E você Cara Pálida, conte nos sobre seus privilégios?

 Sou Branca…

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Quando nasci meus traços estavam de acordo com as características da minha cor, nunca disseram aos meus pais que eles deveriam fazer algo para modificar estas características, afinal de contas eu havia nascido branca…

Quando era criança, sempre elogiaram meu cabelo por ser liso e escorrido, nunca me disseram que eu precisava fazer algo com ele para que ele fosse mais crespo ou mais enrolado, ou mais qualquer outra coisa, ele estava bom do jeito que estava.

Lá no Paraná, em Londrina, cidade onde eu nasci minha família não era a única família branca, mas na mesma rua, no bairro inteiro, existia apenas uma família negra;

Nunca disseram a minha família que nós não deveríamos morar ali naquela região de Londrina por sermos brancos;

Nunca disseram aos vizinhos negros que não deveriam ser nossos amigos, por que afinal de contas éramos brancos;

A cada aniversário da minha infância, eu ganhava uma boneca (mesmo odiando) era fácil achar uma que se identificasse comigo por que todas eram brancas;

Nunca fui impedida de ser amiga de alguém por que sou branca e amizade gera intimidade e alguém poderia acabar apaixonado por mim, e não seria bom casar se com uma… Branca;

Desde a infância nunca fui parada por policiais, nunca me confundiram com “pequenos infratores” ou “menores de rua” por afinal eu sou branca.

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Na sala de aula dos primeiros anos escolares nunca nenhuma professora ou professor me chamaram de “Sua branca burra”;

Conforme fui avançando nos estudos, eu nunca me vi como única branca na sala de aula e alias em muitas séries que frequentei, só existiam brancos na sala de aula.

Durante todo o ensino fundamental e médio apenas dois professores não eram brancos;

Nunca me chamaram de “Sua branca” como se isso fosse algo ofensivo;

Nunca apanhei por ser branca;

Nunca fui ridicularizada por ser branca;

Nunca me disseram que sou incapaz ou inferior por ser branca;

Quando eu era adolescente, ouvia os garotos dizendo que mulheres negras eram mais “quentes” dos que as brancas. Não, eu nunca fui hipersexualizada; Depois me tornei adulta e continuei ouvindo isso, não mudou…

Na vida adulta quando entrei no mercado de trabalho, nunca me pediram para modificar minhas características de mulher branca para garantir meu emprego;

Ao atender o portão da minha casa ou casa de amigos, nunca me perguntaram se eu era empregada;

Ao visitar amigos, nunca me pediram para entrar pelo elevador de serviços ou área reservada a funcionários.

E você cara pálida, acha que não é privilegiado mesmo?

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Falar sobre privilégios pressupõe situações grandiosas, não imaginamos que existem varias situações todos os dias durante todas as nossas vidas que nos fazem privilegiados e que sequer notamos que elas existem. O privilegiado sozinho não consegue identificar se como tal, pois o único mundo que ele realmente conhece é o dele, é necessário um choque de realidade, mas não daquele que você vê na televisão no noticiário e depois de menear a cabeça e dizer que sente muito, volta a sua vida normal e privilegiada, um choque de realidade daqueles que você, como em um filme de ficção, pode trocar de pele com o outro e começar a viver a vida com ele vive, sem seus privilégios. Não é impossível. Sentir o drama na outro é ter empatia por ele, e isso todos nós somos capazes.

Por que não fazemos então?

Por que para o começo desta viajem pelo mundo de opressão que o outro vive é necessário reconhecer se privilegiado, e poucos estão dispostos realmente a fazer isso, poucos querem enxergar esta realidade, mesmo por que constata-la, requer a ação de aceitá-la apoiado em uma ideologia de ódio ou renegá-la e ao fazer isso, renegar também todos os seus privilégios.

Reconhecer se como privilegiada(x) não significa  concordar com um sistema que naturaliza o tratamento diferente entre seres humanos, não significa  concordar com o preconceito e discriminação que os outros seres humanos sofrem, significa que eu tenho consciência que este tratamento dados a eles e não é dado a mim, me privilegia, e que mesmo sendo privilegiada eu abro mão de tudo isso em prol de uma sociedade igualitária.

Verinha

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Uma resposta em “E você Cara Pálida, conte nos sobre seus privilégios?

  1. Esse mesmo pensamento vale para quando pensamos em machismo, homofobia e outros tipos de preconceitos. Mas não acho que privilégio seja bem a palavra. Falando especificamente sobre racismo, não acho que os brancos sejam privilegiados, acho que as outras raças é que tem os seus direitos ignorados enquanto nós brancos fazemos uso deles livremente. Não considero isso bem um privilégio.

    Na minha opinião, o preconceito na nossa sociedade é tão impregnado que acabam os sendo preconceituosos mesmo quando não percebemos. Mesmo nós, intelectualizados que nos achamos livres desse mal. Quem nunca julgou um livro pela capa? Ai que eu acho que entra o papel da educação. Posso fazer um julgamento errado, mas nunca, jamais, posso deixar que ele tome conta de mim e prejudique outra pessoa.

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