A origem do feminismo radical trans-excludente: a expulsão de Beth Elliott

be1970s

Foto de Beth Elliot, por volta de 1970

Por Jéssica Milaré

É comum se deparar com alguma “polêmica” nas redes sociais entre as feministas radicais trans-excludentes contra pessoas trans. De fato, as trans-excludentes representam uma corrente que surgiu dentro do feminismo radical na década de 1970, dividindo-o em dois grupos: um que defende abertamente a exclusão de mulheres trans, e o outro que não se opõe à presença delas no movimento feminista. O primeiro grande evento em que essa divisão ocorreu foi a Conferência Feminista Lésbica da Costa Oeste, em Los Angeles, nos EUA, em abril de 1973.

Daughter of Bilits, 1972

Em 1971, Elliott tornou-se membro do coletivo feminista lésbico Daughter of Bilits, o que deu origem a uma forte polêmica. Foi decidido que ela poderia participar. Porém, no final de 1972, Bev Jo von Dohre, ex-amiga de Beth, acusou esta de tê-la assediado sexualmente em 1969. Entretanto, a própria descrição do “assédio sexual” em um texto da Bev Jo mostra que não houve assédio sexual: Bev Jo confessa que Beth Elliot não encostou um dedo na Bev Jo nem a ameaçou.

Eu me senti perseguida por ele [Elliot] por mais de 40 anos, mas eu não posso me afastar dele nem mesmo em espaços “somente para mulheres”. Eu acho que é ultrajante que qualquer lésbica ou mulher [sic] deveria ter que ver um homem que a assediou em um espaço que deveria ser seguro. (Este homem não me pressionou além disso, mas por favor lembre-se de que todos esses homens têm um passado e assuma que muitos deles teriam estuprado meninas ou mulheres. Eles são HOMENS, afinal de contas).

Von Dohre. Defining Lesbians Out Of Existence. Grifo nosso.

Perceba que, se Elliott tivesse realmente cometido assédio sexual, Bev Jo não confessaria que Elliott “não me pressionou além disso”, nem se basearia em pura especulação de que as mulheres trans teriam estuprado outras mulheres antes da transição. Beth pode ser acusada de carência (o que é comum entre pessoas trans, já que nós somos rejeitadas socialmente) e de manter uma relação nada saudável, mas não de assédio sexual.

Eu podia sentir Elliot me observando pelos meses que se seguiram, e, se eu parecia começar a ser amiga de outros homens, ele ficava com raiva e chorava. Em me transferi para outra escola para tentar ficar com Marg, mas ainda mantive contato com Elliot. Ele disse que se apaixonou por outra lésbica e que ela tinha transado com ele como se ele “fosse uma mulher”. Ele também me disse que transou com um homem. Depois de um tempo, ele decidiu que era uma lésbica e escolheu o primeiro nome o mais próximo possível ao meu e pintou seu cabelo com um vermelho semelhante ao meu. (Isso não é de arrepiar?).

Von Dohre, op. cit.

Por que ter um nome parecido e um cabelo da mesma cor seria “de arrepiar”? Ora, porque ela tem ódio das mulheres trans.

É engraçado como eles [as mulheres trans] estão tão acostumados que as feministas imediatamente se curvem pra eles que eles não sabem lidar com quando nós não nos importamos com o que acontece com eles. Eles esperam que nós fiquemos chocadas com as estatísticas sobre eles sendo mortos, mas não percebem que algumas de nós desejamos que eles TODOS fossem mortos.

Von Dohre, op. cit.

Conferência Feminista Lésbica, 1973

Na conferência, um grupo denominado The Gutter Dykes distribuiu um panfleto contra a presença de “um homem” (sic), no caso, a Beth Elliott. Robin Morgan, baseando-se na acusação de Bev Jo, fez um discurso questionando a audiência por que algumas delas defendiam a “obscenidade do travestismo masculino” (sic).

Não, eu não vou chamar um homem de ‘ela’; trinta e dois anos de sofrimento e sobrevivência nessa sociedade androcêntrica me fizeram merecer o título de ‘mulher’; um passeio na rua por um travesti masculino, cinco minutos de assédio (que ele deve gostar), e ele ousa, ousa pensar que entende nosso sofrimento? Não, pelos nomes de nossas mães e pelos nossos, não devemos chamá-lo de irmã. […] Eu o acuso de oportunista, infiltrador e destruidor – com a mentalidade de um estuprador. E vocês mulheres desta Conferência sabem quem ele é. Agora. Vocês podem deixar ele entrar em nossas oficinas – ou vocês podem lidar com ele.

Robin Morgan, durante seu discurso.

Mais de dois terços das conferencistas votaram pelo direito de Beth Elliott permanecer no evento. Quando Elliott subiu no palco com seu violão para se apresentar, um grupo de feministas radicais também subiu com o intuito de expulsá-la. Robin Tyler e Patty Harrison, que também eram feministas radicais, subiram no palco para defender Elliott.

Robin Morgan subiu no palco com esse discurso horrível e, quando Beth subiu para tocar seu violão e cantar, elas começaram a ameaçá-la. Patty e eu subimos no palco e fomos agredidas, porque elas subiram no palco para fisicamente agredi-la. […] Nós subimos e defendemos Beth

Robin Tyler, em uma entrevista.

Para evitar maiores confrontos, Beth Elliott retirou-se do evento.

Com o tempo, feministas cisgêneras, radicais ou não, passaram a diferenciar-se da vertente das feministas trans-excludentes, denominando-a como trans-exclusionary radical feminism (feminismo radical trans-excludente), abreviadamente TERF.

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Uma resposta em “A origem do feminismo radical trans-excludente: a expulsão de Beth Elliott

  1. Preconceito existe em todos os segmentos sociais – Eu queria tanto que as pessoas pudessem simplesmente ser elas mesmas sem medo. Ser não faz mal a ninguém. O fato de alguém ser homo ou hetero não afeta necessariamente a vida de quem convive com esta ou aquela pessoa, assim como se branco ou negro não faz alguém ter mais ou menos caráter. Sexualidade e cor da pele são menos escolha e mais fatalidade. O que não pode ser mudado deve ser respeitado pelo que é. O que me incomoda na sociedade não é a existência de trans gêneros, de homossexuais, de branco, negros, vermelhos ou amarelos, me incomoda o desamor que nos faz classificar as pessoas e desumanizá-las por não serem o que esperamos. Me incomoda a corrupção, a violência, a intolerância, o machismo, o sexismo, a misoginia…

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