Padrão de beleza um ataque ao Gênero e a Classe das Mulheres

Ninguém nasce odiando a si mesmo, somos ensinadas a isso, para algumas mulheres este ensinamento começa nos primeiros anos da infância, as mulheres negras, creio, desde o nascimento, outras no decorrer da vida, mas existe, um perfil do que é ser bonita que está engessado socialmente, servindo para distorcer a imagem das mulheres diante do espelho a ponto delas terem medo do espelho e ódio a própria imagem.

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Pra quem dúvida e desdenha da afirmação de que os padrões de beleza são enfiados na cabeça das mulheres desde a infância, dê uma conferida se existem princesas da Disney que sejam gordas, muito recentemente com o clamor por representatividade, surgiram uma ou duas negras, uma ou duas corajosas e valentes, a maioria é: Branca, magra, delicada, traços finos, esguia, e dócil. Recado dado: “Você não é uma princesa se não estiver dentro destes padrões.”

Hoje a beleza tem padrão eurocêntrico: A beleza é branca, alta, magra, dócil, obediente…

Dando uma passada pela evolução histórica dos padrões de beleza, temos que no período renascentista, entre século XIV e XVI, a mulher que era admirada com exemplo de beleza era gorda.  Por que isso acontecia? Somente as mulheres que pertenciam às famílias mais abastadas eram gordas. Ou seja, a beleza retratava a classe dominante. Só lembrando que o Renascimento, começa na Itália, o padrão vem exportado de lá, onde eram comuns mulheres gordas, brancas, altas, olhos claros, loiras e cabelos lisos.

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No Século XIX, a revolução industrial passa a dar uma qualidade de vida melhor para o proletariado, permitindo uma alimentação mais adequada e abastada para as classes subalternas, neste período, a classe dominante que é a burguesia, passa a escolher o que o que acha belo, era as mulheres gordas, brancas, de rosto corado. O corpo elogiado era o que teria a forma de ampulheta e as mulheres para obtê-lo, começaram a usar espartilhos, desconfortáveis e apertados.

Depois aparece o padrão de beleza com corpo magro, não por acaso, um corpo possível para a elite, e um corpo alcançável para as mulheres da classe trabalhadora através de muito esforço, e uma frustração sem remédio, para as mulheres que não tem biótipo para serem magras. Nos anos 20 além de execrada, a gordura era vista como atributo de classe inferior.  Existiam umas charges que corriam soltas, onde as mulheres de baixa renda, normalmente retratadas com domésticas, eram gordas, eram feias, desarrumadas, relaxadas. Enquanto isso, as patroas, eram representadas como esbeltas, esguias, altas, postura corporal ereta, delicadas…

A beleza sempre será a representação da classe dominante, antes as mulheres gordas eram tidas como mulheres belas, por que a fartura de comida era um atributo da nobreza, porém a classe subalterna tem suas formas de manter a sobrevivência, e a alimentação baseada em carboidratos passa a lhes dar a forma volumosa desejada pelo padrão. O que a classe dominante faz? Passa a escolher para padrão as mulheres gordas com rosto corado, era comum nas odes e travas, ouvir os poetas cantando para “minha senhora, branca e rosa”.

A alimentação das pessoas pobres com base em carboidrato não lhes conferia boa saúde, muitas eram anêmicas e descoradas, na classe dominante, isso era mais raro. Mas nem para as mulheres da classe dominante era tão fácil assim, elas teriam que reformular seu corpo para ter a forma de ampulheta, que era o desejado. Ou seja, o padrão dele beleza é o da classe dominante e ditado pelos homens, é o que eles desejam e é nisso que a mulher deve transformar-se, afinal, a utilidade das mulheres, desde a invenção do patriarcado, é de servi-los.

O padrão magro esta em voga há muito tempo. Mais precisamente em 1960, entra para o padrão mulheres com quadril estreito, umas das propagandas veiculadas na época diziam que mulheres não devem parecer – se com uma pêra. Que era o ideal de beleza passado, conseguido com ajuda dos corseletes, né? Lembram?

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Em 1970 Farrah Fawcett torna-se garota propaganda do padrão de beleza: alta, magra e rainha da dança. Era permitido na época de tudo para que as mulheres chegassem a este padrão, inclusive, fumar. A propaganda de cigarro dizia que “fumar emagrece” (não diziam que o câncer provocado por cigarro emagrece, mas sim que fumar consumir aquele produto danoso a saúde, para parecer ter um corpo saudável).

Em 1990, o corpo é pequeno e fino. Em 2000, o corpo é malhado. Em 2010 passa se a aceitar corpos com bunda grande, até desproporcional, como a Valeska Popozuda, mas segue renegado pela indústria da moda, afinal é um padrão das classes subalternas, a elite continua magra e sem formas abundantes.

O grande mote dos dias atuais é que o corpo magro é padrão por que é saudável e harmônico.

É muito interessante notar que todos os padrões que passaram pela linha histórica dos tempos é como ele surge ditado pelas classes dominantes e como a as classes subalternas precisam seguir aquele ideal mesmo sem ter as condições para isso. As mulheres da classe dominante, também sofrem com esta opressão estética, mas elas têm capital para investir no corpo padrão, além de contratarem treinadores particulares, que montam treinos específicos para cada uma, elas têm a sua disposição medicações e tratamentos estéticos variados para atingir a meta do corpo magro, mesmo que não tenha nada de saudável no resultado final de sua busca desenfreada.

