Carta resposta para T., de uma feminista vítima de estupro

    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que não sou a favor de penas desumanas, castração química, pena de morte, redução da maioridade penal e sou trotskista. Portanto, este não é um debate “direita X esquerda”, mas sim entre alas diferentes dentro da esquerda. Dito isso, gostaria de rebater os pontos do seu texto e te conduzir a algumas reflexões.
O seu temor de que o “passado” não passou para suas vítimas é perfeitamente bem fundamentado. Você pode desejar que elas superem o que passaram, mas não é nada realista achar que, talvez, elas não estejam mais sofrendo com o que você fez. Mesmo décadas depois, uma pessoa nunca mais é a mesma após passar por um estupro.
Você diz que deseja não tê-los ferido “a ponto de prejudicá-los em sua vida sexual”. Mas a verdade é dura e é preciso lidar com ela de frente: você sem dúvida alguma os prejudicou em suas respectivas vidas sexuais e não só. Vítimas de estupro nunca passam pela experiência e têm orgasmos na semana seguinte, nunca. O processo de recuperação é lento, tortuoso, tem avanços e retrocessos, frequentemente dura mais de uma década e isso é mais verdadeiro ainda quando a violência foi feita não só uma vez como várias. Você fala “Acho que deve fazer dez anos da última vez que a estuprei. ” Você acha. Última vez. Quantas foram? Quão vívidas você acha que essas lembranças estão na mente dela?
Gostaria de te lembrar que, para além do prejuízo, às vezes inclusive irreversível, na vida sexual, muitas vítimas de estupro desenvolvem transtorno do stress pós-traumático, síndrome do pânico, depressão, se afastam do convívio social, começam a praticar auto-mutilação, algumas se suicidam (mesmo muitos anos depois), adquirem DSTs, e dentre as que engravidam, tanto as que abortam quanto as que não abortam têm um imenso sofrimento decorrente dessa gravidez. O aborto realizado de maneira legal e segura, ainda assim, é traumático para muitas vítimas de estupro, que passam a se crer assassinas. Levar a gestação adiante implica mais de mil outros sofrimentos.
Além disso, a sensação de que o seu corpo é sujo, imundo, a desconfiança de todos à volta, a solidão de não ter com quem se abrir sobre, os pesadelos, e a dor recorrente de ter que lidar com piadas de estupro são alguns dos sofrimentos que suas vítimas provavelmente continuam atravessando. Não que essa minha breve lista tenha esgotado as possibilidades.
É lamentável que estejamos vivendo em uma sociedade na qual é preciso que uma blogueira abra os olhos de um homem que foi violento para o fato de que o que ele fez foi violência. No entanto, permita-me discordar de que foi a Lola quem te ensinou que foi estupro. Será que, em algum lugar aí dentro, você não já sabia disso? Minha mais forte evidência para defender esse ponto é “E independente de saber ou não que era estupro o que fiz, eu sabia que era errado.”
Não há como não saber que é errado. Não há como não saber que é errado quando a sua vítima se debate, chora, implora, tenta fugir, grita ou tenta gritar, desmaia, sangra, urra, te bate, não consegue se manter em pé depois que tudo terminou. Não há como não saber que é errado após ver, dia após dia, a vítima definhando dentro do seio da sua própria família. Não há como não saber que é errado ao, por exemplo, fazer uma penetração sem lubrificação, com o canal vaginal estreito e resistindo, se houver sido essa a via que você usou para violentar a sua irmã. A sua própria irmã. Qual o tamanho da devastação que você causou na relação entre ela e os seus pais?
Você pensa no que fez antes de dormir, que bom. Suas vítimas pensam enquanto estão acordadas, antes de dormir e durante os pesadelos. Como já publiquei em outro espaço na internet, sua irmã TAMBÉM sente culpa. A diferença é que UM de vocês tem culpa DE FATO e outro NÃO. Outra diferença é que os dois sentem culpa, mas ela sofre também com impunidade, talvez dst, talvez aborto tem uma família contra ela caso queira denunciar, provavelmente tem pesadelos, medo, síndrome do pânico, cicatrizes físicas, e você tem só a culpa.
E, para mim, a diferença mais relevante é: um de vocês está sendo aplaudido publicamente, e outro não.

