A Culpa é do Sistema!

Por Denise Laizo
É isto mesmo! A culpa pela pobreza, opressão (machismo, racismo, homofobia, transfobia…), exploração e até mesmo por muitos dos problemas físicos e mentais que adquirimos ao longo da vida, é do sistema capitalista. Sei muito bem que esta afirmação é causadora de muita irritabilidade e, portanto, acabo de provocar um clima de inimizade com boa parte das pessoas que estão lendo, que já devem estar elaborando contra-argumentos raivosos. Mas tudo bem, a intenção é provocar a reflexão e a discussão.

De forma geral, o desacordo é motivado, porque a maioria das pessoas compreende que ao culpar o sistema capitalista, estou tirando a responsabilidade dos maldosos seres humanos, que precisamos suportar na face da terra. A sensação é a de que estou mudando o foco, tirando-o do indivíduo vilão e colocando em algo externo, no mundo, algo que é tão abstrato que é impossível apenas pegar e jogar na cadeia e/ou eliminar.

De fato estou mudando o foco da individualização da culpa para a sua coletivização, afinal de contas este sistema não é algo natural, mas sim uma construção social, humana. Assim, quando digo “a culpa é do sistema”, não tiro a responsabilidade individual, mas a partilho com um coletivo, distribuindo a parcela de culpa que cada parte merece por produzir e reproduzir este sistema.

Não estou afirmando, por exemplo, que um estuprador não deve ser penalizado. Um estuprador merece ser preso e o mais rápido possível. Porém, as pessoas que se levantam apenas contra o estuprador, mas não lutam contra o sistema capitalista, por mais contraditório que pareça, não estão atingindo o status-quo. Isto porque o inimigo é encarnado em indivíduos, contribuindo para que a luta ocorra entre pessoas; o problema passa a ser os defeitos dos outros e não todo um sistema que ao passo que pune um estuprador, faz brotar mais 100 em diversos pontos do planeta.

Ao mesmo tempo, o inverso também é verdadeiro, ou seja, as pessoas que apenas lutam contra o sistema e não combatem as opressões cotidianas, na realidade não são consequentes com sua luta. Afinal estas mantém o cerne do sistema, que é categorizar grupos de indivíduos e dividi-los entre os que têm mais valor e menos valor. O primeiro grupo domina o segundo e o sistema de opressão e exploração permanece o mesmo. Infelizmente este é o grande mal que assola a esquerda.

Mas por que o sistema é o grande vilão da história?  Porque o sistema capitalista – como qualquer sistema baseado na propriedade privada de produção – é gerador de desigualdades. Quero deixar claro que quando falo de desigualdades não estou falando de diferenças. As diferenças entre as pessoas é algo mais natural e saudável no mundo. O problema é se utilizar das diferenças para submeter determinados grupos, gerando assim desigualdades financeiras, legais, sociais, etc. Pois bem, o pilar de sustentação das desigualdades no sistema capitalista é a formação de uma sociedade dividida em classes. Ou seja, poucos têm muito e muitos têm pouco! O grau desta desigualdade é tão grande que o relatório da ONG britânica Oxfam, divulgou no inicio de 2014 que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio de US$ 1,7 trilhão, o que equivale ao patrimônio de 3,5 bilhões de pessoas, as mais pobres do mundo. E os ricos não têm a mínima pretensão de dividir seu patrimônio, afinal este mesmo relatório afirma que nos últimos 25 anos, a riqueza ficou cada vez mais concentrada nas mãos de poucos.

Sem dúvida nenhuma, esse fato é gerador de conflito social. Já imaginaram se os 3,5 bilhões de pessoas mais pobres resolvessem forçar as 85 pessoas mais ricas a dividir de forma igualitária o seu valiosíssimo patrimônio? Não parece difícil, mas é. Isto porque a classe dominante tem todo um sistema (modus operandi) que a protege melhor do que qualquer fortaleza. Destaco aqui três pontos-chave deste sistema: o Estado, as forças armadas e mecanismos de divisão da classe trabalhadora, como as mais diversas formas de opressão.

Mas como funciona o sistema?

Eu trabalho no tratamento de pessoas dependentes de álcool e outras drogas. Em sua maioria são pobres, desempregados e negros (as mulheres são minoria, pois o machismo dificulta a aproximação delas ao serviço). Bom, estou contando isso porque tem dia que eu chego no meu trabalho e digo para os pacientes: “O problema do mundo é o sistema!”.  Eles estranham e questionam: “Que sistema?”. Eu digo: “Ah, vocês sabem do que eu tô falando… O sistema, oras”. E então, começamos a montar nosso quebra-cabeça.

Eu começo: Por que o mundo tem tantos problemas; por que a vida está tão difícil?

