Feminismo Revolucionário da Esquerda Marxista

A luta da mulher proletária por libertação não pode ser similar a luta que as mulheres burguesas travam contra homens da sua classe, pelo contrário deve ser uma luta conjunta com os homens de sua classe contra toda classe dos capitalistas. Ela não precisa lutar contra os homens da sua classe para romper as barreiras que foram levantadas contra sua participação na livre competição do mercado de trabalho… Seu objetivo final não é livre competição com o homens, mas a conquista do rumo político do proletariado. A mulher proletária luta punho a punho com o homem de sua classe contra a sociedade capitalista. (Zetkin, apud Foner, 1984: 77).

Muita gente vem me perguntando o que é este tal de Feminismo Revolucionário da Esquerda Marxista, bom vamos tentar esclarecer então:

A libertação da mulher tem varias formas de ser interpretada, por exemplo, temos as feministas da linha das sufragistas, movimento que emergiu nos países capitalistas avançados durante os anos 1960 e 1970 e parte da visão de que os homens sempre oprimiram as mulheres e que a constituição biológica e psíquica dos homens os leva a tratar as mulheres como inferiores.  Partindo desta conclusão, estas feministas crêem que a solução para libertação das mulheres é destruir o patriarcalismo, e somente ele, e para isso é necessário as mulheres lutarem completamente separadas dos homens.

Muitas feministas socialistas a principio aderiram esta idéia, mas com o surgimento do feminismo radical, apoiado na total separação entre mulheres e homens, as socialistas resolveram ir para dentro dos partidos socialistas e/ou comunistas, a fim de buscarem o tipo de luta que acreditavam.

Que luta é esta que as Feministas Socialistas acreditavam?

As feministas socialistas seguem uma linha de idéias anterior as sufragistas, a linha do Movimento das Mulheres Trabalhadoras. A idéia de libertação da mulher é muito, mas muito anterior as Sufragistas. Em 1848 Marx e Engels já analisavam a condição da mulher, e falavam sobre a necessidade de libertação da mesma, em seus escritos datados desta época eles demonstraram que a opressão da mulher não surge da cabeça dos homens, mas sim do desenvolvimento da propriedade privada e em decorrência dela, a urgência da formação da sociedade de classes. Para Marx e Engels, a luta pela emancipação das mulheres é inseparável da luta pelo fim da sociedade de classes, isto é, da luta pelo socialismo.

No seu primeiro papel dentro da sociedade de classes a mulher é totalmente dependente do marido, cuidadora da família e do lar. Mas, além da urgência da formação da sociedade de classes para assegurar a propriedade privada surge também sistemas econômicos voltados também para esta finalidade, o modelo mais aperfeiçoado destes sistemas que nasceram para assegura o privilégio de poucos, os poucos que eram detentores das propriedades privadas de meio de produção, é o capitalismo.

O capitalismo trouxe as mulheres de volta a produção, trabalhando em fábricas. Mas o mesmo machismo que nasce com a propriedade privada de meios de produção, que delega a mulher os cuidados do lar e papel de reprodutora de filhos dos homens com objetivo de ser herdeiro dos seus bens, aperfeiçoa esta opressão, também para as mulheres burguesas, que neste ponto mantiveram se estacionadas na forma opressiva anterior, mas principalmente para as mulheres pobres que passam de parideira de herdeiros, para parideira de exercito de reserva de mão de obra das empresas da classe dominante do meios de produção, acumula se sobre ela todas as funções antes impostas aliadas a sobrecarga do trabalho nas fábricas para ajudar a compor a renda do marido que já não era suficiente.

Para o capitalismo o machismo é muito vantajoso, esta inferiorização da mulher que nasce na surge na propriedade privada é absorvido pelo capitalismo para lucrar e manter – se. A mulher é um dos pilares significativamente importante para sustentação do capitalismo. Do ponto de vista da classe dominante é muito vantajoso pagar os homens salários muitos maiores do que para mulheres, obrigando as a abdicar da vida profissional para tornar aos afazeres do lar, assim as mulheres permanecem, gratuitamente, trabalhando para que os homens fiquem em condições de irem ao seu trabalho e garante que os seus filhos sejam criados por elas para fazer o mesmo. Suponhamos que houvesse a proposta de que um dois ficaria em casa para criar os filhos e afazeres do lar, quem teria maior condições de manter a casa financeira? Obviamente o homem que sempre este na base do privilégio deste sistema, logo nunca foi uma escolha para a mulher deixar estas funções e investir em sua carreira no mercado de trabalho formal.

Porém, dentro das contradições do capitalismo, temos que a ida das mulheres para o mercado de trabalho formal alavancou uma igualdade entre homens e mulheres, a de classe, a partir deste momento ambos tornam se integrantes da classe trabalhadora, ambos sentem na pele uma opressão em comum advinda da exploração dos capitalistas que mantém suas riquezas e lucros em cima dos salários baixos, e lucram mais ainda em cima da dupla opressão da mulher que ainda é vitima do machismo.

As feministas da linhagem das sufragistas entendem que a opressão machistas é superior a divisão da sociedade de classes, lutam por mudanças por dentro do sistema capitalista o que beneficia apenas uma parcela das mulheres em detrimento de uma grande maioria. Este movimento de libertação das mulheres sempre esteve dominado por mulheres da “nova classe média”, mulheres burguesas que conseguiram algum tipo de emancipação, enquanto as mulheres trabalhadoras exercendo subempregos eram deixados no esquecimento. Como disse Alexandra Kollontai:

“O objetivo delas é consquistar as mesmas vantagens, o mesmo poder, os mesmos direitos dentro da sociedade capitalista, que hoje possuem seus maridos, pais e irmãos. Qual é o objetivo das mulheres trabalhadoras? Seu objetivo é todos os privilégios derivados de nascimento ou riqueza”.

Mas estas mulheres, do proletariado, já haviam mostrado sua força e disposição de luta muito antes do feminismo configurar se desta forma.

A Revolução Bolchevique de 1917 iniciou se com as mulheres trabalhadoras que saíram das fábricas e ganharam as ruas em protesto contra miséria que estavam vivendo na Rússia, foram elas que iniciaram a Revolução que resultou na derrubada do Czarismo e instauração do Estado Socialista, a União Soviética. O Novo Estado Socialista por sua vez produziu uma igualdade como nunca antes se vira. Ás mulheres foi dado direito de divórcio, direito ao aborto e foi disponibilizado contracepção para todas. A educação dos filhos que antes era da família passou a ser responsabilidade da sociedade. Restaurantes, lavanderias e creches comunitárias deram as mulheres autonomia sobre suas próprias vidas. O stalinismo que assumiu o estado após a morte de Lênin, um dos lideres da revolução de Outubro, foi extremamente reacionário e puseram todas estas vitórias a perder, o que nos deixa claro que sem avançar o processo revolucionário se sem o socialismo, não é possível manter as vitórias conquistadas pelas mulheres.

As feministas da esquerda revolucionária Marxista entendem a luta contra o machismo como uma luta inseparável da luta de classes; Entendemos que o feminismo é uma parte importante da luta, pois impulsiona as demandas especificas das mulheres, mas é extremamente importante que homens entendam que a luta das mulheres deve ser apoiada por eles também, que homens e mulheres devem aliar se para a luta contra divisão de classes, contra esta (que é a verdadeira minoria) elite que se pôs ao topo do sistema econômico e se beneficia das discriminação das diferenças, inclusive fortalecendo dentro deste cenário a desqualificação da mulher  e o elogio a superioridade do homem com a clara intenção de nos separar, de nos por em guerra uns contra os outros sem notarmos que enquanto isso o inimigo real deita e rola sobre nossas costas cansadas e arqueadas do peso desta opressão que nos impuseram. Só os trabalhadores, homens e mulheres, atuando em conjunto num movimento revolucionário poderão destruir a sociedade de classes e com ela a opressão sobre as mulheres de forma definitiva.

