E Quando o Estado Nos Abandona?

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Escrevo este texto pensando nas minhas irmãs negras e é principalmente para elas que quero falar, mas também falo para as companheiras brancas, que conhecem de comum os mecanismo de opressão de classe e gênero que nos atinge, em intensidade diferente, mas atinge a todas nós enquanto mulheres e trabalhadoras.

Para começar, quero citar Engels:

“As mais exploradas são as mães do nosso povo. Elas estão de mãos e pés amarrados pela dependência econômica. São forçadas a vender-se no mercado do casamento, como suas irmãs prostitutas no mercado público.”

Ao longo dos séculos, vários métodos de exploração vieram após essa afirmação de Engels, pois, o estado sob o ideal capitalista, que se lança como uma marionete do poder econômico aliado ao patriarcado, não tem o menor interesse na garantia de direitos da população feminina no Brasil.

Sandra, de 37 anos que morava com seus patrões em SP, “abandona criança em Higienopólis” como diz as grandes manchetes nacionais. Sandra é mãe de uma garota de 3 anos, Sandra foi abandonada pelo pai do bebê, Sandra trabalha e dorme no trabalho, naquele quartinho de empregada (que o diga o “Que Horas Ela Volta?”) e tem sonhos, tem metas como todas as mulheres trabalhadoras do país; Sandra não teve a chance de um aborto seguro, não porque ele não é legalizado, mas porque ela não possui seguridade financeira para tal, pois sabemos que as mulheres que o tem, já o fazem sem o menor problema de terem suas vidas postas em risco durante o procedimento; Sandra até poderia estar se prevenindo, mas o próprio ministério da saúde adverte de que atualmente não existe nenhum método contraceptivo seguro no mercado. Sandra foi abandonada à própria sorte pelo seu parceiro, que não teve a menor preocupação com o estado de saúde daqueles ao qual ele deveria ser companheiro e pai. Sandra foi a única responsabilizada por uma gravidez que ela não desejava e não tinha as menores condições financeira e psicológica para criar mais um filho num cenário em que ela mal poderia se sustentar.

O Capitalismo não dá chances à mulher, o capitalismo nos sujeita as piores condições de trabalho, as piores moradias, nenhuma autonomia sob nossos úteros, nem para prevenir e nem para remediar. E junto com ele, o patriarcado ensina a sociedade que diante de todas essas problemáticas, a única culpada pela falta de oportunidades, falsa ideia de meritocracia, é da mulher. Pois para o capitalismo/patriarcado, a única desculpa de não passar por isso, é não nascer.

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Uma resposta em “E Quando o Estado Nos Abandona?

  1. Republicou isso em Arwen Releiturase comentado:
    Este post toca em uma ferida social que ignoramos todos os dias. Ser mulher na nossa sociedade é ser cidadã de segunda classe. Somos culpabilizadas por sofrermos cantadas, por sermos abusadas sexualmente, por não sermos bem sucedidas profissional e financeiramente, por sermos bem sucedidas demais e intimidarmos os homens, por não termos filhos, por termos filhos e não ter condições de cria-los, por ter medo de ter filhos em uma sociedade cruel e desigual. Por não ter alternativas quando não estão em condições de ter filhos.
    Os homens – da nossa sociedade machista e patriarcal são bons em julgar, já que não são julgados por serem ou não pais. “Eles” nunca são vulgares, nunca ficam gravidos por tanto não fazem ideia do panico que sente uma mulher que não tem condições de criar esta vida que cresce dentro dela. Homens não tem jornada dupla de trabalho – chegam em casa e pés para cima enquanto a mãe ou esposa ou filha se matam na limpeza da casa e na comida na hora certa e para dar-lhe roupas limpas … Homens não são empregados domésticos, não dormem no quartinho do fundo (o reversível ) Não são culpabilizados por não querer filhos, afinal bebes não saem de dentro deles. Mesmo quando são calhordas a sociedade os parabeniza como garanhões. Não são cidadãos de segunda classe.

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