Diferenças entre Poliamor e Relações Livres – delineando alguns conceitos

Publicado originalmente em Amores Livres:

(Por Yasmin Teixeira, em colaboração com Daniki e Polietc)

Quando entrei em contato pelas primeiras vezes com o universo da não-monogamia descobri logo que havia diferentes formas e “vertentes”, cada qual com suas especificidades práticas e suas singulares concepções ético-políticas. Para começar, acho interessante pontuar que existe uma enorme diferença entre a cultura não-monogâmica da contemporaneidade ocidental e a tradicional poligamia das culturas orientais ou antigas. Na poligamia tradicional a objetificação da mulher e a assimetria de poder entre as pessoas da relação são claras, a forma mais usual é a do homem que possui um “harém”, ou seja, que é casado com várias mulheres e possui uma espécie de direito de propriedade sobre elas.

Para nós, não-monogâmicxs (evitamos, inclusive, usar “poligamia” como sinônimo de não-monogamia), é da mais fundamental importância que todxs xs envolvidxs na relação estejam cientes e de acordo, por livre e espontânea vontade, com a configuração…

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Sobre a Misoginia Internalizada e o despertar para a irmandade de mulheres

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Estes dias eu estava passando por minha Time line, e dolorosamente li um post que dizia ” Não tente entender outras mulheres, mulheres não se entendem, elas se odeiam”. Nós temos acreditado nisso, por mais que você não perceba e que eu não tenha percebido, nós acreditamos nisso, e passamos a vida em guerra com outras mulheres. Sem saber por que.

Passei por algumas situações recentemente que me mostram o quanto isso é verdadeiro “mulheres odeiam outras mulheres”. O primeiro passo para libertação, é admitir que existe uma prisão e depois romper com as grades e sair de lá, certo? Ok. Admitimos que existe uma construção social, feita sobre as mulheres, onde a internalização da misoginia, faz com elas odeiem outras mulheres.

Eu vou contar algo para vocês, uma experiencia muito forte que tive na minha vida:
Sempre tive amigos homens, homossexuais e heterossexuais, eu os preferia as mulheres, e usava todo aquele discurso de reprodução do machismo para apoiar isso “Mulheres são falsas”, “Mulheres competem o tempo todo”, Mulheres não tem a mesma compressão que homens sobre mim” etc… Mas existia algo muito forte por trás disso, existia algo que você precisa entender, assim como eu entendi um dia também, existia um ódio por mim mesma, um ódio por ser mulher. Eu não queria ser mulher, eu tinha inveja dos meus amigos homens, eles tinham liberdade sexual, me estimulavam a ser livre, não usavam moralismo para me condenar, eu me lembro de contar aos meus amigos gays sobre minhas aventuras sexuais e ser ouvida com interesse, sem pudor, com comentários ácidos e algumas vezes eu ouvia coisas do tipo “Você é quase um homem” seguido de risos. Sim por que eu precisaria ser um para exercer uma vidam livre.

Eles eram amigos, eles defendiam-se entre si, e me defendiam, por que de repente eu era tão parte daquele grupo de homens que eles passaram a me ver como um deles, a desconstrução do sujeito social mulher estava sendo feita, para ser livre eu tinha que agir como homem, estar entre homens, viver como eles e quando eu saia daquela bolha, eu tinha que ignorar toda opressão que me esperava do lado de fora, todos os dedos na cara e toda repressão a minha liberdade, coisa pela qual eles não passavam.

Não, eu realmente não entendia que os homens tiveram uma vida inteira para construir estes laços de fraternidade e que as mulheres vem num curtíssimo espaço de tempo tentando desenvolver algo similar, sendo esmagadas todos os dias pela opressão que sentem. Não eu não entendia que eu poderia ser mulher, amar me como mulher, e ser livre. Não eu não entendia que aquele ódio que eu sentia por mim mesma, me afastava de outras mulheres, me impedia de desenvolver laços fortes com outras mulheres, de amá-las. Passei grande parte da minha vida convivendo com este ódio por mim mesma, com este ódio por ser mulher, e a todas as restrições que me impunham por ser mulher.

