A FORÇA FEMININA NAS OCUPAÇÕES DAS ESCOLAS

Em meio ao caos de 64, lá estava ela, fazendo seu bolo preferido e enquanto estava no forno, ela fazia seus outros afazeres de casa: lavar a roupa, arrumar as camas, coisas de mulher, sabe? Já ele estava cuidando de coisas realmente importantes, afinal, foi uma época muito difícil para o Brasil. Uma reunião atrás da outra, escondido dos militares, é claro. “Como acabar com a ditadura militar no Brasil? ”
Já nos presídios, os presos políticos recebiam visitas de suas esposas onde na barra das suas saias traziam cartas, fazendo a intermediação dos políticos de dentro e fora dos presídios, as mulheres, por sua vez, taxadas de burras e sem pensamento crítico, passavam por revistas imunes, já que os próprios militares desafiavam a inteligência das mesmas.
Estas mulheres tiveram um significado muito grande, mas não é certo deixa-las de escanteio. Precisamos introduzir mais mulheres no processo revolucionário. Se não fosse o machismo da época, teríamos mais mulheres em reuniões e fazendo a base, talvez a história teria sido diferente. Trazer nossos aliados para lutar conosco com o propósito de destruir o capitalismo é extremamente importante.
Não é só destruir o capitalismo e pronto. É avaliar todo esse processo com um olhar marxista, visto por mulheres cis e transexuais, LGBT’S, negros e negras, da nossa classe.
Os anos se passaram e quando menos esperávamos veio a surpresa: O Brasil inteiro se movimentou por seus direitos em 2013. E foi aí que eu e muitos outros brasileiros começaram a entender o quanto éramos explorados e tínhamos nossos direitos violados pelo estado burguês. Desde então, a internet foi a responsável por me fazer entender o movimento feminista, outro que até então eu não tinha conhecimento. De fato, o movimento que aconteceu em 2013 foi um dos grandes responsáveis por trazer muitos militantes/simpatizantes para a esquerda. Eu, inclusive, fui uma dessas pessoas.
Quando comecei a militar no final de 2014, pegando o começo de 2015 lembro-me bem que as manifestações e reuniões em que eu frequentava eram de uma maioria masculina e de universidades. É um tanto como complicado, você frequentar lugares e perceber que é a minoria, mas por quê? Por que eu fazia parte dessa minoria que frequentava esses espaços? Sendo que eu como mulher, filha de trabalhadores, vivendo em um mundo capitalista, sofro uma dupla opressão e como dizia Lênin “A operária e a camponesa são oprimidas pelo Capital, e mesmo nas repúblicas burguesas mais democráticas, elas não dispõem de direitos iguais aos dos homens, já que a lei não lhes concede essa igualdade”.

 
Outubro de 2015: O governo do Estado de São Paulo decreta que acontecerá uma Reorganização escolar.

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O primeiro grande ato foi visivelmente claro de que o cenário tinha mudado desde 64, a maioria entre nós eram meninas e secundaristas. Sim, meninas e secundaristas, isso porque os atos tinham pelo menos 5 mil pessoas. Lembro-me bem da emoção que foi chegar ao Palácio dos Bandeirantes do lado de meninas que puxavam frases de efeitos, faziam paródias para denunciar o descaso da educação pública, aquilo foi simplesmente encantador, fez-me sentir de que eu estava no lugar certo e ao mesmo tempo perguntar-me: como conseguimos introduzir tantas secundaristas na luta?
Dias depois o governo soltou uma lista com pelo menos 93 escolas que seriam fechadas e uma reorganização em pelo menos 300 escolas do Estado. Mal sabiam ele de que estavam cutucando uma onça com vara curta. Noutro dia, já era possível ler sobre a primeira escola ocupada “E.E Diadema” e foi só o primeiro passo, já que na outra semana tínhamos mais de 100 ocupações escolares e todas com uma característica muito forte: uma linha de frente de meninas. O debate sobre nossa conjuntura, sobre sociedades, cultura, o machismo nos meninos, eram constantes e as intervenções feministas nas escolas era algo simplesmente normal. E mais, o que se escutava de todos, tanto meninos, como meninas, era de que aquilo era o modelo de escola que eles queriam e querem, algo que eles sentissem o prazer de acordar todos os dias e saber de que iriam para a escola, aprender coisas que fariam com que eles cada vez mais fossem seres críticos.
Medidas como comissões de cozinha, limpeza e segurança sendo 50% masculina e 50% feminina, ou reuniões das meninas 1 vez por semana, entre outras, fizeram com que as ocupações escolares fossem as grandes responsáveis por esse papel tão importante na história do Brasil: introduzir as mulheres na luta.

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Conquistas no Estado soviético

As mulheres soviéticas conquistaram, antes dos países capitalistas mais avançados, o direito ao divórcio, ao aborto, a eliminação do poderio matrimonial etc. Na Rússia pós-revolução, as mulheres e os homens tinham igualdade de direitos perante as leis.
A mulher foi introduzida na economia social, no poder legislativo e nos postos de governo. Tiveram acesso as instituições educacionais e aumentaram sua capacidade profissional, social e intelectual. Foram criadas cozinhas, restaurantes e lavanderias comunitárias, além de creches e escolas para crianças. O esforço era para por em prática o programa comunista de transferir para a sociedade as funções educativas e econômicas da família, que até então recaiam sobre a mulher. Era parte fundamental do programa da revolução libertar a mulher da fadiga e da escravidão doméstica e do estado de submissão ao homem, para que pudessem desenvolver plenamente seus talentos e suas inclinações.

A lição que Lênin tirou desse processo foi que os investimentos na busca da emancipação da mulher fortaleciam a revolução e a construção do poder dos trabalhadores na Rússia. A incorporação de mais mulheres nas lutas revolucionárias e a tomada de suas bandeiras por todos os trabalhadores cumpriam uma dupla função: aproximava as mulheres e contribuía para a educação dos homens, combatendo os privilégios machistas e a divisão da classe” – Cilene Gadelha – Lênin e a questão da Mulher

“Por isso é totalmente justo que apresentemos reivindicações em favor das mulheres (…). Nossas reivindicações se desprendem praticamente da tremenda miséria e das vergonhosas humilhações que a mulher sofre, débil e desamparada, no regime burguês.

Com isto mostramos que conhecemos estas necessidades, que compreendemos igualmente a opressão da mulher. Que compreendemos a situação privilegiada do homem e a odiamos – e queremos eliminar tudo o que oprime e atormenta a operária, a mulher do homem simples e, inclusive, em muitos casos, a mulher da classe acomodada. Os direitos e as medidas sociais que exigimos da sociedade burguesa para a mulher são uma prova de que compreendemos a situação e interesses da mulher e de que, na ditadura do proletariado, as levamos em conta.” – Lênin

Lênin e Nadezhda Krupskaia, sua esposa. Gorki, agosto de 1922.

Lênin e Nadezhda Krupskaia, sua esposa. Gorki, agosto de 1922.
O cenário mudou muito desde 64 para cá, foram lutas e lutas até chegarmos onde chegamos, ainda falta muito, mas estamos no caminho certo. Vamos continuar lutando pelo nosso lugar nessa luta que também é um direito nosso.

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