Amor à vida: Linda e Rafael, amor ou abuso de incapaz?

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Antes de começar a falar do tema, vamos definir o que é o autismo:

O autismo é uma disfunção global do desenvolvimento. É uma alteração que afeta a capacidade de comunicação do indivíduo, de socialização (estabelecer relacionamentos) e de comportamento (responder apropriadamente ao ambiente — segundo as normas que regulam essas respostas). Esta desordem faz parte de um grupo de síndromes chamado transtorno global do desenvolvimento (TGD), também conhecido como transtorno invasivo do desenvolvimento (TID). Mais recentemente cunhou-se o termo Transtorno do Espectro Autista (TEA) para englobar o Autismo, a Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação.

Definido o que é autismo, falemos sobre como é retratado na novela e sobre as consequências.

A novela amor à vida tem em seu quadro de personagens uma moça autista, Linda (Bruna Linzmeyer) e um homem que se “apaixona” por ela, Rafael (Rainer Cadete). Nos últimos capítulos o par romântico deslancha, a relação sai da esfera da amizade e chega ao primeiro beijo.  Ao levar Linda para um passeio em uma praça próxima da casa ela lhe pede um beijo, o rapaz atende. Flagrados neste momento pela mãe (Sandra Corveloni) e a irmã  (Fernanda Machado) da personagem, o rapaz é acusado do abuso e é repreendido por ambas. Já de volta a casa o irmão de Linda, (Rodrigo Andrade), agride Rafael e, não “bastando” tudo isso, a mãe e irmã no dia seguinte vão a delegacia e denunciam o rapaz. Tudo isso acontece sobre um clima de que estas pessoas que estão contra o romance, não estão na verdade se importando com a felicidade de Linda, mas descontaram suas frustrações em cima do rapaz. O irmão Daniel, por exemplo, estava de “cabeça quente” por ter brigado com Perséfone (Fabiana Karla) e Leila queria se vingar do advogado por ele ter auxiliado Thales, (Ricardo Tozzi), a abrir mão de sua herança. E a mãe? Bom à mãe assume um papel de conservadora manipulada por Leila, que queria apenas vingar se de Rafael. Ufa quanta trama!

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A novela esta na verdade confundindo a cabeça do telespectador desinformado que nada conhece a respeito do autismo. Primeiramente, a mãe não está impedindo esta relação por que não se importa com a felicidade de Linda, mas sim para defender a integridade da mesma. Para variar, a novela tem a figura de um homem, Amadeu (Genézio de Barros), que parece ser uma pessoa mais esclarecida apoiando a relação, que é o pai da moça em dissonância com a figura da mãe que parece superprotetora e um tanto desequilibrada. Tem alguma surpresa na caracterização do papel da mãe ser este e o do pai aquele? Não né?

Ao que parece o autor Walcyr Carrasco esta chateado com o personagem de Linda, pois o autismo dela deveria ser algo “bem leve”, para que fosse possível a mesma manter um relacionamento amoroso, mas a interpretação da atriz levou a doença a um grau muito maior, que torna um romance para a mesma algo inviável, inclusive, fala se num possível corte da personagem. O problema é: Já está incutido na cabeça das pessoas que Linda, mesmo com o grau de autismo demostrado pode ter um romance e que ele deve ser não só apoiado mas também incentivado pelos familiares.

Em conversa com Raquel Ribeiro Bittencourt, mãe de um rapaz de 28 anos, autista, que é atendido na mesma associação onde à atriz fez laboratório para elaboração da personagem, (Associação caminhos para Vida-ACV- em Florianópolis), a mesma diz que:

”A atriz que vive a Linda na novela, Bruna Linsmayer, fez a composição do personagem na nossa associação (Associação caminhos para Vida-ACV- em Florianópolis). O autor construiu um personagem absolutamente fictício. Autistas não são assim, embora exista uma modulação da manifestação do autismo de uma pessoa para outra que compromete mais ou menos a sua capacidade de interagir. Os autistas tem muita dificuldade de estabelecer uma conversação fluente, lógica, coerente com o contexto em que ocorre. Na maioria das vezes, a fala é desconectada, pois a sua percepção da realidade é muito diferente. Vejo que o rapaz que se apaixona por ela, está encantado com a sua beleza apenas. Autista como retratado na novela, só em novela.”

Pergunto a ela se ela entende que esta caracterização do personagem é um desserviço para a conscientização das pessoas a respeito do autismo e pode levar homens mal intencionados a abusar de mulheres com autismo ou outras disfunções, ao que ela responde:

“Sim, entendo isso, remete à pedofilia. pois embora adultos no corpo, a maioria dos autistas permanece criança no discernimento. Não têm malícia e são indefesos. O psiquiatra de meu filho sempre nos alertou para a vulnerabilidade que o autismo propicia.”

