Sobre Verinha Kollontai

Escritora

Atores negros não são contratados para papel de elite.

As empresas que operam as redes de televisão são cínicas e racistas, elas tem concessão do governo para manter seus canais, e o governo ciente das práticas racistas dos empresários e funcionários de alto escalão, como os diretores de novela, por exemplo que insistem em escalar pessoas negras, para papéis que são “papéis de negros”, ou seja empregadas domésticas, mulheres de comunidades carentes, escravos… papéis subalternos.

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Hoje li a entrevista de um ator negro, Ícaro Silva, reclamando da escassez de papéis para negros, ele disse também que já foi dito a ele que por ser bonito não poderia fazer papel de escravo, fica ai a nota mental, para fazer papel de escravo precisa ser feio, ok? E sendo “um negro bonito”  se o papel for de galã, o ator feio e branco da vez, ocupará este papel.

Esta reclamação aparece logo quando estamos com a novela, Segundo Sol, ambientada na Bahia, lugar onde majoritariamente a população é negra, e no elenco escalado há uma quantidade de negros que se pode contar nos dedos: Roberta Rodrigues, dona de casa, Fabrício Boliveira, gigolô, Claudi Di Moura, mãe de Roberval, empregada doméstica que vive uma situação de síndrome de Estocolmo com seu patrão branco e rico.

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O papel de Zefa daria um enorme de um debate, poderia ser muito rico, mas a diretora e o escritor, retrógrados e racistas, apenas pendem para deixa-la no local comum, sem apresentar a situação de racismo da qual ela foi e é vítima; Danilo Ferreira que é um capoeirista sem muita importância na trama, e namora a mocinha branca e sofredora, cheia de problemas emocionais e vícios.

Para legitimar a presença de negros na novela SIM, aparece Fabíola Nascimento, a Cacau, com o cabelo trabalhado no permanente Afro. Apontam também a Nanda Costa e Roberto Bomtempo e dizem que “São negros sim”, e quem sou para dizer que não são, se eles se autodeclaram negros, eles são, não sou dada a colorismo, mas o fato é que, retintos mesmo contamos nos dedos.

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Os atores que são empregados do Roberval eu sequer encontrei o nome deles, se alguém puder me dar um help, agradeço.

Dizer que o que dá representatividade é o fato de que o ator negro está na trama central é muito cinismo, afinal, Roberval é um cara rancoroso, vingativo, que quer destruir a família branca que não o assumiu com filho por ser negro. Além de ter conseguido enriquecer tendo como fatos os seguintes: Submeter – se a fetichização racista da personagem de Adriana de Esteves, que deseja-o a primeira vista, obviamente por seus “dotes de negro”. Depois de usá-lo, imediatamente ela coloca em seu destino a situação de tornar-se um gigolô, após serem responsáveis pela morte de uma pobre viúva, branca e rica, ele vai embora do país, levando parte das jóias roubadas da mesma e retorna anos mais tarde rico, com uma grana que faz pensar, ganhada de forma ilícita, afinal negros, não podem chegar ao topo da classe social sem roubar. Na verdade, ninguém chega lá sem roubar ou explorar, mas o fato é que a Tv gosta de mostrar brancos chegando lá por merecimento e negros chegando lá de forma sórdida.

Roberval não é tratado como o homem negro vítima de racismo e que busca por justiça, ainda que de uma forma torta, ele é o vilão da novela a quem tudo é negado, quem sabe, até por merecimento aos olhos brancos que o condenam por traçar um plano de vingança, não é mesmo? A ele foi negado a mãe, que preferiu manter se escrava da família branca, servindo os com empregada, mesmo sem receber salário, Severo, mesmo escondendo uma fortuna, aceitou que seus empregados lhe “emprestassem os salários”, é um crápula. Pois é.

A ideologia racista se reforça quando as telenovelas, produto que é muito consumido pelas pessoas, especialmente as pobres e trabalhadoras, fortalecem que o lugar de negro é este: de subalternos e vilões.

Para os marxistas, é sempre importante considerar as diferenças (sempre complicadas) entre “ser racista” e reproduzir as ideologias que sustentam o racismo. No caso de escritores e diretores e novelas, assim como a emissora, trata-se de gente incluída numa classe que além de permitir raramente a presença de negros, beneficia – se do racismo. É muito provável que toda a elite do país tenham empregados negros para serviços domésticos. Dou um doce para quem for da elite que não apresente este elemento racial na composição de seu quadro de funcionários domésticos. Também se beneficiam, os escritores e diretores, que pasme, não me lembro de ter um negro ou negra, alguém me ajuda ai, se houver, me avisem.

Segundo o historiador marxista Eric Williams (em “Capitalismo e escravidão”, de 1944) o racismo tem uma origem de classe. Foram as elites dos anos 1500, e particularmente a burguesia desde então, que tentaram transformar “o aspecto físico dos [negros/as], seu cabelo, sua cor e dentição, suas características ‘subumanas’ tão alardeadas” em justificativas para o tráfico negreiro, a escravidão e todas as formas de superexploração impostas a negros e negras.

 Em suma, o racismo é, antes de tudo, uma ideologia disseminada pela classe dominante e sempre esteve a serviço de seus interesses e lucros. É a burguesia – empresários, banqueiros, latifundiários etc. e seus agentes nos governos, instituições e estruturas do Estado – que se utiliza das diferenças (de raça, gênero, orientação sexual etc.) para transformar diferenças em desigualdades e, desta forma, superexplorar setores inteiros da população.

A ideologia racista/burguesa foi e  continua a ser incutida e naturalizada na cabeça dos oprimidos, dos trabalhadores, dos pobres, dos explorados, dos marginalizados que a reproduzem muitas vezes mecanicamente, outras com a ilusão de que isto irá lhes garantir algum privilégio.

Por isso, uma de nossas principais tarefas, no que diz respeito à população em geral, tem a ver com o combate à consciência distorcida pelo sistema educacional eurocêntrico, os meios de comunicação, as igrejas, a família etc. etc.

Contudo, não acreditamos que seja correto colocar um sinal de igual entre a burguesia que utiliza de seu poder econômico e político para propagar ideologias que garantam seus interesses e aqueles ou aquelas que as reproduzem. E, mais um vez, não estamos falando, aqui, daqueles que fazem isto de forma consciente e em defesa de privilégios, sejam eles quais forem, da mesma forma que não vamos centrar a luta contra o machismo nas mães que incutem na cabeça das suas filhas histórias românticas como príncipes e princesas, por exemplo. Como também, não acusamos de racismo uma família negra pelo fato de que sua filha queira comemorar o aniversário vestida como a princesa Elsa (de “Frozen”), ao invés de receber os amiguinhos como a Rainha Nzinga. Isso não descarta, de forma alguma, a necessidade de que façamos um debate com estas pessoas, criticando-as com a convicção e a dureza necessárias. Mas não é nosso objetivo “destruí-las”. Queremos ganhá-la para nossa luta.