Até entender que não precisava ser assim…e entender que:

A melhor maneira de conseguir que uma odeie alguém de seu próprio gênero é fazer com que ela odeie a si mesma em primeiro lugar. E tem sido tão fácil fazer isso, toneladas de fotos na mídia que são Photoshopadas tornando mulheres hierarquicamente inferiores umas as outras; É facilmente feito com inúmeras funções e expectativas estabelecidas para as mulheres que são surreais e portanto, resultam em fracasso automático; É fácil fazer uma mulher odiar a si mesma se ela está constantemente vendo mulheres retratadas como sendo subordinadas aos homens e retratadas como uma existência apenas para agradar e servir. Uma vez que uma mulher se odeia, é fácil fazer com que ela odeie outras mulheres. Digo isto porque se uma mulher que se odeia vê uma mulher que aparentemente não odeia a si mesma, é fácil de projetar a negatividade internalizada sobre ela.

Uma situação interessante que passei e que demonstra muito bem isso foi quando comecei um namoro e o homem tinha uma ex-namorada que ainda estava ligada a ele sentimentalmente, e a mesma veio me falar sobre isso. Eu disse a ela que não disputaria homem nenhum com ela, que homens não são troféus, que eu conversaria com ele e pediria para ele resolver a situação, de forma a tratá-la com dignidade e respeito. Ela por sua vez me disse “Eu não acredito que ele vai escolher você, você é mais velha, você é gorda, eu malho, tenho um corpo lindo…”
Ela disse isso rangendo os dentes, ela me odiava, e ela nem me conhecia. Eu respondi a ela:

“Você não percebe, que você me rejeita, me odeia, por que eu não preciso estar nesta prisão estética que você se mantém, com objetivo de ter aceitação dos homens, eu sou o que sou, e me amo do jeito que sou, eu me acho linda, e se alguém me achar linda também, ok, se não me achar, eu me sinto assim, linda, e só isso importa. Você esta chateada por que se esforça tanto para estar dentro deste padrão estético, e agora se vê preterida, se vê perdendo uma disputa pelo troféu que você elegeu, mas este troféu só existe para você, para mim não, e como eu te disse, não vou disputar com você”.

Meu choque de realidade veio com minha entrada no movimento feminista, a verdade veio como turbilhão, eu me sentia estapeada cada vez que percebia como estava jogando contra mim mesmo. Como eu fugia para o mundo dos homens a fim de esconder me da misoginia internalizada de outras mulheres, fortalecendo assim a minha misoginia internalizada.

O que eu pretendo com este texto é que você mulher, identifique também sua misoginia internalizada, admita que ela exista, e comece a desconstruir completamente, por que se existe algo que impede a luta de ser efetivada, são as desavenças e competições que estão ativas e destrutivas dentro da nossa luta. Enquanto perdemos tempo combatendo nossas irmãs, caçando nossas irmãs, destruindo e impedindo as de seguir, atravancamos nosso caminho para equidade.

Gaslight e a naturalização da mulher como descontrolada emocionalmente

Existe uma naturalização de que a mulher é exagerada, emocional demais, e é normal a gente ver as próprias mulheres aceitando estas características como próprias delas, e esta aceitação tácita destas características é tudo que o machismo precisa para violentá-la sem que ela consiga entender o que esta acontecendo, e ainda de brinde para o machista, culpar-se, por que afinal, as mulheres são assim mesmo, né? Exageradas.

– Você é tão sensível!
– Você é tão emocional!
– Você está sempre na defensiva!
– Você está exagerando!
– Acalme-se!
– Relaxe!
– Pare você está pirando!
– Você está louca!
– Eu estava apenas brincando, você não tem um senso de humor?
– Você é tão dramática.
– Você é tão estúpida!
– Ninguém vai querer você!

Soa familiar?

Se você é mulher, provavelmente seu companheiro já fez isso, ou faz. A probabilidade de a mulher ser a vitima deste tipo de violência, que chama se GASLIGHT, é infinitamente maior para mulher devido ao sexismo e machismo, que trata a mulher com desqualificação, inferiorização e descrédito. Basta notar que, é divulgado massivamente que os homens são racionais e as mulheres emocionais, mas não dizem que as mulheres têm uma inteligência emocional, trata se de uma desqualificação, o que quer dizer se com isso é que elas são descontroladas emocionalmente, ou seja, os homens são superiores, eles devem ter crédito e as mulheres não.

Este é um tipo de manipulação emocional que alimenta uma verdadeira epidemia no mundo, uma epidemia que define as mulheres como loucas e irracionais, excessivamente sensíveis, desequilibradas… Esta epidemia ajuda a alimentar a idéia de que as mulheres diante de qualquer menor provocação perdem o controle de suas emoções, e isto é MENTIRA.

