Desvelando a Transexualidade: Capitalismo, mercado de trabalho e da prostituição

O não-lugar no mercado de trabalho

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Fonte: Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e outras organizações de travestis e transexuais, o preconceito no trabalho é tanto que a porcentagem de pessoas trans que precisa se prostituir para sobreviver é de cerca de 95%. Novamente a hipocrisia é tremenda, pois somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, que não aceita dar oportunidades de trabalho para essas mulheres no mercado formal, mas que paga por seus serviços sexuais na calada da noite.

Há raras exceções de empregos precarizados, como telemarketing (onde não se vê quem está do outro lado da linha) ou salões de beleza. É raríssimo encontrar professoras, médicas, advogadas etc. que sejam trans. Até mesmo no comércio, em que os donos dos estabelecimentos querem passar uma determinada imagem de seus produtos e de seu atendimento, não servem as pessoas trans, porque são estigmatizadas.

Prostituição: o único caminho

Já nas ruas escuras do nosso mundo hipócrita, elas podem estar a serviço do lucro dos cafetões e cafetinas, expostas a todo tipo de violência e relações marginais, realizando um dos trabalhos mais opressivos que se criou: a prostituição. Afinal, a pessoa que se prostituiu não presta um serviço ou vende sua força de trabalho com direitos regulamentados. Ela vende a si mesma, sem garantia de nada, correndo o risco de ser espancada e morta, lembrando que, segundo a Rede Trans Brasil, 50,6% das vítimas são profissionais do sexo, e, em cada 24 homicídios, o assassino era cliente da pessoa trans.

Há pouco tempo, diante de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, quiseram aprovar a Lei Gabriela Leite que legalizaria a prostituição. Infelizmente, a defesa e a proteção daquelas/es que se prostituem não passa por essa iniciativa nefasta, que aprofunda as relações de desigualdade de identidade de gênero, de raça e de classe social. É assim porque regulamentaria, na realidade, a cafetinagem, permitindo que 50% do valor do serviço prestado pudesse ser apropriado por quem agenciasse as pessoas travestis/trans e que, além de outros motivos, negaria a possibilidade de estupro, o qual seria entendido como negação da oferta do serviço e estimulando o que há de mais degenerado no que toca às relações humanas, transformando pessoas em mercadoria.

Ainda sobre a assimilação pelo capitalismo, há todo um mercado de adequação ao corpo e auto-tratamento desenvolvido para que as mulheres travestis/trans tenham corpos mais próximos daqueles que desejam ou que procuram os clientes. Assim, de maneira arriscada, muitas dessas mulheres compram hormônios no mercado informal e/ou aplicam silicone industrial em seus corpos com as “bombadeiras” (mulheres que injetam o silicone industrial). Como consequência, o silicone industrial pode causar trombose, gangrena e até amputação. Em alguns casos, provoca a morte.

Toda essa vida difícil e exclusão sofridas pelas pessoas trans provoca, não raro, situações de envolvimento com a marginalidade e a fuga para suportar a dor causada por tamanhas dificuldades e rejeição, levando ao envolvimento com o tráfico de drogas, ao adoecimento, à depressão, a tentativas de suicídio e ao uso de drogas para anestesiar tanta dor.

É necessário exigir iniciativas urgentes dos governos, como aquelas concernentes ao uso do nome social sem burocracia e amplo acesso à saúde pública e de qualidade, incluindo tratamento respeitoso e humano. E também, estando atentos/as às demais instituições, como a mídia, que tem enorme responsabilidade sobre a dinâmica social.

Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)

 

 

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Desvelando a Transexualidade: A transfobia mata – Parte IV

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Sobre os assassinatos

O relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB) que lança anualmente um estudo sobre a população LGBT assassinada no ano anterior, mostra-nos em seu relatório mais recente, do ano de 2016, que: “tais mortes crescem assustadoramente: de 130 homicídios em 2000, saltou para 260 em 2010 e para 343 em 2016. Durante o governo FHC mataram-se em média 127 LGBT por ano; no governo Lula 163 e no governo Dilma/Temer, 325”.

O GGB também nos diz que um LGBT é morto a cada 25 horas no Brasil. Ele ainda nos aponta que: “dos 343 LGBTs que foram assassinados em 2016, 31% desses assassinatos foram praticados com arma de fogo, 27% com armas brancas, incluindo ainda enforcamento, pauladas, apedrejamento, muitos crimes cometidos com requintes de crueldade: tortura, queima do corpo. Travestis geralmente são assassinadas a tiro ou espancadas na rua, enquanto gays são mortos dentro de casa, com objetos domésticos: facas, fios elétricos, sufocados na cama, muitas vezes encontrados pelos vizinhos somente pelo odor do corpo já em putrefação. Proporcionalmente, as travestis e transexuais são as mais vitimizadas: o risco de uma “trans” ser assassinada é 14 vezes maior que um gay, e se compararmos com os Estados Unidos, as 144 travestis brasileiras assassinadas em 2016 face às 21 trans americanas, as brasileiras têm 9 vezes mais chance de morte violenta do que as trans norte-americanas. Segundo agências internacionais, mais da metade dos homicídios de transexuais do mundo, ocorrem no Brasil”.

O relatório iniciou-se em 2012, e quanto ao segmento de travestis e transexuais observou-se que: em 2012, foram 128 assassinatos; em 2013, 108; em 2014, 134; em 2015, 119 e em 2016, 144.  Outro fator importante a salientar é a crueldade dos assassinatos praticados. Transfeminicídios acabam tendo mais requintes de crueldade do que os feminicídios, talvez por carregarem em si o machismo e misoginia, aliados ao fator da transfobia. Travestis e transexuais não são apenas assassinadas/os, o número de facadas ou tiros acaba sendo maior do que o cometido contra mulheres cisgêneras. O ódio é tanto que descarregam o pente todo da arma, degolam, espancam, torturam, queimam, esquartejam, esmagam os crânios, muitas vezes, de tal modo, que fica praticamente impossível reconhecer a identidade dos corpos. Esta é uma forma de realmente vilipendiar esses corpos, tirando-lhes toda a humanidade, mesmo após a morte; deixando-lhes nuas, com genitálias expostas, em um misto de culto à violência com altas doses de sádico erotismo.

Pessoas travestis e transexuais são assassinadas 2 vezes: uma, literalmente; outra, ao terem seus nomes e identidades de gênero desrespeitados em notícias na mídia e ao serem enterradas com os seus nomes de registro civil não-retificados.

Porém, todos os dados de pesquisa estão longe de apontar a realidade, pois cabe lembrar que estes dados são subestimados, pois baseiam-se apenas em notícias da mídia em que a motivação do crime nem sempre é explicitada e muitos são, ainda, omitidos pelas famílias. Assim, o Brasil é o país do mundo que mais mata pessoas trans.

Segundo a Rede Trans Brasil, 94% das vítimas estão solteiras; 50,6% são profissionais do sexo, e, em cada 24 homicídios, um o assassino era cliente da pessoa trans. O mais interessante e hipócrita é que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, mas, também é o país que mais consome pornografia deste segmento em suas buscas no Google por pornografia “tranny” ou “shemale”, dois termos altamente pejorativos utilizados pela indústria pornográfica mundial.

O Mapa de Assassinatos de Pessoas Trans no Brasil, feito pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), informa-nos que, só em 2017, de janeiro até o dia 9 de julho, foram cometidos 95 assassinatos contra travestis, mulheres e homens transexuais em nosso país.

A transfobia mata!

Desvelando a Transexualidade: Retificação do nome e direito ao nome social – Parte III

Por Frida Pascio Monteiro, de Fernandópolis (SP)

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“Desvelando a Transexualidade” é uma série de artigos sobre transexualidade nos mais variados aspectos. Este é o terceiro artigo.

Quanto à retificação do prenome civil
Em linhas gerais, apesar do fundamento da demanda variar de acordo com as necessidades e particularidades de cada caso, temos que a maior parte das demandas de Retificação de Registro Civil ligadas à questão da sexualidade, encontram fundamentação jurídica na “notoriedade”: ser conhecido por nome diverso daquele do documento, tanto no trabalho, como no convívio social; e no constrangimento: incongruência entre o nome do documento e a aparência, gerando constrangimento face à necessidade de apresentação de documentos.

A retificação do prenome civil é muito burocrática, sendo necessários vários documentos, dentre eles: cópia da certidão de nascimento, cópia do RG, cópia do CPF, cópia da Reservista, cópia da carteira de trabalho, cópia do comprovante de residência, laudo psicológico atestando a disforia de gênero (após o mínimo de 2 anos de acompanhamento/tratamento), laudo psiquiátrico atestando a disforia de gênero (após o mínimo de 2 anos de acompanhamento/tratamento), documentos que comprovem o uso do referido nome (pode ser cartão do banco, cartão SUS, contas de perfis online etc.), laudo médico (caso já tenha realizado cirurgia de readequação sexual, e, em caso de cirurgias realizadas fora do Brasil, deve se realizar a tradução juramental do respectivo laudo), certidões negativas (Certidão da Justiça Militar Estadual: finalidade criminal, Certidão da Justiça Militar da União Federal: finalidade criminal, Certidão de Distribuição Criminal: finalidade criminal, Certidão de Execuções Criminais Estadual: finalidade criminal, Certidão Negativa de Dívida Ativa, Certidão de Quitação com a Justiça Eleitoral, Certidão de Distribuição da Justiça Federal, Certidão de Ações Trabalhistas do Estado de São Paulo , Certidão do Distribuidor Cível Estadual, Certidão do Distribuidor Cível, Executivos Fiscais Estadual, Certidão de Distribuição de Ações e Feitos da Justiça Federal  Estadual) que podem ser solicitadas pela Internet, 3 fotos 10×15 de corpo inteiro – corpo e rosto -, (sendo interessante conter pelo menos 1 anterior à transição), 3 cartas a próprio punho de pessoas que reconhecem o uso do determinado nome há pelo menos 5 anos. Esses documentos são a base, dependendo o juiz, ele pode pedir algo a menos ou a mais.

As certidões negativas servem para provar que não se deseja retificar o prenome por possuir pendências ou débitos junto ao órgão emissor, tais como: sonegação fiscal, falsidade ideológica, entre outros.

O grande problema da retificação do prenome civil é que ele dependerá, basicamente, da opinião pessoal do juiz, já que não há lei específica. Se houver sorte de o processo cair em mãos de um juiz “não conservador”, há maiores chances; mas se houver o azar de cair nas mãos de um juiz conservador, ele poderá dificultar ao máximo, pedindo o maior número de documentação possível e, assim, arrastar o processo por anos a fio, ou, ainda, indeferir o pedido. Em um país em que se pode recorrer a tudo em várias e várias instâncias, travestis e transexuais não possuem este privilégio. Se o pedido de retificação for indeferido, não há mais como recorrer em primeira instância, tendo, assim, que recorrer junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Quanto ao direito ao uso do nome social

O Decreto de Lei 8.727/16 dispõe sobre o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e fundacional.

A lei 1.820/09 dispõe sobre o uso do nome social na Carteirinha do SUS, em seu artigo 4º, Parágrafo Único, Inciso I:

Art. 4º. Toda pessoa tem direito ao atendimento humanizado e acolhedor, realizado por profissionais qualificados, em ambiente limpo, confortável e acessível a todos.

Parágrafo único. É direito da pessoa, na rede de serviços de saúde, ter atendimento humanizado, acolhedor, livre de qualquer discriminação, restrição ou negação em virtude de idade, raça, cor, etnia, religião, orientação sexual, identidade de gênero, condições econômicas ou sociais, estado de saúde, de anomalia, patologia ou deficiência, garantindo-lhe:

I – Identificação pelo nome e sobrenome civil, devendo existir em todo documento do usuário e usuária um campo para se registrar o nome social, independente do registro civil sendo assegurado o uso do nome de preferência, não podendo ser identificado por número, nome ou código da doença ou outras formas desrespeitosas ou preconceituosas”.