É normal vermos em novelas globais o machismo ser disseminado, e é feito com tanta categoria que muitas vezes nos vemos torcendo pelo lado errado. É assim que a ideologia é passada é naturalizada sem que se perceba. A mãe de Linda esta cheia de razão em não querer o relacionamento e considera-lo abusivo. Mesmo que não saibamos nada sobre autismo, uma breve consulta à legislação, a advogada e militante feminista, Samantha Pistor, nos esclarece que:

“Pra começar, a tipificação que usaram para prender Rafael não é atual. O tal termo “sedução de incapaz” é tão errado que dói na alma. O atual Código Penal tirou este texto e hoje usa “crime sexual contra incapaz”. Ok parece tecnicismo barato, mas quando você lê a norma entende que o seduzir é muito mais brando que cometer um crime sexual propriamente dito.

E o artigo é bem claro com relação a isso:

Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:

Pena – reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)

§ 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009).

 Com relação à Linda: ela é uma incapaz e não pode, a priori consentir, e o que o Rafael fez se enquadra no artigo 217-A. O problema é que o ato dele, de beijar uma moça em público, dificilmente seria visto como uma tentativa de transar com uma incapaz ou se aproveitar dela. Ainda, o fato de a autista ter se mostrado receptiva (yep, eu sei que isso é uma forma de culpar a vítima) e o fato de o rapaz frequentar a casa dela, dificilmente cairia numa representação e muito menos numa prisão em flagrante. Aplica-se o princípio da insignificância nesse caso e provavelmente ele não poderia mais se aproximar da moça.

E as cenas me incomodam também.

Eu não quero ser capacitista e estigmatizar uma pessoa com deficiência mental. Só que, por mais que eu analise a coisa friamente, não consigo deixar de ver uma relação de poder entre um capaz e uma pessoa incapaz. A Linda poderia se envolver perfeitamente com alguém com as mesmas limitações que ela que eu não veria problemas. E eu acho que com o consentimento dos pais, acompanhamento psicológico e uma constante vigilância sobre o cara, o relacionamento poderia, mas assim, poderia dar certo. E isso dependeria do caráter do moço, que está numa situação de poder do que da moça em questão. Enfim, acho que uma coisa é não querer isolar e estigmatizar pessoas com deficiências. Outra coisa é fingir que numa situação dessas, não existe alguém mais forte e uma parte MUITO mais frágil.”

O intuito deste texto é deixar claro o perigo que é a imagem irreal das pessoas com autismo passada pela novela e o quanto isso pode ser nocivo, ou aumentar ainda mais o problema de abuso de pessoas incapazes, sobre a bandeira do romantismo e do amor romântico.

De forma alguma a posição expressa aqui é capacitista, pessoas incapazes não devem ser postas numa bolha de proteção ou segregadas da sociedade sendo obrigada a conviver apenas com incapazes, é necessário que sejam incluídas, mas também é necessário deixar claro que num relacionamento amoroso e sexual, onde uma das partes detém não só a plenitude das suas faculdades mentais mas também a capacidade de gerir a casa, as finanças e tomar as decisões do casal, deixar rolar sem acompanhamento trata se de  negligência.

Na trama o pai de Linda explica a sua mãe que uma dia eles não estarão mais aqui, que seria bom ela envolver se com alguém que pudesse cuidar dela, que os irmãos da moça, não cuidariam dela com o mesmo zelo que eles. Esta passagem deixa muito claro que o pai deseja que Linda seja tutelada pelo parceiro, sendo assim, fica impossível não notar a relação de poder que se estabeleceria neste relacionamento.

Não é só porque o “capaz” é mais “esperto”, mas porque ele tem os poderes de mando, gestão, decisão, e o incapaz não. Um incapaz, dependendo do nível da doença não pode assinar contratos, ter conta no banco, praticar atos sem o acompanhamento de um capaz, gerando assim uma relação de poder, do capacitado para com o incapaz, e uma relação de poder que sem intervenção de terceiros, não acabará, podendo inclusive perpetrar violências físicas, emocionais e psicológicas, sem que o incapaz tenha condições de libertar-se.

Bióloga,amante de felinos, Gorda, Feminista, Gayzista, Feminazy, Esquerdopata Revolucionária, Marxista, Trostskista, luxemburguista e Kollontaista.

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7 respostas em “Amor à vida: Linda e Rafael, amor ou abuso de incapaz?

