Antagonismo nos Movimentos Sociais

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Um questionamento que vem me inquietando bastante, é sobre até que ponto devemos exercer o protagonismo na luta das massas, qual o limite dos vieses protagonistas nas lutas sociais. Faço essa pergunta, porque esse pensamento tem se difundido com ruídos pelos “telefones sem fios” que surgem na internet todos os dias (aqui você pode pôr páginas de esquerda, grupos e até perfis pessoais com mais popularidade), ruídos que geram duvidas, debates, discussões acaloradas que podem até mesmo gerar inimizades e divisões de grupos dentro de um mesmo ideal político.

Tenho observado que muitos integrantes se preocupam mais com seu conceito de moral e valores pessoais, do que com o senso de coletividade dentro dos movimentos; inclusive com pessoas que ocupam a mesma posição na pirâmide social criando rivalidades desnecessárias, articulando guerras e grupos que se preocupam com o seu bem estar, ou o bem estar do “líder” do seu grupo, e ignorando completamente a problemática de pessoas que estão nas mesmas condições que estas.

As acusações de racismo, machismo e LGBTFOBIA são e devem ser consideradas por seus integrantes, pois ao contrário das clausulas conservadoras da justiça brasileira, os espaços sociais de esquerda, devem ter acolhimento pelas minorias e suas respectivas opressões. O que não está de acordo com essa realidade, são acusações de racismo/machismo/LGBTFOBIA que não foram concebidas, na verdade, isso é disfarçado por mágoas pessoais contra outra pessoa dentro de um relacionamento que aconteceu e terminou de maneira comum. Entra em questão, a opressão banalizada por mágoas pessoais entre pessoas que ocupam as mesmas classes sociais e mesmo espaço de luta na trincheira. É sempre importante ter em mente que quem se beneficia com a opressão, em última instância, é a classe dominante. Devemos sim denunciar casos de opressão, mas buscando o diálogo e a educação sempre que possível.

Foi relatado a moderação da página feminismo sem demagogia – Original, dois casos que usarei para exemplificar:

Primeiro caso – Duas pessoas parte de grupos oprimidos, tal qual uma mulher cis e uma mulher trans, ambas negras, a mulher cis estava contrariada com uma declaração equivocada da mulher trans a respeito de menstruação, a mulher trans mostrava-se receptiva a crítica da companheira negra, que depois de explicar porque ela, como trans, não saberia o que significa o período menstrual e todos seus sintomas, o que estava aceitável para o nível do debate, ela solta: “Você só pode ser uma mulher 100% se menstruar”. Ou seja, declarou que sua oponente no debate não é uma mulher por que nunca poderá menstruar, finalizou o debate com palavras transfóbicas, usando de uma tática opressora para silenciar a outra pessoa. Não bastasse isso, a mesma ao ser questionada por sua postura transfóbica, apagou todas suas postagens do debate e bloqueou a mulher ofendida, sem nenhum tipo de retratação. Esse tipo de atitude divide e enfraquece a luta das mulheres.

Mulheres podem usar de mecanismos opressores contra mulheres e este é um exemplo de como isso pode ser feito. Trazer mecanismos opressivos para dentro do movimento feminista a fim de galgar um degrau acima das companheiras não é atitude de quem quer construir uma luta vitoriosa. Nós enquanto mulheres negras, precisamos nos colocar enquanto privilegiadas se assim for, (como é no caso citado acima a respeito da mulher trans) e escutar nossas companheiras de modo receptivo a luta delas, nos retratando e finalizando o debate de modo compreensivo.

Segundo caso – Neste depoimento temos a seguinte declaração de uma mulher negra: “Fui expulsa de um grupo de militância negra, porque expus nesse grupo que havia uma falsa acusação de racismo e que aquilo se tratava de desentendimentos pessoais entre as moças envolvidas. Porém, como a moça negra em questão tinha forte influência no grupo, ela solicitou minha expulsão, me acusando de estar colaborando com racismo, uma situação que eu também vivencio todos os dias e que eu não hesitaria em estar do lado se fosse o caso, mas não era. Era uma briga pessoal e isso me deixou bastante chateada. Fui rechaçada e expulsa de um local que deveria ser acolhedor pra mim também”. Ela ainda nos relatou que foi ameaçada de violência física, ela disse que uma das mulheres do grupo avisou: “se te pego esquento a sua cara no tapa” sentindo se inconformada por que quando denunciou a ameaça, teve sua fala desqualificada ao dizerem que se tratava apenas de linguagem de expressão. Uma “linguagem de expressão” que pretende o silenciamento através da ameaça física. Reconhecem este mecanismo de algum lugar?

O desserviço causado por este tipo de atitude, ganha uma gama imensa desvalorização e desagregação da esquerda, faz com que pessoas que queiram se afinar, encontrem um cenário de rivalidade, ignóbil e cheio de busca de ego e pouco ajuda aos outros, mas faz aumentar o marketing da sua imagem de militante imponente que não difere nem um pouco do que encontramos na direita e nem no senso comum.

Sabemos que a militância é um processo de desconstrução, ninguém nasce opressor(a), mas o estruturalismo do sistema nos tornam opressores em alguns aspectos, e mesmo estando inseridos nos espaços sociais e na militância corremos o risco de reproduzir algum tipo de opressão enraizada, mas como descontruir se não somos didáticas neste processo?

Sendo assim, pra quem está fora, inteirar-se ou não a esses movimentos, é trocar seis por meia dúzia. Isso é ruim, isso é péssimo. Afasta possíveis companheiros de luta com grande capacidade de afinamento, com força pra batalhar por um mundo onde todos possam ter direito a levantarem suas vozes com a mesma entonação, sem precisarem de um eco para repetirem aquilo que muitas vezes nem os contemplam em pensamento.
“A teoria sem a prática de nada vale, a prática sem a teoria é cega” – Lênin.

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Uma resposta em “Antagonismo nos Movimentos Sociais

  1. Infelizmente as relações de poder subjugam o bom senso, isso ocorre em todas as instancias da sociedade. Seja branca, negra, homo ou hétero, trans ou não. É o problema da nossa “Etica e moral ” elásticas que determina que é errado quando o outro faz, mas não quando eu faço. Achamos ruim quando furam a fila na nossa frente, mas não temos vergonha de furar a fila. Achamos ruim quando criticam nosso cabelo afro, então é racismo, mas não é errado oprimir um semelhante porque discordam de nosso ponto de vista.
    São transgressões corriqueiras que demonstram a nossa falta de maturidade na busca por direitos das minorias(que na verdade são maiorias) uma vez que visamos quase sempre direitos sem deveres.
    Não há nada no universo que exista sem uma contra partida – tudo que fazemos ou queremos tem consequências sejam elas beneses ou não. Se queremos nosso direito respeitado devemos respeitar o do nosso semelhante. Como podemos exigir respeito a nossa diversidade se não oferecemos esse mesmo respeito? Como queremos que nossas opiniões sejam respeitadas se não respeitamos a do semelhante? Quantas vezes nos esquecemos que mesmo que uma pessoa não concorde conosco ela não está necessariamente nos desrespeitando? E ao nos esquecer deste pequeno detalhe atacamos covardemente.

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