MARXISMO, FEMINISMO E A LIBERTAÇÃO DA MULHER – Por Sharon Smith

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Parte 1

Inês Armand, a primeira líder do departamento de mulheres da Revolução Russa de 1917, fez a seguinte observação: “ Se a libertação da mulher é impensável sem o comunismo, então o comunismo é impensável sem a libertação da mulher”. Esta afirmação é a síntese perfeita da relação entre a luta por socialismo e libertação da mulher – uma coisa não é possível sem a outra.

E a tradição marxista tem, desde seu início, com os escritos de Karl Marx e Frederick Engels o engajamento pela libertação da mulher. Na época em que foi escrito o ‘Manifesto Comunista’, Marx e Engels questionavam o fato de que as classe dominante oprime as mulheres, relegando a elas uma segunda classe de cidadania na sociedade e na família: “O burguês vê em sua esposa um mero instrumento de produção… Ele sequer suspeita que o real ponto almejado (por quem é comunista) é acabar com a ideia de que as mulheres são meros instrumentos de produção.

Marx não dedicou muito espaço em ‘O Capital’ descrevendo o papel preciso do trabalho doméstico feminino sob o capitalismo. Ele também não abordou a origem da opressão da mulher na sociedade de classes, embora no final de sua vida tenha se dedicado a escrever extensas notas etnológicas sobre este assunto no final de sua vida.

Após a morte de Marx, Engels usou algumas destas notas etnológicas para escrever ‘A origem da família, da propriedade privada e do Estado’, obra que examinou a crescente opressão da mulher como um produto da ascensão da sociedade de classes e da família nuclear. Ainda que seja necessário fazer revisões no livro de Engels, é preciso reconhecer que ele foi pioneiro em seu tempo para entender a opressão sofrida pelas mulheres, já que Engels escrevia no contexto da Inglaterra vitoriana – um tempo muito conservador que não apresentava espaço para o entendimento da condição das mulheres.

De fato, ‘A origem da família, da propriedade privada e do Estado’ é um livro digno de nota pela atenção que Engels cuidadosamente dispensou para os aspectos pessoais da opressão das mulheres dentro das famílias, incluindo a extrema degradação sofrida pelas mulheres nas mãos de seus maridos, com um grau de desigualdade desconhecido antes da sociedade de classes. Engels denominou o crescimento das famílias nucleares como ‘a derrota histórica mundial do sexo feminino’. Embora as notas de Marx sugerissem que essa derrota histórica mundial se iniciou bem anteriormente e culminou no surgimento da sociedade de classes, o resultado final é um enorme retrocesso para a igualdade entre homens e mulheres.

Além disso, Engels tratou explicitamente sobre o estupro e a violência construída contra a mulher quando foi iniciada a família nuclear:

O homem assumiu o comando em casa também; a mulher foi degradada e reduzida à servidão; ela se tornou a escrava de sua luxúria e um mero instrumento para a produção de crianças … A fim de ter certeza da fidelidade da esposa e, portanto, a paternidade de seus filhos, ela é entregue incondicionalmente no poder do marido; se ele matar ela, ele está simplesmente no exercício de seus direitos.

Engels também questionou o ideal de família monogâmica na sociedade de classes, dizendo que esta era baseada em hipocrisia. Desde seu a família foi carimbada ‘com o caráter específico da monogamia somente para a mulher, e não para o homem’. Enquanto os atos de infidelidade por parte da mulher são condenados , Engels escreveu que estes atos são considerados honrosos em um homem, ou, na pior das hipóteses, um ligeiro defeito moral que ele alegremente carrega.

Parte 2

Então, uma coisa que se destaca desde o início da tradição marxista sobre a libertação das mulheres é que as questões das mulheres nunca foram vistas teoricamente como só a preocupação das mulheres, mas eram uma preocupação de todos os líderes revolucionários, tanto lideres homens como mulheres. O revolucionário russo Leon Trotsky escreveu: “A fim de mudar as condições de vida, precisamos aprender a vê-las através dos olhos das mulheres.” Da mesma forma, o revolucionário russo Lenin comumente referia se a opressão das mulheres no seio da família como “escravatura doméstica”.

A escravidão doméstica que Lenin se refere é a teoria marxista central na opressão das mulheres: A fonte da opressão das mulheres reside no papel da família como reprodutora da força de trabalho para o capitalismo – e no papel desigual das mulheres dentro da família. Considerando que a família da classe dominante historicamente tem funcionado como a instituição através da qual passa se a herança para as gerações futuras, com a ascensão do capitalismo, a família da classe trabalhadora assumiu a função de fornecer ao sistema uma oferta abundante de mão de obra.

Esta é uma forma muito barata para os capitalistas, embora não para os trabalhadores, para reproduzir a força de trabalho, tanto em termos de reposição da força diária da força de trabalho atual e também como uma forma de elevar as futuras gerações de trabalhadores até a idade adulta. Esta configuração da vida leva do trabalhador quase todo montante financeiro para a educação dos filhos e para manter as famílias sobre os ombros de unidades familiares da classe trabalhadora – que por sua vez dependem principalmente dos salários de um ou dois dos pais para a sobrevivência, em vez de despesa por parte do governo ou da classe capitalista.

A ascensão da família da classe trabalhadora também começou a diferenciar se nitidamente quanto o caráter da opressão sofrida pelas mulheres de diferentes classes: O papel da mulher da classe alta é de produzir descendentes para herdar a riqueza da família, enquanto as funções mulher da classe trabalhadora para manter a geração de hoje e de amanhã dos trabalhadores em sua própria família – ou seja, para reproduzir a força de trabalho para o sistema. Engels argumentou que o papel da “mulher proletária” significava “a mulher tornou-se o servo cabeça … [I] ela realiza seus deveres no serviço particular de sua família, ela permanece excluída da produção pública e incapaz de ganhar; e se ela quer tomar parte na produção pública e ganhar de forma independente, ela não consegue realizar seus deveres familiares. ”

Para este dia, as demandas conflitantes de trabalho e família são uma grande fonte de estresse para todas as mães que trabalham – mas isso acontece especialmente em famílias da classe trabalhadora, que não podem dar ao luxo de contratar outras pessoas para ajudar com serviços tais como lavanderia, trabalhos domésticos, cozinhar e outros afazeres domésticos.

A fim de sustentar a família, a ideologia da classe dominante obriga homens e mulheres a aderir a papéis sexuais rigidamente demarcadas – incluindo o ideal da dona de casa para as mulheres, subordinadas ao homem provedor da família – independentemente de quão pouco esses ideais realmente refletem a vida real das pessoas da classe trabalhadora. Desde os anos 1970, a grande maioria das mulheres têm composto uma parte da força de trabalho, mas esses ideais da família, pressupõe que as mulheres são mais adequados às responsabilidades domésticas dentro da família. O Papel de cuidadora das mulheres dentro da família reduz o seu estatus para cidadã de segunda classe na sociedade como um todo, porque a sua principal responsabilidade – e maior contribuição – que se presume seria a manutenção das necessidades de suas famílias.

Assim, o entendimento do papel da família é fundamental para compreender a cidadania de segunda classe das mulheres na sociedade, respondendo a perguntas básicas: Por que nós ainda não temos Emendas dos Direitos Iguais que garantam a igualdade jurídica mais básico para as mulheres? Porque as mulheres são relegadas ao papel de objetos sexuais, sujeita à aprovação ou desaprovação dos homens? Por que as mulheres hoje ainda lutam pelo direito de controlar seus próprios corpos e vidas reprodutivas? Iniciou-se com a família, mas as repercussões se estendem muito além da vida dentro da família.

Os líderes da Revolução Russa de 1917 entendiam não só a centralidade da família como a raiz da opressão das mulheres, mas também as dificuldades envolvidas na realização da igualdade de gênero no seio da família como uma pré-condição para a libertação das mulheres na sociedade como um todo. Como Trotsky escreveu em 1920:

[I] O fim de alcançar a igualdade real entre homem e mulher dentro da família é um problema … árduo. Todos os nossos hábitos domésticos devem ser revolucionados antes que isso possa acontecer. E, no entanto, é bastante óbvio que a menos que haja igualdade real entre marido e mulher na família, bem como nas condições de vida, não podemos falar seriamente de sua igualdade no trabalho social ou mesmo na política.

A Revolução Russa também começou a abordar tanto a nível teórico como a nível prático como a luta contra a opressão deve ser parte integrante da luta pelo socialismo, argumentando que o partido revolucionário deve ser uma “tribuna dos oprimidos.” Lenin Fe argumentou de forma muito sucinta que o objetivo da consciência revolucionária requer vontade dos trabalhadores para defender os interesses de todos os oprimidos, como parte da luta pelo socialismo:

“A consciência da classe operária não pode ser uma genuína consciência política a menos que os trabalhadores sejam treinados para responder a todos os casos de tirania, opressão, violência e abuso, não importa qual classe seja afetada – a menos que eles sejam capacitados, além do mais, a responder de um ponto de vista social-democrata e de nenhum outro.”

Parte 3

Esta formulação é extremamente importante para a compreensão do papel do movimento socialista, não só na luta de classes, mas também na luta contra todas as formas de opressão – e eu estou esperando aqui aplicar esta formulação para tratar especificamente da opressão das mulheres, e que isso significa tanto teoricamente como na prática.

O que Lenin está destacando nesta citação é que, enquanto o sistema capitalista se baseia na exploração da classe trabalhadora – e classe é a divisão fundamental na sociedade, entre exploradores e explorados – ao mesmo tempo, o sistema capitalista também se baseia em formas específicas de opressão para manter o sistema. E essas formas de opressão afetam as pessoas de todas as classes, não apenas trabalhadores.