O grupo responde: Por causa dos bandidos! Esses direitos humanos ficam defendendo os bandidos, e quem é trabalhador, não tem direito a nada.

Então eu pergunto: Por que bandido é bandido?

Um integrante do grupo responde: Porque é tudo vagabundo! Eles não querem trabalhar!

Eu questiono: O que aconteceria se todos os bandidos do mundo resolvessem trabalhar?

Alguém diz: Ah, ia ser difícil! Não tem emprego pra todo mundo! Eu mesmo estou desempregado há um tempão. E pra ter emprego bom mesmo, tem que ter estudo; e eu te digo mais, não é qualquer estudo não, tem que ser estudo bom, tipo coisa de rico.

O outro fala: A gente faz mais é bico, sabe? Um servicinho aqui, outro ali. Não tem direito a nada; isto só com carteira assinada. Aí é difícil!

Então começamos a montar nosso sistema:

Dentro desta primeira parte da construção do sistema, podemos analisar que na discussão do grupo, aparece a culpabilização individual pelos problemas sociais. Para alguns integrantes do grupo o foco do problema é a pessoa que mora ao lado, alguém que muitas vezes é tão pobre quanto eles, que enfrenta as mesmas dificuldades devido a sua classe e sua cor para conseguir um emprego. Para quem tem alguma dúvida de que o machismo e o racismo influenciam na hora de conseguir um emprego, dados do IBGE, divulgados em setembro de 2012, apontam 59% das pessoas desocupadas em 2011 eram mulheres e 57,6% eram pessoas negras. Então, não temos apenas “trabalhares” e “bandidos”, existe uma grande parcela que está desempregada, a qual empurra muitas pessoas para o subemprego ou para a criminalidade.

E aí entra o papel da mídia. Os programas de televisão (principalmente os jornais sensacionalistas) buscam reforçar preconceitos e demonstrar que o problema do mundo está no defeito de caráter de algumas pessoas. “Por acaso”, estas, em sua maioria, moram na periferia. A partir de todo tipo de apelo, a população, inclusive as pessoas de baixa renda, apoia intervenções nefastas da polícia nas comunidades pobres, e assim, em pleno 2014, vivenciamos um verdadeiro genocídio da juventude negra neste país.

Este é um exemplo de como a classe dominante faz para dividir a classe trabalhadora. Coloca pobres contra pobres, em nome de um “bem comum”. Não demonstram o contexto que leva meninos e meninas da periferia para o mundo do crime. Não mostram que o verdadeiro crime está na falta de oportunidades, as quais deveriam ser oferecidas por pessoas que, realmente sem qualquer caráter, roubam de forma sistemática toda a população, ou seja, as pessoas da classe política e do empresariado. Então, raríssimas vezes somos chamadxs a ver como o capitalismo desumaniza os seres humanos, os quais possuem uma vida que não vale nada. Um sistema perverso produz perversidade. E assim, nasce x bandidx:

Bom, vamos continuar que o sistema não pode parar…

Voltando para o grupo do meu trabalho, eu faço a seguinte colocação para os meus pacientes: Se o problema são os bandidos, tá tudo certo, pois temos a polícia, cada vez mais forte, mais armada… leis mais duras…

Então, alguém do grupo me interrompe com ar de revolta, e diz: Até parece, polícia é pior que bandido. Tudo corrupto. Só porque tem uma arma na mão, acha que pode fazer o que quer. Eu já cansei de ser parado por policial; e eu uso droga, mas não sou do crime!

Outro participante do grupo complementa: “Você falou que as leis estão mais duras, né?! Que leis? As leis são mais duras só para o pobre. O cara que é rico, paga um bom advogado e sai rapidinho da cadeia. Pra eles não tem lei não.

Então eu sigo com a seguinte conclusão: Se vocês estão me dizendo que polícia só elimina bandido pobre (e pelo visto os que não são bandidos também) e que a lei só serve para prender o povo da periferia, quer dizer que a polícia e as leis servem para manter os ricos no domínio e conter os pobres.

Então conseguimos avançar ainda mais no nosso esquema:

As forças armadas são um dos mais importantes instrumentos da classe dominante para se manter no poder. Fica claro que esta não serve para a proteção da população, mas sim para conter uma grande maioria de explorados. Nas mãos das forças armadas está a permissão para matar, prender e até mesmo reprimir movimentos sociais.

No entanto, quem são os policiais? São trabalhadores e trabalhadoras, em sua grande maioria faziam ou ainda fazem parte da periferia. Afinal de contas, a burguesia não vai colocar seus filhos para encarar um trabalho tão perigoso. E aí mais uma vez se coloca trabalhadorxs contra trabalhadorxs. Colocam as pessoas da classe trabalhadora umas contra as outras para fazer o controle sobre sua própria classe.

