Sobre Feminismo Sem Demagogia

O blog Feminismo Sem Demagogia - Original pertence a vertente do Feminismo Marxista. Na luta por um feminismo de Gênero, Raça e Classe.

Mães abusivas, você tem uma?

Foram mais de 3 décadas vivendo e tentando ser a filha que ela poderia amar, mas eu teria que abrir mão de muitas coisas para ser esta filha, eu teria que abrir mão das minhas crenças, da minha religião, da minha convicção política, de pessoas que ela desaprovasse, eu teria que obedecer, temer perde-la, temer ser excluída e por isso me submeter. Eu não seria quem sou, seria quem ela queria que eu fosse, e eu optei por ser eu mesma.

Minha experiência com uma mãe narcisista.

PAIS-ABUSADORES

Eu não entendia qual era o motivo, mas eu deveria deixar de tratar bem o meu pai para provar que a amava; Era difícil por que ele me tratava bem, ele chegava a noite cansado com macacão de mecânico cheio de graxa, tomava um banho e jantava, jogávamos dominó, damas, ele fazia “serra, serra, serrador…” Coisas que me fazem ter boas lembranças dele… Ela me chamava de “puxa saco do seu pai”.

Ela fazia a gente escrever cartas para nosso pai, cobrando ele de situações que nós nem sabíamos direito do que se tratava. Ele fazia muitas coisas erradas, mas eu não entendia as coisas erradas que ele fazia, entendia apenas que era muito errado, ela tinha muita mágoa dele.

Ele começou a ficar cada vez menos em casa “ele gosta mais do PT do que de vocês”. Depois de um tempo eu esperava ele chegar e ele não viria mais, senão tão tarde que eu não aguentava e caia no sono.

Dormia com ela, e ela me dizia quase toda noite que eu era muito desobediente e que se eu não a obedecesse ela ia embora e levaria apenas os meus irmãos. Eu ficava aterrorizada. Ela me dizia que eu era muito parecida com meu pai, como se parecer com ele fosse algo horrível, e cada vez mais eu me afastava do meu pai, por que eu não queria parecer ele, e eu queria que ela me aceitasse.

Durante toda infância e adolescência ela me espancava, ela colhia de um terreno perto de casa uma vara, de preferência com pontas, sabe quando você arranca as folhas e fica uma ponta? Então, ela queria que doesse muito. Tantas vezes tive que usar roupas de manga cumprida para esconder os vergões. Ela não batia nos meus irmãos. Eu me sentia envergonhada, triste, e quanto mais triste e envergonhada mais revoltada e rebelde.

Engordei muito no período da adolescência, sempre fui gorda, mas na adolescência eu me odiava, e entrei em depressão quando ela me disse que tinha vergonha de ter uma filha gorda. Ela dizia a outras pessoas, sempre perto de mim que meu irmão tinha um “corpinho” lindo, ele fazia natação e se cuidava. Eu me sentia feia, eu construía uma auto ódio ainda maior por que ela não me achava bonita.

Ela fazia intriga entre eu e meu irmão do meio, estimulava a competição entre nós, especialmente quando ela dizia que preferia ele a mim. Isso doía muito e eu vivia tentando ser alguém que pelo menos ela amasse um pouco, já que eu não era a preferida.

Ela nunca ficava do meu lado quando eu e meu irmão brigávamos, ela nunca fez a gente entender que não deveríamos, ela dava razão a ele, mesmo que ele tivesse me espancado, e ele me batia muito, ele era autoritário comigo, me tratava como se eu lhe devesse obediência, e quando eu não obedecia, apanhava. Ela achava que estava tudo certo.

O dois filhos homens eram filhos de ouro e eu não era nada, era a filha problemática, a filha com personalidade difícil, a filha desnaturada…

Ela arrumava brigas, destas brigas ela fazia um verdadeiro inferno, contava o lado dela da história onde ela era sempre vitima desta filha desgraçada e jogava a família toda contra mim, numa tentativa de me fazer submissa e submetida a ela, já que todos achavam que eu estava errada e ela certa. Os mecanismos de opressão são muito parecidos, não é? Colocar todo mundo contra você para que você seja a louca da história e ninguém acredite em você.

Tive que sair de casa cedo para me livrar da perseguição dela… Ela tentava deliberadamente me enlouquecer, era o tempo todo jogando a família toda contra mim só por que eu não era a filha obediente que aceitava tudo que ela falava.  Cada vez fui me isolando mais da família, deixando para lá, deixando de me sentir parte daquilo. O grande triunfo dela era que ela poderia manipular a família e me excluir, então eu fui me desligando aos poucos para não sofrer mais com esta exclusão e pessoas que eu amava, mas que aceitava a manipulação dela, foram deixando de ser amadas, foram esquecidas, guardadas em lugares obscuros do meu cérebro para não tocarem com lembranças meu coração.

Ela tinha razão quanto a meu pai, eu era e sou muito parecida com ele. Me orgulho disso. A militância dele na esquerda deixou uma herança para mim. E quanto mais parecida com meu pai, mais ela me desprezava. Minha militância na esquerda era vista com deboche, minhas ideias também, nada em mim era bom. Eu era a filha muito inteligente que não sabia usar a minha inteligência, para ela, saber usar a inteligência era ganhar dinheiro.

Eu me formei em 2009. Paguei meu curso sozinha. Foram 4 anos de muita dedicação. Eu tive que implorar para ela ir na minha formatura.

Na época do meu casamento, eu estava feliz, ela arrumou uma briga comigo, nem me lembro o motivo, mas sempre eram coisas pequenas que ela transformava em uma verdadeira tempestade. Ela jogou todo mundo contra mim, disse que não ia no meu casamento, e disse que meus irmãos também não iriam, ela conseguiu transformar meu momento num pesadelo e me fazer pedir, implorar para ela ir. Ela foi e lá, mesmo ouvindo ser chamada para tirar fotos, não foi, quando fui questioná-la por que não foi, ela se fez de ofendida e retirou-se levando meus irmãos e cunhadas, sobrinhos, junto com ela. Ela estragou a minha festa.

Ela nunca aprovava meus namorados, e toda vez que eu dizia que estava me relacionando com alguém, ela perguntava “é preto de novo”? Ela colocava apelidos nos meus namorados, ela desqualificava-os mesmo antes deles mostrarem-se machistas ou abusivos.

Ela falava mal de mim para minhas amigas, durante a visita de uma amiga a minha casa, estando minha mãe presente também, ela chamou minha amiga de canto, nas minhas costas e disse que “Ela é louca, ela passou da hora de nascer e faltou oxigênio no cérebro dela”, eu descobri isso da pior forma, durante uma discussão com a amiga, ela me disse “até sua mãe fala de você”, como se minha mãe falar fosse atestado de verdade, atestado de que eu era realmente louca. Eu fiquei profundamente magoada, com minha mãe e com a amiga.

Depois que minha mãe descobriu que eu estava fazendo tratamento psiquiátrico, qualquer discussão comigo ela me chamava de louca e perguntava se eu tinha tomados meus remédios.

Estive doente e internada 3 vezes por causa de uma pancreatite, minha mãe foi me visitar apenas uma vez. Dependi muito mais das minhas amigas do que da minha família para me recuperar, exceto pelo meu irmão mais velho e meu sobrinho mais velho, um tio que foi me visitar, apenas. Nesta experiência eu fui entendendo cada vez mais que, eu não só não era importante para aquela família, como não deveria contar com eles. Duas ou mais vezes, ao receber alta, paguei taxi e sai sozinha do hospital para casa. Cada vez mais sozinha, fui formando laços com outras pessoas, outras mulheres, amigas que são hoje a família que eu escolhi e que me escolheu, isso me fortaleceu muito. Seu fosse tão desgraçada assim, por que seria amada por outras pessoas?

Minha mãe tinha acesso a minha casa, ela tinha minhas chaves, entrava e saia quando queria, minha casa era como se fosse um cômodo da casa dela. Dei as chaves a ela quando fiquei doente, para ela me ajudar e depois me sentia péssima em tirar dela. Quando iam pessoas na minha casa, eu tinha que pedir para ela não ir lá, por que as vezes ela aparecia do nada, me sentia podada da minha intimidade e liberdade, um dia ela me perguntou: “Por que eu não posso ir lá? Vocês vão fazer sexo?” Foi um dia que eu recebi umas amigas e meu ex-namorado estava lá, minha cara caiu no chão como a pergunta dela. Ela me constrangia com as perguntas dela.

Quando eu recebia amigas a noite e a gente, mesmo com música ambiente, emitia sons de risada, ela ligava no meu celular berrando “Até que horas vai esta putaria ai”, um bando de amigas se divertindo era uma “putaria”. Ela sempre usava palavras de baixo calão comigo, mandava eu me foder e coisas do tipo, palavras que ela nunca usaria com meus irmãos.

Ela ouvia atrás das portas da minha casa, atrás do muro e depois me perguntava sobre assuntos íntimos e particulares que eu estava conversando com alguma amiga ou namorado, eu ficava sem saber o que fazer, eram assuntos que eu não queria comentar…

Quanto mais idosa ela foi ficando pior pra mim, por que ela agora era além de mãe, uma senhora idosa. Quem iria dar razão a uma filha que se desentende com a mãe idosa? Eu fazia de tudo para não ter desentendimento, eu ouvia coisa e deixava passar, eu passava por cima, como passei por cima da situação em que ela disse a minha amiga que eu era louca por que passei da hora de nascer e faltou oxigênio no meu cérebro, cheguei a perguntar a ela se era havia dito isso e ela inverteu a situação dizendo que nunca havia dito aquilo, que está amiga queria jogar a gente uma contra a outra, que era um absurdo, que ela era louca… Mas, ela disse sim, eu nunca havia contado para amiga que nasci pós termo, só ela poderia ter dito isso.

Há alguns anos estava traçando planos para mudar me da minha casa, aliás casa que eu adoro, para sair do lado da casa dela, somos vizinhas de muro, queria apenas sair dali, sem brigas, sem ela nem saber por que, mas um dia estava desabafando com uma amiga no telefone, dizia a ela que queria sair dali por que não aguentava mais minha mãe me tratando com se eu fosse uma criança, reclamei que ela não me respeitava, que ela falava palavras de baixo calão para mim e eu não aguentava mais isso. Minha mãe entrou no quintal pé por pé e ouviu atrás da porta da conversa e depois me confrontou.

Naquele momento ela admitiu que estava errada, que realmente me tratava como se fosse criança e que ia mudar isso. Ela mudou durante um tempo, ficamos bem, mas como sempre nunca durava muito, o ciclo de lua de mel e tensões não acontece apenas com entre casais, mas dentro de qualquer relação afetiva.

O Estopim da última discussão foi ela mandar eu me foder, sem nenhum motivo para isso. Eu havia a chamado do meu quintal para saber alguma coisa, como ela não respondeu, achei que havia saído e fui para dentro de casa, sentei e comecei a atender uma cliente. Ela aparece no portão e grita “Você estava me chamando?” Respondi “sim, mas a senhora não respondeu…” Ela disse “Fala logo o que você quer, senão eu vou embora”. Eu ali entre a cliente e ela (e ela sabe que eu atendo clientes em casa por videoconferência), sem saber quem responder disse “Vai mãe, depois te falo”, ela disse “ah vai se foder”.

Terminei de atender a cliente e fui na casa dela e perguntei “Mãe, por que senhora mandou eu me foder?”. Ela imediatamente armou-se um escândalo, dizendo que falou por falar. Mas não é verdade, por que se fosse um hábito dela, ela falaria isso para meus irmãos e ela não fala. Eu disse a ela que estava cansada disso, que não queria ser tratada daquele jeito, ela gargalhou na minha cara, e então eu disse que não dava mais, que a gente não poderia ser amigas. Ela começou a me ofender de todas formas, disse que eu era uma filha maldita, uma desgraçada, que era para eu esquecer que ela era minha mãe, tudo isso para não reconhecer que estava errada. Provavelmente ela nunca vai contar para meus irmãos como ela me trata, ela deve apenas dizer que ela cuida de mim e eu brigo com ela sem motivo. Logo eu sou mesmo uma filha desnaturada. Mas, também não me importa mais a opinião dos meus irmãos sobre esta situação. O que me importa é que me libertei.

A libertação do ciclo do relacionamento abusivo só acontece quando a gente se fortalece e para ter força é preciso reconhecer-se em um relacionamento tóxico, este é o primeiro passo. Quando este relacionamento tóxico é com a figura materna, a libertação pode ser a mais demorada, afinal, toda santificação que a sociedade faz do papel da mãe nos leva a crer que, somos nós mesmas sempre erradas e precisamos melhorar para sermos amadas, e cada migalha de amor que cai sobre nosso chão, sentimos nos compensadas e por isso passamos muito tempo tentando e tentando… começa ai nossa saga para lutar diariamente para sermos amadas, a naturalização desta situação nos faz levar este aprendizado para os relacionamentos afetivos vindouros, onde somos massacradas por nossos companheiros, mas ainda assim nos sentimos culpadas e obrigadas a seguir tentando conquistar o amor e sermos amadas. O machismo cria a santificação da mãe, o machismo apoia a continuidade disso nas relações entre homens e mulheres.

 

 

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A mulher negra Latina e Caribenha

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O significado histórico do 25 de Julho
A partir de 1992, o Dia Internacional Latino-Americano e Caribenho da Mulher Negra passou a fazer parte do calendário de luta de negritude, resultado da realização do I Encontro de Mulheres Afro-Caribenhas ocorrido na República Dominicana. Apesar de recente, é um marco internacional importante de luta e resistência da mulher negra, pois tira do limbo a invisibilidade, a estigmatização, a indiferença e sub-humanidade a que foram submetidas.

Nesse sentido, essa data tem demandas represadas. São vários temas e ações que têm sido realizadas. As ações giram em torno da organização das mulheres negras; interesses e necessidades específicas; indicadores sociais de raça, gênero e classe; dificuldades de sobrevivência (social, econômica, política e cultural); divulgação da condição negra; diferenças com as mulheres não negras; história de luta, necessidade de trazer à tona mulheres negras que ajudaram a mudar a rota de sua coletividade; enfim, tirar da margem e colocar as mulheres negras no centro, a partir de sua voz. Esse é o propósito do 25 de julho que tem sido construído no Brasil.

No Brasil, a partir de 2014, o 25 de julho foi instituído como “Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra”. Tereza de Benguela chefiou o Quilombo de Quariterê, resistindo durante duas décadas. Ainda no mês de julho, no dia 31, comemora-se o “Dia da Mulher Africana”.

Da colonização aos dias de hoje: as desigualdades recaem sobre os ombros da mulher negra
Afastada de seu lugar de origem por conta do tráfico, a mulher negra, desde os tempos da escravidão, foi condicionada aos trabalhos pesados na lavoura, nas vendas em condição de escrava de ganho, como ama de leite, na prostituição. Foi sempre tratada de maneira desigual. Isso a distingue de outras mulheres.

O capitalismo a transformou em reprodutora do capital. Para isso, combina-se racismo e machismo, tirando-lhe sua humanidade e buscando reduzi-la a símbolo da escravidão e a objeto sexual. Naturalizaram-se estupros, abusos sexuais praticados pelos senhores de fazenda, foi negado o direito de escolha de seus parceiros, de cuidar de seus filhos. Buscou-se negar e até destruir suas experiências de organização política, formas de vida familiar e comunitária, bem como usou-se diversas estratégias para impossibilitar qualquer solidariedade entre seu povo. O tráfico e a escravidão foram dois dos crimes mais repugnante que o capitalismo.

Passados 129 anos da abolição, a mulher negra ainda vive na base da pirâmide social, representa a maior cota no trabalho doméstico, na terceirização, no trabalho informal e no trabalho temporário. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do período de 2004 a 2014 constatam esse fato: 39,1% das mulheres negras ainda ocupavam postos precários, com renda de até dois salários mínimos, sem carteira assinada.