Um par de exemplos familiares com hoje pode ilustrar este ponto com bastante facilidade. Em primeiro lugar, a discriminação racial: Dirigir enquanto preto ou moreno não é um problema que afeta apenas os negros da classe trabalhadora e outras pessoas racialmente oprimidas A verdade é quem conduz um Mercedes top-of-the-line vestido com um terno caro não se mantém a salvo de ser racialmente descriminado e ser parado por policiais.

Vamos dar outro exemplo, desta vez especificamente sobre mulheres: O teto de vidro. Há uma razão simples pela qual os altos escalões do mundo corporativo e político são ainda predominantemente brancos e do sexo masculino, por causa do racismo e do sexismo, puro e simples. Temos um circulo social de homens interiormente branco, e os negros e as mulheres simplesmente não são convidados para ele.

Seria errado para nós dizer: “Quem se preocupa com aqueles ricos assim e so’s -. A opressão que sofrem não é nada comparada ao sofrimento da classe trabalhadora e dos pobres” Isso pode ser verdade, mas o que Lenin está discutindo aqui é que defender os direitos de todos os oprimidos é crucial, não só para lutar eficazmente contra a opressão, mas também é necessário preparar a classe trabalhadora para dirigir a sociedade no interesse de toda humanidade.

Como é que vamos hoje conciliar estes dois aspectos do marxismo: o papel dos revolucionários na auto-emancipação da classe trabalhadora e também como campeã de todos os oprimidos, não importa qual é a classe que está sendo afetada?

É fácil para nós a abraçar a causa das mulheres trabalhadoras que formam sindicatos, fazem greve e exigem seu direito à igualdade de remuneração. Essa luta é obvia à qual damos o nosso apoio incondicional. Mas a verdade é que o mundo é muito mais complicado, e alguns dos mais importantes movimentos contra a opressão se levantaram como movimentos não-baseados em classe, incluindo o feminismo e a luta pela igualdade das mulheres.

A evidencia mostra, em particular, que os movimentos dos anos 1960 e inicio dos anos 1970 – incluindo o movimento de libertação das mulheres, o movimento de libertação gay, os direitos civis e movimentos Black Power – eram poderosas lutas sociais que tiveram um efeito transformador, tanto na consciência das massas em geral e especialmente, na consciência da classe trabalhadora.

Os avanços do movimento de libertação das mulheres na década de 1960 tiveram um efeito duradouro na sociedade, e é exatamente por isso, que a direita passou os últimos 40 anos atacando todas as conquistas do movimenta das mulheres. É por isso que o feminismo em si tem estado sob ataque, em um esforço para caricaturar feministas como um grupo de amargas, egoístas, mulheres sem humor que ou não gostam de homens ou não são atraentes para ele, desta forma, passam a vida mergulhada em uma mentalidade de vítima, imaginando o sexismo em todos os lugares que passam.

Portanto, neste ponto da história, quando o feminismo tem estado sob ataque sustentado nos últimos 40 anos ímpares, sem fim à vista, a última coisa que nós devemos sentir compelidos a fazer é atacar o feminismo. Pelo contrário, temos que defender o feminismo em princípio, como uma defesa da libertação das mulheres e da oposição ao sexismo. Qual é a definição do feminismo? A defesa dos direitos das mulheres com base na igualdade política, social e econômica para os homens.

Parte 4

Infelizmente, nem todos os marxistas em todos os momentos compreenderam a necessidade de defender o feminismo e apreciaram as enormes conquistas do movimento feminista. Mesmo depois da era dos anos 1960 não houve mudanças. Isso inclui alguns em nossa própria tradição, a tradição Internacional Socialista, que, eu diria caiu em uma abordagem reducionista para a libertação das mulheres há algumas décadas atrás. E eu também argumento que nossa organização tem suportado a marca deste posicionamento em alguns pontos teóricos fundamentais, que eu quero resumir brevemente.

Em primeiro lugar, o que é reducionismo? Em sua forma mais pura, o reducionismo é a noção de que a luta de classes vai resolver o problema do sexismo por conta própria, revelando verdadeiros interesses de classe, em oposição à falsa consciência. Portanto, esta abordagem “reduz” questões de opressão a uma questão de classe. Também é geralmente acompanhada de uma reiteração de que os interesses de classe tem por objetivo acabar com a opressão das mulheres – sem abordar a questão mais difícil: Como é que vamos enfrentar o sexismo dentro da classe trabalhadora?

Agora, obviamente, esta tradição não considerou que o movimento feminista acertadamente desde os anos 1960 tomou a libertação das mulheres como questão central para a luta pelo socialismo.

No entanto, eu diria que houve uma adaptação no sentido de reducionismo e uma tendência a minimizar a opressão vivida pelas mulheres da classe trabalhadora. Essa abordagem levou a uma visão distorcida que questionou se os homens da classe trabalhadora realmente se beneficiam da opressão sofrida pelas mulheres. Eu também quero deixar claro aqui que não estou simplesmente apontando-dedo, uma vez que, em menor grau, nós na ISO adotamos uma abordagem similar.

Houve um debate em meados dos anos 1980 em uma série de artigos na Revista Internacional socialismo envolvendo alguns dos principais líderes do Partido Socialista dos Trabalhadores na Grã-Bretanha, que começaram a se debruçar sobre as questões que acabei de descrever. Eu não posso resumir todo o debate, mas posso apenas destacar alguns dos pontos-chave.

Vamos começar com um artigo de 1984 intitulado “Libertação das Mulheres e o socialismo revolucionário” por Chris Harman, um dos principais membros do SWP (Quero deixar claro que Chris Harman foi um dos maiores marxistas de seu tempo, que desempenharam um papel fundamental na formação de muitos de nós na ISO, por isso a questão que estou prestes a apresentar representa a contraposição ao posicionamento reducionista e tem grande significado na contribuição ao marxismo). No artigo, Harman argumenta:

Na verdade, no entanto, os benefícios dos homens da classe trabalhadora começam a partir da opressão das mulheres … Os benefícios têm origem na questão do trabalho doméstico. A problemática se revela a medida em que os homens da classe trabalhadora beneficiam-se do trabalho não remunerado das mulheres.

O que a classe trabalhadora do sexo masculino ganha diretamente em termos de trabalho de sua esposa pode ser grosseiramente medido. É a quantidade de trabalho que teria de exercer se tivesse que limpar e cozinhar para si mesmo. Isso não poderia ser mais do que uma ou duas horas por dia – um fardo para uma mulher que tem de fazer este trabalho para duas pessoas após trabalho remunerado de um dia, o que significa um enorme ganho para o trabalhador do sexo masculino.

Vale a pena notar que os comentários de Harman acima foram descrevendo os benefícios “marginais” que os homens sem filhos experimentaram adicionando a carga das mulheres dentro do agregado familiar.

Outro socialista britânico, John Molyneux, respondeu ao argumento de Harman, dizendo que os benefícios do sexo masculino são mais do que marginal: “Harman nos diz que este é “um fardo para a mulher que tem de fazer este trabalho para duas pessoas após um dia de trabalho remunerado, [e questiona], ‘então por que não é um benefício importante para o trabalhador não ter que fazê-lo? ”

Os argumentos de Molyneux provocaram uma resposta afiada de membros do Comité Central SWP Lindsey German e Sheila McGregor, e Molyneux responderam igualmente. Não terminou o debate até 1986. Lindsey German fez questão de argumentar, “As diferenças e vantagens que os homens têm não são de forma maciça; Nem são mesmo os benefícios substanciais, afirma John. Portanto, não há base material para os homens serem ‘comprados’ por essas vantagens. ”

Sheila McGregor asseverou que, Molyneux estava no caminho para abandonar o marxismo inteiramente: “Se quisermos ter uma teoria adequada da opressão das mulheres e como combatê-la, temos de nos basear na tradição marxista. A negação de que homens da classe trabalhadora se beneficiam de opressão das mulheres é o primeiro passo para se afastar dessa tradição.”

Ao longo do caminho, neste debate, a posição que Harman mudou – que os benefícios do sexo masculino eram “marginais” – para a alegação de que os homens da classe trabalhadora não se beneficiam da opressão das mulheres em tudo – junto com a alegação de que mesmo as vantagens que os homens têm sobre as mulheres dentro da família não são “substanciais”.

Parte 5

Enquanto é verdade que o capital é o principal beneficiário da opressão das mulheres na família e de todo o lixo sexista usado para reforçar que as mulheres são inferiores na sociedade – e o trabalho delas também – eu também gostaria de dizer que ao levantar o argumento desta forma, parece que ocorre uma tendência de tentar minimizar a gravidade da opressão das mulheres e da necessidade de combatê-la dentro da classe trabalhadora, afinal os homens que tem consciência de classe se interessam na libertação das mulheres.

No caso em questão, comparando os argumentos de SWP com os comentários que o próprio Lênin fez em 1920 em diálogos com a revolucionária alemã Clara Zetkin, alguns anos após a Revolução Russa, quando ele falou em detalhes sobre os obstáculos para alcançar a libertação das mulheres:

Poderia haver qualquer prova mais palpável (da contínua opressão da mulher) do que a visão comum de um homem que calmamente assiste uma mulher se vestir para sair com trivialidade, monotonia e forte consumo de força e tempo de trabalho com o trabalho doméstico… E ele assiste o encolhimento de seu espírito, sua mente cansada, seu cansaço físico e a sua falta de folga? Muitos maridos, e nem mesmo os proletários, pensam no quanto eles poderiam aliviar o fardo e a preocupação de suas esposas, ou mesmo resolver essas questões definitivamente, se eles dessem uma mão no ‘trabalho feminino’. Mas não, isso iria contra o ‘privilégio e a dignidade do marido’ e por isso ele exige ter descanso e conforto.