Bibliografia

Harman, Chris. Marxismo e Feminismo http://www.marxists.org/portugues/harman/1979/marxismo/cap12.htm

Orr, Judith. Marxismo e Feminismo hoje.2011 https://docs.google.com/file/d/0B8_gvWjrwU3ZSGk1UlFNaGVIR1k/edit

Sobre a Misoginia Internalizada e o despertar para a irmandade de mulheres

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Estes dias eu estava passando por minha Time line, e dolorosamente li um post que dizia ” Não tente entender outras mulheres, mulheres não se entendem, elas se odeiam”. Nós temos acreditado nisso, por mais que você não perceba e que eu não tenha percebido, nós acreditamos nisso, e passamos a vida em guerra com outras mulheres. Sem saber por que.

Passei por algumas situações recentemente que me mostram o quanto isso é verdadeiro “mulheres odeiam outras mulheres”. O primeiro passo para libertação, é admitir que existe uma prisão e depois romper com as grades e sair de lá, certo? Ok. Admitimos que existe uma construção social, feita sobre as mulheres, onde a internalização da misoginia, faz com elas odeiem outras mulheres.

Eu vou contar algo para vocês, uma experiencia muito forte que tive na minha vida:
Sempre tive amigos homens, homossexuais e heterossexuais, eu os preferia as mulheres, e usava todo aquele discurso de reprodução do machismo para apoiar isso “Mulheres são falsas”, “Mulheres competem o tempo todo”, Mulheres não tem a mesma compressão que homens sobre mim” etc… Mas existia algo muito forte por trás disso, existia algo que você precisa entender, assim como eu entendi um dia também, existia um ódio por mim mesma, um ódio por ser mulher. Eu não queria ser mulher, eu tinha inveja dos meus amigos homens, eles tinham liberdade sexual, me estimulavam a ser livre, não usavam moralismo para me condenar, eu me lembro de contar aos meus amigos gays sobre minhas aventuras sexuais e ser ouvida com interesse, sem pudor, com comentários ácidos e algumas vezes eu ouvia coisas do tipo “Você é quase um homem” seguido de risos. Sim por que eu precisaria ser um para exercer uma vidam livre.

Eles eram amigos, eles defendiam-se entre si, e me defendiam, por que de repente eu era tão parte daquele grupo de homens que eles passaram a me ver como um deles, a desconstrução do sujeito social mulher estava sendo feita, para ser livre eu tinha que agir como homem, estar entre homens, viver como eles e quando eu saia daquela bolha, eu tinha que ignorar toda opressão que me esperava do lado de fora, todos os dedos na cara e toda repressão a minha liberdade, coisa pela qual eles não passavam.

Não, eu realmente não entendia que os homens tiveram uma vida inteira para construir estes laços de fraternidade e que as mulheres vem num curtíssimo espaço de tempo tentando desenvolver algo similar, sendo esmagadas todos os dias pela opressão que sentem. Não eu não entendia que eu poderia ser mulher, amar me como mulher, e ser livre. Não eu não entendia que aquele ódio que eu sentia por mim mesma, me afastava de outras mulheres, me impedia de desenvolver laços fortes com outras mulheres, de amá-las. Passei grande parte da minha vida convivendo com este ódio por mim mesma, com este ódio por ser mulher, e a todas as restrições que me impunham por ser mulher.

Até entender que não precisava ser assim…e entender que:

A melhor maneira de conseguir que uma odeie alguém de seu próprio gênero é fazer com que ela odeie a si mesma em primeiro lugar. E tem sido tão fácil fazer isso, toneladas de fotos na mídia que são Photoshopadas tornando mulheres hierarquicamente inferiores umas as outras; É facilmente feito com inúmeras funções e expectativas estabelecidas para as mulheres que são surreais e portanto, resultam em fracasso automático; É fácil fazer uma mulher odiar a si mesma se ela está constantemente vendo mulheres retratadas como sendo subordinadas aos homens e retratadas como uma existência apenas para agradar e servir. Uma vez que uma mulher se odeia, é fácil fazer com que ela odeie outras mulheres. Digo isto porque se uma mulher que se odeia vê uma mulher que aparentemente não odeia a si mesma, é fácil de projetar a negatividade internalizada sobre ela.

Uma situação interessante que passei e que demonstra muito bem isso foi quando comecei um namoro e o homem tinha uma ex-namorada que ainda estava ligada a ele sentimentalmente, e a mesma veio me falar sobre isso. Eu disse a ela que não disputaria homem nenhum com ela, que homens não são troféus, que eu conversaria com ele e pediria para ele resolver a situação, de forma a tratá-la com dignidade e respeito. Ela por sua vez me disse “Eu não acredito que ele vai escolher você, você é mais velha, você é gorda, eu malho, tenho um corpo lindo…”
Ela disse isso rangendo os dentes, ela me odiava, e ela nem me conhecia. Eu respondi a ela:

“Você não percebe, que você me rejeita, me odeia, por que eu não preciso estar nesta prisão estética que você se mantém, com objetivo de ter aceitação dos homens, eu sou o que sou, e me amo do jeito que sou, eu me acho linda, e se alguém me achar linda também, ok, se não me achar, eu me sinto assim, linda, e só isso importa. Você esta chateada por que se esforça tanto para estar dentro deste padrão estético, e agora se vê preterida, se vê perdendo uma disputa pelo troféu que você elegeu, mas este troféu só existe para você, para mim não, e como eu te disse, não vou disputar com você”.

Meu choque de realidade veio com minha entrada no movimento feminista, a verdade veio como turbilhão, eu me sentia estapeada cada vez que percebia como estava jogando contra mim mesmo. Como eu fugia para o mundo dos homens a fim de esconder me da misoginia internalizada de outras mulheres, fortalecendo assim a minha misoginia internalizada.

O que eu pretendo com este texto é que você mulher, identifique também sua misoginia internalizada, admita que ela exista, e comece a desconstruir completamente, por que se existe algo que impede a luta de ser efetivada, são as desavenças e competições que estão ativas e destrutivas dentro da nossa luta. Enquanto perdemos tempo combatendo nossas irmãs, caçando nossas irmãs, destruindo e impedindo as de seguir, atravancamos nosso caminho para equidade.

Gaslight e a naturalização da mulher como descontrolada emocionalmente

Existe uma naturalização de que a mulher é exagerada, emocional demais, e é normal a gente ver as próprias mulheres aceitando estas características como próprias delas, e esta aceitação tácita destas características é tudo que o machismo precisa para violentá-la sem que ela consiga entender o que esta acontecendo, e ainda de brinde para o machista, culpar-se, por que afinal, as mulheres são assim mesmo, né? Exageradas.

– Você é tão sensível!
– Você é tão emocional!
– Você está sempre na defensiva!
– Você está exagerando!
– Acalme-se!
– Relaxe!
– Pare você está pirando!
– Você está louca!
– Eu estava apenas brincando, você não tem um senso de humor?
– Você é tão dramática.
– Você é tão estúpida!
– Ninguém vai querer você!

Soa familiar?

Se você é mulher, provavelmente seu companheiro já fez isso, ou faz. A probabilidade de a mulher ser a vitima deste tipo de violência, que chama se GASLIGHT, é infinitamente maior para mulher devido ao sexismo e machismo, que trata a mulher com desqualificação, inferiorização e descrédito. Basta notar que, é divulgado massivamente que os homens são racionais e as mulheres emocionais, mas não dizem que as mulheres têm uma inteligência emocional, trata se de uma desqualificação, o que quer dizer se com isso é que elas são descontroladas emocionalmente, ou seja, os homens são superiores, eles devem ter crédito e as mulheres não.

Este é um tipo de manipulação emocional que alimenta uma verdadeira epidemia no mundo, uma epidemia que define as mulheres como loucas e irracionais, excessivamente sensíveis, desequilibradas… Esta epidemia ajuda a alimentar a idéia de que as mulheres diante de qualquer menor provocação perdem o controle de suas emoções, e isto é MENTIRA.