Só em 2009, existiam 7,2 milhões de brasileiros trabalhando em limpeza, cozinha e manutenção de casas e escritórios, sendo que 61,6% do total, ou seja, 4 milhões eram negros e negras. A taxa de desemprego em 2009 era de 12% entre mulheres negras, comparada a 9% para mulheres brancas. Comparativamente, em termos de escolaridade o Ipea, em 2011, apontava que a taxa de escolarização de mulheres brancas era de 23,8%, enquanto entre mulheres negras era de apenas 9%. Ou seja, os dados revelam que há hierarquia de gênero e raça.

Vale lembrar que com a recente aprovação da reforma trabalhista, a tendência é potencializar ainda mais a discriminação e tornar as mulheres negras mais vulneráveis frente aos patrões, ampliando a jornada de trabalho sem regulamentação de direitos, além de reforçar a ideia de que os trabalhos subalternizados cabe à mulher negra. Num país em que 39,8% das mulheres negras são chefiam suas famílias, segundo o IBGE (2014), e que há famílias inteiras em que a única renda é o benefício da Previdência, não é difícil imaginar quem mais será prejudicada com a reforma da Previdência.

As mulheres negras começam a trabalhar muito cedo e na informalidade. Diminuir o valor do benefício, colocando abaixo do salário mínimo, bem como dificultar a aposentadoria, aumentando a idade, é uma política de liquidação dos mais pobres. É a volta da lei dos sexagenários do período da escravidão. Muitos não chegarão à idade proposta, morrerão no meio do caminho. Sem contar que esta reforma tem o objetivo também de liquidar o Sistema Único de Saúde (SUS), impedindo ainda mais o acesso a serviço gratuito de saúde.

A cor, o gênero e a classe da violência
O racismo se materializa de diversas formas, contudo a forma mais desprezível é a aniquilação e objetivação dos corpos negros: extermínio, assassinatos, limpeza étnica, controle do corpo, através de encarceramento, violência, estupros, etc. Vejamos os dados.

O mapa da violência (2015) comprova a seletividade de cor gênero e raça. Ressalta que em dez anos elevou-se em 54% a morte de mulheres negras, enquanto que entre as mulheres brancas diminui em quase 10%.

Nos dados sobre violência é oportuno mencionar a situação repugnante que vive as mulheres no Haiti. Após 13 anos de ocupação militar comandadas pelo exército brasileiro o resultado é miséria, violência e estupro. Foram mais de 2.000 casos envolvendo soldados brasileiros em estupros segundo o Jornal Estadão (abril de 2017).

No ensejo, é preciso denunciar que o Brasil é campeão em mortes de travestis e transexuais segundo dados do Grupo Gay da Bahia. Só em 2016, foram 127, ou seja, uma morte a cada três dias.

No que se refere ao encarceramento, o Informações Penitenciárias, o Infopen Mulheres (2014), destaca que o Brasil é o quinto país com a maior população de mulheres encarceradas. No período de 2000 a 2014, tal aumento representa um total de 567,4% para a população feminina. Quase dois terços da população penitenciária feminina é negra e jovem; 68% dos casos estão relacionados ao tráfico de drogas, o que nos leva a concluir que esse encarceramento em massa é uma política de controle social e há uma política de segurança pública calcada na repressão, encarceramento, construção de presídios e privatização do sistema prisional em que lucra com cada preso.

Não à toa, os investimentos com a segurança nos últimos anos. Em 2014, chegou à marca de R$ 4,2 bilhões com um aumento de 150% no período, segundo o Ministério da Justiça. O aumento do efetivo de policiais, a compra de armamentos, a implantação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP), a construção de presídios foram ações prioritárias estabelecidas no governo Dilma. A lei antidrogas foi sancionada em 2006, pelo governo Lula, e a lei antiterrorista, por Dilma em 2016.

Já com Temer, os investimentos na área de segurança pública quintuplicaram. Somente no ano passado, mais de R$ 2 bilhões do orçamento, a prioridade é a construção de cinco grandes presídios de segurança máxima, ou seja, mais cadeia para pobres.

O sistema prisional no Brasil é degradante. Não ressocializa ninguém. A mão repressora do estado pesa sobre os corpos negros. É uma fábrica de matar. Corpos são castigados, mutilados, acometidos de doenças, empilhados, isolados em minúsculas celas, decapitados em momentos de motim, enfim é imposto sofrimento físico e psicológico que se estende a toda a família.

As visitas em presídios é algo incomum, são vexatórias. Às mulheres negras, as mais frequentes nas visitas aos seus maridos e filhos, é imposto um ritual que remete à humilhação do corpo. Elas são obrigadas a se despirem, a se agacharem sob o olhar de um agente penitenciário, e são escoltadas. A prática de castigo corporal nos remete a escravidão e, portanto, ao caráter escravagista da burguesia e seus governos nos dias de hoje.

Qual é a saída?
Historicamente, as mulheres negras vêm mostrando o caminho a partir de suas experiências concretas de organização. Um exemplo é a atividade guerreira, que desde os tempos coloniais mulheres negras estavam a frente, dirigindo quilombos, à frente de lutas importantes. Mulheres como Dandara, Tereza de Benguela, Luiza Manhin, mostraram que na luta contra o racismo, a unidade com a classe dominante é inconciliável. Não deram trégua representados capitães do mato.

A sua luta foi em libertar o seu povo, se concentrando em solapar as bases materiais do escravismo e as relações de trabalho entre senhores e escravos, para isto buscou unidade de classe com os indígenas e brancos pobres. As mulheres negras foram o principal alicerce de resistência da cultura africana no território brasileiro, seja na manutenção das religiões de matriz africana, fortemente perseguida no país, seja como referência para construir valores de civilização, identidade e desmistificação da farsa do mito da democracia racial.

No Brasil, combater o racismo passa, necessariamente, por compreender a ligação com o machismo e a classe, destruindo o sistema capitalista que gera tudo isso e liberte de fato nosso povo, tendo como referência nossos antepassados e toda a condição que fomos submetidos. Por isso, exigimos de imediato, enquanto medidas transitórias, a implementação de políticas de reparações, com plano de ação concreta que garanta o acesso à educação, emprego, saúde, renda, moradia e transportes dignos.

Por: Claudicéa Durans é membro da do Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe

Por que o feminismo marxista?

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Antes que qualquer defesa da análise feminista marxista possa ser feita, deve-se delinear, em termos bastante sucintos, o que diferencia o feminismo marxista do movimento de liberação das mulheres. Foi possível identificar quatro correntes principais: feminismo liberal, radical, marxista e socialista.

A teoria feminista radical postula que a sociedade é um patriarcado, onde todos os homens se beneficiam da subjugação de todas as mulheres. Os homens se beneficiam da opressão sistemática das mulheres em todas as áreas da vida, tanto na esfera pública quanto pessoal. Alguns afirmam que a teoria do patriarcado foi capaz de atravessar as categorias independentes e os limites de outras formas de opressão, como a raça, mas, como está bem documentado, isso é contestado.

O feminismo liberal é uma forma individualista de teoria feminista, que se concentra na capacidade das mulheres de manter sua igualdade através de suas próprias ações e escolhas. Porque, como todos nós sabemos, o estado liberal é aquele que procura defender a “lei natural” ou a igualdade entre os cidadãos, enquanto o mercado medeia entre indivíduos competitivos em busca de seus próprios interesses.

As feministas marxistas acreditam que a classe é responsável pelo papel, posição e opressão das mulheres sob o capital. O feminismo marxista não alega que a opressão das mulheres se deve às ações intencionais dos indivíduos, mas resulta de estruturas políticas, sociais e econômicas associadas ao capitalismo. Mas, como qualquer outra tendência marxista, deve ser notado que, embora o feminismo marxista procure explicar a opressão sob o capital, ele também faz parte do arcabouço do materialismo histórico e leva em consideração a opressão sob modos de produção anteriores onde a propriedade privada e a classe estruturaram a sociedade. .

As feministas socialistas procuraram desenvolver uma análise dual do sistema em que tanto o gênero quanto a classe representavam a opressão das mulheres. Feministas socialistas criticavam o marxismo devido ao que eles percebiam como reducionismo, ou economicismo.

Essas definições simples escondem um corpo complexo e rico de pensamento, onde as diferenças na teoria e na abordagem continuam a enriquecer e minar a teoria feminista. Não é por acaso que o movimento das mulheres do final dos anos 60 e início dos anos 70 foi produto e instrumental na “revolução” e na virada subsequente na academia para o pós-estruturalismo e o pensamento pós-modernista. Mas como Martha Gimenez aponta em O que é material sobre o feminismo materialista, uma crítica feminista marxista

As divisões no pensamento feminista se multiplicaram à medida que os efeitos da teorização pós-estruturalista e pós-moderna fundiram-se com os desafios das bases para um feminismo percebido como a expressão das necessidades e preocupações das mulheres de primeiro e de classe média brancas. No processo, a questão do feminismo tornou-se cada vez mais difícil de definir, já que a crítica pós-moderna da “mulher” como uma categoria essencialista junto com críticas fundamentadas em diferenças raciais, étnicas, sexuais e de origem nacional resultou em uma proliferação aparentemente interminável. De “posições de sujeito”, “identidades” e “vozes”. A política cultural e de identidade substituiu o foco inicial no capitalismo e (entre as feministas marxistas principalmente) as divisões de classe entre as mulheres; hoje a classe foi reduzida a outro “ismo”, isto é, a outra forma de opressão que, junto com gênero e raça, integra uma espécie de mantra, algo que todos deveriam incluir na teorização e na pesquisa, no meu entendimento, a teorização sobre isso permanece ao nível de metáforas (por exemplo, entrelaçamento, interação, interconexão etc.).

O feminismo se tornou uma palavra suja. Nenhuma quantidade de definições claras esclarece o que é, quando uma cultura hostil procura constantemente redefini-la e demonizá-la como um movimento de “matadores de bebês masculinos” e “odiar lésbicas”. Muitas explicações para esse discurso podem ser sugeridas a partir do homem reacionário. Ativistas dos direitos humanos, à crença equivocada de que o feminismo ganhou todas as suas batalhas, até as teorias da conspiração. Sugiro, em grande parte, o surgimento da política de identidade pós-modernista, o nascimento dos “ismos”, a inclusão e a complexa relação do feminismo com isso e os sucessos e fracassos da teoria feminista liberal e radical.

As feministas liberais argumentam que falsas concepções das habilidades das mulheres tendem a reter as mulheres. Nossa subordinação é fixada em um conjunto de crenças, costumes e leis discriminatórias que podem ser contestadas por meio de reformas legais e políticas. Quando definido dessa maneira, é muito fácil ver a falha nesse argumento. Se o estado liberal nasceu do “pensamento iluminista” das revoluções francesa e americana e diz que criou as condições de emancipação e igualdade entre os cidadãos através das leis e instituições do Estado liberal, as mulheres não estariam agora argumentando que o liberalismo é o mecanismo pelo qual sua igualdade deve ser ganha. Em vez disso, como as feministas marxistas apontariam, o surgimento do estado liberal coincide com o surgimento do capitalismo. O feminismo liberal como uma doutrina individualista e competitiva é a igualdade de oportunidades e os direitos legais entre os indivíduos. Ela pode ter igualdade de oportunidades mediada por mecanismos de mercado, oportunidades que são atribuídas através do poder social e hierarquias sociais que correspondem à classe social. Mas é essa forma de feminismo sancionada pelo Estado e ideologicamente higiênica que recebe espaço político e ideológico. Ela preenche as páginas das revistas e informa a opinião pública, o debate e a mudança política e legal. Os tribunais de família e as leis de divórcio mudaram gradualmente em favor da igualdade, enquanto essa igualdade é percebida por muitos como algo mais de um privilégio dos direitos das mulheres sobre os dos homens. É também o feminismo da livre escolha. A prostituição, a pornografia, as desigualdades de renda e de oportunidade e a mercantilização dos corpos femininos não são apenas impossíveis de serem analisadas nesse contexto, mas o liberalismo promove essas coisas como escolhas.

O feminismo radical, com sua ênfase no patriarcado e seu discurso sobre a supremacia masculina, gerou blogs cheios de ódio e um retrocesso que provavelmente afastaria a igualdade das mulheres em vez de promovê-la. Radical como um termo foi redefinido erroneamente através do discurso público, e como uma corrente muito forte dentro do ativismo feminista e das bases, concentra-se na experiência pessoal vivida e dando voz a isso, muitas vezes de maneira irada e antagônica. É o feminismo mais blogado, mais twittado, mais citado como sendo odiador do homem. Para a pessoa comum, parece que uma teoria da opressão enraizada nas ações conscientes e intencionais dos homens é também uma força que exige a matança de bebês do sexo masculino e a castração de adultos do sexo masculino. De fato, se o patriarcado é trans-histórico e até agora não há raiz desta opressão biologicamente determinada, somente a castração forçada dos homens e a derrubada revolucionária de seu governo poderiam resultar no fim da opressão feminina. De acordo com a teoria radical, as mulheres eram historicamente a primeira classe oprimida, a opressão das mulheres é a mais difundida em quase todas as sociedades conhecidas, são as formas mais profundas e intratáveis ​​de opressão e a teoria radical fornece uma estrutura a partir da qual se entende tudo. Outras formas de opressão. Apenas uma dessas afirmações está correta e está parcialmente correta. As relações patriarcais enraizadas na estrutura da família, reforçadas por leis e costumes, existem em quase todas as sociedades do conhecimento. Mas deve-se colocar em contexto, essas relações patriarcais têm sua raiz nas sociedades de classes, isso determina a estrutura da família, a economia da família e onde há uma divisão entre a esfera pública e privada. Enquanto seu apelo é “O pessoal é o político”, a ênfase na opressão baseada no sexo enraizada na biologia, que é legitimada por leis e costumes, parece ter negligenciado o fato de que a divisão da esfera pública e privada é como resultado das políticas e ideologias das sociedades de classes. A proteção dos direitos de propriedade privada através da separação legal da família da esfera pública. A família é reconhecida na lei como uma unidade econômica nos primeiros estados.

Pós-moderminismo e pós-estruturalis

Para os marxistas, a causa de todas as formas de opressão está enraizada na divisão da sociedade em classes. O pós-modernismo deu origem à política dos “ismos” obscurecendo as próprias relações sobre as quais todas as formas de exploração e opressão estão enraizadas. O pensamento pós-estruturalista postula que muitas teorias são válidas, enquanto as meta-teorias são inválidas e não levam em conta como várias subjetividades são formadas. O feminismo marxista tem sido criticado por não ser capaz de explicar completamente como, ou por que, se é que as mulheres constituem uma classe. Não é coincidência acidental que o pensamento pós-modernista emerge no exato momento em que o capital estava se reestruturando após a crise da queda dos lucros nos anos 60. Esse processo de reestruturação tomou a forma de subsumir correntes contraculturas dentro da lógica capitalista, criando novas identidades. Essas novas identidades são benéficas para o capital na fábrica global pós-fordista, o trabalho segmentado abre caminho para uma nova repressão salarial e exploração de diferentes identidades geográficas, mas também em casa. Novos mercados segmentados baseados na noção de escolha estendida baseiam-se na criação de novos ideais de consumo específicos para essas novas identidades. As feministas marxistas, especialmente na tradição autonomista italiana, foram rápidas em apontar como o capital explora as mulheres tanto como trabalhadores assalariados, trabalhadores não assalariados e como consumidores. Mais do que escreverei em outro texto sobre feminismo e marxismo autonomista. O movimento de libertação das mulheres e o afastamento de uma perspectiva socialista para uma crítica radical coincide com o nascimento do pensamento pós-modernista. Embora o feminismo liberal existisse e pudesse ser explicado pelo nascimento da filosofia política liberal, o feminismo radical tem suas raízes no pós-modernismo, apesar de sua meta-teoria estruturalista do patriarcado.

Pós-modernismo, determinismo biológico, idealismo, essencialismo e teoria radical.

Pode-se dizer que o pós-modernismo é a consciência idealizada ou ideologia do capitalismo. Como dito anteriormente, esse pensamento se enraíza no momento em que o capitalismo é forçado a se reestruturar. É às vezes uma crise que o capital é capaz de evoluir e estender sua lógica de novas formas, geograficamente em busca de maior exploração laboral, culturalmente em termos de criação de novas mercadorias e mercados e ideologicamente em termos de criação de novas identidades e subjetividades que sustentem essas mudanças.