Nós devemos extirpar o ponto de vista dos antigos donos de escravos, tanto do partido quanto entre as massas. Isto é uma de nossas tarefas políticas, uma tarefa que é urgente e necessária como a formação de uma equipe composta por companheir@s, homens e mulheres, com formação teórica e prática completa para o trabalho do partido com as mulheres trabalhadoras.

O Partido Bolchevique, tanto antes quanto depois da revolução gastou recursos para estender a formação para as mulheres trabalhadoras e camponesas, por meio do departamento de mulheres que ao mesmo tempo agia contra atitudes dos homens da classe trabalhadora.

Alexandra Kollontai, que era uma das principais lideranças do Partido Bolchevique e também uma de suas principais teóricas sobre a questão das mulheres, participou de um congresso em 1917 no qual ela falou que os homens da classe trabalhadora para que suportem a divisão igualitária das tarefas domésticas. Esta foi a fala dela:

O operário consciente deve entender que o valor do trabalho masculino é dependente do valor do trabalho feminino e que, com a ameaça de substituir o trabalho do sexo masculino com trabalhadoras do sexo feminino, que recebem salários mais baixos, o capitalista pode colocar pressão sobre os salários dos homens. Apenas uma falta de compreensão pode levar um para ver esta questão como puramente uma “questão da mulher.”

Então eu poderia argumentar que hoje nossa ênfase deve ser de permanecer com a teoria e a prática dos bolcheviques, em que não devemos centrar nossas forças para minimizar o grau de opressão face a mulher – ou face a qualquer outro grupo – dentro da classe trabalhadora, mas devemos sim fazer um esforço sério em todas as frentes para combater as opressões.

Além disso, a verdade é que o feminismo é um amplo e multifacetado movimento, com muitas asas e diversas fundamentações teóricas. Pensando que existem formas formas mais burguesas de feminismo, precisamos derrubá-lo, e em seguida, acho que o nosso trabalho é feito intelectualmente pela construção já que o feminismo burguês é um desserviço para a luta contra a opressão das mulheres. É importante ressaltar que existem debates importantes que tiveram lugar entre as feministas, mas que nós temos permanecido sem saber sobre o papel que podemos desempenhar no avanço da nossa compreensão tanto sobre a opressão das mulheres como sobre o marxismo.

Parte 6

Não estou aqui argumentando que devemos abraçar todas as asas do feminismo sem criticas ou igualmente. Há uma ala especial, de fato, que devemos tratar com hostilidade: o feminismo burguês, ou de classe média. A classe dominante e as mulheres de classe média enfrentam as opressões, mas isso não significa que ficaram encarregadas de seguir uma estratégia que irá abordar o sofrimento da grande maioria das mulheres, que são classe trabalhadora.

Pelo contrário, ascensão das mulheres na gestão empresarial e na arena eleitoral ao longo dos últimos 45 anos tem organizado uma forma de feminismo institucionalizado de classe média, como a Organização Nacional para as Mulheres e a Fundação Maioria Feminista, que assumidamente atende exclusivamente as necessidades da classe profissional e gerencial das mulheres.

Isto deu lugar nos anos 1990 para o que é chamado de “ feminismo de energia “. A autora feminista Naomi Wolf melhor resumiu essa nova abordagem em seu livro de 1994, “ Fire Whit Fire”. Nesse, cunhou o termo “ poder feminista” como uma alternativa para o que ela chamou de “ feminismo vitimista”, que segundo ela “ Inclui os velhos hábitos que sobraram da esquerda revolucionária dos anos 1960- uma mentalidade informante-forasteira, e uma aversão ao ‘ sistema’.”

Wolf admite que o capitalismo oprime muito para poucos “ mas argumentou, “ dinheiro suficiente coloca a mulher fora da opressão sexual “. Isso, em poucas palavras, era a mensagem de Wolf: As mulheres devem abraçar o capitalismo e obter tanto dinheiro como poder para sai como puderem “ Elas argumentou, degradando o marxismo, “ enquanto se aguarda a “revolução”, as mulheres estão em melhor situação com os meios de produção em suas próprias mãos..os negócios das mulheres podem ser as células de energia do século 21”. Na verdade, Wolf abraça as diferenças de classe entre as mulheres, argumentando:

“Não vão haver momentos em que a agressão da mulher amulher seja saudável, mesmo com o energizante resultado atingido por toda nossa ter participação plena na sociedade… Mulheres estão a gerir, criticando e incendeando outras mulheres, e @s empregad@s destas mulheres, por vezes, compreensivelmente, as odeiam”

Uma feminista socialista não deve sentir qualquer escrúpulo para abraçar o feminismo de energia ou qualquer outra marca de feminismo de classe média. O feminismo burguês não é nada novo, e a abordagem dos bolcheviques para nós é instrutivos até hoje. Mais uma vez, Alexandra Kollontai definiu uma abordagem que se aplica a situação de hoje. Em um panfleto de 1909 intitulado “A base social da questão da mulher”, ela soletrou porque não poderia haver aliança entre as mulheres de classe trabalhadora e as mulheres da classe dominante, apesar dos aspectos de opressão que compartilham:

“O mundo das mulheres está dividido, assim como é o mundo dos homens, em dois campos: os interesses e aspirações de um próximo a burguesia, enquanto o outro grupo tem ligações estreitas com o proletariado e seus pedidos de libertação que englobam uma solução completa para a questão da mulher. Assim, embora ambos os campos seguem o slogan geral da “libertação das mulheres”, seus objetivos e interesses são diferentes. Cada um dos grupos inconscientemente partem de seus interesses e aspirações de sua própria classe, o que dá uma coloração classe específica aos objetivos e tarefas que cria por si …

Embora as demandas das feministas das duas classes aparentem ser radicais, não se deve perder de vista o fato de que as feministas não podem, devido à sua posição de classe, lutar pela transformação fundamental da sociedade, sem a qual a libertação das mulheres não será completa.

Há uma segunda linha do feminismo que os marxistas e as feministas socialistas devem continuar a rejeitar completamente, embora não tenha se destacado desde os anos 1970: separatismo, que insiste que todos os homens da classe trabalhadora compartilham do patriarcado com todos os homens da classe dominante que oprime as mulheres.

Em contraste com o uso atual do termo patriarcado, que apenas descreve um sistema de sexismo, e separatismo, foi dada primazia para a opressão das mulheres sobre todas as outras formas de opressão, incluindo o racismo.

Por exemplo, a análise de estupro por Susan Brownmiller em seu livro de 1975 ‘Contra a nossa vontade: homens, mulheres e estupro” chegou a conclusões abertamente racistas em sua avaliação do linchamento de Emmett Till que ocorreu em 1955. O adolescente de 14 anos chamado Till, visitando a família em Jim Crow Mississippi naquele verão, haveria cometido o “crime” de assobiar para uma mulher branca casada chamada Carolyn Bryant, como uma brincadeira de adolescente. Ele foi torturado e baleado, e depois deu corpo foi jogado no rio Tallahatchie.

Apesar do linchamento de Till, Susan Brownmiller descreveu Till e seu assassino como se eles tivessem o mesmo poder, usando uma reivindicação abertamente racista: “Raramente tem-se um único caso exposto de forma tão clara como esse que mostra o conflito do grupo masculino quando se trata do contato com mulheres… Em termos concretos, o contato com todas as mulheres brancas estava sendo examinada.”

Outros linhas do feminismo têm um registo misto. A teoria da dualidade dos sistemas foi adotada por algumas feministas socialistas que tentaram combinar uma análise do capitalismo e do patriarcado, mas foi em grande parte incapaz de superar a contradição inerente na tentativa de combater essas duas estruturas paralelas. Ela requer uma luta que une homens e mulheres trabalhadores, numa luta comum contra o inimigo comum no capitalismo, enquanto o outro exige que as mulheres de todas as classes a se unir contra o inimigo comum no patriarcado – o que em si é composta por homens de todas as classes.

O feminismo da terceira onda na década de 1990 apresenta uma teoria que coloca o patriarcado no centro da discussão, em um esforço consciente para dar igual prioridade às lutas contra o racismo e pelos direitos LGBT, o que foi um enorme passo a frente. Mas, ao mesmo tempo, as feministas da terceira onda caíram na armadilha pós-moderna do individualismo que gera um recuo da luta, priorizando a mudança de estilo de vida e da linguagem sobre a construção do tipo de movimentos que poderiam desafiar o sistema.

(A tradução do texto foi realizada de forma coletiva pelas administradoras da página Feminismo Sem Demagogia)

Feminismo Revolucionário da Esquerda Marxista

A luta da mulher proletária por libertação não pode ser similar a luta que as mulheres burguesas travam contra homens da sua classe, pelo contrário deve ser uma luta conjunta com os homens de sua classe contra toda classe dos capitalistas. Ela não precisa lutar contra os homens da sua classe para romper as barreiras que foram levantadas contra sua participação na livre competição do mercado de trabalho… Seu objetivo final não é livre competição com o homens, mas a conquista do rumo político do proletariado. A mulher proletária luta punho a punho com o homem de sua classe contra a sociedade capitalista. (Zetkin, apud Foner, 1984: 77).

Muita gente vem me perguntando o que é este tal de Feminismo Revolucionário da Esquerda Marxista, bom vamos tentar esclarecer então:

A libertação da mulher tem varias formas de ser interpretada, por exemplo, temos as feministas da linha das sufragistas, movimento que emergiu nos países capitalistas avançados durante os anos 1960 e 1970 e parte da visão de que os homens sempre oprimiram as mulheres e que a constituição biológica e psíquica dos homens os leva a tratar as mulheres como inferiores.  Partindo desta conclusão, estas feministas crêem que a solução para libertação das mulheres é destruir o patriarcalismo, e somente ele, e para isso é necessário as mulheres lutarem completamente separadas dos homens.

