o real filosofar. Outros banimentos seguiram-se , de forma que é tentador ver na filosofia uma sucessão masculina ininterrupta, como listas do curso (incluindo o meu) ainda testemunham. Isso também é enganoso. A princesa Isabel da Boêmia, em sua correspondência notável com Descartes, ofereceu a objeção mais duradoura para o dualismo de Descartes: como pode mente imaterial e corpo material interagirem? Ela está embaraçosamente ausente das edições padrão que incluem os críticos contemporâneos de Descartes. Maria von Herbert provocou uma questão profunda para Kant: é a perfeição moral compatível com a apatia total? Ela está embaraçosamente ausente da mais recente biografia Kant e suas cartas sobrevivem em algum lugar por seu valor de fofoca (sexo! suicídio!). Com omissões como essas que nós lesamos filósofos do passado, presente e futuro. Nós alimentamos o estereótipo e os preconceitos que Descartes desprezava.”

Polícia e Estado: a serviço dos baderneiros ou da burguesia?

Após as jornadas contra o aumento da tarifa da passagem do transporte coletivo no ano passado, não é incomum nos depararmos com manchetes em jornais como estas a cada nova manifestação:

(1) “Ato contra Copa em SP termina em confronto, vandalismo e 230 detidos” (2) “PM usa ‘Tropa do Braço’ e detém cerca de 230 em protesto em SP” (3) “Mulher grávida de 8 meses morre após ser agredida pela polícia”

Os comentários feitos por leitorxs em cada matéria também não costumam ser novidade:

(1) “Com o quebra-quebra a PM agiu reprimindo no tapa e imobilizando. Algo merecido pelos baderneiros, que queriam só uma desculpa para depredar. Os jornalistas estavam “infiltrados” na “manifestação” e, no meio da bagunça, sobrou para eles, mas continuam querendo retratar a PM (desarmada) como truculenta ante “manifestantes”(depredadores). Conter como essepessoal do quanto pior melhor? Os ditos “manifestantes” são alienados, mas o que dizer então desse discurso cínico da imprensa?!Falta autocrítica.”

(2) “Eu acho que eles deviam é usar arma de choque e taser contra quem é visto queimando, destruindo, danificando e usando mascara nas manifestações, ai essa palhaçada e terrorismo disfarçado que eles querem dar o nome de manifestação acaba! o cidadão não precisa quebrar nada, agredir, impor o terror ou usar mascara para se manifestar, quantas lojas, bancos, comércios, pontos de onibus, construídos e mantidos pelo trabalhador e que não tem nada a ver com copa eles já destruíram ? Ao invés de destruir a cidade por que não vão destruir e tacar pedra e fogo no ITAQUERÃO do Corinthians?”

O que tais notícias e tais comentários tem a ver com a pergunta título do texto? A polícia e o Estado estão, de fato, a serviço dos “baderneiros” como alguns leitores apontam, ou estão a serviço de algo bem maior, que nos influencia diariamente e tem o nome de burguesia?

Retomemos aqui, a origem do Estado através de Marx e Engels, o qual nasce a partir de um determinado desenvolvimento econômico das sociedades antigas, e a partir da clara instauração da propriedade privada surge este aparelho como uma necessidade da manutenção da divisão de classes. A polícia (em particular a brasileira) também tem seu surgimento de acordo com os interesses da classe dominante para proteger as suas riquezas, como o ouro e a estabilidade do Império.

Tais resgates históricos são imprescindíveis para a compreensão da atual conjuntura. Afinal, o mesmo policial que agrediu a mulher grávida e matou a ela e seu bebê, é o policial que prende de modo arbitrário 230 manifestantes para “averiguação”. Também, é o mesmo policial que pertence a um grupo que discrimina a classe social oprimida que luta contra os privilégios da burguesia.

autor Marcondes Filho (1987), em seu livro: Violência Política, descreve como asquestões relacionadas à segurança, propriedade privada, estabilidade social e financeira são trabalhadas pelo Estado de modo que um sentimento de tranquilização do cidadão se relacione com o próprio Estado. Portanto, se esse aparelho não está combativo e repressor, automaticamente há uma imagem de um Estado que não está organizado, havendo o risco do cidadão perder esse sentimento de tranquilização e segurança.

Esta prática indubitavelmente gera uma indústria da insegurança, onde basicamente todos os sentidos da vida social das pessoas são direcionados a uma necessidade desesperadora e angustiante de segurança: segurança no mercado de trabalho, contra assaltos, contra toda e qualquer espécie de “inimigo”.

O que há por trás da indignação da população quando os manifestantes quebram bancos (propriedade privada), lojas (propriedade privada), e bens tidos como públicos mas financiados por empresas privadas? Percebe-se uma enorme influência da mídia burguesa neste processo de indignação contra a depredação propriedade privada, e a favor daqueles empresários que indiretamente tem enorme poder sobre os bens públicos.

Lembremos que a distinção entre o que é público e o que é privado está ligada diretamente ao direito da burguesia, e válida somente nos espaços onde o “direito burguês” exerce seu poder. Espaços estes que vão além da sua propriedade privada, a burguesia domina e controla nossa sociedade para muito além do que podemos enxergar.

Diariamente, no horário em que a maioria dxs trabalhadorxs retornam às suas casas, ou caminham rumo ao segundo emprego, há uma explosão de telejornais com um único intuito: mostrar o quanto a sociedade é violenta, e o quanto a repressão policial contra a maioria da população (destaca-se a repressão contra a população pobre, negra e periférica) é necessária.

E esta população reproduz o discurso do opressor, mesmo sendo oprimida cotidianamente. Os grandes empresários são vistos como “homens de bem”, enquanto a população que está na rua gritando pelos seus direitos básicos – que são negados –  é vista como “vândala”, “preguiçosa” e “bardeneira”.

Quem jamais duvidou que o violado sonha com violência, que o oprimido “sonha, pelo menos uma vez ao dia, em colocar-se” no lugar do opressor, que o pobre sonha com as posses do rico, o perseguido em trocar “o papel de caça pelo caçador”, e os últimos do reino onde “os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos”? O caso é que, como Marx percebeu, os sonhos nunca viram realidade. (ARENDT, 1973, p. 108).

Pois então, alienado é aquele que adquire a consciência sobre a opressão de seu povo e luta por um estado socialista, ou é aquele que usa o discurso da meritocracia como alicerce de uma possível sociedade justa, que dá oportunidade a todxs, e “basta se esforçar e saber aproveitar”? Direitos não são mais direitos? São questões a serem conquistadas por esforço individual?