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Digo isso por que pode haver dentro do movimento quem critique pessoas negras por aceitarem papéis em novelas com gritante racismo, o fato é que estas pessoas não tem culpa de ocupar os poucos espaços reservados a elas, e por dentro da situação, também faz-se a luta, podendo manifestarem – se contra tal politica de contratação de negros que são minoritárias propositalmente, afinal, atores negros qualificados existem sim, mas o racismo não os deixa ter representatividade em papéis que foram feitos para brancos.

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Desvelando a Transexualidade: Capitalismo, mercado de trabalho e da prostituição

O não-lugar no mercado de trabalho

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Fonte: Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e outras organizações de travestis e transexuais, o preconceito no trabalho é tanto que a porcentagem de pessoas trans que precisa se prostituir para sobreviver é de cerca de 95%. Novamente a hipocrisia é tremenda, pois somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, que não aceita dar oportunidades de trabalho para essas mulheres no mercado formal, mas que paga por seus serviços sexuais na calada da noite.

Há raras exceções de empregos precarizados, como telemarketing (onde não se vê quem está do outro lado da linha) ou salões de beleza. É raríssimo encontrar professoras, médicas, advogadas etc. que sejam trans. Até mesmo no comércio, em que os donos dos estabelecimentos querem passar uma determinada imagem de seus produtos e de seu atendimento, não servem as pessoas trans, porque são estigmatizadas.

Prostituição: o único caminho

Já nas ruas escuras do nosso mundo hipócrita, elas podem estar a serviço do lucro dos cafetões e cafetinas, expostas a todo tipo de violência e relações marginais, realizando um dos trabalhos mais opressivos que se criou: a prostituição. Afinal, a pessoa que se prostituiu não presta um serviço ou vende sua força de trabalho com direitos regulamentados. Ela vende a si mesma, sem garantia de nada, correndo o risco de ser espancada e morta, lembrando que, segundo a Rede Trans Brasil, 50,6% das vítimas são profissionais do sexo, e, em cada 24 homicídios, o assassino era cliente da pessoa trans.

Há pouco tempo, diante de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, quiseram aprovar a Lei Gabriela Leite que legalizaria a prostituição. Infelizmente, a defesa e a proteção daquelas/es que se prostituem não passa por essa iniciativa nefasta, que aprofunda as relações de desigualdade de identidade de gênero, de raça e de classe social. É assim porque regulamentaria, na realidade, a cafetinagem, permitindo que 50% do valor do serviço prestado pudesse ser apropriado por quem agenciasse as pessoas travestis/trans e que, além de outros motivos, negaria a possibilidade de estupro, o qual seria entendido como negação da oferta do serviço e estimulando o que há de mais degenerado no que toca às relações humanas, transformando pessoas em mercadoria.

Ainda sobre a assimilação pelo capitalismo, há todo um mercado de adequação ao corpo e auto-tratamento desenvolvido para que as mulheres travestis/trans tenham corpos mais próximos daqueles que desejam ou que procuram os clientes. Assim, de maneira arriscada, muitas dessas mulheres compram hormônios no mercado informal e/ou aplicam silicone industrial em seus corpos com as “bombadeiras” (mulheres que injetam o silicone industrial). Como consequência, o silicone industrial pode causar trombose, gangrena e até amputação. Em alguns casos, provoca a morte.

Toda essa vida difícil e exclusão sofridas pelas pessoas trans provoca, não raro, situações de envolvimento com a marginalidade e a fuga para suportar a dor causada por tamanhas dificuldades e rejeição, levando ao envolvimento com o tráfico de drogas, ao adoecimento, à depressão, a tentativas de suicídio e ao uso de drogas para anestesiar tanta dor.

É necessário exigir iniciativas urgentes dos governos, como aquelas concernentes ao uso do nome social sem burocracia e amplo acesso à saúde pública e de qualidade, incluindo tratamento respeitoso e humano. E também, estando atentos/as às demais instituições, como a mídia, que tem enorme responsabilidade sobre a dinâmica social.

Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)

 

 

Desvelando a Transexualidade: A transfobia mata – Parte IV

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Sobre os assassinatos

O relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB) que lança anualmente um estudo sobre a população LGBT assassinada no ano anterior, mostra-nos em seu relatório mais recente, do ano de 2016, que: “tais mortes crescem assustadoramente: de 130 homicídios em 2000, saltou para 260 em 2010 e para 343 em 2016. Durante o governo FHC mataram-se em média 127 LGBT por ano; no governo Lula 163 e no governo Dilma/Temer, 325”.

O GGB também nos diz que um LGBT é morto a cada 25 horas no Brasil. Ele ainda nos aponta que: “dos 343 LGBTs que foram assassinados em 2016, 31% desses assassinatos foram praticados com arma de fogo, 27% com armas brancas, incluindo ainda enforcamento, pauladas, apedrejamento, muitos crimes cometidos com requintes de crueldade: tortura, queima do corpo. Travestis geralmente são assassinadas a tiro ou espancadas na rua, enquanto gays são mortos dentro de casa, com objetos domésticos: facas, fios elétricos, sufocados na cama, muitas vezes encontrados pelos vizinhos somente pelo odor do corpo já em putrefação. Proporcionalmente, as travestis e transexuais são as mais vitimizadas: o risco de uma “trans” ser assassinada é 14 vezes maior que um gay, e se compararmos com os Estados Unidos, as 144 travestis brasileiras assassinadas em 2016 face às 21 trans americanas, as brasileiras têm 9 vezes mais chance de morte violenta do que as trans norte-americanas. Segundo agências internacionais, mais da metade dos homicídios de transexuais do mundo, ocorrem no Brasil”.

O relatório iniciou-se em 2012, e quanto ao segmento de travestis e transexuais observou-se que: em 2012, foram 128 assassinatos; em 2013, 108; em 2014, 134; em 2015, 119 e em 2016, 144.  Outro fator importante a salientar é a crueldade dos assassinatos praticados. Transfeminicídios acabam tendo mais requintes de crueldade do que os feminicídios, talvez por carregarem em si o machismo e misoginia, aliados ao fator da transfobia. Travestis e transexuais não são apenas assassinadas/os, o número de facadas ou tiros acaba sendo maior do que o cometido contra mulheres cisgêneras. O ódio é tanto que descarregam o pente todo da arma, degolam, espancam, torturam, queimam, esquartejam, esmagam os crânios, muitas vezes, de tal modo, que fica praticamente impossível reconhecer a identidade dos corpos. Esta é uma forma de realmente vilipendiar esses corpos, tirando-lhes toda a humanidade, mesmo após a morte; deixando-lhes nuas, com genitálias expostas, em um misto de culto à violência com altas doses de sádico erotismo.

Pessoas travestis e transexuais são assassinadas 2 vezes: uma, literalmente; outra, ao terem seus nomes e identidades de gênero desrespeitados em notícias na mídia e ao serem enterradas com os seus nomes de registro civil não-retificados.

Porém, todos os dados de pesquisa estão longe de apontar a realidade, pois cabe lembrar que estes dados são subestimados, pois baseiam-se apenas em notícias da mídia em que a motivação do crime nem sempre é explicitada e muitos são, ainda, omitidos pelas famílias. Assim, o Brasil é o país do mundo que mais mata pessoas trans.