A possibilidade de usar o nome social no Enem foi aberta em 2014. Naquele ano, foram apresentadas 102 solicitações. Na edição de 2015, o número subiu para 278 e na edição 2016 o número foi para 406. Esta foi uma oportunidade que atraiu mais pessoas travestis e transexuais para prestar o exame, pois diminuiu o constrangimento de serem chamadas/os pelo nome de registro civil não retificado e passarem por situações de preconceito, vexatórias.

O Decreto Estadual nº 55.588/10 dispõe sobre o tratamento nominal das pessoas transexuais e travestis nos órgãos públicos do Estado de São Paulo e dá providências correlatas. A Deliberação 125/2014 do Conselho Estadual de Educação do Estado de São Paulo dispõe sobre a inclusão de nome social nos registros escolares das instituições públicas e privadas no Sistema de Ensino do Estado de São Paulo e dá outras providências correlatas. A Resolução da Secretaria da Educação, n 12/2015, estabelece parâmetros para a garantia das condições de acesso e permanência de pessoas travestis e transexuais – e todas aquelas que tenham sua identidade de gênero não reconhecida em diferentes espaços sociais – nos sistemas e instituições de ensino, formulando orientações quanto ao reconhecimento institucional da identidade de gênero e sua operacionalização, além de garantir o uso de banheiros, vestiários e demais espaços segregados por gênero, quando houver, de acordo com a identidade de gênero de cada sujeito.

O uso do nome social por estudantes é uma medida que visa evitar a “evasão” escolar dessas/es estudantes travestis e transexuais. O termo correto não seria “evasão” escolar, mas sim “expulsão” escolar, visto que tais estudantes sofrem diariamente com o desrespeito às suas identidades de gênero e nomes; são vítimas de chacotas por parte de alunos e funcionários; sofrem perseguições; são proibidas/os de utilizarem o banheiro com o qual se identificam pelos seus respectivos gêneros; sofrem agressões físicas, e, até sexuais, dentro de banheiros, que são promovidas por grupos de alunos como forma de estupros corretivos. Toda essa conjuntura as/os expulsa da escola e o uso do nome social serve como uma medida paliativa. O correto seria uma capacitação do corpo docente e de funcionários e, posteriormente, uma maior conscientização dos alunos e pais para aceitarem e acolherem estudantes transexuais.

Alguns bancos começaram a aceitar o uso do nome social em crachás de seus funcionários e em cartões de clientes.

O direito ao uso do nome social é apenas uma “muleta” administrativa que não resolve o problema, não chega a ser um direito básico assegurado em si. De nada adianta o nome social se vier em uma carteira escrito: nome social. As pessoas ainda podem agir com transfobia pelo fato de vir evidenciado tratar-se de um/a transexual ou travesti.

A carteira de nome social acaba segregando ainda mais uma população tão marginalizada e segregada.

Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)

Desvelando a Transexualidade – Parte II: A transexualidade aos olhos da Medicina e da Psiquiatria

Por Frida Pascio Monteiro, de Fernandópolis (SP)

“Desvelando a Transexualidade” é uma série de artigos sobre transexualidade nos mais variados aspectos. Este é o segundo artigo.

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Cena do Filme: Ma vie en rose

Transexualidade: doença mental?

A transexualidade, até bem pouco tempo “transexualismo”, é vista como uma doença pelo Código Internacional de Doenças (CID-10). De acordo com o CID-10, a doença codificada por F:64.0 corresponde à “Disforia de Gênero”. “Disforia” é um sentimento de insatisfação, ansiedade e inquietação. Portanto, pessoas cisgêneras também são altamente disfóricas ao não aceitarem seus corpos como são e recorrerem a métodos para alterá-los e torná-los mais próximos do ideal almejado por elas. A pergunta que nos fica é: por que pessoas cisgêneras não têm suas disforias patologizadas e não precisam de laudos para realizarem procedimentos em seus corpos enquanto que as pessoas trans são patologizadas, necessitam de laudos para realizarem qualquer tipo de intervenção em seus próprios corpos? O que diferencia a não-patologização da disforia de pessoas cisgêneras para a patologização da disforia de pessoas transgêneras/transexuais?

O processo transexualizador: a maior mentira e crueldade

Quanto às mulheres transexuais que querem realizar a CRS (cirurgia de redesignação sexual), essas precisam se enquadrar ao “protocolo transexualizador” e serem classificadas dentro desse como “transexuais verdadeiras”: uma das maiores mentiras e crueldades da Medicina e da Psiquiatria para com a nossa população.

O Brasil, atualmente, possui apenas 9 centros ambulatoriais pelo SUS que realizam o processo transexualizador, que inclui a hormonioterapia e as cirurgias, entre elas a CRS, que não é realizada em todos os ambulatórios, pois muitos apenas realizam a parte da hormonioterapia.

Para iniciar o acompanhamento é necessário procurar um serviço do SUS que fará o acompanhamento para um dos centros ambulatoriais que fazem o processo transexualizador. A/o paciente passará por uma triagem e deverá ter idade mínima de 18 anos para iniciar a hormonioterapia. Para obtê-la, a/o paciente deve fazer acompanhamento com uma equipe multidisciplinar, que deve incluir endocrinologista, psicólogo, psiquiatra e assistente social. Quanto às/aos pacientes que desejam fazer intervenções de readequação cirúrgicas, devem ter idade mínima de 21 anos e passar pela mesma equipe multidisciplinar por pelo mínimo 2 anos, obtendo laudo do endocrinologista atestando 2 anos, no mínimo, de tratamento hormonal; 2 anos de acompanhamento, no mínimo, com psicólogo para obtenção de laudo favorável atestando a Disforia de Gênero e 2 anos de acompanhamento, no mínimo, com psiquiatra para obtenção de laudo também favorável à Disforia de Gênero.

As cirurgias que podem ser realizadas em homens trans podem ser: tireoplastia (cirurgia que permite a mudança no timbre de voz); mastectomia (retirada das mamas); histerectomia (retirada do útero); ooforectomia (retirada dos óvulos); neofaloplastia (é a cirurgia de construção do novo pênis, ainda pouco comum e feita apenas em âmbito experimental e que no Brasil só é autorizada em hospitais universitários autorizados).

As cirurgias que podem ser realizadas em mulheres transexuais podem ser: tireoplastia (cirurgia que permite a mudança no timbre de voz); inclusão da prótese de silicone e plástica mamária (procedimento estético para correção de intervenções anteriores); feminização facial (rinoplastia: cirurgia plástica no nariz; cirurgia nos lábios; cirurgia nos maxilares; frontoplastia: cirurgia de suavização da testa com diminuição das proeminências ósseas; cirurgia dos osso malares (maçãs do rosto); mentoplastia: cirurgia no queixo; raspagem do Pomo de Adão; neovulvocolpoplastia (cirurgia de construção da nova vagina).

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Ludovic é uma criança Trans de Ma vie en rose “Nós vamos nos casar quando eu não for mais um menino” referindo se a seu a amor pelo melhor amigo

O SUS disponibiliza, desde 2008, por meio da Portaria 457, às mulheres transexuais, o acesso à terapia hormonal, cirurgia para redução do Pomo de Adão, adequação das cordas vocais para feminilização da voz, neovulvocolpoplastia. A partir de 2013, por meio da Portaria 2.803, passou a disponibilizar também a cirurgia de implante de silicone nas mamas. Para os homens transexuais, por meio da Portaria 2.803, de 2013, passou a incluir os procedimentos para os homens trans: tratamento hormonal, mastectomia, ooforectomia e histerectomia.

Alguns (mas) transexuais têm diversos problemas de saúde como diabetes, pressão alta, problemas cardíacos ou são alérgicas às anestesias e, por isso, não podem realizar tais procedimentos. Há ainda as que lidam bem com o fato de serem de tal gênero, independentemente dos caracteres biológico-sexuais discordantes. O que estamos dizendo é que não é a genitália que fará de uma mulher trans menos mulher ou que fará um homem trans menos homem.

Embora lutem por assistência às especificidades de suas saúdes, pessoas transexuais lutam há anos para que não sejam classificadas como doentes mentais. O mesmo acontecia com os homossexuais que, até 1990, eram considerados doentes pela Organização Mundial da Saúde. As consequências deste tipo de classificação foram as mais nefastas: lobotomias, internações, castrações químicas, desemprego, tratamentos impossíveis e dolorosos para readequação da orientação sexual, “curas gays” e até prisões em manicômios psiquiátricos.

Efeitos dos hormônios nas travestis e mulheres transexuais: Termo de Esclarecimento e Responsabilidade

Ao iniciar o acompanhamento/tratamento em um centro ambulatorial e/ou hospitalar as travestis e as/os transexuais devem assinar um termo de esclarecimento e responsabilidade, assumindo para si estar consciente dos riscos à saúde que podem advir do uso dos hormônios. O termo de esclarecimento e responsabilidade que as travestis e as transexuais têm de assinar contém as seguintes informações listadas abaixo:

Mudanças permanentes que não desaparecerão se parar o uso dos hormônios: desenvolvimento das mamas (desenvolvimento máximo em até 2 anos), diminuição dos testículos; diminuição da produção de testosterona (hormônio masculino) pelo testículo; diminuição do volume de esperma ou mesmo parada da ejaculação; diminuição da fertilidade (que pode voltar ou não ao normal após interrupção), no entanto se mantiver relações sexuais com alguém que possa ficar grávida, pode haver fecundação (gravidez), fazendo-se assim necessário o uso de métodos anticoncepcionais; dificuldade de ereção, para penetração e diminuição da próstata.

Mudanças reversíveis que acontecem somente enquanto estiver usando hormônios, mas que desaparecem quando se para de tomá-los: aparecimento de celulite; redistribuição da gordura corporal com possibilidade de depósito de gordura nas coxas e quadris; ligeira redução dos pelos; afinamento da pele; diminuição das acnes (espinhas); diminuição da queda de cabelo; diminuição do suor e mudança no cheiro do corpo; diminuição da gordura no abdômen; diminuição do desejo sexual (libido); orgasmos menos intensos; agravamento de enxaquecas; aparecimento de náuseas e vômitos; aumento da pressão arterial; alteração na função do fígado e aparecimento ou agravamento de depressão.

Não ocorrerão (nem com a retirada dos testículos): desaparecimento dos pelos; afinamento da voz e diminuição do pomo de Adão.

Riscos e complicações à saúde com a terapia hormonal (o uso de hormônios aumenta a chance de ocorrer ou pode piorar estes problemas de saúde, quando aparecem): câncer de mama; trombose venosa profunda; embolia pulmonar; enfarto; derrame cerebral; osteoporose e fraturas ósseas; piora das taxas de colesterol; aumento nas taxas de triglicérides e câncer de fígado.

A/o transexual “de verdade”
É de extrema importância salientar que para conseguir todos esses procedimentos cirúrgicos e a retificação do prenome civil e do gênero nos documentos, a pessoa trans deve ser classificada pelo psicólogo e psiquiatra como um/uma “transexual de verdade”.

Leva-se em conta para isso o tempo de terapia hormonal; os testes de vida real (a/o candidata/o viver a pelo menos 2 anos, 24 horas por dia, como sendo do sexo oposto, vestindo-se, portando-se socialmente com o esperado por tal gênero); os testes de personalidade para atestarem a “transexualidade verdadeira”; exames hormonais de rotina; forte e persistente identificação com o gênero oposto por pelo mínimo 2 anos ou sentimento de inadequação no papel de gênero deste sexo; forte sofrimento psíquico por haver nascido daquele determinado sexo; repulsa aos órgãos sexuais, nojo inclusive de fazer a higiene pessoal íntima deles ao ter de tocá-los; desejos ou tentativas de mutilação e autocastração; personalidade altamente suicida, podendo inclusive já haver tentado tirar a própria vida alguma vez; falta de desejo sexual; não se masturbar por sentir asco de seus órgãos genitais; não ter vida sexual ativa, podendo, muitas vezes, até ser virgem, em suma, ter uma vida sexual assexuada; ser heterossexual.