Estas são perguntas importantíssimas que a influência da mídia sobre a população faz questão de ignorar, com se as respostas fossem causar um grande estrago à ordem vigente. E realmente causariam. Direitos são direitos, independentemente da cor, gênero e classe social. Mas somos ensinadxs desde crianças que, se não pertencemos à alta sociedade, temos que nos modificar enquanto sujeitxs da própria história para alcançarmos esse padrão de ser humano aceitável e admirável.

Para finalizar a reflexão, Marcondes Filho (1987) aponta que, quanto menos seguras as pessoas sentem-se, mais elas exigem um Estado policial e um Estado forte. Esse tipo de Estado reduz drasticamente o espaço democrático para garantir a qualquer preço a concretização dos interesses desta classe que controla – e que teme a libertação da classe oprimida de suas correntes, sendo esta violência política uma arma da burguesia para a manutenção do status quo.

É necessário que desinformemo-nos da manipulação da grande mídia, e entendamos que vândalo e bardeneiro é um Estado que há centenas de anos trabalha para os interesses da restrita e velha burguesia.

Não devemos ter medo do próprio povo, que está na mesma situação de opressão que nós. Devemos temer – e enfrentar toda forma de exploração e dominação de uma burguesia que para ter sua paz nos silencia de forma brutal. Essa brutalidade, se necessária, é feita com mortes, como no caso da mulher grávida e de tantxs outrxs manifestantes agredidxs e violentadxs diariamente – e claro, que a grande mídia jamais noticiará.

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Referências:

ARENDT, H. Crises da república. São Paulo: Perspectiva, 1973. 208 p.

ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do estado. São Paulo: Escala, 195 p.

MARCONDES FILHO, C. J. Violência Política. São Paulo: Moderna, 1987.

(1) http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/02/1416525-ato-contra-copa-em-sp-termina-em-confronto-e-vandalismo.shtml

(2) http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/02/pm-usa-tropa-do-braco-e-detem-cerca-de-120-em-protesto-em-sp.html

(3) https://www.facebook.com/photo.php?fbid=617330095021842&set=a.514790238609162.1073741828.514760291945490&type=1&theater

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Este texto faz parte de uma sequência de discussões a respeito da Polícia e do Estado. O próximo abordará a relação destes dois aparelhos com o enfretamento e a reprodução do machismo.

Tatuada, antiproibicionista, feminista com orgulho e estudante de psicologia. Acredita plenamente no vandalismo e na liberdade sexual da mulher.

8 de março, Dia Internacional das Mulheres

“O Dia das Mulheres ou o Dia das Mulheres Trabalhadoras é um dia de solidariedade internacional e um dia para rever a força e a organização das mulheres proletárias. Mas não é um dia especial somente para as mulheres. O 8 de março é um dia histórico e memorável para os trabalhadores e para os camponeses, para todos os trabalhadores russos e para os trabalhadores de todo o mundo”.

Alexandra Kollontai, Dia Internacional das Mulheres.

Origens

O Dia Internacional das Mulheres e a data de 8 de março são comumente associados a dois fatos históricos que teriam dado origem à comemoração. O primeiro deles seria uma manifestação das operárias do setor têxtil novaiorquino ocorrida em 8 de março de 1857 (segundo outras versões em 1908). O outro acontecimento é o incêndio de umafábrica têxtil ocorrido na mesma data e na mesma cidade. Não existe consenso entre a historiografia para esses dois fatos, nem sequer sobre as datas, o que gerou mitos sobre esses acontecimentos.

Por trás da comemoração do Dia Internacional da Mulher o que de fato temos é a oposição em quase todos os países europeus e nos Estados Unidos entre os movimentos feministas burgueses e o movimento de mulheres socialistas. Ambos partilhavam a reinvindicação do reconhecimento básico para o gênero feminino e, acima de tudo, o direito ao voto. O que diferenciava o movimento de mulheres socialistas das feministas burguesas é que as socialistas também lutavam por uma revolução que ameaçaria os interesses econômicos das feministas burguesas.

Partido Socialista Americano comemorava oficialmente o Woman’s Day desde o último domingo de fevereiro de 1909, com a principal reinvindicação o direito ao voto, numa tentativa de cumprir uma resolução do congresso da Segunda Internacional em 1907 que conclamava os partidos socialistas a lutarem pelo sufrágio universal feminino e com o intuito de mostrar às mulheres operárias que o partido estava disposto a defender seus direitos.

A decisão de transformar essa celebração em uma festividade internacional partiu deClara Zetkin, numa busca por dois objetivos: reforçar os laços de solidariedade e identidade entre as mulheres socialistas de todos os países e fazer da reinvindicação do direito ao voto da mulher uma demanda internacional.

Além da importância política do nascimento do Dia Internacional da Mulher, é importante lembrar o impacto que a sociedade europeia sofreu ao ver as mulheres na rua, levando cartazes que reivindicavam seus direitos e interesses.

Por fim, para finalizar essa busca pela origem do Dia Internacional da Mulher é importante lembrar a grande influência que a Revolução Russa exerceu em todos os níveis. Em 8 de março de 1917 as mulheres russas saíram às ruas contra a falta de alimentos, dando início ao processo revolucionário que culminou na Revolução de Outubro. A partir de então, o Dia Internacional das Mulheres adquiriu um caráter comunista, pois mostrou sua utilidade aos interesses revolucionários, como uma forma de propagandear as melhoras que a Revolução trouxe à mulher e para fazer com que as mulheres apoiassem a expansão da revolução internacionalmente.

Outro fato importante para o Dia Internacional da Mulher é que, acabada a Segunda Guerra Mundial, a ONU criou um novo marco institucional, incentivando as mulheres de todos os países que libertaram o mundo do terror fascista a participar da comemoração do Dia Internacional da Mulher como forma de garantir o reconhecimento de seus direitos na nova ordem internacional que se iniciava.

Uma comemoração militante

Nós do Coletivo Feminismo sem Demagogia, convidamos a todxs para sair às ruas neste 8 de março. Estaremos no ato, com faixa e camisetas, caso haja mulheres que queiram nos encontrar para se incorporar à manifestação.

E lembramos que nós mulheres estaremos nas ruas não só em luta por nossas pautas específicas, mas conscientes de que o dia é de solidariedade internacional. Sairemos às ruas nos lembrando das 142 trabalhadoras mortas no incêndio da Triangle Shirtwaist Company em Nova York que, entre os meses de setembro de 1909 e fevereiro de 1910, protagonizaram a primeira greve nacional feita exclusivamente por mulheres, como representantes de todas as trabalhadoras vítimas do Capitalismo. Sairemos às ruas unidas as mais de 190 mil mulheres russas que em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário russo) saíram às ruas reivindicando “pão para nossos filhos” e “retorno de nossos maridos das trincheiras” e que com essas manifestações deram o pontapé inicial à Revolução de Outubro, mostrando ao mundo a importância e a força da participação feminina na luta pela emancipação do proletariado.

