Por que não votar em Dilma?

Por que não votamos em Dilma, nem no primeiro e nem no segundo turno?

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Toda eleição em que se evidencia pelas pesquisas que haverá um segundo turno, e neste segundo turno haverá disputa entre candidates do Partido dos Trabalhadores e de algum outro partido que declaradamente cumpre uma agenda neoliberal, surgem os defensores de que votar contra a direita é votar no PT. Usam uma falsa simetria do menos pior e a ideologia do voto útil, e acusam de pelegagem quem não o fizer, dizendo que é “para evitar a volta da direita”.

Primeiro gostaríamos de deixar claro que somos totalmente contra a eleição de qualquer candidate que seja da direita, que cumpra uma agenda neoliberal ou que mesmo que não declare se da direita tenha o compromisso com uma agenda neoliberal e conservadora, de ataque às minorias e a classe trabalhadora. Neste contexto afirmamos também que não basta ser mulher, negre, ou pertencente a qualquer minoria para que seja um governo que nos represente.

Dito isso, gostaríamos de dar nosso parecer sobre esta polarização esquerda x direita nas eleições brasileiras: à esquerda e  direita são termos relativos, mas em geral a direita representa a grande burguesia. Podemos notar pelas políticas aplicadas no decorrer de seu mandato que Dilma não faz um governo priorizando xs trabalhadorxs, como deveria ser no caso de um partido de esquerda. Candidates que poderão estar no segundo turno, sejam Dilma, Aécio ou Marina, são farinha do mesmo saco, pois todes cumprem uma agenda neoliberal, seja de forma declarada ou, como Dilma, de forma mascarada para manter junto de si o apoio da classe trabalhadora que a elege.

Daí vocês vão nos perguntar “Como assim Dilma cumpre uma agenda neoliberal?” E dirão que Dilma fez isso e fez aquilo para o povo trabalhador. Pois bem, podemos nos lembrar de que na época de FHC, com as benesses do recém-criado plano Real, a inflação estabilizou, o poder de compra dos brasileiros aumentou, algo muito marcante na época, a carne de frango ficou tão barata, mas tão barata, que famílias que antes nunca puderam alimentar-se com a carne a semana toda , agora poderiam… Isso não fez do governo FHC um governo de esquerda, apesar de ele mesmo declarar-se como esquerda. É baseado em outras atitudes que analisamos o quão seu governo era de direita, ou seja, existia e governava para grande burguesia. Por que com Dilma e o PT tem que ser diferente? Por que analisam algumas políticas públicas que aparentemente beneficiam as classes baixas, e não se contabiliza que, em contrapartida, existe muito mais dinheiro escoando para o bolso dos ricos do que em investimento para melhoria da vida da classe trabalhadora?

É bom lembrar que muitas vezes nos iludimos em relação ao PT devido a seu histórico. Apesar de a presença em greves, construção pela base e formulação de reivindicações para xs trabalhadorxs tenha sido importante na história brasileira, devemos nos focar agora no que de fato esse partido faz no governo hoje (a discussão sobre a degeneração do PT pode ficar para outro momento).

Vamos aos fatos?

Já nos primeiros dias de seu governo, no ano de 2011, a Presidenta Dilma, com a tarefa de combater a inflação, usou de um receituário conhecido de governantes neoliberais, corte de orçamento federal. Aliás, diga-se passagem, foi o maior corte de orçamento de toda história do Brasil, nem mesmo o tão criticado pela esquerda FHC havia conseguido tamanha façanha. Antes de Dilma entrar com este feito, apenas outro governante havia batido recordes como ela: Lula, que em 2010, fez um corte orçamentário de 21,8 bilhões. A redução deste corte feito por Dilma foi sentido na educação, com redução de 3,1 bilhões e no programa de habitação “Minha casa, minha vida”, com redução de 5 bilhões.

