Carta de uma sobrevivente a Lola Aronovich.

Querida Lola,

Sempre gostei do seu blog, ele foi uma das minhas primeiras motivações para iniciar minha jornada como militante feminista, mas não é sobre isso que eu venho falar hoje.

Você veiculou em seu blog uma carta de um estuprador arrependido e fez uma série de comentários a respeito da mesma que me despertaram (mais uma vez) uma série de sentimentos.

Enfrentei velhos conhecidos meus como a raiva, que por um brevíssimo instante foi dirigida a você, mas logo em seguida se voltou para o homem que me estuprou e finalmente para mim, por ter me colocado numa situação onde eu fui violentada. Logo em seguida veio a culpa, por não ser capaz de pular esse buraco dentro de mim e enxergar meu algoz de forma benevolente e finalmente uma tristeza sem fim por ter revisitado todos esses momentos tenebrosos da minha vida.

Desde então eu tenho chorado. Me afastei das minhas responsabilidades para com a página que eu modero para ficar sozinha com a minha raiva, a minha culpa e a minha tristeza. Agradeço por ter minhas companheiras de luta ao meu lado que nesse momento me apoiaram incondicionalmente.

Eu me lembrei de ter acordado semi-nua no meio de um monte de gente sem saber o que tinha acontecido, eu me lembrei de ter me olhado no espelho e visto um olho roxo e uma boca cortada, lembrei do sorriso dele para mim no outro dia.

Lembrei também dos anos de culpa que eu enfrentei, de não conseguir mais ir aos lugares que eu costumava ir toda semana por saber que ele estaria lá também, lembrei dele me dizendo que eu deveria me sentir grata por ele só ter se divertido um pouco com meu corpo já que ele “não era um aproveitador que comia mulher bêbada”, lembrei de ter sido ridicularizada por ser uma “vadia” por várias pessoas que eu achei que eram meus amigos, uma vez que ele não pensou duas vezes antes de dizer para todo mundo o que tinha feito comigo.

Lembrei de todas as vezes que eu olhei o metrô chegando na estação e me perguntei “porque que eu não pulo logo de uma vez?”. Lembrei de todas as vezes que eu me olhei no espelho e me senti nojenta, suja, podre. Lembrei também das vezes que eu não consegui me relacionar com ninguém por não me julgar digna de estar ao lado de alguém.

Tantas coisas foram tiradas de mim naquela noite Lola, que eu não vejo reparação o suficiente para isso.

Não me importa honestamente se o meu estuprador vai ser preso ou não, se ele vai ser punido ou não, se ele se arrepende ou não.

Eu jamais vou conseguir olhar para ele depois de tudo o que ele me fez passar e não lembrar de tudo isso Lola. Eu não tenho capacidade de perdoar esse ato. É algo que está fora dos meus limites. Eu não vejo um futuro na minha vida onde essa dor tenha passado, onde seja possível ignorar todas essas lembranças. Se isso faz de mim uma reacionária, eu não tenho nada a fazer além de vestir essa carapuça.

Com todo respeito,

Sobrevivente de um estupro.

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6 respostas em “Carta de uma sobrevivente a Lola Aronovich.

  1. Realmente! A Lola pisou na bola com aquele papo de “perdoar” o estuprador e que quem é a favor de punições severas para estupradores,logo é reacionário!Acho um tanto quanto contraditório: não é ela que adora lutar contra a “cagação de regra”? E agora vem “regrar” o comportamento das pessoas,afirmando que esta ou aquela postura é reacionária??? Cadê a coerência?!

  2. Estupradores merecem sim penas severas, ele não está tomando um objeto sem consentimento e sim uma pessoa, é um tipo de tortura e sequestro ao mesmo tempo. Só que a sociedade machista que temos coloca panos quentes e inventa um monte de desculpas.

