Mães abusivas, você tem uma?

Foram mais de 3 décadas vivendo e tentando ser a filha que ela poderia amar, mas eu teria que abrir mão de muitas coisas para ser esta filha, eu teria que abrir mão das minhas crenças, da minha religião, da minha convicção política, de pessoas que ela desaprovasse, eu teria que obedecer, temer perde-la, temer ser excluída e por isso me submeter. Eu não seria quem sou, seria quem ela queria que eu fosse, e eu optei por ser eu mesma.

Minha experiência com uma mãe narcisista.

PAIS-ABUSADORES

Eu não entendia qual era o motivo, mas eu deveria deixar de tratar bem o meu pai para provar que a amava; Era difícil por que ele me tratava bem, ele chegava a noite cansado com macacão de mecânico cheio de graxa, tomava um banho e jantava, jogávamos dominó, damas, ele fazia “serra, serra, serrador…” Coisas que me fazem ter boas lembranças dele… Ela me chamava de “puxa saco do seu pai”.

Ela fazia a gente escrever cartas para nosso pai, cobrando ele de situações que nós nem sabíamos direito do que se tratava. Ele fazia muitas coisas erradas, mas eu não entendia as coisas erradas que ele fazia, entendia apenas que era muito errado, ela tinha muita mágoa dele.

Ele começou a ficar cada vez menos em casa “ele gosta mais do PT do que de vocês”. Depois de um tempo eu esperava ele chegar e ele não viria mais, senão tão tarde que eu não aguentava e caia no sono.

Dormia com ela, e ela me dizia quase toda noite que eu era muito desobediente e que se eu não a obedecesse ela ia embora e levaria apenas os meus irmãos. Eu ficava aterrorizada. Ela me dizia que eu era muito parecida com meu pai, como se parecer com ele fosse algo horrível, e cada vez mais eu me afastava do meu pai, por que eu não queria parecer ele, e eu queria que ela me aceitasse.

Durante toda infância e adolescência ela me espancava, ela colhia de um terreno perto de casa uma vara, de preferência com pontas, sabe quando você arranca as folhas e fica uma ponta? Então, ela queria que doesse muito. Tantas vezes tive que usar roupas de manga cumprida para esconder os vergões. Ela não batia nos meus irmãos. Eu me sentia envergonhada, triste, e quanto mais triste e envergonhada mais revoltada e rebelde.

Engordei muito no período da adolescência, sempre fui gorda, mas na adolescência eu me odiava, e entrei em depressão quando ela me disse que tinha vergonha de ter uma filha gorda. Ela dizia a outras pessoas, sempre perto de mim que meu irmão tinha um “corpinho” lindo, ele fazia natação e se cuidava. Eu me sentia feia, eu construía uma auto ódio ainda maior por que ela não me achava bonita.

Ela fazia intriga entre eu e meu irmão do meio, estimulava a competição entre nós, especialmente quando ela dizia que preferia ele a mim. Isso doía muito e eu vivia tentando ser alguém que pelo menos ela amasse um pouco, já que eu não era a preferida.

Ela nunca ficava do meu lado quando eu e meu irmão brigávamos, ela nunca fez a gente entender que não deveríamos, ela dava razão a ele, mesmo que ele tivesse me espancado, e ele me batia muito, ele era autoritário comigo, me tratava como se eu lhe devesse obediência, e quando eu não obedecia, apanhava. Ela achava que estava tudo certo.

O dois filhos homens eram filhos de ouro e eu não era nada, era a filha problemática, a filha com personalidade difícil, a filha desnaturada…

Ela arrumava brigas, destas brigas ela fazia um verdadeiro inferno, contava o lado dela da história onde ela era sempre vitima desta filha desgraçada e jogava a família toda contra mim, numa tentativa de me fazer submissa e submetida a ela, já que todos achavam que eu estava errada e ela certa. Os mecanismos de opressão são muito parecidos, não é? Colocar todo mundo contra você para que você seja a louca da história e ninguém acredite em você.

Tive que sair de casa cedo para me livrar da perseguição dela… Ela tentava deliberadamente me enlouquecer, era o tempo todo jogando a família toda contra mim só por que eu não era a filha obediente que aceitava tudo que ela falava.  Cada vez fui me isolando mais da família, deixando para lá, deixando de me sentir parte daquilo. O grande triunfo dela era que ela poderia manipular a família e me excluir, então eu fui me desligando aos poucos para não sofrer mais com esta exclusão e pessoas que eu amava, mas que aceitava a manipulação dela, foram deixando de ser amadas, foram esquecidas, guardadas em lugares obscuros do meu cérebro para não tocarem com lembranças meu coração.

Ela tinha razão quanto a meu pai, eu era e sou muito parecida com ele. Me orgulho disso. A militância dele na esquerda deixou uma herança para mim. E quanto mais parecida com meu pai, mais ela me desprezava. Minha militância na esquerda era vista com deboche, minhas ideias também, nada em mim era bom. Eu era a filha muito inteligente que não sabia usar a minha inteligência, para ela, saber usar a inteligência era ganhar dinheiro.

Eu me formei em 2009. Paguei meu curso sozinha. Foram 4 anos de muita dedicação. Eu tive que implorar para ela ir na minha formatura.

Na época do meu casamento, eu estava feliz, ela arrumou uma briga comigo, nem me lembro o motivo, mas sempre eram coisas pequenas que ela transformava em uma verdadeira tempestade. Ela jogou todo mundo contra mim, disse que não ia no meu casamento, e disse que meus irmãos também não iriam, ela conseguiu transformar meu momento num pesadelo e me fazer pedir, implorar para ela ir. Ela foi e lá, mesmo ouvindo ser chamada para tirar fotos, não foi, quando fui questioná-la por que não foi, ela se fez de ofendida e retirou-se levando meus irmãos e cunhadas, sobrinhos, junto com ela. Ela estragou a minha festa.

