Marcha das Vadias – Rio de Janeiro: O feminismo e as Igrejas.

“Todo homem pode ter aquela fé e aquelas opiniões que lhe pareçam capazes de assegurar a felicidade. Ninguém tem o direito de perseguir ou atacar a opinião religiosa particular dos outros. Isto é o que os socialistas pensam.” (Rosa Luxemburgo – O socialismo e as Igrejas).

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Vamos falar sobre a quebra das imagens realizadas por um coletivo que participava da Marcha das Vadias, no ultimo sábado, 27 de Julho de 2013. É importante ressaltar que este coletivo não compõe a organização da Marcha das Vadias, mas integrava o ato como a maior parte dos que ali estavam.

Dado o ocorrido e o choque que causou na população em geral, é preciso refletir sobre a seguinte questão:

Quebrar imagens atingiu a quem? A igreja católica em si? A instituição? Ou apenas a fé das pessoas?

É necessário as feministas responderem esta questão urgentemente. Não estamos defendendo as instituições da religião cristã, não estamos dizendo que eles estão certos nos ataques que nos fazem desde sempre, nada disso, estamos apenas dizendo que o foco foi errado e apenas serviu para insuflar pessoas umas contra as outras.

Muitas feministas de fé católica, que estavam do nosso lado, nos deixaram. Você, minha cara leitora, vai me dizer “mas se professa esta fé não pode estar do nosso lado”, vou dizer-lhe que pode sim. Não são todos os católicos que são sectários e fundamentalistas. Existe gente progressiva que professa a fé católica. Lembram-se das nossas companheiras de luta “católicas pelo direito de decidir”? Pois é…

Não ganhamos nada declarando guerra à fé das pessoas, pelo contrário, perdemos aliados, perdemos a possibilidade de diálogo, então vamos começar a atacar o alvo certo: A instituição religiosa, e não artefatos que fazem parte da fé das pessoas.

Devemos nos lembrar que a religião não oprime somente a nós que lutamos por um estado laico, que lutamos contra a interferência dos princípios religiosos nas leis sobre as leis que regem a vida dos cidadãos, a religião também oprime e explora o próprio trabalhador que entrega a estas instituições o gerenciamento de sua fé através de suas doutrinas, citando ainda Rosa Luxemburgo:

“Além disso, todos sabem que os próprios padres tiram proveito do trabalhador, extraem-lhe dinheiro por ocasião do batismo, casamento e funeral. Quantas vezes têm acontecido que o padre, chamado à cabeceira da cama de um doente para administrar os últimos sacramentos, se recusou a ir lá antes de serem pagos os seus honorários?”

Rosa Luxemburgo nos diz que a igreja católica sempre esteve contra os socialistas que queriam uma sociedade igualitária e justa, “O clero atira-se violentamente contra os socialistas democratas, exorta os trabalhadores a não se revoltarem contra os dominadores, mas a submeter-se à opressão deste governo que mata o povo indefeso”. E hoje, além dos socialistas, temos os movimentos que organizam os oprimidos separadamente para que seja mais forte a luta por cada demanda, e ao fim todos nós nos unimos para uma luta única, a luta de classes que é contra a sociedade capitalista e patriarcalista. No fundo o problema da igreja católica é que ela vê em todos nós questionadores do status quo, uma grande ameaça à ordem estabelecida, ela nos vê como arma que pode fazer ruir seu império, e ela esta certa: NÓS SOMOS.

Mas não é voltando-nos contra a fé das pessoas que conseguiremos unir as massas contra os opressores e suas instituições, mas conscientizando-as de que são também exploradas. As provocações infantis podem ficar de lado para dar espaço a uma critica construtiva e que nos tornem aliados. Quem perde com o radicalismo separatista é a luta pela igualdade.

Aproveitando este acontecimento, homens e mulheres que professam a fé católica, antes de expressar toda sua indignação, devem parar para fazer uma autocritica sincera. Quantas vezes mulheres, homossexuais, transexuais e negros são igualmente atacados pelas instituições religiosas?  Quantos negros são discriminados por sua fé tendo-a taxada de “adoração ao demônio”? Quantos homossexuais são agredidos em seus direitos de cidadãos quando a igreja convoca não só seus fiéis, mas toda sociedade a lutar contra o direito de se unirem em matrimônio com seus parceiros (as)? Quantas mulheres não são violentadas sendo impedidas de gerir seu próprio corpo porque vossa fé, dirigida por doutrinas católicas e protestantes querem ser maiores do que os direitos humanos?

Durante a Marcha das Vadias do Rio de Janeiro houve alguns acontecimentos que a mídia não alardeou tanto quanto a quebra das imagens, houve um peregrino cuspindo no rosto de uma militante feminista e houve também uma Integrante do grupo “Católicas pelo Direito de Decidir”, Valéria Marques, sendo chamada de assassina por outra fiel. O que podemos falar sobre estes casos que aconteceram? Seria também a famigerada intolerância, ou intolerância é só aquela praticada pelos outros?

Não é de hoje que a igreja católica usa a fé de seus fiéis para coloca-los contra movimentos que lutam não apenas por si mesmos, mas por elas também. Rosa Luxemburgo nos conta que na época em que os socialistas uniram-se contra o CZAR e seu governo opressor, “Os crentes que vão à igreja, nos domingos e dias festivos, são compelidos, cada vez com mais frequência, a ouvirem um violento discurso político, uma verdadeira denúncia do Socialismo, em vez de ouvirem um sermão e nele obterem uma consolação religiosa”, ou seja, não é de hoje que a igreja católica cumpre um papel reacionário, e este papel assume se ao da classe dominante como arma para nos fragmentar e diluir a luta.

