O Dia das Mulheres

 

Introdução

NÓS VAMOS COM ÃNGELA DAVIS E ALEXANDRA KOLLONTAI, ATÉ A REVOLUÇÃO

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Por: Verinha Kollontai

Vamos postar este texto da Alexandra Kollontai hoje, por que como praticamente tudo que ela escreveu há tantos anos, é de uma atualidade espantosa e nos suscita o questionamento de que tantos anos depois continuamos no mesmo compasso, atrasados e misturadas a movimentos que pretendem reformas pontuais por dentro do sistema e que de forma alguma sanarão em sua completude a questão da opressão da mulher.

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Os recentes ataques que a classe trabalhadora vem sofrendo atingem de cheio a mulher, parte mais frágil da classe, que incorpora as filas do exercito de reserva, fora que os ataques somam se a retiradas de direitos conquistados pelas mulheres, como aposentadoria com idade inferior a do homem devido a dupla jornada de trabalho, no mercado de trabalho e em casa.

A retirada de direitos deixa claro que nada que conquistamos dentro do sistema capitalista será nosso de forma definitiva. Não por isso deixaremos de reivindicar direitos humanos para as mulheres nem deixaremos de lutar contra o machismo esperando pela revolução, mas temos que atrelar nossa luta a construção do processo revolucionário, rumo a derrubada do Capitalismo e para implantação de um novo modelo de vida numa sociedade socialista.

Por isso, não vamos hoje a Sé, nos juntarmos as mulheres que decidiram por uma luta reformista e com apoio a candidatura de Lula para 2018. Não vamos sair em defesa de reformas e de uma solução magica por dentro do sistema se sabemos que este sistema tem que ser destruído como unica opção para nossa libertaçao. Vamos ao Masp, chamando uma Greve Internacional de mulheres, em coro com ANGELA DAVIS (1) que lançou com outras intelectuais um chamado/ para uma ação revolucionária, para que a manifestação contra TRUMP, que foi a maior manifestação das mulheres que consta na nossa historia, seja arquivada como uma bela manifestação, mas que ela seja o começo de um REVOLUÇÃO.

 

O Dia da Mulher

Alexandra Kollontai

O que é o dia da Mulher? É realmente necessário? Não seria uma concessão às mulheres da classe burguesa, às feministas e sufragistas¹? Não seria nocivo à unidade do movimento operário? Estas questões ainda se escutam na Rússia, embora já não no exterior. A própria vida já deu uma resposta clara e eloquente a tais perguntas.

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O Dia da Mulher é um elo na longa e sólida cadeia da mulher no movimento operário. O exército organizado de mulheres trabalhadoras cresce cada dia. Há vinte anos, as organizações operárias não tinham mais do que grupos dispersos de mulheres nas bases dos partidos operários… Agora os sindicatos ingleses têm mais de 292.000 mulheres sindicalizadas; na Alemanha são em torno de 200.000 sindicalizadas e 150.000 no partido operário, na Áustria há 47.000 nos sindicatos e 20.000 no partido. Em toda a parte, em Itália, na Hungria, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e na Suíça, as mulheres da classe operária estão se organizando. O exército de mulheres socialistas tem perto de um milhão de membros. Uma força poderosa! Uma força com a qual os poderes do mundo devem lidar quando se trata do custo da vida, a segurança da maternidade, o trabalho infantil ou a legislação para proteger as mulheres trabalhadoras.

Houve um tempo em que os homens trabalhadores pensavam que deveriam carregar sobre os seus ombros o peso da luta contra o capital, pensavam que eles sozinhos deveriam enfrentar o “velho mundo” sem o apoio das suas companheiras. Porém, como as mulheres da classe trabalhadora entrando nas fileiras daqueles que vendem o seu trabalho em troca de um salário, forçadas a entrar no mercado de trabalho por necessidade, porque o seu marido ou pai estava desempregado, os trabalhadores começaram a reparar que deixar atrás as mulheres nas fileiras dos “não-conscientes de classe” era prejudicar a sua causa e evitar que avançassem. Que consciência de classe possui uma mulher que senta no fogão, que não tem direitos na sociedade, no Estado ou na família? Ela não tem ideias próprias! Todo o faz é segundo ordena o seu pai ou marido…²

O atraso e a falta de direitos sofridos pelas mulheres, a sua dependência e indiferença não são benéficos para a classe trabalhadora, e de fato são um mal direto para a luta operária. Mas, como entrará a mulher nesta luta, como acordará?