Ela nunca aprovava meus namorados, e toda vez que eu dizia que estava me relacionando com alguém, ela perguntava “é preto de novo”? Ela colocava apelidos nos meus namorados, ela desqualificava-os mesmo antes deles mostrarem-se machistas ou abusivos.

Ela falava mal de mim para minhas amigas, durante a visita de uma amiga a minha casa, estando minha mãe presente também, ela chamou minha amiga de canto, nas minhas costas e disse que “Ela é louca, ela passou da hora de nascer e faltou oxigênio no cérebro dela”, eu descobri isso da pior forma, durante uma discussão com a amiga, ela me disse “até sua mãe fala de você”, como se minha mãe falar fosse atestado de verdade, atestado de que eu era realmente louca. Eu fiquei profundamente magoada, com minha mãe e com a amiga.

Depois que minha mãe descobriu que eu estava fazendo tratamento psiquiátrico, qualquer discussão comigo ela me chamava de louca e perguntava se eu tinha tomados meus remédios.

Estive doente e internada 3 vezes por causa de uma pancreatite, minha mãe foi me visitar apenas uma vez. Dependi muito mais das minhas amigas do que da minha família para me recuperar, exceto pelo meu irmão mais velho e meu sobrinho mais velho, um tio que foi me visitar, apenas. Nesta experiência eu fui entendendo cada vez mais que, eu não só não era importante para aquela família, como não deveria contar com eles. Duas ou mais vezes, ao receber alta, paguei taxi e sai sozinha do hospital para casa. Cada vez mais sozinha, fui formando laços com outras pessoas, outras mulheres, amigas que são hoje a família que eu escolhi e que me escolheu, isso me fortaleceu muito. Seu fosse tão desgraçada assim, por que seria amada por outras pessoas?

Minha mãe tinha acesso a minha casa, ela tinha minhas chaves, entrava e saia quando queria, minha casa era como se fosse um cômodo da casa dela. Dei as chaves a ela quando fiquei doente, para ela me ajudar e depois me sentia péssima em tirar dela. Quando iam pessoas na minha casa, eu tinha que pedir para ela não ir lá, por que as vezes ela aparecia do nada, me sentia podada da minha intimidade e liberdade, um dia ela me perguntou: “Por que eu não posso ir lá? Vocês vão fazer sexo?” Foi um dia que eu recebi umas amigas e meu ex-namorado estava lá, minha cara caiu no chão como a pergunta dela. Ela me constrangia com as perguntas dela.

Quando eu recebia amigas a noite e a gente, mesmo com música ambiente, emitia sons de risada, ela ligava no meu celular berrando “Até que horas vai esta putaria ai”, um bando de amigas se divertindo era uma “putaria”. Ela sempre usava palavras de baixo calão comigo, mandava eu me foder e coisas do tipo, palavras que ela nunca usaria com meus irmãos.

Ela ouvia atrás das portas da minha casa, atrás do muro e depois me perguntava sobre assuntos íntimos e particulares que eu estava conversando com alguma amiga ou namorado, eu ficava sem saber o que fazer, eram assuntos que eu não queria comentar…

Quanto mais idosa ela foi ficando pior pra mim, por que ela agora era além de mãe, uma senhora idosa. Quem iria dar razão a uma filha que se desentende com a mãe idosa? Eu fazia de tudo para não ter desentendimento, eu ouvia coisa e deixava passar, eu passava por cima, como passei por cima da situação em que ela disse a minha amiga que eu era louca por que passei da hora de nascer e faltou oxigênio no meu cérebro, cheguei a perguntar a ela se era havia dito isso e ela inverteu a situação dizendo que nunca havia dito aquilo, que está amiga queria jogar a gente uma contra a outra, que era um absurdo, que ela era louca… Mas, ela disse sim, eu nunca havia contado para amiga que nasci pós termo, só ela poderia ter dito isso.

Há alguns anos estava traçando planos para mudar me da minha casa, aliás casa que eu adoro, para sair do lado da casa dela, somos vizinhas de muro, queria apenas sair dali, sem brigas, sem ela nem saber por que, mas um dia estava desabafando com uma amiga no telefone, dizia a ela que queria sair dali por que não aguentava mais minha mãe me tratando com se eu fosse uma criança, reclamei que ela não me respeitava, que ela falava palavras de baixo calão para mim e eu não aguentava mais isso. Minha mãe entrou no quintal pé por pé e ouviu atrás da porta da conversa e depois me confrontou.

Naquele momento ela admitiu que estava errada, que realmente me tratava como se fosse criança e que ia mudar isso. Ela mudou durante um tempo, ficamos bem, mas como sempre nunca durava muito, o ciclo de lua de mel e tensões não acontece apenas com entre casais, mas dentro de qualquer relação afetiva.

O Estopim da última discussão foi ela mandar eu me foder, sem nenhum motivo para isso. Eu havia a chamado do meu quintal para saber alguma coisa, como ela não respondeu, achei que havia saído e fui para dentro de casa, sentei e comecei a atender uma cliente. Ela aparece no portão e grita “Você estava me chamando?” Respondi “sim, mas a senhora não respondeu…” Ela disse “Fala logo o que você quer, senão eu vou embora”. Eu ali entre a cliente e ela (e ela sabe que eu atendo clientes em casa por videoconferência), sem saber quem responder disse “Vai mãe, depois te falo”, ela disse “ah vai se foder”.