Baseando-se na noção de Foucault sobre o evento, os discursos e sua teoria de como subjetividade e ideias são formadas, eu sugiro que, embora Foucault seja uma voz acadêmica que introduz o pós-modernismo, ele também nos dá discernimento e ferramentas para criticar a emergência. Do pós-modernismo e pós-estruturalismo. Em Arqueologia do conhecimento, ele se propõe a mostrar que os sistemas de pensamento e conhecimento “epistemes” ou “formações discursivas” são governados por regras além daquelas da gramática e da lógica que operam sob a consciência de sujeitos individuais e definem um sistema de possibilidades conceituais. Determina os limites do uso do pensamento e da linguagem em um dado domínio e período. Narrativas contínuas e a noção de imutabilidade são ingênuas.

Foucault, apesar de sua alegação de ser materialista, e de usar um método materialista para historicizar a transição, ele coloca a história das ideias como central, ou melhor, a consciência para ele parece determinar o modo como moldamos o mundo. Mas pode-se dizer que o idealismo está intimamente ligado ao pensamento burguês. O elo entre a concepção idealista da história, a legitimação de certas condições e eventos históricos (como com Hegel) e o conceito de que as Ideias moldam nosso mundo, leva à noção de que o Capital como um sistema é natural, evoluído através da evolução das ideias. E o mais avançado e perfeito dos sistemas concebidos no pensamento e na prática humanos. Isso também significa para a experiência das mulheres que, se a biologia pode, em primeiro e último recurso, ser a causa de sua opressão, ela precisa apenas “se considerar livre”. De fato, os discursos podem moldar a subjetividade dos indivíduos com sua identidade constituída em um nível idealista. , nada sobre a condição objetiva da vida das mulheres muda simplesmente como resultado do pensamento positivo. Nenhuma quantidade de ética do self inocula as mulheres contra as condições materiais de suas vidas. A relação do discurso com a materialidade é a mesma que a consciência para a realidade. Se alguém meramente substitui a ideologia pelo discurso, basta explicar por que o discurso ou a ideologia constituem a subjetividade. Ao substituir a ideologia pelo discurso, na verdade obscurecemos o papel das ideias na perpetuação das condições materiais da experiência vivida, postulando que a subjetividade é totalmente constituída por ideias, e que as relações objetivas e a vida material são secundárias apenas a isso, isso simplesmente sugere que devemos dar em cima de qualquer política emancipatória. Em vez disso, devemos ficar em casa e agradecer a nossa sorte por nossa boa sorte.

O papel do pensamento pós-modernista, a substituição do idealismo pelo materialismo, a criação de “ismos”, as lutas locais, as políticas de identidade e a substituição da teoria do discurso pela ideologia coincidem com a reestruturação do capital. Numa época em que o capital se move além do sistema fabril para a produção da fábrica global e total da sociedade e a total subsunção da cultura às leis da lógica capitalista, vemos uma mudança na opressão não apenas das mulheres, mas também de muitas novas constituições. Identidades. Isso não quer dizer que o discurso não desempenhe um papel nesse processo, claramente o faz. No entanto, o ímpeto de mudanças na concepção e no pensamento não surge simplesmente do nada, mas está enraizado na atividade de vida consciente das pessoas. Ideias e subjetividade simplesmente se tornam tautologias, por meio das quais somos o que pensamos que somos, impondo ideias como verdades materiais sobre a vida.

O movimento da metodologia materialista e linha de análise para o puramente idealizado, do feminismo marxista para a teoria radical do patriarcado, segue esse mesmo caminho. A teoria feminista radical postula a descrição das relações e a causa das relações como a mesma coisa. Para enraizar a opressão das mulheres em sua biologia é um reflexo do chauvinismo que é dito tê-lo criado. A suposição de que as mulheres são criaturas menores devido à biologia é o que caracteriza a ideologia da opressão baseada em gênero, mas dentro da estrutura idealista dá também a explicação para sua inferioridade. Assim, o determinismo biológico em que a natureza estabelece o terreno sobre o qual a opressão é legitimada sob o capital (Read Dawkins et al) pode afirmar ser empírico, imparcial, imparcial e material, mas está muito feliz em apoiar-se na filosofia idealista para fazer reivindicações ideológicas. A história provou que a opressão das mulheres não é trans-histórica, nem devido à biologia. Tanto aqueles que se beneficiam da opressão em geral quanto aqueles que querem entender e lutar contra ela estão usando as mesmas filosofias idealistas para mantê-la presa no argumento circular do qual não há escapatória. Como não há como fugir da biologia, o Patriarcado, como uma metateoria, encontra-se na posição de recorrer para inserir outra proposição teórica nele. Teoria de gênero, e este é o ponto em que a teoria realmente começa a se desvendar. Se uma metateoria exige a inclusão de uma segunda teoria substancial que procura explicar a mesma coisa, e quando essa teoria contradiz e elabora explicações completamente diferentes, fica claro que a metateoria é incompleta. É uma explicação parcial, da mesma maneira que a teoria em que se submeteu. Tanto o patriarcado quanto a teoria do gênero são explicações parciais, e de forma alguma constituem uma teoria completa ou meta-teoria. A inclusão da teoria de gênero, que é uma teoria de como homens e mulheres são condicionados ou suas subjetividades produzidas através de ideologia ou discurso em sua oposta, uma teoria biologicamente determinista levou a um enorme problema de análise no feminismo radical. Para não mencionar um nível de confusão. Todo o conceito “mulher” está sob ameaça na teoria de gênero, mas o feminismo radical, apesar de basear suas premissas no sexo biológico, busca proteger essa identidade. Em última análise, tentando afirmar que o conceito de mulheres, não é socialmente construído totalmente, mas também e, em última instância, determinado pelo sexo biológico.

O determinismo biológico e o idealismo burguês não levam da análise à superação da opressão. Uma descrição não pode ser uma explicação. Uma explicação parcial ou descrição não é uma teoria, embora possa descrever certas condições em um nível empírico, não explica como isso se encaixa na maior totalidade da sociedade.

Historiografia sexista da opressão feminina

Este é um brilhante extrato de Engels de Sharon Smith e as origens da opressão das mulheres.

As explicações específicas para a opressão das mulheres variam amplamente – algumas são francamente absurdas e a maioria se baseia muito mais na mera especulação do que em qualquer evidência concreta. As teorias mais comuns foram baseadas na suposição de que a maior força física dos homens as leva a ser mais agressivas (a lógica é, presumivelmente, que os homens dominam as mulheres simplesmente porque podem). A familiar imagem infantil de neandertais peludos arrastando suas mulheres pelos cabelos, de caverna a caverna, certamente parece estar baseada nesta falsa suposição biológica.

Grande parte do debate sobre a origem da opressão das mulheres ocorreu no campo da antropologia, o estudo das sociedades humanas. Longe de uma ciência objetiva, o estudo antropológico traz consigo toda a bagagem subjetiva dos próprios preconceitos culturais de seus pesquisadores. O mais óbvio é o chauvinismo masculino que dominou o campo até algumas décadas atrás, que levou a maioria dos antropólogos a assumir que todas as funções importantes em qualquer sociedade foram desempenhadas pelos homens. Eleanor Burke Leacock citou um exemplo claro em seu livro, Myths of Male Dominance , de uma passagem do antropólogo Robin Fox que foi escrita como se fosse apenas para um público masculino:

Pois no comportamento como na anatomia, a força de nossa linhagem reside em uma estrutura relativamente generalizada. Foi precisamente porque não nos especializámos como os nossos primos babuínos que tínhamos de conceber soluções que envolvam o controlo e troca de fêmeas.

Até que o movimento das mulheres do final dos anos 1960 começou a desafiar o machismo, as suposições sexistas forneceram a base para amplas generalizações. Claude Lévi-Strauss, um importante antropólogo dentro da escola estruturalista, chega a argumentar que “a sociedade humana … é principalmente uma sociedade masculina”. Ele argumenta que a “troca de mulheres” é uma característica “praticamente universal” da sociedade humana, em que homens obtêm mulheres de outros homens – de pais, irmãos e outros parentes do sexo masculino. Além disso, ele afirma que “a tendência poligâmica profunda, que existe entre todos os homens, sempre faz com que o número de mulheres disponíveis pareça insuficiente.” Portanto, “as mulheres mais desejáveis ​​devem formar uma minoria”. É um fato real, ou para todos os intentos e propósitos, sempre em estado de desequilíbrio e tensão.”  Segundo Lévi-Strauss, então, as mulheres têm sido vítimas passivas da agressão sexual dos homens desde o início da sociedade humana.

Da mesma forma, os observadores ocidentais têm frequentemente trazido consigo seus próprios preconceitos culturais (incluindo, muitas vezes, o chauvinismo cultural) quando estudam sociedades de caçadores-coletores ou horticultores. As alfândegas são medidas usando um critério ocidental, em vez de tentar entender o sistema de valores único de uma cultura particular. Por exemplo, a prática comum entre as mulheres esquimós de dormir com visitantes do sexo masculino é muitas vezes interpretada como um exemplo de baixo status de mulheres esquimó – de mulheres oferecidas como presentes ou propriedades. No entanto, isso pode ou não ser verdade. Como Leacock ressalta, trata-se de uma “leitura etnocêntrica que presume que uma mulher não gosta (já que não deveria) de brincar com sexo com ninguém além de seu marido ‘real’ e que se recusa a reconhecer que a variedade nas relações sexuais é divertida para as mulheres (onde não é circunscrito por todos os tipos de tabus), assim como aos homens”. Por si só, esse costume sexual pouco fala sobre o status das mulheres na sociedade esquimó hoje, quando está razoavelmente integrado ao sistema capitalista – muito menos que status tem sido historicamente.

Como Sharon Smith deixa claras as teorias do determinismo biológico e a naturalidade da subordinação das mulheres tirada da ideologia burguesa, distorcia o estudo da antropologia.

E em outra análise brilhante de “Feminist Stick Bending”, ela expõe como as teorias feministas também foram culpadas de moldar as evidências à sua teoria. Como o essencialismo biológico e a teoria radical da opressão das mulheres como sendo enraizadas nessa biologia levam a evidências tendenciosas, em apoio a argumentos sobre a agressão dos homens e a natureza das mulheres.

Muitos escritores feministas têm sido igualmente culpados de moldar a evidência para se adequar à teoria. Por exemplo, Sherry Ortner argumenta em “A mulher é do sexo masculino como a natureza é a cultura?” Que, historicamente, a capacidade das mulheres de dar à luz as aproximou da “natureza”, enquanto a capacidade dos homens para a guerra permitiu que elas dominassem. Com base nisso, ela faz a ampla generalização de que “em todos os lugares, em todas as culturas conhecidas, as mulheres são consideradas, em certo grau, inferiores aos homens”. Mas ela não tem provas – e o que ela oferece está longe de ser definitivo. Por exemplo, ela cita um estudo de 1930 de uma sociedade matrilinear americana indiana, a Crow. Embora Ortner admita que, na maioria dos aspectos, as mulheres corvos ocupam posições de autoridade relativamente alta, ela cita o tabu do Corvo em relação às mulheres durante a menstruação como prova de que elas são, no entanto, consideradas inferiores. Entre outras coisas, as mulheres menstruadas não podem tocar em um homem ferido ou em um homem que começa em uma festa de guerra.

Essa prática bastante comum de isolar mulheres menstruadas em sociedades primitivas é muitas vezes citada pelas feministas como evidência de que os poderes reprodutivos das mulheres são uma fonte de medo e desprezo universalmente. Mas eles não são. Por um lado, algumas sociedades de caçadores-coletores não têm nenhum tabu menstrual. Em outros, os homens tentam imitar os poderes reprodutivos das mulheres. E, como Stephanie Coontz e Peta Henderson apontaram, essa interpretação dos tabus menstruais deixa “a impressão de que as mulheres são consideradas impuras ou más em vez de reconhecerem que certas substâncias, como o sangue, são consideradas perigosas, quer sejam derramadas por mulheres. Ou homens ”em muitas sociedades.

Certamente, alguns antropólogos feministas – particularmente feministas-socialistas, como Coontz e Henderson citados acima – contribuíram historicamente para o nosso entendimento da opressão das mulheres e, em alguns casos, ajudaram a desenvolver a teoria de Engels. 13 E algumas antropólogas feministas contribuíram com dados extensos, ajudando a substanciar a afirmação de Engels sobre a existência de sociedades igualitárias pré-classe, como o estudo de Patricia Draper sobre a sociedade Kung na África Austral e a pesquisa de Judith Brown sobre os iroqueses.

Mas, em sua forma mais pura, grande parte da teoria feminista repousa apenas sobre a suposição – cuja abrangência é limitada apenas pela imaginação de seus autores. Dependendo de quem está fazendo a escrita, os homens dominam as mulheres porque elas desprezam as mulheres por sua capacidade de gerar filhos – ou porque têm inveja da capacidade das mulheres de ter filhos. Os homens oprimem as mulheres porque há muito tempo as mulheres formaram um poderoso matriarcado que foi derrubado – ou porque os homens sempre foram um patriarcado tirânico.

Gerda Lerner argumenta em seu livro, The Creation of Patriarchy, “Feministas, começando com Simone de Beauvoir … [explicaram a opressão das mulheres] como causada pela biologia masculina ou pela psicologia masculina.” Ela continua descrevendo uma amostra de teorias feministas, todas dos quais fronteira com o estranho:

Assim, Susan Brownmiller vê a capacidade do homem de estuprar mulheres levando à sua propensão a estuprar mulheres e mostra como isso levou ao domínio masculino sobre as mulheres e à supremacia masculina. Elizabeth Fisher argumentou engenhosamente que a domesticação de animais levava os homens à ideia de estuprar mulheres. Ela afirmou que a brutalização e a violência ligadas à domesticação de animais levaram ao domínio sexual dos homens e à agressão institucionalizada. Mais recentemente, Mary O’Brien construiu uma explicação elaborada de The Origin of male dominance sobre a necessidade psicológica dos homens de compensar sua incapacidade de gerar filhos através da construção de instituições de dominação e, como Fisher, datou essa “descoberta” no período de a descoberta da domesticação animal. 14

Como Smith expõe, a teoria feminista lançou algumas explicações estranhas e maravilhosas! Eu sugeriria que continuará a fazê-lo o tempo todo em que deixamos de reconhecer que nossa opressão não está fundamentada em “IDEIAS”. Idéias são o modo pelo qual apreendemos o mundo material, elas não são em nenhum sentido um substituto para aquele material. realidade.

O método marxista

Natureza humana

Talvez o melhor lugar para começar seja com o conceito marxista da natureza humana. Os liberais postulam que a natureza humana é fixa, competitiva e baseada em características únicas que nos separam da natureza, como a racionalidade e a linguagem. A concepção marxista da natureza humana rejeita a idéia de que temos características fixas, mas o que nos torna humanos é que somos ambos parte da natureza e nos separamos da natureza através da atividade. A consciência surge fora de atividade e, através do ato de trabalhar, moldamos a natureza e nossa relação com ela, mas também, mais significativamente, nossa própria natureza. Ao contrário de outros animais que agem apenas através do instinto, através de um processo evolutivo complexo e longo, os seres humanos passaram a agir consciente e intencionalmente sobre a natureza. Homens e mulheres através do trabalho criam uma sociedade que age sobre eles moldando sua consciência. A produção e a reprodução das relações de produção condicionam as instituições políticas e sociais, filosóficas, legais e religiosas que correspondem a esse modo de produção. Marx declarou: “Não é a consciência dos homens que determina sua existência, mas sua existência social real que determina sua consciência.” (Karl Marx, Uma Contribuição para a Crítica da Economia Política) As feministas marxistas também acreditam que a existência social determina a consciência. As feministas marxistas acreditam que a subordinação das mulheres aos homens não é trans-histórica e nem sempre existiu.