A social-democracia estrangeira não vai encontrar solução correta imediatamente. As organizações operárias estavam abertas às mulheres, mas só umas poucas entravam. Por quê? Porque a classe trabalhadora, ao começo, não vai dar por si que a mulher trabalhadora é o membro mais privado, tanto legal quanto socialmente, da classe operária, que ela foi espancada, intimidada, encurralada ao longo dos séculos, e que para estimular a sua mente e o seu coração necessita uma aproximação especial, palavras que ela, como mulher, entenda. Os trabalhadores não se vão dar conta imediatamente de que neste mundo de falta de direitos e de exploração, a mulher está oprimida não só como trabalhadora, mas também como mãe, mulher. Porém, quando membros do partido socialista operário entenderam isto, fizeram sua a luta pela defesa das trabalhadoras como assalariadas, como mães e como mulheres.

Os socialistas em cada país começam a demandar uma proteção especial para o trabalho das mulheres, segurança para as mães e os seus filhos, direitos políticos para as mulheres e a defesa dos seus interesses.

Quanto mais claramente o partido operário percebia esta dicotomia mulher/trabalhadora, mais ansiosamente as mulheres se uniam ao partido, mais apreciavam o rol do partido como o seu verdadeiro defensor e mais decididamente sentiam que a classe trabalhadora também lutava pelas suas necessidades. As mulheres trabalhadoras, organizadas e conscientes, muito fizeram para elucidar este objetivo. Agora, o peso do trabalho para atrair as trabalhadoras ao movimento socialista reside nas mesmas trabalhadoras. Os partidos em cada país têm os seus comitês de mulheres, com os seus secretariados para a mulher. Estes comitês de mulheres trabalham na ainda grande população de mulheres não conscientes politicamente, levantando a consciência das trabalhadoras e organizando-as. Também examinam as demandas e questões que afetam mais diretamente à mulher: proteção e provisão para as mães grávidas ou com filhos, legislação do trabalho feminimo, campanha contra a prostituição e o trabalho infantil, a demanda de direitos políticos para as mulheres, a campanha contra o aumento do custo da vida…

Assim, como membros do partido, as mulheres trabalhadoras lutam pela causa comum da classe, enquanto ao mesmo tempo delineiam e põem em questão aquelas necessidades e as suas demandas que lhes dizem respeito mais diretamente como mulheres, como donas de casa e como mães. O partido apoia estas demandas e luta por elas. Estas necessidades das mulheres trabalhadoras são parte da causa dos trabalhadores como classe.

No dia da mulher as mulheres organizadas manifestam-se contra a sua falta de direitos. Mas alguns dirão, por que esta separação das lutas das mulheres? Por que há um dia da mulher, panfletos especiais para trabalhadoras, conferências e comício? Não é, enfim, uma concessão às feministas e sufragistas burguesas? Só aqueles que não compreendem a diferença radical entre o movimento das mulheres socialistas e as sufragistas burguesas podem pensar desta maneira.

Qual o objetivo das feministas burguesas? Conseguir os mesmos avanços, o mesmo poder, os mesmo direitos na sociedade capitalista que possuem agora os seus maridos, pais e irmãos. Qual o objetivo das operárias socialistas? Abolir todo o tipo de privilégios que derivem do nascimento ou da riqueza. À mulher operária lhe é indiferente se o seu patrão é um homem ou uma mulher.

As feministas burguesas demandam a igualdade de direitos sempre e em qualquer lugar. As mulheres trabalhadoras respondem: demandamos direitos para todos os cidadãos, homens e mulheres, mas nós não só somos mulheres e trabalhadoras, também somos mães. E como mães, como mulheres que teremos filhos no futuro, demandamos uma atenção especial do governo, proteção especial do Estado e da sociedade.

