POR QUE AS MULHERES SÃO “VULGARES”?

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Como sei já sei da possibilidade de surgir infinitos comentários se referindo à generalização do título, para proteger nossos olhos de chorumes adianto, estou te provocando! Mas se tiver paciência fique mais um pouco que abaixo te explicarei.

“Vulgar: que é homógrafa em inglês e português, vem do latim vulgaris, uma derivação de vulgus, que significa multidão. Vulgar é aquilo, portanto, que é usado pelo povo e não possui traços de nobreza ou distinção”.

A primeira observação que faço com relação à palavra vulgar é que de acordo com a definição mencionada ela se originou a partir do olhar de uma elite para as classes mais pobres, logo também é uma palavra burguesa.

Dentro de uma sociedade capitalista que almeja alcançar a elite, todos os padrões de comportamento e educação que nos é repassado são inspirados aos moldes da moral burguesa, logo a educação dada às mulheres tem por objetivo transformá-las numa dama, que fale baixo, saiba se comportar agradavelmente nos ambientes sociais sem chamar muita atenção para si sendo discreta, elegante, sendo física e moralmente atraente para conquistar a admiração masculina e consequentemente um bom casamento. Por isso desde a infância nos é ensinado, sentar de pernas fechadas, falar baixo, não sorrir demais (senão poderão pensar que estamos dando bola e seremos julgadas como fáceis), não namorar muito cedo, não transar antes do casamento, aprender tarefas domesticas, não se envolver em assuntos de homem, nem gostar de atividades e outras coisas predominantemente masculinas e outras várias enciclopédias de proibições. E assim, dentro de tudo que nos é ensinado passamos a moldar e repudiar a imagem daquilo ou daquela que foge às regras e personificamos o termo burguês “vulgar“.

Voltando ao passado podemos compreender o porquê dos ensinamentos da moral burguesas às mulheres. No Livro A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels, teórico revolucionário alemão, parceiro de Marx, faz a análise da condição da mulher dentro do capitalismo e patriarcado. Ele afirma que a opressão da mulher nem sempre existiu e se deu a partir da instituição da família monogâmica patriarcal e da propriedade privada. Quando houve o desenvolvimento das primeiras técnicas de agricultura na sociedade pré-histórica antes da instituição do Estado, fixando a produção em um determinado espaço, extinguiu a tarefa do homem de buscar alimento. Não precisando mais se descolar para ir atrás do alimento, iniciam-se as trocas e o acúmulo de riquezas. Como estes alimentos são criados ou cultivados pelos membros masculinos da família, os meios de produção e os instrumentos de trabalho passam a pertencer ao homem. Desta forma à medida que a riqueza aumentava dava ao homem uma posição mais importante na família com relação à mulher, e com esta nova posição fez com que nascesse a ideia de valer-se dessa vantagem construindo ainda mais riqueza para deixá-la aos filhos legítimos, porém enquanto a filiação se mantivesse sobre o direito materno, não seria possível assegurar a filiação paterna. Assim, em nome da riqueza para ser repassada como herança apenas aos filhos legítimos a mulher foi destituída na participação social e as famílias passam de matriarcais para patriarcais e com o patriarcalismos surge a família monogâmica. A mulher deixar os espaços sociais para cuidar apenas das tarefas do lar não ajudando mais na produção dos meios de subsistência para família. Com isso o homem também apoderou-se da direção da casa, a mulher foi convertida à servidora do homem e degradada a simples instrumento de procriação. O comportamento da mulher foi moldado ao julgamento e submissão dos homens e aquela que descumpria as regras ou se mostrava subversiva, era excluída do seio familiar e lançadas à prostituição.

Em condição de prostituição essas mulheres não precisavam mais servir o padrão moral que fora instituído se tornando livres para se portarem com bem quisessem, porém como forma de condenação elas foram rebaixadas dentro da integridade moral daquela sociedade que para se manter, instaurou uma ideologia de ódio que foi disseminada principalmente entre as próprias mulheres que sentiam-se enciumadas por compartilharem seus maridos com as prostitutas.

No livro anteriormente citado, Engels reafirma toda esta vigilância que se constituiu em torno do comportamento feminino na seguinte passagem ”Ao homem, igualmente, se concede o direito à infidelidade conjugal, sancionado ao menos pelo costume (o Código de Napoleão outorga-o expressamente, desde que ele não traga a concubina ao domicílio conjugal), e esse direito se exerce cada vez mais amplamente, à medida que se processa a evolução da sociedade. Quando a mulher, por acaso, recorda as antigas práticas sexuais e intenta renová-las, é castigada mais rigorosamente do que em qualquer outra época.” E é exatamente o que estamos assistido no mundo atual.

Daí lanço os questionamentos, por que é tão incomum empregar o termo vulgar como adjetivo ao comportamento masculino? Para a mulher existem vários xingamentos que fazem referência ao comportamento e liberdade sexual (puta, piranha, safada, vadia, galinha, vagabunda) são referências à mulher vulgar, porém quais são os adjetivos depreciativos que fazem referência à liberdade sexual dos homens? Chamar um homem de vadio tem o mesmo significado de chamar uma mulher de vadia?

Buscando a palavra Vagabundos (no plural) no dicionário informal obtive o seguinte resultado:

* Resultado no masculino: “Aquele que vivem de maneira desocupada e sem trabalho”
*“Sinônimos: malandros inconstantes instáveis volúveis grosseiros medíocres ordinários errantes gaudérios larápios mendigos nômades ociosos prófugos tunantes, vadios, vagantes.”

*Resultado no feminino: “Vadia, mulher que gosta de ter muitos homens; puta; que transa facilmente”
*Sinônimos: mulher vadia, promíscua, libertina.

Notem que no feminino a palavra faz referência ao comportamento sexual já no masculino não.

Chamar uma mulher de vulgar nada mais é que um meio de reprodução do machismo já que culturalmente não é usado para criticar o comportamento masculino. A promiscuidade masculina é muita bem aceita em nossa sociedade que não a condena, já o comportamento feminismo é monitorado inclusive por nós mulheres que reproduzimos justamente o que o sistema quer de nós, à submissão, nosso quadrado de incubadoras sociais, a linha de produção moralidade burguesa que só se fortalece quando naturalizamos nossas próprias opressões.

Assim como a “Vadia”, a “mulher vulgar” é um mito que a sociedade inventou como castigo por ela fugir dos padrões. Como todas nós temos o desejo de ser verdadeiramente livres e sonhamos em nos libertar das correntes que nos privam do prazer da vida, somos tão iguais àquelas que talvez algum dia você condenou, única diferença é que elas tiveram mais coragem de se livrar das correntes antes de você. Nos libertar não é uma tarefa fácil, mas vamos lá! O primeiro passo é amar umas as outras como irmãs e rasgar os rótulos. “Rótulos foram feitos para produtos, não para mulheres!”

Carol Vitória

 

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2 respostas em “POR QUE AS MULHERES SÃO “VULGARES”?

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