Marcha das vadias, a cultura de estupro e o capital

A Marcha das vadias, que ocorre e diversos lugares do mundo, tem como principal foco o combate à cultura de estupro. Essa cultura culpa as vítimas por todo tipo de assédio sexual, trazendo a ingerência sobre como as mulheres se vestem, como se suas roupas curtas determinassem  que elas (na frase disseminada com a pesquisa do Ipea) “merecessem ser estupradas”.

É por isso que as manifestantes gritam alto que “todas somos vadias”, se ser vadia significa ter controle sobre o próprio corpo. É por isso que também em muitas marchas ao redor do mundo as mulheres vestem roupas curtas, ou mostram os seios. Afinal, temos direito a nossos corpos, somos livres.

Algumas observações, no entanto, são importantes acerca dessa liberdade. Embora seja claro que as mulheres devam defender seu direito de se vestir e portar conforme suas vontades, o questionamento dessas vontades é importante para que não tenhamos a ilusão de que elas são produto de uma individualidade não influenciada pelo meio social. Nesse sentido, é interessante  lembrar que as roupas curtas também tendem a ser usadas para a sexualização e objetificação do corpo das mulheres –  por isso também o uso do termo “vadia” pode ser entendido como objetificador .

Por isso talvez a ideia de que não somos putas nem santas, mas mulheres, combata melhor a cultura de estupro e evite que nossa liberdade seja reconduzida, de novo, a imagens construídas pelo desejo masculino. 

Apesar disso, participamos da Marcha das Vadias por entender que ela se embate com um problema real das mulheres, e nossas diferenças de formulação não devem impedir a unidade nessa luta.

Há outro aspecto, no entanto: a cultura de estupro não paira no ar – e o feminismo deve atacar suas origens. Se hoje existe uma noção de que todas as mulheres devem pertencer a algum homem, isso acontece porque as mulheres foram historicamente escravizadas pelos homens, para produzir filhos e garantir a manutenção da vida dos homens com trabalhos não pagos essenciais, como cozinhar, lavar e limpar. Embora sem esses trabalhos nenhuma sociedade sobreviva, quem os faz nessa sociedade não é valorizada nem remunerada.

E quem ganha com isso? Por um lado os homens, é claro. Sendo nossa sociedade patriarcal, são eles que têm maiores privilégios e estão em geral nos espaços de exercício de poder.

Mas, além disso, ganham também as empresas, que não precisam ter creches, refeitórios e lavanderias (ou não pagam impostos a mais para que o Estado os forneça), pois podem contar com o trabalho não pago, e podem também pagar salários mais baixos às mulheres, que tem seu trabalho desvalorizado,  e, assim, nivelar por baixo também o salário de toda a classe dos trabalhadores.

A opressão às mulheres e sua exploração são parte do mesmo movimento  – por isso o feminismo, para ser consequente, deve ser classista. 

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