Em crianças, a perturbação é manifestada por quatro (ou mais) dos seguintes quesitos: 1. Declarar repetidamente o desejo de ser, ou insistência de que é, do sexo oposto (em meninos, preferência pelo uso de roupas do gênero oposto ou simulação de trajes femininos; em meninas, insistência em usar apenas roupas estereotipadamente masculinas); 2. Preferências intensas e persistentes por papéis do sexo oposto em brincadeiras de faz de conta, ou fantasias persistentes acerca de ser do sexo oposto; 3. Intenso desejo de participar em jogos e passatempos estereotípicos do sexo oposto; 4. Forte preferência por companheiros do sexo oposto.

O pior do protocolo transexualizador são seus conceitos arcaicos e preconceituosos de estereótipos de gênero, afirmando que mulheres transexuais devem ser femininas; delicadas; emotivas; submissas; preferindo serviços domésticos ou na área de Humanas; e, homens transexuais como másculos; brutos; racionais; dominadores; preferência por serviços braçais, de lógica e/ou mecânica ou nas áreas de Biológicas ou Exatas.

Muitos desses critérios não são verbalizados, mas fazem partem da análise dos profissionais psicólogo e psiquiatra para atestarem favoravelmente ou não a transexualidade da/o paciente; critérios, inclusive, presentes nos testes psicológicos antiquados, preconceituosos, reforçadores de estereótipos de gênero, e, muitas vezes ridículos, dos conceitos de masculinidade/feminilidade, do que é ser um “homem de verdade”, e, consequentemente, um “homem trans de verdade” e do que é ser uma “mulher de verdade”, e, consequentemente, uma “mulher trans de verdade”.

Além desses critérios, pessoas trans que não apresentam repulsa extrema aos órgãos genitais; que não têm problemas em realizar sua higiene pessoal dos órgãos sexuais; que não possuem ou já não tentaram mutilar-se e/ou castrar-se; que não tentaram ou pensam em suicídio; que possuem desejo sexual; que se masturbam; que tem vida sexual ativa; e que não possuem orientação sexual heterossexual são classificadas/os como não sendo “transexuais de verdade” e, portanto, alijados do processo transexualizador do SUS e impedidos de realizarem os procedimentos hormonais e/ou cirúrgicos, tudo isso baseado em estereótipos ultrapassados e ridículos.

Em suma, há uma negação das individualidades e particularidades das vivências de pessoas trans e uma universalização do que seria a “transexualidade verdadeira”, gerando “as/os transexuais verdadeiras/os”.

Toda essa obrigatoriedade de ter de ser classificado/a como um/a “transexual verdadeiro/a” obriga os/as transexuais a omitirem e/ou mentirem sobre essas questões para se enquadrarem no estereótipo criado pelos psicólogos e psiquiatras, assim não perdem a vaga e podem continuar no processo para obtenção dos laudos para retificação do nome e entrada na fila para realização dos respectivos procedimentos cirúrgicos. O processo transexualizador é cruel e desumaniza as vivências transexuais ao obrigá-las a se enquadrarem em um molde arcaico, retrógrado e engessado.

O processo transexualizador do SUS disponibiliza a modalidade ambulatorial e a modalidade hospitalar em seus centros de atendimento ambulatoriais de travestis e transexuais. A modalidade ambulatorial consiste nas ações de âmbito ambulatorial, quais sejam acompanhamento clínico; acompanhamento pré e pós-operatório e hormonioterapia. A modalidade hospitalar consiste nas ações de âmbito hospitalar, quais sejam realização de cirurgias e acompanhamento pré e pós-operatório. Após a CRS a/o transexual ainda deve passar, obrigatoriamente, por acompanhamento com psicólogo e psiquiatra por mais 1 ano pelo SUS.

O SUS conta com cinco serviços habilitados pelo Ministério da Saúde no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial e hospitalar. O SUS também conta com quatro serviços habilitados pelo Ministério da Saúde no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial. Existem na rede de saúde pública serviços ambulatoriais, criados por iniciativa estadual, destinados ao atendimento de travestis e transexuais no Processo Transexualizador: Ao final do texto há uma lista com o nome de todos esses serviços, local e contato.

Segundo o site do Ministério da Saúde, com dados de 2012, o SUS pagava R$1.113,57 pela cirurgia de neovulvocolpoplastia e os 5 centros ambulatoriais costumam fazer 12 dessas cirurgias ao ano, uma por mês. A cirurgia particular custa por volta de 50 mil reais, atualmente. Cada centro ambulatorial gastaria por volta de R$13.500,00 por ano, bem menos que o valor pago por uma única cirurgia particular.

Um breve relato…
Farei 3 breves relatos sobre como é o tratamento no ambulatório em que faço todo o processo. 1. Em março, obtive todos os laudos para entrar na fila para a CRS. Em maio, retornei e ao falar com a assistente social sobre o meu lugar na fila, ela me disse que eu não estava nela; havia o laudo do psiquiatra, mas não o da psicóloga. Procurei a secretaria administrativa e no meu prontuário faltava o laudo da psicóloga. Falando com ela, ela me disse que havia esquecido de imprimir e anexar. Já havia se passado dois meses, mas, como não era algo extremamente importante na vida dela, ela apenas se esqueceu. Após isso, adentrei à fila, que no Ambulatório de Travestis e Transexuais (TT) de São Paulo, capital, está entre 7 a 10 anos, chegando, em alguns casos, a até 12 anos. Não tenho informação sobre os outros centros ambulatoriais, mas as realidades devem ser parecidas. 2. Apesar de ser um Centro de Referência em travestilidade e transexualidade, muitos funcionários ainda acabam chamando as/os pacientes pelo nome de registro civil (não-retificado) nos documentos. Falta de treinamento/capacitação? Desatenção? Falta de respeito para com as/os pacientes? Transfobia? 3. Tive de mudar alguns dados do meu cadastro, dentre eles a minha escolaridade, já que estou na pós-graduação: Mestrado. Porém, obtive uma surpresa ao saber que no sistema de banco de dados não há tais opções: pós-graduação, Mestrado, Doutorado. Para o sistema, travestis e transexuais no máximo obtêm graduação e nem cogitam que possamos chegar a um nível superior como uma pós-graduação. Lapso do sistema? Preconceito para com a população T? Transfobia?

A transfobia mata!
Rede de serviços
O SUS conta com cinco serviços habilitados pelo Ministério da Saúde no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial e hospitalar:

– Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás/ Goiânia (GO); Telefone: (62) 3269-8200.

– Universidade Estadual do Rio de Janeiro – Hospital Universitário Pedro Ernesto/ Rio de Janeiro (RJ); Telefone: (21) 2868-8000.

– Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ Porto Alegre (RS); Telefone: (51) 3308-6000.

– Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina FMUSP/Fundação Faculdade de Medicina MECMPAS – São Paulo (SP); Telefone: (11) 3061-7000.

– Hospital das Clínicas/Universidade Federal de Pernambuco – Recife (PE); Telefone: (81) 2126-3633.

O SUS também conta com quatro serviços habilitados pelo Ministério da Saúde no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial:

– Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) – Rio de Janeiro/RJ; Telefone: (21) 2332-7159.

– Ambulatório do Hospital das Clínicas de Uberlândia – Uberlândia/MG; Telefone: (34) 3218-2111.

– Centro de Referência e Treinamento (CRT) DST/AIDS – São Paulo/SP; Telefone: (11) 5087-9911.

– Centro de Pesquisa e Atendimento para Travestis e Transexuais (CPATT) do Centro Regional de Especialidades (CRE) / Metropolitano – Curitiba/PR; Telefone: (41) 3304-7567.

Existem na rede de saúde pública serviços ambulatoriais, criados por iniciativa estadual, destinados ao atendimento de travestis e transexuais no Processo Transexualizador:

– Ambulatório AMTIGOS do Hospital das Clínicas de São Paulo – São Paulo (SP);  Agendamento de triagem somente pelo e-mail: amtigos.ipq@hc.fm.usp.br.

– Ambulatório para travestis e transexuais do Hospital Clementino Fraga – João Pessoa (PB); Telefones: (83) 3218-5415 e (83) 3218-5416.

– Ambulatório Transexualizador da Unidade de Referência Especializada em Doenças Infecto-Parasitárias e Especiais (UREDIPE) – Belém (PA); Telefone: (91) 3244-5364.

– Ambulatório de Saúde Integral Trans do Hospital Universitário da Federal de Sergipe Campus Lagarto – Lagarto (SE); Telefone: (79) 3632-2082.

Frida Pascio Monteiro é ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)

Desvelando a transexualidade – Parte I

Recortes, conceitos e diferenciação entre as travestis e as mulheres transexuais

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Este é o primeiro artigo da série “Desvelando a Transexualidade” sobre transexualidade e seus mais variados aspectos


A importância dos recortes na luta trans
A transexualidade é um tema muito complexo e pouco discutido e conhecido. Por isso, é de vital importância voltar à pauta sempre que possível. É importante fazer uma ressalva antes de continuar: tratarei, no texto, sobre transexualidade por ser uma mulher transexual e por ter vivência sobre esta realidade.

Sou uma mulher trans privilegiada por ser branca, de classe média, que não foi expulsa de casa pela família, que conseguiu concluir todo o ensino fundamental e médio. Tenho graduação, entrei no mestrado agora e não estou no mercado da prostituição. Enfim, tenho um monte de privilégios se comparada com outras mulheres trans, travestis e homens trans. O que nem por isso faz com que não passe por transfobia diariamente.

Contudo, mulheres trans, travestis e homens trans devem ser incentivados a falar sobre suas respectivas interseccionalidades, fazendo seus devidos recortes, de classe, raça etc., que pioram e intensificam suas opressões: cor, raça, classe, religião, educação, profissão. Uma trans negra, periférica, que não completou os estudos, deficiente, de religião de matriz africana, no mundo da prostituição, passa por muito mais problemas do que eu. Além da transfobia lida com racismo, classismo, intolerância religiosa, preconceito quanto às deficiências, nível de instrução/educação e profissões exercidas.

Retomando alguns conceitos

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1) Sexo biológico é aquele que é anatômico, fisiológico, gonadal e que pode ser observado pelos órgãos sexuais externos (macho e fêmea, sendo que macho nasce com pênis e testículos, e fêmea com vagina).

2) Identidade de gênero é o modo como a pessoa se vê no mundo, como pensa em si mesma, como se sente. Em termos psicanalíticos, seria a sua psique. Em termos subjetivos, sua essência, sua autoconsciência. Quando há uma correspondência entre a psique e o sexo biológico, a pessoa é denominada cisgênera, podendo ser homem cisgênero ou mulher cisgênera. Quando não há correspondência entre psique e órgão sexual, a pessoa é transgênera, transexual, podendo ser uma travesti, uma mulher transexual ou um homem transexual.

3) Orientação Sexual é para quem se dirige o afeto, a atração, o desejo, as relações afetivo-sexuais e, por isso, a pessoa pode ser heterossexual quando alguém do gênero masculino se interessa por alguém do gênero feminino e vice-versa; homossexual quando se relaciona com o mesmo gênero – gays e lésbicas; bissexuais quando sentem-se atraídas por ambos os gêneros.

Causa ainda confusão, mas uma mulher trans ou travesti que se relaciona com um homem é heterossexual e, caso se relacione com outra mulher, é lésbica. Um homem trans que se relaciona com uma mulher é heterossexual. Se ele se relacionar com outro homem, é gay.

Sintetizando: sexo biológico não tem relação com identidade de gênero, e identidade de gênero nada tem a ver com orientação sexual.

