A “nova mulher”

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 Creio que um dos livros de cabeceira de uma/um feminista deve ser  “A Nova Mulher e a Moral Sexual” de Alexandra Kolontai. Esta mulher dedicou sua vida à militância revolucionária, tendo vivido intensamente a revolução Russa (1917) e seu desenrolar (até  1953, quando falece). Kolontai é muito admirada pelas feministas por falar não apenas sobre as necessidades concretas das mulheres, como creches, direitos iguais aos dos homens, inserção no trabalho, etc; mas por também trazer à tona um assunto muito delicado, que são as questões subjetivas e relacionais entre mulheres e homens. Assunto este, que até mesmo militantes (homens) fecham os olhos, pois apesar de desejarem transformar o mundo, relutam em mudar a forma como se relacionam, afinal é um privilégio dolorido de se abandonar.

Neste livro, Kolontai consegue contextualizar concretamente, historicamente e emocionalmente o surgimento de uma “nova mulher”, a qual surgia ao se libertar do lar e cair nas garras dos capitalistas. Ela também vai discorrer sobre a, talvez eterna, crise da moral sexual. O que Kolontai diz, conseguimos reconhecer não apenas com o intelecto, mas também com o coração. Muito do que ela traz é tão atual, que não é possível imaginar que alguém houvesse nomeado, ainda mais, há tanto tempo atrás. Por outro lado, dispara em nós uma vontade de analisar as relações ao nosso redor, afinal aquilo que Kolontai visualizava há quase 100 anos atrás, se aprofundou ou tomou outros contornos na atualidade com o desenvolvimento do capitalismo.

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Assim, a proposta é lançar alguns textos, com o objetivo de atualizar a “nova mulher” retratada por Alexandra Kolontai, no início do século XX. Para tanto, além do embasamento encontrado nas ideias de Kolontai, pretende-se gerar uma discussão sobre o tema, já que outros olhares são sempre importantes para compreender a mulher atual. Então vamos lá: Quem é a “nova mulher” do século XXI?

Independente ou submissa?

A “nova mulher” do tipo celibatário

 Passado quase um século dos escritos de Kollontai, as contradições do sistema capitalista se tornaram ainda mais profundas e complexas. A guerra entre as classes sociais é cruel, mas está acobertada por uma ideologia cega que domina a cabeça dos seres humanos. Como Marx já dizia: Socialismo ou barbárie! A barbárie se aproxima. Mas ainda tenho esperança que não precisemos chegar a tal ponto.

Mas e as mulheres… O que aconteceu? Afinal de contas, como Kolontai bem retratou no seu texto “A Mulher Moderna”, as mulheres finalmente libertaram-se de suas casas e foram à luta no complexo, e um tanto perverso, mundo do trabalho. Neste texto, ela analisa as transformações ocorridas desde que as mulheres começaram a fazer parte diretamente da produção social, o que correspondia, em sua época a 50 anos. Então hoje, podemos olhar para estas mulheres após cerca de 150 anos, desde o início do processo de inserção no trabalho assalariado.

Apesar de todas as críticas à exploração existente no trabalho dentro do capitalismo, comemoramos o fato de finalmente a mulher ter a possibilidade de se tornar independente de um homem para poder sobreviver. Para a nossa autora:

“O tipo fundamental da mulher está em relação direta com o grau histórico do desenvolvimento econômico que atravessa a humanidade. Ao mesmo tempo que se experimenta uma transformação das condições econômicas, simultaneamente à evolução das relações de produção, experimenta-se a mudança no aspecto psicológico da mulher… A mulher moderna,como tipo, não poderia aparecer a não ser com o aumento quantitativo da força de trabalho feminino assalariado.”

