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Autora do blog Uma Travesti Marxista

A origem do feminismo radical trans-excludente: a expulsão de Beth Elliott

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Foto de Beth Elliot, por volta de 1970

Por Jéssica Milaré

É comum se deparar com alguma “polêmica” nas redes sociais entre as feministas radicais trans-excludentes contra pessoas trans. De fato, as trans-excludentes representam uma corrente que surgiu dentro do feminismo radical na década de 1970, dividindo-o em dois grupos: um que defende abertamente a exclusão de mulheres trans, e o outro que não se opõe à presença delas no movimento feminista. O primeiro grande evento em que essa divisão ocorreu foi a Conferência Feminista Lésbica da Costa Oeste, em Los Angeles, nos EUA, em abril de 1973.

Daughter of Bilits, 1972

Em 1971, Elliott tornou-se membro do coletivo feminista lésbico Daughter of Bilits, o que deu origem a uma forte polêmica. Foi decidido que ela poderia participar. Porém, no final de 1972, Bev Jo von Dohre, ex-amiga de Beth, acusou esta de tê-la assediado sexualmente em 1969. Entretanto, a própria descrição do “assédio sexual” em um texto da Bev Jo mostra que não houve assédio sexual: Bev Jo confessa que Beth Elliot não encostou um dedo na Bev Jo nem a ameaçou.

Eu me senti perseguida por ele [Elliot] por mais de 40 anos, mas eu não posso me afastar dele nem mesmo em espaços “somente para mulheres”. Eu acho que é ultrajante que qualquer lésbica ou mulher [sic] deveria ter que ver um homem que a assediou em um espaço que deveria ser seguro. (Este homem não me pressionou além disso, mas por favor lembre-se de que todos esses homens têm um passado e assuma que muitos deles teriam estuprado meninas ou mulheres. Eles são HOMENS, afinal de contas).

Von Dohre. Defining Lesbians Out Of Existence. Grifo nosso.

Perceba que, se Elliott tivesse realmente cometido assédio sexual, Bev Jo não confessaria que Elliott “não me pressionou além disso”, nem se basearia em pura especulação de que as mulheres trans teriam estuprado outras mulheres antes da transição. Beth pode ser acusada de carência (o que é comum entre pessoas trans, já que nós somos rejeitadas socialmente) e de manter uma relação nada saudável, mas não de assédio sexual.

Eu podia sentir Elliot me observando pelos meses que se seguiram, e, se eu parecia começar a ser amiga de outros homens, ele ficava com raiva e chorava. Em me transferi para outra escola para tentar ficar com Marg, mas ainda mantive contato com Elliot. Ele disse que se apaixonou por outra lésbica e que ela tinha transado com ele como se ele “fosse uma mulher”. Ele também me disse que transou com um homem. Depois de um tempo, ele decidiu que era uma lésbica e escolheu o primeiro nome o mais próximo possível ao meu e pintou seu cabelo com um vermelho semelhante ao meu. (Isso não é de arrepiar?).

Von Dohre, op. cit.

Por que ter um nome parecido e um cabelo da mesma cor seria “de arrepiar”? Ora, porque ela tem ódio das mulheres trans.

É engraçado como eles [as mulheres trans] estão tão acostumados que as feministas imediatamente se curvem pra eles que eles não sabem lidar com quando nós não nos importamos com o que acontece com eles. Eles esperam que nós fiquemos chocadas com as estatísticas sobre eles sendo mortos, mas não percebem que algumas de nós desejamos que eles TODOS fossem mortos.

Von Dohre, op. cit.

Conferência Feminista Lésbica, 1973

Na conferência, um grupo denominado The Gutter Dykes distribuiu um panfleto contra a presença de “um homem” (sic), no caso, a Beth Elliott. Robin Morgan, baseando-se na acusação de Bev Jo, fez um discurso questionando a audiência por que algumas delas defendiam a “obscenidade do travestismo masculino” (sic).

