Uma nova moral para o Amor

A moral do Amor

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O amor vem sido contado de variadas formas, e são vários os tipos de amor que elencaram para nossas vidas: Amor materno, amor paterno, amor fraterno, amor apaixonado, os altruísmo… Todas as formas de amor são exaltadas e idealizadas, como se qualquer passo a fora do que foi previsto para o amor fosse uma heresia, uma profanação a sagrada religião do amor, com castigo de ser excomungado do templo onde ele habita.

Parece um exagero, mas é assim que o amor vem sendo tratado, como uma religião sagrada que tem neste sentimento um rito que deve ser cumprido á risca. O tipo de amor que mais causa espanto quanto a estas considerações, é o amor materno, mas o amor entre pares também não esta livre, não é livre.

Vem direcionado a nós através das mídias e artes em geral, o amor romântico servido ao mundo como algo inevitável, irresistível, imutável, sofredor, apaixonado, eterno… São algumas das características que compõe o amor. Nada disso é uma verdade absoluta, pode ser que seja assim para alguns povos vivendo em determinadas localidades onde este tipo de construção foi eleito a forma plena de amar, mas não se aplica a o mundo todo de forma imutável.

O amor não é algo nato, que nos salta aos olhos a primeira vista do outro. É sabido que a paixão provoca reações químicas no cérebro e corpo, nos levando a uma súbita atração pelo outro, mas que este episódio de atração chama se paixão e pode ser comparado a um Cio animais não humanos. Por meio do mapeamento cerebral, foi descoberto que o estado mental alterado pela paixão dura, geralmente, de 18 a 48 meses.  É um período breve para a construção de um amor, nem sempre se concretizam, os pares se separam quando cessam as doses de hormônios que são liberadas pelo período apaixonado quando a construção do amor não é alicerçada.

O amor são as conexões que aparecem durante o período que a paixão une o par, seja homem e mulher, sejam casais homoafetivos. A evolução da espécie na verdade não enxerga a sexualidade dos indivíduos, apenas temos internalizado as formas de unirmos – nos em pares para perpetuação da espécie. O amor é uma construção social que traduz – se para cada época, para cada sociedade, para cada ideologia dominante de uma época.

O nascimento do amor

Algumas explicações de com o nasce o amor já nos mostra bem que tipo de construção nos reserva. Na mitologia Grega, Eros nasce de uma Deusa chamada Penúria, extremamente miserável, que vivia sedenta e faminta. Aconteceu que haveria uma festa e Penúria não foi convidada, esfomeada, ela chega ao término da festa e come e bebe os restos, come tanto que se farta de migalhas.

Penúria, encontra um Deus chamado Poros, dormindo embriagado (pobrezinho) e mesmo sendo considerado astuto e engenhoso dono de uma personalidade envolvente, ele é abusado por Penúria, que faz sexo com ele “inconsciente”. Desta noite te sexo, nasce EROS, o Deus do amor, aquele menininho loiro de cabelos encaracolados que atira flechas nas pessoas, flechas envenenadas de paixão e amor.  Eros, numa genética fantástica, viria a conciliar em sua essência tanto a carência e a miséria de sua mãe Penúria, como a abundância e a prosperidade de seu pai Poro.

Para Platão: “Com efeito, o saber está entre as coisas mais belas é o Amor é o desejo do belo; portanto, forçosamente o amor é filósofo e, sendo filósofo está situado entre o sábio e o ignorante. Ainda é sua origem a causa disso, pois é filho de um pai sábio e industrioso e duma mãe ignorante e apalermada”.

Os homens não amam?

O que podemos tirar desta fabula da mitologia grega? Que a figura que remete ao amor em construção feminina é a de fome, tanta fome, que as migalhas lhes bastam, a sedução e altivez ficam por conta da figura masculina e não só isso, ela o conheceu por que era um Deus convidado para festa, logo era abastado, para ter os privilégios de uma vida plena, a mulher precisa lutar ou enganar o homem para conquistá-la, e engravidar do homem seria uma forma de garantir um espaço neste céu de deidades.

