Sobre Feminismo Sem Demagogia

O blog Feminismo Sem Demagogia - Original pertence a vertente do Feminismo Marxista. Na luta por um feminismo de Gênero, Raça e Classe.

O Dia das Mulheres

 

Introdução

NÓS VAMOS COM ÃNGELA DAVIS E ALEXANDRA KOLLONTAI, ATÉ A REVOLUÇÃO

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Por: Verinha Kollontai

Vamos postar este texto da Alexandra Kollontai hoje, por que como praticamente tudo que ela escreveu há tantos anos, é de uma atualidade espantosa e nos suscita o questionamento de que tantos anos depois continuamos no mesmo compasso, atrasados e misturadas a movimentos que pretendem reformas pontuais por dentro do sistema e que de forma alguma sanarão em sua completude a questão da opressão da mulher.

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Os recentes ataques que a classe trabalhadora vem sofrendo atingem de cheio a mulher, parte mais frágil da classe, que incorpora as filas do exercito de reserva, fora que os ataques somam se a retiradas de direitos conquistados pelas mulheres, como aposentadoria com idade inferior a do homem devido a dupla jornada de trabalho, no mercado de trabalho e em casa.

A retirada de direitos deixa claro que nada que conquistamos dentro do sistema capitalista será nosso de forma definitiva. Não por isso deixaremos de reivindicar direitos humanos para as mulheres nem deixaremos de lutar contra o machismo esperando pela revolução, mas temos que atrelar nossa luta a construção do processo revolucionário, rumo a derrubada do Capitalismo e para implantação de um novo modelo de vida numa sociedade socialista.

Por isso, não vamos hoje a Sé, nos juntarmos as mulheres que decidiram por uma luta reformista e com apoio a candidatura de Lula para 2018. Não vamos sair em defesa de reformas e de uma solução magica por dentro do sistema se sabemos que este sistema tem que ser destruído como unica opção para nossa libertaçao. Vamos ao Masp, chamando uma Greve Internacional de mulheres, em coro com ANGELA DAVIS (1) que lançou com outras intelectuais um chamado/ para uma ação revolucionária, para que a manifestação contra TRUMP, que foi a maior manifestação das mulheres que consta na nossa historia, seja arquivada como uma bela manifestação, mas que ela seja o começo de um REVOLUÇÃO.

 

O Dia da Mulher

Alexandra Kollontai

O que é o dia da Mulher? É realmente necessário? Não seria uma concessão às mulheres da classe burguesa, às feministas e sufragistas¹? Não seria nocivo à unidade do movimento operário? Estas questões ainda se escutam na Rússia, embora já não no exterior. A própria vida já deu uma resposta clara e eloquente a tais perguntas.

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O Dia da Mulher é um elo na longa e sólida cadeia da mulher no movimento operário. O exército organizado de mulheres trabalhadoras cresce cada dia. Há vinte anos, as organizações operárias não tinham mais do que grupos dispersos de mulheres nas bases dos partidos operários… Agora os sindicatos ingleses têm mais de 292.000 mulheres sindicalizadas; na Alemanha são em torno de 200.000 sindicalizadas e 150.000 no partido operário, na Áustria há 47.000 nos sindicatos e 20.000 no partido. Em toda a parte, em Itália, na Hungria, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e na Suíça, as mulheres da classe operária estão se organizando. O exército de mulheres socialistas tem perto de um milhão de membros. Uma força poderosa! Uma força com a qual os poderes do mundo devem lidar quando se trata do custo da vida, a segurança da maternidade, o trabalho infantil ou a legislação para proteger as mulheres trabalhadoras.

Houve um tempo em que os homens trabalhadores pensavam que deveriam carregar sobre os seus ombros o peso da luta contra o capital, pensavam que eles sozinhos deveriam enfrentar o “velho mundo” sem o apoio das suas companheiras. Porém, como as mulheres da classe trabalhadora entrando nas fileiras daqueles que vendem o seu trabalho em troca de um salário, forçadas a entrar no mercado de trabalho por necessidade, porque o seu marido ou pai estava desempregado, os trabalhadores começaram a reparar que deixar atrás as mulheres nas fileiras dos “não-conscientes de classe” era prejudicar a sua causa e evitar que avançassem. Que consciência de classe possui uma mulher que senta no fogão, que não tem direitos na sociedade, no Estado ou na família? Ela não tem ideias próprias! Todo o faz é segundo ordena o seu pai ou marido…²

O atraso e a falta de direitos sofridos pelas mulheres, a sua dependência e indiferença não são benéficos para a classe trabalhadora, e de fato são um mal direto para a luta operária. Mas, como entrará a mulher nesta luta, como acordará?

