Mães abusivas, você tem uma?

Foram mais de 3 décadas vivendo e tentando ser a filha que ela poderia amar, mas eu teria que abrir mão de muitas coisas para ser esta filha, eu teria que abrir mão das minhas crenças, da minha religião, da minha convicção política, de pessoas que ela desaprovasse, eu teria que obedecer, temer perde-la, temer ser excluída e por isso me submeter. Eu não seria quem sou, seria quem ela queria que eu fosse, e eu optei por ser eu mesma.

Minha experiência com uma mãe narcisista.

PAIS-ABUSADORES

Eu não entendia qual era o motivo, mas eu deveria deixar de tratar bem o meu pai para provar que a amava; Era difícil por que ele me tratava bem, ele chegava a noite cansado com macacão de mecânico cheio de graxa, tomava um banho e jantava, jogávamos dominó, damas, ele fazia “serra, serra, serrador…” Coisas que me fazem ter boas lembranças dele… Ela me chamava de “puxa saco do seu pai”.

Ela fazia a gente escrever cartas para nosso pai, cobrando ele de situações que nós nem sabíamos direito do que se tratava. Ele fazia muitas coisas erradas, mas eu não entendia as coisas erradas que ele fazia, entendia apenas que era muito errado, ela tinha muita mágoa dele.

Ele começou a ficar cada vez menos em casa “ele gosta mais do PT do que de vocês”. Depois de um tempo eu esperava ele chegar e ele não viria mais, senão tão tarde que eu não aguentava e caia no sono.

Dormia com ela, e ela me dizia quase toda noite que eu era muito desobediente e que se eu não a obedecesse ela ia embora e levaria apenas os meus irmãos. Eu ficava aterrorizada. Ela me dizia que eu era muito parecida com meu pai, como se parecer com ele fosse algo horrível, e cada vez mais eu me afastava do meu pai, por que eu não queria parecer ele, e eu queria que ela me aceitasse.

Durante toda infância e adolescência ela me espancava, ela colhia de um terreno perto de casa uma vara, de preferência com pontas, sabe quando você arranca as folhas e fica uma ponta? Então, ela queria que doesse muito. Tantas vezes tive que usar roupas de manga cumprida para esconder os vergões. Ela não batia nos meus irmãos. Eu me sentia envergonhada, triste, e quanto mais triste e envergonhada mais revoltada e rebelde.

Engordei muito no período da adolescência, sempre fui gorda, mas na adolescência eu me odiava, e entrei em depressão quando ela me disse que tinha vergonha de ter uma filha gorda. Ela dizia a outras pessoas, sempre perto de mim que meu irmão tinha um “corpinho” lindo, ele fazia natação e se cuidava. Eu me sentia feia, eu construía uma auto ódio ainda maior por que ela não me achava bonita.

Ela fazia intriga entre eu e meu irmão do meio, estimulava a competição entre nós, especialmente quando ela dizia que preferia ele a mim. Isso doía muito e eu vivia tentando ser alguém que pelo menos ela amasse um pouco, já que eu não era a preferida.

Ela nunca ficava do meu lado quando eu e meu irmão brigávamos, ela nunca fez a gente entender que não deveríamos, ela dava razão a ele, mesmo que ele tivesse me espancado, e ele me batia muito, ele era autoritário comigo, me tratava como se eu lhe devesse obediência, e quando eu não obedecia, apanhava. Ela achava que estava tudo certo.

O dois filhos homens eram filhos de ouro e eu não era nada, era a filha problemática, a filha com personalidade difícil, a filha desnaturada…

Ela arrumava brigas, destas brigas ela fazia um verdadeiro inferno, contava o lado dela da história onde ela era sempre vitima desta filha desgraçada e jogava a família toda contra mim, numa tentativa de me fazer submissa e submetida a ela, já que todos achavam que eu estava errada e ela certa. Os mecanismos de opressão são muito parecidos, não é? Colocar todo mundo contra você para que você seja a louca da história e ninguém acredite em você.

Tive que sair de casa cedo para me livrar da perseguição dela… Ela tentava deliberadamente me enlouquecer, era o tempo todo jogando a família toda contra mim só por que eu não era a filha obediente que aceitava tudo que ela falava.  Cada vez fui me isolando mais da família, deixando para lá, deixando de me sentir parte daquilo. O grande triunfo dela era que ela poderia manipular a família e me excluir, então eu fui me desligando aos poucos para não sofrer mais com esta exclusão e pessoas que eu amava, mas que aceitava a manipulação dela, foram deixando de ser amadas, foram esquecidas, guardadas em lugares obscuros do meu cérebro para não tocarem com lembranças meu coração.

