O trabalho e o lar da “nova mulher”*

*Este texto faz parte da série: Atualizações da “nova mulher” de Alexandra Konlontai

Leia também:

1º texto: A nova mulher / Independente ou     submissa? A “nova mulher” do tipo celibatário.  A nova Mulher: Independente ou submissa?

O trabalho e o lar da “nova mulher”

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Os conflitos da mulher do tipo celibatário, ou seja, da mulher independente de um homem para sobreviver, descritos no texto anterior (A nova mulher / Independente ou submissa?), não se dá apenas por fatores ideológicos. As mulheres ainda permanecem como exército de reserva para o mercado de trabalho. A tecnologia avançou como nunca nos últimos tempos (claro que apenas a tecnologia que interessa ao capital), a necessidade de trabalhadores, em vários setores, caiu drasticamente. Os capitalistas, desejosos de mais lucro, não utilizam os avanços científicos e sociais em beneficio da humanidade. Afinal, poderiam se utilizar da tecnologia para reduzir a carga de trabalho de cada trabalhador, mas, ao invés disso, o sistema exclui uma grande parcela da população do mercado de trabalho. Desta forma, explora-se até o limite cada trabalhador e sempre tem mais para substituí-lo.

E neste jogo, a maioria dos que estão no banco de reserva, são mulheres. Elas estão lá, esperando alguém se machucar, cansar ou ser sumariamente expulso para ocupar o seu lugar. No Brasil, 63,2% dos trabalhadores que procuram emprego há mais de um ano são mulheres, e 60,6% são negros (Dieese, 3013). Se cruzarmos estes dados, encontraríamos aí uma maioria de mulheres negras e, então, podemos visualizar o setor mais explorado e oprimido da classe trabalhadora. Além do mais, as mulheres continuam ganhando menos do que os homens. E isso é muito preocupante, pois a maioria dos homens também recebem salários miseráveis. Concluí-se que não é fácil ser/tornar-se uma mulher do tipo celibatário, apesar da possibilidade ter sido criada, como Kolontai descreve.

Assim, não raro um casamento se dá ou se mantém por questões econômicas. Às vezes nem se trata de que o homem possui uma grande vantagem econômica em relação à mulher, mas eles precisam se manter juntos, pois ao somar seus salários, conseguem ter algum conforto a mais. E para piorar, as mulheres são exploradas dentro de casa pelos seus próprios companheiros. O trabalho doméstico ainda é tarefa da mulher. Nossos governantes, os quais estão intimamente ligados à burguesia, nem cogitam a possibilidade de criar formas de coletivização das tarefas domésticas, como lavanderias e restaurantes públicos. As creches públicas são insuficientes e a qualidade, muitas vezes, pode ser questionada. A mulher é novamente laçada para dentro de casa, acumulando duas (ou mais) jornadas de trabalho. E o trabalho doméstico nem ao menos é remunerado. Aí está, mais uma grande desigualdade entre homens e mulheres: estas quando chegam do trabalho vão cuidar da casa e dos filhos; já os homens tem o direito a algum tipo de lazer ou descanso.

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Dessa forma, quando finalmente as mulheres estão livres para viver a riqueza do mundo externo às suas casas, elas novamente são presas pelas enormes quantidades de tarefas que devem realizar. Por isso, hoje é muito comum dizer que as mulheres têm uma capacidade multifuncional, ou seja, de fazer várias coisas ao mesmo tempo; mulheres que assumem este tipo de comportamento são hipervalorizadas. Até a ciência afirma este absurdo, o que seria cômico, se não fosse trágico.

E fica o questionamento: Porque as mulheres permitem tal submissão? Por mais que as condições sejam péssimas, a possibilidade de se tornarem independentes está colocada. Mesmo não tendo uma vida com maiores confortos, mesmo com todas as dificuldades para serem contratadas, as mulheres tem a possibilidade de batalhar um espaço no mercado de trabalho, algo que seria impossível há 150 anos atrás. E diferentemente da época de Kolontai, hoje a mulher pode separar-se legalmente de seu marido.

Inúmeros motivos podem explicar tal submissão. Além da dificuldade de conseguir um emprego e ter um salário digno, outras questões barram esta possibilidade. É preciso refletir sobre um fato, um tanto oculto e curioso: mesmo contando com todas as dificuldades, a mulher pode se ver completamente independente do homem, mas o homem não, ele ainda depende da mulher. Afinal, sobreviver no mundo do trabalho, tanto o homem quanto a mulher estão capacitados. Mas e a casa? E o cuidado consigo próprio? Isto é tarefa para uma mulher. Se houver uma separação, quem vai lavar as cuecas deste homem? Eles definitivamente precisam de uma mulher, mesmo que seja sua própria mãe.

