A Violência contra a mulher na região Nordeste do país Silenciada pelo Coronelismo: Caso Kariene – O Estupro, o Silêncio das mídias e judiciário.

Vivemos uma realidade em que 90% das mulheres que são vitimas de estupro não denunciam o crime, a pergunta que não se cala é: Por quê? Será que quem questiona o fato não sabe mesmo esta resposta? O exercício é fácil, colocar se no lugar da mulher estuprada e analisar os prós e contras de ir buscar justiça pela violação de seu corpo.

Sabemos que as delegacias são extremamente despreparadas para receber denuncias de crimes contra as mulheres, desde a agressão física até estupro, as mulheres sabem que ao recorrer à formalização da denuncia serão questionadas de forma a fazerem-nas participes da própria violência que sofreram:

– Por que estava neste lugar, neste horário e com esta roupa?

– Você resistiu?

– Deixou claro que não queria?

Estas são algumas das perguntas que são feitas por profissionais da área da segurança pública que violentam a mulher emocionalmente, fazendo parte do ciclo de violência contra a mulher vitima de estupro, violência esta misógina e hedionda.

Um exemplo claro deste tipo de conduta aconteceu diante dos nossos olhos quando veio à tona o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, em 21 de Maio. O delegado responsável pelo caso Alessandro Thiers, foi afastado pelo Ministério Público do Rio negligenciar o relato da adolescente violentada. O delegado adotou uma postura de questionamento da palavra da vítima e disposto a investigar seus antecedentes em vez de adotar essa conduta com os denunciados.

Outros motivos para subnotificação são: Medo de repetição da violência, quando o estuprador é um parente, amigo, namorado, alguém que a vitima tenha tido ou mantenha uma relação afetiva.

Um levantamento feito pela revista ISTOÉ mostra que apenas 3% dos casos de violência sexual contra as mulheres terminam em condenações. Ou seja, 97% dos casos de estupro no Brasil não resultam em condenação. A prisão de estupradores no Brasil é de até 10 anos, apesar de ser considerado um crime hediondo, a punição é extremamente pequena e irrelevante se levarmos em conta que o sistema prisional do Brasil não tem compromisso com a reeducação e recuperação do criminoso. As vitimas tem razão em temer passar pela mesma violência outra vez ou até ser vitima de feminicidio por vingança devido a denuncia.

Muitas mulheres decidem pela denuncia, ou pelo menos pela procura de um serviço de saúde quando o estupro resulta em gravidez, o desespero em saber – se grávida de uma situação de violência extremamente traumatizante as força a uma atitude que supera os medos.

Segundo o ginecologista Jefferson Drezett, coordenador do projeto “Bem Me Quer” do hospital Pérola Byington, na região central de São Paulo, referência no atendimento de mulheres e crianças vítimas de violência sexual. 5% a 6% das mulheres em idade fértil que foram estupradas e não usam métodos contraceptivos engravidam, doenças sexualmente transmissíveis atingem 32% das mulheres e o dano psicológico é comum para quase 100% das vítimas.

A violência contra a mulher no Brasil é extremamente naturalizada, o estupro tornou – se motivo de orgulho e ostentação, não é raro os estupradores filmarem o ato e divulgarem na internet, em alguns casos mostram o próprio rosto e deixam clara a autoria, como aconteceu no estupro da adolescente do Rio de Janeiro.

Importante que seja muito frisado que não existem monstros e nem homens vitimas de uma patologia no cenário do estupro, este comportamento, de ostentação da violência contra a mulher, revela uma sociedade criminosa e violenta contra a mulher. Que entende o corpo da mulher como se fosse feito para o homem usufruir.

Estupro no Nordeste do País é abafado pelo coronelismo, vitimas são ameaçadas.