Finalizando deixamos um aviso ao Clero e todos fazendo coro com Rosa Luxemburgo:

“O socialismo, [feminismo] [grifo meu], de modo algum combate os sentimentos religiosos. Ao contrário, procura completa liberdade de consciência para todo o indivíduo e a mais ampla tolerância possível para qualquer fé e qualquer opinião. Mas desde o momento que os padres usam púlpito como um meio de luta contra as classes trabalhadoras, os trabalhadores devem lutar contra os inimigos dos seus direitos e da sua libertação. Porque o que defende os exploradores e o que ajuda a prolongar este regime presente de miséria, esse é que é o inimigo mortal do proletariado, quer esteja de batina ou de uniforme de polícia.”

Verinha

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9 respostas em “Marcha das Vadias – Rio de Janeiro: O feminismo e as Igrejas.

  1. Concordo plenamente com o texto , mas acho que um desafio maior e mais urgente , é fazer com que nenhum tipo de religião se manifeste na política .Mudar os dogmas de uma religião é bem mais difícil do que exigir que o nosso Estado seja de fato laico .

  2. É ISSO ANA… TEMOS QUE LUTAR PARA TIRAR A RELIGIÃO DAS DECISÕES POLITICAS E NÃO PARA CONVERTER AS PESSOAS AO IDEOLOGIA QUE QUEREMOS IMPOR… É COMO FREIRE ESCREVEU NO LIVRO DO OPRIMIDO (PARAFRASEANDO)
    “”O IDEAL É QUE O OPRIMIDO SE VEJA COMO TAL, PORÉM NÃO QUEIRA SER TORNAR EM UM OPRESSOR”…

  3. Não vejo em que pode ajudar a tentativa de atacar a fé das pessoas, ou objetos que os outros consideram como símbolos sagrados. O fato de algum peregrino ter sido intolerante com algum integrante do movimento não justifica essa atitude, também a intolerância por parte das religiões também não justifica, pois se tanto sociedade, como instituições religiosas e integrantes de grupos feministas são intolerantes com o sentimento dos outros me parece que são todos farinha do mesmo saco e não se pode mais falar em intolerância alheia. Sempre fui engajada às causas, pois sou mulher negra e pobre, e porque sempre acreditei que simplesmente diz respeito a sermos tratadas como todo ser humano deve ser, com respeito e igualdade de direitos, acredito que revidar a agressão sofrida durante séculos disseminando a semente da intolerância e do desrespeito às crenças dos outros nos faz iguais. Se a nobre autora deste artigo não concordou com o ocorrido, deveria ter expressado, e não ter ficado em cima do muro justificando a atitude de algumas com a intolerância religiosa dos outros, pois se somente os outros fossem intolerantes, esse fato não teria acontecido.

    • Minha cara Leitora, não sou nobre, muito pelo contrário, me encontro bem próximo da ralé, ou classe trabalhadora, pode escolher como chamar. 😉

      Acho que faltou interpretação de texto ai, pois a maioria das pessoas que leram entenderam que “eu e o coletico feminismo sem demagogia” achamos equivocado a forma de atuar com aquele performance.

      Mas achamos que a autocritica não deve ser feita apenas pelo coletivo que fez a performance equivocada, mas pelos católicos tb, que são muito intolerantes, e ao reclamarem de intolerância sentam se em cima de seus rabos como se NUNCA tivessem sido intolerantes e nem semeado ódio.

      abços

      • O Fato de não concordar com o texto não quer dizer que não entendi. Se responder a intolerância com intolerância vai ser a bandeira do movimento, então estão se comportando como iguais, se são intolerantes, não podem mais questionar a intolerância alheia, que pelo visto já não é tão alheia assim.

  4. Destaco a pertinência em se contrapor à euforia religiosa (católica, no caso) a obscenidade. Obscenidade e religião são intimamente vinculadas. A luxúria é um pecado capital. A obscenidade expõe o corpo sexualizado, carnalizado. A religiosidade contrapõe ao carnal o espiritual e institui proibições ao corpo. Proíbe o gozo dos prazeres do corpo, proíbe o sexo em que se impede a concepção através de preservativos, proíbe o aborto. A religiosidade é opressora de seus fiéis e pretende a opressão dos infiéis. Impõe a culpa a quem viole suas proibições e pretende que sejam castigados. Independentemente de quem encenou obscenidades, tal encenação mantém-se pertinente e situa-se no campo da manifestação, não se configurando como crime.

  5. Eu finalmente escrevi minha opinião sobre o assunto. Sou cristão, tenho fé e sou feminista!

    Citei o texto daqui como referência, obrigado por tudo.

    {http://www.duasgotas.com.br/2013/08/minha-fe-nao-pode-quebrar-meus-direitos.html}.

  6. Sou a favor da causa feminista, pois estou cansada de viver em um mundo, em que sou julgada pelas roupas e por minhas relações. E nesse ponto quero dizer o tão decepcionante tem sido ver os últimos ataques que feministas estão tendo em relação a Igreja Católica.São simplesmente ridículos, parecendo pirracinha de criança.
    E a Igreja não é esse monstro opressor que você coloca em seu texto. Sei que feministas são em geral, mulheres decididas e que lutam por igualdade. Mas ataque as imagens, a padres e à Igrejas estão colocando a população (não apenas católica) contra o movimento.

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