O Dia Internacional da Mulher é um dia de luta política. Recusemos os parabéns e as flores e vamos todxs seguir na luta por nossos direitos e por um mundo livre da opressão.

Referência bibliográfica

GONZÁLEZ, Ana Isabel Álvarez. As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2010.

Ana Paula Girardi

Livro para mulherzinha e os tais chick-lits

Para falar deste assunto, acho que preciso separar os dois pontos que quero tratar. O primeiro deles é que perdi as contas das vezes que ouvi algo como “esse livro é divertido, mas é livro de mulherzinha” ou “não sei se você gosta desse tipo de literatura, porque esse livro é para mulher”.

Sem pensar em “livro para mulher” como uma espécie do subgênero do romance (o que seria o segundo ponto), em geral, o que as pessoas querem dizer é que o livro é um desses best sellers com uma temática água com açúcar, na maioria das vezes uma história de amor ou a busca por um amor, escrito de forma bem-humorada em que a personagem principal é uma jovem toda atrapalhada e que se dá mal até que no final encontra seu príncipe encantado “moderno” e é feliz para sempre (ou até o próximo livro da série). Outra característica importante é que são livros de qualidade literária questionável, livros que não fazem parte do que é a considerada alta literatura.

Muito do que o mercado editorial produz e lança está longe do que uma Virgínia Woolf, um Kafka, uma Clarice Lispector etc. produziram, mas é divertido, entretém as pessoas e, claro, vende muito. Em geral, leitoras de outros gêneros ao lerem os chick-lits (esse subgênero do romance feito para o público feminino) fazem a ressalva de que é “livro de mulherzinha” para marcar que, apesar do enredo divertido, não estamos diante de um futuro clássico da literatura, não estamos diante de algo “sério”.

O que eu questiono é que há muitos best sellers de aventura, policiais, inspirados em jogos de videogame etc. que de forma geral são destinados ao público masculino, mas ninguém diz pejorativamente que é “livro pra homem”, “literatura de homenzinho”. Por quê? Por que dizemos “de mulher” ou “para mulherzinha” com sentido negativo? Por que apenas não dizer que é água com açúcar sem usar o público-alvo como adjetivo? Se formos comparar o texto de um desses chick-lits com o texto de um Dan Brown, por exemplo, não encontraremos grandes diferenças, um não é mais elaborado do que o outro ou algo do tipo.

O que acontece é que o machismo privou durante muito tempo as mulheres do mundointelectual, excluindo-as até mesmo da educação formal básica. Dessa forma, a mulher não tinha acesso à alta literatura (ou não era o público-alvo) e até hoje sentimos isso ao vermos o que é produzido para mulher como sendo tachado de inferior só pelo público-alvo ser o feminino, não importando se o mesmo tipo de produto para o público masculino tenha a mesma qualidade.

O segundo ponto é que quando se pensa em literatura para o público feminino se pensa nesses romances açucarados, nessa busca pelo amor, ou numa mulher que tem filhos e concilia a vida profissional e amorosa de forma divertida e atrapalhada. Esse tipo de enredo reflete a educação e a cobrança que as mulheres têm de colocar o relacionamento amoroso como o principal em suas vidas, encontrar um homem e ser feliz para sempre ao lado dele é o que de maior uma mulher pode alcançar. Os livros para mulheres produzidos hoje são os mesmo contos de fada de sempre, mas com o dia a dia das metrópoles, o mercado de trabalho ou algo que dê uma cara moderna, mas a ideologia transmitida é a mesma.

Enquanto as mulheres são ensinadas que a vida amorosa é o principal para elas, para os homens o mundo está em aberto, um relacionamento é só mais uma coisa, não a principal. A partir disso, tudo o que é produzido para homens ou para mulheres seguirá essa lógica. Um livro que conta uma história de amor pode ser tão mal escrito quanto um de aventura, mas o livro de amor é para as mulheres e é como se isso justificasse sua qualidade. Um suspense será sempre um suspense, não importando o texto ou seu público-alvo. Uma história romântica de baixa qualidade será história de mulherzinha.

Apesar de que no fundo do meu coração eu deseje que as pessoas tenham uma boa formação na escola enquanto leitores, que tenham seu senso estético estimulado e desenvolvido para que possam ler e apreciar os grandes clássicos (ainda que o conceito de clássico seja um conceito de classe e não universal, mas isso é um tema para outro texto) e o que de melhor for produzido, eu acho que cada um pode ler o que quiser, quando quiser. Mas o que não pode, de maneira alguma, é usar o público-alvo desses livros para justificar sua má qualidade. As mulheres gostam de romances, como também de suspense, terror, aventuras e tudo o mais, não deveriam ser vistas apenas como consumidoras de histórias de amor. Não existe livro de mulherzinha, existe machismo.

Ana Paula Girardi

Violência Emocional

“A violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização,exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”. 1

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A violência emocional é um tipo bem comum de violência doméstica, mas não recebe tanta atenção e nem é tão divulgado por que afinal, trata-se de uma agressão que não deixa marcas corporais visíveis, mas emocionalmente causa cicatrizes indeléveis paratoda a vida.

Violência emocional tem varias formas de manifestação, dentre elas, as mais comuns são fazer o outro sentir se inferior, sentir se omisso, dependente ou culpado. O processo de manipulação da vitima começa com a destruição da sua autoestima e afastamento de pessoas que possam socorrê-la, abrir lhe os olhos para o que esta lhe acontecendo, o isolamento da vitima é fundamental para o sucesso do agressor que pretende a dominação da parceira através de manipulação.

Em um dos depoimentos que recebemos, sobre o pseudônimo de Eduarda, ela diz:

 “Ele odiava todos meus amigos (as), dizia que não confiava neles (as), que ‘aquelas pessoas’ estava jogando a gente um contra o outro, estavam acabando com nosso casamento, que ele não ia me dizer o que fazer, mas que eu deveria saber o que era mais importante para mim. Eu me sentia péssima, sofria, tinha que escolher me afastar de meus amigos (as) para manter ele no centro da minha vida, como se fosse o rei da minha vida”.

Um dos mecanismos da manipulação pode ser a chantagem emocional, uma forma de culpar o vitima por omissão. A intenção do agressor é mobilizar a outra pessoa, tendo como chamariz alguma doença, alguma dor, algum problema de saúde, enfim, algum estado que exija atenção, cuidado, compreensão e tolerância.

