A ESQUERDA E A MULHER NEGRA – Uma Auto Crítica Necessária

Angela-Davis

Diante do contexto dos movimentos negro e feminista, vemos uma semelhança que permeiam ambos: a homogeneização de indivíduos participantes dos movimentos, logicamente que existe em teoria algumas vertentes feministas e do próprio movimento negro que que pautam questões especificas das mulheres negras, entretanto, na prática, dar voz política a estas mulheres dentro dos movimentos, é cada vez mais difícil.

Acredita-se ainda que mulheres negras que ganham destaque na sua bagagem intelectual são minorias, e que por este motivo, a coletivização da intelectualidade dessas mulheres devem ser delegadas único e exclusivamente por elas. Também pode-se ver em várias práticas de coletivos femininos, trabalhos físicos que são delegados só para mulheres negras e outros com menos intensidade física e mais esforço intelectual para as mulheres brancas. Os espaços mistos ainda tem sido bastante nocivo para as mulheres negras, estas ainda lutam fortemente para estabelecerem sua independência intelectual fora de um contexto de servidão e submissão; é ignorado a esta mulher que ela possui demandas muito maiores em sua maior parte das vezes, do que das demais mulheres.

As mulheres negras em sua massiva maioria são residentes das periferias, estão em situação de desemprego e muitas ainda sonham em sustentar sua carreira acadêmica mesmo com um contexto socioeconômico que lhes desfavorece, e paralelo a isto, ainda manter uma vida política ativa, oferecendo sua propriedade intelectual que é muitas vezes menosprezada ou delegada a falar unicamente de coisas que foquem no seu campo representativo; espaços de militância mistos ignoram que mulheres negras possam falar sobre economia, conjuntura política do século XX, direito, ciências sociais e quaisquer outros assuntos pertinentes a sociedade que não cabelo, racismo, empoderamento estético e apropriação cultural; a mulher negra não tem autonomia política para se expressar livremente caso ela tenha conhecimentos teóricos para além do racismo, mesmo que ela mostre uma clara gama de instrução sobre outras linhas de conhecimento.

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A militância das mulheres negras é paralela e conflitante à militância “genuinamente” (sic) de esquerda, não porque elas fogem das pautas estabelecidas por estes movimentos, mas porque as suas demandas são tão especificas, que são muitas vezes ignoradas e tratadas como histerismo e radicalismo extremo por parte dos indivíduos que não sofrem as suas demandas de opressão, seja estruturalmente, seja cotidianamente.

Enquanto mulheres, e em grande parte das vezes residentes da periferia; as mulheres negras possuem uma tripla militância didática todo santo dia para ser exercida. Ser mulher é ser violentada física ou sexualmente a cada 12 segundos no Brasil, ser negro, é ter 72% de chances de sofrer violência policial (sem precedentes), ser mulher e negra, é sofrer com a estigmatização da nossa cultura, da nossa aparência, é ter de construir todos os dias a nossa autoestima enquanto mulher, pois a nossa representação nos principais meios midiáticos é reduzida à cargos braçais pertinentes ainda ao peso do contexto escravocrata, como se a nós ainda fosse cabível apenas ocuparmos a estes locais; E o impacto gerado por essa estigmatização, atinge as mulheres negras em vários níveis; tangíveis e intangíveis, e dentro deste contexto, estão em diversas relações sociais e de trabalho que temos que enfrentar ao longo de nossas vidas.

Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo, as negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo; Lutam pra reverter o processo de aniquilação que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão.” – Eduardo Taddeo.

Temos no Brasil uma história que permeiam quase 400 anos de escravidão e pouco mais de 100 de pós escravagismo, por isso, ainda trazemos conosco o peso da hierarquização de raça como uma consequência histórica da construção da falsa democracia racial montada pelo estupro de mulheres negras escravizadas e mulheres indígenas; sem ignorar o processo cruel de embranquecimento do mercado através da imigração da mão de obra europeia para ocupar lugares que outrora pertenciam aos escravos, então livres; o embranquecimento da estética feminina, delegando às mulheres brancas, o posto de padronização e modelo de representação da beleza perfeita brasileira, e às mulheres negras o posto de subalternas deste processo, e que para que o preterimento não pesasse a ponto de um celibato e ostracismo social completo, era/é necessário a aproximação dos estereótipos de beleza da mulher branca, através do alisamento capilar, técnicas de maquiagem para afinar traços faciais, negação da auto declaração racial e etc.

A luta das mulheres negras não se resume apenas aos espaços de senso comum, mas a sua labuta diária é também inserida fortemente nos meios de militância, exigindo para nós, um exercício maçante e diário de desconstrução de indivíduos que teoricamente possuem um grau de consciência, ora de gênero, ora de raça e em pouquíssimos casos, inclui-se também, a consciência de classe.

A nós, a que fomos delegadas a inaptidão do abandono de nossas forças para suportarem as mazelas da vida; da falta de oportunidades; da falta de espaços de crescimento intelectual; do genocídio que atinge aos nossos e consequentemente a nós mesmas.

Se o socialismo tiver sempre a face branca, masculina e cisgênera; o socialismo jamais irá acontecer.

A revolução virá principalmente pelas mãos das mulheres pretas, ou não virá.

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Uma resposta em “A ESQUERDA E A MULHER NEGRA – Uma Auto Crítica Necessária

  1. Gostaria de indicações (textos, blogs, etc.) sobre a relação entre o feminismo “em geral” e o feminismo específico (se é que há apenas um) das mulheres negras.

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