Os homens têm usado este tipo de manipulação emocional, embasada no machismo, para manterem se privilegiados nos relacionamentos, assim eles podem errar a vontade, trair acordos, fazer piadas depreciativas da companheira, humilhar, etc. que no final das contas, o discurso será sempre o mesmo: “Você esta exagerando, eu estava apenas brincando…” E a mulher pensa “Realmente, acho que estou exagerando” e fica ali sendo ferida, esmagada, tendo a autoestima destruída dia após dia, sem forças para reagir, por que entende se culpadas das situações. Às vezes, é tão convencida disso, que a agredida, é quem pede desculpas ao agressor, sentindo se aliviada por ele ter perdoado. O homem assume um papel de Deus sádico na vida da mulher, dispondo dela como bem entender.

Um exemplo fácil de ser encontrado é quando o homem usa alguma característica física da mulher, e faz comentários depreciativos, como piadas a respeito do peso dela, para logo em seguida, quando a mesma reage, dizer a ela que ela esta exagerando e que ele estava apenas brincando.

O gaslight pode ser algo muito sutil, tão simples como alguém sorrindo e dizendo algo como: “Você é tão sensível”. Tal comentário pode parecer inócuo o suficiente, mas, naquele momento, o orador está fazendo um julgamento sobre como alguém deve se sentir. A desqualificação das percepções e sentimentos da outra pessoa é uma violência emocional.

É muito mais fácil manipular emocionalmente uma pessoa que tem sido condicionada pela nossa sociedade a aceitá-la. Provavelmente algumas mulheres pensarão que por serem mulheres empoderadas, fortes, independentes… Não serão alvo deste tipo de violência, é importante dizer que todas estamos à mercê disso, por que é muito difícil diagnosticar o quadro, não esperamos que a pessoa que amamos, escolhemos para viver ao nosso lado e dividir a vida, nos trate desta forma, e por isso seguimos desculpando e aceitando a situação, quando não nos culpamos pela mesma.

O GASLIGHT rouba da mulher sua arma mais poderosa, ele rouba sua voz. Notem que muitas vezes ao fazermos cobranças aos nossos companheiros, namorados, maridos… Nós tentamos fazer de uma forma meiga, calma, quase como se nos desculpássemos por chamar atenção deles sobre algo que nos incomoda, e desta forma as mulheres vão tornando-se seres passivos, seres não assertivos, não combativos, presas fáceis para todos os tipos de violência machista. E é com este tipo de desqualificação da sanidade da mulher que o machismo também desconstrói a possibilidade de independência delas, afinal se são tão vulneráveis emocionalmente, como poderão alçar cargos elevados dentro de empresas, ou grandes responsabilidade, postos de liderança, não é mesmo? É muito valioso para manutenção dos privilégios dos homens tratarem as mulheres como desequilibradas, naturalizando estas características como inerente a elas.

O homem que faz isso é machista e covarde. O homem que faz isso, não faz de maneira não intencional, ele sabe que esta ferindo a companheira e a cada dia é mais complicado pedir aos homens para que observem suas atitudes, para que parem de praticar violências machistas, pois grande parte da população masculina esta comprometida em defender seus privilégios, mas esperamos que este tipo de leitura, além de esclarecer as mulheres para que possam se defender, também conscientize os homens.

A piada do Estupro

Não existe piada de estupro,o que existe é apologia e naturalização de um crime.
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TW: estupro

A piada do estupro é uma mulher sair de seu local de trabalho tarde da noite, caminhar por ruas mal iluminadas, sem a presença de nenhum aparato de proteção, seguir com medo, apressada até um ponto de ônibus…

A piada do estupro é que o ponto de ônibus fica longe demais e mesmo a passos largos, ela não consegue afastar se da imagem que se projeta atrás dela, ela corre, ele corre, ela não aguenta mais correr, ela caí sente os joelhos, as palmas das mãos que estão feridos, ela sente dor, ela olha para trás de si mesma, ele a observa com um sorriso nos lábios.

A piada do estupro é que ela sente horror, ela sente medo, seu corpo treme tanto que ela perde o controle de si mesma, aquele sorriso entre muitas traduções, diz a ela que ele venceu tal qual um animal corre atrás de sua presa, domina sua presa e devora sua presa, aquele sorriso diz a ela que o jogo terminou e ela perdeu e será punida pelo vencedor.