A diferença entre as travestis e as mulheres transexuais


Partindo dessa introdução, inicio com a polêmica distinção entre mulheres transexuais e travestis, tema que dá pano para a manga inclusive dentro da própria militância T. Arrisco-me a escrever tendo plena consciência de que posso ser crucificada, mas aberta aos comentários, críticas e divergências sobre tal distinção polêmica.

O senso comum simplifica a questão da seguinte forma: mulheres trans querem fazer a cirurgia de redesignação sexual (CRS), e as travestis não. Também há o pré-conceito de que as travestis são promíscuas e que são todas prostitutas. É uma distinção limitada que não abarca toda a pluralidade de autoidentificações. Autoidentificação é a palavra-chave: basicamente, trata-se de uma questão subjetiva de autopercepção.

Mulheres trans se autoidentificam como mulheres e podem ou não querer fazer a CRS: há as que desejam, porém há também as que estão satisfeitas apenas com hormonização, implante de próteses mamárias, depilação a laser da barba, não fazendo com que sejam menos mulheres ou menos mulheres trans por isso. A autoidentificação travesti é mais diversa, ampla: muitas se autoidentificam como mulheres, assim como mulheres transexuais; outras como nem mulher nem homem; outras como homem gay, apesar de usarem nome feminino e exigirem ser chamadas pelos respectivos artigos e pronomes femininos e outras mais possíveis autoidentificações.

Observo que a autoidentificação “mulher transexual” costuma ser mais pautada numa subjetividade relacionada ao campo dos afetos e das vivências afetivo-sexuais dessas mulheres, enquanto o termo “travesti” é mais pautado numa questão histórica, social, econômica e política relacionada à exclusão, marginalidade, vistas como bandidas, criminosas, “putas”. O que é senso comum entre as travestis é que, independentemente de qualquer outra autoidentificação, elas se autoidentificam como travestis. Há, porém, mulheres trans que também se autoidentificam como travestis, pois ,para a sociedade, todas (mulheres trans e travestis) somos “os travecos/os travestis”.

A transfobia mata!

Por Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP).

Por que o feminismo marxista?

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Antes que qualquer defesa da análise feminista marxista possa ser feita, deve-se delinear, em termos bastante sucintos, o que diferencia o feminismo marxista do movimento de liberação das mulheres. Foi possível identificar quatro correntes principais: feminismo liberal, radical, marxista e socialista.

A teoria feminista radical postula que a sociedade é um patriarcado, onde todos os homens se beneficiam da subjugação de todas as mulheres. Os homens se beneficiam da opressão sistemática das mulheres em todas as áreas da vida, tanto na esfera pública quanto pessoal. Alguns afirmam que a teoria do patriarcado foi capaz de atravessar as categorias independentes e os limites de outras formas de opressão, como a raça, mas, como está bem documentado, isso é contestado.

O feminismo liberal é uma forma individualista de teoria feminista, que se concentra na capacidade das mulheres de manter sua igualdade através de suas próprias ações e escolhas. Porque, como todos nós sabemos, o estado liberal é aquele que procura defender a “lei natural” ou a igualdade entre os cidadãos, enquanto o mercado medeia entre indivíduos competitivos em busca de seus próprios interesses.

As feministas marxistas acreditam que a classe é responsável pelo papel, posição e opressão das mulheres sob o capital. O feminismo marxista não alega que a opressão das mulheres se deve às ações intencionais dos indivíduos, mas resulta de estruturas políticas, sociais e econômicas associadas ao capitalismo. Mas, como qualquer outra tendência marxista, deve ser notado que, embora o feminismo marxista procure explicar a opressão sob o capital, ele também faz parte do arcabouço do materialismo histórico e leva em consideração a opressão sob modos de produção anteriores onde a propriedade privada e a classe estruturaram a sociedade. .

As feministas socialistas procuraram desenvolver uma análise dual do sistema em que tanto o gênero quanto a classe representavam a opressão das mulheres. Feministas socialistas criticavam o marxismo devido ao que eles percebiam como reducionismo, ou economicismo.

Essas definições simples escondem um corpo complexo e rico de pensamento, onde as diferenças na teoria e na abordagem continuam a enriquecer e minar a teoria feminista. Não é por acaso que o movimento das mulheres do final dos anos 60 e início dos anos 70 foi produto e instrumental na “revolução” e na virada subsequente na academia para o pós-estruturalismo e o pensamento pós-modernista. Mas como Martha Gimenez aponta em O que é material sobre o feminismo materialista, uma crítica feminista marxista

As divisões no pensamento feminista se multiplicaram à medida que os efeitos da teorização pós-estruturalista e pós-moderna fundiram-se com os desafios das bases para um feminismo percebido como a expressão das necessidades e preocupações das mulheres de primeiro e de classe média brancas. No processo, a questão do feminismo tornou-se cada vez mais difícil de definir, já que a crítica pós-moderna da “mulher” como uma categoria essencialista junto com críticas fundamentadas em diferenças raciais, étnicas, sexuais e de origem nacional resultou em uma proliferação aparentemente interminável. De “posições de sujeito”, “identidades” e “vozes”. A política cultural e de identidade substituiu o foco inicial no capitalismo e (entre as feministas marxistas principalmente) as divisões de classe entre as mulheres; hoje a classe foi reduzida a outro “ismo”, isto é, a outra forma de opressão que, junto com gênero e raça, integra uma espécie de mantra, algo que todos deveriam incluir na teorização e na pesquisa, no meu entendimento, a teorização sobre isso permanece ao nível de metáforas (por exemplo, entrelaçamento, interação, interconexão etc.).

O feminismo se tornou uma palavra suja. Nenhuma quantidade de definições claras esclarece o que é, quando uma cultura hostil procura constantemente redefini-la e demonizá-la como um movimento de “matadores de bebês masculinos” e “odiar lésbicas”. Muitas explicações para esse discurso podem ser sugeridas a partir do homem reacionário. Ativistas dos direitos humanos, à crença equivocada de que o feminismo ganhou todas as suas batalhas, até as teorias da conspiração. Sugiro, em grande parte, o surgimento da política de identidade pós-modernista, o nascimento dos “ismos”, a inclusão e a complexa relação do feminismo com isso e os sucessos e fracassos da teoria feminista liberal e radical.

As feministas liberais argumentam que falsas concepções das habilidades das mulheres tendem a reter as mulheres. Nossa subordinação é fixada em um conjunto de crenças, costumes e leis discriminatórias que podem ser contestadas por meio de reformas legais e políticas. Quando definido dessa maneira, é muito fácil ver a falha nesse argumento. Se o estado liberal nasceu do “pensamento iluminista” das revoluções francesa e americana e diz que criou as condições de emancipação e igualdade entre os cidadãos através das leis e instituições do Estado liberal, as mulheres não estariam agora argumentando que o liberalismo é o mecanismo pelo qual sua igualdade deve ser ganha. Em vez disso, como as feministas marxistas apontariam, o surgimento do estado liberal coincide com o surgimento do capitalismo. O feminismo liberal como uma doutrina individualista e competitiva é a igualdade de oportunidades e os direitos legais entre os indivíduos. Ela pode ter igualdade de oportunidades mediada por mecanismos de mercado, oportunidades que são atribuídas através do poder social e hierarquias sociais que correspondem à classe social. Mas é essa forma de feminismo sancionada pelo Estado e ideologicamente higiênica que recebe espaço político e ideológico. Ela preenche as páginas das revistas e informa a opinião pública, o debate e a mudança política e legal. Os tribunais de família e as leis de divórcio mudaram gradualmente em favor da igualdade, enquanto essa igualdade é percebida por muitos como algo mais de um privilégio dos direitos das mulheres sobre os dos homens. É também o feminismo da livre escolha. A prostituição, a pornografia, as desigualdades de renda e de oportunidade e a mercantilização dos corpos femininos não são apenas impossíveis de serem analisadas nesse contexto, mas o liberalismo promove essas coisas como escolhas.

O feminismo radical, com sua ênfase no patriarcado e seu discurso sobre a supremacia masculina, gerou blogs cheios de ódio e um retrocesso que provavelmente afastaria a igualdade das mulheres em vez de promovê-la. Radical como um termo foi redefinido erroneamente através do discurso público, e como uma corrente muito forte dentro do ativismo feminista e das bases, concentra-se na experiência pessoal vivida e dando voz a isso, muitas vezes de maneira irada e antagônica. É o feminismo mais blogado, mais twittado, mais citado como sendo odiador do homem. Para a pessoa comum, parece que uma teoria da opressão enraizada nas ações conscientes e intencionais dos homens é também uma força que exige a matança de bebês do sexo masculino e a castração de adultos do sexo masculino. De fato, se o patriarcado é trans-histórico e até agora não há raiz desta opressão biologicamente determinada, somente a castração forçada dos homens e a derrubada revolucionária de seu governo poderiam resultar no fim da opressão feminina. De acordo com a teoria radical, as mulheres eram historicamente a primeira classe oprimida, a opressão das mulheres é a mais difundida em quase todas as sociedades conhecidas, são as formas mais profundas e intratáveis ​​de opressão e a teoria radical fornece uma estrutura a partir da qual se entende tudo. Outras formas de opressão. Apenas uma dessas afirmações está correta e está parcialmente correta. As relações patriarcais enraizadas na estrutura da família, reforçadas por leis e costumes, existem em quase todas as sociedades do conhecimento. Mas deve-se colocar em contexto, essas relações patriarcais têm sua raiz nas sociedades de classes, isso determina a estrutura da família, a economia da família e onde há uma divisão entre a esfera pública e privada. Enquanto seu apelo é “O pessoal é o político”, a ênfase na opressão baseada no sexo enraizada na biologia, que é legitimada por leis e costumes, parece ter negligenciado o fato de que a divisão da esfera pública e privada é como resultado das políticas e ideologias das sociedades de classes. A proteção dos direitos de propriedade privada através da separação legal da família da esfera pública. A família é reconhecida na lei como uma unidade econômica nos primeiros estados.

Pós-moderminismo e pós-estruturalis

Para os marxistas, a causa de todas as formas de opressão está enraizada na divisão da sociedade em classes. O pós-modernismo deu origem à política dos “ismos” obscurecendo as próprias relações sobre as quais todas as formas de exploração e opressão estão enraizadas. O pensamento pós-estruturalista postula que muitas teorias são válidas, enquanto as meta-teorias são inválidas e não levam em conta como várias subjetividades são formadas. O feminismo marxista tem sido criticado por não ser capaz de explicar completamente como, ou por que, se é que as mulheres constituem uma classe. Não é coincidência acidental que o pensamento pós-modernista emerge no exato momento em que o capital estava se reestruturando após a crise da queda dos lucros nos anos 60. Esse processo de reestruturação tomou a forma de subsumir correntes contraculturas dentro da lógica capitalista, criando novas identidades. Essas novas identidades são benéficas para o capital na fábrica global pós-fordista, o trabalho segmentado abre caminho para uma nova repressão salarial e exploração de diferentes identidades geográficas, mas também em casa. Novos mercados segmentados baseados na noção de escolha estendida baseiam-se na criação de novos ideais de consumo específicos para essas novas identidades. As feministas marxistas, especialmente na tradição autonomista italiana, foram rápidas em apontar como o capital explora as mulheres tanto como trabalhadores assalariados, trabalhadores não assalariados e como consumidores. Mais do que escreverei em outro texto sobre feminismo e marxismo autonomista. O movimento de libertação das mulheres e o afastamento de uma perspectiva socialista para uma crítica radical coincide com o nascimento do pensamento pós-modernista. Embora o feminismo liberal existisse e pudesse ser explicado pelo nascimento da filosofia política liberal, o feminismo radical tem suas raízes no pós-modernismo, apesar de sua meta-teoria estruturalista do patriarcado.

Pós-modernismo, determinismo biológico, idealismo, essencialismo e teoria radical.