Engels

A teoria da derrubada histórica das mulheres baseia-se no trabalho de Morgan, antropólogo do século 19 e na publicação de seu artigo denominado Sociedade antiga. Este foi o primeiro relato materialista da evolução da sociedade humana. Tendo estudado em primeira mão os índios iroqueses, concluiu que a família nuclear moderna não era um fato universal ou trans-histórico.Ele começou a pesquisar outras sociedades, descobrindo que laços semelhantes de parentesco existiam, mas que o parentesco e a estrutura familiar correspondiam e evoluíam por etapas baseadas nas “sucessivas artes de subsistência”. Engels construiu a teoria de Morgan em A Origem da Família, Propriedade Privada e o Estado. Também deve ser notado que Engels se baseou no trabalho de Darwin que publicara a Origem das Espécies em 1859.

Em The Origin. Engels partiu-se para historicizar a estrutura familiar e a forma na qual a sociedade é organizada, desenvolvendo uma teoria de como a ascensão da sociedade de classes através de mudanças na agricultura e produção fornece o ímpeto para a primeira divisão do trabalho. Sociedade que exige que o Estado aja de acordo com os interesses da classe dominante. Isso corresponde à “derrubada épica das mulheres”, pois o Estado, por meio de suas leis e sua cultura, procura proteger os direitos de propriedade da classe dominante. Enquanto Gerda Lerner e outros estudiosos feministas tentaram traçar as origens do patriarcado concluindo que a cultura e a religião tiveram um papel na subjugação das mulheres, citando evidências de deuses femininos sendo substituídas pelo deus masculino onipotente, isso deveria ser entendido dentro da estrutura marxista. , da base e superestrutura. A religião, as ideias e a consciência de um povo surgem das condições em que trabalham, de sua existência social. São formadas ideologias que perpetuam e legitimam as condições materiais de produção, e servem ao propósito de ampliar e proteger os direitos de propriedade daqueles que controlam os meios de produção e a riqueza social dentro da sociedade. A função reprodutora das mulheres torna-se cada vez mais interessante para os gostos de Aristóteles e outros filósofos gregos que defendem a ideia de que a divisão da esfera pública e privada, da produção e da reprodução é fundada na função reprodutiva das mulheres. Essas “ideias” apenas refletem e perpetuam uma ideologia e cultura cujo modo de produção e criação de riqueza repousa sobre a exploração de uma classe por uma classe dominante. Isto é evidenciado pelo movimento da herança matrilinear e patrilinear.

A subordinação das mulheres ocorreu na maioria das sociedades conhecidas. Kate Millet, que foi a primeira feminista radical a localizar isso dentro da família, afirmou que “o patriarcado é a regra dos pais”. Entretanto, essa estrutura familiar e o “poder” do patriarca são apoiados por seu privilégio econômico dentro da família. Na Grécia antiga, o patriarca da família tinha plena igualdade política. A divisão da vida privada e pública emerge, com os homens tendo tanto uma vida privada em que nenhum outro homem poderia interferir e uma vida pública em que ele tinha plena igualdade com os outros cidadãos. As mulheres não tinham vida pública, não tinham igualdade política e eram relegadas à esfera privada da família.

Antes da formação dos estados arcaicos, e antes do surgimento da sociedade de classes,

A teoria marxista aborda a questão da opressão das mulheres usando um método inteiramente materialista. Não se baseia em idéias e suposições, mas no exame cuidadoso da história e da evolução das sociedades. Em várias sociedades primitivas, as mulheres eram iguais aos homens e, em algumas, mulheres e homens matriarcais viviam separadamente e a estrutura familiar moderna que vemos sob o capital não existia. Na concepção materialista que coloca a produção e reprodução da vida no centro da vida dos seres humanos, vemos, por um lado, a produção da subsistência e reprodução das espécies.

A metodologia marxista é tanto materialista quanto dialética. Somos produtos do mundo natural e também produtivos. Como Marx deixa claro nos manuscritos filosóficos e como Engels também delineia no macaco ao homem, somos distinguidos de outros animais por nossa atividade consciente. Os animais são parte de uma economia predatória, como teorizado por Darwin, e os animais agem por instinto. A economia humana é premeditada, porque agimos com uma certa dose de livre arbítrio, temos a capacidade de agir conscientemente, planejar e refletir sobre nossas ações. Nós constituímos nossa natureza e nossa relação com a natureza através do trabalho. Nós só temos “ideias” e autorreflexão porque somos auto constituintes. Nesse sentido, somos o que Marx chamou de Zoon Politikan e um animal de trabalho. Nossa natureza é melhor descrita como “essencialmente” flexível e mutável. Em Ape para o homem, Engels expôs como o trabalho constitui tanto a consciência evolutiva do homem quanto o desenvolvimento da fala, e faz a hipótese de que a evolução física do homem foi condicionada ao seu trabalho. Então, enquanto nós evoluímos para realizar tarefas mais complexas, a complexidade dessas tarefas e a necessidade de resolver questões relativas à produção e reprodução da vida orientam a evolução para que possamos eventualmente transformar completamente nossa relação com o mundo natural. É claro que este processo ainda está em curso e pode ser evidenciado através da ciência e também através das formas em que o capital está moldando novas subjetividades, o desenvolvimento do trabalho imaterial, o intelecto geral e como a ciência está novamente removendo barreiras naturais para nossa produção e reprodução da vida. .

Comunismo Primitivo

Antes da sociedade de classes, a ideia de pareamento estritamente monogâmico de masculino e feminino como a família nuclear era desconhecida. A desigualdade também era desconhecida. Esse entendimento é importante na teoria feminista marxista porque deixa claras as ligações entre a formação da propriedade privada e a família, a família e a opressão das mulheres. A estrutura da família, o surgimento de relações patriarcais podem ser historicizadas, para mostrar que o patriarcado não é a lógica dominante da história humana, mas é o local no qual a opressão das mulheres começa. As relações patriarcais e o patriarcado como uma meta-teoria são duas coisas muito diferentes. A opressão não está enraizada na biologia masculina ou feminina, e os homens não intencionalmente nem por instinto natural procuraram oprimir as mulheres.

Sociedade de Classe, divisão do trabalho e a opressão das mulheres

A evolução ocorreu ao longo de 2 milhões de anos, a formação de antigas sociedades tribais em sociedades de classes desenvolvidas ao longo de muitos milhares de anos. Os marxistas acreditam que as mudanças na agricultura levam, pela primeira vez, às condições em que as pessoas estabelecem a terra, apropriam-se da terra e criam excedentes. Este excedente é o primeiro ponto em que os seres humanos podem desenvolver um excedente de riqueza. Engels escreveu que só quando vemos a divisão do trabalho, entre produtores e não produtores, vemos também a divisão entre vida pública e privada. A vida pública dedicada à produção e à apropriação da riqueza e da vida privada dedicada à reprodução da vida. Engels e Morgan evidenciaram uma divisão sexual anterior do trabalho, mas essa divisão não impediu as mulheres de serem produzidas. De fato, mesmo tão tardiamente quanto a indústria caseira e o sistema feudal, as mulheres proporcionavam trabalho produtivo, pelo menos tanto quanto os homens.

Aqui, o impacto da propriedade privada sobre a condição da vida das mulheres é resumido aqui por Sacks em The Woman Gatherer .

A propriedade privada transformou as relações entre homens e mulheres dentro do lar apenas porque também mudou radicalmente as relações políticas e econômicas na sociedade mais ampla. Para Engels, a nova riqueza em animais domesticados significava que havia um excedente de bens disponível para troca entre unidades produtivas. Com o tempo, a produção de homens especificamente para fins de intercâmbio se desenvolveu, expandiu e veio a ofuscar a produção do lar para uso. Como a produção de troca eclipsou a produção para uso, ela mudou a natureza do lar, o significado do trabalho feminino dentro dele; consequentemente, a posição das mulheres na sociedade.

A derrubada do direito materno ou formas matrilineares de organização correspondem ao advento da propriedade privada. A noção feminista de que os homens são ciumentos ou desconfiados da “relação mais próxima da mulher com a natureza através da reprodução” não explica essa transição. Na verdade, isso só explica as ideias que surgiram da sociedade que buscava racionalizar a derrubada do direito da mãe. Mulheres e crianças passam a ser vistos como trocáveis, como propriedade e mulheres como mero instrumento de reprodução.

Engels e marxistas depois dele fizeram a alegação de que o casamento e a monogamia não são baseados em alegações morais. Afirmações morais feitas através da religião, depois através da filosofia idealista e, mais tarde, ainda através da ética e ciência burguesas, são simplesmente construídas ideologicamente. Desde o início, a família tem como premissa a hipocrisia, as mulheres estampadas com o caráter “monogamia” porque nos dizem que é parte de nossa natureza e homens com o caráter “namorador” porque está estampada em sua biologia básica para procriar com muitas mulheres quanto possível.

A Família sob Capital

Na época em que Marx e Engels estavam escrevendo, a família “ideal” era a família burguesa. A ideologia disso ainda se refletia na religião e pode, em parte, ser uma das razões pelas quais o pensamento esclarecedor era completamente incapaz de eliminar a religião da sociedade. Os remanescentes da cultura estabelecida só podem se combinar com a nova cultura emergente, ao fazê-lo, ambos são modificados. No momento em que Engels está escrevendo sobre a família, os cientistas e outros antropólogos estão dando um ímpeto moral às descobertas da ciência. O casamento protege contra os males da prostituição, pobreza e doença. No entanto, é claro que a prostituição e o casamento são lados diferentes da mesma moeda.

Sob o capitalismo avançado, ocorreram mudanças na estrutura familiar, tanto através da luta das mulheres contra a opressão, mas também através da revolução nos meios de produção, os vários estágios em que o capital cooptou as mulheres para a força de trabalho e o modo pelo qual a manufatura das subjetividades e a reprodução das relações de capital criaram uma maior dose de individuação. O colapso familiar é tanto uma consequência da maior liberdade feminina quanto benéfica para a renovação do capital, e a colocação da mulher como chefe de família não teve o efeito de igualar salários de homens e mulheres, mas de criar novos mercados. Novos mercados de cuidados infantis, refeições por micro-ondas, novos setores de serviços dedicados ao trabalho doméstico de corte curto, novas políticas destinadas a proteger a própria capacidade de prover a si mesmo, um boom na construção de casas e commodities domésticas, indústria de beleza em expansão e investimento em si. Grande área de acumulação capitalista. Mas a noção idealista de casamentos e a necessidade de gastar muitos milhares em serviços de casamento e artigos frívolos se assemelha ao mantra da responsabilidade individual e do investimento em si mesmo.

Maria Della Costa e outras mulheres italianas da esquerda foram rápidas em teorizar as maneiras pelas quais o capital explorava as mulheres na época em que escreviam nos anos 60, 70 e 80. O boom pós-guerra da era fordista, juntamente com a configuração política que lhe correspondia do socialismo democrático, chegou ao fim em meados da década de 1960. As taxas decrescentes de lucro reduzindo a expansão e o investimento capitalista, juntamente com as taxas crescentes de salários e as demandas dos trabalhadores de salários ainda mais altos combinados para criar uma situação onde as mulheres estão tendo que repensar sua relação com o capital e com a família. No boom pós-guerra de salários mais altos e aumento da produtividade. Mercados de trabalho limitados e antes da rápida expansão global do Oriente, as mulheres eram limitadas em oportunidades de trabalho. Os homens foram capazes de ganhar um “salário familiar”. Os sindicatos estavam ativos em manter as mulheres fora do mercado de trabalho e os governos estavam vendendo a ideologia da maternidade.

Foram Della e Costa, James e outros como eles dentro da tradição marxista que começaram a teorizar sobre a maneira pela qual o trabalho não remunerado das mulheres beneficiou diretamente tanto o lucro capitalista, a criação de mais-valia e a recriação das condições da exploração capitalista, através do aparelho ideológico da família. As mulheres não apenas forneciam “valor de uso” para sustentar os trabalhadores do sexo masculino, mas eram consumidores e talvez os maiores ideólogos do capitalismo. Eles estavam empenhados em criar filhos que assumissem as características de docilidade e propensão ao trabalho árduo exigido pelos empregadores. Mas as mulheres também estavam alienadas da sociedade, da companhia de outras mulheres, trabalhavam longas horas sem remuneração, eram isoladas e tinham poucas proteções nos termos da lei. A ideologia da maternidade e a virtude atribuída ao casamento como um status social, juntamente com a dependência das mulheres em relação à sobrevivência econômica, fizeram com que as mulheres se submetessem aos caprichos de seus colegas homens. A cultura é retratada e reflete a natureza das mulheres como nutridoras, sorridentes, atraentes e suplicantes à vontade do marido. Nos comerciais, as mulheres usavam lindas roupas impraticáveis, saltos e batom vermelho e um belo sorriso enquanto ela servia o jantar. Os homens eram retratados como tipos silenciosos que exigiam tempo para descansar antes de voltar para a fábrica. O patriarca voltaria e ficaria esperando para satisfazer suas necessidades com sua dócil e sorridente esposa. É claro que, enquanto a cultura refletia isso, e perpetuava essa ideia, também o fazia porque alimentava o consumismo. O advento da televisão exigia que pelo menos um membro da família em cada casa precisasse de tempo para assisti-lo. Mas a TV tinha uma função ideológica e, à medida que as estações proliferavam sob a propriedade privada, a ideologia dos mercados livres e a virtude da escolha e liberdade do consumidor aumentavam ainda mais a demanda por consumo.

O salário para a campanha do trabalho doméstico talvez fosse um pouco ingênuo. A ideia de que o capital compense as mulheres pelo seu trabalho. Foi proposto que os salários deveriam ser pagos pelo Estado. No entanto, isso desconsiderava o fato de que, como o Estado serve aos interesses da acumulação de capital, o custo desses salários recairia sobre as próprias famílias da classe trabalhadora que deveriam se beneficiar. Seria um gesto vazio roubar o cheque do marido para dar esse dinheiro para a esposa.

Outras feministas marxistas, na época, teorizaram que apenas a socialização do trabalho das mulheres poderia gerar igualdade. No entanto, a “ideologia da família” e o fato de que, mesmo se socializada, esse trabalho ainda seria percebido como trabalho feminino, significava que esse trabalho ainda seria concebido como de baixo valor. Somente as mulheres que retornam ao trabalho e fazem campanha por salários iguais abordariam a questão da opressão das mulheres sob o capital.

Gostaria de sugerir que nenhuma dessas tendências faz mais do que oferecer uma análise do problema. O grande avanço teórico neste trabalho, porém, é a forma como eles mostram como a acumulação capitalista se beneficia do trabalho não pago.

Della Costa nos diz que

“Nós nos concentramos aqui na posição da mulher da classe trabalhadora, mas isso não significa que apenas mulheres da classe trabalhadora sejam exploradas. Antes, é confirmar que o papel da dona de casa da classe trabalhadora, que acreditamos ter sido indispensável para a produção capitalista, é o fator determinante para a posição de todas as outras mulheres. Toda análise de mulheres como uma casta, então, deve proceder da análise da posição das donas de casa da classe trabalhadora”

Embora a análise deva partir da posição de superexploração das mulheres da classe trabalhadora e sua posição nas hierarquias de classe do capitalismo, as mulheres de classe média que não trabalham também são oprimidas, por sua relação como consumidores e sua dependência dos trabalhadores do sexo masculino.

“Enquanto falamos do mundo ocidental e da Itália em particular, queremos deixar claro que, na medida em que o modo de produção capitalista também traz o Terceiro Mundo sob seu comando, o mesmo processo de destruição deve estar e está ocorrendo lá. . Tampouco devemos supor que a família que conhecemos hoje nos países ocidentais tecnicamente mais avançados é a forma final que a família pode assumir sob o capitalismo. Mas a análise de novas tendências só pode ser o produto de uma análise de como o capitalismo criou essa família e qual o papel da mulher hoje, cada um como um momento em um processo”.

Aqui ela deixa claro que a estrutura então presente da família é ditada pela ideologia capitalista e, na prática, pela dependência das mulheres sobre a unidade econômica da família.

