Das Opressões Financeiras em Relacionamentos Afetivos

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A opressão machista nos acomete em diversas “camadas” e cada vez mais os homens conseguem nos surpreender no quesito criatividade para oprimir nos relacionamentos.

Há uma nova modalidade de relacionamentos emergindo no que diz respeito à emancipação financeira da mulher. Isto ocorre porque a passos lentos e cansativos, temos novos tempos das mulheres no mercado, mas ainda assim, há uma porcentagem de distanciamento na média de salario das brasileiras e brasileiros e isso atinge diretamente os relacionamentos pessoais. Porque através da persuasão emocional, o homem se arma para oprimir financeiramente sua companheira por vários meios que dependem da situação da mesma.

Quando a mulher não recebe salário, ela se torna dependente financeiramente do seu “companheiro” (infelizmente é o único termo não hierárquico), e a partir disto, abre-se um espaço para abusos psicológicos, controles exagerados dos gastos dela, tratando-a como um objeto a ser administrado junto com o seu dinheiro. Mas isso não é exclusividade das não empregadas, até mesmo quando a mulher tem um emprego, os abusos psicológicos usados como forma de “amor” e “zelo” pela situação financeira e futuro do casal são ferramentas masculinas para controlar o dinheiro da companheira e torna-la dependente do homem, como relata uma de nossas leitoras Camila:

combinação 2“O Fábio ficava com meu salario para administrar, a gente tava muito mal de grana e então ele administrava os dois salários e prestava contas. Mas dai eu fui trampar em dois empregos e não precisava mais, e ele queria continuar fazendo a mesma coisa, só que ai, ele começou a gastar o MEU dinheiro com coisas para ele, enquanto eu não via nada para mim. E quando pedi minhas coisas de volta, meus cartões, ele fez um drama disse que eu queria o poder financeiro da casa para submeter ele, mas quem estava fazendo isso era ele, ele me acusava de ser incapaz de gerir meu dinheiro.”

O machismo entra com duas máscaras: a primeira delas é a falsa incapacidade feminina de lidar com problemas relacionados a contas e dividas da casa, como se o único provedor da capacidade de administração financeira, fosse o homem; o segundo é o poder de opressão no controle de gastos financeiros do próprio dinheiro da vitima, tornando-a assim, dependente financeiramente do seu parceiro, mesmo tendo o seu próprio salário.

Outra maneira de opressão no relacionamento é a obrigação da divisão de contas, mesmo quando a mulher não está empregada, ou recebe bem menos que o homem, nesse caso, o homem faz a mulher pensar que ela precisa se contentar com a presença dele apenas, como se ter um relacionamento com o mesmo fosse um privilégio de sua companheira, que ela tem que se contentar apenas em vê-lo informalmente; e que programas e encontros formais, são pesados e desgastantes, tornando o relacionamento abusivo no sentido de que a mulher é reduzida apenas ao sexo, sem interações sociais com o suposto parceiro:

“Eu tive um namorado que nunca queria sair comigo porque na época eu não trabalhava, mas no boteco com os amigos dele era direto” – Vanessa

Por que o amparo financeiro à companheira desde o inicio do relacionamento se tornou um fardo masculino? Por que não estabelecer um acordo entre os envolvidos onde cada haja um equilíbrio de honestidade e companheirismo para além da situação financeira de um dos dois?

dinheiro-e-casamentoPor mais que ainda haja a ideia de dependência financeira feminina como uma normalidade, a mulher contemporânea se insere num cenário de relacionamentos, onde há uma moeda de troca de merecimento para estar com um homem, além da desigualdade na divisão de tarefas atribuídas pelo machismo como “atribuições de gênero”, onde o marido não cumpre sua obrigação nos afazeres da casa, ele apenas ajuda, ou sequer faz algo; mas agora, a mulher precisa obrigatoriamente ter amparo financeiro individual para merecer a presença masculina na sua vida de forma mais sustentável. Se a mesma não possui este amparo, ela deixa de seguir um requisito de ser vista em espaços públicos com um homem, sendo assim, preterida nos ideais de socialização patriarcal. Aparentemente, a antiga forma de opressão estrutural, onde a mulher era parte dos gastos do marido, tomaram novas proporções, estas proporções são graças a idealizações feministas pela emancipação financeira e igualdade salarial, e este apelo torna-se machista, a partir do momento que dividir contas ou bancar um homem torna-se uma obrigação para estar num relacionamento, ignorando completamente a ideia de que para a mulher se estabelecer no mercado, ela encontra muito mais dificuldade que o homem cisgênero, principalmente se essa mulher for negra. Muitas são obrigadas a dividir gastos familiares mesmo recebendo muito menos e ficando completamente sem dinheiro antes do fim do mês, muitas são obrigadas a dividir contas nas saídas do casal, mesmo que ela não tenha emprego, muitas são preteridas para eventos sociais por estarem desempregadas, muitas sustentam seus maridos não porque eles não conseguem um emprego, mas muitas vezes por comodismo de ter uma companheira que lhe parece ideal, uma nova modalidade de mãe que dá casa, comida, roupa lavada, sexo e agora, contas pagas.