Não, eu não vou chamar um homem de ‘ela’; trinta e dois anos de sofrimento e sobrevivência nessa sociedade androcêntrica me fizeram merecer o título de ‘mulher’; um passeio na rua por um travesti masculino, cinco minutos de assédio (que ele deve gostar), e ele ousa, ousa pensar que entende nosso sofrimento? Não, pelos nomes de nossas mães e pelos nossos, não devemos chamá-lo de irmã. […] Eu o acuso de oportunista, infiltrador e destruidor – com a mentalidade de um estuprador. E vocês mulheres desta Conferência sabem quem ele é. Agora. Vocês podem deixar ele entrar em nossas oficinas – ou vocês podem lidar com ele.

Robin Morgan, durante seu discurso.

Mais de dois terços das conferencistas votaram pelo direito de Beth Elliott permanecer no evento. Quando Elliott subiu no palco com seu violão para se apresentar, um grupo de feministas radicais também subiu com o intuito de expulsá-la. Robin Tyler e Patty Harrison, que também eram feministas radicais, subiram no palco para defender Elliott.

Robin Morgan subiu no palco com esse discurso horrível e, quando Beth subiu para tocar seu violão e cantar, elas começaram a ameaçá-la. Patty e eu subimos no palco e fomos agredidas, porque elas subiram no palco para fisicamente agredi-la. […] Nós subimos e defendemos Beth

Robin Tyler, em uma entrevista.

Para evitar maiores confrontos, Beth Elliott retirou-se do evento.

Com o tempo, feministas cisgêneras, radicais ou não, passaram a diferenciar-se da vertente das feministas trans-excludentes, denominando-a como trans-exclusionary radical feminism (feminismo radical trans-excludente), abreviadamente TERF.

Taísa: xingada, espancada e esfaqueada por ser trans

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Por Jéssica Milaré

É perturbador. Muitas pessoas viram o vídeo da mulher trans sendo espancada em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, por três rapazes, um deles com um pedaço de pau, em meio a xingamentos e ameaças de morte. A filmagem mostra a irmã, empregada doméstica, tentando socorrê-la, gritando “Para!”, “Chega!”, que também acabou sendo empurrada e agredida. As notícias de hoje contam mais detalhes dessa história: Taísa foi esfaqueada e espancada depois que respondeu aos xingamentos de um dos rapazes.

Taísa Silva e a irmã, Luciana Silva, entraram numa van de transporte alternativo para voltar pra casa. Nela, estavam também os três agressores, que proferiram xingamentos LGBTfóbicos a Taísa. “A gente entrou na van e esses três rapazes já estavam lá”, relatou Luciana em entrevista [2]. “Quando a gente sentou, esse menino (Rodrigo) já jogou piada para minha irmã. Ele a chamou de ‘veado’ e começou as gracinhas. A minha irmã se alterou e começou o bate-boca. Começou tudo com dois. Depois, o terceiro, que estava dormindo, acordou e se envolveu na briga.”

A agressão começou ainda dentro da van. “Com a van em movimento eles começaram a agredir (Taísa Silva)”, continuou o relato. “Foi quando para se defender ela foi pra cima deles. Nisso, eles saltaram da van e ele (Rodrigo) com uma faca tentou acertar minha irmã, que rebateu com o braço. Ela se jogou no chão, pegou a faca que tinha caído e deu um golpe nele também. Ele (Rodrigo) se alterou e os outros dois saíram da van.”

Após receber um chute de Jorge, caiu, bateu a cabeça no asfalto e ficou inconsciente. O vídeo mostra a barbárie: Taísa é repetidamente agredida enquanto está caída no chão, apenas tentando se proteger dos golpes. Um deles pega um pedaço de pau para agredi-la. Luciana, ao tentar protegê-la, é empurrada e também acaba caindo. É possível ver um deles gritando: “Não me segura!” Em um momento do vídeo, os agressores pareciam ter interrompido o crime. Porém, quando Taísa começa a se levantar, a agressão recomeça.

