A beleza: o terror da “nova mulher” – A ditadura da beleza irreal

*Este texto faz parte da série: Atualizações da “nova mulher” de Alexandra Konlontai

Leia também:

1º texto: A nova mulher / Independente ou submissa? (A “nova mulher” do tipo celibatário)

2º texto: O trabalho e o lar da “nova mulher”

 

A beleza: o terror da “nova mulher”

A ditadura da beleza irreal

 

Publicamos no blog uma série de textos, nos quais buscamos entender as transformações vivenciadas pelas mulheres, após mais de um século inseridas no mercado de trabalho. Mesmo adquirindo certa liberdade com a possibilidade de independência econômica, há muitas outras formas de algemar a “nova mulher”. Uma delas é a necessidade de enquadrá-la em um estereótipo de beleza.

Kolontai em seu livro “A nova mulher e a moral sexual” avalia os mais diversos aspectos da transformação da mulher que iniciava sua participação no mundo do trabalho. Porém, a questão do padrão de beleza não é algo tratado por esta autora, o que nos faz crer que a ditadura da beleza é algo bastante atual e se desenvolveu de forma extremada juto com a mulher independente, os avanços tecnológicos e científicos. Claro que o problema não é a independência financeira da mulher, a tecnologia e a ciência, mas como o capitalismo se utiliza destes elementos para submeter as mulheres e, claro, lucrar mais e mais.

Sabemos que em todas as sociedades anteriores existiram padrões de beleza, todos contendo algum grau de preconceito e exclusão. Mas o que temos hoje está mais próximo da completa insanidade, o que reflete uma sociedade ainda mais louca. Isto porque se trata de padrões de beleza inatingíveis, irreais. O virtual, a capacidade de controlar imagens através de um computador, produziu mulheres que simplesmente não existem. E o mais esquizofrênico é que muitos homens acreditam ser possível encontrar a mulher do tipo “capa de revista”, e a mulher quer a todo custo tornar-se este tipo.

afro

Afrodite de Sandro Botticelli

          capa

Esta mulher reúne características contraditórias, o que torna sua existência um delírio. Por exemplo, a mulher deve ser magra, ter cintura fina, bunda e peitos grandes, coxas grossas, mas sem celulites. Bom, esta mulher é praticamente uma aberração, pois como pode uma mulher que estruturalmente é magra, ter bunda e peitos grandes? Como pode uma mulher ter pernas grossas, sem ter celulites? Aliás, como uma mulher pode não ter uma bendita celulite?

Sim, há um jeito: as cirurgias plásticas e os cosméticos. É claro que isto tudo não é por acaso, quanto mais se constrói um padrão de beleza impossível de se alcançar, sempre terá alguém gastando e alguém lucrando. Muitas mulheres se submetem a cirurgias perigosas e caras para obter o tal do corpo perfeito. As lojas de cosméticos possuem tantos produtos, que ficamos tontas com tanto estímulo proporcionado pela variedade de potinhos coloridos nas prateleiras. E se ainda assim… se o seu cabelo não ficou “bom”, ou seja, liso e esvoaçante como na propaganda, é porque você ainda não encontrou o produto certo. É preciso comprar mais e mais. Depois de passada a euforia do consumismo em busca do estereótipo perfeito, vem a depressão…

São muitas as mulheres que desenvolvem graves sofrimentos mentais, por estarem presas nesta busca incessante pela beleza irreal. E a medicina já se encarregou de nomea-los: transtornos alimentares (anorexia, bulimia), transtorno dismórfico corporal (“síndrome feiúra imaginada”), transtorno da compulsão alimentar, transtorno de ansiedade, transtorno depressivo, ou até mesmo transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas, etc.

Mas para isso também tem solução: eis que entra como salvadora da pátria, a indústria farmacêutica! Para cada disfunção física e mental gerada por esta sociedade, existe uma droga amplamente distribuída nas farmácias e receitadas pelos médicos. E então novamente temos um setor lucrando com a dor alheia.

Ao discutir a questão do padrão de beleza, também precisamos levar em conta o racismo. O Brasil, um país de maioria negra, considera os afrodescendentes feios. A pele branca, o cabelo loiro e os olhos azuis ainda são as características consideradas mais belas. Continuamos reproduzindo a ideologia dos escravocratas e não olhando e assumindo a beleza da cor deste país. Acentua-se ainda mais a distância entre a beleza real e a beleza imaginária baseada em padrões europeus. Claro que isto apenas serve para a classe dominante; temos o fim da escravidão, mas ainda prendemos negras e negros nos piores trabalhos, com os piores salários. Sabemos o quanto a aparência conta em uma entrevista de emprego e quanto o racismo está impregnado em nossos empregadores.

O padrão da beleza apenas serve para a classe dominante, pois é uma das formas de destruir a auto-estima das pessoas e provocar uma aceitação de sua própria exclusão. É preciso que mulheres e homens abandonem estes estereótipos de beleza. A padronização é sempre repetitiva, chata, sem graça. A beleza está na diferença. A saúde e bem estar, também.

Por: 

Denise Laizo é militante de esquerda há 10 anos e não quer revelar a idade. Eh terapeuta ocupacional e trabalha no atendimento às pessoas usuárias de drogas. Eh totalmente contra as internações compulsorias e comunidades terapeuticas e completamentea favor da legalização das drogas. Eh marxista, leninista, trotskista, morenista, rosaluxemburguista, kollontaisista e clarazetkinsta. Portanto, é feminista e revolucionaria socialista. Viciada em filmes e dança tango.

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