Há disputa ideológica desonesta no feminismo. É necessário falar a respeito.

Vivemos tempos de primavera feminista, mulheres nas ruas, em coro, entoam juntas “companheira me ajuda que eu não posso andar só, eu sozinha ando bem mas com você ando melhor”. Nos arrepiamos assistindo os vídeos das manifestações e a união parece perfeita, mas na prática não se confirma.

primavera negras

O cenário da militância real destoa muito da militância virtual. Falamos de duas esferas que não se encaixam, mas uma tem com certeza interferência na outra, pois experiências efetivadas no virtual perturbam ações reais e presenciais.

shirley

Nas redes sociais, as feministas se dividem em vertentes que não dialogam entre si, competem para ver quem é a melhor, superando a discussão no campo das ideias e partindo para o pessoal, o famoso ad hominem. Numa total desonestidade, transformam a disputa ideológica em ataque difamatório da outra feminista.

Ora, tais atitudes não são de nos espantar, afinal as mulheres tiveram seus laços de amizade rompidos pelo patriarcado com o propósito de nos enfraquecer e nos manter submetidas a ideologia machista que nos trata como seres humanos de segunda classe, tanto inferiores que competimos umas com as outras, para termos um homem, que segundo esta ideologia é um troféu, um provedor, um ser humano de fato, a presença deste homem ao nosso lado seria o fator humanizador que nos afere respeito, que nos dá condição de adentrar ao mundo social guiadas por ele, logo atrás dele. Não é estranho conferir esta competição, mas é contraditório que entre nós, feministas, admitamos a existência desta disputa que rompe a união entre as mulheres, nos enfraquecendo diante da luta que travamos.

Hoje notamos que esta ruptura entre as mulheres se manifesta dentro do feminismo por comportamentos de ataque a mulheres que conferem algum tipo de representatividade que outras não tem, ou cuja vertente seja contraditória ao discurso que a outra representa e por isso, sente-se ameaçada.

Antes de falarmos de inveja, precisamos falar de autocritica.

A Feminismo sem Demagogia, desde 2013, reivindicou-se da vertente do feminismo marxista.

marx

Desde então, os ataques a nós intensificaram-se de forma absurda. Não só a página, como as administradoras são atacadas pessoalmente e estes ataques não vem de onde esperamos, chegam através das próprias mulheres feministas. Somos hoje a única e maior página Feminista Marxista do Facebook, fazemos o combate de gênero, raça e classe, citamos nossas autoras e autores. Se fazemos criticas as outras vertentes, fazemos no campo ideológico, com a a clara intenção de propagar a importância de combater o sistema de classes e sistema econômico da classe dominante, o capitalismo, que é sustentáculo da ideologia machista. Não pessoalizamos criticas, na contramão da nossa prática, as administradoras da página Feminismo sem Demagogia têm sido alvo constante de comentários que atacam pessoalmente e comprometem a moral das mesmas, pois quem faz este tipo de ataque são mulheres com alguma ou muita representatividade dentro do feminismo. Vou citar alguns exemplos:

Há alguns meses, uma administradora da página, que é negra, estava dentro de um grupo secreto somente para mulheres negras. Ela leu uma postagem difamatória contra uma das administradoras da página e percebeu o quanto aquilo era prejudicial à imagem da administradora. Ela foi questionar a administradora citada e concluiu que se tratava ou de um equivoco cometido pela denunciante, ou de desonestidade.

Nós sempre partimos do pressuposto de equívoco. Por isso, a administradora denunciada por racismo, neste caso, procurou uma feminista negra muito respeitada, relatou o que estava acontecendo e pediu para ela fizesse a ponte de ligação entre denunciante e ela, para que elucidassem a questão. A denunciante, que também é uma feminista negra conhecida, apesar de alertada do equívoco, não voltou atrás, não explicou o comentário mentiroso que fez sobre nossa administradora e colocou-se em posição de vitima, acusando a nossa administradora negra de traição por vazar um assunto que era de um grupo secreto, assim colocando as feministas negras do grupo contra esta mulher também negra.

Conclusão do caso da Falsa denuncia de racismo:

– A feminista negra difamadora saiu como vitima;
– A feminista negra, administradora da Feminismo sem Demagogia, que denunciou a difamação saiu como traidora e foi expulsa do grupo de mulheres negras, inclusive sendo ameaçada de violência física por outra feminista deste grupo,e;
– A administradora da nossa página, acusada de racismo, manteve-se com a alcunha de racista por um episódio em que, claramente, ela não tinha nenhum envolvimento.

