A SOCIEDADE TOLERA A INFIDELIDADE DOS HOMENS, MAS SÃO AS MULHERES QUE SEMPRE PAGAM O PATO

Por Carolina Vitoria

Saiu uma matéria na rede (Leia aki) sobre o STJ (Superior Tribunal da Justiça) que negou o reconhecimento de união estável a uma mulher por falta de fidelidade por parte do parceiro. Os ministros da 3ª turma do STJ por unanimidade entenderam que mesmo atendendo os requisitos legais da união estável, a falta de lealdade e fidelidade entre parceiro desconfigura este direito.

Sinto-me pessoalmente muito tocada por esta matéria, já que o mesmo aconteceu em minha família, meus pais nunca se casaram legalmente, mas conviveram por mais de vinte anos até meu pai falecer. Meu pai anos após se desquitar da primeira esposa, com que teve duas filhas, se relacionou com minha mãe e com ela teve mais três filhos. E assim, com todo o aparato da liberdade e tolerância que a sociedade dá aos homens, meu pai nunca foi fiel, teve outros filhos fora do relacionamento com minha mãe, e nunca foi cuidadoso para esconder suas aventuras. Minha mãe por sua vez, sempre cumpriu a saga da mulher que foi orientada sobre a concepção de suportar as traições do marido, pois a dedicação aos filhos é que deve ser priorizada.

E desta forma, minha mãe se desdobrou em suas triplas jornadas de trabalho para ajudar meu pai a conquistar uma vida digna, e quando ele faleceu seus familiares, que nunca aceitaram a minha mãe pelo fato dela ser negra, interviram no processo de união estável e estrategicamente apresentaram na audiência as várias amantes com quem ele se relacionou. Com isso, a decisão da justiça foi exatamente à mesma da matéria, “não se pode considerar uma relação estável se não existir fidelidade em ambas às partes”, foi um dos termos utilizados na decisão. E para completar a humilhação, as audiências se tornaram um espetáculo à parte já que o juiz, um fanfarrão, se deliciou com a historia e deu um show de piadinhas e deboches machistas como no seguinte comentário, “mas gente, que homem foi esse, comendo tanta mulher assim o que ele conseguia comer a noite?”.

Vivemos numa sociedade que considera a monogamia o pilar da estrutura familiar, porém apenas as mulheres estão condicionadas a obedecer às regras, as puladas de cerca dos homens são tratadas como algo natural que faz parte da genética e não há como lutar ir contra isso. Depois, a responsabilidade da infidelidade vai para as mulheres que segundo a tradição, “são elas que não conseguem segurar os maridos em casa ou na cama”, a justiça até pode assegurar o direito á união estável desde que “nenhum rabo do marido apareça”, e isso nada mais é que o machismo institucionalizado!

Quando minha mãe se queixava das saídas do meu pai, sabe lá pra onde! Ele usava uma expressão que nunca vou me esquecer, “*Fica Na Sua, Que Eu Fico Na Minha*”, quando cresci aprendi o que significado dela, “*fica na sua casa, que eu fico na minha rua, eu sou livre!*”. Inclusive, há pouco tempo vi uma entrevista do Zeca Pagodinho que personificou a fala do meu pai e provavelmente a de outros milhares maridos, “*não gosto de dar satisfação da minha vida, e até minha mulher já sabe, a rua é minha e a casa é dela*”, disse o Zeca. E é desta forma se legaliza o adultério dos homens e se tortura as mulheres que ousam sair do espirito familiar monogâmico.

A ministra Nancy Andrighi e relatora do voto, afirma que “uma sociedade que apresenta como elemento estrutural a monogamia não pode flexibilizar o dever de fidelidade – que integra o conceito de lealdade e respeito mútuo – para inserir no âmbito do direito de família relações afetivas paralelas (sic). A análise dos requisitos para configuração de união estável deve centrar-se na conjunção de fatores presentes em cada hipótese, como a affectio societatis familiar (intenção de constituir família), a participação de esforços, a posse do estado de casado, a continuidade da união, e também a fidelidade”.

Então demagogicamente sobre a justificativa da monogamia, muitas outras mulheres serão lesadas com o aval da justiça, já que não há nenhuma lei ou cultura que impeça os homens de trair.

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