“Quando eu não aguentava mais todas as opressões e agressões emocionais, resolvi dar um basta na relação, ele foi procurar um psiquiatra e voltou com um diagnóstico de bipolaridade. Foi um pesadelo este diagnóstico, pois todos os erros e abusos que ele cometeu contra mim tornaram-se justificáveis apoiados nesta enfermidade, à família dele, amigos dele, amigos homens cis héteros meus e até algumas mulheres, diziam-me que eu deveria ser tolerante, e quadro da doença levava a pessoa agir mal, não era culpa dele, que eu deveria apoia-lo”.

Mas este tipo de manipulação nem sempre é ativa, não consiste apenas em fazer a teatralidade, onde busca um sentimento de piedade, sentimento este que leva a vitima a crer tem obrigação de dar suporte, existe outro método que também é usado e que atinge muito sucesso: A reclusão. Neste mecanismo o abusador se fecha mantem se recluso a seu próprio mundo, não comunica o que esta sentindo, como se não quisesse com seu mal estar incomodar ou causar brigas.

“Ele ficava por períodos longos em silêncio, não falava sobre o que estava acontecendo, me torturava com a dúvida, logo eu pensava que ele estava sofrendo e que a culpa era minha, que eu precisaria melhorar em algo que não sabia o que para que ele pudesse se abrir comigo, sair daquela situação depressiva de isolamento. O mal estar na casa era tão grande que quase poderia ser apalpado”.

A violência verbal também se encaixa ai, se você acha que para ser violentado verbalmente é necessário alguma agressão vocalizada, não… Não precisa. A violência verbal existe até na ausência da palavra, ou seja, até em pessoas que permanecem em silêncio. O agressor verbal, vendo que um comentário ou argumento é esperado para o momento, se cala, emudece e, evidentemente, esse silêncio machuca mais do que se tivesse falado alguma coisa.

Por outro lado, existem as milhares de palavras e insinuações depreciativas que podem levar a inferiorização do outro, destruindo sua segurança e autoestima.

“Eu li no Facebook dele ele conversando com outra mulher, dizendo a ela que ela era linda, ele não me dizia nada como isso havia muito tempo, ou seja, eu a companheira dele não merecia nenhum tipo de elogio, mas outras mulheres sim. Isso aconteceu em um período muito ruim da nossa relação, quando a depreciação era um ponto alto de tudo, ele dizia que não me amava mais, ou que não sabia se me amava, dizia que não sabia se queria continuar comigo, eu me sentia um lixo”.

“Um dia ele demorou muito chegar em casa, o jantar estava na mesa esfriando, quando ele chegou eu questionei a demora ao que ele me respondeu que veio em ‘passos de tartaruga’ para casa, pois não teria mais vontade de chegar, de me ver, conversar…”.

A violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.1

As ofensas morais também fazem parte deste repertório, as insinuações infundadas de que a parceira tem um amante, as criticas depreciativas sobre o corpo dela, ou ainda usar como chacota as qualidade da companheira, por exemplo, “se você não tivesse esta qualidade estaria ferrada”, “só vale a pena estar com você por que você é… (insira ai uma qualidade)”.

“Numa das discussões ele me acusou de ter um amante, ele disse ‘quem esta chupando sua buceta, Eduarda?’ Eu fiquei sem chão, fiquei sem resposta, não conseguia raciocinar, a briga acabou ali por total falta de condição emocional de responder aquela calúnia infundada”.

Todas estas situações são precursoras da violência física.

A violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal.1

Após conseguir o intento de afastar a mulher de seu grupo social, após destruir sua autoestima, sua autodeterminação, ela fica completamente nas mãos do agressor e impossibilitada de reação. A agressão física não trata se apenas daquela que é efetivada, ela pode ser subjetiva, este tipo de agressão tem um grande poder sobre desestruturação do psicológico da vitima, pois é sentido como agressão física, sem ter tocado na agredida.

“Discutimos no quintal de casa, ele ameaçou ir embora de casa e se separar de mim, ele sabia que eu não queria isso e usava esta chantagem em todas as brigas, neste dia resolvi reagir, arranquei a aliança do dedo e atirei longe, ele buscou e me devolveu ordenando que eu recolocasse no dedo. Repeti este ato mais duas vezes, atirando a aliança longe, ele na terceira vez armou um murro contra mim, me obrigando a recolocar a aliança. Ele não desferiu o murro mas me ameaçou com violência física. Após alguns dias perguntei a ele se ele teria tido coragem de me agredir, ele me respondeu que não, mas que bem que a ameaçava me colocou no meu lugar”.

“Em várias discussões ele me silenciava quebrando objetos da casa, socando portas, destruindo moveis, eu só queria que ele parasse de quebrar as nossas coisas, aquilo me deixava perplexa, não havia possibilidade de nenhum diálogo, pois se ele estava quebrando coisas dentro de casa, o que o impediria de me agredir também?”

“Estas situações abusivas acabavam com minha saúde, me deixavam extremamente ansiosa, eu descontava na comida, engordava demais, e minha autoestima só piorava, ele estava me destruindo, mas eu queria que tudo que aquilo parasse, que ele voltasse a ser o homem com quem me casei, eu não conseguia pensar mais em me separar dele, eu acreditava que não conseguiria mais construir nada nem sozinha e nem com outra pessoa, minha vida se resumia a tentar reconstruir nossa relação a dele se resumia em me destruir.”

As agressões seguem um ciclo, elas não começam do nada, a violência psicológica é a primeira arma usada pelo agressor, esta arma ficara mais sofisticada com o tempo, atingindo a mulher com violência física, neste ponto ela estará completamente indefesa, e justamente por isso milhares de mulheres demoram a reconhecer os relacionamento abusivos e ciclos de abuso.

“É muito difícil admitir que o homem que você escolheu para ser seu melhor amigo, seu cumplice, amante, companheiro… o homem que você escolheu para viver a vida do seu lado é um agressor. É muito difícil admitir o fracasso da relação, e enfrentar as acusações que recairão sobre a mulher, no caso sobre mim, se ela fracassar, fomos criadas para entender que o sucesso da relação entre o homem e a mulher deve se exclusivamente a mulher, eu sempre me lembrava de que ouvi muitas vezes na igreja que ‘a mulher sábia edifica seu lar’, isso ficava ecoando em minha cabeça como uma musica tenebrosa no repeat, tocava sem parar…”

Se você se reconhece em alguma destas situações, procure ajuda, procure suas amigas, não se deixe ser isolada, conte o que esta acontecendo, peça socorro. Se você esta isolada de suas amigas por este homem agressor, procure auxilio através das feministas que estão nas redes sociais. Mas não se cale, não permita que este abusado/agressor destrua sua vida. Liberte-se.