Segundo Luciana, as agressões pararam apenas quando algumas pessoas num ponto de ônibus que estavam próximas interviram.

Na manhã de hoje, os três rapazes foram presos e vão responder pelo crime de tentativa de homicídio.

A barbárie social

Taísa apanhou por se defender, por se não aceitar a humilhação, por erguer a cabeça. Na mente dos transfóbicos, Taísa tinha que aceitar todas as humilhações e agressões que recebeu sem responder. Permanecendo em seu suposto lugar, de cabeça baixa. O caso de Taísa não é, de forma alguma, um evento isolado. As agressões sofridas pelas travestis e mulheres trans, em especial as que sobrevivem da prostituição, são cotidianas.

Mas a violência não acontece apenas na rua. Ela acontece também dentro de casa. Ainda está na memória o caso de Leelah Alcorn, mulher trans estadunidense que foi deixada de castigo dentro do quarto por meses depois que se assumiu como mulher trans, sem nem mesmo ter acesso às redes sociais. Os pais forçaram-na a fazer terapias para “curá-la”. Depois de toda essa violência, Leelah fez um relato no seu Facebook e cometeu suicídio [4]. Várias pesquisas mostram que cerca de 40% das pessoas trans já tentaram cometer suicídio.

A violência também acontece frequentemente na escola. As pessoas oprimidas sempre são as principais vítimas do tal do bullying. Ainda está na memória o caso de uma escola em Ribeirão Cascalheira, no Mato Grosso, em que pais e mães fundamentalistas fizeram um abaixo-assinado para que uma aluna trans fosse proibida de usar o banheiro feminino. Essa aluna já usava o banheiro feminino há quatro anos, a convite das próprias amigas, pois, no banheiro masculino, quase sempre alguém passava a mão nela. Mas alguns pais e mães fundamentalistas, com o incentivo do pastor Deocarlos Villas Boas, fizeram um protesto na escola, xingaram a menina e outras pessoas que a defendiam. Queriam que a escola construísse um terceiro banheiro pra ela! Sim, defendiam um novo apartheid para pessoas trans, assim, na cara dura!

É por isso que muitas mulheres trans e travestis estão fora de casa, da escola e vão parar na prostituição, a única alternativa de sobrevivência para muitas. E a violência não para aí, ela acontece também por parte da polícia. Ainda está na memória o caso de Laura Vermont, que, após ter sido espancada por cinco caras em um bar, depois de pedir socorro da polícia, em vez de receber ajuda, foi baleada [6]. Também não esqueceremos de Verônica Bolina, que não teve seu direito à cela exclusiva respeitado, acabou entrando em confusão com outros presos e com o carcereiro, foi espancada pela polícia, teve suas roupas rasgadas, sua cabeça raspada, seus seios expostos e a mídia, além de tratá-la no masculino, tratou-a como bandida, criminosa, não como vítima de tortura policial [7]!

Nós não nos esqueceremos. É preciso criminalizar a LGBTfobia. Deixar uma criança trans de castigo ou forçá-la a frequentar um terapeuta para “curá-la” tem que ser crime. Proibir uma pessoa trans de usar o banheiro conforme sua identidade de gênero, expulsar uma criança por ser trans da família ou da escola, negar emprego ou demitir alguém por ser trans, assédio moral contra uma funcionária ou funcionário trans, obrigar uma mulher trans a raspar seu cabelo ou retirar sua peruca, rasgar suas roupas, expor seu corpo, ridicularização, tudo isso tem que ser crime! Não abaixaremos a cabeça para os transfóbicos!