“As lutas cotidianas que as mulheres desenvolveram desde a Segunda Guerra Mundial vão diretamente contra a organização da fábrica e da casa. A “falta de confiabilidade” das mulheres no lar e fora dele cresceu rapidamente desde então, e vai diretamente contra a fábrica como arregimentação organizada no tempo e no espaço, e contra a fábrica social como organização da reprodução da força de trabalho. Esta tendência para mais absenteísmo, para menos respeito pelos calendários, para uma maior mobilidade profissional, é partilhada por homens e mulheres jovens trabalhadores. Mas onde o homem para os períodos cruciais de sua juventude será o único suporte de uma nova família, as mulheres que no todo não são restringidas desta maneira e que devem sempre considerar o trabalho em casa, estão fadadas a se desvincularem ainda mais do trabalho. disciplina, forçando a interrupção do fluxo produtivo e, portanto, maiores custos para o capital. (Esta é uma desculpa para os salários discriminatórios que muitas vezes compensam a perda de capital.) É essa mesma tendência de desinteresse que grupos de donas de casa expressam quando deixam seus filhos com seus maridos no trabalho. * Essa tendência é e cada vez mais ser uma das formas decisivas da crise nos sistemas da fábrica e da fábrica social”.

As mulheres não são mais capazes de manter o ideal do trabalhador produtivo dócil ou do ideal da dona de casa. Em vez disso, ela trabalha em um turno duplo. Sua subjetividade não é de emancipação nem do trabalho da fábrica nem do tedioso tédio do trabalho não remunerado em casa. A extensão do conceito da fábrica para a fábrica social coincide com o movimento em direção à produção pós-fordista. Embora Della Costa e outras feministas marxistas já tivessem proposto que a sociedade se tornasse a “fábrica social” porque o espaço fora da fábrica produzia e reproduzia não apenas os seres humanos que povoam a força de trabalho dentro da fábrica, mas também as subjetividades necessárias à renovação perpétua da fábrica. A força de trabalho. Esse processo de produção dentro da fábrica social não apenas produz trabalho, mas cria a determinação de trabalhar, é o local da troca de mercadorias.

Ela também aponta para a forma como o capital justifica o salário feminino menor, devido à menor produtividade. Isso ressalta a teoria do valor trabalhista de Marx: se as mulheres recebem mais benefícios da doença e da maternidade que basicamente fazem parte de seus salários, elas minam o modo pelo qual a mais-valia é extraída do trabalho excedente; eles recebem uma compensação na taxa de subsistência que corresponde ao trabalho necessário enquanto produz menos valor excedente, porque eles trabalham menos horas no geral. Isso significa que os salários devem ser ajustados para levar isso em conta, caso contrário, o emprego das mulheres torna-se não lucrativo. No entanto, a mudança para empregos no setor de serviços nos países ocidentais e a terceirização da produção de commodities criam produção ampliada com o que poderia ser chamado de “fábrica global”. Ela diz que “o modo de produção capitalista também traz o Terceiro Mundo comando, o mesmo processo de destruição deve ser e está ocorrendo lá. ” Empiricamente, é verdade que as mulheres compõem 2/3 da força de trabalho do mundo, enquanto também compõem 2/3 dos mundos mais pobres.

“Com o advento do capitalismo, a socialização da produção foi organizada com a fábrica como seu centro. Aqueles que trabalhavam no novo centro produtivo, a fábrica, recebiam um salário. Aqueles que foram excluídos não. As mulheres, as crianças e os idosos perderam o poder relativo que derivava da dependência da família de seu trabalho, que era visto como social e necessário. O capital, destruindo a família e a comunidade e a produção como um todo, por um lado, concentrou a produção social básica na fábrica e no escritório e, por outro, separou o homem da família e transformou-o em um trabalhador assalariado. Colocou sobre os ombros do homem o peso da responsabilidade financeira pelas mulheres, crianças, velhos e doentes, em uma palavra, todos aqueles que não recebem salário. A partir desse momento começou a expulsão da casa de todos aqueles que não procriavam e serviam aos que trabalhavam por salários”.

Onde anteriormente mulheres haviam participado da produção e foram capazes de manter algum poder dentro da família porque seu trabalho era valorizado, o trabalho não remunerado da reprodução dentro da esfera privada passou a representar a desvalorização das mulheres e seu trabalho em geral. Ela assume a responsabilidade do trabalho social e carinhoso, de graça. Assim, o trabalho das mulheres em todas as suas formas não tem valor social, o valor é mediado pela troca e a realização do valor sob o capital é apenas a realização do valor socialmente determinado através da troca. Onde a produção de mercadorias é pressuposta pela troca, e o valor só é percebido através da troca, é um fenômeno social onde as mercadorias passam a representar as relações entre as pessoas, o trabalho não remunerado das mulheres é socialmente determinado a não ter valor.

“É preciso ressaltar que essa separação das crianças dos adultos é essencial para a compreensão do pleno significado da separação das mulheres dos homens, para compreender plenamente como é a organização da luta por parte do movimento das mulheres, mesmo quando é preciso forma de uma rejeição violenta de qualquer possibilidade de relações com os homens, só pode visar a superar a separação que é baseada na “liberdade” do trabalho assalariado.

As fábricas que põe fim à exploração do trabalho infantil não eram um ato de altruísmo, como alguns sugeririam. No entanto, a relação antagônica de desigualdade entre homens e mulheres fundada nas consequências sociais do papel das mulheres como cuidado infantil, a incapacidade de competir com homens dentro da força de trabalho devido a responsabilidades de cuidado colocam falsamente homens e mulheres uns contra os outros. Supondo que a causa do antagonismo é o homem subjugando mulheres, em vez da opressão estrutural do capital e sua exploração do trabalho livre das mulheres. Este argumento é completamente contrário ao feminismo liberal que defende que as práticas culturais e a ideia de que as mulheres não possuem as habilidades necessárias ou as oportunidades, ou vontade de trabalhar, e que a legislação pode superar o problema da desigualdade salarial. E que essas práticas culturais que prejudicam as mulheres beneficiam os homens, e que os homens defendem seu direito a salários mais altos simplesmente em virtude de alguma crença na superioridade.

Isso também toca na ideia de que a liberdade de vender o trabalho é algo a ser elogiado. A concepção liberal da liberdade postula que os homens entram livremente em relações de troca, um como o comprador da força de trabalho, o outro como proprietário e vendedor da força de trabalho. Isso ignora o fato de que os trabalhadores não possuem mais os meios de produção e têm a opção de trabalhar ou passar fome. Quanto mais as mulheres entram na força de trabalho na crença de que elas estão criando igualdade entre homens e mulheres, mais as mulheres serão duplamente exploradas, como trabalhadores não assalariados e também como trabalhadores assalariados.

“Nas crianças do ensino fundamental, naqueles que são filhos e filhas dos trabalhadores, há sempre a consciência de que a escola está, de alguma forma, colocando-os contra seus pais e seus pares e, consequentemente, há uma resistência instintiva ao estudo e ao ser. educado”. Esta é a resistência pela qual as crianças negras estão confinadas a escolas subnormais na Grã-Bretanha. A criança da classe trabalhadora europeia, como a criança da classe trabalhadora negra, vê no professor alguém que está ensinando algo contra sua mãe e seu pai, não como uma defesa da criança, mas como um ataque à classe (trabalhadora). O capitalismo é o primeiro sistema produtivo onde os filhos dos explorados são disciplinados e educados em instituições organizadas e controladas pela classe dominante”.

A escola faz parte de um processo de produção ampliado, onde o sujeito é moldado em força de trabalho. Se este for o caso, pode-se comprovar teoricamente que a esfera doméstica e doméstica da “fábrica social” é também o local de produção ampliada. A importância teórica disso é enorme porque significa que, como em outras áreas de produção ampliada, ela cria uma mais-valia para a acumulação de capital. Não só a escola é o local da ideologia, mas o local de produção … produção da força de trabalho de mercadorias. A força de trabalho, como sabemos, tem um valor de troca, o do salário, isso significa que os salários, todos os salários são determinados pela necessidade de locais de produção ampliados dentro do processo geral de produção. Isso também significa que os preços e os salários são determinados pelo custo da produção ampliada. Isto levanta outra observação, o Estado não é apenas um colecionador de impostos, um empregador do trabalho, mas parte do modo de produção capitalista geral. Não só funciona em seu papel como a administração do interesse do capital, mas é também o produtor de valores de troca.

Della Costa e outras feministas marxistas, apesar de se concentrarem na produção e na reprodução, excluindo outras áreas frequentemente adotadas pelo feminismo, não defendem que as mulheres deixem de cuidar dos filhos. Não advogue os bebês de proveta ou um movimento em direção a algum tipo de utopia onde o sexo e a procriação são dispensados. A Shulamith Firestone pode ter defendido o crescimento de bebês em úteros artificiais, mas, como Della Costa deixa claro, os meios de produção não são controlados socialmente. A ciência é usada para promover as ideias e os caprichos de uma classe dominante, o capital usa os avanços da tecnologia para seus próprios fins e para expandir. Considerar o passo adicional de que a reprodução é feita socialmente, mas sob o controle do capitalismo, não é uma opção que deva ser considerada.

“Nós não estamos ignorando as tentativas neste momento de fazer bebês de proveta. Mas hoje esses mecanismos pertencem completamente à ciência e ao controle capitalistas. O uso seria completamente contra nós e contra a classe. Não é do nosso interesse abdicar da procriação, entregá-la às mãos do inimigo. É do nosso interesse conquistar a liberdade de procriar, pela qual não pagaremos nem o preço do salário nem o preço da exclusão social”.

A emancipação feminina da reprodução não pode ser feita sob o modo de produção existente. Escapar da biologia não é a resposta.

Os salários para a reprodução social fortalecem ainda mais a divisão entre homens e mulheres e realçam ainda mais o baixo valor econômico do trabalho das mulheres. A socialização do processo de trabalho implica para muitas mulheres o completo desmantelamento da família, mas, além disso, um salário que seria baseado no baixo valor de tal trabalho. Revolucionar a reprodução não é benéfico sob o capitalismo, mesmo que fosse libertar as mulheres para competir igualmente com os homens, então, qual é a raiz da emancipação para as mulheres?

Razões pelas quais precisamos da emancipação revolucionária das mulheres

As feministas liberais insistem que convencer os homens a aceitarem mais tarefas domésticas libertará as mulheres, mas isso não liberta as mulheres da exploração não remunerada, mesmo se a libertássemos para que ela possa ser apenas uma trabalhadora assalariada igualmente explorada. Embora isso possa, em princípio, criar igualdade entre os sexos, cria um falso tipo de igualdade. Produz uma igualdade de oportunidades “idealista” e liberal. Mas devemos notar que, sob a doutrina da liberdade mediada pelo mercado, algumas pessoas têm muito mais escolhas e oportunidades do que outras. Toda mulher pode ter o direito de trabalhar, mas, como já sabemos, algumas mulheres são coagidas a trabalhar por causa de sua classe, e outras ainda são coagidas para o pior tipo de trabalho, a indústria do sexo. As mulheres da classe média estarão igualmente livres para trabalhar, mas não são igualmente coagidas a fazer qualquer tipo de trabalho remunerado ou não. “O trabalho da esposa” pode ser contratado, seja cozinhando, cuidando de crianças ou mesmo serviços sexuais fornecidos ao marido por mulheres da classe trabalhadora.

As feministas liberais fazem campanha por reformas legais, mais uma vez essas reformas são e sempre terão efeito limitado. A desigualdade entre homens e mulheres não se baseia em direitos legais.

As ideias e a cultura que a sociedade capitalista produz persuade homens e mulheres da inferioridade das mulheres, é difícil ver como a legislação fez qualquer diferença real. A proliferação de práticas de beleza se beneficia da ideia de que as mulheres envelhecem e tornam-se sem valor, sexo e atratividade estão ligadas à idade e beleza, criando uma situação em que o valor primário das mulheres ainda está em sua capacidade de procriar, apesar do trabalho das mulheres e crianças. Essa ideologia da beleza não é de modo algum natural, mas totalmente benéfica para o mercado de produtos de beleza. A super- exploração das mulheres com salários mais baixos depende da sua capacidade reprodutiva, sem isso não haveria necessidade da ideologia da juventude, beleza e maternidade. A contradição para tudo isso é que as mulheres são condicionadas a se valorizarem como mercadorias, a investir em si mesmas e a se vender e vender-se como mercadorias, mas também como a força de trabalho da mercadoria. A total subjugação da cultura e todos os sistemas de criação de valor no sistema de troca de mercadorias significam que agora recriamos a força de trabalho da mercadoria individualmente. Às mulheres não só reproduzem a força de trabalho do trabalhador do sexo masculino e da próxima geração, mas também devem consumir e investir na produção ampliada de si mesma, ela cria seu próprio valor de troca como o trabalho de mercadoria.

O capitalismo é um sistema de exploração, um sistema que requer falsa consciência e ideologia para perpetuar suas leis e lógica. Vastas desigualdades de riqueza são criadas, novas tecnologias na medicina, novas formas de mudar a natureza e moldar a natureza humana estão sendo desenvolvidas. O capitalismo é tremendamente criativo e extremamente destrutivo. A prática revolucionária molda novas subjetividades e novas relações, ao atravessar esse processo a sociedade modifica tanto os indivíduos quanto suas relações entre si.

Se você ainda pode descobrir pensar em termos de idealismo! Eu lhes darei um pouco de verdade lógica idealista … está absolutamente claro, nenhuma mulher terá igualdade com todos os homens, até que todos os homens sejam iguais um ao outro, e nenhuma mulher terá igualdade com sua contraparte masculina até que todas as mulheres tenham igualdade. Um com o outro. Isto, obviamente, só pode acontecer com a transição para o comunismo.

 Traduzido de: https://themarxistminx.wordpress.com/

Entre armas e poesias, a luta das mulheres palestinas

Por: Soraya Misleh

Nariman Khorsheed, fundadora da primeira brigada palestina

Nas paredes da prisão, muitas mulheres deixam seus nomes como manchas de sangue. Seja com um delineador esquecido num bolso de mulher, ou um riscado de botão, ou com as unhas, elas arranham a dura face da verdade materializada pelas paredes da prisão sobre a qual a vida começa e termina. Ou talvez, elas simplesmente tenham escrito seus nomes para assegurar que ainda existem e que seus nomes não serão deixados no esquecimento.”

Os versos da palestina Dima Yousef retratam o que ela própria vivenciou em duas semanas numa prisão do regime sanguinário do ,

ditador Bashar al-Assad, antes de ser obrigada a buscar um novo refúgio, desta vez em Argel, capital da Argélia. A jovem nascida no campo de refugiados de Yarmouk na Síria, após a família ter sido expulsa durante a Nakba (catástrofe que significou para os palestinos a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948), expressa a resistência por meio de seus versos. É parte da nova geração de poetisas que se somam às lutas das mulheres na região, em todos os campos. Sua história é contada pela ativista Budour Hassan em seu blog.

São muitas as poetisas palestinas a serviço da causa. Outro exemplo é a jovem Dareen Tatour, que, após recitar em 11 de outubro de 2015 seu poema “Resista meu povo, resista a eles” no Youtube, encontra-se em prisão domiciliar, impedida de acessar internet. Nascida na cidade de Nazaré (dentro do que hoje é Israel), está entre os cerca de 400 detidos nos últimos tempos por se expressarem nas mídias sociais.

A tentativa de silenciamento, que inclui agora uma lei recém-aprovada pelo Knesset (Parlamento israelense) a qual proíbe a entrada na Palestina ocupada de ativistas da campanha de Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) a Israel, não tem calado as vozes femininas, em todas as partes do mundo. Um legado que é parte da história da resistência. Nessa lista, constam nomes como o da também poetisa palestina Fadwa Tuqan (1917-2003). Seus poderosos versos desafiavam de tal forma o algoz ocupante, que o ministro da Defesa israelense em 1967, Moshe Dayan, declarou: “Cada um dos seus poemas faz dez guerrilheiros”.