A social-democracia estrangeira não vai encontrar solução correta imediatamente. As organizações operárias estavam abertas às mulheres, mas só umas poucas entravam. Por quê? Porque a classe trabalhadora, ao começo, não vai dar por si que a mulher trabalhadora é o membro mais privado, tanto legal quanto socialmente, da classe operária, que ela foi espancada, intimidada, encurralada ao longo dos séculos, e que para estimular a sua mente e o seu coração necessita uma aproximação especial, palavras que ela, como mulher, entenda. Os trabalhadores não se vão dar conta imediatamente de que neste mundo de falta de direitos e de exploração, a mulher está oprimida não só como trabalhadora, mas também como mãe, mulher. Porém, quando membros do partido socialista operário entenderam isto, fizeram sua a luta pela defesa das trabalhadoras como assalariadas, como mães e como mulheres.

Os socialistas em cada país começam a demandar uma proteção especial para o trabalho das mulheres, segurança para as mães e os seus filhos, direitos políticos para as mulheres e a defesa dos seus interesses.

Quanto mais claramente o partido operário percebia esta dicotomia mulher/trabalhadora, mais ansiosamente as mulheres se uniam ao partido, mais apreciavam o rol do partido como o seu verdadeiro defensor e mais decididamente sentiam que a classe trabalhadora também lutava pelas suas necessidades. As mulheres trabalhadoras, organizadas e conscientes, muito fizeram para elucidar este objetivo. Agora, o peso do trabalho para atrair as trabalhadoras ao movimento socialista reside nas mesmas trabalhadoras. Os partidos em cada país têm os seus comitês de mulheres, com os seus secretariados para a mulher. Estes comitês de mulheres trabalham na ainda grande população de mulheres não conscientes politicamente, levantando a consciência das trabalhadoras e organizando-as. Também examinam as demandas e questões que afetam mais diretamente à mulher: proteção e provisão para as mães grávidas ou com filhos, legislação do trabalho feminimo, campanha contra a prostituição e o trabalho infantil, a demanda de direitos políticos para as mulheres, a campanha contra o aumento do custo da vida…

Assim, como membros do partido, as mulheres trabalhadoras lutam pela causa comum da classe, enquanto ao mesmo tempo delineiam e põem em questão aquelas necessidades e as suas demandas que lhes dizem respeito mais diretamente como mulheres, como donas de casa e como mães. O partido apoia estas demandas e luta por elas. Estas necessidades das mulheres trabalhadoras são parte da causa dos trabalhadores como classe.

No dia da mulher as mulheres organizadas manifestam-se contra a sua falta de direitos. Mas alguns dirão, por que esta separação das lutas das mulheres? Por que há um dia da mulher, panfletos especiais para trabalhadoras, conferências e comício? Não é, enfim, uma concessão às feministas e sufragistas burguesas? Só aqueles que não compreendem a diferença radical entre o movimento das mulheres socialistas e as sufragistas burguesas podem pensar desta maneira.

Qual o objetivo das feministas burguesas? Conseguir os mesmos avanços, o mesmo poder, os mesmo direitos na sociedade capitalista que possuem agora os seus maridos, pais e irmãos. Qual o objetivo das operárias socialistas? Abolir todo o tipo de privilégios que derivem do nascimento ou da riqueza. À mulher operária lhe é indiferente se o seu patrão é um homem ou uma mulher.

As feministas burguesas demandam a igualdade de direitos sempre e em qualquer lugar. As mulheres trabalhadoras respondem: demandamos direitos para todos os cidadãos, homens e mulheres, mas nós não só somos mulheres e trabalhadoras, também somos mães. E como mães, como mulheres que teremos filhos no futuro, demandamos uma atenção especial do governo, proteção especial do Estado e da sociedade.

As feministas burguesas estão lutando para conseguir direitos políticos: também aqui os nossos caminhos se separam. Para as mulheres burguesas, os direitos políticos são simplesmente um meio para conseguir os seus objetivos mais comodamente e com mais segurança neste mundo baseado na exploração dos trabalhadores. Para as mulheres operárias, os direitos políticos são um passo no caminho empedrado e difícil que leva ao desejado reino do trabalho.

Os caminhos seguidos pelas mulheres trabalhadoras e as sufragistas burguesas separaram-se há tempo. Há uma grande diferença entre os seus objetivos. Há também uma grande contradição entre os interesses de uma mulher operária e as donas proprietárias, entre a criada e a senhora… portanto, os trabalhadores não devem temer que haja um dia separado e assinalado como o Dia da Mulher, nem que haja conferências especiais e panfletos ou imprensa especial para as mulheres.

