O efeito Bolsonaro e o governo de Marco Feliciano

ImagemHá alguns anos (não sei mais quantos), Jair Bolsonaro, político, pai de família, homem de deus, homofóbico, machista, racista mal educado e levemente misógino, saiu do status de ser humano completamente ignorado para o defensor da moral e dos bons costumes. Tudo isso graças a grande média mídia, que resolveu que seria uma boa idéia dar espaço para um preconceituoso destilar seus preconceitos.

Muitos acharam que não daria nada, que após conseguir pontos de ibope e causar polêmica, o senhor Vossa Excelência seria esquecido e ignorado, voltando ao status ao qual originalmente pertencia: ao nada. Eu, contudo, nunca imaginei que isso ocorreria. Eu sabia, junto com muitos outros, que a partir daquele momento abriu-se a caixa de Pandora. A escória, os reaças,  os adoradores do politicamente incorreto, os homofóbicos, os machistas.. finalmente eles tinham seu representante.

Eu não sou ingênua a ponto de achar que foi apenas a participação do Bolsonaro no CQC que desencadeou a onda de blacklash que vivenciamos hoje. Num país laico onde a descriminalização do aborto sequer entra em pauta por conta da existência de uma bancada evangélica forte, é gritante que tem algo muito errado.

Agora sim, eu acredito que o evento Bolsonaro deu voz a onda reacionária que tem nos atingido desde 2011.

Bolsonaro deu voz a uma classe que deveria ser calada. O fato de o deputado destilar seus preconceitos em horário nobre, na mídia, dando sua cara para bater, deu coragem aos covardes. Agora todo o preconceituoso aprendeu que seu preconceito pode ser verbalizado, desde que você saiba contra quem direcioná-lo e que palavras usar para não ser enquadrado como criminoso. Agora todo o reaça se sentiu representado. Eles possuem seu jedi, seu homem honrado, seu Goku, um homem íntegro que defende a humanidade da ditadura gayzista, das feminazis e dos petistas, este lado negro da força, que, na cabeça desta escória, domina o atual mundo moderno.

Bolsonaro ganhou espaço, divulgou idéias, angariou seguidores e acima de tudo, encontrou pessoas que se identificam e compram suas filosofias. E aí amigos, foi aí que a merda fedeu. Se ainda não havia uma organização reacionária por conta da falta de um representante disposto a tomar as pedradas do politicamente correto, pois bem, agora esse problema foi resolvido. Parabéns CQC, parabéns Marcelo Taz, parabéns grande mídia. Ceis são demais.

Dois ou três dias depois da famigerada entrevista, tivemos o caso de homofobia no vôlei. Alguns dias depois, um blogueiro esportivo, completamente equivocado, destilou toda a sua homofobia e senso comum. Dias depois, começou os ataques e agressões físicas contra gays, homens que pareciam gays, acusações de estupro contra um homem gay por conta de um beijo em um cinema e obviamente, a omissão dos presidenciáveis na questão da descriminalização do aborto, já que Jesus não gosta.

Enquanto isso, moças se matam por conta de estupros sofridos, acusações de estupro são arquivadas sem a devida investigação, mulheres são impedidas de abortarem para salvar sua vidas, a homofobia ainda não é crime e a misoginia também não. Mas não, não tem nada a ver com o Mr. Bolsonaro e seus adoradores. A culpa é do sistema.

Sei.

O sistema nada mais é do que um reflexo daqueles que estão no poder. E meus caros, a bancada evangélica, que perdeu o medinho desde que o Bolsonaro apareceu na mídia, está no poder. Antigamente, Crivellas, Edir Macedos e Cia Ltda. trabalhavam na surdina, tentando ao máximo não darem voz a sua luta contra gays e mulheres. Hoje em dia, como o medo se perdeu e a garantia de impunidade está visível a quem quiser ver, a turma do “Jesus te ama desde que você não seja gay nem faça sexo” botou as garrinhas de fora.

E cá chegamos, finalmente, a Marco Feliciano.

Não falarei da eficácia da CDHM como órgão do governo. Não vem ao caso, pelo menos não neste texto. O ponto é que esta comissão, mesmo que fosse apenas algo inócuo, tinha representantes com algum respeito. Ou pelo menos não tinham representantes altamente preconceituosos, como seu atual presidente, que tem a capacidade de dizer que negros são amaldiçoados e que gays não são normais.

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O fato de Feliciano ser o presidente da CDHM até o momento me apavora.

Me apavora porque significa que estamos a dois passos de termos nossos direitos civis negados. Estamos dois passos de termos o Estatuto do Feto aprovado, decisões do STF anuladas e talvez estímulos para mulheres não serem mais contratadas no mercado de trabalho. Estamos dois passos de vivermos em um país evangélico, não laico. E falo isso porque se a bancada evangélica conseguiu EMPURRAR um senhor desses na CDHM, sabendo que seus ideais são opostos aos que uma comissão de direitos humanos e minorias deveria defender, tenho medo do que eles nos farão engolir e aceitar mais a frente.