A piada do estupro, é que aquela mulher tira forças não sabe de onde, e resiste, e grita, mas ninguém a ouve, ninguém vem em seu socorro.

A piada do estupro é que para calar a mulher ele a espanca, com ódio, ele a espanca, seu rosto sangra, escorre vermelho pela face, ela pensa que se ele foi capaz de feri-la daquela forma, ele terá coragem de mata-la.

A piada do estupro é que ela vê sua roupa senda rasgada, ela é invadida, violentada, ela sente dor, ela está apavorada, ela só pensa em sair dali, em escapar daquela violência, ela não consegue reagir mais, ele vai embora, e a deixa ali sozinha, sangrando, na rua silenciosa e vazia.

A piada do estupro é que ela tira forças de onde nem sabe que vem, caminha o resto do trajeto e não sabe como fará para chegar em casa, pois sente se suja suas roupas rasgadas, machadas de sangue, desabada emocionalmente, desorientada…

A piada do estupro é que ela liga para a policia, e espera, espera, espera por horas até que atendam seu chamado e quando chegam até ela, são homens fardados, eles a olham com a mesma cara de quem ri de uma piada de estupro, no olha deles há julgamento prévio, há condenação.

A piada do estupro é que chegando a delegacia ela fica exposta, sendo observada por outros homens que fazem a mesma coisa;

A piada do estupro é que ela é atendida por um delegado que faz mil questionamentos a ela, como se andar sozinha por uma rua escura na volta de seu local de trabalho fosse proposital, como se a roupa que ela vestia justificasse ser atacada, como se a vida que ela leva fosse o motivo, como se qualquer coisa que ela tivesse dito ou feito em sua vida pregressa validasse uma agressão como a que ela sofreu.

A piada do estupro é que existem milhares de casos como este arquivado, simplesmente por não conseguirem identificar o estuprador, simplesmente por que não se esforçam para fazê-lo, simplesmente por que a culpa do crime nunca é do homem que estuprou, mas da mulher que foi vitima do estupro.

Quando você ri de uma piada de estupro, está rindo de todas estas situações. Você se sente ser humano rindo, validando e naturalizando toda esta situação de violência?

Por que não votar em Dilma?

Por que não votamos em Dilma, nem no primeiro e nem no segundo turno?

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Toda eleição em que se evidencia pelas pesquisas que haverá um segundo turno, e neste segundo turno haverá disputa entre candidates do Partido dos Trabalhadores e de algum outro partido que declaradamente cumpre uma agenda neoliberal, surgem os defensores de que votar contra a direita é votar no PT. Usam uma falsa simetria do menos pior e a ideologia do voto útil, e acusam de pelegagem quem não o fizer, dizendo que é “para evitar a volta da direita”.

Primeiro gostaríamos de deixar claro que somos totalmente contra a eleição de qualquer candidate que seja da direita, que cumpra uma agenda neoliberal ou que mesmo que não declare se da direita tenha o compromisso com uma agenda neoliberal e conservadora, de ataque às minorias e a classe trabalhadora. Neste contexto afirmamos também que não basta ser mulher, negre, ou pertencente a qualquer minoria para que seja um governo que nos represente.

Dito isso, gostaríamos de dar nosso parecer sobre esta polarização esquerda x direita nas eleições brasileiras: à esquerda e  direita são termos relativos, mas em geral a direita representa a grande burguesia. Podemos notar pelas políticas aplicadas no decorrer de seu mandato que Dilma não faz um governo priorizando xs trabalhadorxs, como deveria ser no caso de um partido de esquerda. Candidates que poderão estar no segundo turno, sejam Dilma, Aécio ou Marina, são farinha do mesmo saco, pois todes cumprem uma agenda neoliberal, seja de forma declarada ou, como Dilma, de forma mascarada para manter junto de si o apoio da classe trabalhadora que a elege.

Daí vocês vão nos perguntar “Como assim Dilma cumpre uma agenda neoliberal?” E dirão que Dilma fez isso e fez aquilo para o povo trabalhador. Pois bem, podemos nos lembrar de que na época de FHC, com as benesses do recém-criado plano Real, a inflação estabilizou, o poder de compra dos brasileiros aumentou, algo muito marcante na época, a carne de frango ficou tão barata, mas tão barata, que famílias que antes nunca puderam alimentar-se com a carne a semana toda , agora poderiam… Isso não fez do governo FHC um governo de esquerda, apesar de ele mesmo declarar-se como esquerda. É baseado em outras atitudes que analisamos o quão seu governo era de direita, ou seja, existia e governava para grande burguesia. Por que com Dilma e o PT tem que ser diferente? Por que analisam algumas políticas públicas que aparentemente beneficiam as classes baixas, e não se contabiliza que, em contrapartida, existe muito mais dinheiro escoando para o bolso dos ricos do que em investimento para melhoria da vida da classe trabalhadora?

