DO BOTA ABAIXO DOS CORTIÇOS (1904) AOS TEMPOS DAS DESOCUPAÇÕES DA COPA (2010 / 2014)

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A Copa se aproxima e o mundo aguarda esta linda festa que será realizada aqui no Brasil, país do futebol! Já podemos até imaginar a abertura com muitos famosos, brilho, luzes, o Pelé sendo focado por uma câmera sorrindo, quiçá até abraçado com o Galvão, a Cláudia Leite em dueto com a Jennifer Lopez contagiando o público que teve condições de pagar para está ali, todos muito felizes! Mas toda grande produção tem seus bastidores que é onde se esconde toda sujeira, aparas e tudo mais de feio que não aparece em nosso televisor. E é neste ponto que pretendemos chegar.

Acompanhado as denúncias realizadas pelos Comitês dos Atingidos pela Copa é possível perceber que os bastidores da construção do mundial não é tão lindo quanto parece, pelo contrário, nos deparamos com uma coleção de bizarrices sendo a pior delas as desocupações para deixar a cidade “mais limpa” nos arredores ou vias de acesso aos estádios. Desde 2010 essas desocupações vêm acontecendo de forma desumana e truculenta, tanto no RJ como em outras capitais. No RJ temos o exemplo da comunidade próxima a Estação Mangueira, onde funcionários da prefeitura inicialmente realizaram medições e marcaram as casas com a sigla SMH (Secretaria Municipal de Habitação) alegando ser pesquisa para ampliação de benefícios, como a do bolsa família, porém alguns dias depois voltaram e obrigaram a população a assinar um laudo de interdição afirmando estarem sobre área de risco, o que não é verdade.

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Acontece que a comunidade da Estação Mangueira, como outras na zona Oeste do Rio, estão próximas ao Maracanã ou localizadas onde estão sendo construídos os corredores do projeto de mobilidade urbana modelo BRT (Bus Rapid Transit) e também do local onde será a concentração das Olimpíadas. Em função disso, os moradores vêm sofrendo pressões para saírem de suas casas e aceitar o valor das indenizações. Houve casos de família que receberam notificação de apenas cinco dias para o despejo e as casas foram derrubadas antes mesmo do pagamento das indenizações, algumas famílias que desocuparam os terrenos até hoje aguardam benefícios do programa Minha Casa Minha Vida e estão morando em alojamentos improvisados, os últimos que resistiram foram retiradas com toda violência que as bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo dão “direito” à PM. Vale lembrar que a maioria dos moradores dessas comunidades, cerca de mais de 500 famílias, residem no mesmo local a mais de quarenta anos, e como é comum nas periferias, grande parte dessas famílias são chefiadas por mulheres que sozinhas batalham para sustentar seus filhos. As desocupações da Copa retoma a lembrança do “Bota Baixo dos Cortiços”, iniciados por volta de 1904, onde o foco do novo governo foi à urbanização das principais cidades brasileira, em especial o Rio de Janeiro que acabara de se tornar a capital da Republica. Apoiada pelas elites cafeeiras e pelos setores médios urbanos que almejavam a expansão de seus negócios, o projeto republicano de concepções elitistas visava transformar o Brasil em uma nação forte, capitalista aos moldes da Inglaterra, França e EUA, porém, o Rio de Janeiro apresentava vários problemas que impactariam no crescimento da cidade, sobretudo os problemas sanitários e de habitação popular que tomaram maior atenção da elite republicana.

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Existia naquela época um gravíssimo problema de habitação, oriundo do descaso do poder público, pois como o Rio de Janeiro havia se tornado umas das principais economias do país, por isso atraía muitos migrantes e imigrantes desde o século XVIII, também com a abolição da escravidão em 1888 e a revolução industrial no início do século XX, houve um salto na concentração populacional criando uma crise habitacional, já que desde então nenhuma providência foi tomada com relação à moradia da população de baixa renda, tornado os alugueis cada vez mais caros e obrigando a classe trabalhadora de baixo poder aquisitivo a viver em situação precária nos antigos casarões da nobreza que se transforam nos chamados cortiços.

 

Então com a sangria capitalista de modernização das cidades, os cortiços foram os principais alvos, pois eles se encontravam nas regiões centrais, o que cobiçava o interesse da especulação imobiliária, e como os moradores não tinham condições de pagar os caros alugueis e ao mesmo tempo manter a conservação e higiene dos cortiços, que também foram negligenciados pelos proprietários, recaiu sobre os cortiços toda a culpa do atraso social e outros malefícios acorridos na época.

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A vida nos cortiços era muito difícil, os proprietários dividiam os antigos casarões em vários cômodos para aumentar o lucro com maior numero de locatários, com isso às famílias se apertavam em espaço cada vez menores, sem janelas e suas higienes pessoais eram realizadas em banheiros coletivos. Além disso, o recolhimento de lixo não era realizado pelos órgãos públicos, como também faltava água constantemente propiciando a proliferação de doenças. Desta forma, as famílias mais abastadas foram se afastando do Centro para se refugiarem mais próximas ao mar, fazendo aumentar a culpabilização da pobreza.

 

Com todo o descaso do governo é muito injusto associar os danos de higiene e saúde aos pobres, mas a elite só enxerga o que lhes interessa, com isso, juntamente com o aval dos médicos sanitarista criaram a “teoria higienista”, o que reforçou o terror com tudo relacionado aos cortiços e foi o argumento crucial para demolição dos antigos destes casarões.

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Como as favelas de hoje são a herança dos cortiços, algumas semelhanças entre eles são bem marcantes, como por exemplo, a predominância das mulheres, sobretudo negras, que se dividem sozinhas entre as tarefas do lar e o trabalho para o sustento da família, a relação subjugada que a sociedade fazia dos cortiços, como não bastasse o preconceito sobre pobres e negros, mais também a construção de estereótipos considerando sair de lá as prostitutas, os bêbados, a criminalidade e todas outras pessoas perigosas que é a mesma associação que fazem das favelas. E assim, sobre a cobertura da “teoria higienista” foi autorizado o “bota abaixo dos cortiços”, onde de forma truculenta resultou em centenas de famílias desapropriadas e sem nenhuma assistência do governo foram obrigadas a ocupar os morros formando as primeiras favelas.

 

Mais de um século se passou e temos novo “bota abaixo”, desta vez nas comunidades próximas aos estádios e sobre a tutela de novas “teorias”, como a “teoria da segurança”, “teoria da mobilização urbana”, “teoria antitráfico”. Assim a população pobre mais uma vez é tratada como o lixo que é escondido debaixo do tapete.

 

imagesNão existe sujeira maior para a burguesia que a pobreza, e para a festa da Copa ser bonita, os anfitriões devem deixar os olhos de todos bem limpinhos de tudo aquilo que incomoda os amantes do capitalismo. Tanto nos tempos dos cortiços como nos dias atuais, quando os interesses econômicos da burguesia vão de encontro com o bem estar da classe trabalhadora, toda uma articulação fascista é iniciada, e por mais que a mídia tente nos enganar que a Copa e as Olimpíadas é um excelente negocio para o Brasil, os únicos beneficiados desta festa são aqueles que já chegaram com o bolso cheio de grana.

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