Cada distinção especial para as mulheres no trabalho de uma organização operária é uma forma de elevar a consciência das trabalhadoras e aproximá-las das fileiras de aqueles que estão a lutar por um futuro melhor. O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a auto-consciência da mulher trabalhadora estão servindo à causa, não da divisão, mas da união da classe trabalhadora.

Deixe que um sentimento alegra de servir à causa comum da classe trabalhadora e de lutar simultaneamente pela emancipação feminina inspire os trabalhadores a unirem-se à celebração do Dia da Mulher.

 

Citações:

  1. Beyond Lean-In: For a Feminism of the 99% and a Militant International Strike on March 8.

<http://www.revistaforum.com.br/2017/02/07/angela-davis-e-nancy-fraser-convocam-mulheres-para-uma-greve-geral-no-dia-8-de-marco/&gt;

Notas:

1.O movimento de mulheres socialistas da época procurava se diferenciar dos movimentos feministas e sufragistas de então por estes terem uma direção e política de caráter majoritariamente burguês ou pequeno burguês. Porém, como o texto deixa claro, as socialistas não negligenciavam a causa do sufrágio feminino ou outras causas específicas das mulheres.

2. Neste texto Alexandra Kollontai levanta a questão da formação de consciência de classe da mulher que recém adentrou no trabalho assalariado, e que antes estava confinada ao trabalho doméstico, que Kollontai considerava embrutecedor.

UM ATAQUE A APOSENTARIA DA CATEGORIA QUE MAIS TEM MULHERES EM SUA CONSTITUIÇÃO

 

Aposentadoria especial dos professores será extinta. Muitas pessoas podem pensar “ah mas por que eles tem aposentadoria especial?” Pode- se de forma equivocada, acreditar que trata-se de um privilégio, mas não é nada disso. A aposentadoria especial diz respeito a exposição destes profissionais a agentes nocivos a sua saúde.

Basta um Google rápido para descobrir que a saúde mental dos professores é um assunto muito comentado, e não é a toa, O estresse é o responsável pelo exagerado número de professores que se afastam da sala de aula, por falta de tempo para planejamento e excesso em sala de aula, momentos de lazer, pela falta de valorização profissional, pela ausência de apoio da família, e até mesmo dos alunos.

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Transtornos mentais e comportamentais foram as principais causas de afastamento por doença dos professores da rede municipal de São Paulo no ano passado. Foram 4,9 mil afastamentos para uma categoria com 55 mil profissionais, o que equivale a quase 10% dos trabalhadores.

Os dados são de um levantamento que está sendo feito pelo Departamento de Saúde do Servidor (DSS) da Secretaria Municipal de Gestão e Desburocratização. O estudo aponta o crescimento de problemas psiquiátricos entre os professores. Em 1999, esses transtornos eram responsáveis por cerca de 16% dos afastamentos. Dez anos depois, a porcentagem subiu para 30% – de um universo aproximado de 16 mil afastados. (1)

O noticiário é cheio de matérias sobre salas abarrotadas de alunos, 30 a 40 alunos em salas onde o certo seria 20 alunos, no máximo. O professor é explorado, pois oferece suas aulas a um valor que comportaria uma sala de 20 alunos, mas assume 30 a 40, beneficiando o Estado ou escolas particulares populares, o professor realiza um trabalho não pago, ou seja, a área da educação extraí  também mais valia destes profissionais.

Agora, somemos isso ao fato de que a maioria do contingente de professores é feminino e temos uma bomba, pois a dupla jornada de trabalho está ali massacrando as trabalhadoras que além das salas lotadas, do estresse, do abandono, salários defasados, exploração, ainda arcam com a responsabilidade dos serviços do lar e cuidado com a família.

Apoiar a luta dos professores é apoiar as mulheres na luta pelos seus direitos e reconhecimento de que dupla jornada e exploração, somada a fatores estressantes da profissão mais do que justificam uma aposentadoria especial. Acabar com a exploração e duplas jornadas ninguém dá um pio a respeito, mas aprofundar o ataque as mulheres trabalhadoras, sempre esta em pauta para estes governantes corruptos que não tem o menor problema em atacar trabalhadores para salvar os lucros dos burgueses.

A postura dos governos é de intransigência e total descaso com as reivindicações da educação pública.É preciso garantir todo apoio e solidariedade aos professores de todo o país! Pela unificação das greves e pela realização de uma Greve Geral da Educação!
Pelo atendimento das reivindicações da categoria!