Muitas feministas socialistas a principio aderiram esta idéia, mas com o surgimento do feminismo radical, apoiado na total separação entre mulheres e homens, as socialistas resolveram ir para dentro dos partidos socialistas e/ou comunistas, a fim de buscarem o tipo de luta que acreditavam.

Que luta é esta que as Feministas Socialistas acreditavam?

As feministas socialistas seguem uma linha de idéias anterior as sufragistas, a linha do Movimento das Mulheres Trabalhadoras. A idéia de libertação da mulher é muito, mas muito anterior as Sufragistas. Em 1848 Marx e Engels já analisavam a condição da mulher, e falavam sobre a necessidade de libertação da mesma, em seus escritos datados desta época eles demonstraram que a opressão da mulher não surge da cabeça dos homens, mas sim do desenvolvimento da propriedade privada e em decorrência dela, a urgência da formação da sociedade de classes. Para Marx e Engels, a luta pela emancipação das mulheres é inseparável da luta pelo fim da sociedade de classes, isto é, da luta pelo socialismo.

No seu primeiro papel dentro da sociedade de classes a mulher é totalmente dependente do marido, cuidadora da família e do lar. Mas, além da urgência da formação da sociedade de classes para assegurar a propriedade privada surge também sistemas econômicos voltados também para esta finalidade, o modelo mais aperfeiçoado destes sistemas que nasceram para assegura o privilégio de poucos, os poucos que eram detentores das propriedades privadas de meio de produção, é o capitalismo.

O capitalismo trouxe as mulheres de volta a produção, trabalhando em fábricas. Mas o mesmo machismo que nasce com a propriedade privada de meios de produção, que delega a mulher os cuidados do lar e papel de reprodutora de filhos dos homens com objetivo de ser herdeiro dos seus bens, aperfeiçoa esta opressão, também para as mulheres burguesas, que neste ponto mantiveram se estacionadas na forma opressiva anterior, mas principalmente para as mulheres pobres que passam de parideira de herdeiros, para parideira de exercito de reserva de mão de obra das empresas da classe dominante do meios de produção, acumula se sobre ela todas as funções antes impostas aliadas a sobrecarga do trabalho nas fábricas para ajudar a compor a renda do marido que já não era suficiente.

Para o capitalismo o machismo é muito vantajoso, esta inferiorização da mulher que nasce na surge na propriedade privada é absorvido pelo capitalismo para lucrar e manter – se. A mulher é um dos pilares significativamente importante para sustentação do capitalismo. Do ponto de vista da classe dominante é muito vantajoso pagar os homens salários muitos maiores do que para mulheres, obrigando as a abdicar da vida profissional para tornar aos afazeres do lar, assim as mulheres permanecem, gratuitamente, trabalhando para que os homens fiquem em condições de irem ao seu trabalho e garante que os seus filhos sejam criados por elas para fazer o mesmo. Suponhamos que houvesse a proposta de que um dois ficaria em casa para criar os filhos e afazeres do lar, quem teria maior condições de manter a casa financeira? Obviamente o homem que sempre este na base do privilégio deste sistema, logo nunca foi uma escolha para a mulher deixar estas funções e investir em sua carreira no mercado de trabalho formal.

Porém, dentro das contradições do capitalismo, temos que a ida das mulheres para o mercado de trabalho formal alavancou uma igualdade entre homens e mulheres, a de classe, a partir deste momento ambos tornam se integrantes da classe trabalhadora, ambos sentem na pele uma opressão em comum advinda da exploração dos capitalistas que mantém suas riquezas e lucros em cima dos salários baixos, e lucram mais ainda em cima da dupla opressão da mulher que ainda é vitima do machismo.

As feministas da linhagem das sufragistas entendem que a opressão machistas é superior a divisão da sociedade de classes, lutam por mudanças por dentro do sistema capitalista o que beneficia apenas uma parcela das mulheres em detrimento de uma grande maioria. Este movimento de libertação das mulheres sempre esteve dominado por mulheres da “nova classe média”, mulheres burguesas que conseguiram algum tipo de emancipação, enquanto as mulheres trabalhadoras exercendo subempregos eram deixados no esquecimento. Como disse Alexandra Kollontai:

“O objetivo delas é consquistar as mesmas vantagens, o mesmo poder, os mesmos direitos dentro da sociedade capitalista, que hoje possuem seus maridos, pais e irmãos. Qual é o objetivo das mulheres trabalhadoras? Seu objetivo é todos os privilégios derivados de nascimento ou riqueza”.

Mas estas mulheres, do proletariado, já haviam mostrado sua força e disposição de luta muito antes do feminismo configurar se desta forma.

A Revolução Bolchevique de 1917 iniciou se com as mulheres trabalhadoras que saíram das fábricas e ganharam as ruas em protesto contra miséria que estavam vivendo na Rússia, foram elas que iniciaram a Revolução que resultou na derrubada do Czarismo e instauração do Estado Socialista, a União Soviética. O Novo Estado Socialista por sua vez produziu uma igualdade como nunca antes se vira. Ás mulheres foi dado direito de divórcio, direito ao aborto e foi disponibilizado contracepção para todas. A educação dos filhos que antes era da família passou a ser responsabilidade da sociedade. Restaurantes, lavanderias e creches comunitárias deram as mulheres autonomia sobre suas próprias vidas. O stalinismo que assumiu o estado após a morte de Lênin, um dos lideres da revolução de Outubro, foi extremamente reacionário e puseram todas estas vitórias a perder, o que nos deixa claro que sem avançar o processo revolucionário se sem o socialismo, não é possível manter as vitórias conquistadas pelas mulheres.

As feministas da esquerda revolucionária Marxista entendem a luta contra o machismo como uma luta inseparável da luta de classes; Entendemos que o feminismo é uma parte importante da luta, pois impulsiona as demandas especificas das mulheres, mas é extremamente importante que homens entendam que a luta das mulheres deve ser apoiada por eles também, que homens e mulheres devem aliar se para a luta contra divisão de classes, contra esta (que é a verdadeira minoria) elite que se pôs ao topo do sistema econômico e se beneficia das discriminação das diferenças, inclusive fortalecendo dentro deste cenário a desqualificação da mulher  e o elogio a superioridade do homem com a clara intenção de nos separar, de nos por em guerra uns contra os outros sem notarmos que enquanto isso o inimigo real deita e rola sobre nossas costas cansadas e arqueadas do peso desta opressão que nos impuseram. Só os trabalhadores, homens e mulheres, atuando em conjunto num movimento revolucionário poderão destruir a sociedade de classes e com ela a opressão sobre as mulheres de forma definitiva.

Bibliografia

Harman, Chris. Marxismo e Feminismo http://www.marxists.org/portugues/harman/1979/marxismo/cap12.htm

Orr, Judith. Marxismo e Feminismo hoje.2011 https://docs.google.com/file/d/0B8_gvWjrwU3ZSGk1UlFNaGVIR1k/edit

Sobre a Misoginia Internalizada e o despertar para a irmandade de mulheres

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Estes dias eu estava passando por minha Time line, e dolorosamente li um post que dizia ” Não tente entender outras mulheres, mulheres não se entendem, elas se odeiam”. Nós temos acreditado nisso, por mais que você não perceba e que eu não tenha percebido, nós acreditamos nisso, e passamos a vida em guerra com outras mulheres. Sem saber por que.

Passei por algumas situações recentemente que me mostram o quanto isso é verdadeiro “mulheres odeiam outras mulheres”. O primeiro passo para libertação, é admitir que existe uma prisão e depois romper com as grades e sair de lá, certo? Ok. Admitimos que existe uma construção social, feita sobre as mulheres, onde a internalização da misoginia, faz com elas odeiem outras mulheres.

Eu vou contar algo para vocês, uma experiencia muito forte que tive na minha vida:
Sempre tive amigos homens, homossexuais e heterossexuais, eu os preferia as mulheres, e usava todo aquele discurso de reprodução do machismo para apoiar isso “Mulheres são falsas”, “Mulheres competem o tempo todo”, Mulheres não tem a mesma compressão que homens sobre mim” etc… Mas existia algo muito forte por trás disso, existia algo que você precisa entender, assim como eu entendi um dia também, existia um ódio por mim mesma, um ódio por ser mulher. Eu não queria ser mulher, eu tinha inveja dos meus amigos homens, eles tinham liberdade sexual, me estimulavam a ser livre, não usavam moralismo para me condenar, eu me lembro de contar aos meus amigos gays sobre minhas aventuras sexuais e ser ouvida com interesse, sem pudor, com comentários ácidos e algumas vezes eu ouvia coisas do tipo “Você é quase um homem” seguido de risos. Sim por que eu precisaria ser um para exercer uma vidam livre.

Eles eram amigos, eles defendiam-se entre si, e me defendiam, por que de repente eu era tão parte daquele grupo de homens que eles passaram a me ver como um deles, a desconstrução do sujeito social mulher estava sendo feita, para ser livre eu tinha que agir como homem, estar entre homens, viver como eles e quando eu saia daquela bolha, eu tinha que ignorar toda opressão que me esperava do lado de fora, todos os dedos na cara e toda repressão a minha liberdade, coisa pela qual eles não passavam.

Não, eu realmente não entendia que os homens tiveram uma vida inteira para construir estes laços de fraternidade e que as mulheres vem num curtíssimo espaço de tempo tentando desenvolver algo similar, sendo esmagadas todos os dias pela opressão que sentem. Não eu não entendia que eu poderia ser mulher, amar me como mulher, e ser livre. Não eu não entendia que aquele ódio que eu sentia por mim mesma, me afastava de outras mulheres, me impedia de desenvolver laços fortes com outras mulheres, de amá-las. Passei grande parte da minha vida convivendo com este ódio por mim mesma, com este ódio por ser mulher, e a todas as restrições que me impunham por ser mulher.