    Sim, ele pode se arrepender, se a vitima QUISER perdoar ela perdoa, mas ninguém pode julgá-la senão perdoar. Outra se ele se arrependeu vá uma delegacia e confesse seu crime, não caio nessa do arrependido que não confessa e paga seus crimes.

    Sou a favor da castração química sim a estupradores em série.

    Aos que culpam as vitimas pelo crime só quero dizer o quanto são hipócritas e não tem amor ao próximo. O que dizer do caso descoberto essa semana de um pai abusando de um bebê, o bebe o seduziu, um homem que assumiu em entrevista que sentia prazer ao dar banho nas próprias filhas. O que fazer com ele, perdoar? Para um cara desse acho a castração química até algo bem leve.

    Enquanto tiver essa impunidade esses bandidos continuaram agindo. Lembremos que quem age por puro instinto são os animais, nós seres humanos temos parte animal mas também consciência, se age por instinto só sobrou a parte animal, então como animal pode ser punido.

    • E quando uma mulher age por instinto e perde o autocontrole, desesperando-se, tomando atitudes que segundo nossas leis mais ou menos injustas podem ser criminalizadas, você proporia sua punição como um animal sem direitos humanos?

      Ou alguém poderia responsabilizar o homem dizendo que ele enlouqueceu a mulher psicologicamente, neste caso então ela poderia agir por puro instinto e cometer crimes sem ser punida como animal? Ou os dois devem ser condenados como loucos instintivos sem direitos humanos?

      Os animais podem ser punidos?

      Acho que você está exagerando.

      Apesar de que concordo que em caso de estubro ou abuso sexual infantil, o(a) acusado(a) que tenha passado por psicoterapia sem apresentar reeducação e seja reincidente deveria ser punido(a) com castração química ou física.

      Mas acho que devemos tomar cuidado, com punições mutilantes podemos nos encaminhar para um estado de exceção pior do que já está, à beira do fascismo.

      • Por isso disse química, que não é mutilante, e estou me referindo a estupradores em série e pedófilos. Isso diminuiria em muito a reincidência. As penas aqui são muito suaves. Não acho que tenha exagerado.

        A diferença do caso que você citou como exemplo, é que ele pode ser em auto defesa, senão for é passível, sim de punição. Estupro não entra nunca como defesa e sim ataque.

        Existem casos de desequilíbrio mental, mas nesses casos também falta a justiça uma forma correta de tratar os casos, clinicas especializadas, essa pessoas não podem ficar livres na sociedade, pois são um risco para os demais indivíduos.

        Pode parecer cruel a muitas pessoas, mas castiga-se quem comete o crie ou a sociedade e as vítimas deste indivíduos são castigadas. Além disso nem todo caso que alegam problemas mentais realmente o é, só uma forma de punição leve, o que se consegue com bons advogados.

  3. Não gostei da atitude dela de ter postado aquele Guest Post, mas depois de ouvir determinadas críticas, que mais pareciam ataques pessoais (Teve gente dizendo que ela deveria ser estuprada “para saber como é”, amigas minhas disseram isso) e outras que tentavam a liberdade dela postar e acreditar no que quiser, fiquei do lado dela… A propósito, em nenhum momento eu vi ela pedindo para PERDOAR, nem defendendo impunidade, galera! A única intenção dela foi mostrar que as pessoas mudam (No primeiro post) e se defender (No segundo post, depois de ataques)… Acharam o post da Lola ofensivo??? Não é nada comparado à deep web, onde estupradores (E não EX-estupradores) se reúnem para “compartilharem” suas idéias… Onde ao invés de dizerem que se arrependem, propagam que “ser estuprador é bom”!!!

  4. A última da Lola agora foi defender um estuprador e pedófilo, falar em suposta vítima e descreditar a vítima de um abuso sexual acontecido na infância. Sim, Woody Allen. Aparentemente, só as fãs do New Hit que estão erradas em defender seus ídolos com unhas e dentes. Naquele blog eu não volto nunca mais, já deu pra mim.

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