Em seus escritos, Kolontai fala do surgimento da mulher do tipo celibatário, isto é, “mulheres que na luta por subsistência contam apenas com suas próprias forças; de mulheres que não podem, segundo a tradição, viver unicamente dependendo de um marido que as mantenha”. Além disso,

“a mulher defronta-se com o problema de adaptar-se rapidamente às novas condições de sua existência e tem que rever imediatamente as verdades morais de suas avós. Dá-se conta, com assombro, de toda inutilidade do equipamento moral com que a educaram para percorrer o caminho da vida. As virtudes femininas – passividade, submissão, doçura – que foram inculcadas durante séculos tornaram-se agora completamente supérfluas, inúteis e prejudiciais. A dura realidade exige outras qualidades nas mulheres trabalhadoras. Precisa agora de firmeza, decisão e energia, ou seja, aquelas virtudes que eram consideradas como propriedades exclusivas do homem.”

Pois bem, sem dúvidas a realidade comprova a veracidade desta afirmação. Porém, hoje nós conseguimos ter uma melhor compreensão do que aconteceu com as mulheres imersas nestas novas exigências morais. O capitalismo, com seu poder alienante, consegue dissociar esta nova mulher, utilizando-se apenas daquilo que lhe convém em cada momento. Assim, a firmeza, decisão e energia são qualidades exigidas pelo mundo do trabalho, o qual se tornou tão comum para as mulheres, que a opção de trabalhar ou não é algo quase que exclusivo da minoria de mulheres burguesas. Posso acrescentar que hoje muitas outras qualidades são exigidas, como agilidade, criatividade, multifuncionalidade (atualmente visto como algo próprio da mulher) e esforço (trabalhar mais do que é exigido formalmente). As mulheres se demonstram prontas para serem amplamente exploradas pelo capitalismo.

Porém, há uma contradição ainda não resolvida, afinal, ao mesmo tempo, as velhas verdades morais das nossas tatataravós, nos assombram como almas penadas. Ainda nos exigem a antiquada passividade, submissão e doçura nas nossas relações em geral e principalmente na família. Somos rigorosamente treinadas para sermos as cuidadoras da casa, dos filhos e do marido, além de qualquer um que necessite de cuidados dentro da família. Muitos homens, talvez até de forma inconsciente, escolhem suas esposas pelo grau de submissão que elas demonstram em relação a eles e à concretização das “tarefas de mulher”.

Ou seja, agora mesmo tendo em nossas mãos a possibilidade de independência e autonomia, ainda somos escolhidas pelos homens; eles ainda se sentem no direito de nos dividir em categorias: a mulher para casar e a mulher para se divertir. Moralismos tão antiquados, como não ceder (pelo menos tão rapidamente) aos desejos sexuais dos homens (como se não tivéssemos estes desejos), não se vestir com roupas “extravagantes”, saber realizar todas as tarefas do lar sem reclamar, ainda são questões que perseguem as mulheres.

Kolontai sempre se preocupou como os fatos concretos interferem na formação psicológica da mulher. Seguindo seus passos, podemos concluir que temos mulheres cindidas. Olhando para o macro, no trabalho a mulher deve ser de um jeito, e em casa de outro. Olhando para o micro, em todas as suas relações (as de trabalho também), a mulher deve ser forte, mas frágil; independente, mas submissa; decidida, mas compreensiva.

 A tão sonhada construção da verdadeira personalidade de cada mulher, apenas possível ao sair do ambiente restrito do lar, se perde em um emaranhado de desejos do outro. A mulher fica condenada a ter que sempre se adaptar; o seu lugar é sempre o lugar do outro, onde ela se encaixa para ser aceita e amada.

E as que não se adaptam, são vistas como esquisitas; as que batalham por sua integridade, escapam da normalidade exigida pela sociedade. As mais saudáveis, em minha opinião, juntam-se com outras mulheres como elas e lutam para mudar tal situação.

Por:

Denise Laizo é militante de esquerda há 10 anos e não quer revelar a idade. Eh terapeuta ocupacional e trabalha no atendimento às pessoas usuárias de drogas. Eh totalmente contra as internações compulsorias e comunidades terapeuticas e completamentea favor da legalização das drogas. Eh marxista, leninista, trotskista, morenista, rosaluxemburguista, kollontaisista e clarazetkinsta. Portanto, é feminista e revolucionaria socialista. Viciada em filmes e dança tango.

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2 respostas em “A “nova mulher”

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