1 – Transtorno mental afeta mais professores – Problema cresce na rede municipal de São Paulo e já atinge 10% dos docentes. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,transtorno-mental-afeta-mais-professores-imp-,579869.

 

Nossos terreiros também são quilombos

Por: Cássia Clovié*, de terreiro.

No mês de novembro é lembrada a morte de Zumbi dos Palmares, que ao lado de sua companheira Dandara construiu e liderou o maior Quilombo já existente no Brasil Colônia, o Quilombo dos Palmares, que chegou a abrigar mais de vinte mil pessoas, entre negras/os escravizadas/os, indígenas e brancas/os pobres, se tornando o local mais significativo da resistência negra. A morte de Zumbi é homenageada no Dia Nacional da Consciência Negra, uma data muito importante para o movimento negro, resultante de muita luta.

Para nós, essa data precisa ser reconhecida não só para comemorar, mas para resgatar nossa história e lembrar que ainda temos muito por fazer, todos os dias, não só no dia 20 de movembro. Somos o legado de Dandara e Zumbi, resistimos e lutamos diariamente pelo direito de viver, contra o genocídio do nosso povo nas periferias, contra o mito da democracia racial, por políticas afirmativas. Mas, também resistimos e lutamos com nossa identidade e ancestralidade. Esta, por vezes esquecida, precisa ser exaltada também. Nossas religiões também são expressão máxima disso. Precisamos falar do candomblé e de nossos terreiros.

O candomblé se construiu da necessidade que as diferentes tribos de negras/os trazidas/os de África para serem escravizadas no Brasil tiveram de se comunicar, já que falavam dialetos diferentes entre si. A oralidade é a principal forma de comunicação e transmissão de conhecimento, sendo utilizada até hoje. No Candomblé, as/os Orixás são ancestrais divinizados, representantes das forças da natureza com as/os quais se mantém uma forte ligação familiar. As gerações passadas e os seus conhecimentos trazem consigo enorme importância, refletindo a preocupação com a conexão entre o passado, presente e futuro. Nesse sentido, expressam um respeito à ancestralidade e ao equilíbrio da natureza.

No Brasil, que é o terceiro país mais negro fora da África, com cerca de 50,7% de autodeclarações de pretos e pardos segundo dados do IBGE de 2010, apontam que 0,3% de negras/os e pardas/os são praticantes do candomblé e/ou umbanda. É preciso lembrar que a umbanda não é de matriz africana, mas o IBGE aponta as duas religiões como iguais. A presença de mulheres nos terreiros é expressiva, no entanto, os dados colhidos apresentam um resultado bastante diferente da realidade, apontando que de um universo de 335.135 homens, 293 são adeptos do candomblé e umbanda, ao passo que de 334.391 mulheres 262 assumiram seguir as duas religiões.

Quando fazemos o recorte de raça no que tange a religião, os dados do IBGE são desconcertantes. Entre brancas e brancos o número que se assumiu enquanto praticantes do candomblé e, ou umbanda foi de 149 pessoas de um total de 159.161. Já entre negras e negros esses dados foram de 128 pessoas de 56.205.

Ainda que o número de praticantes de candomblé entre pessoas negras seja bem mais expressivo, a banalização dos rituais, vestimentas e paramentos é impactante e parte de uma apropriação religiosa por parte de não-negras/os e do racismo religioso que tem nos silenciado cotidianamente em nossos terreiros e fora deles.

Em 2015, foi lançado o pré-relatório da intolerância religiosa organizado pela parceria de pesquisas entre os interlocutores e pesquisadores da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Centro de Articulação de Populações Marginalizadas e o Laboratório de História das Experiências Religiosas do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Visa apresentar dados do racismo religioso, velado ou não.

Os dados do Disque 100, criado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, apontam 697 casos de intolerância religiosa entre 2011 e dezembro de 2015, a maioria registrada nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No Estado do Rio, o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir), criado em 2012, registrou 1.014 casos entre julho de 2012 e agosto de 2015, sendo 71% contra adeptos de religiões de matrizes africanas, 7,7% contra evangélicos, 3,8% contra católicos, 3,8% contra judeus e sem religião e 3,8% de ataques contra a liberdade religiosa de forma geral.

Dentre as pesquisas citadas, um estudo da PUC Rio sugere que há subnotificação no tema. Foram ouvidas lideranças de 847 terreiros, que revelaram 430 relatos de intolerância, sendo que apenas 160 foram legalizados com notificação. Do total, somente 58 levaram a algum tipo de ação judicial.