Das letras aos campos de batalha, as mulheres utilizam as armas de que dispõem. Há 70 anos, Nariman Khorsheed (1927-2014) fundou na cidade de Yafa – juntamente com sua irmã Moheeba – a primeira brigada feminina palestina, denominada Al Zahrat al-Uqhuwan (Flores de Crisântemo), para lutar contra a expulsão pelas forças paramilitares sionistas de suas terras. Em 1948, surgiram outras brigadas femininas e inclusive um grupo misto, de 100 combatentes, liderado por Fatma Khaskiyyeh Abu Dayyeh. Na revolução palestina de 1936-1939 contra o mandato britânico e a colonização sionista – cujas causas e análise da derrota estão explicitadas pelo revolucionário Ghassan Kanafani em “A revolta de 1936-1939 na Palestina” –, ela esteve no comando do local de armazenagem das armas dos revolucionários.

São heroínas desconhecidas e em sua maioria invisibilizadas pela história, como ocorre em todo o mundo, em todos os processos de luta. São, ademais, representadas erroneamente como “aquelas que precisam ser salvas por terem nascido em uma região e cultura de bárbaros e não civilizados, o que as torna mais submissas que qualquer outra”. Uma visão “orientalista” que lamentavelmente se tornou senso comum, endossada até mesmo por um tipo de “feminismo colonial” – e desconstruí-la é tarefa central para avançar nas lutas.

Não é verdade que as mulheres árabes e palestinas precisam ser salvas. Não é verdade que são mais oprimidas por natureza social/religiosa ou pela delimitação geográfica. A opressão ocorre aqui e lá, em qualquer sociedade patriarcal, a serviço de um projeto de dominação capitalista/imperialista. Elas – assim como todo o conjunto da sociedade palestina – precisam da solidariedade internacional ativa, não de “salvamento”. Os movimentos feministas na região são anteriores aos dos Estados Unidos e da Europa, como nos conta a feminista egípcia Nawal El Saadawi em seu livro “A face oculta de Eva – As mulheres no mundo árabe”. Travam a dupla luta, contra o patriarcado e o colonialismo.

Breve história
Pioneiras ao final do século XIX nos protestos contra as ondas inaugurais de imigração sionista com fins coloniais, as palestinas fundaram a primeira associação de mulheres em 1903. Nos anos 1920, sua atuação se fortaleceu e formaram vários comitês populares para articular protestos e demais ações de desobediência civil, bem como garantir auxílio a feridos em manifestações. Em 1921, Emilia As-Sakakini e Zalikha Ash-Shihabi formaram a primeira União de Mulheres Árabes-Palestinas, que organizou protestos contra o mandato britânico, a colonização sionista e a Declaração Balfour – em que a Inglaterra garantia a constituição de um lar nacional judeu em terras palestinas. Ativistas famosas na época incluem Maryam Izz-Din Al-Qasam, Nabiha Nasir e Aqilah Al-Budeiri.

Em agosto de 1929, participaram de manifestação reprimida violentamente pela Grã-Bretanha. Entre os 116 participantes mortos, nove eram mulheres. Muitas outras foram feridas, presas ou espancadas. No mesmo ano, aconteceu entre 26 e 29 de outubro o primeiro Congresso de Mulheres Árabes em Jerusalém, com o objetivo central de organizar o movimento de mulheres face à situação política no terreno, com o aumento da colonização sionista. Na década seguinte, a luta se ampliou. Em abril de 1933, mulheres de diversas partes da Palestina marcharam em Jerusalém contra a visita aos lugares sagrados pelo general britânico Edmund Allenby. Na revolução de 1936-1939, as mulheres também se destacaram. Em 4 de maio de 1936, 600 estudantes realizaram uma conferência em Jerusalém e protagonizaram uma greve que durou seis meses. Em outras partes da Palestina, organizaram grandes marchas e comitês populares. Além de promoverem protestos, recolhiam fundos para assistência às famílias dos mortos e prisioneiros e auxiliavam no transporte de insumos básicos e armas. Nas aldeias, lutavam lado a lado com os homens para defender suas terras. Uma dessas heroínas é Fatma Ghazal, morta em combate no dia 26 de junho de 1936.

Já diante da consolidação do projeto sionista, em 1965, foi criada a União Geral das Mulheres Palestinas, vinculada à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Ao final dos anos 1960 e início dos 1970, diversas mulheres partiram para a ação direta, diante da omissão internacional à violação cotidiana de direitos humanos e a expansão israelense, que em 1967 resultou na ocupação por parte dessa potência bélica de toda a Palestina histórica. A mais conhecida em todo o mundo é Leila Khaled. Então com apenas 24 anos, participou do sequestro de aviões em troca de prisioneiros políticos e colocou em evidência a causa palestina. Foi detida em uma das ações e saiu após outra operação do gênero.

Nas intifadas (levantes) de 1987-1993 e 2000-2004, novamente as mulheres foram às ruas. Na primeira, para se ter uma ideia, um terço das baixas era da parcela feminina. O número de mulheres detidas passou de centenas do início da década de 1970 para milhares nos anos 1980.

Nos últimos 45 anos, foram 10 mil presas políticas. Em 2011, houve troca de prisioneiros e passaram a nove. A partir de outubro de 2015, com o prenúncio de nova intifada, 106 foram detidas – um incremento de 70% em relação a 2013 – e hoje permanecem nos cárceres israelenses 55 delas, as quais têm se somado às constantes greves de fome contra as más condições a que são submetidas, assim como os 7 mil palestinos detidos ilegalmente pelas forças de ocupação.

Em todos os campos, as palestinas colocam seu conhecimento e sua força pela libertação. Estão na linha de frente, dentro e fora da terra ocupada por Israel. Ontem, hoje e certamente amanhã.

A questão do partido e o movimento revolucionário

As mulheres no Partido Bolchevique e a atualidade das resoluções da Terceira Internacional

Laura Sguazzabia

Apesar dos costumes milenares que moldaram a mulher à passividade e à obediência na Rússia, a contribuição do proletariado feminino na revolução foi forte e decisiva. Esta participação ativa manifestou-se não só em papéis subalternos, mas sobretudo no papel dirigente de muitas mulheres, como consequência do investimento que o partido bolchevique fez em termos de formação e propaganda entre o proletariado feminino.

O partido bolchevique e a organização das mulheres
De acordo com a ideia bolchevique, o trabalho para a emancipação das mulheres interessa a todo o partido, porque a luta contra a opressão das mulheres não pode ser separada da luta mais ampla pelo socialismo; mas cabe às mulheres desempenhar o papel principal de organizar, em sintonia com a vanguarda comunista do proletariado, as condições para sua própria libertação: “Nós dizemos que a emancipação das operárias deve ser obra das próprias operárias (…). É nossa tarefa tornar a política acessível a todas as trabalhadoras”, (Lenin, 1919). Ou seja, tornar as trabalhadoras, não só as trabalhadoras que pertencem ao partido, mas também “aquelas sem partido e menos conscientes“, protagonistas da nova vida social e política.

Já durante os acontecimentos revolucionários de 1905, muitas mulheres bolcheviques começaram um trabalho no movimento feminino russo, trazendo à tona a diferenciação de classe em relação ao feminismo burguês. Da mesma forma, a imprensa do partido bolchevique já dedicava a um bom tempo um espaço crescente à questão da mulher.

Em março de 1913, o esforço do partido bolchevique para intensificar o trabalho entre as mulheres concretiza-se na preparação da primeira celebração da Jornada das Operárias.

Em 1914, decide-se destinar às proletárias, inclusive por pressão de Lenin, uma publicação específica chamada Rabotnitsa (A Trabalhadora), que tem o primeiro número impresso, apesar da prisão do primeiro comitê de redação pela repressão czarista. No mesmo ano, o Comitê Central do Partido Bolchevique cria um comitê especial com a missão de promover encontros pelo Dia Internacional da Mulher: são organizadas assembleias nas fábricas e em locais públicos, onde se discutem as principais questões relacionadas à opressão da mulher. Também são eleitas representantes com a tarefa, no novo comitê, de aprofundar as propostas que surgiram.

Em 1917, o apoio aos bolcheviques crescia e os pedidos de adesão por parte das mulheres também aumentavam: depois dos incidentes de fevereiro, eclode a greve das lavadeiras, a camada mais atrasada da classe trabalhadora da época, que reivindica a nacionalização das lavanderias sob o controle de cada localidade, posição apoiada somente pelos bolcheviques.

A propaganda do jornal Rabotnitsa torna-se cada vez mais importante. Seu comitê editorial conta com mulheres totalmente dedicadas à causa revolucionária, organizando reuniões e assembleias contra a guerra: cada fábrica tem sua representante no comitê editorial do jornal, participando de reuniões semanais para discutir os relatórios das diversas zonas. O Rabotnitsa também se torna uma ferramenta para conscientizar as estruturas políticas e sindicais, ainda desorientadas sobre o trabalho a ser realizado entre as operárias. Neste período, o próprio Lenin escreve diversos artigos sobre a necessidade de se encontrar novas estratégias e modelos organizativos para aproximar as operárias ao socialismo.

Em março de 1917, os bolcheviques fundam uma sede em São Petersburgo para promover o trabalho de mobilização entre as mulheres: os dirigentes bolcheviques conseguem mobilizar todo o partido na convocação de um congresso de operárias em Petrogrado, para discutir como envolver e organizar as mulheres no movimento revolucionário. O congresso, realizado às vésperas da revolução de outubro, foi interrompido pelos conflitos que levaram à tomada do poder pelos bolcheviques.

Em um momento tão delicado, era de grande importância investir na formação: o congresso das operárias de Petrogrado opta por criar comissões especiais (com participação majoritária de mulheres) para conscientizá-las de seus direitos, e o grupo dirigente bolchevique recorre a uma legislação avançada que permite às mulheres, através de uma maior proteção do trabalho, a participação direta na atividade política e a libertação de todos os vínculos formais e substanciais que, anteriormente, as subordinavam aos homens.

Alexandra Kollontai ingressa no novo governo como Comissária para os Serviços Sociais, cargo que lhe permite participar da elaboração de novas normas que reconhecem a mulher como cidadã, com direitos iguais aos do homem.

As comissões criadas no congresso [de operárias] de 1917 têm o compromisso de facilitar a rápida introdução e aceitação das reformas por parte da população que devia superar velhos preconceitos: em particular, a atenção de vários bolcheviques homens à questão da mulher indica a importância atribuída a esta frente de intervenção, não mais restrita a poucas e isoladas companheiras.

Em 1918, com a eclosão da guerra civil, coloca-se concretamente o problema de preparar as trabalhadoras para a resistência ao imperialismo. Os responsáveis pelo congresso de Petrogrado decidem convocar um congresso destinado a todas as trabalhadoras e camponesas (com ou sem partido). O resultado desta iniciativa é impressionante: no encontro final participaram mais de 1000 delegadas, do campo e das fábricas, número elevado se consideradas as terríveis condições de viagem para chegar a Petrogrado, saindo dos vários distritos da Rússia. Dessa forma, muitas mulheres aproximam-se do socialismo e entram no Partido Bolchevique. Tendo em vista o grande trabalho a ser realizado neste terreno, as comissões revelam-se estruturas organizacionais inadequadas e, no outono de 1919, são reorganizadas, em uma sessão formal do Comitê Central, conhecida como Zhenotdel.

O Zhenotdel
Abreviação de Otdel po rabote sredi zenscin (Seção para o trabalho entre as mulheres), com uma publicação mensal, Kommunitska, o Zhenotdel ou Genotdel (de agora em diante indicado Z., nota do autor) era o departamento do Comitê Central para o trabalho entre as mulheres, criado em 1919 pelo Partido Bolchevique. Com este departamento, pretendia-se iniciar as mulheres, com ou sem partido, na política, orientando-as para o trabalho no partido, nos sindicatos ou nos soviets. O Z. nunca foi concebido como uma organização separada: Alexandra Kollontai e Lenin foram muito claros sobre o propósito dessa estrutura, que devia trazer as mulheres ao partido, promovendo a conscientização nos soviets e a concretização das reivindicações específicas das mulheres proletárias. Para atingir este fim, eram necessárias medidas especiais de organização e de propaganda, dada a dificuldade em entrar em contato e politizar as mulheres, isoladas na família e sujeitas às reações violentas dos maridos e dos parentes, que dificilmente toleravam sua efetiva emancipação.

A criação da Z. deu origem a uma ampla e variada discussão dentro do Partido Bolchevique sobre a real necessidade de um departamento que tratasse do trabalho entre as mulheres, uma vez que havia também aquelas que julgassem que essa necessidade não existia, ou que assumissem atitudes ambíguas. Significativa a este respeito foi a atitude inicial de Konkordiya Samoilova: em 1917, julga que a criação de um setor específico de mulheres no Partido Bolchevique possa levar a uma separação por sexo no proletariado; mas, em 1918, muda de posição e compreende a luta das mulheres como parte da luta socialista, que deveria ter a colaboração dos dois gêneros. O debate sobre a importância e/ou a necessidade de um departamento que atue especificamente sobre as questões relativas às trabalhadoras e às camponesas continuará por muito tempo no movimento operário.

Uma das dirigentes de maior relevo no trabalho entre as mulheres, defensora e dirigente da Z. até seu fechamento, foi Inessa Armand: introduziu, na prática da Z., métodos verdadeiramente eficazes e inovadores na época, que se tornaram as principais ferramentas utilizadas pelos bolcheviques para mobilizar as massas femininas e conquistá-las para a revolução. Nas assembleias de delegadas e nas reuniões de mulheres sem partido, as representantes da Z. pediam às mulheres para explicarem o que elas mais queriam e o que consideravam mais urgente realizar. A seguir, com a ajuda do partido, construíram centros para a infância, cozinhas comunitárias, lavanderias, centros de alfabetização e escolas, e controlaram seu correto funcionamento. Dois milhões de trabalhadoras e camponesas foram mobilizadas neste trabalho.

O departamento ocupou-se também de outras atividades, como a agitação política, a organização de conferências e de propaganda com a publicação de artigos semanais e do jornal mensal Kommunistka, com o objetivo de alcançar um grande número de mulheres trabalhadoras, camponesas e donas de casa não organizadas no partido.

Em 1920, Armand, sob o pseudônimo Helene Blonina, publica um artigo no número 17 do Boletim Comunista, intitulado A operária na Rússia soviética, no qual explica em detalhes como se modificou, depois da revolução, a condição da mulher russa e que papel o Partido Bolchevique estava desempenhando em tal mudança, especialmente no que diz respeito ao trabalho realizado pelas militantes da Z.: “Podemos dizer sem nenhum exagero (…) que os resultados alcançados neste ano superaram nossas expectativas. Um ano atrás, só existia um pequeno grupo de operárias conscientes; o clima do restante da massa operária era revolucionário, mas ainda instintivo, inconsciente, desorganizado. Agora, formaram-se quadros suficientemente numerosos de operárias conscientes – membros do Partido Comunista“.

As resoluções da Terceira Internacional e a questão da mulher
O programa da Terceira Internacional sobre a questão da mulher incorpora as experiências soviéticas. Adotada em junho de 1921, a Tese sobre o trabalho de propaganda entre as mulheres reafirma “que não há questões femininas específicas”, ou seja, que não há problemas que preocupem a mulher que não sejam ao mesmo tempo uma questão social mais ampla, de interesse vital para o movimento revolucionário, pelo qual devem lutar tanto os homens quanto as mulheres.

São aprovadas as diretrizes para o movimento comunista feminino, prevendo uma organização nacional e internacional das bolcheviques, de tal forma que: “As mulheres pertencentes ao partido comunista de um determinado país não devem ser reunidas em associações separadas, mas inscritas como membros efetivos, com igualdade de direitos e deveres nas organizações regionais do partido e convocadas para colaborarem em todas as instâncias do partido. O Partido Comunista, no entanto, toma medidas específicas e cria órgãos especiais que se encarregam da agitação, da organização e da formação das mulheres”.

É, para tanto, estabelecido um “comitê de agitação entre as mulheres” em cada organização regional e distrital, com a missão de promover a filiação e a atuação das mulheres no partido, no sindicato e em todas as organizações de luta do proletariado, de encarregar-se da formação teórica e política das militantes do partido, de organizar mobilizações e conferências. Cada comitê deve trabalhar em estreito contato com a direção, de cuja aprovação dependem todas as medidas e resoluções. Na direção nacional do partido, é prevista a existência de uma comissão nacional de agitação e uma secretaria nacional de mulheres, que se comprometem a assegurar contatos constantes e regulares com os comitês [de agitação entre as mulheres] dos vários níveis territoriais.