As mulheres pobres por sua vez encontram se desprovidas do capital e de um dos critérios importantíssimos para o investimento num corpo padrão: Tempo.  As mulheres da classe trabalhadora ao contrário das burguesas começam a trabalhar muito cedo, passam o dia exercendo atividades remuneradas para ajudar a compor a renda da família, isso quando não é arrimo da família. Ganham salários baixos que muitas vezes cumprem apenas a função de manutenção da casa sem sobrar um centavo para cultura, diversão e muito menos para tratamentos estéticos e academias. As mulheres da classe trabalhadora não têm sequer a sua disposição lugares públicos bem iluminados específicos para exercitarem… Para nós tudo isso é negado.  Desta forma, o jeito mais simples de emagrecer é entupir se de remédios, e esquecer a fome, e muitas mulheres tem optado pela cirurgia bariátrica. O elogio a magreza é sádico.

Além desta observação, vamos além: O Brasil é um país onde a miscigenação é um traço que deve ser levado em consideração. Exportar um padrão de beleza Europeu, e impô-lo as mulheres Brasileiras é, de novo, sádico. Nós não temos o biótipo lá de fora, somos diferentes, temos nossos traços e sobre eles devemos ser elogiadas, e não sobre traços alheios a que somos. Por exemplo, no Brasil existe uma grande colônia Italiana, o padrão destas mulheres é o renascentista: Brancas, loiras, gordas e de rosto rosado. Não é por que o padrão de beleza mudou, ditado pela classe dominante, que o padrão de beleza destas mulheres deve mudar.

Todas NÓS deveríamos estar representadas como Tipos de beleza, sem padrão, mas ai vem à burguesia, o capitalismo, o machismo e unificados, usam deste ditame para lucrar em cima das nossas fragilidades, do nosso auto – ódio.

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A burguesia tem usado o ódio que nos ensinam desde muito cedo para lucrar. Consumimos desvairadamente produtos que nos prometem de forma fácil o corpo padrão, e quando nos frustramos sem conseguir, nos enfiamos e morremos em clinicas de lipoaspiração em busca do corpo perfeito, submetemos – nos as bariátricas, mesmo que não tenhamos indicação para esta cirurgia de grande porte entre outras medidas desesperadas, mulheres que são diabéticas, reduzem o uso da insulina, correndo riscos atrelados à ausência da mesma no organismo, para emagrecer. A classe dominante nos quer assim, completamente fora da realidade, obstinadas com um padrão impossível, enquanto eles dominam a política, dominam a economia, dominam o mundo em mantém o Status quo inalterado, assim eles enriquecem explorando-nos com base em nossa opressão.

UM DEPOIMENTO PESSOAL

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Eu, que vos escrevo, sou uma mulher gorda, sempre fui uma mulher gorda, e senti na pele desde a infância a rejeição ao meu biótipo, ao meu corpo, as minhas medidas, as minhas banhas. Muitas vezes fugia do espelho com medo de encontrar-me comigo mesma ali e reforçar o que eu pensava que aconteceria, eu sabia que odiaria a pessoa que veria refletida.

Meu padrão é o renascentista, minha ascendência é de Italianos da Calábria. Sou alta, branca, gorda, loira, cabelos lisos.

Nem sempre eu me odiei e foi um processo muito longo até eu deixar de me odiar. Tudo começou com o primeiro xingamento na pré-escola, eu não sabia que era diferente das outras crianças e nem que era inferior ou feia, até me dizerem que eu era uma “baleia”. Depois disso, foi ficando cada vez mais comum ouvir insultos, pessoas adultas me diziam as coisas mais dolorosas, como uma tia que “brincando” me dizia: “Você tem rosto de princesa e corpo de velha”. As amigas que não deixavam andar na bicicleta delas por que “você é muito gorda vai afundar minha bicicleta”. O professor de educação física que disse “Vai correr sozinha em volta desta quadra inteira para emagrecer e ficar como as outras meninas, magrinha”, as mulheres na igreja que atormentavam minha mãe dizendo a ela que ela deveria fazer algo com relação a isso, que eu ser gorda daquele jeito ela responsabilidade dela; Os amigos do meu irmão que diziam a ela que eu era linda de rosto, mas muito gorda, fazendo com que ele tivesse vergonha de mim e passasse boa parte do dia dele me torturando com rótulos e criticas que me destruíam.

Eu diante do espelho e não conseguia ver uma pessoa feia, eu me achava bonita, eu amava o que eu via, mas o mundo odiava o que eu era e então eu queria deixar de ser odiada. Eu queria emagrecer para ser como todas as outras pessoas e fugir daquelas vozes algozes de mim. Foram tantos tratamentos que perdi as contas. Foram tantas derrotas que perdi a conta. Foram tantos olhares de “Eu sabia que você não conseguiria”, foram muitas coisas que me matavam aos poucos.

A consciência de classe foi algo que me trouxe ciência da opressão e libertação de uma das situações mais paralisantes que atravessou minha vida: Tentar atingir um padrão de beleza que não é o meu padrão, sem ter em mãos, capital para investir nesta transformação, se tivesse, teria adquirido um corpo padrão que mente ser saudável, mas não tinha. Ainda bem que eu não tinha e não me submeti ao que dita uma minoria que pretendem – se tiranos das mulheres.

Quero terminar este texto pedindo a você que esta me lendo, que faça o mesmo exercício que eu fiz, note que nem sempre você odiou suas formas, talvez você nunca tenha deixado de sentir se bonita, você submeteu – se a pressões externas, você pensou em determinado momento que “se eles me odeiam é por que eu sou feia”, mas isso não é verdade. A Verdade é que existe uma classe dominante que impõe seus padrões e idéias, e nós acabamos através da opressão nos submetendo. Não se submeta. Vire o jogo. Dê um foda – se a quem crê se tão superior a ponto de ditar o que é ou o que não é belo.

 

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