Terminei de atender a cliente e fui na casa dela e perguntei “Mãe, por que senhora mandou eu me foder?”. Ela imediatamente armou-se um escândalo, dizendo que falou por falar. Mas não é verdade, por que se fosse um hábito dela, ela falaria isso para meus irmãos e ela não fala. Eu disse a ela que estava cansada disso, que não queria ser tratada daquele jeito, ela gargalhou na minha cara, e então eu disse que não dava mais, que a gente não poderia ser amigas. Ela começou a me ofender de todas formas, disse que eu era uma filha maldita, uma desgraçada, que era para eu esquecer que ela era minha mãe, tudo isso para não reconhecer que estava errada. Provavelmente ela nunca vai contar para meus irmãos como ela me trata, ela deve apenas dizer que ela cuida de mim e eu brigo com ela sem motivo. Logo eu sou mesmo uma filha desnaturada. Mas, também não me importa mais a opinião dos meus irmãos sobre esta situação. O que me importa é que me libertei.

A libertação do ciclo do relacionamento abusivo só acontece quando a gente se fortalece e para ter força é preciso reconhecer-se em um relacionamento tóxico, este é o primeiro passo. Quando este relacionamento tóxico é com a figura materna, a libertação pode ser a mais demorada, afinal, toda santificação que a sociedade faz do papel da mãe nos leva a crer que, somos nós mesmas sempre erradas e precisamos melhorar para sermos amadas, e cada migalha de amor que cai sobre nosso chão, sentimos nos compensadas e por isso passamos muito tempo tentando e tentando… começa ai nossa saga para lutar diariamente para sermos amadas, a naturalização desta situação nos faz levar este aprendizado para os relacionamentos afetivos vindouros, onde somos massacradas por nossos companheiros, mas ainda assim nos sentimos culpadas e obrigadas a seguir tentando conquistar o amor e sermos amadas. O machismo cria a santificação da mãe, o machismo apoia a continuidade disso nas relações entre homens e mulheres.

 

 

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Atores negros não são contratados para papel de elite.

As empresas que operam as redes de televisão são cínicas e racistas, elas tem concessão do governo para manter seus canais, e o governo ciente das práticas racistas dos empresários e funcionários de alto escalão, como os diretores de novela, por exemplo que insistem em escalar pessoas negras, para papéis que são “papéis de negros”, ou seja empregadas domésticas, mulheres de comunidades carentes, escravos… papéis subalternos.

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Hoje li a entrevista de um ator negro, Ícaro Silva, reclamando da escassez de papéis para negros, ele disse também que já foi dito a ele que por ser bonito não poderia fazer papel de escravo, fica ai a nota mental, para fazer papel de escravo precisa ser feio, ok? E sendo “um negro bonito”  se o papel for de galã, o ator feio e branco da vez, ocupará este papel.

Esta reclamação aparece logo quando estamos com a novela, Segundo Sol, ambientada na Bahia, lugar onde majoritariamente a população é negra, e no elenco escalado há uma quantidade de negros que se pode contar nos dedos: Roberta Rodrigues, dona de casa, Fabrício Boliveira, gigolô, Claudi Di Moura, mãe de Roberval, empregada doméstica que vive uma situação de síndrome de Estocolmo com seu patrão branco e rico.

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O papel de Zefa daria um enorme de um debate, poderia ser muito rico, mas a diretora e o escritor, retrógrados e racistas, apenas pendem para deixa-la no local comum, sem apresentar a situação de racismo da qual ela foi e é vítima; Danilo Ferreira que é um capoeirista sem muita importância na trama, e namora a mocinha branca e sofredora, cheia de problemas emocionais e vícios.

Para legitimar a presença de negros na novela SIM, aparece Fabíola Nascimento, a Cacau, com o cabelo trabalhado no permanente Afro. Apontam também a Nanda Costa e Roberto Bomtempo e dizem que “São negros sim”, e quem sou para dizer que não são, se eles se autodeclaram negros, eles são, não sou dada a colorismo, mas o fato é que, retintos mesmo contamos nos dedos.

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Os atores que são empregados do Roberval eu sequer encontrei o nome deles, se alguém puder me dar um help, agradeço.

Dizer que o que dá representatividade é o fato de que o ator negro está na trama central é muito cinismo, afinal, Roberval é um cara rancoroso, vingativo, que quer destruir a família branca que não o assumiu com filho por ser negro. Além de ter conseguido enriquecer tendo como fatos os seguintes: Submeter – se a fetichização racista da personagem de Adriana de Esteves, que deseja-o a primeira vista, obviamente por seus “dotes de negro”. Depois de usá-lo, imediatamente ela coloca em seu destino a situação de tornar-se um gigolô, após serem responsáveis pela morte de uma pobre viúva, branca e rica, ele vai embora do país, levando parte das jóias roubadas da mesma e retorna anos mais tarde rico, com uma grana que faz pensar, ganhada de forma ilícita, afinal negros, não podem chegar ao topo da classe social sem roubar. Na verdade, ninguém chega lá sem roubar ou explorar, mas o fato é que a Tv gosta de mostrar brancos chegando lá por merecimento e negros chegando lá de forma sórdida.

Roberval não é tratado como o homem negro vítima de racismo e que busca por justiça, ainda que de uma forma torta, ele é o vilão da novela a quem tudo é negado, quem sabe, até por merecimento aos olhos brancos que o condenam por traçar um plano de vingança, não é mesmo? A ele foi negado a mãe, que preferiu manter se escrava da família branca, servindo os com empregada, mesmo sem receber salário, Severo, mesmo escondendo uma fortuna, aceitou que seus empregados lhe “emprestassem os salários”, é um crápula. Pois é.