Os homens têm usado este tipo de manipulação emocional, embasada no machismo, para manterem se privilegiados nos relacionamentos, assim eles podem errar a vontade, trair acordos, fazer piadas depreciativas da companheira, humilhar, etc. que no final das contas, o discurso será sempre o mesmo: “Você esta exagerando, eu estava apenas brincando…” E a mulher pensa “Realmente, acho que estou exagerando” e fica ali sendo ferida, esmagada, tendo a autoestima destruída dia após dia, sem forças para reagir, por que entende se culpadas das situações. Às vezes, é tão convencida disso, que a agredida, é quem pede desculpas ao agressor, sentindo se aliviada por ele ter perdoado. O homem assume um papel de Deus sádico na vida da mulher, dispondo dela como bem entender.

Um exemplo fácil de ser encontrado é quando o homem usa alguma característica física da mulher, e faz comentários depreciativos, como piadas a respeito do peso dela, para logo em seguida, quando a mesma reage, dizer a ela que ela esta exagerando e que ele estava apenas brincando.

O gaslight pode ser algo muito sutil, tão simples como alguém sorrindo e dizendo algo como: “Você é tão sensível”. Tal comentário pode parecer inócuo o suficiente, mas, naquele momento, o orador está fazendo um julgamento sobre como alguém deve se sentir. A desqualificação das percepções e sentimentos da outra pessoa é uma violência emocional.

É muito mais fácil manipular emocionalmente uma pessoa que tem sido condicionada pela nossa sociedade a aceitá-la. Provavelmente algumas mulheres pensarão que por serem mulheres empoderadas, fortes, independentes… Não serão alvo deste tipo de violência, é importante dizer que todas estamos à mercê disso, por que é muito difícil diagnosticar o quadro, não esperamos que a pessoa que amamos, escolhemos para viver ao nosso lado e dividir a vida, nos trate desta forma, e por isso seguimos desculpando e aceitando a situação, quando não nos culpamos pela mesma.

O GASLIGHT rouba da mulher sua arma mais poderosa, ele rouba sua voz. Notem que muitas vezes ao fazermos cobranças aos nossos companheiros, namorados, maridos… Nós tentamos fazer de uma forma meiga, calma, quase como se nos desculpássemos por chamar atenção deles sobre algo que nos incomoda, e desta forma as mulheres vão tornando-se seres passivos, seres não assertivos, não combativos, presas fáceis para todos os tipos de violência machista. E é com este tipo de desqualificação da sanidade da mulher que o machismo também desconstrói a possibilidade de independência delas, afinal se são tão vulneráveis emocionalmente, como poderão alçar cargos elevados dentro de empresas, ou grandes responsabilidade, postos de liderança, não é mesmo? É muito valioso para manutenção dos privilégios dos homens tratarem as mulheres como desequilibradas, naturalizando estas características como inerente a elas.

O homem que faz isso é machista e covarde. O homem que faz isso, não faz de maneira não intencional, ele sabe que esta ferindo a companheira e a cada dia é mais complicado pedir aos homens para que observem suas atitudes, para que parem de praticar violências machistas, pois grande parte da população masculina esta comprometida em defender seus privilégios, mas esperamos que este tipo de leitura, além de esclarecer as mulheres para que possam se defender, também conscientize os homens.

A piada do Estupro

Não existe piada de estupro,o que existe é apologia e naturalização de um crime.
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TW: estupro

A piada do estupro é uma mulher sair de seu local de trabalho tarde da noite, caminhar por ruas mal iluminadas, sem a presença de nenhum aparato de proteção, seguir com medo, apressada até um ponto de ônibus…

A piada do estupro é que o ponto de ônibus fica longe demais e mesmo a passos largos, ela não consegue afastar se da imagem que se projeta atrás dela, ela corre, ele corre, ela não aguenta mais correr, ela caí sente os joelhos, as palmas das mãos que estão feridos, ela sente dor, ela olha para trás de si mesma, ele a observa com um sorriso nos lábios.

A piada do estupro é que ela sente horror, ela sente medo, seu corpo treme tanto que ela perde o controle de si mesma, aquele sorriso entre muitas traduções, diz a ela que ele venceu tal qual um animal corre atrás de sua presa, domina sua presa e devora sua presa, aquele sorriso diz a ela que o jogo terminou e ela perdeu e será punida pelo vencedor.

A piada do estupro, é que aquela mulher tira forças não sabe de onde, e resiste, e grita, mas ninguém a ouve, ninguém vem em seu socorro.

A piada do estupro é que para calar a mulher ele a espanca, com ódio, ele a espanca, seu rosto sangra, escorre vermelho pela face, ela pensa que se ele foi capaz de feri-la daquela forma, ele terá coragem de mata-la.

A piada do estupro é que ela vê sua roupa senda rasgada, ela é invadida, violentada, ela sente dor, ela está apavorada, ela só pensa em sair dali, em escapar daquela violência, ela não consegue reagir mais, ele vai embora, e a deixa ali sozinha, sangrando, na rua silenciosa e vazia.

A piada do estupro é que ela tira forças de onde nem sabe que vem, caminha o resto do trajeto e não sabe como fará para chegar em casa, pois sente se suja suas roupas rasgadas, machadas de sangue, desabada emocionalmente, desorientada…

A piada do estupro é que ela liga para a policia, e espera, espera, espera por horas até que atendam seu chamado e quando chegam até ela, são homens fardados, eles a olham com a mesma cara de quem ri de uma piada de estupro, no olha deles há julgamento prévio, há condenação.

A piada do estupro é que chegando a delegacia ela fica exposta, sendo observada por outros homens que fazem a mesma coisa;

A piada do estupro é que ela é atendida por um delegado que faz mil questionamentos a ela, como se andar sozinha por uma rua escura na volta de seu local de trabalho fosse proposital, como se a roupa que ela vestia justificasse ser atacada, como se a vida que ela leva fosse o motivo, como se qualquer coisa que ela tivesse dito ou feito em sua vida pregressa validasse uma agressão como a que ela sofreu.

A piada do estupro é que existem milhares de casos como este arquivado, simplesmente por não conseguirem identificar o estuprador, simplesmente por que não se esforçam para fazê-lo, simplesmente por que a culpa do crime nunca é do homem que estuprou, mas da mulher que foi vitima do estupro.

Quando você ri de uma piada de estupro, está rindo de todas estas situações. Você se sente ser humano rindo, validando e naturalizando toda esta situação de violência?

Por que não votar em Dilma?

Por que não votamos em Dilma, nem no primeiro e nem no segundo turno?

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Toda eleição em que se evidencia pelas pesquisas que haverá um segundo turno, e neste segundo turno haverá disputa entre candidates do Partido dos Trabalhadores e de algum outro partido que declaradamente cumpre uma agenda neoliberal, surgem os defensores de que votar contra a direita é votar no PT. Usam uma falsa simetria do menos pior e a ideologia do voto útil, e acusam de pelegagem quem não o fizer, dizendo que é “para evitar a volta da direita”.

Primeiro gostaríamos de deixar claro que somos totalmente contra a eleição de qualquer candidate que seja da direita, que cumpra uma agenda neoliberal ou que mesmo que não declare se da direita tenha o compromisso com uma agenda neoliberal e conservadora, de ataque às minorias e a classe trabalhadora. Neste contexto afirmamos também que não basta ser mulher, negre, ou pertencente a qualquer minoria para que seja um governo que nos represente.

Dito isso, gostaríamos de dar nosso parecer sobre esta polarização esquerda x direita nas eleições brasileiras: à esquerda e  direita são termos relativos, mas em geral a direita representa a grande burguesia. Podemos notar pelas políticas aplicadas no decorrer de seu mandato que Dilma não faz um governo priorizando xs trabalhadorxs, como deveria ser no caso de um partido de esquerda. Candidates que poderão estar no segundo turno, sejam Dilma, Aécio ou Marina, são farinha do mesmo saco, pois todes cumprem uma agenda neoliberal, seja de forma declarada ou, como Dilma, de forma mascarada para manter junto de si o apoio da classe trabalhadora que a elege.