O trabalho também aponta que 70% das agressões são verbais e incluem ofensas como “macumbeiro e filho do demônio”, mas as manifestações também incluem pichações em muros, postagens na internet e redes sociais, além das mais graves que chegam a invasões de terreiros, furtos, quebra de símbolos sagrados, incêndios e agressões físicas.

Com base nestes dados é possível constatar que não se trata de casos de intolerância religiosa, mas de racismo religioso, tendo em vista que a grande maioria dos casos é relacionada às religiões de matriz africana. Para minimizar os efeitos danosos deste é preciso que nos apropriemos da história religiosa através de cursos, palestras e debates e nos aprofundemos nos reflexos dessas práticas na perpetuação dos nossos rituais, na nossa auto estima e reconhecimento dos nossos terreiros como locais de professar a fé como todos os outros.

O combate ao preconceito contra as religiões de matriz africana perpassa por compreendê-lo sob a perspectiva do racismo. É preciso discutir estas religiões transversalizadas pelo debate de raça e classe e da organização do povo de Ashé, para armar nosso povo de terreiro para o enfrentamento diário do que se convencionou chamar de intolerância religiosa. E o combate ao racismo perpassa por combater a violência contra os candomblecistas e os terreiros, e isso significa lutar por leis e políticas concretas de enfrentamento a esta violência.

Para aquilombar de verdade, é preciso passar por dentro do terreiro.

Foto: Terreiro Xambá do Quilombo do Portão do Gelo

Os padrões e as mulheres.

Por: Mariana Camara

Não é a balança ou o espelho que é inimigo da mulher, mas os padrões estéticos de uma sociedade racista, machista, gordofóbica e elitista. Sim, elitista, os padrões estéticos e o capitalismo estão interligados, os padrões são ditados pela ideologia da classe dominante, lembrando Marx em a ideologia Alemã “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes”.

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Por muito tempo, as mulheres, sobretudo as negras, gordas, trans, deficientes, etc., sofreram e ainda sofrem com os padrões de beleza que nos é imposto desde a infância. Quantas negras não tentaram afinar o nariz usando prendedores? Usando inúmeros truques de maquiagem? Alisando o cabelo desde pequenas? Seria mais fácil perguntas quantas não fizeram isso, e poderíamos contar, talvez, nos dedos das mãos, não é mesmo? E quantas mulheres se submeteram a dietas desumanas e cirurgias estéticas perigosas para chegar ao “corpo ideal”? Milhares. Isso acontece porque o padrão estético é branco, mesmo num país composta por negros, em sua maioria, e magro.

Atualmente, Ludmila, uma cantora negra, afinou o nariz por meio de cirurgia e isso gerou críticas e discussões sobre ela, fazendo com que muitos esquecessem que o problema não é ela, mas uma sociedade que inferioriza suas características e traços negróides.

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Isso se tornou um problema— que foi “resolvido”— que vivia na pele, tanto que sofria ataques racistas cibernéticos. Por causa disso, fora o “desejo” de ficar mais “bonita” e de bem consigo mesma, ela é uma consequência da nossa sociedade. Ela cedeu a isso para ter um pouco de paz. E isso se torna mais complicado quando é uma negra pobre e periférica que encara mais dificuldades em se encaixar nos moldes engessados pela sociedade.

Por isso esse problema não é só racista e machista mas também é um problema de classe, é uma opressão de classe. Padrões de beleza geram dinheiro e é tudo o que o capitalismo quer: dinheiro. Você precisa consumir para se enquadrar no padrão para não ser jogado à margem. Quanto mais dinheiro você possuir, mais fácil será atingir o padrão estético ora embranquecendo-se, como fez Michael Jackson, ora emagrecendo, como vemos tantas celebridades que sedem as bariátricas e cirurgias de lipoaspiração/lipoescultura etc… Muitas, nem saem da mesa de cirurgia para exibir os resultados, mesmo assim, assumem o risco, as vezes, é preferível sair morto de uma mesa de cirurgia do que viver a margem dos padrões.

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Se na maioria das vezes mulheres se submetem a se adequarem ao padrão, há também as que preferem não seguir os padrões branco, magro, de feminilidade e etc. Gabourey Ridley, uma atriz negra e gorda, que foi criticada por encenar uma cena de sexo, não se submete a isso. Ela é segura de si e é inspiração à muitas mulheres.

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Gabourey é um exemplo de superação, crítica e rompimento com padrões. Ela tem dinheiro, por que não emagrece? Porque ela não quer, porque ela é feliz consigo própria. O avanço dos movimentos sociais, como o feminismo, esse rompimento está sendo continuo. “Se todas as mulheres acordassem amando- se, quantas empresas iriam à falência?”. Por esse medo, muitas indústrias, empresas estão apoiando causas sociais porque gera lucro. Maquiagem para vários tipos de tons de pele, modelos plus size( que até é “padronizada”. A maioria tem cintura fina e não representa todas as gordas, mas é um avanço) e etc. “Mas isso não é bom?”