Outros depoimentos:

“…E começaram os cortes… as roupas, os sonhos, os princípios que ele outrora apoiara, agora eram motivos de brigas e insultos, os amigose até mesmo meus desenhos e meu trabalho (que nunca foram valorizados). Os ciúmes dele eram sempre justificáveis: eu sempre havia feito algo que o deixava inseguro. Os meus? Loucura, claro. Ele tinha princípios, eu não.”

1-     Formas de violência contra a mulher: <http://www.cnj.jus.br/programas-de-a-a-z/pj-lei-maria-da-penha/formas-de-violencia> Acesso em 02/04/2014.

Verinha Dias, bióloga, amante de felinos, gorda, gayzista, feminazy da esquerda revolucionária, Marxista, Leninista,Trostskista e Morenista. Profundamente convencida de que ser radical é ir as raízes do problema.

Guest Post: Relato de Relacionamento Abusivo

O texto a seguir é um relato enviado por uma de uma de nossas leitoras.

Enviem seus depoimentos também através do email: feminismosemdemagogia1@gmail.com

Os nomes jamais serão divulgados por questões de sigilo e segurança.

Pedimos por gentileza, que os enviem unicamente pelo email. O Facebook não é um ambiente seguro, podendo ser facilmente hackeado e trazer riscos ao sigilo e segurança de todas as companheiras.

Grande abraço, e segue o relato:

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“Bom dia,

Queria deixar um relato e uma dica para muitas mulheres sobre o machismo que já vivi… Se desejarem publicar meu relato tudo bem, só peço que mantenham o anonimato.

Obrigada, bjs.

Bom, “como de costume”, sou assediada frequentemente na rua, não posso sair a noite para não ser roubada/estuprada/morta/esquartejada…

Não preciso nem comentar sobre o que já tive que escutar… aqueles “belos elogios” que toda “mulher que se preze adoraria ouvir”, ahhh, vocês sabem do que estou falando… coisas como: “E ai gostosa…” “Nossa, queria ser esse sorvete”, “Tenho coisa melhor pra você chupar”, “Nossa, já ta indo embora?” (isso de um “armário” de dois metros que chegou tão perto que quase me prensou na parede) e por ai vai…

Já tive o desprazer de ser parada na rua por um cara de moto que me mostrou o pênis, primeira vez que eu vi um, depois disso perdi qualquer desejo sexual. Ainda tive que escutar de uma pessoa que deveria me apoiar que foi por eu estar usando short naquele dia (eu normalmente só uso calça, e sabe porque? Porque eu não tenho aquele belo corpo das modelos de revista… mas graças a Deus e ao feminismo, atualmente eu me acho muito mais bonita do que qualquer modelo photoshopada de revista, do jeitinho que eu sou!)

Quando vou a um restaurante e peço carne mal passada e meu acompanhante pede bem passada, automaticamente o garçom serve a carne mal passada para ele. Se eu peço um vinho e ele um refrigerante, automaticamente o refrigerante é meu, afinal eu sou uma mocinha, não posso gostar de bebida.

Quando terminei com um namorado, porque estava gostando de outro cara, tive que saber que um amigo desse meu ex (obviamente que aquele covarde falou pelas costas) falou no NOSSO grupo de amigos “Que vadia mal comida. Espero que não tenha traído meu amigo.”

Atualmente, estou me descobrindo, nunca me encaixei nesse perfil conservador que a sociedade defende, já namorei 4 vezes em 3 anos e nunca deu certo, no inicio eu gostava dos caras, mas depois de um tempo virava um martírio pra mim, então eu comecei a aceitar a ideia de que eu não gosto de namorar, ser presa a alguém não me agrada, dar satisfações a alguém, isso me soa muito chato! E então eu conheci o conceito de “poliamores” e me identifiquei muito com isso, me parece muito mais bonito viver a vida assim do que sendo possessiva sobre alguém e deixando alguém ser “meu dono”. Sou muito mais feliz depois que assumi essa ideia.

Pra piorar as coisas, minha irmã é exatamente esse tipo de pessoa, certinha (segundo a sociedade) quadrada que faz tudo certo, que tem que conseguir um homem com dinheiro, mas ela também tem que ter dinheiro, para os dois viverem muito bem, tem que fazer sexo só depois do casamento e por ai vai… Bom, ela começou a namorar um cara, ele é muito gente boa, só que o pai dele é pastor, então ele e a irmã dele tem uma visão muito fechada de que você deve namorar alguém muito tempo, casar e só perder a virgindade depois. Quando saímos, eu, minha irmã, o namorado dela, a irmã desse namorado e o namorado dela (dessa irmã), eles olham pra mim com pena, com pensamentos do tipo: “Coitada, não consegue parar em um namorado só, não consegue dar a sorte que nós demos de achar alguém pra vida inteira”. Disso pra pior… já sofri muito com isso, por não conseguir me enquadrar no padrão que a sociedade impõe, mas hoje eu penso: “Eles nunca me perguntaram se eu quero isso pra mim!”, mas eu também nunca me perguntei, e quando perguntei a resposta foi perfeita: “NÃO, eu não quero isso.” Eu passei a vida inteira buscando errado, hoje sou muito mais feliz sendo só minha.

A pouco tempo, tive um encontro com familiares que não via a muito tempo (não são pessoas que me agrado em chamar de família), eu e meu pai nos encontramos com a irmã dele (minha tia) e o marido dela. Para meu “agrado” o marido dela deu em cima de mim, ficava me abraçando e me “comendo” com os olhos. Me passou cantadas pelo facebook e fui obrigada a bloquear ele, contei pra minha mãe e ela ficou com muita raiva, quando meu pai soube sobre isso, disse que não tinha percebido o assédio e eu fui obrigada a escutar dele: “Filha, eu não percebi nada não. Mas eu também não posso fazer nada, você já é maior de idade.” (e esse pai ainda espera algum respeito de mim…).

Mas o que eu queria relatar mesmo, vem agora… Quero deixar isso como lição para muitas mulheres:

Eu namorava um garoto, nos dávamos super bem, mas como eu já disse antes, depois de um tempo ficou sem graça (pena que eu não entendia que o problema era que eu não queria namorar) me apaixonei por outro garoto, terminei com o meu namorado e comecei a ficar com esse garoto.

- Ele me chamou pra almoçar na casa dele, conhecer os pais quando ainda só estávamos ficando, eu aceitei, e quando estava conversando com a mãe dele, descobri que ele já havia falado para ela que estávamos namorando, antes mesmo de me pedir. E se eu não aceitasse namorar? Ao meu ver, foi o primeiro abuso dele.