No mesmo período de 2011 em que os deputados deram para si mesmos um reajuste salarial de 62% e a própria Dilma teve um reajuste de 132% em seu salário, Dilma impôs um arrocho ao salário mínimo, que foi reajustado abaixo da inflação, pela primeira vez desde 1997.

Em 2012, na semana que antecedia o carnaval, o governo federal, tendo Dilma como representante, anunciou o corte de nada menos que R$ 55 bilhões da peça orçamentária aprovada pelo Congresso para 2012, ou R$ 5 bilhões a mais que os cortes anunciados no início de 2011, e que eram até aquele momento recorde. As áreas mais atingidas, como vocês podem imaginar, foram os dois setores que mais atingem a população pobre e trabalhadora: saúde e educação. A saúde perdeu 5,5 bilhões previstos em seu orçamento. E mais: novamente o programa “Minha Casa, Minha Vida” foi atacado e viu desaparecer R$ 3,3 bilhões, e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pela reforma agrária perdeu, por sua vez, R$ 1,2 bilhão. Aliás, a Reforma Agrária avançou menos no governo Dilma do que no governo FHC, em uma entrevista à Carta Capital desse ano, Gilmar Mauro, dirigente do MST, ressalta isso: (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/201co-governo-dilma-nao-fez-nada-em-termos-de-reforma-agraria201d-6758.html).

No governo Dilma, o que o PT chamava de privatização passa a chamar-se “acordo com a iniciativa privada”, e desta forma vários serviços passam a ser terceirizados com o anúncio de um plano de privatizações no qual Dilma repassou ao setor privado concessões para a exploração de rodovias e ferrovias. Ah, e Dilma ainda usa um discurso idêntico ao do ex-presidente tucano, FHC, para justificar as privatizações, dizendo que o setor público seria sinônimo de ineficiência e incompetência, ao contrário da iniciativa privada. O nível de desconfiança deveria subir ao alerta máximo.

E neste caminho de privatizações disfarçadas de acordo com a iniciativa privada, Dilma privatizou os aeroportos e portos também. Além disso, Dilma leiloou as fontes de petróleo, aliás, uma quantidade de petróleo que, revertida em dinheiro, é maior que o PIB do país em 2012, fechado na cifra de US$ 2,3 trilhões de dólares. Os participantes deste leilão que segue a mesmíssima linha do governo tucano são empresas multinacionais, tais como Chevron e Shell. Onde mesmo que o T do Partido dos trabalhadores saiu beneficiado até agora mesmo?

Vamos falar de quem esta se beneficiando? Desde 2012, as montadoras de carros do país têm obtido redução e até isenção do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados). Somente com esta medida, o governo federal deixou de arrecadar mais de R$ 12,3 bilhões. As montadoras fazem remessas de lucros para fora do país contabilizadas US$ 3,5 bilhões em 2013 contra US$ 2,4 bilhões no ano anterior. Somente nos últimos quatro anos, mais de US$ 15,4 bilhões foram remetidos pelas montadoras ao exterior. E os trabalhadores? Nos últimos sete meses, o setor automotivo demitiu 7.300 trabalhadores, apesar de todo o incentivo recebido à custa do dinheiro público.

E os trabalhadores?

O primeiro elemento quando se pensam nos benefícios do governo Dilma são os programas sociais. Pois bem, claro que nós não vamos desconsiderar que a vida de pessoas melhorou e atingiu um nível mínimo de dignidade com programas como o Bolsa-Família. Ocorre que esse e outros programas podem existir na medida em que não ameaçam os lucros dos capitalistas. Na verdade, o estímulo ao consumo em regiões empobrecidas é vantajoso também para a burguesia. Nesse sentido, nenhum destes candidates vai acabar com esses programas, e de certo não é isso que os fará de esquerda. Outros compromissos com a classe trabalhadora, no entanto, Dilma não pode assumir:

Não houve sinalização da Presidenta em discutir e implementar a convenção 158 da Organização Internacional do trabalho que determina estabilidade no emprego aos trabalhadores.