Há também a situação das mulheres trans e travestis que procuram se enquadrar nesse padrão para serem vistas e respeitadas na sociedade. E isso gera muita polêmica porque acham que elas se preocupam em “reforçar” estereótipos de gênero, sendo que não. Quem reforça esses padrões é o capitalismo. E isso também é muito doloroso para elas pois a maioria não têm condições financeiras para se harmonizar, etc.

É ótimo a representatividade mas ela tem uma importância diferente para a classe dominante. Queremos sim espaço e representatividade, queremos ser vistas como pessoas que merecem respeito. Não queremos só representatividade e rompimento com padrões nas novelas, mídias, propagandas. Queremos que isso acabe na vida real também, pois é muito diferente da TV à nossa realidade.

A participação das mulheres nas religiões de matriz africana

Por Cássia Millene, de terreiro desde sempre.

 

As religiões de matriz africana vieram para o Brasil juntamente com as negras e os negros sequestradas/os da África no período de escravidão. Os primeiros povos foram os bantos, seguidos dos povos da África Ocidental (principalmente do Golfo do Benin). O tráfico de escravos durou 350 anos e mais de 4 milhões de negras e negros foram trazidas/os para o Brasil. “Essas/es negras/os trouxeram consigo o trabalho com o ferro-foram mestres da mineralogia, mestres da agricultura tropical e foram os mestres da criação de gado extensiva”-Alberto da Costa e Silva (Diplomata e Historiador/RJ).

Trouxeram também sua religiosidade, que lhes servia de forma de comunicação, por conta da oralidade, e resistência: o Candomblé e o Vodum. No Candomblé temos uma forte ligação familiar (os Orixás cultuados são ancestrais divinizados) e no Vodum, a coletividade, nunca o individualismo (os Voduns são protetores das comunidades, que podem ser aldeias, famílias ou reinos). (A Rota dos Orixás)

A presença das mulheres na religião é marcante. Elas participam de tudo: Desde Orishás que são mulheres com características ”masculinizadas” pela sociedade patriarcal e machista que temos- como por exemplo: Guerreira (Yansã); Forças das águas doces (Oxum) e todas as demais orishás possuem características também (mesmo que não sendo a principal)- até na função de zeladoras (Yás/Yalorixás/Yabás) dos Ylês (terreiros/barracões). São elas as responsáveis pelo desenvolvimento espiritual e pela transmissão do conhecimento como as histórias da origem até as doutrinas entoadas nas giras.

O primeiro terreiro de Vodum no Maranhão é a Casa das Minas datada de 1849 e fundada por uma negra escravizada do Daomé, mãe do rei de Gezo provavelmente. Quando Adandozé foi feito rei, ele procurou se desfazer do outro lado da família. Ele mandou vender a rainha, Nã Agomtimé (mãe de Gezo, um príncipe), e toda sua comitiva como escravos.

Nos terreiros as mulheres são a grande maioria e têm lugar de destaque, não podendo apenas ser ogãs (tocar os tambores/atabaques) que é apenas para homens (vivência local). Participam ativamente da vida e funcionalidade do Ylê em todos os aspectos. São respeitadas e consultadas sempre por todas as pessoas que frequentam o Ylê sobre os mais diversos aspectos de suas vidas.

As religiões de matrizes africanas são das poucas (se não as únicas) que ainda conservam como modelo funcional o hierárquico matriarcal, onde a centralidade da mulher no que tange o poder decisório de tudo, ao lado dos homens que colaboram e participam, é respeitado em sua totalidade. Os chamados “Orixás de cabeça” (nossa proteção que em nada tem a ver com a do cristianismo/catolicismo) são três e na maioria das vezes são 2 mulheres e 1 homem para que haja equilíbrio(vivência local). Muitas das nossas características são herdadas de nossas/os guias.

Atualmente, existem vários Ylês zelados por homens, porém as mulheres ainda são maioria nas giras e ficando aos homens a função de ogãs.

A Esquerda na Direita do direito dos LGBTQI

Eu sou Helena, nova colaboradora do blog Feminismo sem Demagogia. Eu sou uma mulher transexual. Vou aproveitar este espaço para dialogar com todos e todas, sobre as questões e pautas Transfeministas fazendo o recorte de raça e classe, pelo viés da vertente Marxista.