No que diz respeito à organização internacional, a resolução afirma que “cria-se uma secretaria internacional de mulheres no Executivo da Internacional, composta de três a cinco companheiras, propostas pela Conferência Internacional das Comunistas e confirmadas pelo Congresso da Internacional Comunista ou, como seu representante, pelo Executivo. A Secretaria Internacional de Mulheres trabalha de comum acordo com o Executivo da Internacional, à qual está vinculada, para a aprovação das deliberações e das medidas adotadas. Uma representante da Secretaria participa de todas as sessões e dos trabalhos do executivo, com voto consultivo sobre questões gerais e deliberativo sobre questões específicas do movimento feminino. As suas tarefas são: 1. manter contato ativo com as secretarias nacionais de mulheres de cada partido comunista e a manutenção da relação; 2. recolhimento do material de agitação e documentação relacionada à atividade de cada secretaria nacional para eventuais consultas“.

Este evento, de importância histórica para o movimento socialista mundial, traçou um programa e uma orientação para o trabalho entre as mulheres que, pela sua clareza e coerência com os princípios do marxismo, até hoje não foi superado por nenhuma outra organização operária. É por isso que continua sendo válido.

Tradução: Alberto Albiero

Originalmente publicado no Portal da LIT-QI

Um olhar marxista sobre a prostituição

A posição da mulher é o indicativo mais claro e eloquente para avaliar um regime social e a política do Estado. (Leon Trotsky, Escritos, 1938)Resultado de imagem para prostituição no brasil

Por: Rosa Cecilia Lemus

Se tomarmos esta frase de Trotsky como critério, o regime social capitalista e a política de seus Estados em todo o mundo não passam pela prova dos fatos. As estatísticas sobre a violência contra as mulheres, que suas próprias instituições, como a ONU, qualificaram como uma pandemia mundial, os dados sobre a pobreza que mostram que as mulheres são 70% dos pobres em todo o mundo, a quantidade de mortes de mulheres decorrentes de abortos inseguros, o índice crescente de gravidez não desejada na adolescência, o corte de seus direitos sociais produto dos planos de austeridade, os números assustadores sobre a prostituição, o tráfico de pessoas e a exploração sexual infantil: tudo isso são indicativos claros e eloquentes.

Na década de 1990 do século passado, quando ficou conhecida publicamente a restauração do capitalismo nos antigos Estados operários, a burguesia mundial não pôde esconder sua alegria e declarou em alto e bom som a “supremacia do capitalismo sobre o socialismo”. Seu porta-voz mais ousado, Fukuyama, apressou-se em sepultar a luta de classes de uma vez por todas. Em seu lugar, teríamos o reino da reconciliação, o progresso e o bem-estar para todos. Estará hoje engolindo suas palavras? Ou dirá que os dados dos organismos mundiais do imperialismo estão equivocados?

Como não se pode ocultar a realidade, desenvolveram e continuam desenvolvendo mudanças profundas na linguagem e nos conceitos (significados), com a ilusão de que isso a altere. Impossível. No entanto, isso produziu seus efeitos em algumas classes, especialmente na pequena burguesia arrivista e na moderna classe média. Um exemplo é o que aconteceu este ano na Grécia. Tsipras, primeiro-ministro, e Varoufakis, seu ex-ministro da Economia, apresentaram sua primeira negociação com o imperialismo europeu como um grande triunfo por meio da mudança de nomes: “Troika por instituições” e “imperialismo por sócios”. O pior é que acreditaram que, daquele momento em diante, o imperialismo alemão e o francês lhes tratariam como “sócios”. A realidade, muito obstinada, demonstrou que, por mais mudanças que sejam feitas na linguagem, os imperialistas continuam tratando a Grécia como um país semicolonial onde se faz o que a troika ordena.

A verdade, ainda que pareça incrível, é que o enfoque é bem idealista. A ideia não muda a realidade, a não ser que se transforme em ação. A existência determina a consciência. Neste labirinto, a linguagem se transformou em um verdadeiro eufemismo. Chamam o imperialismo de “comunidade internacional”; as classes sociais, de “extratos” ou “castas”, ou simplesmente não existem, somos somente cidadãos. Referem-se à prostituição como “trabalhadoras do sexo”, com a ilusão de que ao usar a palavra trabalhadoras, porque o trabalho “dignifica” o homem e a mulher, desapareçam pela arte da linguagem as profundas implicações sociais, econômicas e psicológicas para as mulheres que a exercem e para o conjunto da sociedade. Um alívio para a consciência pesada. Assim, os homens que usam e abusam delas podem ir tranquilos porque deram “trabalho” a uma mulher que terá dinheiro para comprar comida para os filhos e a mulher se sente bem porque estava trabalhando.

No entanto, independentemente das ideologias que cada um dos implicados faça de si mesmo, a realidade volta a colocar as coisas em seu lugar. O fato de que milhões de mulheres no mundo tenham que vender seu corpo para poder sobreviver e manter suas famílias, caso as tenham, ou que exista um número crescente de meninas e meninos que nem sequer entendem por que têm que fazer “isso”, é uma chaga desta sociedade capitalista.

Este sistema capitalista nem sequer lhes oferece a oportunidade de vender sua força de trabalho para serem explorados por um empresário, produzindo mercadorias que lhes são alienadas porque, apesar de serem produtos de seu trabalho, não lhes pertencem. As crianças submetidas a esta escravidão não entendem por que, ao invés de brincar e aproveitar sua inocência, têm que ser exploradas e usadas por um adulto.

Esta realidade não muda por mais que utilizem, para justificá-la e legitimá-la, políticas que vão desde a legalização até a regulamentação e a penalização da prostituição. O capitalismo e seus Estados são incapazes de erradicar esta forma de violência contra as mulheres, as crianças, os gays, as lésbicas e as travestis, porque são funcionais para o seu sistema de exploração.

A “profissão” mais antiga do mundo?

Os escritores a serviço da burguesia, em seus tratados sobre o tema, repetem a expressão “a profissão mais antiga do mundo” e até as pessoas comuns se referem à prostituição da mesma forma. O que se esconde por trás desta afirmação? Em primeiro lugar, procuram dar-lhe um significado de eternidade, ou seja, que não é possível mudar o que a história definiu como um fato “característico” e inato à espécie humana. Em segundo lugar, conferir-lhe um sentido “respeitável” de profissão ou ofício.

No entanto, sob o ponto de vista do marxismo e a partir das pesquisas feitas por antropólogos destacados como Morgan e Bachofen, Friedrich Engels, em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, mostra como a prostituição, que não existia nos primeiros estágios do desenvolvimento da humanidade, nasce como um fato social determinado pelas condições de “produção e reprodução da vida imediata”, que provoca mudanças na superestrutura institucional, familiar e jurídica, e que se consolida com o surgimento da monogamia e da propriedade privada dos meios de produção.

“Como dissemos, há três formas principais de matrimônio, que correspondem aproximadamente aos três estados fundamentais da evolução humana: no estado selvagem, o matrimônio por grupos; na barbárie, o matrimônio sindiásmico; na civilização, a monogamia com seus complementos, adultério e prostituição. Entre o matrimônio sindiásmico e a monogamia intercalam-se, na fase superior da barbárie, a sujeição das mulheres escravas aos homens e a poligamia“. (Editores Mexicanos Unidos, p. 83, sublinhado nosso).

Na mesma obra, Engels afirma que “a abolição do direito materno foi a grande derrota do sexo feminino”, referindo-se ao fato de que, na medida em que as forças produtivas vão se desenvolvendo, e com elas a fortuna e a acumulação, a definição do parentesco e da herança pela linha materna começava a aparecer como um obstáculo para os homens, que eram os donos dos rebanhos, pois os descendentes dos membros masculinos não permaneciam na gens e, portanto, não podiam herdar.

Desta forma, ao mesmo tempo em que o direito materno vai desaparecendo, “vai-se tirando cada vez mais das mulheres a liberdade sexual do matrimônio por grupos, mas não dos homens“. A infidelidade da mulher começa a ser considerada um crime grave, enquanto que no homem é vista como um comportamento honroso.

Engels continua:

“Porém, quanto mais o heterismo (prostituição) antigo se modifica em nossa época pela produção capitalista à qual se adapta, mais se transforma em franca prostituição e mais desmoralizadora se torna a sua influência. E, na verdade, desmoraliza mais os homens do que as mulheres. A prostituição, entre as mulheres, degrada somente as infelizes que a ela se dedicam, e mesmo a estas em um grau muito menor do que se costuma acreditar. Em compensação, envilece o caráter do sexo masculino inteiro” (idem).

O que Engels quer dizer com esta afirmação tão contundente de que a prostituição envilece o sexo masculino? Em primeiro lugar, porque o surgimento da prostituição aparece paralelamente à necessidade do homem de estabelecer o direito de herança de sua propriedade privada a seus próprios filhos e não aos de outros e, portanto, precisa da fidelidade absoluta da mulher para garanti-lo. Porém, ele se reserva sua liberdade sexual completa por meio da poligamia e da prostituição. Escraviza a mulher duplamente, como propriedade privada para a reprodução de sua prole e como prostituição pública para satisfazer sua luxúria. Em outro sentido, poderíamos interpretar que a mulher que se vê obrigada a se prostituir para poder sobreviver o faz por necessidade; o homem que paga por isso, para simples satisfação de seu desejo sexual, transforma desta maneira a mulher em mero objeto, em uma mercadoria com valor de uso.

A prostituição e a monogamia na sociedade moderna capitalista continuam sendo verdadeiras antinomias, mas inseparáveis, dois polos do mesmo estado social. O capitalismo poderá resolver esta contradição que está em sua base material? Acreditamos que não. Esta contradição se aprofundou nos últimos tempos. Por um lado, com sua necessidade de incorporar grandes massas femininas à produção social, mas sem poder absorver a totalidade, produto das leis capitalistas do mercado, deixa enormes contingentes fora do aparelho produtivo, obrigando-as a recorrer à prostituição como forma de sobrevivência. Por outro lado, criou verdadeiras indústrias do sexo, transformando uma necessidade humana em mercadoria, aprofundando a visão da mulher como objeto sexual, como fonte de lucro.

Karl Marx, em seus escritos sobre a alienação do trabalho, já mostrava a essência do capitalismo de uma forma tão magistral que não perde sua vigência.

“Chegou um tempo em que tudo o que os homens vinham considerando como inalienável tornou-se objeto de troca, de tráfico e podia ser alienado. É o tempo em que inclusive as coisas que até então eram transmitidas, mas que nunca eram negociadas; eram doadas, mas nunca vendidas; eram adquiridas, mas nunca compradas: virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc., tudo, em suma, passou para a esfera do comércio. É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal, ou, para nos expressarmos em termos de economia política, o tempo em que cada coisa, moral ou física, transformada em valor de troca, é levada ao mercado para ser apreciada em seu mais justo valor.” (Karl Marx, A miséria da Filosofia).

E isso que Marx aponta como uma característica da sociedade baseada no modo de produção capitalista cobra seu preço máximo na classe despossuída dos meios de produção, a classe operária. O capital não só os expropria do produto do seu trabalho como também submete suas vidas inteiras a suas leis de mercado, segundo as quais os operários, homens e mulheres, não têm outro caminho que não seja vender sua força de trabalho como mercadoria por salários miseráveis. Que lhes resta para desfrutar?

“Junto aos excessos do hábito de beber, os excessos sexuais constituem um dos principais vícios de muitos operários ingleses. É, além disso, uma consequência fatal, uma necessidade inelutável da situação de uma classe abandonada a si mesma, que carece dos meios para fazer um uso conveniente desta liberdade. A burguesia somente lhe deixou estes dois prazeres, ao mesmo tempo em que os encheu de todo tipo de desgraças e dores: a consequência é que os operários, para desfrutar ainda que seja um pouco da vida, concentram toda sua paixão em torno destes dois prazeres e se entregam a eles com excesso e da forma mais desordenada. Quando se coloca a pessoa em uma situação que só pode convir a um animal, não lhe resta alternativa a não ser rebelar-se ou sucumbir à bestialidade. E se, além disso, a própria burguesia contribui diretamente com o desenvolvimento da prostituição – quantas das 40.000 jovens que a cada noite enchem as ruas de Londres vivem por conta da virtuosa burguesia?, quantas devem à sedução de um burguês o fato de estarem obrigadas hoje a oferecer seu corpo a todo aquele que passe para poderem viver?– a burguesia tem verdadeiramente, menos que ninguém, o direito de recriminar a classe operária por sua brutalidade sexual.” (Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra.)

Tento demonstrar – e espero ter conseguido–, para aqueles leitores com consciência crítica, para aquelas mulheres trabalhadoras que se indignam com as tragédias humanas, para aqueles e aquelas que não apenas se satisfazem em contemplar o mundo mas que querem transformá-lo, que a opressão da mulher e a prostituição, como uma de suas expressões mais brutais, não é eterna nem é uma profissão. É uma das consequências mais atrozes da opressão e da exploração capitalistas.

Os números da prostituição, do tráfico de pessoas e do negócio do sexo

Observando vários estudos atuais de diferentes organismos, vemos que quase todos concordam que o negócio do tráfico de pessoas, a internacionalização das máfias que o sustentam, a prostituição infantil e o negócio da pornografia cresceram a níveis escandalosos. Coincidem também que a maioria das pessoas recrutadas de maneira forçada são mulheres e que entre elas uma alta porcentagem é de menores de idade, e a finalidade da sujeição é a exploração sexual. A grande maioria provém de países pobres da Ásia, América Latina e Caribe, e seu destino são os países ricos da Europa, Japão e do Oriente.

Em 1o de junho de 2012, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou seu segundo estudo mundial sobre o trabalho forçado. Este informe calcula que a escravidão moderna ao redor do mundo produz cerca de 20,9 milhões de vítimas. Este resultado reconhece que o tráfico de pessoas se define por exploração, não por movimento. A OIT calcula que 55% das vítimas do trabalho forçado são mulheres e meninas, e que 98% são para comércio sexual. O primeiro cálculo da OIT sobre trabalho forçado, em 2005, foi de 12,3 milhões de vítimas entre este e o tráfico com fins de comércio sexual, ou seja, em 7 anos aumentou quase o dobro. Por região, a Ásia e o Pacífico (que inclui o sul da Ásia) continuam tendo o maior número de vítimas, ainda que se assinale que na África cresceu depois de 2005.

A Relatoria Especial da ONU sobre a venda de crianças, a prostituição infantil e a utilização delas na pornografia, em seu informe de 2013 afirma o seguinte:

“Desde 2008, o mundo sofreu mudanças consideráveis que tiveram importantes repercussões no alcance e no caráter da venda e da exploração sexual de crianças. O avanço da globalização, a contínua expansão da utilização da Internet, em particular nos países em desenvolvimento, o aumento das migrações – tanto internacionais como internas – devido em particular à urbanização, à crise econômica e financeira, às catástrofes naturais, aos conflitos e às mudanças relacionadas ao clima, são outros tantos fatores que incidiram na vulnerabilidade das crianças”.

O Informe Mundial sobre o Tráfico de Pessoas de 2012, publicado pelo Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Delito, indica: “os casos detectados de tráfico de crianças representavam 27% no período compreendido entre 2007 e 2010, proporção que era de 20% entre 2003-2006”. Os dados mostram um aumento significativo entre os dois períodos citados. Nos últimos anos, “o aumento foi maior no caso das meninas. Entre 2006 e 2009, a proporção de meninas em relação ao número total de vítimas passou de 13 para 17%. Duas em cada três vítimas menores são meninas”. E continua: “Ainda que as tendências não sejam homogêneas em nível mundial, o informe indica que em mais de 20 países se registrou um claro aumento da proporção de casos detectados de tráfico de crianças no período 2007-2010 em relação ao período 2003-2006. É importante destacar que, na África e no Oriente Médio, mais de dois terços das vítimas detectadas do tráfico de pessoas são crianças. Em nível mundial, o tráfico com fins de exploração sexual representa 58% do número total de casos detectados”.

