Sobre a solidão da mulher negra

Por: Gleide Davis

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Pra falar da militância, eu gosto de utilizar o termo “didatismo”, porque para sermos militantes, temos por obrigação, exercermos a nossa didática diária. Não é nada fácil, eu sei, mas também não é impossível criarmos táticas de socialização do pensamento esquerdista no nosso meio social, entre as pessoas que amamos e/ou convivemos diariamente, na internet, no barzinho, na faculdade..
Entre as opressões mais difíceis de serem trabalhadas, eu, Gleide, tenho o racismo como a segunda problematização mais complicada; as pessoas acham que o racismo já foi superado, as pessoas acham que as questões de classes ligadas à etnia, as desvantagens em relação acadêmica e trabalhistas também ligadas à etnia, são meras normas culturais, as pessoas realmente acham que ser negro e: pobre, morto pela polícia, sem estudos, é normal.
Enquanto mulher, negra e periférica, eu tenho uma tripla militância didática todo santo dia para ser exercida, ser mulher é ser violentada física ou sexualmente a cada 12 segundos no Brasil, ser negro, é ter 80% de chances de sofrer violência policial (sem precedentes), ser mulher e negra, é sofrer com a estigmatização da minha cultura, da minha aparência, é ter de construir todos os dias a minha autoestima enquanto mulher, pois eu não sou representada nos principais meios midiáticos, a minha beleza é censurada, tida como algo inexistente, o não normal, o não belo, o não perfeito. E o impacto gerado por essa estigmatização, me atinge em vários níveis; tangíveis e intangíveis, tais como os relacionamentos heterossexuais ou não.
Sabe-se que pouquíssimas mulheres negras conseguem se estabelecer romanticamente enquanto casadas, que o número de famílias onde a mulher é mãe solteira é em sua maçante maioria, de mulheres negras. Fomos crescendo com a ideia de ver nossas avós, mães, tias criando seus filhos sozinhas, sem companheiros, por vários motivos; abandonadas por eles, relacionamentos extra conjugais e etc. E com isso crescendo sem exemplos de mulheres como nós que querem se casar (é importante frisar o desejo do casamento como algo condicionado, mas quando se há essa desconstrução e o desejo permanece, já entramos em outro patamar discursivo), e ainda assim, não conseguem se estabelecer num casamento, seja ele com homens negros ou não, seja ele com mulheres negras ou não. E ainda, ver-se colocada como segunda opção, pois nós mulheres e negras, somos colocadas como as “mulatas de carnaval”, num turismo sexual completamente exacerbado frente a mídia brasileira que nos vende como meras bundas carnavalescas, e isso impactando diretamente nos relacionamentos, faz com que eu esteja colocada no lugar da amante, da fogosa, da “boa de cama”, da “mais quente”, a que desperta desejo, mas nunca amor/paixão.

[…] Mais que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade, as negras têm sido consideradas ‘só corpo, sem mente’. A utilização de corpos femininos negros na escravidão como incubadoras para a geração de outros escravos era a exemplificação prática da ideia de que as ‘mulheres desregradas’ deviam ser controladas. Para justificar a exploração masculina branca e o estupro das negras durante a escravidão, a cultura branca teve que produzir uma iconografia de corpos de negras que insistia em representá-las como altamente dotadas de sexo, a perfeita encarnação de um erotismo primitivo e desenfreado. (HOOKS, 1995, p. 469)

É difícil ainda entender como somos trocadas por mulheres padronizadas, as mulheres que se enquadram na beleza que é vendida, na beleza colocada como perfeita, as mulheres brancas, cisgênero, magras. As mulheres colocadas no estereótipo da beleza eurocêntrica, a beleza que é tida como padrão a ser estabelecido, e diante disto, ver-nos sendo constantemente colocadas no lugar de amantes para estas mulheres.
Ver-nos (nós negras ou não), sendo colocadas em caixinhas taxativas do “pra comer e pra casar”.
Mas quem nos divide assim, é o patriarcado, este é o verdadeiro inimigo das estigmatizações de comportamento feminino, da liberdade sexual, do racismo que atinge diretamente a mulher negra. Quem se beneficia dessas taxações não somos nós mulheres, nenhuma de nós pode ser beneficiada pelas relações monogâmicas em que somos taxadas como objeto de troféu e objeto para ser usado apenas na cama. A mulher branca, mesmo sendo beneficiada pelo padrão eurocêntrico, não pode ser a verdadeira inimiga da opressão que foi estabelecida pelo patriarcado no que tange as relações heterossexuais. Ao contrário, os verdadeiros beneficiados dessa “diversidade” feminina para livre escolha, são os homens, e é a estes quem devemos questionar; questionar seus gostos, questionar suas escolhas de relacionamentos monogâmicos ou não, é para eles quem devemos curvar as nossas problematizações acerca da solidão da mulher negra e a valorização exagerada da beleza magra e branca enquanto a mulher “despadronizada” é uma vitima de uma sociedade doentia que corrompe a nossa sexualidade, a nossa liberdade do existir.

“A mulher do terceiro mundo se revolta: Nós anulamos, nós apagamos suas impressões de homem branco. Quando você vier bater em nossas portas e carimbar nossas faces com ESTÚPIDA, HISTÉRICA, PUTA PASSIVA, PERVERTIDA, quando você chegar com seus ferretes e marcar PROPRIEDADE PRIVADA em nossas nádegas, nós vomitaremos de volta na sua boca a culpa, a auto-recusa e o ódio racial que você nos fez engolir à força. Não seremos mais suporte para seus medos projetados. Estamos cansadas do papel de cordeiros sacrificiais e bodes expiatórios” –Kathy Kendell, 1980

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3 respostas em “Sobre a solidão da mulher negra

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