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Vou falar um pouco do cenário que conheço das lutas contra opressão, cenário do qual me afastei devido a intolerância da militância sobre o que eu sou, Mulher.

 Transicionei a 3 anos e a 3 anos sobrevivo nesse sistema que nos faz cada vez mais ir a margem da sociedade. Ser mulher trans no Brasil é viver com as seguintes estatísticas nas costas: 90% da população de mulheres trans e travestis estão na prostituição, que a expectativa de vida é de 33 anos, eu tenho 28 e o resto da população é de 73,62 segundo o IBGE (IBGE, 2012), a estimativa é de 43% de tentativas de suicídio entre pessoas trans, enquanto a média de suicídios bem sucedidos é 4,8 a cada 100 mil habitantes. É assim que ando e perpasso a vida com essas expectativas nas costas. Dados como esses são bem raros porque somos tão exclusas que nem em estatísticas estamos.

Direitos são negados diariamente a pessoas trans: uso do nome social como forma de evitar constrangimentos nos atendimentos e contatos entre pessoas, negação de direito a uso do banheiro de acordo com o gênero, agressões físicas e verbais.

Ao longo dessa caminhada os “compas” que me deparei ou fetichizavam minha identidade ou ainda ignoravam totalmente o fato de eu ser uma mulher. Um mulhertrans, mas trans é só mais um adjetivo. Posso ser bonita, legal, trans, cis. Mas antes de tudo sou mulher, pra eles eu era a trans.

As pautas então eram novidade, não sabem como o processo todo é burocrático e como o Estado brasileiro através de seus protocolos e falta de leis dificulta ainda mais a vida de qualquer LGBTQI. Não existe lei no Brasil que garanta que eu consiga mudar de nome, vai do juiz assim como gênero nos documentos.

Obviamente que não generalizo e muito pelo contrário encontrei pessoas muito boas e que tinham algum real conhecimento da realidade de ser trans/travesti. Mas de fato a maioria não sabe o que é, e isso me preocupa porque como minoria, quem são as LGBTQI e ocupam quanto nessa fatia de minorias, além de isso se intersecionar com outras minorias.

Não sabemos.

Enquanto um grupo de luta for deixado pra trás sem pensar em suas necessidades de cada letra que forma as LGBTQI, é um grupo a menos na derrubada do capitalismo.

E ahhh meu bem somos muitos e muitas por aí viu?!

Bora lutar nesses 5 anos de expectativa de vida que me restam segundo a expectativa de vida de pessoas trans e travestis.

A História da Policia Militar explicando a quem ela serve

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Por Gleide Davis e Verinha Kollontai

A Policia Militar tem figurado casos de violência contra cidadãos e estes casos têm ganhado grande repercussão nas redes sociais, nas mídias virtuais e até mesmo em alguns noticiários televisivos. Os casos são os mais variados, em todos eles, a mídia noticia como se a policia tivesse agido de forma acidental, tirando das costas dos policiais militares a culpa pela morte e agressões a cidadãos, numa tentativa de esconder para que serve e a quem serve a Policia Militar.

Em 2013, o Anuário de Segurança Publica confirmou que para cada dez mortes violentas evitáveis no mundo em 2012, uma ocorreu no Brasil. O perfil dos homicídios no Brasil é caracterizado especialmente por homens negros, jovens e pobres. Segundo o IPEA para cada 100 mil habitantes, contabiliza de 36 mortes de pessoas negras enquanto pessoas “não negras” contabilizam se 15,2%. Além disso, temos a maior população carcerária do Brasil, os presos são em sua maioria jovens com idade entre 18 e 29 anos, 61% são negros e pardos, ou seja, o trabalho da policia e da justiça brasileira tem sido feito contra um grupo especifico da nossa população e não é contra os ditos “não negros”. A impunidade é reconhecidamente um direito reservado para os ricos e brancos, para negros, pobres e periféricos, resta à morte informal ou o sistema prisional e toda sua barbárie.

Luana, Vânia, Claudia, Amarildo… A lista é enorme. Todos mortos pela policia, todos negros, pobres e periféricos.

A quem a Policia serve?

A Policia militar serve à classe dominante, existe para a finalidade de proteger aos ricos, o seu Estado, os seus símbolos de poder, o seu regime, que no caso do Brasil é a democracia burguesa.

O próprio histórico da policia militar mostra para que foi criada. A Policia Militar não foi criada na época da ditadura como muitos pensam, ela foi criada no século 19 quando Dom João VI chegou ao Brasil, tendo a Guarda Real de Policia de Lisboa permanecido em Portugal, foi necessário a criação do seu equivalente por aqui. Já tinham uma estrutura militarizada desde sua criação com companhias de infantaria e cavalaria. A Função da policia militar era desde sua invenção a proteção da classe dominante, que naquele período eram monarcas e nobreza, contra aqueles que de alguma forma insurgissem contra eles colocando em perigo seus privilégios.

