Gordofobia em Questão

Por Samantha Pistor:

Muito se fala hoje da chamada gordofobia. Ao contrário do que o nome sugere, gordofobia não seria apenas o ódio contra gordos, mas sim uma forma totalmente bully de zelar pelo corpo e saúde de outrem. O gordofóbico não odeia o gordo (necessariamente). Ele “se preocupa” com o fato de o gordo ser gordo, e tenta, seja por meio de conselhos filosóficos, seja por meio de ataques, mudar os hábitos da pessoa em questão.

Todo gordofóbico pensa que com seus conselhos, suas dicas de dietas, seus xingamentos, ele na verdade está ajudando a pessoa gorda. Para os gordofóbicos, nenhum gordo pode ter autoestima e muito menos ser feliz. Gordos felizes não existem: ou eles fingem ou na verdade não sabem dos malefícios que estão sofrendo. O gordofóbico se vê como um salvador, que usa de todos os artifícios possíveis para salvar as pobres almas gordas perdidas.

O que eu sempre me perguntei, desde muito tempo, era da onde havia nascido o mito que gordos são necessariamente infelizes. Da onde veio a informação de que gordos, especialmente mulheres gordas, seriam obrigatoriamente frustradas. E porque pessoas, familiares ou completas estranhas, tem como objeto patrulhar de forma incessante o corpo alheio.

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Como todo e qualquer preconceito, a gordofobia foi uma construção social. Inicialmente, a gordura foi vista como indesejável porque o mercado, esse lindo, precisava vender produtos que visam melhorar os corpos. E sem pessoas insatisfeitas com sua aparência, o produto não vende.  Simples assim.

Mas, além disso, a grande mídia ajudou e ajuda muito na construção da imagem que as pessoas têm a respeito dos gordos. Não só vendendo a gordura como indesejável para fomentar o mercado, mas também criando estereótipos e visões de como são as pessoas gordas. Ou simplesmente deixando esta parcela da população em branco.

Quem consome produções americanas, novelas e seriados, entende do que estou falando. Para começar, em quantas produções temos personagens principais gordos? E quantas dessas produções não são comédias?

Pois é.

Não bastasse isso, quando o gordo aparece em algum roteiro que não seja o núcleo cômico, seu papel já é bem definido.

Normalmente a mulher gorda é uma pessoa amargurada e triste, além de ter inveja do corpo escultural da irmã/parente magra, que é adorada pela família. O sonho desta personagem é emagrecer ou arrumar um namorado. Seu final feliz se dará com a perda dos quilos extras ou quando ela encontrar um homem para chamar de seu, mesmo sendo gorda.

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O homem gordo normalmente é casado e começa a sofrer pressão da esposa para emagrecer. Pode também emagrecer para conquistar alguém, seu sonho de consumo. Seu final feliz se dará ou com a perda dos quilos ou com a aceitação de sua companheira, que declarará que o amará apesar de gordo. E a vida segue.

Adolescentes e crianças gordos possuem normalmente um enredo pautado no bullying. São crianças que sofrem por causa de seu peso e ainda por cima sofrem por causa da pressão familiar. Ou estes personagens emagrecem e depois voltam para se “vingar” do bullying sofrido ou terminam com alguém que os ame e os aprove apesar do peso.

A redenção e/ou final feliz de todos os enredos é sempre o mesmo: o gordo é infeliz e precisa emagrecer ou encontrar alguém que o ame APESAR de seu peso. Não se tratam de enredos que promovam a aceitação do corpo, ou aumentem a autoestima dos envolvidos. O gordo reproduzido pela mídia precisa ser salvo, seja emagrecendo, seja encontrando alguém que fique com ele apesar de seu defeito, no caso a gordura. E sempre, em todo e qualquer enredo, o gordo é/será motivo de piada.

Não é de se espantar que o comportamento humano repita o que vê na grande mídia. Aprendemos, desde crianças, que ser gordo é um sofrimento, e que nossa vida será muito difícil se não formos magros e estivermos dentro do padrão de beleza. Aprendemos também que gordos são defeituosos, e que será mais difícil amá-los. Aprendemos que amar um gordo exige um sacrifício tremendo, e o amor deve transpor a barreira do sobrepeso. Gordura é um defeito terrível e exige muita compreensão. É isso que consumimos desde cedo e é isso que passamos adiante.

Nossos amigos e parentes consomem esta mesma mídia e aprendem estes mesmos conceitos. Logo, não é nada anormal que pessoas que nos amem e nos queiram ver bem minem mais ainda nossa autoestima e exijam o emagrecimento e o corpo perfeito. AfinImagemal, é para nosso bem. A nossa felicidade está condicionada a ser magro.  A gordofobia é a reprodução dessa filosofia de vida.

É inviável exigir que a mídia e o mercado mudem seus conceitos a fim de prover a auto aceitação do corpo e o fim da gordofobia. O respeito, neste caso, é a chave para mudar esse quadro. Não desrespeitar os outros, entender que existem pessoas felizes com determinados corpos, não questionar a felicidade e autoestima alheia e não agredir visando melhorar alguma coisa.

Também podemos erradicar a gordofobia ensinando, desde cedo, que ser gordo não é sinônimo de má saúde, de desleixo, de descuido. E que se ainda o fosse, se o terceiro está feliz com seu corpo, não cabe a nós dizermos o que é melhor ou pior para esta pessoa. Salvo nos casos de problemas de saúde, devidamente diagnosticados.