Alguns casos ganham notoriedade na mídia sobre a violência contra as mulheres, mas normalmente, casos que geram grande comoção popular e que darão muita visibilidade não ao caso apenas, mas ao veiculo midiático que a publicou. Um exemplo destes casos aconteceu em 2015 quando o Brasil todo voltou seu olhar para o Nordeste em função dos crimes que aconteceram por lá, vamos relembrá-los:

Piauí – No dia 27 de maio, quatro adolescentes com idade entre 15 e 17 anos foram agredidas e estupradas por outros cinco jovens no município de Castelo do Piauí, a 180 km da capital Teresina.

Pernambuco – Maria Alice de Arruda Seabra, 19 anos, foi encontrada morta em um canavial na Região Metropolitana do Recife. Após cinco dias desaparecida, o corpo da jovem foi achado com a mão esquerda decepada e o rosto coberto por uma camisa. O assassino confesso era padrasto da vítima, que a criou desde os quatro anos de idade.

Paraíba – Caroline Teles Figueira, 31 anos, voltava da festa junina da creche do seu filho, ao lado da amiga Glória Silva, 42 anos. Elas estavam paradas dentro de um carro enquanto o bebê era amamentado. Dois homens em uma moto abordaram as vítimas – um deles entrou no automóvel e obrigou Glória a dirigir até a Mata da Usina Santa Tereza, no município de Goiana, já no estado de Pernambuco. Lá as mulheres foram despidas, espancadas e estupradas. Após os atos, um dos criminosos as atropelou e fugiu.

Ceará – No dia 1 de julho, na cidade de Capistrano, interior do Ceará, duas adolescentes foram estupradas. Luciana Alves de Brito, de 17 anos, foi agredida a pauladas e jogada em um poço, onde foi encontrada morta. A outra menina, de 16 anos, conseguiu fugir do local e chegou ao hospital da cidade ainda com as mãos amarradas e várias marcas de agressão. As vítimas tinham saído com um grupo de rapazes.

Estes casos ganharam muita notoriedade por causa da violência extrema que foi utilizada, e o final trágico para algumas mulheres que perderam a vida, mas em casos que as mulheres saem da situação da violência e denunciam o ocorrido à mídia ignora completamente, deixando apenas para as feministas e aliados o trabalho de não permitir que caísse no esquecimento, é o caso de Kariene, mais um caso a ser incluído na lista de crimes sexuais contra as mulheres no nordeste.

Rio Grande do Norte – O estupro cometido contra Kariene

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Um ano antes destes casos citados acima, 2014, aconteceu um crime em Assu (Assu é um município brasileiro no interior do estado do Rio Grande do Norte, situado na Região Nordeste do país) que vem sendo negligenciado pela justiça: Kariene Karla Avelino Soares foi vitima de estupro.

O crime foi denunciado por Kariene cerca de duas horas após o ocorrido, e a mesma afirma que além do homem que a submeteu ao estupro, o crime teve participação clara da esposa do mesmo, trata – se de um dentista chamado Jovane Dantas e sua esposa Andrea Dantas.

A morosidade com a situação denunciada por Kariene levou a jovem a sair do país, em seu facebook ela relata que o Homem que estuprou tem 19 armas legais em seu nome, alem de estar em liberdade possui armas e faz ameaças contra a vitima.

A investigação do caso constatou que houve estupro e indiciou tanto Jovane quanto  sua esposa, Andrea por estupro enquadrados no artigo 213 do codigo penal Brasileiro, contudo ambos permanecem em liberdade.

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Jovane Dantas é apontado por outras três vitimas, ele mantém uma campanha difamatória contra Kariene nas redes sociais onde a acusa de ser prostituta, e em outra versão diz ter tido um caso com ela, em liberdade, ele defende – se da acusação da jovem e a ameaça, assim como ameaça também as feministas que estão em apoio a ela, divulgando sua historia, já que em Assu, Jovane parece ser um coronel, do tipo que influencia a justiça e a mídia, não é a toa que ele é um dos principais patrocinador do único programa policial do município chamado “caderno de Ocorrências”.