Dilma afirmou ser contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução de salários. Esta medida geraria cerca de 2,5 milhões de empregos de acordo com o Dieese.

Em contra partida em maio de 2013, a indústria de transformação fechou 28.533 vagas a mais do que gerou em postos de trabalho, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Segundo dados da FIESP, dos 22 setores em que a indústria está dividida, 14 demitiram, 3 permaneceram estáveis e apenas 5 contrataram.

Uma política de esquerda e em beneficio aos trabalhadores aqui neste contexto seria impedir a remessa de lucros das empresas para fora do país e as demissões em empresas que tem isenção fiscal, mas para quê? Por que Dilma e PT iriam fazer uma politica para o T da sigla do partido quando são os burgueses que financiam sua candidatura? A campanha de Dilma já embolsou pouco mais de R$ 120 milhões segundo prestação de contas ao TSE. Só a dona da marca Friboi deu R$ 14,5 milhões para Dilma, mas ela não deu apenas para Dilma, deu também para Aécio. A dona da Friboi não faz diferenciação entre o partido de Dilma e o partido de Aécio por que ela sabe que independentemente de quem ganhe as eleições seus interesses estarão assegurados, mesmo que isso signifique, para o caso do PT, priorizar o patrão, não trabalhador. Mas não foi só a Friboi. A JBS (da marca Friboi), a Ambev e a empreiteira OAS respondem juntas por 65% das doações. As doações das três maiores beneficiaram principalmente a presidente Dilma Rousseff (PT), que disparou no ranking de arrecadação, dando claros sinais de que é a preferida da classe dominante, classe esta que o PT não deveria representar. É muito rabo preso com a burguesia para uma presidenta que diz governar para os trabalhadores e trabalhadoras do país.

Responda honestamente para si mesmo esta pergunta, pois sabemos que a esquerda governa para trabalhadores, e não para burguesia… As informações prestadas aqui parecem para você compatíveis com um programa de governo para a classe trabalhadora? Se não estão compatíveis (e não estão) desaparece esta falsa polarização entre esquerda x direita, não é mesmo? Logo não temos uma candidata que represente a classe trabalhadora no jogo das eleições e, portanto, não há pelegagem nenhuma em optar no primeiro turno por outres candidates que nos representem, ainda que não ganhem (e provavelmente não ganharão), e no segundo turno votar nulo.

E as trabalhadoras?

Sabemos que o machismo impõe às mulheres as responsabilidades pela criação dxs filhxs, por isso, a reivindicação por mais creches, é muito mais do que conseguir em uma instituição de ensino uma vaga para deixar xs filhxs, trata se de ter garantido parte do processo de emancipação da mulher, dando a ela condições de manter sua vida profissional tendo independência financeira e também a libertação da imposição machista de que o trabalho de educação dos filhos compete somente a ela. Mesmo as mulheres representando hoje cerca de 50% da força de trabalho, o não atendimento à demanda da educação infantil é o principal motivo para as mulheres deixarem seus empregos: menos de 2 a cada 10 crianças de 0 a 3 anos conseguem vagas. A falta de creches é um direito negado a criança e a mulher trabalhadora. Dilma prometeu milhares de creches e não cumpriu.

Não votamos em Dilma por que nem Dilma e nem seu partido estão comprometidos com um governo para classe trabalhadora. Votar em Dilma no segundo turno ou votar em Marina significa estar votando em pessoas comprometidas com a grande burguesia. Ainda que Marina diga que “não é nem de direita, nem de esquerda, muito pelo contrário”, ela tem sim um lado bem definido: o dos bancos, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e de tudo o que possa fazê-la ganhar. Ambas, Marina e Dilma são financiadas por empresas e empreiteiras, ambas são publicamente comprometidas com o setor religioso e conservadores da sociedade, ambas atacarão a classe trabalhadora quando houver crise econômica.

Por: Verinha Dias (Verinha Kollontai) e Mariana Luppi.

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