Referências

[1] https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/travestis-sao-espancadas-no-rj-e-caso-gera-revolta-na-internet/
[2] http://extra.globo.com/casos-de-policia/irma-de-transexual-agredida-no-rio-relata-ataque-era-para-ela-estar-morta-20108785.html
[3] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/09/video-mostra-travesti-e-irma-sendo-espancadas.html
[4] http://www.dailymail.co.uk/news/article-2891267/Transgender-teenager-leaves-heartbreaking-suicide-note-blaming-Christian-parents-walking-tractor-trailer-highway.html
[5] http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2015/10/abaixo-assinado-tenta-impedir-aluna-transexual-de-usar-banheiro-feminino.html
[6] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/farsa-da-pm-no-assassinato-da-transexual-laura-vermont-e-desvendada.html
[7] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/04/travesti-fica-desfigurada-apos-prisao-defensoria-diz-haver-indicio-de-tortura.html

Cauã e a máscara trans

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A ideia do clipe foi boa. O clipe da música “Your armies”, de Barbara Ohana e produzido pela Globo, foi criado com a intenção de denunciar a epidemia de ódio contra as pessoas trans. No vídeo, Clara, interpretada pelo ator Cauã Reymond, é agredida e seu agressor é chamado de covarde. Uma semana depois do massacre racista e LGBTfóbico em Orlando, atitudes como essa são necessárias. Entretanto, a lógica da produção do clipe carrega uma transfobia que saltou aos olhos de muitas pessoas. Pessoas trans sentiram-se ofendidas, e não é sem motivo. Isso gerou muita polêmica. Infelizmente, na nossa sociedade de hoje, a transfobia é muito naturalizada.

Do século XIX até a metade do século XX, por exemplo, era muito comum pessoas brancas pintarem seus rostos de preto para interpretarem personagens negras. Essa prática muito comum chamada “blackface” foi abandonada… mas nem tanto: ela ainda é utilizada em programas racistas de humor como o Zorra Total. Existem formas mais sutis, mas não menos perversas de racismo, como embranquecimento da pele, ou a representação do povo negro do Antigo Egito como se fosse um povo branco, ou como os escritores Machado de Assis e Castro Alves que eram negros mas continuam sendo retratados como se fossem brancos pelos livros didáticos, etc.

Na Antiguidade, as mulheres não eram consideradas cidadãs. Por essa razão, eram homens que interpretavam as personagens femininas. Hoje em dia, esse costume não é geralmente utilizado senão nos programas de humor (na maioria das vezes de forma machista) e em alguns poucos casos. Apesar disso, os papéis das mulheres no cinema continua sendo subalterno, sendo muito menos comum que exista uma heroína, por exemplo.
Apesar de não ser muito difícil entender que o “blackface” é racista e que proibir que as mulheres sejam atrizes é machista, muita gente ainda relativiza ou nega que a produção do clipe tenha sido transfóbica.

A Rede Globo ataca as pessoas trans mais uma vez!

É verdade que, com a participação de Cauã, o clipe teve muito mais visibilidade do que teria uma atriz trans desconhecida. Mas isso não diminui a culpa dessa empresa: afinal de contas, é a própria quem escolhe qual ator ou atriz promover. É lógico que entre dezenas de milhares de travestis nas periferias, existem muitas que têm talento e outras que podem adquirir talento com uma boa formação em teatro. Há muitas travestis jovens que sonham em atuar na Globo. Entretanto, nem a Rede Globo nem qualquer das principais emissoras do país sequer se importam em procurar!

Isso não é tudo. Além de nunca contratar atores e atrizes trans para os papéis, a Globo nem sequer arcou com as despesas! Não é à toa que esse papel destoa as outras personagens trans que apareceram na transmissora nos últimos tempos: o financiamento do clipe foi feito pelas pessoas envolvidas na produção, inclusive Cauã. É impossível não lembrar, por exemplo, da travesti Valéria, do programa Zorra Total, que é retratada como histérica e hipersexualizada, um estereótipo de travesti que só serve para nos ridicularizar.