É bom lembrar que muitas vezes nos iludimos em relação ao PT devido a seu histórico. Apesar de a presença em greves, construção pela base e formulação de reivindicações para xs trabalhadorxs tenha sido importante na história brasileira, devemos nos focar agora no que de fato esse partido faz no governo hoje (a discussão sobre a degeneração do PT pode ficar para outro momento).

Vamos aos fatos?

Já nos primeiros dias de seu governo, no ano de 2011, a Presidenta Dilma, com a tarefa de combater a inflação, usou de um receituário conhecido de governantes neoliberais, corte de orçamento federal. Aliás, diga-se passagem, foi o maior corte de orçamento de toda história do Brasil, nem mesmo o tão criticado pela esquerda FHC havia conseguido tamanha façanha. Antes de Dilma entrar com este feito, apenas outro governante havia batido recordes como ela: Lula, que em 2010, fez um corte orçamentário de 21,8 bilhões. A redução deste corte feito por Dilma foi sentido na educação, com redução de 3,1 bilhões e no programa de habitação “Minha casa, minha vida”, com redução de 5 bilhões.

No mesmo período de 2011 em que os deputados deram para si mesmos um reajuste salarial de 62% e a própria Dilma teve um reajuste de 132% em seu salário, Dilma impôs um arrocho ao salário mínimo, que foi reajustado abaixo da inflação, pela primeira vez desde 1997.

Em 2012, na semana que antecedia o carnaval, o governo federal, tendo Dilma como representante, anunciou o corte de nada menos que R$ 55 bilhões da peça orçamentária aprovada pelo Congresso para 2012, ou R$ 5 bilhões a mais que os cortes anunciados no início de 2011, e que eram até aquele momento recorde. As áreas mais atingidas, como vocês podem imaginar, foram os dois setores que mais atingem a população pobre e trabalhadora: saúde e educação. A saúde perdeu 5,5 bilhões previstos em seu orçamento. E mais: novamente o programa “Minha Casa, Minha Vida” foi atacado e viu desaparecer R$ 3,3 bilhões, e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pela reforma agrária perdeu, por sua vez, R$ 1,2 bilhão. Aliás, a Reforma Agrária avançou menos no governo Dilma do que no governo FHC, em uma entrevista à Carta Capital desse ano, Gilmar Mauro, dirigente do MST, ressalta isso: (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/201co-governo-dilma-nao-fez-nada-em-termos-de-reforma-agraria201d-6758.html).

No governo Dilma, o que o PT chamava de privatização passa a chamar-se “acordo com a iniciativa privada”, e desta forma vários serviços passam a ser terceirizados com o anúncio de um plano de privatizações no qual Dilma repassou ao setor privado concessões para a exploração de rodovias e ferrovias. Ah, e Dilma ainda usa um discurso idêntico ao do ex-presidente tucano, FHC, para justificar as privatizações, dizendo que o setor público seria sinônimo de ineficiência e incompetência, ao contrário da iniciativa privada. O nível de desconfiança deveria subir ao alerta máximo.

E neste caminho de privatizações disfarçadas de acordo com a iniciativa privada, Dilma privatizou os aeroportos e portos também. Além disso, Dilma leiloou as fontes de petróleo, aliás, uma quantidade de petróleo que, revertida em dinheiro, é maior que o PIB do país em 2012, fechado na cifra de US$ 2,3 trilhões de dólares. Os participantes deste leilão que segue a mesmíssima linha do governo tucano são empresas multinacionais, tais como Chevron e Shell. Onde mesmo que o T do Partido dos trabalhadores saiu beneficiado até agora mesmo?

Vamos falar de quem esta se beneficiando? Desde 2012, as montadoras de carros do país têm obtido redução e até isenção do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados). Somente com esta medida, o governo federal deixou de arrecadar mais de R$ 12,3 bilhões. As montadoras fazem remessas de lucros para fora do país contabilizadas US$ 3,5 bilhões em 2013 contra US$ 2,4 bilhões no ano anterior. Somente nos últimos quatro anos, mais de US$ 15,4 bilhões foram remetidos pelas montadoras ao exterior. E os trabalhadores? Nos últimos sete meses, o setor automotivo demitiu 7.300 trabalhadores, apesar de todo o incentivo recebido à custa do dinheiro público.