Até entender que não precisava ser assim…e entender que:

A melhor maneira de conseguir que uma odeie alguém de seu próprio gênero é fazer com que ela odeie a si mesma em primeiro lugar. E tem sido tão fácil fazer isso, toneladas de fotos na mídia que são Photoshopadas tornando mulheres hierarquicamente inferiores umas as outras; É facilmente feito com inúmeras funções e expectativas estabelecidas para as mulheres que são surreais e portanto, resultam em fracasso automático; É fácil fazer uma mulher odiar a si mesma se ela está constantemente vendo mulheres retratadas como sendo subordinadas aos homens e retratadas como uma existência apenas para agradar e servir. Uma vez que uma mulher se odeia, é fácil fazer com que ela odeie outras mulheres. Digo isto porque se uma mulher que se odeia vê uma mulher que aparentemente não odeia a si mesma, é fácil de projetar a negatividade internalizada sobre ela.

Uma situação interessante que passei e que demonstra muito bem isso foi quando comecei um namoro e o homem tinha uma ex-namorada que ainda estava ligada a ele sentimentalmente, e a mesma veio me falar sobre isso. Eu disse a ela que não disputaria homem nenhum com ela, que homens não são troféus, que eu conversaria com ele e pediria para ele resolver a situação, de forma a tratá-la com dignidade e respeito. Ela por sua vez me disse “Eu não acredito que ele vai escolher você, você é mais velha, você é gorda, eu malho, tenho um corpo lindo…”
Ela disse isso rangendo os dentes, ela me odiava, e ela nem me conhecia. Eu respondi a ela:

“Você não percebe, que você me rejeita, me odeia, por que eu não preciso estar nesta prisão estética que você se mantém, com objetivo de ter aceitação dos homens, eu sou o que sou, e me amo do jeito que sou, eu me acho linda, e se alguém me achar linda também, ok, se não me achar, eu me sinto assim, linda, e só isso importa. Você esta chateada por que se esforça tanto para estar dentro deste padrão estético, e agora se vê preterida, se vê perdendo uma disputa pelo troféu que você elegeu, mas este troféu só existe para você, para mim não, e como eu te disse, não vou disputar com você”.

Meu choque de realidade veio com minha entrada no movimento feminista, a verdade veio como turbilhão, eu me sentia estapeada cada vez que percebia como estava jogando contra mim mesmo. Como eu fugia para o mundo dos homens a fim de esconder me da misoginia internalizada de outras mulheres, fortalecendo assim a minha misoginia internalizada.

O que eu pretendo com este texto é que você mulher, identifique também sua misoginia internalizada, admita que ela exista, e comece a desconstruir completamente, por que se existe algo que impede a luta de ser efetivada, são as desavenças e competições que estão ativas e destrutivas dentro da nossa luta. Enquanto perdemos tempo combatendo nossas irmãs, caçando nossas irmãs, destruindo e impedindo as de seguir, atravancamos nosso caminho para equidade.

Gaslight e a naturalização da mulher como descontrolada emocionalmente

Existe uma naturalização de que a mulher é exagerada, emocional demais, e é normal a gente ver as próprias mulheres aceitando estas características como próprias delas, e esta aceitação tácita destas características é tudo que o machismo precisa para violentá-la sem que ela consiga entender o que esta acontecendo, e ainda de brinde para o machista, culpar-se, por que afinal, as mulheres são assim mesmo, né? Exageradas.

– Você é tão sensível!
– Você é tão emocional!
– Você está sempre na defensiva!
– Você está exagerando!
– Acalme-se!
– Relaxe!
– Pare você está pirando!
– Você está louca!
– Eu estava apenas brincando, você não tem um senso de humor?
– Você é tão dramática.
– Você é tão estúpida!
– Ninguém vai querer você!

Soa familiar?

Se você é mulher, provavelmente seu companheiro já fez isso, ou faz. A probabilidade de a mulher ser a vitima deste tipo de violência, que chama se GASLIGHT, é infinitamente maior para mulher devido ao sexismo e machismo, que trata a mulher com desqualificação, inferiorização e descrédito. Basta notar que, é divulgado massivamente que os homens são racionais e as mulheres emocionais, mas não dizem que as mulheres têm uma inteligência emocional, trata se de uma desqualificação, o que quer dizer se com isso é que elas são descontroladas emocionalmente, ou seja, os homens são superiores, eles devem ter crédito e as mulheres não.

Este é um tipo de manipulação emocional que alimenta uma verdadeira epidemia no mundo, uma epidemia que define as mulheres como loucas e irracionais, excessivamente sensíveis, desequilibradas… Esta epidemia ajuda a alimentar a idéia de que as mulheres diante de qualquer menor provocação perdem o controle de suas emoções, e isto é MENTIRA.

Os homens têm usado este tipo de manipulação emocional, embasada no machismo, para manterem se privilegiados nos relacionamentos, assim eles podem errar a vontade, trair acordos, fazer piadas depreciativas da companheira, humilhar, etc. que no final das contas, o discurso será sempre o mesmo: “Você esta exagerando, eu estava apenas brincando…” E a mulher pensa “Realmente, acho que estou exagerando” e fica ali sendo ferida, esmagada, tendo a autoestima destruída dia após dia, sem forças para reagir, por que entende se culpadas das situações. Às vezes, é tão convencida disso, que a agredida, é quem pede desculpas ao agressor, sentindo se aliviada por ele ter perdoado. O homem assume um papel de Deus sádico na vida da mulher, dispondo dela como bem entender.

Um exemplo fácil de ser encontrado é quando o homem usa alguma característica física da mulher, e faz comentários depreciativos, como piadas a respeito do peso dela, para logo em seguida, quando a mesma reage, dizer a ela que ela esta exagerando e que ele estava apenas brincando.

O gaslight pode ser algo muito sutil, tão simples como alguém sorrindo e dizendo algo como: “Você é tão sensível”. Tal comentário pode parecer inócuo o suficiente, mas, naquele momento, o orador está fazendo um julgamento sobre como alguém deve se sentir. A desqualificação das percepções e sentimentos da outra pessoa é uma violência emocional.

É muito mais fácil manipular emocionalmente uma pessoa que tem sido condicionada pela nossa sociedade a aceitá-la. Provavelmente algumas mulheres pensarão que por serem mulheres empoderadas, fortes, independentes… Não serão alvo deste tipo de violência, é importante dizer que todas estamos à mercê disso, por que é muito difícil diagnosticar o quadro, não esperamos que a pessoa que amamos, escolhemos para viver ao nosso lado e dividir a vida, nos trate desta forma, e por isso seguimos desculpando e aceitando a situação, quando não nos culpamos pela mesma.

O GASLIGHT rouba da mulher sua arma mais poderosa, ele rouba sua voz. Notem que muitas vezes ao fazermos cobranças aos nossos companheiros, namorados, maridos… Nós tentamos fazer de uma forma meiga, calma, quase como se nos desculpássemos por chamar atenção deles sobre algo que nos incomoda, e desta forma as mulheres vão tornando-se seres passivos, seres não assertivos, não combativos, presas fáceis para todos os tipos de violência machista. E é com este tipo de desqualificação da sanidade da mulher que o machismo também desconstrói a possibilidade de independência delas, afinal se são tão vulneráveis emocionalmente, como poderão alçar cargos elevados dentro de empresas, ou grandes responsabilidade, postos de liderança, não é mesmo? É muito valioso para manutenção dos privilégios dos homens tratarem as mulheres como desequilibradas, naturalizando estas características como inerente a elas.

O homem que faz isso é machista e covarde. O homem que faz isso, não faz de maneira não intencional, ele sabe que esta ferindo a companheira e a cada dia é mais complicado pedir aos homens para que observem suas atitudes, para que parem de praticar violências machistas, pois grande parte da população masculina esta comprometida em defender seus privilégios, mas esperamos que este tipo de leitura, além de esclarecer as mulheres para que possam se defender, também conscientize os homens.

A piada do Estupro

Não existe piada de estupro,o que existe é apologia e naturalização de um crime.
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TW: estupro

A piada do estupro é uma mulher sair de seu local de trabalho tarde da noite, caminhar por ruas mal iluminadas, sem a presença de nenhum aparato de proteção, seguir com medo, apressada até um ponto de ônibus…

A piada do estupro é que o ponto de ônibus fica longe demais e mesmo a passos largos, ela não consegue afastar se da imagem que se projeta atrás dela, ela corre, ele corre, ela não aguenta mais correr, ela caí sente os joelhos, as palmas das mãos que estão feridos, ela sente dor, ela olha para trás de si mesma, ele a observa com um sorriso nos lábios.

A piada do estupro é que ela sente horror, ela sente medo, seu corpo treme tanto que ela perde o controle de si mesma, aquele sorriso entre muitas traduções, diz a ela que ele venceu tal qual um animal corre atrás de sua presa, domina sua presa e devora sua presa, aquele sorriso diz a ela que o jogo terminou e ela perdeu e será punida pelo vencedor.

A piada do estupro, é que aquela mulher tira forças não sabe de onde, e resiste, e grita, mas ninguém a ouve, ninguém vem em seu socorro.

A piada do estupro é que para calar a mulher ele a espanca, com ódio, ele a espanca, seu rosto sangra, escorre vermelho pela face, ela pensa que se ele foi capaz de feri-la daquela forma, ele terá coragem de mata-la.

A piada do estupro é que ela vê sua roupa senda rasgada, ela é invadida, violentada, ela sente dor, ela está apavorada, ela só pensa em sair dali, em escapar daquela violência, ela não consegue reagir mais, ele vai embora, e a deixa ali sozinha, sangrando, na rua silenciosa e vazia.