Segundo a Rede Trans Brasil, 94% das vítimas estão solteiras; 50,6% são profissionais do sexo, e, em cada 24 homicídios, um o assassino era cliente da pessoa trans. O mais interessante e hipócrita é que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, mas, também é o país que mais consome pornografia deste segmento em suas buscas no Google por pornografia “tranny” ou “shemale”, dois termos altamente pejorativos utilizados pela indústria pornográfica mundial.

O Mapa de Assassinatos de Pessoas Trans no Brasil, feito pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), informa-nos que, só em 2017, de janeiro até o dia 9 de julho, foram cometidos 95 assassinatos contra travestis, mulheres e homens transexuais em nosso país.

A transfobia mata!

Desvelando a Transexualidade: Retificação do nome e direito ao nome social – Parte III

Por Frida Pascio Monteiro, de Fernandópolis (SP)

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“Desvelando a Transexualidade” é uma série de artigos sobre transexualidade nos mais variados aspectos. Este é o terceiro artigo.

Quanto à retificação do prenome civil
Em linhas gerais, apesar do fundamento da demanda variar de acordo com as necessidades e particularidades de cada caso, temos que a maior parte das demandas de Retificação de Registro Civil ligadas à questão da sexualidade, encontram fundamentação jurídica na “notoriedade”: ser conhecido por nome diverso daquele do documento, tanto no trabalho, como no convívio social; e no constrangimento: incongruência entre o nome do documento e a aparência, gerando constrangimento face à necessidade de apresentação de documentos.

A retificação do prenome civil é muito burocrática, sendo necessários vários documentos, dentre eles: cópia da certidão de nascimento, cópia do RG, cópia do CPF, cópia da Reservista, cópia da carteira de trabalho, cópia do comprovante de residência, laudo psicológico atestando a disforia de gênero (após o mínimo de 2 anos de acompanhamento/tratamento), laudo psiquiátrico atestando a disforia de gênero (após o mínimo de 2 anos de acompanhamento/tratamento), documentos que comprovem o uso do referido nome (pode ser cartão do banco, cartão SUS, contas de perfis online etc.), laudo médico (caso já tenha realizado cirurgia de readequação sexual, e, em caso de cirurgias realizadas fora do Brasil, deve se realizar a tradução juramental do respectivo laudo), certidões negativas (Certidão da Justiça Militar Estadual: finalidade criminal, Certidão da Justiça Militar da União Federal: finalidade criminal, Certidão de Distribuição Criminal: finalidade criminal, Certidão de Execuções Criminais Estadual: finalidade criminal, Certidão Negativa de Dívida Ativa, Certidão de Quitação com a Justiça Eleitoral, Certidão de Distribuição da Justiça Federal, Certidão de Ações Trabalhistas do Estado de São Paulo , Certidão do Distribuidor Cível Estadual, Certidão do Distribuidor Cível, Executivos Fiscais Estadual, Certidão de Distribuição de Ações e Feitos da Justiça Federal  Estadual) que podem ser solicitadas pela Internet, 3 fotos 10×15 de corpo inteiro – corpo e rosto -, (sendo interessante conter pelo menos 1 anterior à transição), 3 cartas a próprio punho de pessoas que reconhecem o uso do determinado nome há pelo menos 5 anos. Esses documentos são a base, dependendo o juiz, ele pode pedir algo a menos ou a mais.

As certidões negativas servem para provar que não se deseja retificar o prenome por possuir pendências ou débitos junto ao órgão emissor, tais como: sonegação fiscal, falsidade ideológica, entre outros.

O grande problema da retificação do prenome civil é que ele dependerá, basicamente, da opinião pessoal do juiz, já que não há lei específica. Se houver sorte de o processo cair em mãos de um juiz “não conservador”, há maiores chances; mas se houver o azar de cair nas mãos de um juiz conservador, ele poderá dificultar ao máximo, pedindo o maior número de documentação possível e, assim, arrastar o processo por anos a fio, ou, ainda, indeferir o pedido. Em um país em que se pode recorrer a tudo em várias e várias instâncias, travestis e transexuais não possuem este privilégio. Se o pedido de retificação for indeferido, não há mais como recorrer em primeira instância, tendo, assim, que recorrer junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Quanto ao direito ao uso do nome social

O Decreto de Lei 8.727/16 dispõe sobre o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e fundacional.

A lei 1.820/09 dispõe sobre o uso do nome social na Carteirinha do SUS, em seu artigo 4º, Parágrafo Único, Inciso I:

Art. 4º. Toda pessoa tem direito ao atendimento humanizado e acolhedor, realizado por profissionais qualificados, em ambiente limpo, confortável e acessível a todos.

Parágrafo único. É direito da pessoa, na rede de serviços de saúde, ter atendimento humanizado, acolhedor, livre de qualquer discriminação, restrição ou negação em virtude de idade, raça, cor, etnia, religião, orientação sexual, identidade de gênero, condições econômicas ou sociais, estado de saúde, de anomalia, patologia ou deficiência, garantindo-lhe:

I – Identificação pelo nome e sobrenome civil, devendo existir em todo documento do usuário e usuária um campo para se registrar o nome social, independente do registro civil sendo assegurado o uso do nome de preferência, não podendo ser identificado por número, nome ou código da doença ou outras formas desrespeitosas ou preconceituosas”.

A possibilidade de usar o nome social no Enem foi aberta em 2014. Naquele ano, foram apresentadas 102 solicitações. Na edição de 2015, o número subiu para 278 e na edição 2016 o número foi para 406. Esta foi uma oportunidade que atraiu mais pessoas travestis e transexuais para prestar o exame, pois diminuiu o constrangimento de serem chamadas/os pelo nome de registro civil não retificado e passarem por situações de preconceito, vexatórias.

O Decreto Estadual nº 55.588/10 dispõe sobre o tratamento nominal das pessoas transexuais e travestis nos órgãos públicos do Estado de São Paulo e dá providências correlatas. A Deliberação 125/2014 do Conselho Estadual de Educação do Estado de São Paulo dispõe sobre a inclusão de nome social nos registros escolares das instituições públicas e privadas no Sistema de Ensino do Estado de São Paulo e dá outras providências correlatas. A Resolução da Secretaria da Educação, n 12/2015, estabelece parâmetros para a garantia das condições de acesso e permanência de pessoas travestis e transexuais – e todas aquelas que tenham sua identidade de gênero não reconhecida em diferentes espaços sociais – nos sistemas e instituições de ensino, formulando orientações quanto ao reconhecimento institucional da identidade de gênero e sua operacionalização, além de garantir o uso de banheiros, vestiários e demais espaços segregados por gênero, quando houver, de acordo com a identidade de gênero de cada sujeito.

O uso do nome social por estudantes é uma medida que visa evitar a “evasão” escolar dessas/es estudantes travestis e transexuais. O termo correto não seria “evasão” escolar, mas sim “expulsão” escolar, visto que tais estudantes sofrem diariamente com o desrespeito às suas identidades de gênero e nomes; são vítimas de chacotas por parte de alunos e funcionários; sofrem perseguições; são proibidas/os de utilizarem o banheiro com o qual se identificam pelos seus respectivos gêneros; sofrem agressões físicas, e, até sexuais, dentro de banheiros, que são promovidas por grupos de alunos como forma de estupros corretivos. Toda essa conjuntura as/os expulsa da escola e o uso do nome social serve como uma medida paliativa. O correto seria uma capacitação do corpo docente e de funcionários e, posteriormente, uma maior conscientização dos alunos e pais para aceitarem e acolherem estudantes transexuais.