Outro fato que nos deixa perplexas é saber que o caso de Kariene irá a julgamento e que o nome dos juízes que julgarão o caso tem o mesmo sobrenome do réu do caso de estupro, Suzana Paula de Araujo Dantas e Marivaldo Dantas de Araujo. No interior do nordeste a pratica de coronelismo ainda é vigente, não é incomum aquela região, parte de um território pertencer a uma família e outra parte a outra família, a questão dos sobrenomes iguais deve ser esclarecido, pois este julgamento merece completa imparcialidade como qualquer outro.

O depoimento de Kariene: “Fui Estuprada com consentimento da esposa do meu agressor”.

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Fui estuprada ha três anos por um dentista na minha cidade de ASSU/RN.

Eu ensinava inglês, aulas particulares, a esposa do dentista Jovane Dantas, seu nome é Andreia. Já ministrava as aulas a cerca de oito meses ou mais.

Andreia, repentinamente passou a me convidar para um banho de piscina que eu sempre recusava porque trabalhava bastante e quando chegava à noite queria ficar com meu filho.

No dia 28 de Abril de 2014 eu aceitei esse banho de piscina depois da aula. Tenho que lembrar que antes da aula começar ela tinha dito pra mim que tinha sido o aniversario do marido dela e ela iria contratar uma prostituta de presente pra ele, fiquei surpresa, contudo continuei minha aula.

Quando a aula terminou, Andreia insistia no convite, mesmo com o tempo chuvoso e chovia naquele momento. Acabei aceitando o convite mesmo assim.

Quando entramos na piscina ela me falou que eu tinha um sexappeal enorme ”que eu exalava sexo” Eu novamente achei aquilo muito sinistro, mas não sabia como sair daquela situação.

O marido dela apareceu do nada e pulou na piscina e perguntou sobre o que estávamos conversando e ela falou: “estava falando pra kari que ela tem o sexappeal enorme” então ele cheirou meu braço e disse ”SIM” fiquei muito constrangida depois ele voltou e tocou minha perna, chamei a Andrea pra perto, mas ela parecia está gostando da situação.

Pra quebrar o clima comecei a falar sobre trabalho quando ela me ofereceu o banheiro eu fui. Entendi como se ela quisesse ficar a sós com o marido. Quando voltei pra piscina ele se aproximou de mim falando sobre trabalho, me distraiu e Andrea saiu pelas minhas costas. Eu não tinha percebido e de repente ele disse ”Andrea disse que você gostaria de colocar silicone, mas por quê? Seus seios são tão lindos!” e então ele baixou a parte de cima do meu biquíni e me atacou e arrancou a parte de baixo e me penetrou.

Eu gritava por Andrea, mas ela não veio me ajudar, eu pedia pra ele parar, mas, ele me afogava e me estuprava! Depois de algum tempo eu já não tinha mais força pra me debater, eu só esperava que aquilo acabasse. Tudo que vinha a minha cabeça era sair viva e ver meu filho novamente.

“Ele me perguntou após o estupro se eu havia gostado”

Chegou a um ponto que meu choro não cessava então ele parou pegou a parte de baixo do meu biquine e me devolveu e me disse com a cara mais sínica do mundo ”você gostou?” Eu tremia e chorava eu só consegui dizer ”isso é errado”, eu temia por a minha vida.

Corri para o quarto onde eu ensinava Andrea, e lá estava ela… O quarto de frente para a piscina com uma janela de vidro, tive certeza naquele momento de que ela viu tudo.

Eu me tremendo e chorando com a voz falha disse:

”como você aceita isso?Eu confiava em você”

Ela me disse: “Nada vai mudar entre a gente, está tudo bem” ela disse isso com a expressão mais irônica do mundo. Eu já não tinha mais reação ela me puxou pra me dar um banho e eu por medo que me fizesse algo aceitamos.