“Por mais que exista essa faceta onde mulheres foram condicionadas a dependerem financeiramente dos maridos, por outro lado para a nova mulher está havendo essa tendência dos relacionamentos servirem como moeda de troca, elas continuam com suas obrigações paralelas dentro da divisão sexual do trabalho, mas, além disso, para ter acesso ao lazer com o companheiro ela deve ter dinheiro para cobrir os próprios custos.” -Carolina Vitória

Esta é mais uma liberdade das mulheres proletárias que o patriarcado se utiliza para servidão do homem: a liberdade financeira, porque se recebemos bem menos e não podemos dividir contas, somos interesseiras. Porque diante da nova regra da socialização fundamentalista, a obrigação não é só de saber cozinhar, lavar e passar, mas também ter uma ótima formação acadêmica e ganhar o suficiente pra que o homem não tenha que gastar demais conosco, como se nós tivéssemos que estar sob a companhia de um homem e para agrada-lo, precisamos também pagar contas sem reclamar, mesmo que isso nos custe aperto no fim do mês ou a completa falta de dinheiro, ou ainda, a dependência financeira de tê-lo controlando nossa própria renda.

fighting-about-moneyMuitas mulheres se submetem a esse tipo de relação, pois ainda temos a imagem do casamento vendida como base de complemento feminino para a felicidade; ainda somos socializadas para acreditar que só estaremos completas se tivermos além de sucesso financeiro, um homem que nos proteja e nos dê uma família feliz; ainda somos submetidas a qualquer tipo de relacionamento, buscando essa imagem que a propaganda enganosa da felicidade social propõe: aprovação social da mulher bem sucedida; ainda somos vistas como fracassadas ou pobre coitadas se chegarmos aos 30 sem um parceiro fixo; ainda somos questionadas nas rodas de conversas familiares, não sobre nossa vida acadêmica ou profissional, mas sim quando iremos finalmente nos casar; ainda somos cruelmente socializadas a pensar como segundo plano das nossas próprias vidas, porque o homem perfeito é o primeiro delas.

Mas ainda assim, lutamos pela emancipação da mulher trabalhadora, seja negra, branca ou travesti/transexual, pra que cada vez menos, os ideais romancistas deixem de tomar nossa socialização e cada vez mais, possamos dominar fatias de ideais individuais de cada uma com a liberdade de sermos quem quisermos ser, não nos delimitando ao que o patriarcado nos delegou.

“A mulher emancipada, independente emocional e financeiramente, impõe sua personalidade em detrimento da virilidade e autossuficiência masculina, renegando o amor paixão e a maternidade como principal objetivo de vida. Aproximam-se das características até então exclusivamente masculinas”

Alexandra Kollontai.

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Uma resposta em “Das Opressões Financeiras em Relacionamentos Afetivos

  1. Minha companheira e eu dividimos praticamente todos os gastos. Mas no caso é ela que ganha mais.
    Sobre o texto, acho que esse tipo de pensamento tem que ser mais difundido. O romancismo não ajuda as mulheres, só torna mais difícil a tomada de decisões racionalmente corretas.
    Eu gostaria que ela patas de pensar que a felicidade dela está atrelada a uma gravidez. Esse é um dos pontos que eu acho ben machista. Primeiro pq esse pensamento dela foi imposto por uma família tradicional conservadora e por todo sistema de ensino e laboral (todo ambiente social padronizado). Segundo pq ela teen conseguido ter pensamentos próprios e se desamarrar do pensamento da família ao expo-los. E terceiro pq eu sou um cara que acha que consangüinidade não tem relevância senão psicológica. Atribuo à afinidade os valores de confiança e companheirismo que nos levam à felicidade no dia a dia.
    Acho muito legal a adoção. Ela só pensa na gravidez.

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