Sobre a Solidão da Mulher Negra

Por: Gleide Davis

Entre as opressões estruturais mais difíceis de serem trabalhadas, o racismo é sem dúvida um destaque da triste figura desigual que se encontram as relações sociais no mundo. A sociedade acredita que o racismo já foi superado, que as questões de classes ligadas à raça, as desvantagens em relação acadêmica e trabalhistas também ligadas à raça, são meras normas culturais, a sociedade acredita firmemente que, ser negro e: pobre, morto pela polícia, sem estudos, é normal.

Enquanto mulheres, e em grande parte das vezes residentes da periferia; as mulheres negras possuem uma tripla militância didática todo santo dia para ser exercida. Ser mulher é ser violentada física ou sexualmente a cada 12 segundos no Brasil, ser negro, é ter 72% de chances de sofrer violência policial (sem precedentes), ser mulher e negra, é sofrer com a estigmatização da minha cultura, da minha aparência, é ter de construir todos os dias a minha autoestima enquanto mulher, pois eu não sou representada nos principais meios midiáticos, a minha beleza é censurada, tida como algo inexistente, o não normal, o não padronizado. E o impacto gerado por essa estigmatização, atinge as mulheres negras em vários níveis; tangíveis e intangíveis, e dentro deste contexto, estão os relacionamentos amorosos.

Sabe-se que pouquíssimas mulheres negras conseguem se estabelecer romanticamente enquanto casadas, que o número de famílias onde a mulher é mãe solteira é em sua maçante maioria, de mulheres negras. Fomos crescendo com a ideia de ver nossas avós, mães, tias criando seus filhos sozinhas, sem companheiros, por vários motivos; abandonadas por eles, relacionamentos extra conjugais e etc. E com isso crescendo sem exemplos de mulheres que possuam o desejo do casamento, e ainda assim, não conseguem se estabelecer, seja ele com homens negros ou não, seja ele com mulheres negras ou não.

E ainda, ver-se colocada como segunda opção, pois enquanto mulheres e negras, somos colocadas como as “mulatas de carnaval”, num turismo sexual completamente exacerbado frente a mídia brasileira que nos vende como meras bundas carnavalescas, e isso impactando diretamente nos relacionamentos, faz com que nós estejamos colocadas no lugar da amante, da fogosa, da “boa de cama”, da “mais quente”, a que desperta desejo, mas nunca um relacionamento que fixe um relacionamento sério e duradouro.

[…] Mais que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade, as negras têm sido consideradas ‘só corpo, sem mente’. A utilização de corpos femininos negros na escravidão como incubadoras para a geração de outros escravos era a exemplificação prática da ideia de que as ‘mulheres desregradas’ deviam ser controladas. Para justificar a exploração masculina branca e o estupro das negras durante a escravidão, a cultura branca teve que produzir uma iconografia de corpos de negras que insistia em representá-las como altamente dotadas de sexo, a perfeita encarnação de um erotismo primitivo e desenfreado. (HOOKS, 1995, p. 469)

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Dentro desse contexto, o capitalismo desempenha seu papel de rompimento de afinidade das relações humanas; porque é extremamente lucrativo a baixa auto estima das mulheres; e no que diz respeito as mulheres negras, é importante manter a submissão de pensamento racial; a busca pelo padrão eurocêntrico como ideal de beleza inatingível que alimenta a indústria da moda, que mantem as relações de poder sociais numa minoria que é majoritariamente branca; Sem nos esquecermos que a sexualização é também uma jogada do capital para a manutenção da venda do carnaval que alimenta o turismo sexual dentro do país.

A solidão da mulher negra é um problema estrutural, um problema que surge na herança escravagista, que permanece com a manutenção do racismo que também atinge aos homens negros. Estes que para se distanciar do racismo, buscam na mulher branca o seu status de passibilidade social, status esse que é ignorado nas relações de racismo; pois ainda assim, o racismo os atinge dentro e fora destes relacionamentos.

Somente com a derrubada das estruturas de poder, com o fim da propriedade privada que manivela as relações sociais em busca apenas de lucro (vendendo beleza inatingível, vendendo a imagem da mulher “para casar”), somente com a conscientização das massas, teremos plenitude nas relações sociais direta sem a interferência de padrões de beleza impostos.

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4 respostas em “Sobre a Solidão da Mulher Negra

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