Alguns bancos começaram a aceitar o uso do nome social em crachás de seus funcionários e em cartões de clientes.

O direito ao uso do nome social é apenas uma “muleta” administrativa que não resolve o problema, não chega a ser um direito básico assegurado em si. De nada adianta o nome social se vier em uma carteira escrito: nome social. As pessoas ainda podem agir com transfobia pelo fato de vir evidenciado tratar-se de um/a transexual ou travesti.

A carteira de nome social acaba segregando ainda mais uma população tão marginalizada e segregada.

Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)

Desvelando a Transexualidade – Parte II: A transexualidade aos olhos da Medicina e da Psiquiatria

Por Frida Pascio Monteiro, de Fernandópolis (SP)

“Desvelando a Transexualidade” é uma série de artigos sobre transexualidade nos mais variados aspectos. Este é o segundo artigo.

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Cena do Filme: Ma vie en rose

Transexualidade: doença mental?

A transexualidade, até bem pouco tempo “transexualismo”, é vista como uma doença pelo Código Internacional de Doenças (CID-10). De acordo com o CID-10, a doença codificada por F:64.0 corresponde à “Disforia de Gênero”. “Disforia” é um sentimento de insatisfação, ansiedade e inquietação. Portanto, pessoas cisgêneras também são altamente disfóricas ao não aceitarem seus corpos como são e recorrerem a métodos para alterá-los e torná-los mais próximos do ideal almejado por elas. A pergunta que nos fica é: por que pessoas cisgêneras não têm suas disforias patologizadas e não precisam de laudos para realizarem procedimentos em seus corpos enquanto que as pessoas trans são patologizadas, necessitam de laudos para realizarem qualquer tipo de intervenção em seus próprios corpos? O que diferencia a não-patologização da disforia de pessoas cisgêneras para a patologização da disforia de pessoas transgêneras/transexuais?

O processo transexualizador: a maior mentira e crueldade

Quanto às mulheres transexuais que querem realizar a CRS (cirurgia de redesignação sexual), essas precisam se enquadrar ao “protocolo transexualizador” e serem classificadas dentro desse como “transexuais verdadeiras”: uma das maiores mentiras e crueldades da Medicina e da Psiquiatria para com a nossa população.

O Brasil, atualmente, possui apenas 9 centros ambulatoriais pelo SUS que realizam o processo transexualizador, que inclui a hormonioterapia e as cirurgias, entre elas a CRS, que não é realizada em todos os ambulatórios, pois muitos apenas realizam a parte da hormonioterapia.

Para iniciar o acompanhamento é necessário procurar um serviço do SUS que fará o acompanhamento para um dos centros ambulatoriais que fazem o processo transexualizador. A/o paciente passará por uma triagem e deverá ter idade mínima de 18 anos para iniciar a hormonioterapia. Para obtê-la, a/o paciente deve fazer acompanhamento com uma equipe multidisciplinar, que deve incluir endocrinologista, psicólogo, psiquiatra e assistente social. Quanto às/aos pacientes que desejam fazer intervenções de readequação cirúrgicas, devem ter idade mínima de 21 anos e passar pela mesma equipe multidisciplinar por pelo mínimo 2 anos, obtendo laudo do endocrinologista atestando 2 anos, no mínimo, de tratamento hormonal; 2 anos de acompanhamento, no mínimo, com psicólogo para obtenção de laudo favorável atestando a Disforia de Gênero e 2 anos de acompanhamento, no mínimo, com psiquiatra para obtenção de laudo também favorável à Disforia de Gênero.

As cirurgias que podem ser realizadas em homens trans podem ser: tireoplastia (cirurgia que permite a mudança no timbre de voz); mastectomia (retirada das mamas); histerectomia (retirada do útero); ooforectomia (retirada dos óvulos); neofaloplastia (é a cirurgia de construção do novo pênis, ainda pouco comum e feita apenas em âmbito experimental e que no Brasil só é autorizada em hospitais universitários autorizados).

As cirurgias que podem ser realizadas em mulheres transexuais podem ser: tireoplastia (cirurgia que permite a mudança no timbre de voz); inclusão da prótese de silicone e plástica mamária (procedimento estético para correção de intervenções anteriores); feminização facial (rinoplastia: cirurgia plástica no nariz; cirurgia nos lábios; cirurgia nos maxilares; frontoplastia: cirurgia de suavização da testa com diminuição das proeminências ósseas; cirurgia dos osso malares (maçãs do rosto); mentoplastia: cirurgia no queixo; raspagem do Pomo de Adão; neovulvocolpoplastia (cirurgia de construção da nova vagina).

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Ludovic é uma criança Trans de Ma vie en rose “Nós vamos nos casar quando eu não for mais um menino” referindo se a seu a amor pelo melhor amigo

O SUS disponibiliza, desde 2008, por meio da Portaria 457, às mulheres transexuais, o acesso à terapia hormonal, cirurgia para redução do Pomo de Adão, adequação das cordas vocais para feminilização da voz, neovulvocolpoplastia. A partir de 2013, por meio da Portaria 2.803, passou a disponibilizar também a cirurgia de implante de silicone nas mamas. Para os homens transexuais, por meio da Portaria 2.803, de 2013, passou a incluir os procedimentos para os homens trans: tratamento hormonal, mastectomia, ooforectomia e histerectomia.

Alguns (mas) transexuais têm diversos problemas de saúde como diabetes, pressão alta, problemas cardíacos ou são alérgicas às anestesias e, por isso, não podem realizar tais procedimentos. Há ainda as que lidam bem com o fato de serem de tal gênero, independentemente dos caracteres biológico-sexuais discordantes. O que estamos dizendo é que não é a genitália que fará de uma mulher trans menos mulher ou que fará um homem trans menos homem.

Embora lutem por assistência às especificidades de suas saúdes, pessoas transexuais lutam há anos para que não sejam classificadas como doentes mentais. O mesmo acontecia com os homossexuais que, até 1990, eram considerados doentes pela Organização Mundial da Saúde. As consequências deste tipo de classificação foram as mais nefastas: lobotomias, internações, castrações químicas, desemprego, tratamentos impossíveis e dolorosos para readequação da orientação sexual, “curas gays” e até prisões em manicômios psiquiátricos.