Apesar de muita gente ter ficado entusiasmada com a personagem Félix da novela “Em Família”, na novela seguinte, Império, apareceu a Xana, interpretada por Ailton Graça. Pra começo de conversa, era o estereótipo travesti que aparece nos programas de humor. Ficou muito artificial, a personagem parecia não pertencer ao universo da novela. No princípio, os sites de notícia, inclusive da Globo, retratavam Xana como uma travesti. Em um dos episódios, entretanto, Xana disse que era homem, que deveria ser chamado de “o Xana” e que apenas se vestia “como mulher” por uma necessidade interior. Por isso, muita gente pensou que Xana era um crossdresser (um homem que gosta de usar roupas femininas). Será mesmo? Ou seria transfobia? O fato é que a própria novela não fez o menor esforço pra desfazer essa confusão. Pra piorar, no final da novela, Xana deixa de ser travesti (ou “crossdresser”) para casar-se com Naná. A novela que veio logo depois do famoso “beijo gay” defendeu escancaradamente a “cura travesti”! ABSURDO!

Representatividade

Muita gente está afirmando que essa é uma questão de “representatividade”. Na minha opinião, isso é diminuir o problema. Até porque Cauã representou uma mulher trans razoavelmente, ainda que de forma um pouco artificial. O problema é que a Rede Globo, assim como a maioria das empresas e o próprio governo, não se preocupa nem um pouco em dar emprego para as pessoas trans. A lógica por trás da produção deste clipe é a mesma que nega constantemente às pessoas trans o direito à educação, ao emprego e à moradia, empurrando a maioria das travestis e das mulheres trans para a prostituição. Não somos tratadas com dignidade nem com respeito. Não podemos nem sequer participar da construção das personagens que nos representam. São as pessoas cis que as imaginam, constroem, representam e que ganham o crédito por isso. Nada pessoal contra o Cauã, mas ele precisa reconhecer que pisou na bola.

Dia da Visibilidade Trans

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Hoje, 29 de janeiro, é Dia da Visibilidade Trans. Infelizmente, recebemos há poucos dias a triste notícia de que, nos primeiros 26 dias desse ano, já foram assassinadas 56 mulheres trans e travestis. Uma taxa de homicídio de mulheres trans que é 6 vezes aquela que foi registrada em 2014. Isso não é coincidência, afinal, ano passado, várias vezes os fundamentalistas fizeram campanhas contra as pessoas trans, assim como atacaram as mulheres, as pessoas negras e as LGBTs.

Os ataques contra as pessoas trans vêm de todos os lados. Desde cedo, muitas meninas e meninos trans são vítimas de agressão, levadas a “terapeutas” e colocadas de castigo pelos pais, que buscam, a todo custo, “curar” essas crianças. Mas ser trans não tem “cura”. Identidade de gênero não é uma “opção”, é uma característica humana como qualquer outra. Na escola, crianças e adolescentes trans são alvos de chacotas, agressões e às vezes até mesmo de estupros, violência esta que pode vir dos colegas de classe, funcionários, professores ou até do diretor ou diretora. Muitas vezes saem de casa e da escola, seja porque foram expulsas ou para fugir da constante violência que sofrem.

O mercado de trabalho também não acolhe pessoas trans. Por isso, elas, muitas vezes, acabam sendo empurradas à prostituição ou aos precarizados empregos nas empresas de telemarketing. Essa é a condição de vida da maioria das travestis. Para suportar ter relações sexuais com homens machistas, sendo tratadas com desrespeito e às vezes agredidas, muitas vezes recorrem ao uso de drogas, o que faz com que a polícia as trate como criminosas.

Nós, da página Feminismo Sem Demagogia, repudiamos a transfobia. Defendemos que o movimento feminista acolha as mulheres trans e as travestis, porque elas são nossas irmãs, vítimas do mesmo machismo. Assim como muitas mulheres pobres e negras, são empurradas à prostituição porque não encontram outro meio de prover seu próprio sustento. Também é fundamental repudiar a opressão sobre os homens trans, que são frequentemente vítimas de estupro corretivo dentro de suas próprias famílias.