Ela tinha razão quanto a meu pai, eu era e sou muito parecida com ele. Me orgulho disso. A militância dele na esquerda deixou uma herança para mim. E quanto mais parecida com meu pai, mais ela me desprezava. Minha militância na esquerda era vista com deboche, minhas ideias também, nada em mim era bom. Eu era a filha muito inteligente que não sabia usar a minha inteligência, para ela, saber usar a inteligência era ganhar dinheiro.

Eu me formei em 2009. Paguei meu curso sozinha. Foram 4 anos de muita dedicação. Eu tive que implorar para ela ir na minha formatura.

Na época do meu casamento, eu estava feliz, ela arrumou uma briga comigo, nem me lembro o motivo, mas sempre eram coisas pequenas que ela transformava em uma verdadeira tempestade. Ela jogou todo mundo contra mim, disse que não ia no meu casamento, e disse que meus irmãos também não iriam, ela conseguiu transformar meu momento num pesadelo e me fazer pedir, implorar para ela ir. Ela foi e lá, mesmo ouvindo ser chamada para tirar fotos, não foi, quando fui questioná-la por que não foi, ela se fez de ofendida e retirou-se levando meus irmãos e cunhadas, sobrinhos, junto com ela. Ela estragou a minha festa.

Ela nunca aprovava meus namorados, e toda vez que eu dizia que estava me relacionando com alguém, ela perguntava “é preto de novo”? Ela colocava apelidos nos meus namorados, ela desqualificava-os mesmo antes deles mostrarem-se machistas ou abusivos.

Ela falava mal de mim para minhas amigas, durante a visita de uma amiga a minha casa, estando minha mãe presente também, ela chamou minha amiga de canto, nas minhas costas e disse que “Ela é louca, ela passou da hora de nascer e faltou oxigênio no cérebro dela”, eu descobri isso da pior forma, durante uma discussão com a amiga, ela me disse “até sua mãe fala de você”, como se minha mãe falar fosse atestado de verdade, atestado de que eu era realmente louca. Eu fiquei profundamente magoada, com minha mãe e com a amiga.

Depois que minha mãe descobriu que eu estava fazendo tratamento psiquiátrico, qualquer discussão comigo ela me chamava de louca e perguntava se eu tinha tomados meus remédios.

Estive doente e internada 3 vezes por causa de uma pancreatite, minha mãe foi me visitar apenas uma vez. Dependi muito mais das minhas amigas do que da minha família para me recuperar, exceto pelo meu irmão mais velho e meu sobrinho mais velho, um tio que foi me visitar, apenas. Nesta experiência eu fui entendendo cada vez mais que, eu não só não era importante para aquela família, como não deveria contar com eles. Duas ou mais vezes, ao receber alta, paguei taxi e sai sozinha do hospital para casa. Cada vez mais sozinha, fui formando laços com outras pessoas, outras mulheres, amigas que são hoje a família que eu escolhi e que me escolheu, isso me fortaleceu muito. Seu fosse tão desgraçada assim, por que seria amada por outras pessoas?

Minha mãe tinha acesso a minha casa, ela tinha minhas chaves, entrava e saia quando queria, minha casa era como se fosse um cômodo da casa dela. Dei as chaves a ela quando fiquei doente, para ela me ajudar e depois me sentia péssima em tirar dela. Quando iam pessoas na minha casa, eu tinha que pedir para ela não ir lá, por que as vezes ela aparecia do nada, me sentia podada da minha intimidade e liberdade, um dia ela me perguntou: “Por que eu não posso ir lá? Vocês vão fazer sexo?” Foi um dia que eu recebi umas amigas e meu ex-namorado estava lá, minha cara caiu no chão como a pergunta dela. Ela me constrangia com as perguntas dela.

Quando eu recebia amigas a noite e a gente, mesmo com música ambiente, emitia sons de risada, ela ligava no meu celular berrando “Até que horas vai esta putaria ai”, um bando de amigas se divertindo era uma “putaria”. Ela sempre usava palavras de baixo calão comigo, mandava eu me foder e coisas do tipo, palavras que ela nunca usaria com meus irmãos.