Daí vocês vão nos perguntar “Como assim Dilma cumpre uma agenda neoliberal?” E dirão que Dilma fez isso e fez aquilo para o povo trabalhador. Pois bem, podemos nos lembrar de que na época de FHC, com as benesses do recém-criado plano Real, a inflação estabilizou, o poder de compra dos brasileiros aumentou, algo muito marcante na época, a carne de frango ficou tão barata, mas tão barata, que famílias que antes nunca puderam alimentar-se com a carne a semana toda , agora poderiam… Isso não fez do governo FHC um governo de esquerda, apesar de ele mesmo declarar-se como esquerda. É baseado em outras atitudes que analisamos o quão seu governo era de direita, ou seja, existia e governava para grande burguesia. Por que com Dilma e o PT tem que ser diferente? Por que analisam algumas políticas públicas que aparentemente beneficiam as classes baixas, e não se contabiliza que, em contrapartida, existe muito mais dinheiro escoando para o bolso dos ricos do que em investimento para melhoria da vida da classe trabalhadora?

É bom lembrar que muitas vezes nos iludimos em relação ao PT devido a seu histórico. Apesar de a presença em greves, construção pela base e formulação de reivindicações para xs trabalhadorxs tenha sido importante na história brasileira, devemos nos focar agora no que de fato esse partido faz no governo hoje (a discussão sobre a degeneração do PT pode ficar para outro momento).

Vamos aos fatos?

Já nos primeiros dias de seu governo, no ano de 2011, a Presidenta Dilma, com a tarefa de combater a inflação, usou de um receituário conhecido de governantes neoliberais, corte de orçamento federal. Aliás, diga-se passagem, foi o maior corte de orçamento de toda história do Brasil, nem mesmo o tão criticado pela esquerda FHC havia conseguido tamanha façanha. Antes de Dilma entrar com este feito, apenas outro governante havia batido recordes como ela: Lula, que em 2010, fez um corte orçamentário de 21,8 bilhões. A redução deste corte feito por Dilma foi sentido na educação, com redução de 3,1 bilhões e no programa de habitação “Minha casa, minha vida”, com redução de 5 bilhões.

No mesmo período de 2011 em que os deputados deram para si mesmos um reajuste salarial de 62% e a própria Dilma teve um reajuste de 132% em seu salário, Dilma impôs um arrocho ao salário mínimo, que foi reajustado abaixo da inflação, pela primeira vez desde 1997.

Em 2012, na semana que antecedia o carnaval, o governo federal, tendo Dilma como representante, anunciou o corte de nada menos que R$ 55 bilhões da peça orçamentária aprovada pelo Congresso para 2012, ou R$ 5 bilhões a mais que os cortes anunciados no início de 2011, e que eram até aquele momento recorde. As áreas mais atingidas, como vocês podem imaginar, foram os dois setores que mais atingem a população pobre e trabalhadora: saúde e educação. A saúde perdeu 5,5 bilhões previstos em seu orçamento. E mais: novamente o programa “Minha Casa, Minha Vida” foi atacado e viu desaparecer R$ 3,3 bilhões, e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pela reforma agrária perdeu, por sua vez, R$ 1,2 bilhão. Aliás, a Reforma Agrária avançou menos no governo Dilma do que no governo FHC, em uma entrevista à Carta Capital desse ano, Gilmar Mauro, dirigente do MST, ressalta isso: (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/201co-governo-dilma-nao-fez-nada-em-termos-de-reforma-agraria201d-6758.html).

No governo Dilma, o que o PT chamava de privatização passa a chamar-se “acordo com a iniciativa privada”, e desta forma vários serviços passam a ser terceirizados com o anúncio de um plano de privatizações no qual Dilma repassou ao setor privado concessões para a exploração de rodovias e ferrovias. Ah, e Dilma ainda usa um discurso idêntico ao do ex-presidente tucano, FHC, para justificar as privatizações, dizendo que o setor público seria sinônimo de ineficiência e incompetência, ao contrário da iniciativa privada. O nível de desconfiança deveria subir ao alerta máximo.

E neste caminho de privatizações disfarçadas de acordo com a iniciativa privada, Dilma privatizou os aeroportos e portos também. Além disso, Dilma leiloou as fontes de petróleo, aliás, uma quantidade de petróleo que, revertida em dinheiro, é maior que o PIB do país em 2012, fechado na cifra de US$ 2,3 trilhões de dólares. Os participantes deste leilão que segue a mesmíssima linha do governo tucano são empresas multinacionais, tais como Chevron e Shell. Onde mesmo que o T do Partido dos trabalhadores saiu beneficiado até agora mesmo?

Vamos falar de quem esta se beneficiando? Desde 2012, as montadoras de carros do país têm obtido redução e até isenção do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados). Somente com esta medida, o governo federal deixou de arrecadar mais de R$ 12,3 bilhões. As montadoras fazem remessas de lucros para fora do país contabilizadas US$ 3,5 bilhões em 2013 contra US$ 2,4 bilhões no ano anterior. Somente nos últimos quatro anos, mais de US$ 15,4 bilhões foram remetidos pelas montadoras ao exterior. E os trabalhadores? Nos últimos sete meses, o setor automotivo demitiu 7.300 trabalhadores, apesar de todo o incentivo recebido à custa do dinheiro público.

E os trabalhadores?

O primeiro elemento quando se pensam nos benefícios do governo Dilma são os programas sociais. Pois bem, claro que nós não vamos desconsiderar que a vida de pessoas melhorou e atingiu um nível mínimo de dignidade com programas como o Bolsa-Família. Ocorre que esse e outros programas podem existir na medida em que não ameaçam os lucros dos capitalistas. Na verdade, o estímulo ao consumo em regiões empobrecidas é vantajoso também para a burguesia. Nesse sentido, nenhum destes candidates vai acabar com esses programas, e de certo não é isso que os fará de esquerda. Outros compromissos com a classe trabalhadora, no entanto, Dilma não pode assumir:

Não houve sinalização da Presidenta em discutir e implementar a convenção 158 da Organização Internacional do trabalho que determina estabilidade no emprego aos trabalhadores.

Dilma afirmou ser contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução de salários. Esta medida geraria cerca de 2,5 milhões de empregos de acordo com o Dieese.

Em contra partida em maio de 2013, a indústria de transformação fechou 28.533 vagas a mais do que gerou em postos de trabalho, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Segundo dados da FIESP, dos 22 setores em que a indústria está dividida, 14 demitiram, 3 permaneceram estáveis e apenas 5 contrataram.

Uma política de esquerda e em beneficio aos trabalhadores aqui neste contexto seria impedir a remessa de lucros das empresas para fora do país e as demissões em empresas que tem isenção fiscal, mas para quê? Por que Dilma e PT iriam fazer uma politica para o T da sigla do partido quando são os burgueses que financiam sua candidatura? A campanha de Dilma já embolsou pouco mais de R$ 120 milhões segundo prestação de contas ao TSE. Só a dona da marca Friboi deu R$ 14,5 milhões para Dilma, mas ela não deu apenas para Dilma, deu também para Aécio. A dona da Friboi não faz diferenciação entre o partido de Dilma e o partido de Aécio por que ela sabe que independentemente de quem ganhe as eleições seus interesses estarão assegurados, mesmo que isso signifique, para o caso do PT, priorizar o patrão, não trabalhador. Mas não foi só a Friboi. A JBS (da marca Friboi), a Ambev e a empreiteira OAS respondem juntas por 65% das doações. As doações das três maiores beneficiaram principalmente a presidente Dilma Rousseff (PT), que disparou no ranking de arrecadação, dando claros sinais de que é a preferida da classe dominante, classe esta que o PT não deveria representar. É muito rabo preso com a burguesia para uma presidenta que diz governar para os trabalhadores e trabalhadoras do país.

Responda honestamente para si mesmo esta pergunta, pois sabemos que a esquerda governa para trabalhadores, e não para burguesia… As informações prestadas aqui parecem para você compatíveis com um programa de governo para a classe trabalhadora? Se não estão compatíveis (e não estão) desaparece esta falsa polarização entre esquerda x direita, não é mesmo? Logo não temos uma candidata que represente a classe trabalhadora no jogo das eleições e, portanto, não há pelegagem nenhuma em optar no primeiro turno por outres candidates que nos representem, ainda que não ganhem (e provavelmente não ganharão), e no segundo turno votar nulo.

