Dois pesos e duas medidas: A criminalização da pobreza.

A violência e preconceito de Classe por á parte das pessoas da classe trabalhadora veio à tona nestes últimos dias com dois episódios a respeito de jovens envolvidos com uso de drogas e crimes de menor periculosidade.

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Primeiro Caso – Andreas von Richthofen chegou à unidade de saúde escoltado por PMs após invadir imóvel na Zona Sul.”

 

Esta era a noticia que apareceu a respeito do jovem de classe alta, estudado, filho de uma família rica que acabou tragicamente quando a filha Suzane e os irmãos Cravinhos assassinaram seus pais.

A comoção por Andreas foi geral, todos entenderam de imediato que ele passou por um evento extremamente traumático e que o levou a procurar fuga da dor nas drogas. Andreas foi preso tentando pular o portão de uma casa, o que será que ele, sobre efeito de drogas ou abstinência iria fazer? Roubar para trocar o produto do roubo por mais drogas? Pode ser que sim, mas a toa ele não estava ali, pulando aquele portão. Ou será que estava? Será que ele faria mal a alguém? O beneficio da dúvida foi muito encontrado nas opiniões de internautas.

O caso se desenrola com muitas entrevistas na mídia, pessoas que conheciam e admiravam Andreas, falando de como ele era um rapaz querido etc.

Andreas foi pego pulando um portão de uma casa, isso configura invasão de propriedade privada, não? Será que Andreas também mereceria ser dominado por alguns moradores e levado para dentro de uma das casas onde seria tatuado na sua testa “Invasor de propriedade”?

Claro que não, NE?

Andreas é diferente, tem uma história de vida trágica, traumas profundos, uma vida interrompida por um crime brutal praticado pela própria irmã. Ele é inteligente, Andreas, que é doutor em química pela Universidade de São Paulo (USP),  é um “bom menino” de 29 anos de idade, “esta apenas desorientado”.

Ok, completo acordo com tudo isso, ele não merecia ser dominado, trancafiado, torturado e exposto. Ele não merecia ter uma marca na testa que o condenaria para sempre por algo que ele fez num momento de surto psiquiátrico devido ao uso de drogas. Quem merece?

Segundo Caso – A barbárie da Tatuagem na testa “Sou ladrão e vacilão”

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Na ultima semana um vídeo viralizou na internet, tratava se de um rapaz de apenas 17 anos, ele estava tendo sua testa tatuada por dois homens, as inscrições eram “Sou ladrão e vacilão”. O tio do adolescente relatou que o rapaz não roubou e nem tentou roubar a bicicleta: “Infelizmente, ele é usuário de drogas, estava alcoolizado, viu a porta aberta, entrou e parou na bicicleta. Quando a bicicleta caiu e ele foi pegar para levantar, o rapaz (vizinho da pousada) viu. Achou que ele estava roubando, chamou o tatuador e nessa já prendeu o moleque, perguntando se ele queria fazer uma tatuagem. Ele, meio alcoolizado e na inocência, falou para os caras que poderiam fazer a tatuagem” — conta o tio.

Segundo o julgamento popular na inquisição da Internet, o jovem de 17 anos apenas, periférico e que ninguém conhecia sua história, este merece todos os castigos físicos que lhe impuseram. O jovem que aparece nas imagens da sessão de tortura sendo tatuado por dois criminosos, está apático, obviamente sobre efeitos de drogas ou com sintomas de algum transtorno psiquiátrico. Ele não demonstra nenhuma resistência física e quando os criminosos dizem a ele “O que você quer tatuar” e forçam a resposta ele diz “Ladrão”.

Andreas foi preso pela policia e conduzido a um hospital onde foi constatado que ele esta com higiene precária e olhar vidrado. Foi conduzido a uma clinica de recuperação onde permanece sem previsão de alta. Lá passara pelo processo de desintoxicação e tentativa de restauração de seu equilíbrio.

O outro rapaz, ele sim que é um menino, tem apenas 17 anos, envolvido com drogas e acusado por dois criminosos, de ter TENTADO roubar uma bicicleta na região, trata-se da palavra de dois criminosos contra a de quem? Ninguém. Ninguém mais sabe deste suposto roubo. Não teve B.O, nada.