Pode-se dizer que o pós-modernismo é a consciência idealizada ou ideologia do capitalismo. Como dito anteriormente, esse pensamento se enraíza no momento em que o capitalismo é forçado a se reestruturar. É às vezes uma crise que o capital é capaz de evoluir e estender sua lógica de novas formas, geograficamente em busca de maior exploração laboral, culturalmente em termos de criação de novas mercadorias e mercados e ideologicamente em termos de criação de novas identidades e subjetividades que sustentem essas mudanças.

Baseando-se na noção de Foucault sobre o evento, os discursos e sua teoria de como subjetividade e ideias são formadas, eu sugiro que, embora Foucault seja uma voz acadêmica que introduz o pós-modernismo, ele também nos dá discernimento e ferramentas para criticar a emergência. Do pós-modernismo e pós-estruturalismo. Em Arqueologia do conhecimento, ele se propõe a mostrar que os sistemas de pensamento e conhecimento “epistemes” ou “formações discursivas” são governados por regras além daquelas da gramática e da lógica que operam sob a consciência de sujeitos individuais e definem um sistema de possibilidades conceituais. Determina os limites do uso do pensamento e da linguagem em um dado domínio e período. Narrativas contínuas e a noção de imutabilidade são ingênuas.

Foucault, apesar de sua alegação de ser materialista, e de usar um método materialista para historicizar a transição, ele coloca a história das ideias como central, ou melhor, a consciência para ele parece determinar o modo como moldamos o mundo. Mas pode-se dizer que o idealismo está intimamente ligado ao pensamento burguês. O elo entre a concepção idealista da história, a legitimação de certas condições e eventos históricos (como com Hegel) e o conceito de que as Ideias moldam nosso mundo, leva à noção de que o Capital como um sistema é natural, evoluído através da evolução das ideias. E o mais avançado e perfeito dos sistemas concebidos no pensamento e na prática humanos. Isso também significa para a experiência das mulheres que, se a biologia pode, em primeiro e último recurso, ser a causa de sua opressão, ela precisa apenas “se considerar livre”. De fato, os discursos podem moldar a subjetividade dos indivíduos com sua identidade constituída em um nível idealista. , nada sobre a condição objetiva da vida das mulheres muda simplesmente como resultado do pensamento positivo. Nenhuma quantidade de ética do self inocula as mulheres contra as condições materiais de suas vidas. A relação do discurso com a materialidade é a mesma que a consciência para a realidade. Se alguém meramente substitui a ideologia pelo discurso, basta explicar por que o discurso ou a ideologia constituem a subjetividade. Ao substituir a ideologia pelo discurso, na verdade obscurecemos o papel das ideias na perpetuação das condições materiais da experiência vivida, postulando que a subjetividade é totalmente constituída por ideias, e que as relações objetivas e a vida material são secundárias apenas a isso, isso simplesmente sugere que devemos dar em cima de qualquer política emancipatória. Em vez disso, devemos ficar em casa e agradecer a nossa sorte por nossa boa sorte.

O papel do pensamento pós-modernista, a substituição do idealismo pelo materialismo, a criação de “ismos”, as lutas locais, as políticas de identidade e a substituição da teoria do discurso pela ideologia coincidem com a reestruturação do capital. Numa época em que o capital se move além do sistema fabril para a produção da fábrica global e total da sociedade e a total subsunção da cultura às leis da lógica capitalista, vemos uma mudança na opressão não apenas das mulheres, mas também de muitas novas constituições. Identidades. Isso não quer dizer que o discurso não desempenhe um papel nesse processo, claramente o faz. No entanto, o ímpeto de mudanças na concepção e no pensamento não surge simplesmente do nada, mas está enraizado na atividade de vida consciente das pessoas. Ideias e subjetividade simplesmente se tornam tautologias, por meio das quais somos o que pensamos que somos, impondo ideias como verdades materiais sobre a vida.

O movimento da metodologia materialista e linha de análise para o puramente idealizado, do feminismo marxista para a teoria radical do patriarcado, segue esse mesmo caminho. A teoria feminista radical postula a descrição das relações e a causa das relações como a mesma coisa. Para enraizar a opressão das mulheres em sua biologia é um reflexo do chauvinismo que é dito tê-lo criado. A suposição de que as mulheres são criaturas menores devido à biologia é o que caracteriza a ideologia da opressão baseada em gênero, mas dentro da estrutura idealista dá também a explicação para sua inferioridade. Assim, o determinismo biológico em que a natureza estabelece o terreno sobre o qual a opressão é legitimada sob o capital (Read Dawkins et al) pode afirmar ser empírico, imparcial, imparcial e material, mas está muito feliz em apoiar-se na filosofia idealista para fazer reivindicações ideológicas. A história provou que a opressão das mulheres não é trans-histórica, nem devido à biologia. Tanto aqueles que se beneficiam da opressão em geral quanto aqueles que querem entender e lutar contra ela estão usando as mesmas filosofias idealistas para mantê-la presa no argumento circular do qual não há escapatória. Como não há como fugir da biologia, o Patriarcado, como uma metateoria, encontra-se na posição de recorrer para inserir outra proposição teórica nele. Teoria de gênero, e este é o ponto em que a teoria realmente começa a se desvendar. Se uma metateoria exige a inclusão de uma segunda teoria substancial que procura explicar a mesma coisa, e quando essa teoria contradiz e elabora explicações completamente diferentes, fica claro que a metateoria é incompleta. É uma explicação parcial, da mesma maneira que a teoria em que se submeteu. Tanto o patriarcado quanto a teoria do gênero são explicações parciais, e de forma alguma constituem uma teoria completa ou meta-teoria. A inclusão da teoria de gênero, que é uma teoria de como homens e mulheres são condicionados ou suas subjetividades produzidas através de ideologia ou discurso em sua oposta, uma teoria biologicamente determinista levou a um enorme problema de análise no feminismo radical. Para não mencionar um nível de confusão. Todo o conceito “mulher” está sob ameaça na teoria de gênero, mas o feminismo radical, apesar de basear suas premissas no sexo biológico, busca proteger essa identidade. Em última análise, tentando afirmar que o conceito de mulheres, não é socialmente construído totalmente, mas também e, em última instância, determinado pelo sexo biológico.

O determinismo biológico e o idealismo burguês não levam da análise à superação da opressão. Uma descrição não pode ser uma explicação. Uma explicação parcial ou descrição não é uma teoria, embora possa descrever certas condições em um nível empírico, não explica como isso se encaixa na maior totalidade da sociedade.

Historiografia sexista da opressão feminina

Este é um brilhante extrato de Engels de Sharon Smith e as origens da opressão das mulheres.

As explicações específicas para a opressão das mulheres variam amplamente – algumas são francamente absurdas e a maioria se baseia muito mais na mera especulação do que em qualquer evidência concreta. As teorias mais comuns foram baseadas na suposição de que a maior força física dos homens as leva a ser mais agressivas (a lógica é, presumivelmente, que os homens dominam as mulheres simplesmente porque podem). A familiar imagem infantil de neandertais peludos arrastando suas mulheres pelos cabelos, de caverna a caverna, certamente parece estar baseada nesta falsa suposição biológica.

Grande parte do debate sobre a origem da opressão das mulheres ocorreu no campo da antropologia, o estudo das sociedades humanas. Longe de uma ciência objetiva, o estudo antropológico traz consigo toda a bagagem subjetiva dos próprios preconceitos culturais de seus pesquisadores. O mais óbvio é o chauvinismo masculino que dominou o campo até algumas décadas atrás, que levou a maioria dos antropólogos a assumir que todas as funções importantes em qualquer sociedade foram desempenhadas pelos homens. Eleanor Burke Leacock citou um exemplo claro em seu livro, Myths of Male Dominance , de uma passagem do antropólogo Robin Fox que foi escrita como se fosse apenas para um público masculino:

Pois no comportamento como na anatomia, a força de nossa linhagem reside em uma estrutura relativamente generalizada. Foi precisamente porque não nos especializámos como os nossos primos babuínos que tínhamos de conceber soluções que envolvam o controlo e troca de fêmeas.

Até que o movimento das mulheres do final dos anos 1960 começou a desafiar o machismo, as suposições sexistas forneceram a base para amplas generalizações. Claude Lévi-Strauss, um importante antropólogo dentro da escola estruturalista, chega a argumentar que “a sociedade humana … é principalmente uma sociedade masculina”. Ele argumenta que a “troca de mulheres” é uma característica “praticamente universal” da sociedade humana, em que homens obtêm mulheres de outros homens – de pais, irmãos e outros parentes do sexo masculino. Além disso, ele afirma que “a tendência poligâmica profunda, que existe entre todos os homens, sempre faz com que o número de mulheres disponíveis pareça insuficiente.” Portanto, “as mulheres mais desejáveis ​​devem formar uma minoria”. É um fato real, ou para todos os intentos e propósitos, sempre em estado de desequilíbrio e tensão.”  Segundo Lévi-Strauss, então, as mulheres têm sido vítimas passivas da agressão sexual dos homens desde o início da sociedade humana.

Da mesma forma, os observadores ocidentais têm frequentemente trazido consigo seus próprios preconceitos culturais (incluindo, muitas vezes, o chauvinismo cultural) quando estudam sociedades de caçadores-coletores ou horticultores. As alfândegas são medidas usando um critério ocidental, em vez de tentar entender o sistema de valores único de uma cultura particular. Por exemplo, a prática comum entre as mulheres esquimós de dormir com visitantes do sexo masculino é muitas vezes interpretada como um exemplo de baixo status de mulheres esquimó – de mulheres oferecidas como presentes ou propriedades. No entanto, isso pode ou não ser verdade. Como Leacock ressalta, trata-se de uma “leitura etnocêntrica que presume que uma mulher não gosta (já que não deveria) de brincar com sexo com ninguém além de seu marido ‘real’ e que se recusa a reconhecer que a variedade nas relações sexuais é divertida para as mulheres (onde não é circunscrito por todos os tipos de tabus), assim como aos homens”. Por si só, esse costume sexual pouco fala sobre o status das mulheres na sociedade esquimó hoje, quando está razoavelmente integrado ao sistema capitalista – muito menos que status tem sido historicamente.

Como Sharon Smith deixa claras as teorias do determinismo biológico e a naturalidade da subordinação das mulheres tirada da ideologia burguesa, distorcia o estudo da antropologia.

E em outra análise brilhante de “Feminist Stick Bending”, ela expõe como as teorias feministas também foram culpadas de moldar as evidências à sua teoria. Como o essencialismo biológico e a teoria radical da opressão das mulheres como sendo enraizadas nessa biologia levam a evidências tendenciosas, em apoio a argumentos sobre a agressão dos homens e a natureza das mulheres.

Muitos escritores feministas têm sido igualmente culpados de moldar a evidência para se adequar à teoria. Por exemplo, Sherry Ortner argumenta em “A mulher é do sexo masculino como a natureza é a cultura?” Que, historicamente, a capacidade das mulheres de dar à luz as aproximou da “natureza”, enquanto a capacidade dos homens para a guerra permitiu que elas dominassem. Com base nisso, ela faz a ampla generalização de que “em todos os lugares, em todas as culturas conhecidas, as mulheres são consideradas, em certo grau, inferiores aos homens”. Mas ela não tem provas – e o que ela oferece está longe de ser definitivo. Por exemplo, ela cita um estudo de 1930 de uma sociedade matrilinear americana indiana, a Crow. Embora Ortner admita que, na maioria dos aspectos, as mulheres corvos ocupam posições de autoridade relativamente alta, ela cita o tabu do Corvo em relação às mulheres durante a menstruação como prova de que elas são, no entanto, consideradas inferiores. Entre outras coisas, as mulheres menstruadas não podem tocar em um homem ferido ou em um homem que começa em uma festa de guerra.