O amor nasceria da fome e da miséria, do desespero e da desonestidade do ser humano do gênero feminino, que precisa ser abraçado e envolvido pela sedução, riqueza e beleza alheia para saciar – se. Impossível imaginar o amor dentro desta perspectiva, pois ela traz a dependência como imagem de amor. Ou saciar se do outro, ou morrer de fome. A riqueza, a prosperidade, tudo de maravilhoso esta na outra pessoa e precisaríamos desta pessoa permanentemente ao nosso lado para sermos melhores e completas.

Importante ter em vista que o amor tem sido algo remetido como algo próprio da mulher, sendo ele feminino, tanto que as qualidades do amor são minimizadas em discursos machistas como sendo “preocupações de mulher”. Simone Beauvoir disse que “O amor foi apontado à mulher como uma suprema vocação e, quando se dedica a um homem vê nele um deus […]”. E tem sido assim, tanto que “o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante de uma mulher”, e infelizmente,  o amor transformou-se em uma arma do machismo para submeter às mulheres.

Do amor degenerado ao Amor pleno

O amor que conhecemos hoje, e fruto de várias construções ideológicas de classes que foram e das que são dominantes ainda hoje. Durante a passagem da linha do tempo, encontramos o “amor” sempre atrelado a promover equilíbrio e beneficiar a moral das famílias e do fator econômico da classe. Esta forma degenerada de caracterizar o amor foi destruindo – o em sua essência e moldando o para suprir interesses alheios aos anseios humanos.

Atualmente temos a humanidade aprisionada sobre os signos da paixão e enganosamente chamando a este sentimento de amor, a avidez em devorar o outro em tudo que ele é para saciar lhe a fome, ate que a fome passa e o ser humano que antes lhe dava sensações incríveis é abandonado para que enfim, a busca por outro que lhe dê novamente as sensações anteriormente sentidas.

Alexandra Kollontai, em sua obra, a Nova Mulher e a Moral Sexual, descreve a condição da humanidade daquela época, que se assemelha incrivelmente com a de hoje ainda, dizendo:

 “A época atual caracteriza se pela ausência da arte de amar. Os homens desconhecem em absoluto a arte de saber conservar relações amorosas, claras, luminosas, leves. Não sabem todo valor que encerra a amizade amorosa. O amor para os homens de nossa época é uma tragédia que destroça a alma (…). É preciso tirar a humanidade deste atoleiro (…). A psicologia do homem não estará aberta para receber o verdadeiro amor (…) até que passe pela escola da amizade amorosa.”

O amor é uma construção social. Engana- se quem acredita que o amor é algo nato, que é um dom, não é. O amor esta na história que desenvolvemos com nossos pares no decorrer do encantamento da paixão, são as afinidades mutuas o espírito de solidariedade com o outro, a cumplicidade, lealdade, a os momentos felizes e os de superação. Todos estes elementos transformam a relação em uma ponte de acesso livre, por onde um caminha até o outro, uma ponte sólida que consegue suportar o peso que é descobrir o outro assim como ele é, sem as idealizações da paixão, sem mascaras.

O que temos hoje é um amontoado de ideologias sobre o amor que nos confundem e nos impedem de compreender e viver plenamente o sentimento. Para Alexandra Kollontai,

“A solução para este complicado problema só é possível mediante uma reeducação fundamental de nossa psicologia, reeducação esta que, por sua vez, só é possível por uma transformação de todas as bases sociais que condicionam o conteúdo moral da humanidade.”

Bibliografia

KOLLONTAI, Alexandra. A nova mulher e a moral sexual. Expressão Popular, 2003

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Venda Nova: Bertrand, 1976.

BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. Petrópolis, R.J: Vozes, 1991.

PLATÃO. Diálogos. Trad. e seleção Jaime Bru

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