Obrigar o senhor Feliciano a renunciar não se trata de mero protesto. Não se trata apenas de preservar a CDHM. Se trata mais do que tudo de dizer que não, não vamos aceitar as barbaridades que o grupinho evangélico tenta impor a sociedade. Que nos revoltamos, que nos aceitamos e que os crentes podem até ser maioria na sociedade e no povo, mas eles não definem o destino das minorias.

Se trata de impor limites, se trata de um ensaio para as revoltas que teremos de fazer no futuro. Significa muito mais do que apenas impedir que um ser humano perverso e nojento assuma esta comissão.

Então protestemos. Contra a corrupção, contra o Renan, contra Feliciano, contra Bolsonaro, contra o Malafaia, contra todos que nos oprimem e tentam nos impor suas ideologias goela abaixo. Não podemos nos calar. O silêncio, nesse caso, afeta muito mais do que as minorias atacadas por Feliciano. Afeta a todos nós. Nosso direito, nossa liberdade, nossas escolhas, nossas vidas.
Causar a renúncia do Feliciano é apenas uma resposta a uma bancada dizendo NÃO, NÓS NÃO VAMOS ENGOLIR VOCÊS, SEUS DOGMAS, SEU DEUS, SEU ÓDIO. Simples assim.

Obs: eu sou um ser humano extremamente insignificante e normalmente jamais acharia que qualquer coisa que eu escrevo chamaria a atenção, mas já que seu Infeliciano gosta de prender manifestantes, como o Sr. Taz gosta de ameaçar feministas de processos e como os demais citados neste texto são babacas por natureza, caso alguns dos envolvidos tenha o desejo insano de me processar por calúnia, injúria, difamação, reparação de danos ou o que mais seus corações ansiarem: por favor, façam isso. Eu adoraria vê-los tentar. ❤

Texto: Samantha Pistor

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3 respostas em “O efeito Bolsonaro e o governo de Marco Feliciano

  1. Excelente texto! Realmente temos começar a tomar a mesma inciativa deles e colocar dentro do parlamento, senado e tudo mais, gente pra brigar por nós.

  2. Então…li seu texto e gostei…gostei da forma como você concatenou as ideias e, ainda que eu não concorde integralmente com o ele, o achei corajoso e, sobretudo, sanguineo, mas também me posiciono contrariamente a algumas das suas ideias, eu cito, não concordo com o que considera o direito ao aborto, acredito que as mulheres tenham o direito a não-gravidez, isso sim é uma atitude consciente e engajada, ora, se não quer filhos, para quê tê-los? Quanto às igrejas evangélicas, como evangélico, posso afirmar que o discurso de alguns pastores nada mais são do que a manifestação do profundo despreparo de alguns seres humanos. Hoje, por exemplo, como dormi muito cedo no sábado, acordei às sete da manhã e assisti a um desenho inspirado nas histórias bíblicas, tratava-se da cena em que Cristo desconstruía a ideia de que homens e mulheres de bem poderiam atirar pedras em uma adúltera por considerá-la hipócrita e ilegal. Entretanto, quando um homem e uma mulher estão no recôndito de seu lar, no clímax de uma discussão, após ele ter tomado algumas cervejas e ela engolido alguns sopapos, é pouco provável que entre um grupo de feministas e garanta a integridade física dela. Sempre ouço e leio que as mulheres não podem se sujeitar, que devem denunciar, mas ouço e leio poucos artigos dizendo que as mulheres devem se preparar melhor para a vida, que devem refinar as suas escolhas e, desta forma, evitar casamentos ou uniões mal sucedidas. Ora, uma boa conversa com um ginecologista e um metódico método anticoncepcional podem salvar vidas, a da mulher e a do semi-ser que você chamou de feto. Por que a gente ainda prefere que a mulher leve porrada na cara para conseguir se des-vencilhar, des-amar, des-prender do seu algoz que outrora era o seu amor e que poderia ter sido o pai do filho que ela teve de abortar por se sentir ameaçada e despreparada para criar? Entendo que esses posicionamentos sejam retrógrados! Entendo? Não sei se entendo, há vinte anos, quando eu ainda era um feto intelectual, a novela vale tudo trouxe o casal lésbico Lala Deheizelin e Cristina Prochaska que pretendia ser revolucionário, descortinador de preconceitos, mas mal serviu para alavancar a carreira da Prochaska. Temas polêmicos vêm e vão, o que a gente precisa fazer é a diferença, como botar a cara para fora da janela e se preparar para a luta, se instrumentalizar, buscar saber mais dos dispositivos legais, se organizar em grupos e, quando algum homofóbico,
    machista e teocrata vier à tona, devidamente conscientes e preparados, eu, você, a minha amiga Aline Prando Reis talvez possamos nos levantar contra esses caras do mal.

  3. Me dei conta do quão careta e hipócrita é a nossa sociedade,nosso país! Em fóruns de discussão sobre liberação do casamento gay,pude notar que ainda há um discurso muito grande sobre “resgate da moral e dos bons costumes”.Pude notar isso nas redes sociais,tais como Twitter e Facebook,onde há várias comunidades apoiando Marco Feliciano!

    Duvido muito que o casamento gay seja aprovado! O brasileiro ainda pauta muitas coisas com base na religião e isso não se pode mudar de uma hora pra outra!

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