Essa prática bastante comum de isolar mulheres menstruadas em sociedades primitivas é muitas vezes citada pelas feministas como evidência de que os poderes reprodutivos das mulheres são uma fonte de medo e desprezo universalmente. Mas eles não são. Por um lado, algumas sociedades de caçadores-coletores não têm nenhum tabu menstrual. Em outros, os homens tentam imitar os poderes reprodutivos das mulheres. E, como Stephanie Coontz e Peta Henderson apontaram, essa interpretação dos tabus menstruais deixa “a impressão de que as mulheres são consideradas impuras ou más em vez de reconhecerem que certas substâncias, como o sangue, são consideradas perigosas, quer sejam derramadas por mulheres. Ou homens ”em muitas sociedades.

Certamente, alguns antropólogos feministas – particularmente feministas-socialistas, como Coontz e Henderson citados acima – contribuíram historicamente para o nosso entendimento da opressão das mulheres e, em alguns casos, ajudaram a desenvolver a teoria de Engels. 13 E algumas antropólogas feministas contribuíram com dados extensos, ajudando a substanciar a afirmação de Engels sobre a existência de sociedades igualitárias pré-classe, como o estudo de Patricia Draper sobre a sociedade Kung na África Austral e a pesquisa de Judith Brown sobre os iroqueses.

Mas, em sua forma mais pura, grande parte da teoria feminista repousa apenas sobre a suposição – cuja abrangência é limitada apenas pela imaginação de seus autores. Dependendo de quem está fazendo a escrita, os homens dominam as mulheres porque elas desprezam as mulheres por sua capacidade de gerar filhos – ou porque têm inveja da capacidade das mulheres de ter filhos. Os homens oprimem as mulheres porque há muito tempo as mulheres formaram um poderoso matriarcado que foi derrubado – ou porque os homens sempre foram um patriarcado tirânico.

Gerda Lerner argumenta em seu livro, The Creation of Patriarchy, “Feministas, começando com Simone de Beauvoir … [explicaram a opressão das mulheres] como causada pela biologia masculina ou pela psicologia masculina.” Ela continua descrevendo uma amostra de teorias feministas, todas dos quais fronteira com o estranho:

Assim, Susan Brownmiller vê a capacidade do homem de estuprar mulheres levando à sua propensão a estuprar mulheres e mostra como isso levou ao domínio masculino sobre as mulheres e à supremacia masculina. Elizabeth Fisher argumentou engenhosamente que a domesticação de animais levava os homens à ideia de estuprar mulheres. Ela afirmou que a brutalização e a violência ligadas à domesticação de animais levaram ao domínio sexual dos homens e à agressão institucionalizada. Mais recentemente, Mary O’Brien construiu uma explicação elaborada de The Origin of male dominance sobre a necessidade psicológica dos homens de compensar sua incapacidade de gerar filhos através da construção de instituições de dominação e, como Fisher, datou essa “descoberta” no período de a descoberta da domesticação animal. 14

Como Smith expõe, a teoria feminista lançou algumas explicações estranhas e maravilhosas! Eu sugeriria que continuará a fazê-lo o tempo todo em que deixamos de reconhecer que nossa opressão não está fundamentada em “IDEIAS”. Idéias são o modo pelo qual apreendemos o mundo material, elas não são em nenhum sentido um substituto para aquele material. realidade.

O método marxista

Natureza humana

Talvez o melhor lugar para começar seja com o conceito marxista da natureza humana. Os liberais postulam que a natureza humana é fixa, competitiva e baseada em características únicas que nos separam da natureza, como a racionalidade e a linguagem. A concepção marxista da natureza humana rejeita a idéia de que temos características fixas, mas o que nos torna humanos é que somos ambos parte da natureza e nos separamos da natureza através da atividade. A consciência surge fora de atividade e, através do ato de trabalhar, moldamos a natureza e nossa relação com ela, mas também, mais significativamente, nossa própria natureza. Ao contrário de outros animais que agem apenas através do instinto, através de um processo evolutivo complexo e longo, os seres humanos passaram a agir consciente e intencionalmente sobre a natureza. Homens e mulheres através do trabalho criam uma sociedade que age sobre eles moldando sua consciência. A produção e a reprodução das relações de produção condicionam as instituições políticas e sociais, filosóficas, legais e religiosas que correspondem a esse modo de produção. Marx declarou: “Não é a consciência dos homens que determina sua existência, mas sua existência social real que determina sua consciência.” (Karl Marx, Uma Contribuição para a Crítica da Economia Política) As feministas marxistas também acreditam que a existência social determina a consciência. As feministas marxistas acreditam que a subordinação das mulheres aos homens não é trans-histórica e nem sempre existiu.

Engels

A teoria da derrubada histórica das mulheres baseia-se no trabalho de Morgan, antropólogo do século 19 e na publicação de seu artigo denominado Sociedade antiga. Este foi o primeiro relato materialista da evolução da sociedade humana. Tendo estudado em primeira mão os índios iroqueses, concluiu que a família nuclear moderna não era um fato universal ou trans-histórico.Ele começou a pesquisar outras sociedades, descobrindo que laços semelhantes de parentesco existiam, mas que o parentesco e a estrutura familiar correspondiam e evoluíam por etapas baseadas nas “sucessivas artes de subsistência”. Engels construiu a teoria de Morgan em A Origem da Família, Propriedade Privada e o Estado. Também deve ser notado que Engels se baseou no trabalho de Darwin que publicara a Origem das Espécies em 1859.

Em The Origin. Engels partiu-se para historicizar a estrutura familiar e a forma na qual a sociedade é organizada, desenvolvendo uma teoria de como a ascensão da sociedade de classes através de mudanças na agricultura e produção fornece o ímpeto para a primeira divisão do trabalho. Sociedade que exige que o Estado aja de acordo com os interesses da classe dominante. Isso corresponde à “derrubada épica das mulheres”, pois o Estado, por meio de suas leis e sua cultura, procura proteger os direitos de propriedade da classe dominante. Enquanto Gerda Lerner e outros estudiosos feministas tentaram traçar as origens do patriarcado concluindo que a cultura e a religião tiveram um papel na subjugação das mulheres, citando evidências de deuses femininos sendo substituídas pelo deus masculino onipotente, isso deveria ser entendido dentro da estrutura marxista. , da base e superestrutura. A religião, as ideias e a consciência de um povo surgem das condições em que trabalham, de sua existência social. São formadas ideologias que perpetuam e legitimam as condições materiais de produção, e servem ao propósito de ampliar e proteger os direitos de propriedade daqueles que controlam os meios de produção e a riqueza social dentro da sociedade. A função reprodutora das mulheres torna-se cada vez mais interessante para os gostos de Aristóteles e outros filósofos gregos que defendem a ideia de que a divisão da esfera pública e privada, da produção e da reprodução é fundada na função reprodutiva das mulheres. Essas “ideias” apenas refletem e perpetuam uma ideologia e cultura cujo modo de produção e criação de riqueza repousa sobre a exploração de uma classe por uma classe dominante. Isto é evidenciado pelo movimento da herança matrilinear e patrilinear.

A subordinação das mulheres ocorreu na maioria das sociedades conhecidas. Kate Millet, que foi a primeira feminista radical a localizar isso dentro da família, afirmou que “o patriarcado é a regra dos pais”. Entretanto, essa estrutura familiar e o “poder” do patriarca são apoiados por seu privilégio econômico dentro da família. Na Grécia antiga, o patriarca da família tinha plena igualdade política. A divisão da vida privada e pública emerge, com os homens tendo tanto uma vida privada em que nenhum outro homem poderia interferir e uma vida pública em que ele tinha plena igualdade com os outros cidadãos. As mulheres não tinham vida pública, não tinham igualdade política e eram relegadas à esfera privada da família.

Antes da formação dos estados arcaicos, e antes do surgimento da sociedade de classes,

A teoria marxista aborda a questão da opressão das mulheres usando um método inteiramente materialista. Não se baseia em idéias e suposições, mas no exame cuidadoso da história e da evolução das sociedades. Em várias sociedades primitivas, as mulheres eram iguais aos homens e, em algumas, mulheres e homens matriarcais viviam separadamente e a estrutura familiar moderna que vemos sob o capital não existia. Na concepção materialista que coloca a produção e reprodução da vida no centro da vida dos seres humanos, vemos, por um lado, a produção da subsistência e reprodução das espécies.

A metodologia marxista é tanto materialista quanto dialética. Somos produtos do mundo natural e também produtivos. Como Marx deixa claro nos manuscritos filosóficos e como Engels também delineia no macaco ao homem, somos distinguidos de outros animais por nossa atividade consciente. Os animais são parte de uma economia predatória, como teorizado por Darwin, e os animais agem por instinto. A economia humana é premeditada, porque agimos com uma certa dose de livre arbítrio, temos a capacidade de agir conscientemente, planejar e refletir sobre nossas ações. Nós constituímos nossa natureza e nossa relação com a natureza através do trabalho. Nós só temos “ideias” e autorreflexão porque somos auto constituintes. Nesse sentido, somos o que Marx chamou de Zoon Politikan e um animal de trabalho. Nossa natureza é melhor descrita como “essencialmente” flexível e mutável. Em Ape para o homem, Engels expôs como o trabalho constitui tanto a consciência evolutiva do homem quanto o desenvolvimento da fala, e faz a hipótese de que a evolução física do homem foi condicionada ao seu trabalho. Então, enquanto nós evoluímos para realizar tarefas mais complexas, a complexidade dessas tarefas e a necessidade de resolver questões relativas à produção e reprodução da vida orientam a evolução para que possamos eventualmente transformar completamente nossa relação com o mundo natural. É claro que este processo ainda está em curso e pode ser evidenciado através da ciência e também através das formas em que o capital está moldando novas subjetividades, o desenvolvimento do trabalho imaterial, o intelecto geral e como a ciência está novamente removendo barreiras naturais para nossa produção e reprodução da vida. .

Comunismo Primitivo

Antes da sociedade de classes, a ideia de pareamento estritamente monogâmico de masculino e feminino como a família nuclear era desconhecida. A desigualdade também era desconhecida. Esse entendimento é importante na teoria feminista marxista porque deixa claras as ligações entre a formação da propriedade privada e a família, a família e a opressão das mulheres. A estrutura da família, o surgimento de relações patriarcais podem ser historicizadas, para mostrar que o patriarcado não é a lógica dominante da história humana, mas é o local no qual a opressão das mulheres começa. As relações patriarcais e o patriarcado como uma meta-teoria são duas coisas muito diferentes. A opressão não está enraizada na biologia masculina ou feminina, e os homens não intencionalmente nem por instinto natural procuraram oprimir as mulheres.

Sociedade de Classe, divisão do trabalho e a opressão das mulheres

A evolução ocorreu ao longo de 2 milhões de anos, a formação de antigas sociedades tribais em sociedades de classes desenvolvidas ao longo de muitos milhares de anos. Os marxistas acreditam que as mudanças na agricultura levam, pela primeira vez, às condições em que as pessoas estabelecem a terra, apropriam-se da terra e criam excedentes. Este excedente é o primeiro ponto em que os seres humanos podem desenvolver um excedente de riqueza. Engels escreveu que só quando vemos a divisão do trabalho, entre produtores e não produtores, vemos também a divisão entre vida pública e privada. A vida pública dedicada à produção e à apropriação da riqueza e da vida privada dedicada à reprodução da vida. Engels e Morgan evidenciaram uma divisão sexual anterior do trabalho, mas essa divisão não impediu as mulheres de serem produzidas. De fato, mesmo tão tardiamente quanto a indústria caseira e o sistema feudal, as mulheres proporcionavam trabalho produtivo, pelo menos tanto quanto os homens.

Aqui, o impacto da propriedade privada sobre a condição da vida das mulheres é resumido aqui por Sacks em The Woman Gatherer .

A propriedade privada transformou as relações entre homens e mulheres dentro do lar apenas porque também mudou radicalmente as relações políticas e econômicas na sociedade mais ampla. Para Engels, a nova riqueza em animais domesticados significava que havia um excedente de bens disponível para troca entre unidades produtivas. Com o tempo, a produção de homens especificamente para fins de intercâmbio se desenvolveu, expandiu e veio a ofuscar a produção do lar para uso. Como a produção de troca eclipsou a produção para uso, ela mudou a natureza do lar, o significado do trabalho feminino dentro dele; consequentemente, a posição das mulheres na sociedade.