E os trabalhadores?

O primeiro elemento quando se pensam nos benefícios do governo Dilma são os programas sociais. Pois bem, claro que nós não vamos desconsiderar que a vida de pessoas melhorou e atingiu um nível mínimo de dignidade com programas como o Bolsa-Família. Ocorre que esse e outros programas podem existir na medida em que não ameaçam os lucros dos capitalistas. Na verdade, o estímulo ao consumo em regiões empobrecidas é vantajoso também para a burguesia. Nesse sentido, nenhum destes candidates vai acabar com esses programas, e de certo não é isso que os fará de esquerda. Outros compromissos com a classe trabalhadora, no entanto, Dilma não pode assumir:

Não houve sinalização da Presidenta em discutir e implementar a convenção 158 da Organização Internacional do trabalho que determina estabilidade no emprego aos trabalhadores.

Dilma afirmou ser contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução de salários. Esta medida geraria cerca de 2,5 milhões de empregos de acordo com o Dieese.

Em contra partida em maio de 2013, a indústria de transformação fechou 28.533 vagas a mais do que gerou em postos de trabalho, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Segundo dados da FIESP, dos 22 setores em que a indústria está dividida, 14 demitiram, 3 permaneceram estáveis e apenas 5 contrataram.

Uma política de esquerda e em beneficio aos trabalhadores aqui neste contexto seria impedir a remessa de lucros das empresas para fora do país e as demissões em empresas que tem isenção fiscal, mas para quê? Por que Dilma e PT iriam fazer uma politica para o T da sigla do partido quando são os burgueses que financiam sua candidatura? A campanha de Dilma já embolsou pouco mais de R$ 120 milhões segundo prestação de contas ao TSE. Só a dona da marca Friboi deu R$ 14,5 milhões para Dilma, mas ela não deu apenas para Dilma, deu também para Aécio. A dona da Friboi não faz diferenciação entre o partido de Dilma e o partido de Aécio por que ela sabe que independentemente de quem ganhe as eleições seus interesses estarão assegurados, mesmo que isso signifique, para o caso do PT, priorizar o patrão, não trabalhador. Mas não foi só a Friboi. A JBS (da marca Friboi), a Ambev e a empreiteira OAS respondem juntas por 65% das doações. As doações das três maiores beneficiaram principalmente a presidente Dilma Rousseff (PT), que disparou no ranking de arrecadação, dando claros sinais de que é a preferida da classe dominante, classe esta que o PT não deveria representar. É muito rabo preso com a burguesia para uma presidenta que diz governar para os trabalhadores e trabalhadoras do país.

Responda honestamente para si mesmo esta pergunta, pois sabemos que a esquerda governa para trabalhadores, e não para burguesia… As informações prestadas aqui parecem para você compatíveis com um programa de governo para a classe trabalhadora? Se não estão compatíveis (e não estão) desaparece esta falsa polarização entre esquerda x direita, não é mesmo? Logo não temos uma candidata que represente a classe trabalhadora no jogo das eleições e, portanto, não há pelegagem nenhuma em optar no primeiro turno por outres candidates que nos representem, ainda que não ganhem (e provavelmente não ganharão), e no segundo turno votar nulo.

E as trabalhadoras?

Sabemos que o machismo impõe às mulheres as responsabilidades pela criação dxs filhxs, por isso, a reivindicação por mais creches, é muito mais do que conseguir em uma instituição de ensino uma vaga para deixar xs filhxs, trata se de ter garantido parte do processo de emancipação da mulher, dando a ela condições de manter sua vida profissional tendo independência financeira e também a libertação da imposição machista de que o trabalho de educação dos filhos compete somente a ela. Mesmo as mulheres representando hoje cerca de 50% da força de trabalho, o não atendimento à demanda da educação infantil é o principal motivo para as mulheres deixarem seus empregos: menos de 2 a cada 10 crianças de 0 a 3 anos conseguem vagas. A falta de creches é um direito negado a criança e a mulher trabalhadora. Dilma prometeu milhares de creches e não cumpriu.