A piada do estupro é que ela tira forças de onde nem sabe que vem, caminha o resto do trajeto e não sabe como fará para chegar em casa, pois sente se suja suas roupas rasgadas, machadas de sangue, desabada emocionalmente, desorientada…

A piada do estupro é que ela liga para a policia, e espera, espera, espera por horas até que atendam seu chamado e quando chegam até ela, são homens fardados, eles a olham com a mesma cara de quem ri de uma piada de estupro, no olha deles há julgamento prévio, há condenação.

A piada do estupro é que chegando a delegacia ela fica exposta, sendo observada por outros homens que fazem a mesma coisa;

A piada do estupro é que ela é atendida por um delegado que faz mil questionamentos a ela, como se andar sozinha por uma rua escura na volta de seu local de trabalho fosse proposital, como se a roupa que ela vestia justificasse ser atacada, como se a vida que ela leva fosse o motivo, como se qualquer coisa que ela tivesse dito ou feito em sua vida pregressa validasse uma agressão como a que ela sofreu.

A piada do estupro é que existem milhares de casos como este arquivado, simplesmente por não conseguirem identificar o estuprador, simplesmente por que não se esforçam para fazê-lo, simplesmente por que a culpa do crime nunca é do homem que estuprou, mas da mulher que foi vitima do estupro.

Quando você ri de uma piada de estupro, está rindo de todas estas situações. Você se sente ser humano rindo, validando e naturalizando toda esta situação de violência?

Por que não votar em Dilma?

Por que não votamos em Dilma, nem no primeiro e nem no segundo turno?

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Toda eleição em que se evidencia pelas pesquisas que haverá um segundo turno, e neste segundo turno haverá disputa entre candidates do Partido dos Trabalhadores e de algum outro partido que declaradamente cumpre uma agenda neoliberal, surgem os defensores de que votar contra a direita é votar no PT. Usam uma falsa simetria do menos pior e a ideologia do voto útil, e acusam de pelegagem quem não o fizer, dizendo que é “para evitar a volta da direita”.

Primeiro gostaríamos de deixar claro que somos totalmente contra a eleição de qualquer candidate que seja da direita, que cumpra uma agenda neoliberal ou que mesmo que não declare se da direita tenha o compromisso com uma agenda neoliberal e conservadora, de ataque às minorias e a classe trabalhadora. Neste contexto afirmamos também que não basta ser mulher, negre, ou pertencente a qualquer minoria para que seja um governo que nos represente.

Dito isso, gostaríamos de dar nosso parecer sobre esta polarização esquerda x direita nas eleições brasileiras: à esquerda e  direita são termos relativos, mas em geral a direita representa a grande burguesia. Podemos notar pelas políticas aplicadas no decorrer de seu mandato que Dilma não faz um governo priorizando xs trabalhadorxs, como deveria ser no caso de um partido de esquerda. Candidates que poderão estar no segundo turno, sejam Dilma, Aécio ou Marina, são farinha do mesmo saco, pois todes cumprem uma agenda neoliberal, seja de forma declarada ou, como Dilma, de forma mascarada para manter junto de si o apoio da classe trabalhadora que a elege.

Daí vocês vão nos perguntar “Como assim Dilma cumpre uma agenda neoliberal?” E dirão que Dilma fez isso e fez aquilo para o povo trabalhador. Pois bem, podemos nos lembrar de que na época de FHC, com as benesses do recém-criado plano Real, a inflação estabilizou, o poder de compra dos brasileiros aumentou, algo muito marcante na época, a carne de frango ficou tão barata, mas tão barata, que famílias que antes nunca puderam alimentar-se com a carne a semana toda , agora poderiam… Isso não fez do governo FHC um governo de esquerda, apesar de ele mesmo declarar-se como esquerda. É baseado em outras atitudes que analisamos o quão seu governo era de direita, ou seja, existia e governava para grande burguesia. Por que com Dilma e o PT tem que ser diferente? Por que analisam algumas políticas públicas que aparentemente beneficiam as classes baixas, e não se contabiliza que, em contrapartida, existe muito mais dinheiro escoando para o bolso dos ricos do que em investimento para melhoria da vida da classe trabalhadora?

É bom lembrar que muitas vezes nos iludimos em relação ao PT devido a seu histórico. Apesar de a presença em greves, construção pela base e formulação de reivindicações para xs trabalhadorxs tenha sido importante na história brasileira, devemos nos focar agora no que de fato esse partido faz no governo hoje (a discussão sobre a degeneração do PT pode ficar para outro momento).

Vamos aos fatos?

Já nos primeiros dias de seu governo, no ano de 2011, a Presidenta Dilma, com a tarefa de combater a inflação, usou de um receituário conhecido de governantes neoliberais, corte de orçamento federal. Aliás, diga-se passagem, foi o maior corte de orçamento de toda história do Brasil, nem mesmo o tão criticado pela esquerda FHC havia conseguido tamanha façanha. Antes de Dilma entrar com este feito, apenas outro governante havia batido recordes como ela: Lula, que em 2010, fez um corte orçamentário de 21,8 bilhões. A redução deste corte feito por Dilma foi sentido na educação, com redução de 3,1 bilhões e no programa de habitação “Minha casa, minha vida”, com redução de 5 bilhões.

No mesmo período de 2011 em que os deputados deram para si mesmos um reajuste salarial de 62% e a própria Dilma teve um reajuste de 132% em seu salário, Dilma impôs um arrocho ao salário mínimo, que foi reajustado abaixo da inflação, pela primeira vez desde 1997.

Em 2012, na semana que antecedia o carnaval, o governo federal, tendo Dilma como representante, anunciou o corte de nada menos que R$ 55 bilhões da peça orçamentária aprovada pelo Congresso para 2012, ou R$ 5 bilhões a mais que os cortes anunciados no início de 2011, e que eram até aquele momento recorde. As áreas mais atingidas, como vocês podem imaginar, foram os dois setores que mais atingem a população pobre e trabalhadora: saúde e educação. A saúde perdeu 5,5 bilhões previstos em seu orçamento. E mais: novamente o programa “Minha Casa, Minha Vida” foi atacado e viu desaparecer R$ 3,3 bilhões, e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pela reforma agrária perdeu, por sua vez, R$ 1,2 bilhão. Aliás, a Reforma Agrária avançou menos no governo Dilma do que no governo FHC, em uma entrevista à Carta Capital desse ano, Gilmar Mauro, dirigente do MST, ressalta isso: (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/201co-governo-dilma-nao-fez-nada-em-termos-de-reforma-agraria201d-6758.html).

No governo Dilma, o que o PT chamava de privatização passa a chamar-se “acordo com a iniciativa privada”, e desta forma vários serviços passam a ser terceirizados com o anúncio de um plano de privatizações no qual Dilma repassou ao setor privado concessões para a exploração de rodovias e ferrovias. Ah, e Dilma ainda usa um discurso idêntico ao do ex-presidente tucano, FHC, para justificar as privatizações, dizendo que o setor público seria sinônimo de ineficiência e incompetência, ao contrário da iniciativa privada. O nível de desconfiança deveria subir ao alerta máximo.

E neste caminho de privatizações disfarçadas de acordo com a iniciativa privada, Dilma privatizou os aeroportos e portos também. Além disso, Dilma leiloou as fontes de petróleo, aliás, uma quantidade de petróleo que, revertida em dinheiro, é maior que o PIB do país em 2012, fechado na cifra de US$ 2,3 trilhões de dólares. Os participantes deste leilão que segue a mesmíssima linha do governo tucano são empresas multinacionais, tais como Chevron e Shell. Onde mesmo que o T do Partido dos trabalhadores saiu beneficiado até agora mesmo?

Vamos falar de quem esta se beneficiando? Desde 2012, as montadoras de carros do país têm obtido redução e até isenção do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados). Somente com esta medida, o governo federal deixou de arrecadar mais de R$ 12,3 bilhões. As montadoras fazem remessas de lucros para fora do país contabilizadas US$ 3,5 bilhões em 2013 contra US$ 2,4 bilhões no ano anterior. Somente nos últimos quatro anos, mais de US$ 15,4 bilhões foram remetidos pelas montadoras ao exterior. E os trabalhadores? Nos últimos sete meses, o setor automotivo demitiu 7.300 trabalhadores, apesar de todo o incentivo recebido à custa do dinheiro público.

E os trabalhadores?

O primeiro elemento quando se pensam nos benefícios do governo Dilma são os programas sociais. Pois bem, claro que nós não vamos desconsiderar que a vida de pessoas melhorou e atingiu um nível mínimo de dignidade com programas como o Bolsa-Família. Ocorre que esse e outros programas podem existir na medida em que não ameaçam os lucros dos capitalistas. Na verdade, o estímulo ao consumo em regiões empobrecidas é vantajoso também para a burguesia. Nesse sentido, nenhum destes candidates vai acabar com esses programas, e de certo não é isso que os fará de esquerda. Outros compromissos com a classe trabalhadora, no entanto, Dilma não pode assumir:

Não houve sinalização da Presidenta em discutir e implementar a convenção 158 da Organização Internacional do trabalho que determina estabilidade no emprego aos trabalhadores.

Dilma afirmou ser contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução de salários. Esta medida geraria cerca de 2,5 milhões de empregos de acordo com o Dieese.

Em contra partida em maio de 2013, a indústria de transformação fechou 28.533 vagas a mais do que gerou em postos de trabalho, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Segundo dados da FIESP, dos 22 setores em que a indústria está dividida, 14 demitiram, 3 permaneceram estáveis e apenas 5 contrataram.