A derrubada do direito materno ou formas matrilineares de organização correspondem ao advento da propriedade privada. A noção feminista de que os homens são ciumentos ou desconfiados da “relação mais próxima da mulher com a natureza através da reprodução” não explica essa transição. Na verdade, isso só explica as ideias que surgiram da sociedade que buscava racionalizar a derrubada do direito da mãe. Mulheres e crianças passam a ser vistos como trocáveis, como propriedade e mulheres como mero instrumento de reprodução.

Engels e marxistas depois dele fizeram a alegação de que o casamento e a monogamia não são baseados em alegações morais. Afirmações morais feitas através da religião, depois através da filosofia idealista e, mais tarde, ainda através da ética e ciência burguesas, são simplesmente construídas ideologicamente. Desde o início, a família tem como premissa a hipocrisia, as mulheres estampadas com o caráter “monogamia” porque nos dizem que é parte de nossa natureza e homens com o caráter “namorador” porque está estampada em sua biologia básica para procriar com muitas mulheres quanto possível.

A Família sob Capital

Na época em que Marx e Engels estavam escrevendo, a família “ideal” era a família burguesa. A ideologia disso ainda se refletia na religião e pode, em parte, ser uma das razões pelas quais o pensamento esclarecedor era completamente incapaz de eliminar a religião da sociedade. Os remanescentes da cultura estabelecida só podem se combinar com a nova cultura emergente, ao fazê-lo, ambos são modificados. No momento em que Engels está escrevendo sobre a família, os cientistas e outros antropólogos estão dando um ímpeto moral às descobertas da ciência. O casamento protege contra os males da prostituição, pobreza e doença. No entanto, é claro que a prostituição e o casamento são lados diferentes da mesma moeda.

Sob o capitalismo avançado, ocorreram mudanças na estrutura familiar, tanto através da luta das mulheres contra a opressão, mas também através da revolução nos meios de produção, os vários estágios em que o capital cooptou as mulheres para a força de trabalho e o modo pelo qual a manufatura das subjetividades e a reprodução das relações de capital criaram uma maior dose de individuação. O colapso familiar é tanto uma consequência da maior liberdade feminina quanto benéfica para a renovação do capital, e a colocação da mulher como chefe de família não teve o efeito de igualar salários de homens e mulheres, mas de criar novos mercados. Novos mercados de cuidados infantis, refeições por micro-ondas, novos setores de serviços dedicados ao trabalho doméstico de corte curto, novas políticas destinadas a proteger a própria capacidade de prover a si mesmo, um boom na construção de casas e commodities domésticas, indústria de beleza em expansão e investimento em si. Grande área de acumulação capitalista. Mas a noção idealista de casamentos e a necessidade de gastar muitos milhares em serviços de casamento e artigos frívolos se assemelha ao mantra da responsabilidade individual e do investimento em si mesmo.

Maria Della Costa e outras mulheres italianas da esquerda foram rápidas em teorizar as maneiras pelas quais o capital explorava as mulheres na época em que escreviam nos anos 60, 70 e 80. O boom pós-guerra da era fordista, juntamente com a configuração política que lhe correspondia do socialismo democrático, chegou ao fim em meados da década de 1960. As taxas decrescentes de lucro reduzindo a expansão e o investimento capitalista, juntamente com as taxas crescentes de salários e as demandas dos trabalhadores de salários ainda mais altos combinados para criar uma situação onde as mulheres estão tendo que repensar sua relação com o capital e com a família. No boom pós-guerra de salários mais altos e aumento da produtividade. Mercados de trabalho limitados e antes da rápida expansão global do Oriente, as mulheres eram limitadas em oportunidades de trabalho. Os homens foram capazes de ganhar um “salário familiar”. Os sindicatos estavam ativos em manter as mulheres fora do mercado de trabalho e os governos estavam vendendo a ideologia da maternidade.

Foram Della e Costa, James e outros como eles dentro da tradição marxista que começaram a teorizar sobre a maneira pela qual o trabalho não remunerado das mulheres beneficiou diretamente tanto o lucro capitalista, a criação de mais-valia e a recriação das condições da exploração capitalista, através do aparelho ideológico da família. As mulheres não apenas forneciam “valor de uso” para sustentar os trabalhadores do sexo masculino, mas eram consumidores e talvez os maiores ideólogos do capitalismo. Eles estavam empenhados em criar filhos que assumissem as características de docilidade e propensão ao trabalho árduo exigido pelos empregadores. Mas as mulheres também estavam alienadas da sociedade, da companhia de outras mulheres, trabalhavam longas horas sem remuneração, eram isoladas e tinham poucas proteções nos termos da lei. A ideologia da maternidade e a virtude atribuída ao casamento como um status social, juntamente com a dependência das mulheres em relação à sobrevivência econômica, fizeram com que as mulheres se submetessem aos caprichos de seus colegas homens. A cultura é retratada e reflete a natureza das mulheres como nutridoras, sorridentes, atraentes e suplicantes à vontade do marido. Nos comerciais, as mulheres usavam lindas roupas impraticáveis, saltos e batom vermelho e um belo sorriso enquanto ela servia o jantar. Os homens eram retratados como tipos silenciosos que exigiam tempo para descansar antes de voltar para a fábrica. O patriarca voltaria e ficaria esperando para satisfazer suas necessidades com sua dócil e sorridente esposa. É claro que, enquanto a cultura refletia isso, e perpetuava essa ideia, também o fazia porque alimentava o consumismo. O advento da televisão exigia que pelo menos um membro da família em cada casa precisasse de tempo para assisti-lo. Mas a TV tinha uma função ideológica e, à medida que as estações proliferavam sob a propriedade privada, a ideologia dos mercados livres e a virtude da escolha e liberdade do consumidor aumentavam ainda mais a demanda por consumo.

O salário para a campanha do trabalho doméstico talvez fosse um pouco ingênuo. A ideia de que o capital compense as mulheres pelo seu trabalho. Foi proposto que os salários deveriam ser pagos pelo Estado. No entanto, isso desconsiderava o fato de que, como o Estado serve aos interesses da acumulação de capital, o custo desses salários recairia sobre as próprias famílias da classe trabalhadora que deveriam se beneficiar. Seria um gesto vazio roubar o cheque do marido para dar esse dinheiro para a esposa.

Outras feministas marxistas, na época, teorizaram que apenas a socialização do trabalho das mulheres poderia gerar igualdade. No entanto, a “ideologia da família” e o fato de que, mesmo se socializada, esse trabalho ainda seria percebido como trabalho feminino, significava que esse trabalho ainda seria concebido como de baixo valor. Somente as mulheres que retornam ao trabalho e fazem campanha por salários iguais abordariam a questão da opressão das mulheres sob o capital.

Gostaria de sugerir que nenhuma dessas tendências faz mais do que oferecer uma análise do problema. O grande avanço teórico neste trabalho, porém, é a forma como eles mostram como a acumulação capitalista se beneficia do trabalho não pago.

Della Costa nos diz que

“Nós nos concentramos aqui na posição da mulher da classe trabalhadora, mas isso não significa que apenas mulheres da classe trabalhadora sejam exploradas. Antes, é confirmar que o papel da dona de casa da classe trabalhadora, que acreditamos ter sido indispensável para a produção capitalista, é o fator determinante para a posição de todas as outras mulheres. Toda análise de mulheres como uma casta, então, deve proceder da análise da posição das donas de casa da classe trabalhadora”

Embora a análise deva partir da posição de superexploração das mulheres da classe trabalhadora e sua posição nas hierarquias de classe do capitalismo, as mulheres de classe média que não trabalham também são oprimidas, por sua relação como consumidores e sua dependência dos trabalhadores do sexo masculino.

“Enquanto falamos do mundo ocidental e da Itália em particular, queremos deixar claro que, na medida em que o modo de produção capitalista também traz o Terceiro Mundo sob seu comando, o mesmo processo de destruição deve estar e está ocorrendo lá. . Tampouco devemos supor que a família que conhecemos hoje nos países ocidentais tecnicamente mais avançados é a forma final que a família pode assumir sob o capitalismo. Mas a análise de novas tendências só pode ser o produto de uma análise de como o capitalismo criou essa família e qual o papel da mulher hoje, cada um como um momento em um processo”.

Aqui ela deixa claro que a estrutura então presente da família é ditada pela ideologia capitalista e, na prática, pela dependência das mulheres sobre a unidade econômica da família.

“As lutas cotidianas que as mulheres desenvolveram desde a Segunda Guerra Mundial vão diretamente contra a organização da fábrica e da casa. A “falta de confiabilidade” das mulheres no lar e fora dele cresceu rapidamente desde então, e vai diretamente contra a fábrica como arregimentação organizada no tempo e no espaço, e contra a fábrica social como organização da reprodução da força de trabalho. Esta tendência para mais absenteísmo, para menos respeito pelos calendários, para uma maior mobilidade profissional, é partilhada por homens e mulheres jovens trabalhadores. Mas onde o homem para os períodos cruciais de sua juventude será o único suporte de uma nova família, as mulheres que no todo não são restringidas desta maneira e que devem sempre considerar o trabalho em casa, estão fadadas a se desvincularem ainda mais do trabalho. disciplina, forçando a interrupção do fluxo produtivo e, portanto, maiores custos para o capital. (Esta é uma desculpa para os salários discriminatórios que muitas vezes compensam a perda de capital.) É essa mesma tendência de desinteresse que grupos de donas de casa expressam quando deixam seus filhos com seus maridos no trabalho. * Essa tendência é e cada vez mais ser uma das formas decisivas da crise nos sistemas da fábrica e da fábrica social”.

As mulheres não são mais capazes de manter o ideal do trabalhador produtivo dócil ou do ideal da dona de casa. Em vez disso, ela trabalha em um turno duplo. Sua subjetividade não é de emancipação nem do trabalho da fábrica nem do tedioso tédio do trabalho não remunerado em casa. A extensão do conceito da fábrica para a fábrica social coincide com o movimento em direção à produção pós-fordista. Embora Della Costa e outras feministas marxistas já tivessem proposto que a sociedade se tornasse a “fábrica social” porque o espaço fora da fábrica produzia e reproduzia não apenas os seres humanos que povoam a força de trabalho dentro da fábrica, mas também as subjetividades necessárias à renovação perpétua da fábrica. A força de trabalho. Esse processo de produção dentro da fábrica social não apenas produz trabalho, mas cria a determinação de trabalhar, é o local da troca de mercadorias.

Ela também aponta para a forma como o capital justifica o salário feminino menor, devido à menor produtividade. Isso ressalta a teoria do valor trabalhista de Marx: se as mulheres recebem mais benefícios da doença e da maternidade que basicamente fazem parte de seus salários, elas minam o modo pelo qual a mais-valia é extraída do trabalho excedente; eles recebem uma compensação na taxa de subsistência que corresponde ao trabalho necessário enquanto produz menos valor excedente, porque eles trabalham menos horas no geral. Isso significa que os salários devem ser ajustados para levar isso em conta, caso contrário, o emprego das mulheres torna-se não lucrativo. No entanto, a mudança para empregos no setor de serviços nos países ocidentais e a terceirização da produção de commodities criam produção ampliada com o que poderia ser chamado de “fábrica global”. Ela diz que “o modo de produção capitalista também traz o Terceiro Mundo comando, o mesmo processo de destruição deve ser e está ocorrendo lá. ” Empiricamente, é verdade que as mulheres compõem 2/3 da força de trabalho do mundo, enquanto também compõem 2/3 dos mundos mais pobres.

