Chacina em São Paulo mata 10 jovens

Essa noite, 4 de abril 2017, aconteceu mais uma chacina em São Paulo, mais uma vez jovens homens, negros em sua maioria, pobres e periféricos. Os Jovens estavam em bares em dois extremos de São Paulo, 07 deles estavam no Jaçanã, Zona Norte, e 03 deles estavam em Campo Limpo extremo Sul. O que liga os dois casos é o fato de que aconteceu no mesmo espaço de tempo, como se tivesse sido orquestrado, e com o mesmo modus operandi, um motoqueiro não identificado que se aproximou e abriu contra os jovens.

1709531.jpeg

Diante da Barbárie contra o povo negro, pobre e periférico, algumas considerações devem ser feitas:

 Outra vez o cenário de violência contra a população negra e periférica grita na nossa cara que vidas negras não importam e que podem ser eliminadas tendo isso como naturalizado e acompanhado de julgamentos como “só pode ser bandido”, ou “ O que estava fazendo no bar a esta hora?” Isso acontece por que a sociedade é racista, e enxerga todo negro como provável criminoso. E sim, o modus operandi da opressão é o mesmo, desqualificar as vitimas para dar razão ao opressor, nós mulheres estamos muito familiarizadas com este tipo de julgamento quando somos vitimas da opressão machista, não é mesmo?

A Política do Estado de criminalização da pobreza faz vitimas.

Só para ilustrar e quantificar o quadro da situação existe um genocídio de pessoas negras no Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade (53,3%) dos mortos por homicídios em 2010 no Brasil eram jovens, dos quais 76,6% são negros. Para os que duvidam do termo genocídio, é bom lembrar que, entre 2002 a 2010, foram registrados 272.422 assassinatos de negros. Mais do que em muitas guerras. E para fechar aqui a materialidade dos fatos, o número de negros mortos é 132,3% maior do que o de brancos.

dados-da-tragc3a9dia-do-genocidio-de-negros-jovens

Existe misoginia e machismo embutido na ação de genocídio da Juventude negra

Com este cenário e estes dados, pensemos agora nas mulheres que mais uma vez foram impedidas de exercer a maternidade de forma plena, tendo arrancado de si, pela violência contra a juventude periférica, seus filhos.  Quantas mães perderam seus filhos e filhas?

blogfem

Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos, adolescente negra foi morta dentro da escola, na quadra de educação física, cinco dias após esta ocorrência, Hosana Oliveira Seissa, 13 anos, foi morta por “tiro perdido” no mesmo bairro. No dia em que Maria Eduarda morreu, policiais foram filmados executando dois jovens que estavam rendidos e deitados no chão. E quem se lembra de Luana, Amarildo, Claudia e o dançarino DG?Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20 anos, Wesley Castro Rodrigues, de 25 anos, e os amigos Cleiton Corrêa de Souza, de 18 anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, de 16 anos, e Roberto de Souza Penha, de 16 anos, estavam em um carro que foi atingido por mais 100 tiros, alvejados pela policia militar, os jovens foram fuzilados… São muitos casos… Incontáveis.

A morte de jovens negros parecem algo que não seria uma pauta feminista, mas sim do movimento negro, porém, a defesa da vida dos homens negros é sim uma pauta feminista, explico por que, é necessário o entendimento de que discutir a maternidade de forma política significa tratar de todos os aspectos, tanto o direito da mulher de ser mãe e de vivenciar a maternidade plena, vendo seus filhos nascerem bem assistidos, desenvolverem-se em todas as fases da sua vida de forma saudável, e chegarem a vida adulta em segurança. As mães periféricas e pobres, não tem este direito garantido.

Para as mulheres da classe trabalhadora o direito a maternidade Plena não existe

download (1)

Para as mulheres Burguesas, as garantias à maternidade são compradas com o dinheiro da exploração da classe trabalhadora, os filhos da burguesia são assistidos desde a gravidez em excelentes hospitais e clinica, o nascimento se dá em luxuosos hospitais que mais parecem hotéis de luxo, as mães podem optar por retomar a vida profissional ou não, se retomarem a vida profissional deixar seus filhos e filhas em cuidado especializado, tanto contratando uma babá, ou deixando em escolas caras que chegam a custar cerca de 1700 a 2000 a mensalidade. Os filhos da burguesia são mantidos em locais seguros, como as ilhas construídas para manter a elite longe da realidade social, ilhas chamadas condomínios.

Estas garantias não são aplicadas, para as mulheres pobres a maternidade é usada como forma de oprimir. O Estado nunca deu garantias mínimas para que as mulheres pudessem exercer plenamente e humanamente sua experiência maternal. Não existem creches o suficiente para que as mulheres possam deixar seus filhos e filhas em segurança para retomar a vida profissional, não existe apoio, e ainda assim cobram dela uma educação perfeita que supere todas as dificuldades e leve a criação de um ser humano exemplar. Para que isto aconteça de forma que elas não se rebelem, a opressão vem naturalizar o sofrimento da maternidade.

Como a opressão caminha ao lado da maternidade?

Exigem da mulher 100% de dedicação aos filhos, ser mãe e pobre é renunciar a própria vida para dedicar se aos filhos.

  • Ser mãe e sair com as amigas? Não pode. É uma desnaturada mesmo.
  • Ser mãe e amar a si mesmo procurando formas de trazer bem estar físico e psicológico a si mesma?Não pode. Tem que pensar no filho, só no filho.
  • Ser mãe e solteira (mesmo que tenha sido covardemente abandonada pelo companheiro?), é puta.
  • Ser mãe e ter um novo relacionamento com outro homem? Se ele maltratar a criança de alguma forma, a mãe é culpada, quem mandou ir atrás de macho? (Muitas mulheres não tem um novo relacionamento com medo de que isso interfira negativamente na criação do filho (a) e ela seja responsabilizada).
  • Ser mãe e ter contatos para sexo casual? É puta.
  • Ser mãe e ter sonhos? Vixe! esquece seus sonhos, depois que torna – se mãe, os sonhos são para os filhos e não para si mesma.

Depois que a sociedade impõe estas condições à mulher e depois de toda renuncia que ela oferta para dedicar se a criação dos filhos, o ESTADO permite a ação genocida contra seus filhos, e as mulheres que deixaram suas vidas para trás e não tiveram realizações em si mesmas, e tem na vida dos filhos seu maior feito, perdem o que lhe confere “valor social”. Não que este “valor social” seja algo que devemos considerar, pelo contrário, devemos repudiar a opressão que a sociedade patriarcal impõe as mulheres, principalmente ás pobres, mas temos que caracterizar e admitir que é assim que elas sentem- se, como se tivessem perdido a própria vida, e convenhamos, perderam, toda uma vida de dedicação ao projeto “Criar o filho (a)”.

Nos do movimento feminista temos que tomar para nós como pauta junto ao movimento negro classista, a defesa da vida dos homens negros, tanto em repudio o racismo, quanto ao repudio ao machismo e misoginia embutidos na ação genocida contras estes homens, com total apoio do estado, que arma um lado e outro, tanto a policia, como criminosos. A conivência do Estado tira o direito ao futuro desses jovens negros da periferia ceifando suas próprias vidas. Pra eles, e para suas mães, o primeiro ato de resistência é sobreviver.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s