E as trabalhadoras?

Sabemos que o machismo impõe às mulheres as responsabilidades pela criação dxs filhxs, por isso, a reivindicação por mais creches, é muito mais do que conseguir em uma instituição de ensino uma vaga para deixar xs filhxs, trata se de ter garantido parte do processo de emancipação da mulher, dando a ela condições de manter sua vida profissional tendo independência financeira e também a libertação da imposição machista de que o trabalho de educação dos filhos compete somente a ela. Mesmo as mulheres representando hoje cerca de 50% da força de trabalho, o não atendimento à demanda da educação infantil é o principal motivo para as mulheres deixarem seus empregos: menos de 2 a cada 10 crianças de 0 a 3 anos conseguem vagas. A falta de creches é um direito negado a criança e a mulher trabalhadora. Dilma prometeu milhares de creches e não cumpriu.

Não votamos em Dilma por que nem Dilma e nem seu partido estão comprometidos com um governo para classe trabalhadora. Votar em Dilma no segundo turno ou votar em Marina significa estar votando em pessoas comprometidas com a grande burguesia. Ainda que Marina diga que “não é nem de direita, nem de esquerda, muito pelo contrário”, ela tem sim um lado bem definido: o dos bancos, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e de tudo o que possa fazê-la ganhar. Ambas, Marina e Dilma são financiadas por empresas e empreiteiras, ambas são publicamente comprometidas com o setor religioso e conservadores da sociedade, ambas atacarão a classe trabalhadora quando houver crise econômica.

Por: Verinha Dias (Verinha Kollontai) e Mariana Luppi.

DEIXE A ESQUERDA LIVRE DE MACHISMO – Uma luta histórica

Por Denise Laizo

* Este texto faz parte do caderno de teses que está sendo produzido pelo Coletivo Feminismo Sem Demagogia, a partir do evento “Deixe a Esquerda Livre de Machismo, que aconteceu dia 26 de julho de 2014.

A existência de machismo nas organizações da esquerda é um fato dado. A questão colocada é poder compreender o porquê as palavras machismoesquerda, quando juntas, expressam uma grande contradição. Só assim poderemos fazer uma batalha contra essa praga e construir organizações coerentes com seu programa.

Primeiramente, é preciso evidenciar que estamos chamando de esquerda os grupos políticos que estão do lado das pessoas que sofrem exploração e opressões, sejam de classe, raça, gênero, identidade e orientação sexual etc. e, portanto, buscam uma transformação radical dessa sociedade. A palavra radical aqui não é usada por acaso, mas para falar daquilo que está na raiz do problema dessa sociedade, ou seja, da sua estrutura baseada na propriedade privada de produção e na sua divisão em classes.

Tendo em vista essa definição, fica evidente a contradição em se falar de uma esquerda machista. Porém, o machismo na esquerda não vem de hoje, este já possui uma história. Sim, infelizmente já podemos falar de história do machismo na esquerda! Mas essa mesma história nos conta o quanto as mulheres enfrentaram o machismo, se fizeram presentes e se tornaram um setor fundamental dentro da esquerda. Olhando por este ângulo, vamos contar a história de como as mulheres enfrentaram séculos de “mudez política” e se tornaram pessoas ativas no processo de transformação do mundo.

É óbvio que o machismo na esquerda reflete um contexto e uma época, mas também fica evidente que os avanços conquistados pela esquerda ocorrem em paralelo com os avanços que as mulheres obtiveram dentro do mundo da política e, mais especificamente, dentro da esquerda. O ponto de partida dessa história é a entrada e o aumento das mulheres no mercado de trabalho, ou seja, quando a outra metade da população passa a fazer parte da produção social. Sem esse setor da população, por seu número e sua representação, não é possível realizar uma revolução. Porém, isso só foi percebido com grande esforço.

Retrato do primeiro congresso da I Internacional, em 1864

A primeira grande dificuldade que as mulheres enfrentaram foi conseguir entrar nos espaços de militância. A I Internacional, fundada por Marx e Engels, em 1864, teve como uma de suas principais polêmicas o tema da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Marx, em 1866, coloca-se a favor das mulheres na seguinte resolução:

“Se seus efeitos imediatos (do trabalho) são terríveis e repugnantes, nem por isso ele deixa de contribuir, ao dar às mulheres, jovens e crianças de ambos os sexos uma participação importante no processo de produção fora do meio doméstico, na criação de novas bases econômicas, necessárias para uma forma mais elevada de família de relação entre os dois sexos.”

No entanto, muitos homens, militantes socialistas, entendiam que nem o trabalho fora de casa e nem a militância política eram lugares para as mulheres. Acreditavam que o fato de a mulher ocupar o mercado de trabalho era mais uma distorção do capitalismo, afinal consideravam que o seu lugar natural era o lar. Assim, dirigentes da I Internacional chegaram a afirmar:

“Em nome da liberdade de consciência, em nome da iniciativa individual, em nome da liberdade da mãe, devemos arrancar da fábrica, que a desmoraliza e a mata, essa mulher que sonhamos livre… a mulher tem por objetivo essencial o de ser mãe de família, ela deve permanecer no lar, o trabalho deve ser-lhe proibido.”

Este pensamento era muito parecido com o de Proudhon, um dos principais teóricos do anarquismo. Para Proudhon “lugar de mulher é no lar”, afinal ela deveria se restringir as suas funções, ou seja, procriar e cuidar da casa, e não ficar roubando o trabalho do homem.

“Ele chegou a propor que o marido tivesse direito de vida e de morte sobre sua mulher, em caso de desobediência ou falta de caráter, e demonstrava, mediante uma relação aritmética, a inferioridade do cérebro feminino em relação ao masculino.” (Toledo, Cecília)

Já o SPD (Partido Social-Democrata Alemão), fundado em 1875, principal partido socialista do período da I Internacional, demorou dezesseis anos para inserir em seu programa a necessidade da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. August Bebel foi um importante dirigente do período, e, desde o primeiro congresso do partido, lutou para que a igualdade de direitos para as mulheres fizesse parte do programa do SPD. Porém, Lasalle e seus seguidores se opunham ferrenhamente ao grupo de Bebel, afirmando que, com o estabelecimento do socialismo, seria possível proporcionar bons salários para os homens, os quais poderiam assumir o papel de provedor e sustentar toda família. Dessa forma, o papel da revolução para as mulheres seria o de lhes proporcionar o retorno ao seu habitat natural, ou seja, ao lar. Bebel foi derrotado neste debate com o argumento de que as mulheres não estavam preparadas para assumir os seus direitos.

Durante este primeiro período, podemos encontrar o erro mais medíocre que um revolucionário pode cometer. A explicação é simples! No capitalismo, um pequeno setor da população, os donos dos meios de produção, explora os trabalhadores, os quais trocam sua força de trabalho por dinheiro. O produto contém o valor de custo, que inclui o salário do trabalhador, já o valor restante após a venda do produto é aquilo que o capitalista vai embolsar como lucro. Dado que o valor dos meios de produção, ou seja, os materiais, as máquinas, a manutenção do espaço etc. é um capital constante, o que se pode mexer para conseguir mais ou menos lucro é o capital variável, isto é, o salário do trabalhador. Quanto mais baixos forem os salários pagos aos trabalhadores, mais lucro (trabalho não pago) o capitalista terá.

