Cauã e a máscara trans

caua

A ideia do clipe foi boa. O clipe da música “Your armies”, de Barbara Ohana e produzido pela Globo, foi criado com a intenção de denunciar a epidemia de ódio contra as pessoas trans. No vídeo, Clara, interpretada pelo ator Cauã Reymond, é agredida e seu agressor é chamado de covarde. Uma semana depois do massacre racista e LGBTfóbico em Orlando, atitudes como essa são necessárias. Entretanto, a lógica da produção do clipe carrega uma transfobia que saltou aos olhos de muitas pessoas. Pessoas trans sentiram-se ofendidas, e não é sem motivo. Isso gerou muita polêmica. Infelizmente, na nossa sociedade de hoje, a transfobia é muito naturalizada.

Do século XIX até a metade do século XX, por exemplo, era muito comum pessoas brancas pintarem seus rostos de preto para interpretarem personagens negras. Essa prática muito comum chamada “blackface” foi abandonada… mas nem tanto: ela ainda é utilizada em programas racistas de humor como o Zorra Total. Existem formas mais sutis, mas não menos perversas de racismo, como embranquecimento da pele, ou a representação do povo negro do Antigo Egito como se fosse um povo branco, ou como os escritores Machado de Assis e Castro Alves que eram negros mas continuam sendo retratados como se fossem brancos pelos livros didáticos, etc.

Na Antiguidade, as mulheres não eram consideradas cidadãs. Por essa razão, eram homens que interpretavam as personagens femininas. Hoje em dia, esse costume não é geralmente utilizado senão nos programas de humor (na maioria das vezes de forma machista) e em alguns poucos casos. Apesar disso, os papéis das mulheres no cinema continua sendo subalterno, sendo muito menos comum que exista uma heroína, por exemplo.
Apesar de não ser muito difícil entender que o “blackface” é racista e que proibir que as mulheres sejam atrizes é machista, muita gente ainda relativiza ou nega que a produção do clipe tenha sido transfóbica.

A Rede Globo ataca as pessoas trans mais uma vez!

É verdade que, com a participação de Cauã, o clipe teve muito mais visibilidade do que teria uma atriz trans desconhecida. Mas isso não diminui a culpa dessa empresa: afinal de contas, é a própria quem escolhe qual ator ou atriz promover. É lógico que entre dezenas de milhares de travestis nas periferias, existem muitas que têm talento e outras que podem adquirir talento com uma boa formação em teatro. Há muitas travestis jovens que sonham em atuar na Globo. Entretanto, nem a Rede Globo nem qualquer das principais emissoras do país sequer se importam em procurar!

Isso não é tudo. Além de nunca contratar atores e atrizes trans para os papéis, a Globo nem sequer arcou com as despesas! Não é à toa que esse papel destoa as outras personagens trans que apareceram na transmissora nos últimos tempos: o financiamento do clipe foi feito pelas pessoas envolvidas na produção, inclusive Cauã. É impossível não lembrar, por exemplo, da travesti Valéria, do programa Zorra Total, que é retratada como histérica e hipersexualizada, um estereótipo de travesti que só serve para nos ridicularizar.

Apesar de muita gente ter ficado entusiasmada com a personagem Félix da novela “Em Família”, na novela seguinte, Império, apareceu a Xana, interpretada por Ailton Graça. Pra começo de conversa, era o estereótipo travesti que aparece nos programas de humor. Ficou muito artificial, a personagem parecia não pertencer ao universo da novela. No princípio, os sites de notícia, inclusive da Globo, retratavam Xana como uma travesti. Em um dos episódios, entretanto, Xana disse que era homem, que deveria ser chamado de “o Xana” e que apenas se vestia “como mulher” por uma necessidade interior. Por isso, muita gente pensou que Xana era um crossdresser (um homem que gosta de usar roupas femininas). Será mesmo? Ou seria transfobia? O fato é que a própria novela não fez o menor esforço pra desfazer essa confusão. Pra piorar, no final da novela, Xana deixa de ser travesti (ou “crossdresser”) para casar-se com Naná. A novela que veio logo depois do famoso “beijo gay” defendeu escancaradamente a “cura travesti”! ABSURDO!

Representatividade

Muita gente está afirmando que essa é uma questão de “representatividade”. Na minha opinião, isso é diminuir o problema. Até porque Cauã representou uma mulher trans razoavelmente, ainda que de forma um pouco artificial. O problema é que a Rede Globo, assim como a maioria das empresas e o próprio governo, não se preocupa nem um pouco em dar emprego para as pessoas trans. A lógica por trás da produção deste clipe é a mesma que nega constantemente às pessoas trans o direito à educação, ao emprego e à moradia, empurrando a maioria das travestis e das mulheres trans para a prostituição. Não somos tratadas com dignidade nem com respeito. Não podemos nem sequer participar da construção das personagens que nos representam. São as pessoas cis que as imaginam, constroem, representam e que ganham o crédito por isso. Nada pessoal contra o Cauã, mas ele precisa reconhecer que pisou na bola.

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2 respostas em “Cauã e a máscara trans

  1. ”Quando eu soube que o Cauã Reymond ia interpretar uma travesti num clipe, eu imaginei a chuva de críticas que cairia sobre ele. Eu mesma torci o nariz, mas decidi esperar pra ver como seria o tal clipe.
    Acabei de ver, e só posso dar meus parabéns para o Cauã, para a cantora Barbara Ohana, e os diretores Daniel Rezende e Allexia Galvão.
    A representatividade importa? Importa muito. Eu quero cada vez mais travestis e pessoas trans interpretando a si mesmas em clipes, filmes, séries, novelas, etc. Mas hoje a visibilidade pra nossa história é tão importante quanto a representatividade. Se as duas vierem juntas é ótimo, mas caso não venham, pelo menos um passo foi dado. Antes de mais nada, nossa história não faz parte da vida das pessoas. A violência a que estamos sujeitas é de conhecimento público, mas é propositalmente ignorada.
    Travestis são espancadas e mortas todos os dias, mas as pessoas ignoram. Então, num clipe isso ser pincelado é importante. Isso ser feito usando um ator de muito destaque é tão importante quanto. Não estamos falando aqui de um filme ou de uma novela, que teriam grande audiência e repercussão mesmo se usasse uma atriz trans desconhecida. Estamos falando de um clipe de uma cantora que ainda não tem a popularidade merecida. Então ela usar uma atriz trans/travesti não traria, infelizmente, grande impacto e visibilidade para a história.
    Acredito que muita gente vai ver o clipe só por causa do Cauã e vai acabar pensando “nossa, que covardia bater numa travesti só por ela ser travesti”. Mas é isso, travestis apanham só por serem travestis.
    “Ah, mas Lana o clipe está reforçando estereótipos”. Qual estereótipo? O de que a maioria das travestis está na prostituição? O de que elas estão sujeitas a violência o tempo todo? Antes de serem estereótipos, são verdades, infelizmente. E no clipe está evidente que a travesti é a vítima. Como também está evidente que as pessoas que as espancam e as violentam de alguma forma não passam de covardes. E o clipe ainda traz uma coisa muito falada no feminismo e muito importante de ser propagada: sororidade.
    E o Cauã, claro, interpretou muito bem. A sensibilidade no olhar da sua personagem é tocante. Sem falar na “quebra” de padrões por ver um grande galã da atualidade interpretando uma figura feminina. Enquanto a representatividade não chega – e eu quero muito que ela chegue – , que pelo menos saibamos aproveitar o que há de bom. E nesse caso existem sim coisas que podem ser aproveitadas pra nossa história e pro debate.” (Lana de Holanda, trans e escritora)

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