Um de vocês está sendo aplaudido publicamente, e outro não

Um de vocês está sendo aplaudido publicamente, e outro não

O grande erro que a Lola cometeu, ao publicar o seu texto, é que ela te colocou no papel de vítima. Vítima que foi estuprada no passado, vítima que está arrependida, vítima que está sofrendo com um terrível sentimento de culpa. Acontece que o papel de vítima nunca vai ser ocupado pelas pessoas que você estuprou. Porque aos olhos da sociedade, sua irmã sempre foi a grande culpada por tudo o que aconteceu. Culpada pelas roupas, pelo comportamento, pelos lugares que frequenta, talvez por beber, talvez por sair à noite. E você não. E agora, temos uma situação em que a mulher continua não sendo vítima, mas você é. E pior: se ela ainda guarda maus sentimentos por você, agora ela é culpada também pelo crime de ser “rancorosa”, “punitivista”, “vingativa”, contrária aos direitos humanos (!!), enfim, por não ser um ser humano tão nobre e superior quanto a Santa Madre Igreja prega.
O fato de você ser gay, ou bissexual, dependendo da definição que se adote, não muda nada do que escrevi acima. Mas creio que, se você está tentando conscientizar as pessoas a respeito da cultura de estupro, está no caminho certo para minimizar um pouco o erro que cometeu.
Agora pense em mim, uma garota que nunca violentou ou violentará ninguém: eu luto todos os dias pelo fim da cultura de estupro há anos. Mas ela nunca me beneficiou em nada, muito pelo contrário. Por isso, espero sinceramente que em nenhum lugar em sua cabeça você esteja convencido de que se encontra no mesmo patamar que as mulheres feministas. Reconhecer o seu privilégio é condição sine qua non para construir uma sociedade em que ele não exista mais.
Fico feliz que você diga não estar à procura de compreensão.

“Assim, se procuram sob o nosso chão,
um tesouro que nunca enterraram,
Ladrão, você foi avisado, cuidado,
pois vai encontrar mais do que procurou.”*

É desnecessário citar a autora do excerto acima. Se você procurar no meio feminista a compreensão que nunca dispensou às suas vítimas, cuidado, pois você pode até encontrar, mas não só. Vai encontrar também dragões – gente plenamente disposta a te dar mais do que uma passada de mão na cabeça. Te chamar a atenção para o fato de que o que você tem feito é insuficiente, o que você fez não pode ser apagado, e que uma punição nunca deixou de lhe ser cabida e válida. Pode apostar que tempo não é suficiente e que se entregar para a polícia é sim o melhor que você pode fazer.
Uma parte perturbadora do post é quando você fala “descobri que precisava tirar esse sentimento que me incomoda tanto”. Você descobriu que precisa se livrar do sentimento de culpa, e a melhor maneira de fazer isso é, veja só… não cumprindo com a pena que te cabe! Mas sim pedindo aplausos dentro do movimento feminista. Aplausos esses a serem feitos num espaço em que as suas vítimas vão ouví-los. E, ainda por cima, esses aplausos são feitos de maneira tão alta que o clamor delas por justiça soa abafado. Soa, até mesmo, distorcido, como um grito não por justiça, mas por vingança. E isso é gravíssimo.
Os danos que você causou foram sim profundos, e é só a partir da compreensão disso que você pode mudar para melhor. Se arrepender de um erro que não causou danos “tão profundos” é muito, mas muito fácil. Difícil é encarar toda a extensão do que você fez e procurar se redimir de fato. Se você procura gente que venha atenuar o seu sentimento de culpa, procure fora do movimento feminista. Já está cheio de jornais, empresas, sindicatos, escolas, universidades e demais instituições em que o crime de estupro é visto como uma banalidade tola. Aqui, não.
Você pode não ser um monstro, mas está lamentavelmente distante de ser tão bom quanto deveria e, infelizmente, temo que a publicação da Lola – e toda a repercussão em volta – tenham te tirado do caminho que você estava tentando trilhar em direção a uma vida mais justa. Não ache, de forma alguma, que uma vez que algumas feministas tenham te feito comentários gentis (que nunca são feitos às suas vítimas) agora você deve dormir em paz como se nada tivesse acontecido.
Nem toda punição é punitivista. Leve isso em consideração ao dar seus próximos passos.

Por Kátia da Costa

[EDITADO]: * Desde que publiquei este trecho de Harry Potter e a Pedra Filosofal fiquei cismada de que algo estava errado, embora eu tenha copiado letra por letra como vi no livro. Então, me parece que estamos novamente diante de um erro de concordância (não só gramatical como também lógica) da péssima tradutora Lia Wyler que, ainda por cima, ao errar a concordância enfeiou o texto por dificultar a rima. O correto seria “Entrem, estranhos, mas prestem atenção/Aos que esperam o pecado da ambição/Porque os que tiram [daqui] o que não ganharam/Terão é que pagar muito caro/Assim, se procuram sob o nosso chão/Um tesouro que nunca enterraram,/Ladrões, vocês foram avisados, cuidado,/Pois vão encontrar mais do que procuraram.”

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