A ideologia racista se reforça quando as telenovelas, produto que é muito consumido pelas pessoas, especialmente as pobres e trabalhadoras, fortalecem que o lugar de negro é este: de subalternos e vilões.

Para os marxistas, é sempre importante considerar as diferenças (sempre complicadas) entre “ser racista” e reproduzir as ideologias que sustentam o racismo. No caso de escritores e diretores e novelas, assim como a emissora, trata-se de gente incluída numa classe que além de permitir raramente a presença de negros, beneficia – se do racismo. É muito provável que toda a elite do país tenham empregados negros para serviços domésticos. Dou um doce para quem for da elite que não apresente este elemento racial na composição de seu quadro de funcionários domésticos. Também se beneficiam, os escritores e diretores, que pasme, não me lembro de ter um negro ou negra, alguém me ajuda ai, se houver, me avisem.

Segundo o historiador marxista Eric Williams (em “Capitalismo e escravidão”, de 1944) o racismo tem uma origem de classe. Foram as elites dos anos 1500, e particularmente a burguesia desde então, que tentaram transformar “o aspecto físico dos [negros/as], seu cabelo, sua cor e dentição, suas características ‘subumanas’ tão alardeadas” em justificativas para o tráfico negreiro, a escravidão e todas as formas de superexploração impostas a negros e negras.

 Em suma, o racismo é, antes de tudo, uma ideologia disseminada pela classe dominante e sempre esteve a serviço de seus interesses e lucros. É a burguesia – empresários, banqueiros, latifundiários etc. e seus agentes nos governos, instituições e estruturas do Estado – que se utiliza das diferenças (de raça, gênero, orientação sexual etc.) para transformar diferenças em desigualdades e, desta forma, superexplorar setores inteiros da população.

A ideologia racista/burguesa foi e  continua a ser incutida e naturalizada na cabeça dos oprimidos, dos trabalhadores, dos pobres, dos explorados, dos marginalizados que a reproduzem muitas vezes mecanicamente, outras com a ilusão de que isto irá lhes garantir algum privilégio.

Por isso, uma de nossas principais tarefas, no que diz respeito à população em geral, tem a ver com o combate à consciência distorcida pelo sistema educacional eurocêntrico, os meios de comunicação, as igrejas, a família etc. etc.

Contudo, não acreditamos que seja correto colocar um sinal de igual entre a burguesia que utiliza de seu poder econômico e político para propagar ideologias que garantam seus interesses e aqueles ou aquelas que as reproduzem. E, mais um vez, não estamos falando, aqui, daqueles que fazem isto de forma consciente e em defesa de privilégios, sejam eles quais forem, da mesma forma que não vamos centrar a luta contra o machismo nas mães que incutem na cabeça das suas filhas histórias românticas como príncipes e princesas, por exemplo. Como também, não acusamos de racismo uma família negra pelo fato de que sua filha queira comemorar o aniversário vestida como a princesa Elsa (de “Frozen”), ao invés de receber os amiguinhos como a Rainha Nzinga. Isso não descarta, de forma alguma, a necessidade de que façamos um debate com estas pessoas, criticando-as com a convicção e a dureza necessárias. Mas não é nosso objetivo “destruí-las”. Queremos ganhá-la para nossa luta.

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Digo isso por que pode haver dentro do movimento quem critique pessoas negras por aceitarem papéis em novelas com gritante racismo, o fato é que estas pessoas não tem culpa de ocupar os poucos espaços reservados a elas, e por dentro da situação, também faz-se a luta, podendo manifestarem – se contra tal politica de contratação de negros que são minoritárias propositalmente, afinal, atores negros qualificados existem sim, mas o racismo não os deixa ter representatividade em papéis que foram feitos para brancos.

A mulher negra Latina e Caribenha

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O significado histórico do 25 de Julho
A partir de 1992, o Dia Internacional Latino-Americano e Caribenho da Mulher Negra passou a fazer parte do calendário de luta de negritude, resultado da realização do I Encontro de Mulheres Afro-Caribenhas ocorrido na República Dominicana. Apesar de recente, é um marco internacional importante de luta e resistência da mulher negra, pois tira do limbo a invisibilidade, a estigmatização, a indiferença e sub-humanidade a que foram submetidas.

Nesse sentido, essa data tem demandas represadas. São vários temas e ações que têm sido realizadas. As ações giram em torno da organização das mulheres negras; interesses e necessidades específicas; indicadores sociais de raça, gênero e classe; dificuldades de sobrevivência (social, econômica, política e cultural); divulgação da condição negra; diferenças com as mulheres não negras; história de luta, necessidade de trazer à tona mulheres negras que ajudaram a mudar a rota de sua coletividade; enfim, tirar da margem e colocar as mulheres negras no centro, a partir de sua voz. Esse é o propósito do 25 de julho que tem sido construído no Brasil.

No Brasil, a partir de 2014, o 25 de julho foi instituído como “Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra”. Tereza de Benguela chefiou o Quilombo de Quariterê, resistindo durante duas décadas. Ainda no mês de julho, no dia 31, comemora-se o “Dia da Mulher Africana”.

Da colonização aos dias de hoje: as desigualdades recaem sobre os ombros da mulher negra
Afastada de seu lugar de origem por conta do tráfico, a mulher negra, desde os tempos da escravidão, foi condicionada aos trabalhos pesados na lavoura, nas vendas em condição de escrava de ganho, como ama de leite, na prostituição. Foi sempre tratada de maneira desigual. Isso a distingue de outras mulheres.