Depois do banho pedi pra ir pra casa disse que iria chamar meu moto taxi de confiança, mas ela disse que iria me deixar em casa. Meu pai me ligou e disse”Onde você está? “Cuidado com esse povo” como se ele pressentisse algo, mas eu não podia dizer nada, pois ela estava do meu lado.

Ela foi me deixar em casa e seu marido já não estava mais no jardim.  Eu chorava em estado de choque. Depois ela me mandou uma mensagem no celular que dizia: ”Fique bem minha amiga eu gosto muito de você, você é uma pessoa que me faz muito bem e eu não quero perder isso”.

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Passei a noite em minha casa, pois sabia que meu pai tem o temperamento estourado e se dissesse a ele na noite ele teria ido lá e esse dentista possui um arsenal de armas em casa.  Por volta das duas horas da manhã liguei pro meu esposo que esta trabalhando na Inglaterra e ele me orientou a ir a policia, mas tive muito medo por serem pessoas influentes e perigosas.

Já se passaram três anos, desde então duas outras vítimas vieram à diante. Hoje ele responde em liberdade e eu vivo, na minha própria prisão, fora do meu país.

Estupro: A Barbárie Machista

Quando você acabar de ler esse texto, uma mulher terá sido estuprada em algum lugar do país. É esse o dado bárbaro divulgado pelo 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A realidade é que a Lei Maria da Penha tem pouco efeito prático. As políticas de proteção à mulher sofrem sucessivos cortes e as mulheres, principalmente as trabalhadoras ficam à mercê da violência machista que mata mulheres todos os dias.

Os altos índices de casos de estupro em nosso pais escancaram a barbárie machista, que para além dos agressores, que devem ser punidos com rigor, devemos vislumbrar que existe uma sociedade que cria estes homens que sentem se autorizados a tratar as mulheres como se fossem objetos sexuais a disposição deles.

Os casos de estupros que escandalizam a população não podem ser vistos como casos isolados, estamos a merce de um país em que a cada uma hora uma mulher é estuprada, um país em que um deputado como Bolsonaro faz apologia aberta ao estupro e fica impune. Crimes como este e assassinatos contra mulheres, negros e negras das periferias e LGBTs acontecem todos os dias pela mão do Estado, seja diretamente pela polícia, seja pela disseminação da ideologia da opressão e pela impunidade e descaso completo com o tema, a começar pela falta de investimentos em políticas públicas mínimas.

Nós, mulheres, aprendemos, desde pequenas, que somos propriedade de alguém. Primeiro, do pai que nos dá ordens e controla nossas vidas. Depois, de um marido que nos dita regras e tem o direito velado de nos punir com agressões psicológicas e físicas. Junto com isso, a mídia dissemina a ideia de que somos objetos de consumo masculino e impõe um padrão a ser seguido. E, assim, se constrói o mito da inferioridade da mulher.
O machismo é parte essencial da sociedade capitalista: o capitalismo aproveita-se das diferenças para a impor uma condição de inferioridade à mulher e superexplorá-la. O machismo tem que acabar, é isso só vai acontecer com o fim desta sociedade de classes pelas mãos de homens e mulheres trabalhadores. Enquanto isso, porém, é preciso continuar combatendo todos os dias e não permitir que situações de opressão, das mais banais até as mais hediondas como esta, sigam acontecendo e passem impunes.

 

Sites pesquisados

  1. 90% das mulheres estupradas não denunciam agressor

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-04-25/90-das-mulheres-estupradas-nao-denunciam-agressor-diz-especialista.html

  1. Por que o estupro continua impune no Brasil

http://istoe.com.br/por-que-o-estupro-continua-impune-no-brasil/

  1. Casos de estupro e assassinatos chocam o país

http://www.revistanordeste.com.br/noticia/brasil/barbarie+no+nordeste+casos+de+estupros+e+assassinatos+chocam+o+pais-11661

 

 

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