Elas e eles, assim como todas nós, são atacadas constantemente pelos fundamentalistas, como Bolsonaro, Feliciano e Eduardo Cunha, assim como pelos governos, seja do PT, PSDB ou PMDB. Prestamos nossa solidariedade às famílias das vítimas das mulheres trans e travestis assassinadas nessa onda de ódio que tomou conta desse mês. Que esse ano seja um ano de luta contra a transfobia e contra toda forma de opressão e exploração!

 

Informe sobre a situação da nossa página

Nós, moderadoras da página Feminismo Sem Demagogia – Original, queremos informar ao público os eventos que aconteceram nesses últimos dias.

Recentemente, algumas páginas de Facebook que eram abertamente de direita, machistas e LGBTfóbicas foram excluídas. Diante disso, vários grupos de fãs dessas páginas resolveram “contra-atacar” e fazer denúncias em massa a páginas de movimentos feministas, LGBTs e de esquerda, entre as quais estava citada a nossa página, uma vez que ela é a página feminista com maior número de seguidoras no nosso país.

Como consequência dessas denúncias, uma postagem da página, com fotos da manifestação de mulheres ‪#‎ContraoPL5069‬ e exigindo ‪#‎ForaCunha‬, foi excluída sob a alegação de que as imagens apresentavam nudez. Além disso, todas as moderadoras tiveram seus perfis bloqueados, sendo que uma delas teve sua conta pessoal excluída permanentemente. Diante de tudo isso, como forma de prevenção desses ataques, nós decidimos deixar a página oculta. Enfatizamos que a página oficial não foi excluída, ela apenas estava invisível ao público.

Desde domingo, foram criadas várias páginas com o nome “Feminismo Sem Demagogia”. Todas elas foram criadas por pessoas que pretendem nos difamar e dividir o movimento feminista. Não temos participação e não concordamos com as suas publicações. A única página Feminismo Sem Demagogia – Original tem mais de 700 mil curtidas.

Nossa página não foi a única a ser atacada. Há muito tempo, Lola, do blog Escreva Lola Escreva, recebe ameaças de agressão, de estupro e de morte. Recentemente, um blog falso, de nome Lola Escreva Lola, foi criado por Marcelo Mello, que tentou se passar pela famosa blogueira feminista para difamá-la e implicá-la em crimes que ela não cometeu e, além disso, divulgava seu nome completo, endereço e até a foto da casa onde ela mora.

Além da Lola, a Jout Jout Prazer, que ganhou destaque nos últimos tempos, também foi alvo de perseguição e teve sua página e seu perfil pessoal excluídos do Facebook.

Há muito se sabe que os Termos de Uso do Facebook são machistas, LGBTfóbicos e racistas. Enquanto nossa postagem que defendia os direitos reprodutivos das mulheres cis e dos homens trans e a derrubada do reacionário e opressor Eduardo Cunha foi excluída, existem várias páginas e perfis pessoais que declaram abertamente que LGBTs são pessoas doentes, inferiores e incapazes, que culpabilizam as mulheres pela violência que sofrem, que afirmam que o lugar da mulher é na cozinha e que continuam intocadas. De que adianta o fundador do Facebook dizer que apoia os direitos LGBTs se esta rede continua permitindo a discriminação e marginalização da população oprimida enquanto persegue as feministas?

Por tudo isso, nós prestamos solidariedade a Lola, Jout Jout e todas as páginas feministas e de esquerda que estão sendo difamadas e denunciadas por simplesmente expressarem a sua opinião. Nós não podemos permitir que os machistas silenciem a nossa voz a partir das ridicularizações, dos xingamentos e das ameaças de violência, como eles sempre fazem. Nós, militantes de esquerda e dos movimentos de combate às opressões, precisamos nos unir contra esses ataques e dizer: os machistas não passarão!