Pois bem, entendendo-se a lógica de funcionamento do capitalismo, é de se esperar que manter salários baixos é a busca desesperada de qualquer capitalista. Assim, a opressão, como o machismo, serve de mecanismo para levar os salários para baixo. As mulheres, as pessoas negras, os homossexuais, as pessoas trans* e travestis etc. compõe um imenso exército de reserva, que podem ser contratados a qualquer momento por salários mais baixos, por serem considerados mão de obra inferior. Claro que essa mão de obra não é inferior, mas sustenta-se ideologicamente que determinadas diferenças entre as pessoas devem ser vistas como inferioridade para que se possa colocar em desvantagem certa parte da população. No entanto, os setores oprimidos, quando utilizados pela burguesia, quando contratados por salários menores, nivelam por baixo o salário de toda a classe trabalhadora. Assim, o problema não são as mulheres, ou qualquer outro setor oprimido, mas a utilização da opressão enquanto mecanismo para aumentar a exploração. Por isso, o homem da classe trabalhadora, o homem militante da esquerda, quando sustenta o machismo, apenas contribui para fortalecer a sua própria exploração e o sistema capitalista.

Clara Zetkin discursa para a classe trabalhadora na década de 1930

Dando continuidade ao processo histórico, os anos se passaram e, após mais de uma década, a polêmica em relação às mulheres passou a ter como centro a questão sufragista. Os reformistas defendiam que apenas os homens deveriam ter direito ao voto, pois acreditavam que as mulheres tenderiam a votar em setores conservadores, como os ligados à Igreja Católica. Porém, nesse período já existiam mais mulheres de destaque dentro de organizações da esquerda, como Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo.

Clara Zetkin foi fundamental para a aprovação de uma campanha pelo sufrágio feminino, na II Internacional. Esta mesma militante também obteve êxito ao propor ao SPD, em 1896, a formação de organizações especiais de mulheres. Lembrando que, cinco anos antes, o mesmo partido havia finalmente aprovado o programa que exigia a igualdade de direitos para as mulheres e a abolição de todas as leis discriminatórias, ou seja, a mesma proposta que Bebel havia apresentado muitos anos antes. No entanto, esse período não foi nada fácil para as mulheres militarem, afinal, além de toda opressão dentro e fora dos espaços de militância, até 1908 as mulheres eram proibidas de se filiarem a grupos políticos.

Nessa passagem de um período para outro, podemos perceber como a maior participação de mulheres na militância que batalhavam por suas demandas e o avanço das concepções da esquerda caminharam juntos. É nesse momento que a esquerda divide-se entre reformistas e revolucionários. Os primeiros contentavam-se com reformas no sistema, o que, para eles, naturalmente levaria ao socialismo. Para tanto, não se preocupam em inserir as mulheres nesse processo, mas apenas em como atingir a superestrutura. Já os revolucionários marxistas entendiam que a opressão das mulheres era estruturante para o sistema capitalista e, portanto, as demandas das mulheres por igualdade era crucial para combater tal sistema. Além disso, apostavam em uma revolução realizada pelas massas, ou seja, pela classe trabalhadora e oprimida e boa parcela desse setor não poderia simplesmente ficar de fora.

Isso se evidenciou com o advento da Revolução Russa. A participação das mulheres nesse processo foi fundamental, afinal muitos homens estavam nas trincheiras da I Guerra Mundial, e para as mulheres da Rússia sobrou o fardo de sustentar o processo de exploração de seu país. Assim, a Revolução de Fevereiro, que abriu as portas para a derradeira Revolução de Outubro, partiu de uma manifestação de mulheres em Petrogrado. Essas mulheres reivindicavam a saída da Rússia da guerra e criticavam a situação de miséria que viviam. Nesse período, era tão evidente a importância da participação das mulheres que as organizações da esquerda as disputavam acirradamente. Inclusive cada uma dessas organizações tinham jornais especiais para esse público.

Após a revolução, a luta das mulheres se reverteu em conquistas. Assim, adquiriram direitos e benefícios de políticas públicas de uma só vez, como nunca ocorreu na história, nem antes e nem depois da revolução. Como direitos conquistaram:

Abolição das leis que colocavam a mulher em uma relação de desigualdade no casamento, como as leis sobre divórcio, os filhos e pensão alimentícia;
Abolição dos privilégios do homem em relação à propriedade;
Equiparação salarial, proteção legal no trabalho e seguro social;
Legalização do aborto, o qual deveria ser feito pelos hospitais públicos de forma gratuita;
O direito ao voto e de serem votadas.
Além disso, o governo soviético se preocupava com a liberação da mulher do trabalho doméstico. Na concepção de Lenin, o verdadeiro comunismo estava atrelado à verdadeira emancipação da mulher:

“A verdadeira emancipação da mulher, o verdadeiro comunismo, só começará onde e quando comece a luta das massas contra a pequena economia doméstica, ou melhor, onde comece a transformação em massa dessa pequena economia em grande economia socialista.”

Assim, nesse momento criaram-se refeitórios, creches e lavanderias públicas. Porém, não foi possível que essa nova vida da mulher se estabelecesse por completo. A dificuldade econômica e a guerra civil não permitiram que se criassem a quantidade de serviços públicos que eram necessários. Além disso, tratava-se de um país extremamente atrasado em relação aos aspectos morais e culturais, sendo muito difícil quebrar as resistências do preconceito.

Essas arcaicas ideias só poderiam mudar com a implementação de novas práticas, mas sua concretização não foi possível, pois o stalinismo enterrou as recentes conquistas das mulheres. O governo stalinista passa a fazer uma extensa propaganda a favor da família nos moldes burgueses. Assim, estimula-se que a mulher volte a assumir seu papel de mãe e dona do lar. Isso não se dá simplesmente por questões ideológicas, mas de fundo tem uma base material. Primeiramente, deve-se considerar que a situação econômica da União Soviética era bastante precária, e, como nos ensina Trotsky, “a verdadeira emancipação da mulher é impossível no campo da ‘miséria socializada’”.

Então, para não ficar tão evidente essa miséria, para não gerar descontentamentos ao usar os serviços públicos que se tornaram de péssima qualidade (como nas lavanderias públicas que as roupas saiam rasgadas ou eram roubadas), para não sentir falta de serviços que antes existiam (creches foram fechadas ou tiveram seu horário reduzido), as tarefas de subsistência e cuidados com as crianças voltaram a ser função das mulheres, e, assim, o Estado se viu livre desses compromissos. O que se passou aqui é o mesmo que acontece no capitalismo, para se manter privilégios de uma pequena parte da sociedade é necessário explorar ao máximo a outra parte. O trabalho doméstico realizado pela mulher tira do Estado a responsabilidade por esses serviços e, no caso da União Soviética, a burocracia se beneficiava enormemente dessa situação.

Dentro dessa mesma lógica, o aborto foi colocado na ilegalidade novamente. Faz parte do discurso em prol da família burguesa a supervalorização da ideia de que ser mãe não é um direito, mas um dever. Trotsky nos conta que Solz, membro do Supremo Tribunal Soviético, “justifica a proibição do aborto dizendo que a sociedade socialista não conhecendo o desemprego, ela, a mulher, não pode ter o direito de rejeitar ‘as alegrias da maternidade’”. E, então, Trotsky rebate dizendo que “eles esquecem visivelmente que o socialismo deveria eliminar as causas que levam a mulher ao aborto e não fazer intervir a polícia na sua vida íntima para lhe impor as ‘alegrias de ser mãe’”. De qualquer forma, o que vemos aí é, novamente, a desresponsabilização do Estado pela saúde física e mental da mulher, já que, ao tornar o aborto ilegal, o Estado não necessita mais garantir o procedimento em seus hospitais. Retomam-se as velhas ideias moralistas e abandonam-se as mulheres à própria sorte, em nome dos privilégios da burocracia.

Outro ataque importante às conquistas das mulheres foi tornar o divórcio cada vez mais difícil. O divórcio passou a se dar apenas mediante pagamento. Assim, podemos imaginar que, como qualquer sociedade fundada no ideário patriarcal, as mulheres por ganhar menos do que os homens, quando ganhavam, tinham menos possibilidades em escolher se divorciar. De qualquer forma, divorciar passa novamente a ser um privilégio de quem tem mais dinheiro. Dessa forma, impondo limites objetivos, impulsiona-se o retorno da economia familiar, enquanto se elimina a possibilidade da coletivização da educação, dos cuidados em saúde e do trabalho doméstico.