- Ele me pediu em namoro, mesmo eu não querendo namorar ainda na época (por ter acabado de sair de um relacionamento), ele falava coisas do tipo “mas eu quero você, quero te namorar, te apresentar pro resto da minha família pros meus amigos, quero que você seja minha”, quando viu que eu realmente não queria, começou a pressionar com frases do tipo: “Você ainda gosta do seu ex né?”, “Você não quer que os outros saibam que estamos juntos.” “Sinceramente eu estou muito magoado por você não querer expor nosso relacionamento. Eu não mereço isso.” “Eu sempre deixei claro que queria algo sério.” Como eu estava apaixonada (pela primeira vez eu tinha gostado tanto de alguém, até pensei que daria certo) eu aceitei. Segundo abuso.

- Começamos o namoro como um “casal normal”, íamos ao cinema e outros lugares, mas ele falava que não gostava dessas coisas, detestava cinema, então fomos parando de ir aos poucos e quando me dei conta, eu (a idiota) ia todo final de semana pra casa dele e ficávamos assistindo televisão. Terceiro abuso.

- Para piorar essa situação onde eu era a única que fazia algum esforço no relacionamento, ele SABIA, que eu ODEIO assistir televisão, essa é uma prática que eu não tenho na minha vida, eu acho uma coisa muito chata e mesmo assim ele nunca tentou me levar pra passear, nem se incomodava com isso. Aliás, eu fazia de tudo pra não parecer entediada, e quando ele percebia que eu tava entendiada, ele falava coisas do tipo: “Poxa amor, você ta aqui comigo, vai ficar com essa cara? Eu não mereço isso não!”. Quarto abuso.

- Como eu ia de ônibus para casa, meu horário de ir embora era sete horas da noite, ele começou a reclamar, disse que era muito cedo e falava que eu não estava me esforçando tanto no relacionamento. Disse que eu deveria ficar e ele me levaria até em casa. Comecei a chegar em casa, dez, onze horas da noite. Quinto abuso.

- Após um tempo, ele começou a me deixar ir onze horas da noite pra casa sozinha, pra ele sair pra comer com os amigos. A desculpa dele era que ele já passava tempo demais comigo, me dava atenção (por mensagem) a semana inteira e aquele era o tempo que ele tinha pra ficar com os amigos. Sexto Abuso.

- Ele passava a noite acordado conversando com os amigos, e só acordava no outro dia, duas horas da tarde, eu tinha que ir até a casa dele pra acordar ele, senão não nos veríamos no final de semana. Ele nunca tentou nem mesmo acordar cedo ou combinar qualquer coisa comigo pelo nosso namoro. Sétimo abuso.

- Enquanto ele saia quase todo dia com os amigos, eu só sai uma vez com um grupo de amigos (homens e mulheres), quando voltei, ele deu um surto de ciumes. Quando eu saia com meu melhor amigo, ele odiava, falava que o menino não prestava e mais varias coisas. Oitavo abuso.

- Ele não me deixava falar com meu ex namorado (nós somos ótimos amigos e nos damos muito bem até hoje), ele dizia que isso não era normal, que se você termina com uma pessoa você não deve ficar conversando com ela. Nono abuso.

- Fizemos sexo. E eu adorei. Perdi aquele nojo que eu tinha por causa do motoqueiro. O problema é que eu adorava, e ele não aceitava isso, era nítido que o fato de eu adorar fazer sexo incomodava ele. Pra ele, eu deveria servir a ele quando ele quisesse sexo, eu não poderia querer. Décimo abuso.

- Ele nunca me achou inteligente, ele negava isso com todas as forças, não aguentava o fato de ter uma namorada que sabia mais matemática e física do que ele. Aliás, ele achava todos os amigos homens dele, mais inteligentes e dedicados do que eu. Décimo primeiro abuso.

- Ele tentou me fazer mudar de curso na faculdade, pois no meu curso só tinha homem e isso incomodava muito ele. Décimo segundo abuso.

- Ele sempre me falava o quanto eu era sortuda por ter um namorado tão carinhoso e nada ciumento ao passo que eu era tão ciumenta e quase nunca pensava nele quando tomava alguma decisão. Décimo terceiro abuso.

- Ele sempre me julgava, falava que eu era imatura, que eu julgava as pessoas, sempre tentava me dar uma lição de moral. Isso porque ele não levantava nem pra pegar um suco na sua própria casa, quem fazia tudo era a mãe dele. Décimo quarto abuso.

- Ele não me deixou sair com um amigo meu que eu não via a séculos pra almoçar, segundo ele, íamos parecer um casal. Décimo quinto abuso.

- Ele começou a reclamar das minhas calcinhas, eram grandes demais. Não dava para ele sentir tesão assim! poxa!.( e uzomi ?!?!) Décimo sexto abuso.

- Ele nunca me elogiava em nada, nada que eu fazia era bom o suficiente para ele, por mais que eu tentasse. Décimo sétimo abuso.

- Depois que ele gozava, não importava mais se eu ainda não tinha sentido prazer ou não. Nunca tive um orgasmo. Décimo oitavo abuso.

- Depois que eu reclamei que ele não me dava prazer no sexo, porque ele só pensava no prazer próprio, ele me disse que eu colocava sexo em primeiro lugar de tudo e que não podia ser assim. Décimo nono abuso.

- Ele brigou comigo para me desestabilizar emocionalmente antes de todas as provas de vestibulares que eu fiz. Vigésimo abuso.

- Ele sempre procurou qualquer indício de traição, principalmente com o meu ex, mesmo eu tendo terminado com meu ex porque gostava dele. Vigésimo primeiro abuso.

- Ele disse que eu deixei meu facebook aberto no celular dele, então ele leu todas as minhas conversas para ver se eu estava cortando da forma correta todos os garotos que se aproximavam de mim. Vigésimo segundo abuso.

- Ele encontrou uma conversa onde um garoto falava muitas coisas nojentas pra mim, e eu simplesmente não cortava, só deixava ele falar, (esse menino da em cima de mim a 6 anos, eu sempre cortei ele, e ele sempre consegue aparecer na minha vida de novo, eu simplesmente cansei de cortar ele e só deixei ele falar.) Ele me acusou de traição. Vigésimo terceiro abuso.

- Ele salvou essa conversa e mostrou para alguns amigos dele, que eram meus amigos também, alegou que foi pra ter uma opinião deles, se era traição ou não. Vigésimo quarto abuso.