A recíproca, contudo, deve ser verdadeira. Se uma pessoa deseja, por qualquer razão, emagrecer, seu desejo também deve ser respeitado. A menos que esse emagrecimento seja fruto de uma anorexia ou bulimia, o que exige uma intervenção médica de fato.

A filosofia da auto aceitação não pode ser imposta nem forçada. Cada um sabe a aparência que deseja ter para se sentir belo. Mesmo que a pessoa em questão tenha sido alvo de gordofobia ou pressão, se seu desejo real for emagrecer e ela está disposta a isso, ela tem este direito. Parece óbvio dizer isso, mas é necessário.

Errardicar a gordofobia demandará tempo, muito tempo. De todos os preconceitos internalizados, eu diria que esta é um dos mais sérios Não só pelo fato de estar atrelada há muito tempo nas pessoas, mas também porque é repetida, todo dia a exaustão, pela televisão. Um tratamento de choque contra os gordos do mundo.

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5 respostas em “Gordofobia em Questão

  1. Acho que se a pessoa escolhe ser acima do peso deve ser respeitada, porém não é um comportamento que deve ser incentivado. A obesidade é um problema de saúde PUBLICA, e qualquer transtorno deve ser tratado pela sociedade, caso contrário, não se justifica as postagens do blog em relação a anorexia, já que a pessoa escolheu ser magra, e se é um transtorno cabe a pessoa decidir se está infeliz com sigo mesma e ninguém pode opinar. Postagens desse tipo somente se preocupam com o esteriótipo físico, mas não com a pessoa em si, acho um tremenda hipocrisia a pessoa vir falar que a perda de peso não é importante para o individuo, incentivando a pessoa a ser acima do peso e ainda dizer que se importa com ela! Todos temos direito a ter auto estima, e isso deve ser respeitado, porém deve ser diferenciado o que é estético do que é doença. Como vc bem disse no seu texto, adolescentes obesos sofrem com ofensas e cada vez mais cedo! Por que? Pq seus pais, com a nova cultura do fast food ( no mundo em que eu vivo agora não é anormal ser acima do peso, mas sim abaixo), incluem cada vez mais cedo esse padrão na vida de seus filhos, se preocupando com a felicidade dos mesmos, até que por fim a criança com 13 anos está obesa e diabética, mas o importante é a felicidade. É claro que uma pessoa gorda pode ter uma saúde melhor que a minha, assim como o cara que fum a crack, que é bulímico.. Amanhã qualquer um pode ter um infarto, mas as probabilidades indicam que é mais suscetível. Em hipótese nenhuma extremos devem ser incentivados, nem a magreza, nem estar acima de seu peso. Se o cara não liga, que bom pra ele, quando eu tiver meus filhos eles serão ensinados a respeitar a todos, mas cientes do que é saudável e do que não é. A sociedade está aprendendo a respeitar o que é diferente, mas ainda bem que está cada vez mais informada da importância de certo hábitos.

    • Eu concordo com a Michelle. É claro que nem todo gordo é uma pessoa com problemas (seja de saúde ou emocionais), mas eu tenho uma visão dessa questão da Saúde Pública. Nenhum gordo deve ser humilhado por ser gordo. Mas como futura profissional da Saúde eu tenho a obrigação de dizer que obesidade pode levar à doenças. Eu não estou falando de estética. Beleza está nos olhos de quem vê, é algo totalmente subjetivo. Mas saúde é algo uniforme, não depende da opinião de ninguém para se dizer se uma pessoa está bem de saúde ou não. Tenho amigas gordinhas que são muitos felizes e bem resolvidas. E isso é muito bom. O padrão de beleza não importa, mas a saúde sim. E se é possível previnir ter futuras doenças , por que não? Em geral eu gostei do debate que o texto propõe. Mais uma observação: o texto fala rapidamente sobre a anorexia. Se devemos defender os gordos , então também devemos defender os anoréxicos. Muitas pessoas veem apenas a anorexia como problema de saúde e esquecem que a obesidade também é. Isso também não seria preconceito com a anorexia? Falo isso sem ironias. É um caso a se pensar.

  2. Muito bom esse texto. Eu comecei a engordar com 10 ou 11 anos, eu sempre fui magrinha, aí do nada, por causa de uma medicação, engordei. Era sempre difícil na escola, nas listinhas dos meninos, de quem eram as meninas bonitas da turma, eu nunca entrava. Mais tarde, decidi emagrecer, e consegui, passei fome e enlouqueci (literalmente), porém me sentia bem, mesmo achando que não estava magra o suficiente. Então conheci um rapaz, ele era legal comigo (quando não estava perto dos outros) e do nada passou a me ignorar, comecei a achar que era porque eu não estava magra o suficiente, nessa época estava praticando natação e fazendo academia, desisti de tudo por causa dele. Engordei novamente e (infelizmente) estou mais insegura do que nunca 😦

  3. Gostaria tanto, mas tanto, que as pessoas parassem de usar “americano” pra se referirem aos EUA… Será que nem os blogs mais progressistas, mais inteligentes, percebem que quando fazem isso estão corroendo a identidade de todos os outros 34 países das Américas?

  4. Pingback: Eu me cuido, eu posso falar. | Rainfalls and hard times

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