Efeitos dos hormônios nas travestis e mulheres transexuais: Termo de Esclarecimento e Responsabilidade

Ao iniciar o acompanhamento/tratamento em um centro ambulatorial e/ou hospitalar as travestis e as/os transexuais devem assinar um termo de esclarecimento e responsabilidade, assumindo para si estar consciente dos riscos à saúde que podem advir do uso dos hormônios. O termo de esclarecimento e responsabilidade que as travestis e as transexuais têm de assinar contém as seguintes informações listadas abaixo:

Mudanças permanentes que não desaparecerão se parar o uso dos hormônios: desenvolvimento das mamas (desenvolvimento máximo em até 2 anos), diminuição dos testículos; diminuição da produção de testosterona (hormônio masculino) pelo testículo; diminuição do volume de esperma ou mesmo parada da ejaculação; diminuição da fertilidade (que pode voltar ou não ao normal após interrupção), no entanto se mantiver relações sexuais com alguém que possa ficar grávida, pode haver fecundação (gravidez), fazendo-se assim necessário o uso de métodos anticoncepcionais; dificuldade de ereção, para penetração e diminuição da próstata.

Mudanças reversíveis que acontecem somente enquanto estiver usando hormônios, mas que desaparecem quando se para de tomá-los: aparecimento de celulite; redistribuição da gordura corporal com possibilidade de depósito de gordura nas coxas e quadris; ligeira redução dos pelos; afinamento da pele; diminuição das acnes (espinhas); diminuição da queda de cabelo; diminuição do suor e mudança no cheiro do corpo; diminuição da gordura no abdômen; diminuição do desejo sexual (libido); orgasmos menos intensos; agravamento de enxaquecas; aparecimento de náuseas e vômitos; aumento da pressão arterial; alteração na função do fígado e aparecimento ou agravamento de depressão.

Não ocorrerão (nem com a retirada dos testículos): desaparecimento dos pelos; afinamento da voz e diminuição do pomo de Adão.

Riscos e complicações à saúde com a terapia hormonal (o uso de hormônios aumenta a chance de ocorrer ou pode piorar estes problemas de saúde, quando aparecem): câncer de mama; trombose venosa profunda; embolia pulmonar; enfarto; derrame cerebral; osteoporose e fraturas ósseas; piora das taxas de colesterol; aumento nas taxas de triglicérides e câncer de fígado.

A/o transexual “de verdade”
É de extrema importância salientar que para conseguir todos esses procedimentos cirúrgicos e a retificação do prenome civil e do gênero nos documentos, a pessoa trans deve ser classificada pelo psicólogo e psiquiatra como um/uma “transexual de verdade”.

Leva-se em conta para isso o tempo de terapia hormonal; os testes de vida real (a/o candidata/o viver a pelo menos 2 anos, 24 horas por dia, como sendo do sexo oposto, vestindo-se, portando-se socialmente com o esperado por tal gênero); os testes de personalidade para atestarem a “transexualidade verdadeira”; exames hormonais de rotina; forte e persistente identificação com o gênero oposto por pelo mínimo 2 anos ou sentimento de inadequação no papel de gênero deste sexo; forte sofrimento psíquico por haver nascido daquele determinado sexo; repulsa aos órgãos sexuais, nojo inclusive de fazer a higiene pessoal íntima deles ao ter de tocá-los; desejos ou tentativas de mutilação e autocastração; personalidade altamente suicida, podendo inclusive já haver tentado tirar a própria vida alguma vez; falta de desejo sexual; não se masturbar por sentir asco de seus órgãos genitais; não ter vida sexual ativa, podendo, muitas vezes, até ser virgem, em suma, ter uma vida sexual assexuada; ser heterossexual.

Em crianças, a perturbação é manifestada por quatro (ou mais) dos seguintes quesitos: 1. Declarar repetidamente o desejo de ser, ou insistência de que é, do sexo oposto (em meninos, preferência pelo uso de roupas do gênero oposto ou simulação de trajes femininos; em meninas, insistência em usar apenas roupas estereotipadamente masculinas); 2. Preferências intensas e persistentes por papéis do sexo oposto em brincadeiras de faz de conta, ou fantasias persistentes acerca de ser do sexo oposto; 3. Intenso desejo de participar em jogos e passatempos estereotípicos do sexo oposto; 4. Forte preferência por companheiros do sexo oposto.

O pior do protocolo transexualizador são seus conceitos arcaicos e preconceituosos de estereótipos de gênero, afirmando que mulheres transexuais devem ser femininas; delicadas; emotivas; submissas; preferindo serviços domésticos ou na área de Humanas; e, homens transexuais como másculos; brutos; racionais; dominadores; preferência por serviços braçais, de lógica e/ou mecânica ou nas áreas de Biológicas ou Exatas.

Muitos desses critérios não são verbalizados, mas fazem partem da análise dos profissionais psicólogo e psiquiatra para atestarem favoravelmente ou não a transexualidade da/o paciente; critérios, inclusive, presentes nos testes psicológicos antiquados, preconceituosos, reforçadores de estereótipos de gênero, e, muitas vezes ridículos, dos conceitos de masculinidade/feminilidade, do que é ser um “homem de verdade”, e, consequentemente, um “homem trans de verdade” e do que é ser uma “mulher de verdade”, e, consequentemente, uma “mulher trans de verdade”.

Além desses critérios, pessoas trans que não apresentam repulsa extrema aos órgãos genitais; que não têm problemas em realizar sua higiene pessoal dos órgãos sexuais; que não possuem ou já não tentaram mutilar-se e/ou castrar-se; que não tentaram ou pensam em suicídio; que possuem desejo sexual; que se masturbam; que tem vida sexual ativa; e que não possuem orientação sexual heterossexual são classificadas/os como não sendo “transexuais de verdade” e, portanto, alijados do processo transexualizador do SUS e impedidos de realizarem os procedimentos hormonais e/ou cirúrgicos, tudo isso baseado em estereótipos ultrapassados e ridículos.

Em suma, há uma negação das individualidades e particularidades das vivências de pessoas trans e uma universalização do que seria a “transexualidade verdadeira”, gerando “as/os transexuais verdadeiras/os”.

Toda essa obrigatoriedade de ter de ser classificado/a como um/a “transexual verdadeiro/a” obriga os/as transexuais a omitirem e/ou mentirem sobre essas questões para se enquadrarem no estereótipo criado pelos psicólogos e psiquiatras, assim não perdem a vaga e podem continuar no processo para obtenção dos laudos para retificação do nome e entrada na fila para realização dos respectivos procedimentos cirúrgicos. O processo transexualizador é cruel e desumaniza as vivências transexuais ao obrigá-las a se enquadrarem em um molde arcaico, retrógrado e engessado.

O processo transexualizador do SUS disponibiliza a modalidade ambulatorial e a modalidade hospitalar em seus centros de atendimento ambulatoriais de travestis e transexuais. A modalidade ambulatorial consiste nas ações de âmbito ambulatorial, quais sejam acompanhamento clínico; acompanhamento pré e pós-operatório e hormonioterapia. A modalidade hospitalar consiste nas ações de âmbito hospitalar, quais sejam realização de cirurgias e acompanhamento pré e pós-operatório. Após a CRS a/o transexual ainda deve passar, obrigatoriamente, por acompanhamento com psicólogo e psiquiatra por mais 1 ano pelo SUS.

O SUS conta com cinco serviços habilitados pelo Ministério da Saúde no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial e hospitalar. O SUS também conta com quatro serviços habilitados pelo Ministério da Saúde no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial. Existem na rede de saúde pública serviços ambulatoriais, criados por iniciativa estadual, destinados ao atendimento de travestis e transexuais no Processo Transexualizador: Ao final do texto há uma lista com o nome de todos esses serviços, local e contato.