O que aconteceu foi que dois homens, Maycon Wesley Carvalho dos Reis, 27 anos, e o vizinho Ronildo Moreira de Araújo, 29 anos, supuseram que aquele adolescente havia tentando cometer um crime de roubo (Andreas cometeu um crime, invasão de domicilio), naquele momento de suposição, ambos resolveram que era correto sequestrar, manter em cárcere privado, torturar e expor um adolescente. Qual a diferença entre Andreas e o adolescente de 17 anos?

A esmagadora maioria das pessoas julgando o adolescente não sabia nada sobre sua vida, não sabiam e não deram ouvidos aos depoimentos de vizinhos que disseram que ele era muito bom e muito querido na vizinhança, ninguém deu ouvidos aos pais que disseram que ele estava desaparecido desde 31 de Maio e que estavam a sua procura, nada disso bastou para uma avaliação da situação.

Qual a diferença entre Andreas e o Adolescente de 17 anos?

Constituição Brasileira, Art. 5º “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

A diferença e a criminalização da pobreza. O que um jovem da classe alta faz sempre haverá justificativas, mas um jovem, filho da classe trabalhadora sempre será visto como bandido, daqueles que “Bandido bom é bandido morto”, contrário aos da classe alta que são apenas pessoas com problemas momentâneos, altamente justificáveis por qualquer motivo.

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Importante lembrar que a pobreza é fruto da existência de uma classe dominante e impiedosa de culpabilizar e banir a classe pobre de suas cidades. Nossos jovens, filhos da classe trabalhadora, estão vulneráveis a todo tipo de violência e figuram as cruéis estatísticas em que se aponta um verdadeiro genocídio da juventude periférica, e esta vulnerabilidade existe devido ao ordenamento e diretriz de uma economia na qual proporciona a divisão de classes e de raça.

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Na nossa sociedade a pobreza não obtêm direitos civis e sociais em uma determinada lógica de higienização racista, por isso, “bandido bom é bandido morto”, desde que não sejam os bandidos da elite, estes sempre existe a crença de que podem mudar e devem ser assistidos neste processo. Mas… os da classe trabalhadora, que morram. A classe trabalhadora reproduz o ódio da burguesia contra sua própria classe, são manipulados pela ideologia da classe dominante que usa a violência estatal e a mídia burguesa para prover esse acirramento e produto de um ódio sem procedentes sobre os pobres.

Feministas, convido as ao debate fraterno, principalmente todas que fizeram coro com esta atitude de ódio praticada contra um adolescente.

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Uma mãe desesperada em busca de um filho que tem problemas vinculados ao uso de drogas tais como álcool e crack. Vocês viram esta imagem antes de fazer coro sádico com os reacionários?

Muito- se fala no feminismo a respeito da maternidade, na nossa análise, até mesmo de uma forma romantizada que exalta o sofrimento materno como amor, contudo quando ocorrem casos como estes, as mulheres, parte delas mães, esquecem-se completamente da figura materna sofredora por trás de uma adolescente em conflito com a lei.

Outra reflexão que considero importante propor é que, um homem capaz de fazer o que fez com um adolescente sobre efeito de drogas e vulnerável, o que fariam diante de uma mulher com a mesma condição? O adolescente teve a testa tatuada e uma adolescente, o que eles fariam? Qual seria o castigo dela? Seria sexual? Vocês aprovariam?

Vale a pena relembrar um caso que aconteceu em 2013, quando um tatuador norte-americano de Dayton, Ohio, se vingou da namorada que o estaria traindo fazendo uma enorme tatuagem em suas costas com a imagem de fezes com moscas voando em volta, segundo o site “Very Weird News”.

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Homens convencidos de que estão acima da lei e que podem julgar, condenar e punir um adolescente, como fizeram, tem a mesma mentalidade para mulheres e nós feministas, que eu me lembre, somos contra castigos físicos para mulheres que cometem erros, ou seria justo uma mulher que trair um desses homens tem na testa tatuado “Puta”?

Os jovens pobres e periféricos não estão em situação de vulnerabilidade à toa.