Ela ouvia atrás das portas da minha casa, atrás do muro e depois me perguntava sobre assuntos íntimos e particulares que eu estava conversando com alguma amiga ou namorado, eu ficava sem saber o que fazer, eram assuntos que eu não queria comentar…

Quanto mais idosa ela foi ficando pior pra mim, por que ela agora era além de mãe, uma senhora idosa. Quem iria dar razão a uma filha que se desentende com a mãe idosa? Eu fazia de tudo para não ter desentendimento, eu ouvia coisa e deixava passar, eu passava por cima, como passei por cima da situação em que ela disse a minha amiga que eu era louca por que passei da hora de nascer e faltou oxigênio no meu cérebro, cheguei a perguntar a ela se era havia dito isso e ela inverteu a situação dizendo que nunca havia dito aquilo, que está amiga queria jogar a gente uma contra a outra, que era um absurdo, que ela era louca… Mas, ela disse sim, eu nunca havia contado para amiga que nasci pós termo, só ela poderia ter dito isso.

Há alguns anos estava traçando planos para mudar me da minha casa, aliás casa que eu adoro, para sair do lado da casa dela, somos vizinhas de muro, queria apenas sair dali, sem brigas, sem ela nem saber por que, mas um dia estava desabafando com uma amiga no telefone, dizia a ela que queria sair dali por que não aguentava mais minha mãe me tratando com se eu fosse uma criança, reclamei que ela não me respeitava, que ela falava palavras de baixo calão para mim e eu não aguentava mais isso. Minha mãe entrou no quintal pé por pé e ouviu atrás da porta da conversa e depois me confrontou.

Naquele momento ela admitiu que estava errada, que realmente me tratava como se fosse criança e que ia mudar isso. Ela mudou durante um tempo, ficamos bem, mas como sempre nunca durava muito, o ciclo de lua de mel e tensões não acontece apenas com entre casais, mas dentro de qualquer relação afetiva.

O Estopim da última discussão foi ela mandar eu me foder, sem nenhum motivo para isso. Eu havia a chamado do meu quintal para saber alguma coisa, como ela não respondeu, achei que havia saído e fui para dentro de casa, sentei e comecei a atender uma cliente. Ela aparece no portão e grita “Você estava me chamando?” Respondi “sim, mas a senhora não respondeu…” Ela disse “Fala logo o que você quer, senão eu vou embora”. Eu ali entre a cliente e ela (e ela sabe que eu atendo clientes em casa por videoconferência), sem saber quem responder disse “Vai mãe, depois te falo”, ela disse “ah vai se foder”.

Terminei de atender a cliente e fui na casa dela e perguntei “Mãe, por que senhora mandou eu me foder?”. Ela imediatamente armou-se um escândalo, dizendo que falou por falar. Mas não é verdade, por que se fosse um hábito dela, ela falaria isso para meus irmãos e ela não fala. Eu disse a ela que estava cansada disso, que não queria ser tratada daquele jeito, ela gargalhou na minha cara, e então eu disse que não dava mais, que a gente não poderia ser amigas. Ela começou a me ofender de todas formas, disse que eu era uma filha maldita, uma desgraçada, que era para eu esquecer que ela era minha mãe, tudo isso para não reconhecer que estava errada. Provavelmente ela nunca vai contar para meus irmãos como ela me trata, ela deve apenas dizer que ela cuida de mim e eu brigo com ela sem motivo. Logo eu sou mesmo uma filha desnaturada. Mas, também não me importa mais a opinião dos meus irmãos sobre esta situação. O que me importa é que me libertei.

A libertação do ciclo do relacionamento abusivo só acontece quando a gente se fortalece e para ter força é preciso reconhecer-se em um relacionamento tóxico, este é o primeiro passo. Quando este relacionamento tóxico é com a figura materna, a libertação pode ser a mais demorada, afinal, toda santificação que a sociedade faz do papel da mãe nos leva a crer que, somos nós mesmas sempre erradas e precisamos melhorar para sermos amadas, e cada migalha de amor que cai sobre nosso chão, sentimos nos compensadas e por isso passamos muito tempo tentando e tentando… começa ai nossa saga para lutar diariamente para sermos amadas, a naturalização desta situação nos faz levar este aprendizado para os relacionamentos afetivos vindouros, onde somos massacradas por nossos companheiros, mas ainda assim nos sentimos culpadas e obrigadas a seguir tentando conquistar o amor e sermos amadas. O machismo cria a santificação da mãe, o machismo apoia a continuidade disso nas relações entre homens e mulheres.

 

 

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2 respostas em “Mães abusivas, você tem uma?

  1. Depois de ler isso só consigo confirmar o que acontece dentro da minha casa!!! CARAMBA, você escreveu muito bem o que muitas passam, incluindo a mim.

  2. Pingback: Mães abusivas, você tem uma? – Cosmopolitan Girl

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