- Quando eu disse que ele tinha sido um filha da puta por ter mostrado MINHA conversa pros NOSSOS amigos, ele disse que ele era um homem bom, de verdade, que eu tinha dado sorte que ele só brigou e terminou comigo, porque ele poderia ter postado as minhas fotos íntimas e não postou. Vigésimo quinto abuso.

- Como eu era muito idiota, apesar de tudo eu ainda tentei voltar com ele pedi desculpa por isso, pois não foi minha intenção, ele me mandou ir pra cama daquele menino porque era isso que eu realmente queria. Vigésimo sexto abuso.

- Apesar de tudo, eu ainda voltei (acreditam?!?! hoje em dia nem eu acredito!), e ficamos até bem por um tempo, mas ele nunca mais confiou em mim. Qualquer briguinha era motivo para ele falar: “Mas eu não te dei motivos pra desconfiar de mim, você me deu.”. Vigésimo sétimo abuso.

- Ele não quis reassumir o namoro no facebook (ficou enrolando, falava que já tínhamos voltado só precisávamos conversar sobre isso antes de colocar no facebook de novo), porque os amigos (DA ESCOLA) dele acreditavam que eu tinha traído ele, então ele seria um corno manso se voltasse comigo, mas ele me exibia como um troféu pros amigos (DA FACULDADE) porque esses não sabiam de nada. Vigésimo oitavo abuso.

- Ele não excluiu nossas fotos até hoje, ainda me exibe como um troféu, e ninguém sabe que terminamos. Vigésimo nono abuso.

- Ele veio me comunicar (exatamente, ele não perguntou o que eu achava, simplesmente falou que iria) que iria para Salvador com dois amigos solteiros pra uma micareta, mas que não iria ficar com ninguém, estava indo para curtir o show. Quando eu não concordei, ele disse que eu deveria confiar nele pois ele não tinha me dado motivo pra desconfiar, eu sim… (isso de um cara que não me deixou almoçar com um amigo, porque pareceríamos um casal…).

Esse não foi o trigésimo abuso, esse foi o término do nosso namoro.

Eu cansei de sofrer com esse idiota, ele era estupidamente machista, mas ele se achava o maioral, pra ele tudo que ele fazia era certo. Ele nunca me machucou fisicamente, mas emocionalmente ele me destruiu.

Como eu era uma adolescente super apaixonada eu aguentei tudo, e quando eu tentava falar sobre algo, ele sempre virava o jogo contra mim, me fazia achar que eu estava vendo coisas aonde não haviam que eu estava ficando louca e que ele era realmente o bonzinho da situação. E se eu não terminasse? Até onde isso iria? Provavelmente eu casaria com ele, cuidaria da casa, e seria espancada todos os dias enquanto ele sairia pra transar com outras mulheres, faria parte das estatísticas. Enquanto estava namorando, eu perdi minha autoestima, ficava sempre triste ou mal humorada, me achava burra, feia e muito mais coisas, e o pior, achava que precisava dele pra viver, que não aguentaria ficar sem ele. E eu sei que muitas mulheres passam por isso, o que eu posso dizer é:

Foi extremamente difícil no inicio do término, eu chorei muito, emagreci, tive alterações bruscas de humor constantemente, e fiquei muito mal, MAS PASSOU. Hoje eu sou muito mais feliz do que eu era. E isso é muito bom. Eu queria que as mulheres que ainda não tiveram a coragem de fazer isso entendam: FAÇAM ISSO! É a melhor coisa do mundo! Talvez ele não te bata, e faça parecer que ele é ótimo, mas no fundo isso está acabando com você, e mesmo que o mundo te chame de maluca por isso, acredite em você mesma, se você está sentindo que é isso, é porque É ISSO!”

Stephanie, 22 anos, tatuada, maconheira, feminista e estudante de Psicologia. Acredita plenamente no vandalismo e na liberdade sexual da mulher.

O Feminismo precisa das mulheres Trans

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Em primeiro lugar, quero esclarecer que eu sou uma mulher cis e escrevo esse texto principalmente para mulheres cis, embora considere que as mulheres trans também possam dele extrair algumas ideias e argumentos importantes. Minha intenção aqui é abrir debate com as diversas correntes, coletivos e organizações feministas para de uma vez por todas superarmos as divergências sobre um ponto crucial em nossa atuação feminista: a presença de mulheres trans em nossos fóruns auto-organizados.

Para tal fim, recorro mais à memória de argumentos já ouvidos do que à teorização sobre o assunto, embora ache que dou conta das principais dificuldades que aparecem nos debates sobre o tema.

O primeiro argumento que ouvi sobre isso, e que descarto com relativa facilidade, refere-se ao tipo de questões que as mulheres trans precisariam discutir, que sua presença faria o movimento feminista perder o “foco”. Bom, entre as mulheres cis há diversidade o suficiente para que tenhamos que ter múltiplos focos, e defendo inclusive a necessidade de o feminismo ser interseccional. Nesse sentido, lutaremos contra o racismo com as mulheres negras, contra a lesbofobia com as lésbicas e, por que não, contra a transfobia com as mulheres trans. E se há assuntos que precisaremos discutir que não competem diretamente a essas mulheres (como o aborto e a maternidade, que, aliás, não competem a muitas mulheres cis também, como a diversas lésbicas), há outros assuntos em que a voz das trans é fundamental, como a prostituição, a violência machista e a superexploração do trabalho feminino. Aliás, a transfobia contra mulheres trans é machista: significa que a sociedade vê como uma vergonha ou aberração alguém se entender como mulher, de forma contrária à sua criação.

Outra questão, mais delicada, apareceu para mim formulada nos seguintes termos: “devido à sua socialização masculina (na infância/juventude), as mulheres trans tendem a monopolizar as falas em reuniões e se impor sobre as outras mulheres”. Vejamos isso com mais cuidado. Antes de tudo, é importante não generalizar esse elemento, cada mulher trans passou por diferentes processos antes de sua transição. Por outro lado, me refiro a um texto de uma mulher trans americana para pontuar alguns argumentos[1]. Trata-se de uma mulher que transicionou cedo e chegou à vida adulta já plenamente assimilada (nas suas próprias palavras).

Em primeiro lugar, a autora reconhece que teve uma processo de socialização (educação/criação) menos depreciador do que o das mulheres cis[2], tendo criado mais confiança em suas capacidades intelectuais e independência em relação ao corpo. Para nossa discussão pareceria, portanto, plausível o argumento de que mulheres que não passaram pelos traumas da infância/juventude feminina tenderiam a ser mais confiantes e, em alguns casos, impor-se sobre as outras. A própria autora do texto defende espaços auto-organizados só para mulheres cis[3].

