GASLIGHTING: Alguém está tentando fazer você enlouquecer?

Mais uma palavra para nosso Dicionário Feminista: GASLIGHTING

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“De vez em quando eu penso em todas as vezes que você me ferrou, mas me fazia acreditar que era sempre algo que eu tinha feito”. Kimbra canta isso na música “Alguém que eu costumava conhecer” do Gotye. Na psicologia este fenômeno é chamado “Gaslighting”.

O Objetivo de quem promove este tipo de violência emocional é remover a credibilidade da parceira, atribuindo suas queixas e desconfianças a uma psicose, desta forma não só ela mesma vai crer que é louca, mas todos ao seu redor também. Gaslighting é usado para se referir a qualquer tentativa de fazer outra pessoa duvidar de seu senso de realidade.

O agressor levanta informações falsas com a intenção de causar duvida na vitima. A vitima passa a duvidar de suas próprias memórias, percepção e sanidade. As formas de apresentação desta agressão podem ser…

1-   A simples negação por um agressor que os incidentes abusivos anteriores já ocorreram;

2- A realização de acontecimentos bizarros por parte do agressor com a intenção de desorientar a vítima.

Gaslighting significa “fazer alguém enlouquecer”. E com esta tática de desmentir as memórias do outro, é bem fácil mesmo fazer isso, uma modalidade de culpabilização da vítima.

“Ele mentia patologicamente, parecia estar encenando com perfeição uma trama, e mesmo em situações que eu tinha certeza da verdade, enquanto ele tentava me convencer, eu chegava a acreditar nele e culpar-me por estar acusando ele, momento depois da conversa eu me sentia confusa, como se a minha verdade não fosse tão verdade, como se os fatos não provassem mais o que eu sabia”. (Eduarda)

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“Enquanto eu o interpelava a respeito de uma situação de traição ele me disse que eu estava ficando doente de tanto ciúmes, que eu estava paranoica, que eu… estava enlouquecendo e precisava de ajuda psicológica urgentemente, comecei a achar que era verdade, que estava ficando louca. Não fosse alguns dias depois uma situação que comprovasse a traição dele, eu talvez estivesse ainda pensando que estava desequilibrada.”  (Eduarda)

Com certeza alguns leitores e leitoras ao ler este texto dirão: “Ah, mas isso não é especificamente uma violência machista”. Não, uma mulher pode fazer a mesma coisa, mas levando se em consideração a opressão machista sobre a mulher, quem esta em maior chance de ser vitima?

Em abril de 2012 surgiram denuncias de estupro contra militares nos Estados Unidos. Lembram se? Se não, podem ler aqui.

Uma das mulheres é Schroeder que relatou que um companheiro da Marinha a seguiu até o banheiro, em abril de 2002. Ela diz que, em seguida, ele deu um soco nela, arrancou as calças dela e a estuprou. Quando ela relatou o que aconteceu, a um oficial superior, ele rejeitou a alegação, dizendo: “Não venha reclamar para mim, se você teve sexo e mudou de ideia”.

Stephanie Schroeder, Anna Moore, Jenny McClendon e Panayiota Bertzikis foram às mulheres que levantaram as denuncias e para serem desacreditadas e com isso protegerem os homens que cometeram tal crime, foram diagnosticadas com transtorno de personalidade e consideradas inaptas para continuar no corpo de fuzileiros.

“Eu não sou louca, eu sou realmente normal.” (Schroeder)

“Lembro-me de pensar que isto este diagnóstico era um absurdo, completamente ridículo Como eu poderia ser emocionalmente instável? Estou perfeitamente lúcida, especialmente considerando tudo o que aconteceu”. (McClendon)

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Percebam como esta prática é extremamente conveniente, desacreditar mulheres, catalogá-las através de diagnóstico de terem algum grau de psicose, e livrar se delas sem precisar ir a fundo às investigações e punição dos culpados, que “pasme”: São homens.

Robin Stern, autor de O Efeito Gaslight, diz que sinais de que você pode ser vitima de gaslighting incluem constantemente perguntar se a si mesmo “estou muito sensível?” Como relata Eduarda, “Todas as nossas brigas eu pensava comigo mesmo: ‘Devo estar de TPM.’ Por que no final de cada briga eu me culpava e achava que estava errada, ele sempre tinha razão”; Inventar desculpas para amigos e familiares para justificar os comportamentos do seu parceiro, outro sinal é a ausência da capacidade de tomar decisões sozinhas como relata Eduarda “Ele cuidava das finanças, meu salário ficava todo na mão dele, por que eu não acreditava que era capaz de gerir o meu próprio dinheiro, quando me empoderei e resolvi tomar de volta esta responsabilidade para mim ele fez chantagem dizendo que eu não confiava nele, foi muito difícil tomar de volta esta tarefa de gerir meu próprio salário, por que eu me sentia culpada, sentia que estava sendo ingrata com ele.”

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Se você se reconhece nesta situação, procure ajuda de um profissional, Gaslighting é uma opressão poderosa, e não é fácil superá-la sozinha.

 *Eduarda é um nome fictício de uma seguidora que preferiu manter se anonima.

  1. Referência: Gass, G., & Nichols, W. (1988). Gaslighting: A síndrome marital Contemporânea Terapia de Família, 10 (1), 3-16 DOI: 10.1007/BF00922429
  2.  Rape victims say military labels them ‘crazy’ http://edition.cnn.com/2012/04/14/health/military-sexual-assaults-personality-disorder/index.html

Por: 

Verinha Dias, bióloga, amante de felinos, casada, gorda bem comida, gayzista, feminazy da esquerda revolucionária, Marxista, Leninista,Trostskista e Morenista. Profundamente convencida de que ser radical é ir as raizes do problema.

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3 respostas em “GASLIGHTING: Alguém está tentando fazer você enlouquecer?

  1. Li o texto e me identifiquei bastante. Algumas vezes que brigava verbalmente com minha namorada ela repetia algumas vezes que eu teria começado, sempre querendo se fazer de vítima. E isso não era um caso isolado, quando relatava as discussões com as irmãs, ela sempre me relatava e se vitimando de tudo. O ápice aconteceu no sábado, 05, quando estávamos com uns amigos em casa e do nada ela discutiu comigo por uma coisa tola, me insultando, desrespeitando minha casa e minha família. Ela deu um tapa na minha cara, eu revidei e ela me jogou na cama e começou a me esmurrar, deixando meu olho roxo e alguns hematomas no corpo. A todo instante ela dizia que quem à agrediu foi eu, quem começou a provocá-la teria sido eu. A desculpa é que estava bêbada e que não lembra do fato. Mas infelizmente eu lembro de todos os detalhes e dei um ponto final na relação.

  2. Pingback: Feminismo sem demagogia | T.e.m.p.o - a.n.s.i.o.s.o

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