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“A Família”, obra de Paula Rego

Esta situação chegaria até ser engraçada, se não fosse o fato de que muitos homens, para manterem a submissão injustificada da mulher, utilizam-se de violência. Pois é, o capitalismo avançou, mas não nos tornamos mais civilizados! É muito comum existir pelo menos algum tipo de violência (psicológica, física, moral, patrimonial, sexual) dentro dos lares. A maior parte da violência sofrida pelas mulheres acontece dentro de casa. Temos até uma lei específica de proteção da mulher em caso de violência doméstica (Lei Maria da Penha), mas não adianta, nada muda efetivamente. Afinal de contas, no sistema capitalista, a justiça, além de burguesa, é machista.

Falando em justiça, podemos entrar na questão do divórcio. Sim, hoje a separação entre os cônjuges é legal e acontece com grande frequência. Porém, as coisas não são tão tranquilas assim. Conforme a própria Kolontai nos ensina, a família no capitalismo é uma unidade de acumulação de capital. Por isso, foi tão difícil conquistar o direito a uma coisa tão natural, quanto romper um relacionamento. Afinal no meio de um relacionamento estável tem a propriedade privada, e dividir bens nunca foi algo muito tranquilo. Dentro da burguesia e da classe média, costuma vencer (em termos econômicos)  aquele que tem o melhor advogado. Ou seja, o vencedor costuma ser o homem, pois normalmente este tem maior poder aquisitivo. Na periferia a coisa fica mais séria, pois como dividir bens que praticamente não existem? Às vezes, as únicas coisas que se tem para dividir são as dívidas. Este problema se apresenta como uma barreira concreta para a realização do divórcio.

Além da questão econômica, na maioria dos casos de divórcio, a mulher fica com a guarda dos filhos. É fato que, na maioria das vezes, existe o desejo das mães, dos filhos e dos pais para definir desta forma a questão da guarda. Temos que levar em consideração que muitos homens nem ao menos sabem como cuidar de seus filhos, afinal de contas esta é uma tarefa considerada feminina. Vamos lembrar que muitos homens não sabem nem como cuidar de si. Além do mais, mesmo as mulheres assumindo esta grande responsabilidade, que é o cuidado com os filhos, vemos grande parte dos homens achando um absurdo o fato de ter que pagar pensão. Além disso, acusam as ex-esposas de ter dado um “golpe”, de querer lucrar com esta situação. É fato que homens como estes não sabem nem ao menos quanto custa o leite das crianças. Não sabem que, pode parecer muito, mas cuidar de um filho é extremamente caro, quem dirá de dois, três…

Então, normalmente as mulheres saem deste casamento com condições materiais prejudicadas e ainda tendo a obrigação de cuidar dos filhos. O desgaste com jornada de trabalho, filhos e casa se torna ainda mais intenso. Para o homem não, trata-se do início de uma vida nova. O homem está oficialmente livre para sair com os amigos e se relacionar com outras mulheres.

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”La vie” (A vida), obra de Picasso

Enfim, por mais que a mulher independente, a do tipo celibatário, tornou-se uma realidade possível, concebível no mundo atual, trata-se ainda de uma minoria. A grande maioria das mulheres ainda está presa a um homem e/ou as tarefas designadas a elas, seja por questões materiais, ou por questões morais. Enquanto o capitalismo e o patriarcalismo vivem em simbiose, por mais que se avance no tempo, na tecnologia, no jeito de pensar, as mulheres continuam sofrendo com as mesmas questões de séculos atrás. A forma até pode mudar, mas o conteúdo permanece o mesmo.

Denise Laizo é militante de esquerda há 10 anos e não quer revelar a idade. Eh terapeuta ocupacional e trabalha no atendimento às pessoas usuárias de drogas. Eh totalmente contra as internações compulsorias e comunidades terapeuticas e completamentea favor da legalização das drogas. Eh marxista, leninista, trotskista, morenista, rosaluxemburguista, kollontaisista e clarazetkinsta. Portanto, é feminista e revolucionaria socialista. Viciada em filmes e dança tango.

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