Segundo o site do Ministério da Saúde, com dados de 2012, o SUS pagava R$1.113,57 pela cirurgia de neovulvocolpoplastia e os 5 centros ambulatoriais costumam fazer 12 dessas cirurgias ao ano, uma por mês. A cirurgia particular custa por volta de 50 mil reais, atualmente. Cada centro ambulatorial gastaria por volta de R$13.500,00 por ano, bem menos que o valor pago por uma única cirurgia particular.

Um breve relato…
Farei 3 breves relatos sobre como é o tratamento no ambulatório em que faço todo o processo. 1. Em março, obtive todos os laudos para entrar na fila para a CRS. Em maio, retornei e ao falar com a assistente social sobre o meu lugar na fila, ela me disse que eu não estava nela; havia o laudo do psiquiatra, mas não o da psicóloga. Procurei a secretaria administrativa e no meu prontuário faltava o laudo da psicóloga. Falando com ela, ela me disse que havia esquecido de imprimir e anexar. Já havia se passado dois meses, mas, como não era algo extremamente importante na vida dela, ela apenas se esqueceu. Após isso, adentrei à fila, que no Ambulatório de Travestis e Transexuais (TT) de São Paulo, capital, está entre 7 a 10 anos, chegando, em alguns casos, a até 12 anos. Não tenho informação sobre os outros centros ambulatoriais, mas as realidades devem ser parecidas. 2. Apesar de ser um Centro de Referência em travestilidade e transexualidade, muitos funcionários ainda acabam chamando as/os pacientes pelo nome de registro civil (não-retificado) nos documentos. Falta de treinamento/capacitação? Desatenção? Falta de respeito para com as/os pacientes? Transfobia? 3. Tive de mudar alguns dados do meu cadastro, dentre eles a minha escolaridade, já que estou na pós-graduação: Mestrado. Porém, obtive uma surpresa ao saber que no sistema de banco de dados não há tais opções: pós-graduação, Mestrado, Doutorado. Para o sistema, travestis e transexuais no máximo obtêm graduação e nem cogitam que possamos chegar a um nível superior como uma pós-graduação. Lapso do sistema? Preconceito para com a população T? Transfobia?

A transfobia mata!
Rede de serviços
O SUS conta com cinco serviços habilitados pelo Ministério da Saúde no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial e hospitalar:

– Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás/ Goiânia (GO); Telefone: (62) 3269-8200.

– Universidade Estadual do Rio de Janeiro – Hospital Universitário Pedro Ernesto/ Rio de Janeiro (RJ); Telefone: (21) 2868-8000.

– Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ Porto Alegre (RS); Telefone: (51) 3308-6000.

– Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina FMUSP/Fundação Faculdade de Medicina MECMPAS – São Paulo (SP); Telefone: (11) 3061-7000.

– Hospital das Clínicas/Universidade Federal de Pernambuco – Recife (PE); Telefone: (81) 2126-3633.

O SUS também conta com quatro serviços habilitados pelo Ministério da Saúde no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial:

– Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) – Rio de Janeiro/RJ; Telefone: (21) 2332-7159.

– Ambulatório do Hospital das Clínicas de Uberlândia – Uberlândia/MG; Telefone: (34) 3218-2111.

– Centro de Referência e Treinamento (CRT) DST/AIDS – São Paulo/SP; Telefone: (11) 5087-9911.

– Centro de Pesquisa e Atendimento para Travestis e Transexuais (CPATT) do Centro Regional de Especialidades (CRE) / Metropolitano – Curitiba/PR; Telefone: (41) 3304-7567.

Existem na rede de saúde pública serviços ambulatoriais, criados por iniciativa estadual, destinados ao atendimento de travestis e transexuais no Processo Transexualizador:

– Ambulatório AMTIGOS do Hospital das Clínicas de São Paulo – São Paulo (SP);  Agendamento de triagem somente pelo e-mail: amtigos.ipq@hc.fm.usp.br.

– Ambulatório para travestis e transexuais do Hospital Clementino Fraga – João Pessoa (PB); Telefones: (83) 3218-5415 e (83) 3218-5416.

– Ambulatório Transexualizador da Unidade de Referência Especializada em Doenças Infecto-Parasitárias e Especiais (UREDIPE) – Belém (PA); Telefone: (91) 3244-5364.

– Ambulatório de Saúde Integral Trans do Hospital Universitário da Federal de Sergipe Campus Lagarto – Lagarto (SE); Telefone: (79) 3632-2082.

Frida Pascio Monteiro é ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)

Desvelando a transexualidade – Parte I

Recortes, conceitos e diferenciação entre as travestis e as mulheres transexuais

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Este é o primeiro artigo da série “Desvelando a Transexualidade” sobre transexualidade e seus mais variados aspectos


A importância dos recortes na luta trans
A transexualidade é um tema muito complexo e pouco discutido e conhecido. Por isso, é de vital importância voltar à pauta sempre que possível. É importante fazer uma ressalva antes de continuar: tratarei, no texto, sobre transexualidade por ser uma mulher transexual e por ter vivência sobre esta realidade.

Sou uma mulher trans privilegiada por ser branca, de classe média, que não foi expulsa de casa pela família, que conseguiu concluir todo o ensino fundamental e médio. Tenho graduação, entrei no mestrado agora e não estou no mercado da prostituição. Enfim, tenho um monte de privilégios se comparada com outras mulheres trans, travestis e homens trans. O que nem por isso faz com que não passe por transfobia diariamente.

Contudo, mulheres trans, travestis e homens trans devem ser incentivados a falar sobre suas respectivas interseccionalidades, fazendo seus devidos recortes, de classe, raça etc., que pioram e intensificam suas opressões: cor, raça, classe, religião, educação, profissão. Uma trans negra, periférica, que não completou os estudos, deficiente, de religião de matriz africana, no mundo da prostituição, passa por muito mais problemas do que eu. Além da transfobia lida com racismo, classismo, intolerância religiosa, preconceito quanto às deficiências, nível de instrução/educação e profissões exercidas.

Retomando alguns conceitos

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1) Sexo biológico é aquele que é anatômico, fisiológico, gonadal e que pode ser observado pelos órgãos sexuais externos (macho e fêmea, sendo que macho nasce com pênis e testículos, e fêmea com vagina).

2) Identidade de gênero é o modo como a pessoa se vê no mundo, como pensa em si mesma, como se sente. Em termos psicanalíticos, seria a sua psique. Em termos subjetivos, sua essência, sua autoconsciência. Quando há uma correspondência entre a psique e o sexo biológico, a pessoa é denominada cisgênera, podendo ser homem cisgênero ou mulher cisgênera. Quando não há correspondência entre psique e órgão sexual, a pessoa é transgênera, transexual, podendo ser uma travesti, uma mulher transexual ou um homem transexual.