Não votamos em Dilma por que nem Dilma e nem seu partido estão comprometidos com um governo para classe trabalhadora. Votar em Dilma no segundo turno ou votar em Marina significa estar votando em pessoas comprometidas com a grande burguesia. Ainda que Marina diga que “não é nem de direita, nem de esquerda, muito pelo contrário”, ela tem sim um lado bem definido: o dos bancos, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e de tudo o que possa fazê-la ganhar. Ambas, Marina e Dilma são financiadas por empresas e empreiteiras, ambas são publicamente comprometidas com o setor religioso e conservadores da sociedade, ambas atacarão a classe trabalhadora quando houver crise econômica.

Por: Verinha Dias (Verinha Kollontai) e Mariana Luppi.

Roubo da página do coletivo Feminismo Sem Demagogia

A única página do facebook moderada pelo Coletivo Feminismo Sem Demagogia é a Feminismo Sem Demagogia – Original. A página chamada apenas “Feminismo Sem Demagogia” nos foi roubada no fim de 2013 e está neste instante fazendo publicações com conteúdo da corrente do feminismo radical, inclusive transfóbicas, com a qual não temos nenhum acordo.
Peço POR FAVOR que parem de segui-la e informem tantas pessoas quantas puderem!

Chamada para Blogagem Coletiva pelo 29 de Agosto – Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual

Post originalmente publicado pelo Coletivo Audre Lorde.

 

Eu passei a acreditar que o mais importante para mim deve ser falado, tornado verbal e compartilhado, mesmo com o risco de isso ser ferido ou mal interpretado. Que falar me beneficia, além de qualquer outro efeito.

Audre Lorde

Ser mulher numa sociedade machista é precedente para ser diminuída constantemente e estar exposta a possibilidade de violências diversas. Ser mulher lésbica ou bissexual nesta mesma sociedade que além de machista prima pela heteronormatividade* é ser tida como a que “ainda não encontrou um homem de verdade”, a que está “passando por uma fase”, que quer “chamar atenção”, aquela que é “Lésbica por modinha”, são as mulheres que sofreram algum “trauma” ou “violência sexual”, são as mulheres “feias”, “gordas”, “mal amadas”, “mal comidas” e que por estas razões tornaram-se lésbicas. Ser lésbica ou bissexual neste contexto é ter sua afetividade e sexualidade reduzida a “fetiche para homens” ou um “convite para um ménage”. Todos estes argumentos e atitudes geram os estupros corretivos, a violência psicológica e física, o abandono, o medo e a vergonha de ser quem se é.

Porém, como diz Audre Lorde, “Seu silêncio não irá te proteger”.

“Por causa do silêncio, cada um de nós desenha o rosto de seu próprio medo — medo de desprezo, de censura, de algum julgamento, ou reconhecimento, de desafio, de aniquilação. Mas acima de tudo, penso eu, nós tememos a visibilidade sem a qual não podemos viver verdadeiramente.

A visibilidade que nos torna vulneráveis é a mesma que liberta e nos permite lutar por nossos direitos já tão negados quanto mulheres, acabam por tomar outras proporções quando se é negra, periférica, trans*, quando se possui uma necessidade especial, se é mães, esta em situação de rua ou cárcere, quando se está em um país onde ser quem se é pode levar a morte.

O Coletivo Audre Lorde convoca a Blogagem Coletiva pelo 29 de agosto – Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, no intuito de permitir um olhar sobre sobre estas mulheres plurais que não raro tem sua existência negada. Vamos marcar esta semana com muitos textos e relatos pessoais.

É urgente dizer que existimos, que temos desejos, necessidades, sonhos, e que eles são nossos, específicos, e tão importantes como qualquer outro. Somos cidadãs e exigimos nosso lugar nessa sociedade que não titubeia em exigir nossos deveres, mas é omissa com nossos direitos.

Se tiver blog, publique lá, inclua a frase “Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo Coletivo Audre Lorde”, com o hiperlink dessa página, e nos envie o link para divulgação até as 22h00 do dia 29 de Agosto.

Caso não mantenha um blog, nos envie seu conteúdo no máximo até dia 28 de agosto, para que seja publicado em blogs parceiros. Durante este dia utilize o twitter, o instagram e outras redes sociais e publique imagens e conteúdo que possam nos tornar cada vez mais visíveis e respeitadas com a hashtag #VisibilidadeLés&Bi.

…Não é a diferença que nos imobiliza, é o silêncio. E há tantos silêncios a serem quebrados. (Audre Lorde)