O capitalismo a transformou em reprodutora do capital. Para isso, combina-se racismo e machismo, tirando-lhe sua humanidade e buscando reduzi-la a símbolo da escravidão e a objeto sexual. Naturalizaram-se estupros, abusos sexuais praticados pelos senhores de fazenda, foi negado o direito de escolha de seus parceiros, de cuidar de seus filhos. Buscou-se negar e até destruir suas experiências de organização política, formas de vida familiar e comunitária, bem como usou-se diversas estratégias para impossibilitar qualquer solidariedade entre seu povo. O tráfico e a escravidão foram dois dos crimes mais repugnante que o capitalismo.

Passados 129 anos da abolição, a mulher negra ainda vive na base da pirâmide social, representa a maior cota no trabalho doméstico, na terceirização, no trabalho informal e no trabalho temporário. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do período de 2004 a 2014 constatam esse fato: 39,1% das mulheres negras ainda ocupavam postos precários, com renda de até dois salários mínimos, sem carteira assinada.

Só em 2009, existiam 7,2 milhões de brasileiros trabalhando em limpeza, cozinha e manutenção de casas e escritórios, sendo que 61,6% do total, ou seja, 4 milhões eram negros e negras. A taxa de desemprego em 2009 era de 12% entre mulheres negras, comparada a 9% para mulheres brancas. Comparativamente, em termos de escolaridade o Ipea, em 2011, apontava que a taxa de escolarização de mulheres brancas era de 23,8%, enquanto entre mulheres negras era de apenas 9%. Ou seja, os dados revelam que há hierarquia de gênero e raça.

Vale lembrar que com a recente aprovação da reforma trabalhista, a tendência é potencializar ainda mais a discriminação e tornar as mulheres negras mais vulneráveis frente aos patrões, ampliando a jornada de trabalho sem regulamentação de direitos, além de reforçar a ideia de que os trabalhos subalternizados cabe à mulher negra. Num país em que 39,8% das mulheres negras são chefiam suas famílias, segundo o IBGE (2014), e que há famílias inteiras em que a única renda é o benefício da Previdência, não é difícil imaginar quem mais será prejudicada com a reforma da Previdência.

As mulheres negras começam a trabalhar muito cedo e na informalidade. Diminuir o valor do benefício, colocando abaixo do salário mínimo, bem como dificultar a aposentadoria, aumentando a idade, é uma política de liquidação dos mais pobres. É a volta da lei dos sexagenários do período da escravidão. Muitos não chegarão à idade proposta, morrerão no meio do caminho. Sem contar que esta reforma tem o objetivo também de liquidar o Sistema Único de Saúde (SUS), impedindo ainda mais o acesso a serviço gratuito de saúde.

A cor, o gênero e a classe da violência
O racismo se materializa de diversas formas, contudo a forma mais desprezível é a aniquilação e objetivação dos corpos negros: extermínio, assassinatos, limpeza étnica, controle do corpo, através de encarceramento, violência, estupros, etc. Vejamos os dados.

O mapa da violência (2015) comprova a seletividade de cor gênero e raça. Ressalta que em dez anos elevou-se em 54% a morte de mulheres negras, enquanto que entre as mulheres brancas diminui em quase 10%.

Nos dados sobre violência é oportuno mencionar a situação repugnante que vive as mulheres no Haiti. Após 13 anos de ocupação militar comandadas pelo exército brasileiro o resultado é miséria, violência e estupro. Foram mais de 2.000 casos envolvendo soldados brasileiros em estupros segundo o Jornal Estadão (abril de 2017).

No ensejo, é preciso denunciar que o Brasil é campeão em mortes de travestis e transexuais segundo dados do Grupo Gay da Bahia. Só em 2016, foram 127, ou seja, uma morte a cada três dias.

No que se refere ao encarceramento, o Informações Penitenciárias, o Infopen Mulheres (2014), destaca que o Brasil é o quinto país com a maior população de mulheres encarceradas. No período de 2000 a 2014, tal aumento representa um total de 567,4% para a população feminina. Quase dois terços da população penitenciária feminina é negra e jovem; 68% dos casos estão relacionados ao tráfico de drogas, o que nos leva a concluir que esse encarceramento em massa é uma política de controle social e há uma política de segurança pública calcada na repressão, encarceramento, construção de presídios e privatização do sistema prisional em que lucra com cada preso.

Não à toa, os investimentos com a segurança nos últimos anos. Em 2014, chegou à marca de R$ 4,2 bilhões com um aumento de 150% no período, segundo o Ministério da Justiça. O aumento do efetivo de policiais, a compra de armamentos, a implantação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP), a construção de presídios foram ações prioritárias estabelecidas no governo Dilma. A lei antidrogas foi sancionada em 2006, pelo governo Lula, e a lei antiterrorista, por Dilma em 2016.

Já com Temer, os investimentos na área de segurança pública quintuplicaram. Somente no ano passado, mais de R$ 2 bilhões do orçamento, a prioridade é a construção de cinco grandes presídios de segurança máxima, ou seja, mais cadeia para pobres.

O sistema prisional no Brasil é degradante. Não ressocializa ninguém. A mão repressora do estado pesa sobre os corpos negros. É uma fábrica de matar. Corpos são castigados, mutilados, acometidos de doenças, empilhados, isolados em minúsculas celas, decapitados em momentos de motim, enfim é imposto sofrimento físico e psicológico que se estende a toda a família.