Vamos relembrar que as mulheres são socialmente responsabilizadas pela educação dos filhos, ao mesmo tempo em que são chefes de família ou cooperam com a composição da renda que sustenta a família, trabalhando no mercado formal de empregos, permanecendo cerca de 12 horas fora de casa, entre horário trabalhado e deslocamento de casa indo e voltando, quando há a presença do genitor/pai, ele também cumpre a mesma jornada, diferenciando se da mulher por que ela acumula os cuidados com a casa e educação dos filhos.

A ausência de apoio de serviços públicos para garantir o desenvolvimento sadio corpo e mente dos filhos da classe trabalhadora são ausentes e quando existem não cobrem a todos os que precisam destes serviços. Não há vagas em creches, mulheres periféricas relatam que esperaram até um ano ou mais para conseguir uma vaga, as mulheres que não podem esperar retiram de seu salário para bancar algo que é obrigação do governo e dos capitalistas.

Com a ausência materna e a ausência de serviços públicos, muitas crianças são criadas sem acompanhamento, muitas acompanhadas por outra criança, e encaminharem se para um mundo marginal não parece tão distante quando observamos esta situação.

Os adolescentes em conflitos com a lei tem MÃES.

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“Meu filho não é um animal”

As mães perdem seus filhos, batalham para dar o material e não conseguem fazer o acompanhamento afetivo e corretivo da infância. E quando enfim estão em conflito com a lei, elas são chamadas a responsabilidade e julgadas por sua “maternidade imperfeita”.

Imagine-se, você mãe, ao encontrar seu filho saber que ele foi torturado e marcado para sempre?

O adolescente revelou que teve o cabelo cortado e teve os pés e as mãos amarrados por Ronildo e Maycon. “Eu comecei a puxar o cabelo para frente para tentar esconder e eles então cortaram meu cabelo.”

As opressões de classe e todas as demais se entrelaçam para manter a classe trabalhadora estagnada no mesmo lugar social e econômico, a estratégia mais eficaz da burguesia é fazer a gente pensar que existe uma divisão de classe entre os pobres e os miseráveis, mas não há, todos somos vitimas das opressões em maior ou menor grau.

Vivemos em uma sociedade de classes que cria a pobreza, cria a marginalidade, cria os miseráveis desejosos da vida que os ricos tem, e acredite, nenhum rico chegou a esta escala social trabalhando, chegou explorando a classe trabalhadora. Certeza.

O mundo das drogas esta como caminho aberto a nossos jovens, e quando isso se abate sobre nós, a resposta do governo é a perseguição aos usuários e a batalha contra o narcotráfico, os alicerces da política proibicionista do Estado brasileiro. Com esta direção de “combate” os grandes empresários do tráfico mantém lavando os lucros do comércio ilegal das drogas no sistema financeiro internacional, enquanto o pequeno traficante, o polo varejista, é brutalmente reprimido e a classe trabalhadora é sem duvida o alvo mais atingido por esta guerra, pois fica refém da luta entre as facções do tráfico, milícias e Polícia.

Um lembrete importante é que a legislação brasileira, alterada no governo do PT, ao deixar a diferenciação entre tráfico e consumo ao arbítrio da Justiça e da PM, aprofunda essa realidade. Nas interpretações mais comuns das autoridades, jovens de classe média com cem gramas de maconha são consumidores, ao mesmo tempo em que jovens pobres e negros com a mesma quantidade de drogas são traficantes, portanto, criminosos. Rafael Braga está ai e não nos deixa esquecer que de fato a criminalização é da pobreza.

 

O que nós Feministas Marxistas defendemos como solução imediata?

  1. Defendemos, além de descriminalizar o uso e o comércio das drogas ilícitas, a legalização de todas as drogas, colocando a grande produção e a comercialização sob o controle do Estado.
  2. Estender o regime estatal de produção e distribuição às demais drogas hoje legalizadas, como os fármacos, o tabaco e o álcool, impedindo os instrumentos de incitação ao consumo, principalmente os publicitários.
  3. Que os lucros da venda das substâncias psicoativas devem ser colocados a serviço dos interesses da população, como investimentos em Saúde Pública, programas de tratamento de dependentes e campanhas contra o consumo compulsivo.
  4. Criação de vagas imediatas em creches que acolha todas as crianças em idade deste cuidado enquanto a mãe trabalhadora esta em seu labor diário.
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