Uma política de esquerda e em beneficio aos trabalhadores aqui neste contexto seria impedir a remessa de lucros das empresas para fora do país e as demissões em empresas que tem isenção fiscal, mas para quê? Por que Dilma e PT iriam fazer uma politica para o T da sigla do partido quando são os burgueses que financiam sua candidatura? A campanha de Dilma já embolsou pouco mais de R$ 120 milhões segundo prestação de contas ao TSE. Só a dona da marca Friboi deu R$ 14,5 milhões para Dilma, mas ela não deu apenas para Dilma, deu também para Aécio. A dona da Friboi não faz diferenciação entre o partido de Dilma e o partido de Aécio por que ela sabe que independentemente de quem ganhe as eleições seus interesses estarão assegurados, mesmo que isso signifique, para o caso do PT, priorizar o patrão, não trabalhador. Mas não foi só a Friboi. A JBS (da marca Friboi), a Ambev e a empreiteira OAS respondem juntas por 65% das doações. As doações das três maiores beneficiaram principalmente a presidente Dilma Rousseff (PT), que disparou no ranking de arrecadação, dando claros sinais de que é a preferida da classe dominante, classe esta que o PT não deveria representar. É muito rabo preso com a burguesia para uma presidenta que diz governar para os trabalhadores e trabalhadoras do país.

Responda honestamente para si mesmo esta pergunta, pois sabemos que a esquerda governa para trabalhadores, e não para burguesia… As informações prestadas aqui parecem para você compatíveis com um programa de governo para a classe trabalhadora? Se não estão compatíveis (e não estão) desaparece esta falsa polarização entre esquerda x direita, não é mesmo? Logo não temos uma candidata que represente a classe trabalhadora no jogo das eleições e, portanto, não há pelegagem nenhuma em optar no primeiro turno por outres candidates que nos representem, ainda que não ganhem (e provavelmente não ganharão), e no segundo turno votar nulo.

E as trabalhadoras?

Sabemos que o machismo impõe às mulheres as responsabilidades pela criação dxs filhxs, por isso, a reivindicação por mais creches, é muito mais do que conseguir em uma instituição de ensino uma vaga para deixar xs filhxs, trata se de ter garantido parte do processo de emancipação da mulher, dando a ela condições de manter sua vida profissional tendo independência financeira e também a libertação da imposição machista de que o trabalho de educação dos filhos compete somente a ela. Mesmo as mulheres representando hoje cerca de 50% da força de trabalho, o não atendimento à demanda da educação infantil é o principal motivo para as mulheres deixarem seus empregos: menos de 2 a cada 10 crianças de 0 a 3 anos conseguem vagas. A falta de creches é um direito negado a criança e a mulher trabalhadora. Dilma prometeu milhares de creches e não cumpriu.

Não votamos em Dilma por que nem Dilma e nem seu partido estão comprometidos com um governo para classe trabalhadora. Votar em Dilma no segundo turno ou votar em Marina significa estar votando em pessoas comprometidas com a grande burguesia. Ainda que Marina diga que “não é nem de direita, nem de esquerda, muito pelo contrário”, ela tem sim um lado bem definido: o dos bancos, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e de tudo o que possa fazê-la ganhar. Ambas, Marina e Dilma são financiadas por empresas e empreiteiras, ambas são publicamente comprometidas com o setor religioso e conservadores da sociedade, ambas atacarão a classe trabalhadora quando houver crise econômica.

Por: Verinha Dias (Verinha Kollontai) e Mariana Luppi.

DEIXE A ESQUERDA LIVRE DE MACHISMO – Uma luta histórica

Por Denise Laizo

* Este texto faz parte do caderno de teses que está sendo produzido pelo Coletivo Feminismo Sem Demagogia, a partir do evento “Deixe a Esquerda Livre de Machismo, que aconteceu dia 26 de julho de 2014.

A existência de machismo nas organizações da esquerda é um fato dado. A questão colocada é poder compreender o porquê as palavras machismoesquerda, quando juntas, expressam uma grande contradição. Só assim poderemos fazer uma batalha contra essa praga e construir organizações coerentes com seu programa.

Primeiramente, é preciso evidenciar que estamos chamando de esquerda os grupos políticos que estão do lado das pessoas que sofrem exploração e opressões, sejam de classe, raça, gênero, identidade e orientação sexual etc. e, portanto, buscam uma transformação radical dessa sociedade. A palavra radical aqui não é usada por acaso, mas para falar daquilo que está na raiz do problema dessa sociedade, ou seja, da sua estrutura baseada na propriedade privada de produção e na sua divisão em classes.

Tendo em vista essa definição, fica evidente a contradição em se falar de uma esquerda machista. Porém, o machismo na esquerda não vem de hoje, este já possui uma história. Sim, infelizmente já podemos falar de história do machismo na esquerda! Mas essa mesma história nos conta o quanto as mulheres enfrentaram o machismo, se fizeram presentes e se tornaram um setor fundamental dentro da esquerda. Olhando por este ângulo, vamos contar a história de como as mulheres enfrentaram séculos de “mudez política” e se tornaram pessoas ativas no processo de transformação do mundo.

É óbvio que o machismo na esquerda reflete um contexto e uma época, mas também fica evidente que os avanços conquistados pela esquerda ocorrem em paralelo com os avanços que as mulheres obtiveram dentro do mundo da política e, mais especificamente, dentro da esquerda. O ponto de partida dessa história é a entrada e o aumento das mulheres no mercado de trabalho, ou seja, quando a outra metade da população passa a fazer parte da produção social. Sem esse setor da população, por seu número e sua representação, não é possível realizar uma revolução. Porém, isso só foi percebido com grande esforço.

Retrato do primeiro congresso da I Internacional, em 1864

A primeira grande dificuldade que as mulheres enfrentaram foi conseguir entrar nos espaços de militância. A I Internacional, fundada por Marx e Engels, em 1864, teve como uma de suas principais polêmicas o tema da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Marx, em 1866, coloca-se a favor das mulheres na seguinte resolução:

“Se seus efeitos imediatos (do trabalho) são terríveis e repugnantes, nem por isso ele deixa de contribuir, ao dar às mulheres, jovens e crianças de ambos os sexos uma participação importante no processo de produção fora do meio doméstico, na criação de novas bases econômicas, necessárias para uma forma mais elevada de família de relação entre os dois sexos.”

No entanto, muitos homens, militantes socialistas, entendiam que nem o trabalho fora de casa e nem a militância política eram lugares para as mulheres. Acreditavam que o fato de a mulher ocupar o mercado de trabalho era mais uma distorção do capitalismo, afinal consideravam que o seu lugar natural era o lar. Assim, dirigentes da I Internacional chegaram a afirmar:

“Em nome da liberdade de consciência, em nome da iniciativa individual, em nome da liberdade da mãe, devemos arrancar da fábrica, que a desmoraliza e a mata, essa mulher que sonhamos livre… a mulher tem por objetivo essencial o de ser mãe de família, ela deve permanecer no lar, o trabalho deve ser-lhe proibido.”

Este pensamento era muito parecido com o de Proudhon, um dos principais teóricos do anarquismo. Para Proudhon “lugar de mulher é no lar”, afinal ela deveria se restringir as suas funções, ou seja, procriar e cuidar da casa, e não ficar roubando o trabalho do homem.

“Ele chegou a propor que o marido tivesse direito de vida e de morte sobre sua mulher, em caso de desobediência ou falta de caráter, e demonstrava, mediante uma relação aritmética, a inferioridade do cérebro feminino em relação ao masculino.” (Toledo, Cecília)

Já o SPD (Partido Social-Democrata Alemão), fundado em 1875, principal partido socialista do período da I Internacional, demorou dezesseis anos para inserir em seu programa a necessidade da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. August Bebel foi um importante dirigente do período, e, desde o primeiro congresso do partido, lutou para que a igualdade de direitos para as mulheres fizesse parte do programa do SPD. Porém, Lasalle e seus seguidores se opunham ferrenhamente ao grupo de Bebel, afirmando que, com o estabelecimento do socialismo, seria possível proporcionar bons salários para os homens, os quais poderiam assumir o papel de provedor e sustentar toda família. Dessa forma, o papel da revolução para as mulheres seria o de lhes proporcionar o retorno ao seu habitat natural, ou seja, ao lar. Bebel foi derrotado neste debate com o argumento de que as mulheres não estavam preparadas para assumir os seus direitos.

Durante este primeiro período, podemos encontrar o erro mais medíocre que um revolucionário pode cometer. A explicação é simples! No capitalismo, um pequeno setor da população, os donos dos meios de produção, explora os trabalhadores, os quais trocam sua força de trabalho por dinheiro. O produto contém o valor de custo, que inclui o salário do trabalhador, já o valor restante após a venda do produto é aquilo que o capitalista vai embolsar como lucro. Dado que o valor dos meios de produção, ou seja, os materiais, as máquinas, a manutenção do espaço etc. é um capital constante, o que se pode mexer para conseguir mais ou menos lucro é o capital variável, isto é, o salário do trabalhador. Quanto mais baixos forem os salários pagos aos trabalhadores, mais lucro (trabalho não pago) o capitalista terá.

Pois bem, entendendo-se a lógica de funcionamento do capitalismo, é de se esperar que manter salários baixos é a busca desesperada de qualquer capitalista. Assim, a opressão, como o machismo, serve de mecanismo para levar os salários para baixo. As mulheres, as pessoas negras, os homossexuais, as pessoas trans* e travestis etc. compõe um imenso exército de reserva, que podem ser contratados a qualquer momento por salários mais baixos, por serem considerados mão de obra inferior. Claro que essa mão de obra não é inferior, mas sustenta-se ideologicamente que determinadas diferenças entre as pessoas devem ser vistas como inferioridade para que se possa colocar em desvantagem certa parte da população. No entanto, os setores oprimidos, quando utilizados pela burguesia, quando contratados por salários menores, nivelam por baixo o salário de toda a classe trabalhadora. Assim, o problema não são as mulheres, ou qualquer outro setor oprimido, mas a utilização da opressão enquanto mecanismo para aumentar a exploração. Por isso, o homem da classe trabalhadora, o homem militante da esquerda, quando sustenta o machismo, apenas contribui para fortalecer a sua própria exploração e o sistema capitalista.