As visitas em presídios é algo incomum, são vexatórias. Às mulheres negras, as mais frequentes nas visitas aos seus maridos e filhos, é imposto um ritual que remete à humilhação do corpo. Elas são obrigadas a se despirem, a se agacharem sob o olhar de um agente penitenciário, e são escoltadas. A prática de castigo corporal nos remete a escravidão e, portanto, ao caráter escravagista da burguesia e seus governos nos dias de hoje.

Qual é a saída?
Historicamente, as mulheres negras vêm mostrando o caminho a partir de suas experiências concretas de organização. Um exemplo é a atividade guerreira, que desde os tempos coloniais mulheres negras estavam a frente, dirigindo quilombos, à frente de lutas importantes. Mulheres como Dandara, Tereza de Benguela, Luiza Manhin, mostraram que na luta contra o racismo, a unidade com a classe dominante é inconciliável. Não deram trégua representados capitães do mato.

A sua luta foi em libertar o seu povo, se concentrando em solapar as bases materiais do escravismo e as relações de trabalho entre senhores e escravos, para isto buscou unidade de classe com os indígenas e brancos pobres. As mulheres negras foram o principal alicerce de resistência da cultura africana no território brasileiro, seja na manutenção das religiões de matriz africana, fortemente perseguida no país, seja como referência para construir valores de civilização, identidade e desmistificação da farsa do mito da democracia racial.

No Brasil, combater o racismo passa, necessariamente, por compreender a ligação com o machismo e a classe, destruindo o sistema capitalista que gera tudo isso e liberte de fato nosso povo, tendo como referência nossos antepassados e toda a condição que fomos submetidos. Por isso, exigimos de imediato, enquanto medidas transitórias, a implementação de políticas de reparações, com plano de ação concreta que garanta o acesso à educação, emprego, saúde, renda, moradia e transportes dignos.

Por: Claudicéa Durans é membro da do Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe

As relações religiosas como arma ideológica de dominação

Desvelando a Transexualidade: Capitalismo, mercado de trabalho e da prostituição

O não-lugar no mercado de trabalho

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Fonte: Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e outras organizações de travestis e transexuais, o preconceito no trabalho é tanto que a porcentagem de pessoas trans que precisa se prostituir para sobreviver é de cerca de 95%. Novamente a hipocrisia é tremenda, pois somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, que não aceita dar oportunidades de trabalho para essas mulheres no mercado formal, mas que paga por seus serviços sexuais na calada da noite.

Há raras exceções de empregos precarizados, como telemarketing (onde não se vê quem está do outro lado da linha) ou salões de beleza. É raríssimo encontrar professoras, médicas, advogadas etc. que sejam trans. Até mesmo no comércio, em que os donos dos estabelecimentos querem passar uma determinada imagem de seus produtos e de seu atendimento, não servem as pessoas trans, porque são estigmatizadas.

Prostituição: o único caminho

Já nas ruas escuras do nosso mundo hipócrita, elas podem estar a serviço do lucro dos cafetões e cafetinas, expostas a todo tipo de violência e relações marginais, realizando um dos trabalhos mais opressivos que se criou: a prostituição. Afinal, a pessoa que se prostituiu não presta um serviço ou vende sua força de trabalho com direitos regulamentados. Ela vende a si mesma, sem garantia de nada, correndo o risco de ser espancada e morta, lembrando que, segundo a Rede Trans Brasil, 50,6% das vítimas são profissionais do sexo, e, em cada 24 homicídios, o assassino era cliente da pessoa trans.

Há pouco tempo, diante de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, quiseram aprovar a Lei Gabriela Leite que legalizaria a prostituição. Infelizmente, a defesa e a proteção daquelas/es que se prostituem não passa por essa iniciativa nefasta, que aprofunda as relações de desigualdade de identidade de gênero, de raça e de classe social. É assim porque regulamentaria, na realidade, a cafetinagem, permitindo que 50% do valor do serviço prestado pudesse ser apropriado por quem agenciasse as pessoas travestis/trans e que, além de outros motivos, negaria a possibilidade de estupro, o qual seria entendido como negação da oferta do serviço e estimulando o que há de mais degenerado no que toca às relações humanas, transformando pessoas em mercadoria.

Ainda sobre a assimilação pelo capitalismo, há todo um mercado de adequação ao corpo e auto-tratamento desenvolvido para que as mulheres travestis/trans tenham corpos mais próximos daqueles que desejam ou que procuram os clientes. Assim, de maneira arriscada, muitas dessas mulheres compram hormônios no mercado informal e/ou aplicam silicone industrial em seus corpos com as “bombadeiras” (mulheres que injetam o silicone industrial). Como consequência, o silicone industrial pode causar trombose, gangrena e até amputação. Em alguns casos, provoca a morte.

Toda essa vida difícil e exclusão sofridas pelas pessoas trans provoca, não raro, situações de envolvimento com a marginalidade e a fuga para suportar a dor causada por tamanhas dificuldades e rejeição, levando ao envolvimento com o tráfico de drogas, ao adoecimento, à depressão, a tentativas de suicídio e ao uso de drogas para anestesiar tanta dor.

É necessário exigir iniciativas urgentes dos governos, como aquelas concernentes ao uso do nome social sem burocracia e amplo acesso à saúde pública e de qualidade, incluindo tratamento respeitoso e humano. E também, estando atentos/as às demais instituições, como a mídia, que tem enorme responsabilidade sobre a dinâmica social.

Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)

 

 

Desvelando a Transexualidade: A transfobia mata – Parte IV

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Sobre os assassinatos

O relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB) que lança anualmente um estudo sobre a população LGBT assassinada no ano anterior, mostra-nos em seu relatório mais recente, do ano de 2016, que: “tais mortes crescem assustadoramente: de 130 homicídios em 2000, saltou para 260 em 2010 e para 343 em 2016. Durante o governo FHC mataram-se em média 127 LGBT por ano; no governo Lula 163 e no governo Dilma/Temer, 325”.