Por que somos feministas marxistas?

fridaNós somos feministas marxistas. Para nós, a luta contra todas as opressões precisa estar ligada à luta contra o capitalismo e vice-versa. A exploração e as diversas formas de opressão estão fortemente ligadas entre si. Por isso, não é possível acabar com qualquer forma de opressão nesse sistema que é fundamentado na exploração humana.

No sistema capitalista, não é a o quanto você trabalha que determina o quanto você ganha. Isso é fundamentalmente verdade nos sistemas econômicos de muitas das sociedades nativas da América e da África, por exemplo. No nosso sistema econômico, pelo contrário, existe uma minoria que não recebe pelo próprio trabalho, mas sim pelo trabalho alheio.

É um absurdo lógico considerar que o trabalho de pessoas como Eike Batista, por exemplo, valha dezenas de milhares vezes mais que o trabalho de uma faxineira tercerizada. Entretanto, Eike Batista recebe dezenas de milhares vezes mais que ela porque não recebe pelo próprio trabalho e sim pelo trabalho alheio.

As opressões não surgiram no sistema capitalista. Entretanto, os patrões, que têm o interesse de garantir o maior lucro possível, se aproveitam da existência de setores oprimidos para pagar menos. Funciona assim: se o patrão precisa de alguém pra fazer faxina, pra quê ele vai pagar um bom salário e oferecer boas condições de trabalho se tem muitas mulheres na periferia (a maioria negras) que aceitam um salário baixo? Pagando um salário menor e oferecendo condições piores, ele lucra mais e sua empresa tem maior competitividade no mercado.

Existem vários métodos opressores que os patrões utilizam para lucrar mais. Por exemplo, demitindo trabalhadoras que provavelmente vão engravidar e não garantindo creches para as mães. Outro exemplo é o assédio moral, que é muito comum acontecer com todas as pessoas oprimidas (inclusive LGBTs, por exemplo), impondo pra elas um ritmo de trabalho mais acelerado.

No caso das pessoas trans, em especial das travestis, essa realidade se torna muito dramática. Essas são tão repudiadas que dificilmente encontram emprego no mercado formal, e, quando encontram, é nos trabalhos precarizados e são, muitas vezes, vítimas constantes de assédios. A maioria das pessoas não costuma ver travestis no seu dia-a-dia, mas tem pelo menos quatro lugares onde é possível encontrar muitas travestis: nas empresas de telemarketing (onde a vasta maioria é negra, feminina e LGBT), nos sites pornográficos, nas zonas de prostituição e nas prisões.

Além de tudo isso, no capitalismo, poder econômico também significa poder político. Os políticos que vencem as eleições são aqueles que recebem mais dinheiro para sua campanha política. Quem dá esse dinheiro são as empresas. Não é à toa que os políticos são quase todos homens, heterossexuais, brancos, cisgêneros, conservadores, LGBTfóbicos, machistas e racistas, afinal, eles refletem as características sociais e os interesses daqueles que bancaram financeiramente suas campanhas. Não é de se estranhar que exista uma grande bancada que defende os interesses do agronegócio, dos fundamentalistas religiosos e de diversos outros setores empresariais, sendo que não existe nenhuma bancada de mulheres e de pessoas negras, que são a vasta maioria da população?

Por tudo isso, na nossa opinião, só é possível acabar com as opressões se o sistema capitalista tiver um fim e der lugar para um sistema em que as pessoas mais exploradas e oprimidas tenham voz e poder real de decisão. Só é possível chegar a uma sociedade assim se houver uma revolução realizada pelas trabalhadoras e trabalhadores e que tenha a participação ativa dos diversos setores oprimidos da sociedade, o que só pode acontecer se toda forma de opressão for combatida. É isso que nós consideramos uma sociedade socialista e é por isso que lutamos.