Tal retomada dos antigos valores foi tão brutal que outros imensos retrocessos foram impostos, como a volta da criminalização da prostituição e da homossexualidade. No entanto, sabe-se que, no caso da prostituição, esta cresce na mesma proporção que a pobreza e o abandono das mulheres. Novamente as mulheres são criminalizadas por sua própria marginalização.

Tudo isso traz muitos ensinamentos para as organizações da esquerda. Como o próprio Trotsky disse, “onde há privilegiados, há párias”. Isso é uma regra não apenas para o capitalismo, não apenas para o stalinismo, mas para qualquer espaço em que se mantenham os privilégios. Por isso, as organizações da esquerda não podem sustentar dentro de sua militância os privilégios dos grupos que já são privilegiados em nossa sociedade e/ou criar novos tipos de privilegiados.

Isso traz inevitavelmente distorções como pudemos observar com os conservadores da época de Marx, com os reformistas do período do sufragismo, ou com o stalinismo. A esquerda que reivindica para si a estratégia revolucionária não pode se parecer com nenhum dos tipos anteriores. A história já nos ensinou que qualquer alternativa anterior nos leva a caminhos bem diferentes de uma sociedade realmente igualitária. Privilégios sempre dividem!

Portanto, não desdenhemos as mulheres como os conservadores fizeram, não nos utilizemos do machismo para adquirir supostas vantagens para a luta como propunham os reformistas, não digamos que a batalha contra o machismo é coisa para realizar apenas quando as condições materiais forem totalmente favoráveis, como fizeram os stalinistas. É verdade que somos produtos do nosso contexto atual. No entanto, nos propomos a não sermos reprodutores deste atual contexto, mas sim transformá-lo completamente. Para tal, devemos começar sendo coerentes e, mesmo que seja difícil, ter atitudes condizentes com as transformações que pretendemos fazer.

Se for verdade que a sociedade futura contém elementos da sociedade passada, pelo menos os materialistas-dialéticos devem concordar que a sociedade atual já possui elementos da sociedade futura. E, no presente, o espaço que tem por obrigação e necessidade de produzir e reproduzir os novos elementos da sociedade futura é, sem dúvida nenhuma, a esquerda.

A Culpa é do Sistema!

Por Denise Laizo
É isto mesmo! A culpa pela pobreza, opressão (machismo, racismo, homofobia, transfobia…), exploração e até mesmo por muitos dos problemas físicos e mentais que adquirimos ao longo da vida, é do sistema capitalista. Sei muito bem que esta afirmação é causadora de muita irritabilidade e, portanto, acabo de provocar um clima de inimizade com boa parte das pessoas que estão lendo, que já devem estar elaborando contra-argumentos raivosos. Mas tudo bem, a intenção é provocar a reflexão e a discussão.

De forma geral, o desacordo é motivado, porque a maioria das pessoas compreende que ao culpar o sistema capitalista, estou tirando a responsabilidade dos maldosos seres humanos, que precisamos suportar na face da terra. A sensação é a de que estou mudando o foco, tirando-o do indivíduo vilão e colocando em algo externo, no mundo, algo que é tão abstrato que é impossível apenas pegar e jogar na cadeia e/ou eliminar.

De fato estou mudando o foco da individualização da culpa para a sua coletivização, afinal de contas este sistema não é algo natural, mas sim uma construção social, humana. Assim, quando digo “a culpa é do sistema”, não tiro a responsabilidade individual, mas a partilho com um coletivo, distribuindo a parcela de culpa que cada parte merece por produzir e reproduzir este sistema.

Não estou afirmando, por exemplo, que um estuprador não deve ser penalizado. Um estuprador merece ser preso e o mais rápido possível. Porém, as pessoas que se levantam apenas contra o estuprador, mas não lutam contra o sistema capitalista, por mais contraditório que pareça, não estão atingindo o status-quo. Isto porque o inimigo é encarnado em indivíduos, contribuindo para que a luta ocorra entre pessoas; o problema passa a ser os defeitos dos outros e não todo um sistema que ao passo que pune um estuprador, faz brotar mais 100 em diversos pontos do planeta.

Ao mesmo tempo, o inverso também é verdadeiro, ou seja, as pessoas que apenas lutam contra o sistema e não combatem as opressões cotidianas, na realidade não são consequentes com sua luta. Afinal estas mantém o cerne do sistema, que é categorizar grupos de indivíduos e dividi-los entre os que têm mais valor e menos valor. O primeiro grupo domina o segundo e o sistema de opressão e exploração permanece o mesmo. Infelizmente este é o grande mal que assola a esquerda.

Mas por que o sistema é o grande vilão da história?  Porque o sistema capitalista – como qualquer sistema baseado na propriedade privada de produção – é gerador de desigualdades. Quero deixar claro que quando falo de desigualdades não estou falando de diferenças. As diferenças entre as pessoas é algo mais natural e saudável no mundo. O problema é se utilizar das diferenças para submeter determinados grupos, gerando assim desigualdades financeiras, legais, sociais, etc. Pois bem, o pilar de sustentação das desigualdades no sistema capitalista é a formação de uma sociedade dividida em classes. Ou seja, poucos têm muito e muitos têm pouco! O grau desta desigualdade é tão grande que o relatório da ONG britânica Oxfam, divulgou no inicio de 2014 que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio de US$ 1,7 trilhão, o que equivale ao patrimônio de 3,5 bilhões de pessoas, as mais pobres do mundo. E os ricos não têm a mínima pretensão de dividir seu patrimônio, afinal este mesmo relatório afirma que nos últimos 25 anos, a riqueza ficou cada vez mais concentrada nas mãos de poucos.

Sem dúvida nenhuma, esse fato é gerador de conflito social. Já imaginaram se os 3,5 bilhões de pessoas mais pobres resolvessem forçar as 85 pessoas mais ricas a dividir de forma igualitária o seu valiosíssimo patrimônio? Não parece difícil, mas é. Isto porque a classe dominante tem todo um sistema (modus operandi) que a protege melhor do que qualquer fortaleza. Destaco aqui três pontos-chave deste sistema: o Estado, as forças armadas e mecanismos de divisão da classe trabalhadora, como as mais diversas formas de opressão.

Mas como funciona o sistema?

Eu trabalho no tratamento de pessoas dependentes de álcool e outras drogas. Em sua maioria são pobres, desempregados e negros (as mulheres são minoria, pois o machismo dificulta a aproximação delas ao serviço). Bom, estou contando isso porque tem dia que eu chego no meu trabalho e digo para os pacientes: “O problema do mundo é o sistema!”.  Eles estranham e questionam: “Que sistema?”. Eu digo: “Ah, vocês sabem do que eu tô falando… O sistema, oras”. E então, começamos a montar nosso quebra-cabeça.

Eu começo: Por que o mundo tem tantos problemas; por que a vida está tão difícil?

O grupo responde: Por causa dos bandidos! Esses direitos humanos ficam defendendo os bandidos, e quem é trabalhador, não tem direito a nada.

Então eu pergunto: Por que bandido é bandido?

Um integrante do grupo responde: Porque é tudo vagabundo! Eles não querem trabalhar!

Eu questiono: O que aconteceria se todos os bandidos do mundo resolvessem trabalhar?

Alguém diz: Ah, ia ser difícil! Não tem emprego pra todo mundo! Eu mesmo estou desempregado há um tempão. E pra ter emprego bom mesmo, tem que ter estudo; e eu te digo mais, não é qualquer estudo não, tem que ser estudo bom, tipo coisa de rico.

O outro fala: A gente faz mais é bico, sabe? Um servicinho aqui, outro ali. Não tem direito a nada; isto só com carteira assinada. Aí é difícil!

Então começamos a montar nosso sistema:

Dentro desta primeira parte da construção do sistema, podemos analisar que na discussão do grupo, aparece a culpabilização individual pelos problemas sociais. Para alguns integrantes do grupo o foco do problema é a pessoa que mora ao lado, alguém que muitas vezes é tão pobre quanto eles, que enfrenta as mesmas dificuldades devido a sua classe e sua cor para conseguir um emprego. Para quem tem alguma dúvida de que o machismo e o racismo influenciam na hora de conseguir um emprego, dados do IBGE, divulgados em setembro de 2012, apontam 59% das pessoas desocupadas em 2011 eram mulheres e 57,6% eram pessoas negras. Então, não temos apenas “trabalhares” e “bandidos”, existe uma grande parcela que está desempregada, a qual empurra muitas pessoas para o subemprego ou para a criminalidade.