O GGB também nos diz que um LGBT é morto a cada 25 horas no Brasil. Ele ainda nos aponta que: “dos 343 LGBTs que foram assassinados em 2016, 31% desses assassinatos foram praticados com arma de fogo, 27% com armas brancas, incluindo ainda enforcamento, pauladas, apedrejamento, muitos crimes cometidos com requintes de crueldade: tortura, queima do corpo. Travestis geralmente são assassinadas a tiro ou espancadas na rua, enquanto gays são mortos dentro de casa, com objetos domésticos: facas, fios elétricos, sufocados na cama, muitas vezes encontrados pelos vizinhos somente pelo odor do corpo já em putrefação. Proporcionalmente, as travestis e transexuais são as mais vitimizadas: o risco de uma “trans” ser assassinada é 14 vezes maior que um gay, e se compararmos com os Estados Unidos, as 144 travestis brasileiras assassinadas em 2016 face às 21 trans americanas, as brasileiras têm 9 vezes mais chance de morte violenta do que as trans norte-americanas. Segundo agências internacionais, mais da metade dos homicídios de transexuais do mundo, ocorrem no Brasil”.

O relatório iniciou-se em 2012, e quanto ao segmento de travestis e transexuais observou-se que: em 2012, foram 128 assassinatos; em 2013, 108; em 2014, 134; em 2015, 119 e em 2016, 144.  Outro fator importante a salientar é a crueldade dos assassinatos praticados. Transfeminicídios acabam tendo mais requintes de crueldade do que os feminicídios, talvez por carregarem em si o machismo e misoginia, aliados ao fator da transfobia. Travestis e transexuais não são apenas assassinadas/os, o número de facadas ou tiros acaba sendo maior do que o cometido contra mulheres cisgêneras. O ódio é tanto que descarregam o pente todo da arma, degolam, espancam, torturam, queimam, esquartejam, esmagam os crânios, muitas vezes, de tal modo, que fica praticamente impossível reconhecer a identidade dos corpos. Esta é uma forma de realmente vilipendiar esses corpos, tirando-lhes toda a humanidade, mesmo após a morte; deixando-lhes nuas, com genitálias expostas, em um misto de culto à violência com altas doses de sádico erotismo.

Pessoas travestis e transexuais são assassinadas 2 vezes: uma, literalmente; outra, ao terem seus nomes e identidades de gênero desrespeitados em notícias na mídia e ao serem enterradas com os seus nomes de registro civil não-retificados.

Porém, todos os dados de pesquisa estão longe de apontar a realidade, pois cabe lembrar que estes dados são subestimados, pois baseiam-se apenas em notícias da mídia em que a motivação do crime nem sempre é explicitada e muitos são, ainda, omitidos pelas famílias. Assim, o Brasil é o país do mundo que mais mata pessoas trans.

Segundo a Rede Trans Brasil, 94% das vítimas estão solteiras; 50,6% são profissionais do sexo, e, em cada 24 homicídios, um o assassino era cliente da pessoa trans. O mais interessante e hipócrita é que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, mas, também é o país que mais consome pornografia deste segmento em suas buscas no Google por pornografia “tranny” ou “shemale”, dois termos altamente pejorativos utilizados pela indústria pornográfica mundial.

O Mapa de Assassinatos de Pessoas Trans no Brasil, feito pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), informa-nos que, só em 2017, de janeiro até o dia 9 de julho, foram cometidos 95 assassinatos contra travestis, mulheres e homens transexuais em nosso país.

A transfobia mata!

Desvelando a Transexualidade: Retificação do nome e direito ao nome social – Parte III

Por Frida Pascio Monteiro, de Fernandópolis (SP)

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“Desvelando a Transexualidade” é uma série de artigos sobre transexualidade nos mais variados aspectos. Este é o terceiro artigo.

Quanto à retificação do prenome civil
Em linhas gerais, apesar do fundamento da demanda variar de acordo com as necessidades e particularidades de cada caso, temos que a maior parte das demandas de Retificação de Registro Civil ligadas à questão da sexualidade, encontram fundamentação jurídica na “notoriedade”: ser conhecido por nome diverso daquele do documento, tanto no trabalho, como no convívio social; e no constrangimento: incongruência entre o nome do documento e a aparência, gerando constrangimento face à necessidade de apresentação de documentos.

A retificação do prenome civil é muito burocrática, sendo necessários vários documentos, dentre eles: cópia da certidão de nascimento, cópia do RG, cópia do CPF, cópia da Reservista, cópia da carteira de trabalho, cópia do comprovante de residência, laudo psicológico atestando a disforia de gênero (após o mínimo de 2 anos de acompanhamento/tratamento), laudo psiquiátrico atestando a disforia de gênero (após o mínimo de 2 anos de acompanhamento/tratamento), documentos que comprovem o uso do referido nome (pode ser cartão do banco, cartão SUS, contas de perfis online etc.), laudo médico (caso já tenha realizado cirurgia de readequação sexual, e, em caso de cirurgias realizadas fora do Brasil, deve se realizar a tradução juramental do respectivo laudo), certidões negativas (Certidão da Justiça Militar Estadual: finalidade criminal, Certidão da Justiça Militar da União Federal: finalidade criminal, Certidão de Distribuição Criminal: finalidade criminal, Certidão de Execuções Criminais Estadual: finalidade criminal, Certidão Negativa de Dívida Ativa, Certidão de Quitação com a Justiça Eleitoral, Certidão de Distribuição da Justiça Federal, Certidão de Ações Trabalhistas do Estado de São Paulo , Certidão do Distribuidor Cível Estadual, Certidão do Distribuidor Cível, Executivos Fiscais Estadual, Certidão de Distribuição de Ações e Feitos da Justiça Federal  Estadual) que podem ser solicitadas pela Internet, 3 fotos 10×15 de corpo inteiro – corpo e rosto -, (sendo interessante conter pelo menos 1 anterior à transição), 3 cartas a próprio punho de pessoas que reconhecem o uso do determinado nome há pelo menos 5 anos. Esses documentos são a base, dependendo o juiz, ele pode pedir algo a menos ou a mais.