Clara Zetkin discursa para a classe trabalhadora na década de 1930

Dando continuidade ao processo histórico, os anos se passaram e, após mais de uma década, a polêmica em relação às mulheres passou a ter como centro a questão sufragista. Os reformistas defendiam que apenas os homens deveriam ter direito ao voto, pois acreditavam que as mulheres tenderiam a votar em setores conservadores, como os ligados à Igreja Católica. Porém, nesse período já existiam mais mulheres de destaque dentro de organizações da esquerda, como Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo.

Clara Zetkin foi fundamental para a aprovação de uma campanha pelo sufrágio feminino, na II Internacional. Esta mesma militante também obteve êxito ao propor ao SPD, em 1896, a formação de organizações especiais de mulheres. Lembrando que, cinco anos antes, o mesmo partido havia finalmente aprovado o programa que exigia a igualdade de direitos para as mulheres e a abolição de todas as leis discriminatórias, ou seja, a mesma proposta que Bebel havia apresentado muitos anos antes. No entanto, esse período não foi nada fácil para as mulheres militarem, afinal, além de toda opressão dentro e fora dos espaços de militância, até 1908 as mulheres eram proibidas de se filiarem a grupos políticos.

Nessa passagem de um período para outro, podemos perceber como a maior participação de mulheres na militância que batalhavam por suas demandas e o avanço das concepções da esquerda caminharam juntos. É nesse momento que a esquerda divide-se entre reformistas e revolucionários. Os primeiros contentavam-se com reformas no sistema, o que, para eles, naturalmente levaria ao socialismo. Para tanto, não se preocupam em inserir as mulheres nesse processo, mas apenas em como atingir a superestrutura. Já os revolucionários marxistas entendiam que a opressão das mulheres era estruturante para o sistema capitalista e, portanto, as demandas das mulheres por igualdade era crucial para combater tal sistema. Além disso, apostavam em uma revolução realizada pelas massas, ou seja, pela classe trabalhadora e oprimida e boa parcela desse setor não poderia simplesmente ficar de fora.

Isso se evidenciou com o advento da Revolução Russa. A participação das mulheres nesse processo foi fundamental, afinal muitos homens estavam nas trincheiras da I Guerra Mundial, e para as mulheres da Rússia sobrou o fardo de sustentar o processo de exploração de seu país. Assim, a Revolução de Fevereiro, que abriu as portas para a derradeira Revolução de Outubro, partiu de uma manifestação de mulheres em Petrogrado. Essas mulheres reivindicavam a saída da Rússia da guerra e criticavam a situação de miséria que viviam. Nesse período, era tão evidente a importância da participação das mulheres que as organizações da esquerda as disputavam acirradamente. Inclusive cada uma dessas organizações tinham jornais especiais para esse público.

Após a revolução, a luta das mulheres se reverteu em conquistas. Assim, adquiriram direitos e benefícios de políticas públicas de uma só vez, como nunca ocorreu na história, nem antes e nem depois da revolução. Como direitos conquistaram:

Abolição das leis que colocavam a mulher em uma relação de desigualdade no casamento, como as leis sobre divórcio, os filhos e pensão alimentícia;
Abolição dos privilégios do homem em relação à propriedade;
Equiparação salarial, proteção legal no trabalho e seguro social;
Legalização do aborto, o qual deveria ser feito pelos hospitais públicos de forma gratuita;
O direito ao voto e de serem votadas.
Além disso, o governo soviético se preocupava com a liberação da mulher do trabalho doméstico. Na concepção de Lenin, o verdadeiro comunismo estava atrelado à verdadeira emancipação da mulher:

“A verdadeira emancipação da mulher, o verdadeiro comunismo, só começará onde e quando comece a luta das massas contra a pequena economia doméstica, ou melhor, onde comece a transformação em massa dessa pequena economia em grande economia socialista.”

Assim, nesse momento criaram-se refeitórios, creches e lavanderias públicas. Porém, não foi possível que essa nova vida da mulher se estabelecesse por completo. A dificuldade econômica e a guerra civil não permitiram que se criassem a quantidade de serviços públicos que eram necessários. Além disso, tratava-se de um país extremamente atrasado em relação aos aspectos morais e culturais, sendo muito difícil quebrar as resistências do preconceito.

Essas arcaicas ideias só poderiam mudar com a implementação de novas práticas, mas sua concretização não foi possível, pois o stalinismo enterrou as recentes conquistas das mulheres. O governo stalinista passa a fazer uma extensa propaganda a favor da família nos moldes burgueses. Assim, estimula-se que a mulher volte a assumir seu papel de mãe e dona do lar. Isso não se dá simplesmente por questões ideológicas, mas de fundo tem uma base material. Primeiramente, deve-se considerar que a situação econômica da União Soviética era bastante precária, e, como nos ensina Trotsky, “a verdadeira emancipação da mulher é impossível no campo da ‘miséria socializada’”.

Então, para não ficar tão evidente essa miséria, para não gerar descontentamentos ao usar os serviços públicos que se tornaram de péssima qualidade (como nas lavanderias públicas que as roupas saiam rasgadas ou eram roubadas), para não sentir falta de serviços que antes existiam (creches foram fechadas ou tiveram seu horário reduzido), as tarefas de subsistência e cuidados com as crianças voltaram a ser função das mulheres, e, assim, o Estado se viu livre desses compromissos. O que se passou aqui é o mesmo que acontece no capitalismo, para se manter privilégios de uma pequena parte da sociedade é necessário explorar ao máximo a outra parte. O trabalho doméstico realizado pela mulher tira do Estado a responsabilidade por esses serviços e, no caso da União Soviética, a burocracia se beneficiava enormemente dessa situação.

Dentro dessa mesma lógica, o aborto foi colocado na ilegalidade novamente. Faz parte do discurso em prol da família burguesa a supervalorização da ideia de que ser mãe não é um direito, mas um dever. Trotsky nos conta que Solz, membro do Supremo Tribunal Soviético, “justifica a proibição do aborto dizendo que a sociedade socialista não conhecendo o desemprego, ela, a mulher, não pode ter o direito de rejeitar ‘as alegrias da maternidade’”. E, então, Trotsky rebate dizendo que “eles esquecem visivelmente que o socialismo deveria eliminar as causas que levam a mulher ao aborto e não fazer intervir a polícia na sua vida íntima para lhe impor as ‘alegrias de ser mãe’”. De qualquer forma, o que vemos aí é, novamente, a desresponsabilização do Estado pela saúde física e mental da mulher, já que, ao tornar o aborto ilegal, o Estado não necessita mais garantir o procedimento em seus hospitais. Retomam-se as velhas ideias moralistas e abandonam-se as mulheres à própria sorte, em nome dos privilégios da burocracia.

Outro ataque importante às conquistas das mulheres foi tornar o divórcio cada vez mais difícil. O divórcio passou a se dar apenas mediante pagamento. Assim, podemos imaginar que, como qualquer sociedade fundada no ideário patriarcal, as mulheres por ganhar menos do que os homens, quando ganhavam, tinham menos possibilidades em escolher se divorciar. De qualquer forma, divorciar passa novamente a ser um privilégio de quem tem mais dinheiro. Dessa forma, impondo limites objetivos, impulsiona-se o retorno da economia familiar, enquanto se elimina a possibilidade da coletivização da educação, dos cuidados em saúde e do trabalho doméstico.

Tal retomada dos antigos valores foi tão brutal que outros imensos retrocessos foram impostos, como a volta da criminalização da prostituição e da homossexualidade. No entanto, sabe-se que, no caso da prostituição, esta cresce na mesma proporção que a pobreza e o abandono das mulheres. Novamente as mulheres são criminalizadas por sua própria marginalização.

Tudo isso traz muitos ensinamentos para as organizações da esquerda. Como o próprio Trotsky disse, “onde há privilegiados, há párias”. Isso é uma regra não apenas para o capitalismo, não apenas para o stalinismo, mas para qualquer espaço em que se mantenham os privilégios. Por isso, as organizações da esquerda não podem sustentar dentro de sua militância os privilégios dos grupos que já são privilegiados em nossa sociedade e/ou criar novos tipos de privilegiados.

Isso traz inevitavelmente distorções como pudemos observar com os conservadores da época de Marx, com os reformistas do período do sufragismo, ou com o stalinismo. A esquerda que reivindica para si a estratégia revolucionária não pode se parecer com nenhum dos tipos anteriores. A história já nos ensinou que qualquer alternativa anterior nos leva a caminhos bem diferentes de uma sociedade realmente igualitária. Privilégios sempre dividem!

Portanto, não desdenhemos as mulheres como os conservadores fizeram, não nos utilizemos do machismo para adquirir supostas vantagens para a luta como propunham os reformistas, não digamos que a batalha contra o machismo é coisa para realizar apenas quando as condições materiais forem totalmente favoráveis, como fizeram os stalinistas. É verdade que somos produtos do nosso contexto atual. No entanto, nos propomos a não sermos reprodutores deste atual contexto, mas sim transformá-lo completamente. Para tal, devemos começar sendo coerentes e, mesmo que seja difícil, ter atitudes condizentes com as transformações que pretendemos fazer.

Se for verdade que a sociedade futura contém elementos da sociedade passada, pelo menos os materialistas-dialéticos devem concordar que a sociedade atual já possui elementos da sociedade futura. E, no presente, o espaço que tem por obrigação e necessidade de produzir e reproduzir os novos elementos da sociedade futura é, sem dúvida nenhuma, a esquerda.