Me arriscarei, no entanto, a discordar dessa conclusão da autora, usando seus próprios argumentos subsequentes para isso. A autora, embora seja jovem, já passou pelo processo de transição há cinco anos, e descreve esse processo como um crescente de falta de confiança, maior timidez e violência[4]. Isso significa que, apesar da socialização, essas mulheres sofrem machismo e sofrem cada vez mais na medida em que a sociedade a sua volta as reconhece como mulheres. O movimento feminista precisa estar com elas.

Nesse ponto, ainda, cabe refletir sobre o conceito de “privilégio cis”. Digo refletir porque de fato acho que ronda certa confusão sobre essa ideia, uma vez que há duas acepções diferentes para a noção de “privilégio”. Uma delas, reivindicada muitas vezes para afirmar que não existe “privilégio cis”, é a de que privilégio exige que um grupo exerça poder sobre o outro, se favoreça da subordinação de outro grupo. Nesse caso as mulheres cis não teriam privilégio sobre as trans. Obviamente, porém, também não se poderia dizer que a socialização masculina é um privilégio das mulheres trans.

Outra acepção de privilégio, no entanto, pode tornar as coisas mais claras: a relação de privilégio não depende da relação de um grupo sobre o outro, mas dos grupos que são ou não favorecidos por um sistema de normatividade. Nesse sentido, assim como a mulher heterossexual não exerce poder sobre a lésbica, mas é favorecida em todos os espaços sociais por adequar-se à heteronormatividade, também a mulher cis, embora não tire vantagem direta da transfobia contra as trans, é privilegiada por ser considerada “normal” e ser reconhecida pelo próprio gênero.

Superadas essas questões, ainda há uma última argumentação contrária à presença das mulheres trans no movimento feminista (percebe-se que aqui eu não me detive em me contrapor a discursos de ódio biologizantes que podemos ouvir por aí, mas apena a dúvidas mais ou menos bem intencionadas de mulheres cis que nunca entraram em contato com o debate sobre as mulheres trans.)

Já ouvi de algumas feministas que a presença de mulheres trans nos nossos espaços reforça os estereótipos de gênero. Eu entendo isso no sentido de que as trans vão querer defender os direitos de usar salto alto, colocar silicone, usar maquiagem, fazer depilação, quando muitas vezes as mulheres cis sentem essas coisas como imposições. Confesso que até pouco tempo considerava esse argumento apenas  vazio, até porque o movimento feminista não deve realizar ingerência sobre o corpo de ninguém, de forma que se uma mulher cis quiser se maquiar, se depilar e por silicone o máximo que se faz é colocar a questão de se a mulher faz isso se submetendo ao desejo masculino.  Lendo um texto de outra mulher trans, no entanto, cheguei à conclusão de que combater esse argumento é importante não só para as mulheres trans, mas para o movimento feminista em geral:

“Reforçar estereótipos de gênero é especialmente atacado por transfeministas. Pois somos nós, pessoas trans, que somos institucionalmente obrigadas a conformar a eles de uma forma que dificilmente afetaria a maioria das mulheres cis. Se encaixar em estereótipos de gênero não é pauta teórica e discussão metafísica para pessoas trans. É condição sine qua non para termos nossos corpos e identidades respeitados, para termos acesso a tratamentos médicos, para não sermos assassinadas. Estereótipos de gênero são a única via para que possamos ter qualquer esperança de manter alguma integridade física e mental numa sociedade cisnormativa e patriarcal.”5

Considero que esse trecho deixa a reflexão de que a luta contra estereótipos de gênero só pode ser reforçada com a presença de mulheres trans no movimento. E se até aqui eu apenas combati argumentos contra a presença de mulheres trans nos espaços auto-organizados do movimento feminista, ainda falta esclarecer por que considero essa presença não apenas adequada, mas também necessária:

A história do feminismo é constituída por diferentes concepções sobre o que é “ser mulher” , e a prática relacionada a essas concepções. Se num primeiro momento buscava-se pensar e lutar para que a mulher tivesse iguais direitos civis em relação ao homem, logo  isso tornou-se insuficiente quando passamos a entender que a desigualdade de gênero ultrapassa a falta de diretos civis, mas depende de todo um sistema patriarcal, do qual o capitalismo se aproveita para superexplorar o trabalho mulheres. Por isso, constituir o feminismo a partir de uma “identidade feminina”, pode ser um problema justamente por não questionar as bases de tal identidade. Atualmente, há casos em  que o feminismo vê uma identidade positiva nas mulheres baseada um sua condição biológica, e vê a opressão ocorrendo principalmente nesse nível biológico. Em todos esses casos de constituição de identidade positiva, o feminismo não consegue se desenvolver como verdadeiramente interseccional.

Precisamos das mulheres trans, em primeiro lugar, porque precisamos das mulheres em geral, de cada uma delas, com suas experiências e diversidade. Mas não só isso, precisamos das mulheres trans para nunca esquecermos que ser mulher não é uma identidade definida positivamente, ou características definidas que nos igualam. Na nossa sociedade em geral ser mulher significa antes de tudo que somos oprimidas diariamente pelo machismo. O patriarcado capitalista tem efeitos diferentes sobre as mulheres cis e trans, brancas e negras, heterossexuais e lésbicas, mas tem efeito sobre todas nós enquanto mulheres. Ser mulher é uma identidade negativa, ou seja, que não se constitui por nossas características comuns, mas por nossa opressão em comum. Ser feminista, nesse sentido, é assumir que nossa própria existência de mulheres desafia todo o sistema de exploração e opressão.


[2]             As a young boy I was consistently praised for my intellect and encouraged to pursue academics, and I never had it instilled in me that I was an ornamental object whose sole purpose was to submit to and please men. I was never taught that my body was not my own or that my thoughts and feelings were irrelevant, and thus I was shielded from the trauma that often characterizes the experiences of women in their childhoods and teen years. In my early teens I was even praised for my performance of femininity because it was supposedly more artfully executed than that of my female friends, who on numerous occasions told me that I made them feel insecure by being “better at being a girl” than they were. Ultimately I developed a kind of warped superiority complex: I hated myself, but I still felt as though I was somehow worthier than the girls in my peer circle because I bought into the idea that I was both smarter and prettier than they were.

[3]             I will always support female only spaces because I strongly believe that those who are forced to contend with destructive female socialization deserve to be able to heal away from those who were male socialized, and I believe that it is clear that male socialization often does impact the behavior of trans women post-transition, particularly when they are not passable

[4]             My experience and the experiences of numerous other transsexual women demonstrate that, for us, assimilation very often means bending to systemic misogyny, and thus the dissipation of many of the effects of male socialization

5          http://feminismotrans.wordpress.com/    – Feminismo radical e Feminismo trans