Como se não bastasse, o Informe também assinala uma modalidade arrepiante: o tráfico de órgãos. “Segundo vários estudos sobre o tema, aumentou o ‘turismo’ para transplantes de órgãos (…) Pessoas procedentes de países de alta renda viajam para zonas pobres em que existem pessoas dispostas a vender seus órgãos para poder sobreviver. Em vários estudos foi destacado que os membros mais vulneráveis da população são particularmente afetados por este delito”. Os membros mais vulneráveis da população, isto é, as crianças, as mulheres, os jovens (evidentemente os que pertencem à classe trabalhadora e seu exército de reserva), os desempregados e os setores populares mais empobrecidos, que vivem na periferia das grandes cidades, entre os quais também está a população negra.

Novamente, o Informe da Relatoria Especial da ONU se refere à modalidade da pornografia infantil:

“A utilização indevida da Internet para difundir pornografia infantil é muito frequente. Segundo as estimativas, o número de imagens de abusos de crianças na Internet é da ordem de milhões e o número de crianças representadas individualmente provavelmente chegue a dezenas de milhares. Em geral, a idade das vítimas diminuiu e as representações são cada vez mais explícitas e violentas. É cada vez mais frequente que as imagens sejam difundidas mediante redes de troca de arquivos entre pares, o que torna mais difícil sua detecção.”

Estimativas das Nações Unidas calculam que este “negócio” produz anualmente lucros de 5 a 7 bilhões de dólares. Segundo a revista Forbes, a pornografia movimenta a cada ano cerca de 60 bilhões de euros no mundo e tem uns 250 milhões de consumidores. E outro dado interessante é que, entre 1998 e 1999, as mulheres dos países do Leste Europeu começaram a ser vistas exercendo a prostituição nas ruas. Ou seja, após a restauração do capitalismo. A prostituição e o tráfico de pessoas estão associados a negócios como o tráfico de drogas e o contrabando de armas.

Detivemo-nos em informes dos organismos oficiais e nos números que eles mesmos reconhecem para mostrar que não estamos exagerando quando denunciamos esta crua realidade. O capitalismo, fundado sobre os ideais da revolução francesa que proclamavam “liberdade, justiça e fraternidade”, demonstrou e continua demonstrando que esses ideais são aplicados somente para os vencedores, isto é, para a burguesia mundial, que na fase de desenvolvimento imperialista não deixa pedra sobre pedra para manter suas taxas de lucro em alta. É justa a expressão “escravos do capital”, porque não só neste terreno da exploração sexual, mas também em importantes áreas e zonas do planeta, ramos da produção social de mercadorias estão adotando verdadeiras formas de escravidão, com as famosas “maquiladoras” e os barcos-fábrica em alto mar. Esta sociedade capitalista está mostrando formas incríveis de barbárie. Recordemos apenas um fato mais: os desastres provocados pelo aquecimento global e as imagens dos imigrantes que chegam aos milhares aos países europeus e que são tratados com repressão. Quantos deles são mulheres e quantas delas serão empurradas para a prostituição?

A mulher como objeto sexual

A prostituição confirma, diariamente e a cada instante, que a mulher é transformada em uma mercadoria que pode ser consumida pelos homens para satisfazer seus apetites sexuais. Não importa sua idade. Agora também setores LGBTT são jogados na prostituição pela homofobia que os discrimina no trabalho e na sociedade. Outro dos setores oprimidos que tem o mesmo destino de muitas mulheres. Mas (que coincidência!), por trás de todos esses delitos, sejam os relacionados com a prostituição, com a pederastia, com os estupros, com a criação de redes de pornografia ou com o uso delas, com as redes de tráfico de pessoas, estão os homens em quase 100% dos casos. O que há por trás desta obsessão tão perversa e agressiva em relação ao sexo?

Há quem argumente que “estudos científicos” demonstram que os homens e as mulheres possuem de maneira “natural” diferenças importantes quanto aos desejos sexuais. Assim, o desejo masculino é mais forte, incontrolável, difícil de domesticar ou, dito de forma grosseira, “a testosterona alvoroçada, desatada, incontrolável”. À parte estudos sérios de alguns sexólogos, voltamos a encontrar as explicações na esfera do social, da criação da cultura.

Um dos meios mais utilizados hoje em dia por todos os setores da produção é a publicidade, o marketing. Outro grande negócio para desenvolver a fundo a circulação das mercadorias, para utilizar as necessidades e criar outras novas, apoiando-se nas imagens, na linguagem e seus efeitos subjetivos nas consciências ou, dito de modo mais moderno, para influenciar ou criar os imaginários coletivos. Porém, esses imaginários coletivos, ideias pré-concebidas que já têm suas bases objetivas, são levados até o paroxismo pelos meios massivos de difusão para levar ao limite as necessidades do mercado, de um capitalismo que, com suas crises recorrentes de superprodução, busca neste mesmo mercado o fluxo desesperado das mercadorias com uma vida útil cada vez mais curta.

Assim, neste contexto, entra com força renovada a imagem da mulher como símbolo sexual, como objeto usado para promover a venda de outras mercadorias. Geralmente costuma ser uma mulher jovem e bonita, de proporções exuberantes que aparece despida, escassamente vestida ou vestida de maneira muito sugestiva. O efeito desejado é chamar a atenção do sexo masculino, como apelo erótico. Seja para promover um carro ou uma moto, essa mulher, que está fora do alcance de muitos homens, transforma-se assim em seu imaginário, por arte e magia da mensagem subliminar, em um produto alcançável se ele comprar o produto que ela anuncia. A mulher serve também como símbolo do sucesso masculino, como um troféu. Segundo a cultura machista desta sociedade, qualquer homem que se preze deve ter ao seu lado uma mulher de grande estilo e beleza, símbolo externo de sua riqueza. Assim, a mulher se transforma em apenas outra das posses que o homem precisa ter para significar sua posição social ou sua virilidade.

Esta cultura machista que golpeia a cada minuto, em cada momento, as mentes dos consumidores com verdadeiras rajadas de imagens, com o objetivo de reforçá-la, de legitimá-la, está na base do que chamam de “crimes passionais”, feminicídios. Na realidade, esta violência é desatada pela ideia de que “se esta mulher não é para mim, não é para ninguém”, justificativa registrada nas crônicas escandalosas dos jornais de todo o mundo, com este ou com outro argumento também comum: “cego pela raiva da infidelidade de sua mulher”. Estupros nas ruas, agressões verbais, psicológicas, olhares atrevidos, lascivos, enfim, todo esse tipo de violência, tão comum e cotidiana, tem como base de reforço este conceito da mulher como objeto sexual.

A outra cara é a mulher símbolo dona de casa. Nos comerciais, aparece uma mulher vestida com seu avental, promovendo um produto de limpeza ou de cozinha, ou de comida para crianças. Todos esses papéis são associados à sua função de escrava do lar, de senhora da casa, de mãe. Neste espaço ela é quem decide, e o homem aparece com um papel secundário. Ela, além de dona de casa, também trabalha, é uma mulher moderna, que depois de utilizar os produtos que o mercado lhe oferece para ”aliviar” suas tarefas do lar, sai correndo para trabalhar. É uma mulher “empoderada”, é uma guerreira que faz de tudo e, além disso, mantém-se bonita e bem cuidada. E essas mesmas ideias se repetem de maneira infinita nas novelas, nas revistas, nas notícias, no cinema, nas canções, na educação. É a reprodução das ideias dominantes impostas pela classe dominante pela força do hábito.

Legalização ou abolição?

“No mundo há quatro enfoques para tratar a prostituição. O “proibicionista”, baseado na repressão penal por parte do Estado, em que o cliente é a vítima e pretende-se salvaguardar a moral; o “regulamentarista”, que ao não poder combater a prostituição busca regulamentá-la; o abolicionista, que toma medidas penais contra os proxenetas e clientes, e o enfoque laboral ou legalista, em que a prostituição é considerada um trabalho.” (Revista SEMANA, Colômbia ,18/08/2015).

A propósito da reunião dos delegados da Anistia Internacional de todo o mundo, em que esta ONG faz um chamado para aplicar uma política de descriminalização absoluta da prostituição realizada com “consentimento”, essa revista faz um artigo contemplando esses quatro enfoques. Teríamos que dizer que são, é claro, quatro formas com as quais os Estados capitalistas estão tratando o problema da prostituição. Para esclarecer, são políticas burguesas. O debate foi colocado na ordem do dia, produto dos informes da ONU e da OIT registrados neste artigo.

Grande parte das inúmeras ONGs que existem em diferentes países adotaram o enfoque “legalista”, em que a prostituição é considerada uma “profissão”, e argumentam a partir de uma posição humanista de defesa dos direitos humanos, de respeito pelos direitos sociais de quem a exerce e contra a discriminação de suas vítimas. Evidentemente, a visão também burguesa de considerar os “clientes” como vítimas da “tentação” que umas “mulheres imorais” lhes provocam merece nossa condenação por ser a expressão mais pura de sua dupla moral, pois penaliza e persegue as vítimas que eles mesmos criam e recriam. É um caso parecido ao do ladrão que rouba uma galinha para dar de comer a seus filhos porque não tem trabalho e é condenado a longos anos de prisão, enquanto os ladrões de colarinho branco que saqueiam os cofres públicos são condenados à prisão domiciliar em suas mansões.

É evidente que também concordamos que todas, absolutamente todas as mulheres tenham direito à previdência social e à assistência médica, financiada e prestada pelo Estado como uma obrigação, sem discriminação de nenhum tipo, assim como deve existir para o conjunto da população, e com maior razão para os trabalhadores e os setores mais pobres. Defendemos que as mulheres dedicadas à prostituição tenham, por parte do Estado, capacitação para o trabalho, e que seu emprego também seja garantido pelo Estado. Se elas se organizarem para isso, estaremos dispostas a apoiá-las. Da mesma forma que as defenderemos de qualquer tipo de repressão ou maus-tratos.

Porém, a partir daqui, estamos absolutamente contra a legalização da prostituição ou qualquer outra política burguesa para regulamentá-la. Defendemos o fim da prostituição e de todas as formas de mercantilização do corpo da mulher. A política da Anistia Internacional, de legalizá-la para quem a exerce “com consentimento” e penalizar o tráfico de pessoas, é uma armadilha.

É falso que haja consentimento das mulheres dedicadas a isso, porque ainda que em alguns casos seja produto de uma decisão pessoal, esta se dá sobre a base de não ter mais alternativas, obrigadas pela falta de trabalho e por suas condições sociais de existência. Essa política elimina a existência de proxenetas, ou simplesmente mudará sua denominação, chamando-os respeitavelmente de “empresários”? Por acaso evitará a violência e o mau trato dos “clientes” em relação a elas? Dentro da lógica do mercado, por acaso quem compra uma mercadoria não tem o direito de “consumi-la“ como bem entenda?

Não apenas grande parte das ONGs como também organizações políticas que se reivindicam de esquerda defendem esta postura da legalização com argumentos como, por exemplo, o fato de que existem mulheres que se prostituem por livre escolha e com plena consciência de sua liberdade sexual. Pode ser que exista uma minoria que se prostitua por escolha própria e inclusive mulheres burguesas que o façam pela emoção da aventura, para escapar de sua vida inútil, colocando alguma adrenalina na prostituição legal de seu casamento por interesse. Mas isso não tem nada a ver com a prostituição massiva que existe na sociedade. A prostituição está intimamente ligada à exploração do homem pelo homem; em nossa época, à exploração capitalista e à destruição humana produzida por esta.

Temos uma prova irrefutável em Cuba: uma das maiores conquistas da revolução foi que, junto com a expropriação da burguesia, acabou-se com a prostituição, não a partir da repressão e sim mediante a reeducação e a localização dessas mulheres em trabalhos produtivos, que dessa forma recuperaram sua dignidade. Com a restauração do capitalismo, a prostituição também voltou e as “jineteras” se transformaram em uma das maiores atrações do turismo sexual que prolifera na Ilha.

Mas não é só isso. Essas mesmas correntes, utilizando a teoria marxista sobre a produção de mercadorias, afirmam: é um trabalho como qualquer outro, porque a mulher vende sua força de trabalho e produz mais-valia para um patrão. O problema é que as mulheres que são obrigadas a se prostituir não vendem só a sua força de trabalho, vendem seus corpos, sua dignidade. Por isso, assemelha-se muito mais à venda de mulheres que se fazia durante a escravidão. E nós estamos totalmente contra legalizar e regulamentar a escravidão, que só beneficia os escravistas.

Estudos realizados em alguns países, fundamentalmente os europeus, onde a prostituição foi legalizada, demonstraram que os principais beneficiários dessa política foram os “empresários” do sexo, enquanto os índices de prostituição infantil e de mulheres aumentaram. Sua consequência fiscal foi o pagamento de impostos, engordando os cofres do Estado. O remédio resultou pior que a doença.

A Suécia, onde existiu a legalização até 1999, tomou uma decisão drástica e mudou sua legislação. A prostituição é agora considerada um aspecto da violência masculina contra as mulheres e crianças. É reconhecida como uma forma de exploração das mulheres, e como um problema social significativo. Penaliza a compra de serviços sexuais, descriminaliza a venda desses serviços e, mais recentemente, aprovou recursos para ajudar as mulheres que quisessem sair de seu exercício, com planos de capacitação em um trabalho. O resultado é que os índices de prostituição diminuíram notavelmente e o tráfico de mulheres e crianças quase desapareceu.

Essa experiência, em um país capitalista, mostra que é possível avançar nesse sentido, e que a luta por reivindicações democráticas das mulheres, por exemplo, o direito ao aborto legal, gratuito e livre, o direito ao trabalho em condições dignas, devem ser levantadas e exigidas com força pelos trabalhadores em seu conjunto. E que não basta diminuir os índices de prostituição, é necessário eliminá-la completamente. Isso será possível em uma sociedade na qual os meios de produção não estejam nas mãos de uns poucos, mas pertençam ao conjunto da sociedade, na qual as mulheres participem plenamente na produção social. Como Marx afirma no Manifesto Comunista: “É evidente, por outro lado, que com a abolição das relações de produção atuais desaparecerá a comunidade das mulheres que delas se derivam, isto é, a prostituição oficial e privada”.

Lutamos por uma sociedade completamente diferente do capitalismo, uma sociedade socialista na qual as relações humanas, e dentro delas as dos sexos, possam ser fundadas sobre outra moral, a da solidariedade e do bem comum, verdadeiramente livres dos condicionamentos econômicos burgueses, livres de todo tipo de opressão e submissão, livres da comercialização e da coisificação, na qual transmitir, doar, entregar, adquirir, ou na qual “cada coisa, moral ou física” não esteja sujeita à miserável lei do valor capitalista.

Tradução: Nea Vieira
Fonte: LIT-QI

20 dias e a pergunta persiste: Quem matou Marielle?

Há 20 dias Marielle Franco, vereadora do PSOL/RJ era assassinada. Como já relatado em outras matérias, Marielle era uma ativista dos Direitos Humanos que atuava na periferia do Rio de Janeiro prestando auxílio a comunidade de baixa renda, a familiares de PMs assassinados, a comunidade LGBT+, a gestantes e muito mais. Marielle era da comissão que avaliava a Intervenção federal no Rio de Janeiro, denunciava crimes contra jovens negros cometidos por policiais militares e acabou sendo silenciada de forma cruel, tendo seu motorista, Anderson Gomes, pai de família, também assassinado junto a ela.
Ainda não se tem respostas, mas muitas especulações.
Porque Marielle foi executada?
Quem executou?
A mando de quem?
Quem se beneficiaria com a morte dela?
A quem suas denúncias atingiam?

Essas perguntas ficam no ar e tudo que pedimos é que a justiça verdadeira seja feita e que Marielle não seja esquecida.

Semelhante a outros crimes de ativistas que ficaram na história como a missionária Dorothy Stang, crime que demorou a ser revolvido e os fazendeiros que a executaram foram condenados cheios de regalias, não queremos que o caso Marielle seja jogado à sorte.

Quem silenciou Marielle acabou despertando uma multidão de pessoas que não deixarão passar batido!