E aí entra o papel da mídia. Os programas de televisão (principalmente os jornais sensacionalistas) buscam reforçar preconceitos e demonstrar que o problema do mundo está no defeito de caráter de algumas pessoas. “Por acaso”, estas, em sua maioria, moram na periferia. A partir de todo tipo de apelo, a população, inclusive as pessoas de baixa renda, apoia intervenções nefastas da polícia nas comunidades pobres, e assim, em pleno 2014, vivenciamos um verdadeiro genocídio da juventude negra neste país.

Este é um exemplo de como a classe dominante faz para dividir a classe trabalhadora. Coloca pobres contra pobres, em nome de um “bem comum”. Não demonstram o contexto que leva meninos e meninas da periferia para o mundo do crime. Não mostram que o verdadeiro crime está na falta de oportunidades, as quais deveriam ser oferecidas por pessoas que, realmente sem qualquer caráter, roubam de forma sistemática toda a população, ou seja, as pessoas da classe política e do empresariado. Então, raríssimas vezes somos chamadxs a ver como o capitalismo desumaniza os seres humanos, os quais possuem uma vida que não vale nada. Um sistema perverso produz perversidade. E assim, nasce x bandidx:

Bom, vamos continuar que o sistema não pode parar…

Voltando para o grupo do meu trabalho, eu faço a seguinte colocação para os meus pacientes: Se o problema são os bandidos, tá tudo certo, pois temos a polícia, cada vez mais forte, mais armada… leis mais duras…

Então, alguém do grupo me interrompe com ar de revolta, e diz: Até parece, polícia é pior que bandido. Tudo corrupto. Só porque tem uma arma na mão, acha que pode fazer o que quer. Eu já cansei de ser parado por policial; e eu uso droga, mas não sou do crime!

Outro participante do grupo complementa: “Você falou que as leis estão mais duras, né?! Que leis? As leis são mais duras só para o pobre. O cara que é rico, paga um bom advogado e sai rapidinho da cadeia. Pra eles não tem lei não.

Então eu sigo com a seguinte conclusão: Se vocês estão me dizendo que polícia só elimina bandido pobre (e pelo visto os que não são bandidos também) e que a lei só serve para prender o povo da periferia, quer dizer que a polícia e as leis servem para manter os ricos no domínio e conter os pobres.

Então conseguimos avançar ainda mais no nosso esquema:

As forças armadas são um dos mais importantes instrumentos da classe dominante para se manter no poder. Fica claro que esta não serve para a proteção da população, mas sim para conter uma grande maioria de explorados. Nas mãos das forças armadas está a permissão para matar, prender e até mesmo reprimir movimentos sociais.

No entanto, quem são os policiais? São trabalhadores e trabalhadoras, em sua grande maioria faziam ou ainda fazem parte da periferia. Afinal de contas, a burguesia não vai colocar seus filhos para encarar um trabalho tão perigoso. E aí mais uma vez se coloca trabalhadorxs contra trabalhadorxs. Colocam as pessoas da classe trabalhadora umas contra as outras para fazer o controle sobre sua própria classe.

Mas quem faz isso? Quem manda na polícia? Quem autoriza as chacinas? Quem autoriza as invasões na periferia? Quem permite os abusos da polícia?

Agora sim, estamos nos aproximando de um dos mais importantes instrumentos de poder da classe dominante… Estamos nos aproximando do Estado. Instituição esta que tem o poder político, a qual vai definir quem será o beneficiado e quem será o prejudicado.

Não precisamos repetir nosso esquema, esta imagem já esclarece muita coisa:

Poxa vida, mas não dá para beneficiar as duas classes? Por que este dualismo?

É simples, porque para beneficiar a classe trabalhadora é necessária a divisão de renda, é preciso que a riqueza produzida seja compartilhada entre todas as pessoas, principalmente entre aquelas que a produz, ou seja, entre pessoas da classe trabalhadora. Mas a classe dominante não quer. Afinal, para esta se manter no poder, para continuar mantendo sua própria existência, necessita acumular cada vez mais riqueza. O seu poder é maior, quanto maior for seu distanciamento da classe trabalhadora, quanto mais a classe dominante acumula e quanto menos riquezas tiver a população em geral.

Mas quem é esta classe dominante? Meus pacientes dizem com frequência: as pessoas ricas também trabalham, se estão em um lugar de destaque é porque merecem…

Pois é, mas esta posição de destaque não tem a ver com merecimento, mas sim com diferenças de oportunidades. E quem tem mais oportunidades? Quem possui os meios de produção, é claro. Estas pessoas não produzem diretamente nada, seu trabalho é explorar a mão de obra de quem não é proprietário dos meios de produção. Ou seja, esta divisão de classes não está baseada em capacidades individuais, até mesmo porque boa parte da população não tem como explorar e desenvolver suas próprias capacidades e potencialidades, mas sim em quem tem e quem não tem propriedade dos meios de produção.

Aí meus pacientes dizem: Ah, mas precisamos dos empresários, sem eles não temos empregos.

Então questiono: Se os empresários são tão necessários, por que nem todas as pessoas têm emprego?

Alguém responde: Por conta da tecnologia, não se necessita mais de tantos trabalhadores para produzir algo.

Então faço a seguinte provocação: Se os empresários existem para gerar empregos, por que eles não aproveitam a existência de tamanha tecnologia para diminuir a carga horário de trabalho das pessoas? Assim outros poderiam ser contratados e todos teriam a possibilidade de ter bens materiais e de ter tempo para se desenvolver em outras áreas da vida.

Aí, alguém diz: Ah, mas patrão nenhum vai fazer isso! Eles querem mais que a gente faça hora extra e ainda paga uma mixaria. A tendência é sempre demitir e não contratar mais!

Então, concluímos nosso sistema:

Como é possível observar, poucos estão na parte superior do sistema. A grande maioria está na parte inferior, sem ter como ascender, salvo raríssimas exceções. A maior parte da população tem como perspectiva a falta de oportunidades, a desapropriação dos bens que ela própria produz, a violência, o encarceramento, a morte precoce.

E este sistema só se mantém funcionando enquanto houver competição entre os próprios integrantes da classe trabalhadora. Dessa forma, as opressões (machismo, racismo, homofobia, transfobia, etc) são mecanismos de divisão da própria classe, ao canalizar o ódio gerado pelo sofrimento que vivencia para certos setores da população que já são marginalizados. Assim se mascarara qual é o verdadeiro grupo social gerador do sofrimento.

Sempre digo para meus pacientes que ao oprimir uma mulher, por exemplo, eles estão servindo para a manutenção desse sistema perverso, que eles mesmos são desfavorecidos. Quando oprimem uma mulher, quando sustentam a lógica de que elas são inferiores, estão contribuindo para que os empresários se sintam no direito de contratá-las por salários mais baixos e assim nivelar por baixo os salários de toda classe trabalhadora. Quando eles oprimem uma mulher, eles estão deixando que os Estado não se responsabilize por parte importante da produção social, que é o trabalho doméstico. Quando eles oprimem uma mulher, estão fortalecendo a divisão entre a própria classe trabalhadora, ou seja, estão fortalecendo a classe que os domina. A breve sensação de poder que se tem ao oprimir é ilusória, como se diz, é dar um tiro no próprio pé.

Por tanto, é preciso ter foco. É necessário visualizar que o grande culpado por toda exploração e opressão é o sistema. As pessoas que oprimem devem ser penalizadas e, se possível, educadas, pois elas fortalecem o status-quo. Mas não vamos desviar o foco, não é eliminando essas pessoas, que vamos solucionar os problemas de uma sociedade fundada em uma estrutura perversa. É preciso ter em mente, que a culpa é do Sistema!