3) Orientação Sexual é para quem se dirige o afeto, a atração, o desejo, as relações afetivo-sexuais e, por isso, a pessoa pode ser heterossexual quando alguém do gênero masculino se interessa por alguém do gênero feminino e vice-versa; homossexual quando se relaciona com o mesmo gênero – gays e lésbicas; bissexuais quando sentem-se atraídas por ambos os gêneros.

Causa ainda confusão, mas uma mulher trans ou travesti que se relaciona com um homem é heterossexual e, caso se relacione com outra mulher, é lésbica. Um homem trans que se relaciona com uma mulher é heterossexual. Se ele se relacionar com outro homem, é gay.

Sintetizando: sexo biológico não tem relação com identidade de gênero, e identidade de gênero nada tem a ver com orientação sexual.

A diferença entre as travestis e as mulheres transexuais


Partindo dessa introdução, inicio com a polêmica distinção entre mulheres transexuais e travestis, tema que dá pano para a manga inclusive dentro da própria militância T. Arrisco-me a escrever tendo plena consciência de que posso ser crucificada, mas aberta aos comentários, críticas e divergências sobre tal distinção polêmica.

O senso comum simplifica a questão da seguinte forma: mulheres trans querem fazer a cirurgia de redesignação sexual (CRS), e as travestis não. Também há o pré-conceito de que as travestis são promíscuas e que são todas prostitutas. É uma distinção limitada que não abarca toda a pluralidade de autoidentificações. Autoidentificação é a palavra-chave: basicamente, trata-se de uma questão subjetiva de autopercepção.

Mulheres trans se autoidentificam como mulheres e podem ou não querer fazer a CRS: há as que desejam, porém há também as que estão satisfeitas apenas com hormonização, implante de próteses mamárias, depilação a laser da barba, não fazendo com que sejam menos mulheres ou menos mulheres trans por isso. A autoidentificação travesti é mais diversa, ampla: muitas se autoidentificam como mulheres, assim como mulheres transexuais; outras como nem mulher nem homem; outras como homem gay, apesar de usarem nome feminino e exigirem ser chamadas pelos respectivos artigos e pronomes femininos e outras mais possíveis autoidentificações.

Observo que a autoidentificação “mulher transexual” costuma ser mais pautada numa subjetividade relacionada ao campo dos afetos e das vivências afetivo-sexuais dessas mulheres, enquanto o termo “travesti” é mais pautado numa questão histórica, social, econômica e política relacionada à exclusão, marginalidade, vistas como bandidas, criminosas, “putas”. O que é senso comum entre as travestis é que, independentemente de qualquer outra autoidentificação, elas se autoidentificam como travestis. Há, porém, mulheres trans que também se autoidentificam como travestis, pois ,para a sociedade, todas (mulheres trans e travestis) somos “os travecos/os travestis”.

A transfobia mata!

Por Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP).

Por que as mulheres, mesmo as Feministas, entram em relacionamentos abusivos?

Sempre somos chamadas para responder esta questão, seja por homens ou por mulheres, tratam nos como se fossemos, especialmente as mulheres feministas, obrigadas a ter dons tais como o da visão do futuro, o de ler mentes, traduzir sinais sutis, e o maior deles, renegar a opressão internalizada e os sentimentos plantando em terra fértil, adubada com cobranças sociais de felicidade, alicerçadas em um projeto patriarcal travestido de romance, rumo a família nuclear burguesa.

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Como tudo começa?

Antes de tudo, antes da idade adulta, antes do feminismo… As mulheres nascem e são enquadradas em um gênero que tem toda uma performance subalternizada para ser cumprida e desde o primeiro momento somos vestida com estereótipos: Usamos cor rosa para mostrar que somos delicadas e femininas, a idade avança para infância onde somos estimuladas a seguir os passos de outras mulheres de nossa família, brincando com brinquedos que remetem a maternidade e serviços domésticos, muito cedo os adultos começam a nos dizer que “Quando você crescer e casar”, vemos adultos em observação a amizade de crianças de gêneros diferentes adultizarem a relação, dizendo que “são namorados”, que “vão casar”. Somo ensinadas a ter um comportamento diferente dos homens, a nos entendermos como frágeis e dependentes de proteção paternal, primeiro de nossos pais, tios, irmãos e depois de um homem que surgirá e ocupará este espaço. Somos criadas para sonhar com um homem que virá e tomará o lugar do nosso pai, que nos ama e nos protege (deveriam pelo menos), mas o mesmo pai que ama e protege, também abusa emocionalmente e agride fisicamente, logo estamos preparadas para entender que amor “tem destas coisas”.

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Com o terreno arado e adubado, plantam paulatinamente a ideologia machistas em nossas meninas, e quando chegam a fase adulta, tudo isto está ali, muito internalizado, com raízes muito profundas e estas raízes são cuidadas, todos os dias recebem reforço de mecanismo ideológicos, tais como a mídia, filmes e novelas românticas trazem um aprofundamento do ensinamento “você um dia irá casar e ser muito feliz”, “encontrar o par perfeito”; As religiões que enfiam em nossa cabeça uma verdadeira Ode ao amor romântico, a família nuclear, a fidelidade, sobre custas de caso falharmos incorrermos em um pecado grave; As músicas que falam de amor romântico, sexo baseado em amor (o tal do fazer amor para esconder o “eu quero fazer sexo com você”). Toda romantização das relações afetivas acaba por ser um fertilizante eficaz para acionar na mulher sonhos advindos das plantações machistas internalizadas, e que florescem ao serem iluminadas por este discurso.

O Cavalheirismo no Flerte

 As mulheres relatam que no momento do flerte os homens são exatamente tudo que elas esperavam, elas sentem se fragilizadas, baixam a guarda por que ele está trazendo até ela sinais que acionam seus sonhos pré-fabricados ideologicamente.

Os homens costumam no período do flerte tratar as mulheres de uma forma elevada, elogiam suas qualidades, tratam-nas com delicadeza, assumem um papel de cavalheiro, protetor e gentil. Neste período eles criam expectativas na mulher com uma encenação falsa e que não condiz com sua verdadeira personalidade, trata-se de vestir um personagem que também lhes foi ensinado desde o nascimento.

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Para quem for questionar o fato do cavalheirismo ser algo diferente de machismo, lembremos que o só o nome já nos remete a um período ultrapassado da história onde as mulheres eram ainda mais dependentes dos homens e dependiam destes para arrancá-las de uma torre protegida por um dragão, levando-as para serem feliz com a vida doméstica e cheia de filhos, num final feliz para sempre, não sei bem para quem, talvez para o dragão, ok, analogias a parte, cavalheirismo é uma gentileza especifica do homem para com a mulher que ele tem interesse, subliminarmente ele incute na mulher a ideia de que ela é frágil e precisa de um homem que irá protegê-la, até em coisa absurdas, como andar ao lado dela voltado para o lado da rua para caso algum carro venha a colidir ele a proteja com seu corpo, abrir a porta do carro, afinal desprovida de força fisica, de destreza, até nisso precisa de ajuda…Não se iludam, o cavalheirismo não passa de um “prêmio” do machismo para mulheres que se submetem.

Já-vi-muito.