Existe uma grande confusão no movimento feminista sobre como fazer a militância de forma honesta. Muitas feministas, para manterem-se como voz uníssona, fazem o combate a outras feministas, que também têm voz forte e que são formadoras de opinião, de forma desonesta. Massacrar outras feministas, colocando em risco todo o coletivo da luta, parece lícito simplesmente para manter seu umbigo como centro das atenções. Estas práticas devem ser observadas e repudiadas pelo conjunto das feministas. As denuncias devem ser analisadas e investigadas antes de serem levadas a público.

Não devemos compactuar com a exposição de mulheres de forma destrutiva. Antes, devemos reivindicar o poder pedagógico da ação do movimento sobre os erros das mulheres, quando elas comprovadamente errarem. Atacar aliadas com fúria e ódio a fim de massacrá-las não é benéfico para a luta contra opressão. Da mesma forma, nem o erro especifico cometido por uma mulher isoladamente e individualmente será eliminado do mundo, se ela for execrada ou queimada em praça pública.

“Somos as netas das bruxas que não conseguistes queimar?”

netas da bruxas 2

Se nossa resistência à opressão está viva e renascendo em cada mulher oprimida, a opressão também resiste e mantém-se viva em cada representante da ideologia burguesa do machismo, que sustenta uma classe no poder através da exploração dos grupos oprimidos. Não é expondo uma mulher, que também é parte do grupo oprimido, que extinguiremos a opressão. Isso pode momentaneamente apaziguar a ira do grupo ofendido, amenizar a dor ao ver a figura do errante ser punida, mas não fará com que novas pessoas reprodutoras da ideologia deixem de ressurgir e reproduzir. A ação pedagógica, dando oportunidade da errante se autocriticar e se desculpar perante o compromisso de não retroceder à mesma postura ofensiva, é uma vitória para o movimento e que deve servir de exemplo inclusive para os privilegiados pelas opressões. Afinal, se nós, que somos vitimas, podemos nos refazer para não reproduzir atitudes opressoras, eles também podem.

Um outro exemplo que é importante citar: uma de nossas Administradoras negras teve sua foto divulgada em uma página de mulheres negras como referência de beleza. E é verdade, ela é um espetáculo de mulher. Após isto acontecer, a administradora viu, nos compartilhamentos da foto, uma outra feminista negra, muito conhecida, comentando que:

“estas páginas deveriam postar mulheres que realmente representam a beleza negra, e não mulheres cacheadas”.

Não vou fazer nenhum comentário profundo sobre este comentário por que ele por si só já deixa claro o quanto foi desnecessário e o quanto foi triste para a administradora em questão ler isto sobre sua foto, sobre sua aparência. E como a feminista é muito popular, ler também, nos comentários da postagem dela, uma quantidade enorme de mulheres, também negras, atacando sua aparência em concordância cega com a feminista Star, que parece desejar destruir outras mulheres ou, no mínimo, desqualificá-las com seus comentários maldosos e desonestos.

cabo de guerra ideologico

Onde queremos chegar com esta explanação toda é que vai muito além de inveja e competição o fato de termos mulheres atacando outras mulheres, expondo outras mulheres, destruindo a moral potencialmente revolucionária de outras mulheres. Trata-se de usar os mecanismos patriarcais para fazer a disputa ideológica e fixar se como voz forte através de métodos desonestos como calúnia e difamação, usando do sentimento de ressentimento com o histórico de opressão do grupo e pessoalizando, desmoralizando assim a denunciada que, via de regra, nunca consegue se defender. Se reconhecer que errou e se retratar (outra situação recorrente que temos constatado), não é perdoada. Continua sendo lembrada pelo seu erro e “queimada em praça publica ad eternum”. Esta não é a militância que nós, feministas marxistas, pretendemos e não compactuaremos com ela.

Para finalizar, deixamos claro que é decisão de nosso coletivo, das administradoras da página, de não expor nenhuma mulher da militância, nem citando seu nome, nem sua imagem, seja qual for a situação. Porque entendemos que fazer o debate a respeito de um erro cometido ou uma postura realmente opressora não está ligado à imagem de uma só pessoa, mas de uma ideologia que precisa ser combatida, para que não exista pessoas proliferando atitudes que ataquem os grupos oprimidos em sua dignidade humana. Discutiremos sempre de forma pedagógica as ações que considerarmos agressoras de nossa humanidade histórica, sem personalizar e dar um rosto para ser odiado e aplacar a ira de quem deseja não justiça, mas punição.

Antes de falarmos de inveja dentro do movimento feminista, precisamos falar de autocritica, de umbiguismo, culto à personalidade, disputa ideológica através do uso de mecanismos machistas e reprodução de mecanismos opressores em geral. Tudo isso deve ser combatido para que a luta se fortaleça e vá a raiz dos problemas, fazendo um combate conjunto de raça, classe e gênero.

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