Mas quem faz isso? Quem manda na polícia? Quem autoriza as chacinas? Quem autoriza as invasões na periferia? Quem permite os abusos da polícia?

Agora sim, estamos nos aproximando de um dos mais importantes instrumentos de poder da classe dominante… Estamos nos aproximando do Estado. Instituição esta que tem o poder político, a qual vai definir quem será o beneficiado e quem será o prejudicado.

Não precisamos repetir nosso esquema, esta imagem já esclarece muita coisa:

Poxa vida, mas não dá para beneficiar as duas classes? Por que este dualismo?

É simples, porque para beneficiar a classe trabalhadora é necessária a divisão de renda, é preciso que a riqueza produzida seja compartilhada entre todas as pessoas, principalmente entre aquelas que a produz, ou seja, entre pessoas da classe trabalhadora. Mas a classe dominante não quer. Afinal, para esta se manter no poder, para continuar mantendo sua própria existência, necessita acumular cada vez mais riqueza. O seu poder é maior, quanto maior for seu distanciamento da classe trabalhadora, quanto mais a classe dominante acumula e quanto menos riquezas tiver a população em geral.

Mas quem é esta classe dominante? Meus pacientes dizem com frequência: as pessoas ricas também trabalham, se estão em um lugar de destaque é porque merecem…

Pois é, mas esta posição de destaque não tem a ver com merecimento, mas sim com diferenças de oportunidades. E quem tem mais oportunidades? Quem possui os meios de produção, é claro. Estas pessoas não produzem diretamente nada, seu trabalho é explorar a mão de obra de quem não é proprietário dos meios de produção. Ou seja, esta divisão de classes não está baseada em capacidades individuais, até mesmo porque boa parte da população não tem como explorar e desenvolver suas próprias capacidades e potencialidades, mas sim em quem tem e quem não tem propriedade dos meios de produção.

Aí meus pacientes dizem: Ah, mas precisamos dos empresários, sem eles não temos empregos.

Então questiono: Se os empresários são tão necessários, por que nem todas as pessoas têm emprego?

Alguém responde: Por conta da tecnologia, não se necessita mais de tantos trabalhadores para produzir algo.

Então faço a seguinte provocação: Se os empresários existem para gerar empregos, por que eles não aproveitam a existência de tamanha tecnologia para diminuir a carga horário de trabalho das pessoas? Assim outros poderiam ser contratados e todos teriam a possibilidade de ter bens materiais e de ter tempo para se desenvolver em outras áreas da vida.

Aí, alguém diz: Ah, mas patrão nenhum vai fazer isso! Eles querem mais que a gente faça hora extra e ainda paga uma mixaria. A tendência é sempre demitir e não contratar mais!

Então, concluímos nosso sistema:

Como é possível observar, poucos estão na parte superior do sistema. A grande maioria está na parte inferior, sem ter como ascender, salvo raríssimas exceções. A maior parte da população tem como perspectiva a falta de oportunidades, a desapropriação dos bens que ela própria produz, a violência, o encarceramento, a morte precoce.

E este sistema só se mantém funcionando enquanto houver competição entre os próprios integrantes da classe trabalhadora. Dessa forma, as opressões (machismo, racismo, homofobia, transfobia, etc) são mecanismos de divisão da própria classe, ao canalizar o ódio gerado pelo sofrimento que vivencia para certos setores da população que já são marginalizados. Assim se mascarara qual é o verdadeiro grupo social gerador do sofrimento.

Sempre digo para meus pacientes que ao oprimir uma mulher, por exemplo, eles estão servindo para a manutenção desse sistema perverso, que eles mesmos são desfavorecidos. Quando oprimem uma mulher, quando sustentam a lógica de que elas são inferiores, estão contribuindo para que os empresários se sintam no direito de contratá-las por salários mais baixos e assim nivelar por baixo os salários de toda classe trabalhadora. Quando eles oprimem uma mulher, eles estão deixando que os Estado não se responsabilize por parte importante da produção social, que é o trabalho doméstico. Quando eles oprimem uma mulher, estão fortalecendo a divisão entre a própria classe trabalhadora, ou seja, estão fortalecendo a classe que os domina. A breve sensação de poder que se tem ao oprimir é ilusória, como se diz, é dar um tiro no próprio pé.

Por tanto, é preciso ter foco. É necessário visualizar que o grande culpado por toda exploração e opressão é o sistema. As pessoas que oprimem devem ser penalizadas e, se possível, educadas, pois elas fortalecem o status-quo. Mas não vamos desviar o foco, não é eliminando essas pessoas, que vamos solucionar os problemas de uma sociedade fundada em uma estrutura perversa. É preciso ter em mente, que a culpa é do Sistema!

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