As certidões negativas servem para provar que não se deseja retificar o prenome por possuir pendências ou débitos junto ao órgão emissor, tais como: sonegação fiscal, falsidade ideológica, entre outros.

O grande problema da retificação do prenome civil é que ele dependerá, basicamente, da opinião pessoal do juiz, já que não há lei específica. Se houver sorte de o processo cair em mãos de um juiz “não conservador”, há maiores chances; mas se houver o azar de cair nas mãos de um juiz conservador, ele poderá dificultar ao máximo, pedindo o maior número de documentação possível e, assim, arrastar o processo por anos a fio, ou, ainda, indeferir o pedido. Em um país em que se pode recorrer a tudo em várias e várias instâncias, travestis e transexuais não possuem este privilégio. Se o pedido de retificação for indeferido, não há mais como recorrer em primeira instância, tendo, assim, que recorrer junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Quanto ao direito ao uso do nome social

O Decreto de Lei 8.727/16 dispõe sobre o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e fundacional.

A lei 1.820/09 dispõe sobre o uso do nome social na Carteirinha do SUS, em seu artigo 4º, Parágrafo Único, Inciso I:

Art. 4º. Toda pessoa tem direito ao atendimento humanizado e acolhedor, realizado por profissionais qualificados, em ambiente limpo, confortável e acessível a todos.

Parágrafo único. É direito da pessoa, na rede de serviços de saúde, ter atendimento humanizado, acolhedor, livre de qualquer discriminação, restrição ou negação em virtude de idade, raça, cor, etnia, religião, orientação sexual, identidade de gênero, condições econômicas ou sociais, estado de saúde, de anomalia, patologia ou deficiência, garantindo-lhe:

I – Identificação pelo nome e sobrenome civil, devendo existir em todo documento do usuário e usuária um campo para se registrar o nome social, independente do registro civil sendo assegurado o uso do nome de preferência, não podendo ser identificado por número, nome ou código da doença ou outras formas desrespeitosas ou preconceituosas”.

A possibilidade de usar o nome social no Enem foi aberta em 2014. Naquele ano, foram apresentadas 102 solicitações. Na edição de 2015, o número subiu para 278 e na edição 2016 o número foi para 406. Esta foi uma oportunidade que atraiu mais pessoas travestis e transexuais para prestar o exame, pois diminuiu o constrangimento de serem chamadas/os pelo nome de registro civil não retificado e passarem por situações de preconceito, vexatórias.

O Decreto Estadual nº 55.588/10 dispõe sobre o tratamento nominal das pessoas transexuais e travestis nos órgãos públicos do Estado de São Paulo e dá providências correlatas. A Deliberação 125/2014 do Conselho Estadual de Educação do Estado de São Paulo dispõe sobre a inclusão de nome social nos registros escolares das instituições públicas e privadas no Sistema de Ensino do Estado de São Paulo e dá outras providências correlatas. A Resolução da Secretaria da Educação, n 12/2015, estabelece parâmetros para a garantia das condições de acesso e permanência de pessoas travestis e transexuais – e todas aquelas que tenham sua identidade de gênero não reconhecida em diferentes espaços sociais – nos sistemas e instituições de ensino, formulando orientações quanto ao reconhecimento institucional da identidade de gênero e sua operacionalização, além de garantir o uso de banheiros, vestiários e demais espaços segregados por gênero, quando houver, de acordo com a identidade de gênero de cada sujeito.

O uso do nome social por estudantes é uma medida que visa evitar a “evasão” escolar dessas/es estudantes travestis e transexuais. O termo correto não seria “evasão” escolar, mas sim “expulsão” escolar, visto que tais estudantes sofrem diariamente com o desrespeito às suas identidades de gênero e nomes; são vítimas de chacotas por parte de alunos e funcionários; sofrem perseguições; são proibidas/os de utilizarem o banheiro com o qual se identificam pelos seus respectivos gêneros; sofrem agressões físicas, e, até sexuais, dentro de banheiros, que são promovidas por grupos de alunos como forma de estupros corretivos. Toda essa conjuntura as/os expulsa da escola e o uso do nome social serve como uma medida paliativa. O correto seria uma capacitação do corpo docente e de funcionários e, posteriormente, uma maior conscientização dos alunos e pais para aceitarem e acolherem estudantes transexuais.

Alguns bancos começaram a aceitar o uso do nome social em crachás de seus funcionários e em cartões de clientes.

O direito ao uso do nome social é apenas uma “muleta” administrativa que não resolve o problema, não chega a ser um direito básico assegurado em si. De nada adianta o nome social se vier em uma carteira escrito: nome social. As pessoas ainda podem agir com transfobia pelo fato de vir evidenciado tratar-se de um/a transexual ou travesti.

A carteira de nome social acaba segregando ainda mais uma população tão marginalizada e segregada.

Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)