No período da ditadura o que acontece é uma reestruturação da Policia militar que passa a ser subordinada ao exército. As policias militares estaduais, desta forma, passaram a ser comandadas por oficiais do exercito e foram usadas como arma de combate a todos que levantavam se contra a ditadura. Existe aqui a continuidade da razão pelo qual ela foi criada, a proteção da classe dominante, do seu Estado, dos seus privilégios, e para isso esteve e ainda está autorizado uso de treinamento militar para combater civis que rebelam se contra o sistema, como se fossem inimigos. De lá para cá, nada mudou a não ser a quem se subordina a Policia Militar, que agora reporta – se diretamente ao Governador do Estado.

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No Estado de São Paulo o autoritarismo é motivo de orgulho para a corporação, no brasão que a representa existem 18 estrelas. Você sabe o que significa estas estrelas? Vou te contar: golpe militar de 1964 (chamado “Revolução de Março”) e a repressão à revoltas popula­res, como à greve de 1917 e o massacre de Canudos. Como você pode perceber, momentos “memoráveis” em que a classe dominante conseguiu esmagar revoltas contra seu sistema injusto e excludente. A força policial é um instrumento da burguesia, fundamental, para conter os jovens e trabalhadores que se insurgem contra ela.

REPRESENTATIVIDADE – A presença de indivíduos de grupos oprimidos dentro da corporação 

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Manifestantes NEGROS falam com policiais NEGROS, presentes a manifestação por morte de jovem NEGRO pela Policia norte americana.De que lado eles, os policiais, estão?

Mesmo com mudanças na ementa de leis do código penal brasileiro que teoricamente protegem a moral física e psicológica das mulheres, o número de casos de violência contra a mulher aumentou nos últimos anos; entre N fatores estruturais que influenciam a ocorrência, muitos casos noticiados mostram que já haviam uma grande número de registros de boletim de ocorrência por parte das vítimas; mostrando uma clara apatia e falta de efetividade no treinamento desses ditos “profissionais” para receber mulheres vítimas de crimes em especifico.

Outro gritante aspecto da polícia militar é a responsabilidade pelo genocídio da população negra nas periferias não só brasileiras, mas do mundo inteiro. Vemos casos de pessoas negras que foram assassinadas por abuso de poder de um policial; que tiveram suas vidas ceifadas por estarem segurando objetos como pipoca, ferramentas, etc; policiais que alegam que crianças de 10 anos (o menino Eduardo) os assustaram e por isso atirou “sem querer”; quantos jovens e crianças brancas de classe média são assassinadas diariamente por algum desiquilíbrio ou confusão mental de um policial? Segundo o mapa da violência de 2013, morrem 153% mais negros do que brancos vítimas de violência no Brasil, negros são 71,4% nas vítimas de homicídio.

Temos claramente uma separação de classes ditadas por raça no país, e quem aclama essa separação fazendo o trabalho sujo por meio da força amada, é a polícia militar. Os números de violência contra a mulher, contra a população negra e contra a população LGBT só cresceram nos últimos anos, mesmo que a PM registre um aumento significativo de indivíduos negros e mulheres no seu corpo de funcionários, mesmo com políticas de apoio as mulheres e com um forte apelo de movimentos sociais para pressionar o estado a mudar leis criadas na pós ditadura que só beneficiam os indivíduos que não precisam de leis, porque a sua posição social e poder monetário os colocam acima delas.

“Militantes sagram, denunciando a injustiça seletiva

Que criminaliza, condena, dizima a população empobrecida

A Síria se assustaria com 8 carros funerários

Saindo do mesmo bairro, no mesmo horário

Em uma semana os protetores dos “Lords” brancos

Matam mais que a ditadura em 20 anos”

Eduardo Taddeo

Não devemos entregar nossas demandas sociais urgentes ou não, na mão dos instrumentos de poder da burguesia, não devemos nos iludir ao pensar que a representação negra e feminina dentro da corporação militar irá diminuir gradativamente uma demanda de opressões e violências que são de encargo de toda uma corporação que desde o treinamento de iniciação até o percorrer das suas práticas, tem como alvo principal, a população negra, periférica, travesti; que guarda apatia, rechaço e deboche para com a violência contra a mulher e salvaguarda a vida da população classe média, mesmo que essa cometa os mesmos crimes que qualquer cidadão periférico.