É importante que as mulheres entendam que durante cerca de 5 mil anos as mulheres foram consideradas inferiores, julgadas por sua biologia, tratadas como limitadas, incompetentes, ações de cavalheirismo podem parecer inocentes porém, não são, alias são extremamente prejudiciais por que acionam inconscientemente ideias internalizadas. Cavalheirismo é diferente de gentileza. A gentileza é algo que fazemos por qualquer pessoa, sem intenções românticas ou sexuais.

Muito natural quando estamos conhecendo uma pessoa querer saber sobre ela e querer contar-lhe sobre nós, no flerte romântico isso se dá de varias formas, mas uma das formas mais acessadas e vocês me digam se é razoável aponta-la, é acessar a mulher do jogo romântico, com músicas. Uma forma aliás inteligente, o homem manda músicas com mensagens românticas para a mulher a fim de enfiar imagens e expectativas em sua cabeça, faz a mulher sonhar, ela acredita que ele está se declarando, e ela acredita nisso por que o amor romântico plantando na ceara dos seus sentimentos, por mais que ela queira renegar, recebe este sinal e aflora. Duas coisas sobre isso: A primeira é que como ele não disse com todas as palavras o que queria dizer e sim mandou músicas, ele pode mais tarde dizer que “eram apenas músicas e que não tem culpa das suas expectativas românticas”, a outra coisa é que trata-se de um mecanismo machista de manipulação da mulher, usado para acionar o amor romântico internalizado quando na verdade se quer apenas um sexo gostoso.

Os homens aprenderam que para ter sexo com mulheres precisam cortejá-las, (sim, pense em algo ultrapassado?) e corteja-las significa enganá-las, fazendo as pensar que o que está acontecendo entre os dois é algo muito mais forte do que realmente é e com potencial para relacionamento afetivo estável e duradouro. Mas eles não querem nada disso, eles só querem sexo. Por que eles não dizem “Eu te acho linda, adoraria sair com você casualmente e ver o que rola, estou falando de sexo casual, o que você acha?”. Eles não perguntam isso por que sabem que fomos criadas para viver o amor, do jeito que igreja prega e do jeito que a família nuclear precisa, de forma romantizada e temem que a resposta seja invariavelmente negativa, ou seja, pautam se no privilégio de saber de nossas construções opressivas para acioná-las e nos fragilizar a ponto de nos entregarmos sexualmente. Eles não nos dão a opção de decidir se queremos sexo casual ou não, é muito mais fácil valer se da construção social opressiva da mulher e depois dar aquelas desculpas esfarrapadas: “Não é nada com você, sou eu o problema”, “Não estou preparado para um relacionamento agora”, e a máxima “Você entendeu tudo errado”. Infelizmente, os homens carregam essa ideologia e prática machista, parte dela inclusive profundamente introjetada (enraizada dentro de cada um) e “naturalizada” (vista como se fosse natural e não cultural ou adquirida, como realmente é).

 

O Relacionamento abusivo

Há a possibilidade do homem querer levar adiante a relação e começar a redirecionar o uso de suas habilidades com mecanismos machistas, e é assim que as mulheres caem em relacionamentos abusivos, com homens valendo-se da opressão machista a que ela foi submetida a vida toda, e que mesmo tendo levantado bandeira (feminista) de luta contra tal opressão, ainda a tem dentro de si internalizada.

Toda a situação do período do Flerte monta um cenário de amor romântico com o homem fortalecendo as expectativas e idealizações românticas da mulher, ela pensa que encontrou o homem dos sonhos (plantados ideologicamente no campo dos seus sentimentos), ela pensa que será feliz, ela se entrega a este sonho, e ruma para concretizá-lo, contudo, o que é performático não se mantém por muito tempo, sabe a música do Frejat “E eu vou trata-la bem para que ela não tenha medo, quando começar a conhecer os meus segredos”?

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É isso que acontece, um tempo em que o homem se monta em cima da idealização da parceira e um tempo para mostrar a parceira que aquele homem não existe, contudo ela não consegue se desligar do homem que conheceu e não aceita que tudo aquilo era mentira, neste ponto a mulher começa a esperar e lutar para que aquele parceiro gentil, apaixonado, querido… retorne para que os sonhos tomem forma, mas isso não acontece.

Somos criadas para nos sentir responsáveis pelos sucesso do relacionamento, a religião cristã diz “a mulher sábia edifica seu lar”, a sociedade pergunta “O que você fez para dar errado?’  E além da pergunta invasiva e culpabilizadora, os olhares e murmúrios sociais dizem que a mulher fracassou no intento de manter a família unida. Por isso continuamos tentando, de forma irracional, recobrar aquele tempo feliz. Lembre se que tudo que fazemos vai além do racional, é como seguir instruções inconscientes.

A ideologia machista é isso, uma mentira contada desde nossa infância para que a tenhamos guardada em nossas mentes e sejamos conduzidas por ela sem sabermos que somos. Desta forma entramos em ciclos de relacionamento, onde para nos reconquistar o homem tenta retornar a performance do Flerte, quando não consegue manter, aparecem as brigas e em algum momento violência física, emocional, moral e patrimonial.

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Estamos em um período que muitas mulheres tem descoberto a ação destes mecanismos machistas em suas vidas e precavido –se para não se envolverem em situações deletérias para sua vida afetiva, mas nem sempre é possível, as vezes a gente cai e cai feio, mas isso não faz de nenhuma de nós menor ou maior, nós faz apenas humanas e em boa parte das vezes, pessoas que confiam e são traídas, leve sempre com você o fato de que a traição é um erro e tenha completa ciência de que a sociedade capitalista na qual estamos imersas, é extremamente machista e, inclusive, hoje ainda mais machista, fruto do retrocesso ideológico dos últimos anos. Estamos cercadas como ilhas, e o machismo continua um mar revolto e perigoso querendo nos engolir.

Recado para Esquerda Revolucionária

Para as mulheres marxistas revolucionárias e para os homens que compõem a mesma luta, não cabe mais utilizar destes mecanismos machistas e sutis contra as mulheres, se o fazem é uma postura conscientemente contra revolucionária. O fim da opressão sobre as mulheres é parte do programa revolucionário e está profundamente ligado a nossa visão de mundo por duas razões muito simples: a primeira é que um mundo socialista deve acabar com toda exploração e toda opressão e, nesse sentido, libertar toda a humanidade. A segunda é que para derrotar a burguesia e tomar o poder é preciso unir a classe operária e esta acaudilhar (dirigir) todos os demais setores explorados e oprimidos na luta pelo socialismo e pela revolução e, para tal, deve ser vanguarda da luta contra toda a opressão e preconceito.

Importante deixar a mensagem para os homens da esquerda que não é a luta das mulheres que enfraquece a luta de classes e sim o machismo. O machismo joga as mulheres contra os homens, forjam nelas desconfianças graves sobre sua moral e como poderiam as mulheres chamarem  de camaradas homens que usam de sua opressão estrutural para manipula-las ? Tenham em mente: O grande fim revolucionário rejeita meios indignosque jogam uma parte do proletariado contra outras, a prática e a defesa do machismo é imoral, divide a classe, ataca, oprime, coloca em crise e destrói mulheres, camaradas e ativistas do movimento inviabilizando a luta revolucionária.