  1. Cara Verinha,
    Tenho uma intuição sobre o assunto em questão e gostaria de partilhar com vc. Não tenho provas caibais que possam atestar minha “tese”, mas é algo que me surge com tanta nitidez que penso poder ter razão.
    Se a relação é inverossímil do ponto vista clínico é obvio que a questão em jogo não é o autismo ou as possibilidades do autista na sociedade. É de se notar que a personagem não tem nenhuma função na estória além de ser “despertada para o amor”. Nada se vê em relação a sua diferente percepção de mundo, e isso é deliberado. Não é exatamente uma falha do personagem, tendo em vista o objetivo proposto, que é única e exclusivamente a de fixar no imaginário das pessoas que a relação erótica/afetiva entre o maior de idade e o considerado legalmente incapaz (leia-se, portanto, todo tipo de incapaz) não é um ato condenável. Dito de modo mais claro, pouco importa o autismo, o que está em cena é descriminalização do sexo, nos níveis em que a sociedade a condena. Alguém pode imaginar a pedofilia tendo tratamento parecido em uma novela? É mais aceitável a coisa como está sendo mostrada: um rapaz correto, sem falha de caráter (e com nome de anjo), apaixona-se por uma moça linda (o nome da personagem não é à toa) que por acaso é autista. De forma caricatural, os personagens representam os valores que o autor quer passar. É impossível nos solidarizarmos com a mãe da personagem autista, pois ela encarna tudo o que há de mais negativo na relação de proteção materna (não nos esqueçamos de que é tudo ficção), o atraso que representa para “o desabrochar” da filha para o mundo amoroso. É obviamente um espantalho, não? Um personagem construído unicamente para servir para legitimar determinados argumentos que um personagem mais sábio refutaria com facilidade. Eu, particularmente, assisto esta novela para ver como determinados assuntos irão ser tratados em um futuro próximo, é batata!
    Percebo que a relação entre “Rafael” e “Linda” é análoga à pedofilia. Para incutir nas mentes, de forma paulatina, a beleza da relação entre o homem e uma pessoa legalmente incapaz, o autor construiu uma situação que pudesse ter a adesão total do público, no que diz respeito à pureza do amor dos dois envolvidos. Há um trabalho de reconstrução da imaginação a partir da construção de símbolos dentro da trama com o objetivo de transformar os juízos acerca da percepção sobre o tema segundo a perspectiva proposta. Novamente, não nos esqueçamos de que se trata de ficção, apesar das inserções naturalistas/realistas que buscam dar à ação um caráter mais ou menos verossímil. Confesso que ainda não compreendo muito bem o jogo entre o real e o absurdo, principalmente no que diz respeito à inserção fantasiosa das leis, mas acredito ser um recurso literário, algo deliberado e não uma ignorância. O caso é que ao obter a adesão por meio dos símbolos estabelecidos fica dado um passo em direção à aceitação da relação erótica entre um adulto e uma criança.
    Abs

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  4. Gostaria de saber se alguém aqui na pagina conheceu ou conviveu com pessoas com autismo, pois a casos e casos o autismo tem muitos graus e generaliza-lo apenas como autismo, acho uma profunda irresponsabilidade ou falta de conhecimento da causa, o que a trama realmente sugere é que o amor pode existir em qualquer ambiente o qual eu também acredito. Pessoas com autismo não são retardados ou algo assim como muitos ignorantes falam, lembrando que existem vários tipos de autismo e se tratado de forma correta e rápida os efeitos à surgir serão imensos. E quanto a trama fica claro que é somente uma novela que os efeitos de tratamento com a personagem linda foram e teriam de ser rápidos senão não caberia na novela, e ao meu ver a atual trama não está fazendo nenhuma analogia a pedofilia . Por isso acho que não esta sendo um desserviço a sociedade pois o autor deixou claro na trama, que, sim pessoas autistas podem viver melhor com tratamento correto como foi feito pelo irmão da personagem e outros médicos capacitados, mostra também que a mãe como uma leoa que sempre protegerá seu filho ainda mais com autismo, mas até onde a proteção demais, e a criação de uma bolha o isolando da sociedade é benéfico para quem tem autismo?Eles já são isolados por si só aumentar essa bolha é mostrar que incapaz somos nós, que temos a plena capacidade de decidir sobre tudo
    Trabalhei por muito tempo com crianças ,alguns autistas, alguns com síndrome de down e falar que todos são simplesmente incapazes como diz a lei é não ter conhecimento da causa pois são pessoas extremamente capazes de ser feliz e ser colocadas na sociedade, lógico serão diferentes mas tratá-los simplesmente como incapazes é generalizar algo que não se deve ser generalizado. E por final sobre a entrevista concedida pela mãe de um autista falar que pessoas com algum tipo de deficiência tem apenas de se relacionar com pessoas com deficiência acho que foi uma resposta muito infeliz e nem um pouco carinhosa com o filho ou filha dela.

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