As feministas burguesas estão lutando para conseguir direitos políticos: também aqui os nossos caminhos se separam. Para as mulheres burguesas, os direitos políticos são simplesmente um meio para conseguir os seus objetivos mais comodamente e com mais segurança neste mundo baseado na exploração dos trabalhadores. Para as mulheres operárias, os direitos políticos são um passo no caminho empedrado e difícil que leva ao desejado reino do trabalho.

Os caminhos seguidos pelas mulheres trabalhadoras e as sufragistas burguesas separaram-se há tempo. Há uma grande diferença entre os seus objetivos. Há também uma grande contradição entre os interesses de uma mulher operária e as donas proprietárias, entre a criada e a senhora… portanto, os trabalhadores não devem temer que haja um dia separado e assinalado como o Dia da Mulher, nem que haja conferências especiais e panfletos ou imprensa especial para as mulheres.

Cada distinção especial para as mulheres no trabalho de uma organização operária é uma forma de elevar a consciência das trabalhadoras e aproximá-las das fileiras de aqueles que estão a lutar por um futuro melhor. O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a auto-consciência da mulher trabalhadora estão servindo à causa, não da divisão, mas da união da classe trabalhadora.

Deixe que um sentimento alegra de servir à causa comum da classe trabalhadora e de lutar simultaneamente pela emancipação feminina inspire os trabalhadores a unirem-se à celebração do Dia da Mulher.

 

Citações:

  1. Beyond Lean-In: For a Feminism of the 99% and a Militant International Strike on March 8.

<http://www.revistaforum.com.br/2017/02/07/angela-davis-e-nancy-fraser-convocam-mulheres-para-uma-greve-geral-no-dia-8-de-marco/&gt;

Notas:

1.O movimento de mulheres socialistas da época procurava se diferenciar dos movimentos feministas e sufragistas de então por estes terem uma direção e política de caráter majoritariamente burguês ou pequeno burguês. Porém, como o texto deixa claro, as socialistas não negligenciavam a causa do sufrágio feminino ou outras causas específicas das mulheres.

2. Neste texto Alexandra Kollontai levanta a questão da formação de consciência de classe da mulher que recém adentrou no trabalho assalariado, e que antes estava confinada ao trabalho doméstico, que Kollontai considerava embrutecedor.

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Uma resposta em “O Dia das Mulheres

  1. Adoro esse texto! E é engraçado como as coisas se diferem hoje. Esses dias, estive em algumas mobilizações aqui em Portugal e um companheiro de luta, homem negro e periférico do Brasil, falava que empoderamento é coisa da burguesia e que por isso mesmo as feministas negras e periféricas estavam colocando as feministas burguesas contra o muro.
    E é muito comum ver homens de esquerda querendo “dar puxão de orelha” em feministas porque elas não “lutam primeiramente contra o Capital, mas sim pelo empoderamento”.
    E, nesse sentido, empoderamento é entendido como autoconsciência, que a Alexandra Kolontai levanta como preferível fronta à luta por direitos políticos do feminismo burguês.
    Esses dias publiquei um texto (https://feminismocomclasse.wordpress.com/2017/03/18/o-esvaziamento-politico-do-feminismo/) falando sobre o esvaziamento político do feminismo. Justamente porque o que via era uma ascensão fortíssima do feminismo liberal que coptou muito bem a temática do empoderamento, porém não passa daí. Não vai além. A luta deixa de ser política e passa a ser única e exclusivamente pessoal, individual.
    Ainda bato o pé por tudo que escrevi no meu texto, mesmo concordando plenamente com a Kolontai e, ao mesmo tempo, parecendo tão contrastante e oposita.
    Isso porque: acredito que o feminismo é uma luta política e não pode ser só sobre empoderamento. Entretanto, não pode se fazer política sem, antes, empoderar as mulheres. O micro para chegar ao macro (que tratei em O feminismo e a Luta de Classes: https://feminismocomclasse.wordpress.com/2017/03/16/o-feminismo-e-a-luta-de-classes/). Uma mulher que não está empoderada nunca será ativa politicamente. Mas uma mulher que entenda que o feminismo é puramente individual igualmente não o fará!!
    Obrigada por partilharem o texto tão importante! DEsculpem o enorme comentário! rs

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