“Com o advento do capitalismo, a socialização da produção foi organizada com a fábrica como seu centro. Aqueles que trabalhavam no novo centro produtivo, a fábrica, recebiam um salário. Aqueles que foram excluídos não. As mulheres, as crianças e os idosos perderam o poder relativo que derivava da dependência da família de seu trabalho, que era visto como social e necessário. O capital, destruindo a família e a comunidade e a produção como um todo, por um lado, concentrou a produção social básica na fábrica e no escritório e, por outro, separou o homem da família e transformou-o em um trabalhador assalariado. Colocou sobre os ombros do homem o peso da responsabilidade financeira pelas mulheres, crianças, velhos e doentes, em uma palavra, todos aqueles que não recebem salário. A partir desse momento começou a expulsão da casa de todos aqueles que não procriavam e serviam aos que trabalhavam por salários”.

Onde anteriormente mulheres haviam participado da produção e foram capazes de manter algum poder dentro da família porque seu trabalho era valorizado, o trabalho não remunerado da reprodução dentro da esfera privada passou a representar a desvalorização das mulheres e seu trabalho em geral. Ela assume a responsabilidade do trabalho social e carinhoso, de graça. Assim, o trabalho das mulheres em todas as suas formas não tem valor social, o valor é mediado pela troca e a realização do valor sob o capital é apenas a realização do valor socialmente determinado através da troca. Onde a produção de mercadorias é pressuposta pela troca, e o valor só é percebido através da troca, é um fenômeno social onde as mercadorias passam a representar as relações entre as pessoas, o trabalho não remunerado das mulheres é socialmente determinado a não ter valor.

“É preciso ressaltar que essa separação das crianças dos adultos é essencial para a compreensão do pleno significado da separação das mulheres dos homens, para compreender plenamente como é a organização da luta por parte do movimento das mulheres, mesmo quando é preciso forma de uma rejeição violenta de qualquer possibilidade de relações com os homens, só pode visar a superar a separação que é baseada na “liberdade” do trabalho assalariado.

As fábricas que põe fim à exploração do trabalho infantil não eram um ato de altruísmo, como alguns sugeririam. No entanto, a relação antagônica de desigualdade entre homens e mulheres fundada nas consequências sociais do papel das mulheres como cuidado infantil, a incapacidade de competir com homens dentro da força de trabalho devido a responsabilidades de cuidado colocam falsamente homens e mulheres uns contra os outros. Supondo que a causa do antagonismo é o homem subjugando mulheres, em vez da opressão estrutural do capital e sua exploração do trabalho livre das mulheres. Este argumento é completamente contrário ao feminismo liberal que defende que as práticas culturais e a ideia de que as mulheres não possuem as habilidades necessárias ou as oportunidades, ou vontade de trabalhar, e que a legislação pode superar o problema da desigualdade salarial. E que essas práticas culturais que prejudicam as mulheres beneficiam os homens, e que os homens defendem seu direito a salários mais altos simplesmente em virtude de alguma crença na superioridade.

Isso também toca na ideia de que a liberdade de vender o trabalho é algo a ser elogiado. A concepção liberal da liberdade postula que os homens entram livremente em relações de troca, um como o comprador da força de trabalho, o outro como proprietário e vendedor da força de trabalho. Isso ignora o fato de que os trabalhadores não possuem mais os meios de produção e têm a opção de trabalhar ou passar fome. Quanto mais as mulheres entram na força de trabalho na crença de que elas estão criando igualdade entre homens e mulheres, mais as mulheres serão duplamente exploradas, como trabalhadores não assalariados e também como trabalhadores assalariados.

“Nas crianças do ensino fundamental, naqueles que são filhos e filhas dos trabalhadores, há sempre a consciência de que a escola está, de alguma forma, colocando-os contra seus pais e seus pares e, consequentemente, há uma resistência instintiva ao estudo e ao ser. educado”. Esta é a resistência pela qual as crianças negras estão confinadas a escolas subnormais na Grã-Bretanha. A criança da classe trabalhadora europeia, como a criança da classe trabalhadora negra, vê no professor alguém que está ensinando algo contra sua mãe e seu pai, não como uma defesa da criança, mas como um ataque à classe (trabalhadora). O capitalismo é o primeiro sistema produtivo onde os filhos dos explorados são disciplinados e educados em instituições organizadas e controladas pela classe dominante”.

A escola faz parte de um processo de produção ampliado, onde o sujeito é moldado em força de trabalho. Se este for o caso, pode-se comprovar teoricamente que a esfera doméstica e doméstica da “fábrica social” é também o local de produção ampliada. A importância teórica disso é enorme porque significa que, como em outras áreas de produção ampliada, ela cria uma mais-valia para a acumulação de capital. Não só a escola é o local da ideologia, mas o local de produção … produção da força de trabalho de mercadorias. A força de trabalho, como sabemos, tem um valor de troca, o do salário, isso significa que os salários, todos os salários são determinados pela necessidade de locais de produção ampliados dentro do processo geral de produção. Isso também significa que os preços e os salários são determinados pelo custo da produção ampliada. Isto levanta outra observação, o Estado não é apenas um colecionador de impostos, um empregador do trabalho, mas parte do modo de produção capitalista geral. Não só funciona em seu papel como a administração do interesse do capital, mas é também o produtor de valores de troca.

Della Costa e outras feministas marxistas, apesar de se concentrarem na produção e na reprodução, excluindo outras áreas frequentemente adotadas pelo feminismo, não defendem que as mulheres deixem de cuidar dos filhos. Não advogue os bebês de proveta ou um movimento em direção a algum tipo de utopia onde o sexo e a procriação são dispensados. A Shulamith Firestone pode ter defendido o crescimento de bebês em úteros artificiais, mas, como Della Costa deixa claro, os meios de produção não são controlados socialmente. A ciência é usada para promover as ideias e os caprichos de uma classe dominante, o capital usa os avanços da tecnologia para seus próprios fins e para expandir. Considerar o passo adicional de que a reprodução é feita socialmente, mas sob o controle do capitalismo, não é uma opção que deva ser considerada.

“Nós não estamos ignorando as tentativas neste momento de fazer bebês de proveta. Mas hoje esses mecanismos pertencem completamente à ciência e ao controle capitalistas. O uso seria completamente contra nós e contra a classe. Não é do nosso interesse abdicar da procriação, entregá-la às mãos do inimigo. É do nosso interesse conquistar a liberdade de procriar, pela qual não pagaremos nem o preço do salário nem o preço da exclusão social”.

A emancipação feminina da reprodução não pode ser feita sob o modo de produção existente. Escapar da biologia não é a resposta.

Os salários para a reprodução social fortalecem ainda mais a divisão entre homens e mulheres e realçam ainda mais o baixo valor econômico do trabalho das mulheres. A socialização do processo de trabalho implica para muitas mulheres o completo desmantelamento da família, mas, além disso, um salário que seria baseado no baixo valor de tal trabalho. Revolucionar a reprodução não é benéfico sob o capitalismo, mesmo que fosse libertar as mulheres para competir igualmente com os homens, então, qual é a raiz da emancipação para as mulheres?

Razões pelas quais precisamos da emancipação revolucionária das mulheres

As feministas liberais insistem que convencer os homens a aceitarem mais tarefas domésticas libertará as mulheres, mas isso não liberta as mulheres da exploração não remunerada, mesmo se a libertássemos para que ela possa ser apenas uma trabalhadora assalariada igualmente explorada. Embora isso possa, em princípio, criar igualdade entre os sexos, cria um falso tipo de igualdade. Produz uma igualdade de oportunidades “idealista” e liberal. Mas devemos notar que, sob a doutrina da liberdade mediada pelo mercado, algumas pessoas têm muito mais escolhas e oportunidades do que outras. Toda mulher pode ter o direito de trabalhar, mas, como já sabemos, algumas mulheres são coagidas a trabalhar por causa de sua classe, e outras ainda são coagidas para o pior tipo de trabalho, a indústria do sexo. As mulheres da classe média estarão igualmente livres para trabalhar, mas não são igualmente coagidas a fazer qualquer tipo de trabalho remunerado ou não. “O trabalho da esposa” pode ser contratado, seja cozinhando, cuidando de crianças ou mesmo serviços sexuais fornecidos ao marido por mulheres da classe trabalhadora.

As feministas liberais fazem campanha por reformas legais, mais uma vez essas reformas são e sempre terão efeito limitado. A desigualdade entre homens e mulheres não se baseia em direitos legais.

As ideias e a cultura que a sociedade capitalista produz persuade homens e mulheres da inferioridade das mulheres, é difícil ver como a legislação fez qualquer diferença real. A proliferação de práticas de beleza se beneficia da ideia de que as mulheres envelhecem e tornam-se sem valor, sexo e atratividade estão ligadas à idade e beleza, criando uma situação em que o valor primário das mulheres ainda está em sua capacidade de procriar, apesar do trabalho das mulheres e crianças. Essa ideologia da beleza não é de modo algum natural, mas totalmente benéfica para o mercado de produtos de beleza. A super- exploração das mulheres com salários mais baixos depende da sua capacidade reprodutiva, sem isso não haveria necessidade da ideologia da juventude, beleza e maternidade. A contradição para tudo isso é que as mulheres são condicionadas a se valorizarem como mercadorias, a investir em si mesmas e a se vender e vender-se como mercadorias, mas também como a força de trabalho da mercadoria. A total subjugação da cultura e todos os sistemas de criação de valor no sistema de troca de mercadorias significam que agora recriamos a força de trabalho da mercadoria individualmente. Às mulheres não só reproduzem a força de trabalho do trabalhador do sexo masculino e da próxima geração, mas também devem consumir e investir na produção ampliada de si mesma, ela cria seu próprio valor de troca como o trabalho de mercadoria.

O capitalismo é um sistema de exploração, um sistema que requer falsa consciência e ideologia para perpetuar suas leis e lógica. Vastas desigualdades de riqueza são criadas, novas tecnologias na medicina, novas formas de mudar a natureza e moldar a natureza humana estão sendo desenvolvidas. O capitalismo é tremendamente criativo e extremamente destrutivo. A prática revolucionária molda novas subjetividades e novas relações, ao atravessar esse processo a sociedade modifica tanto os indivíduos quanto suas relações entre si.

Se você ainda pode descobrir pensar em termos de idealismo! Eu lhes darei um pouco de verdade lógica idealista … está absolutamente claro, nenhuma mulher terá igualdade com todos os homens, até que todos os homens sejam iguais um ao outro, e nenhuma mulher terá igualdade com sua contraparte masculina até que todas as mulheres tenham igualdade. Um com o outro. Isto, obviamente, só pode acontecer com a transição para o comunismo.

 Traduzido de: https://themarxistminx.wordpress.com/

Por que as mulheres, mesmo as Feministas, entram em relacionamentos abusivos?

Sempre somos chamadas para responder esta questão, seja por homens ou por mulheres, tratam nos como se fossemos, especialmente as mulheres feministas, obrigadas a ter dons tais como o da visão do futuro, o de ler mentes, traduzir sinais sutis, e o maior deles, renegar a opressão internalizada e os sentimentos plantando em terra fértil, adubada com cobranças sociais de felicidade, alicerçadas em um projeto patriarcal travestido de romance, rumo a família nuclear burguesa.

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Como tudo começa?

Antes de tudo, antes da idade adulta, antes do feminismo… As mulheres nascem e são enquadradas em um gênero que tem toda uma performance subalternizada para ser cumprida e desde o primeiro momento somos vestida com estereótipos: Usamos cor rosa para mostrar que somos delicadas e femininas, a idade avança para infância onde somos estimuladas a seguir os passos de outras mulheres de nossa família, brincando com brinquedos que remetem a maternidade e serviços domésticos, muito cedo os adultos começam a nos dizer que “Quando você crescer e casar”, vemos adultos em observação a amizade de crianças de gêneros diferentes adultizarem a relação, dizendo que “são namorados”, que “vão casar”. Somo ensinadas a ter um comportamento diferente dos homens, a nos entendermos como frágeis e dependentes de proteção paternal, primeiro de nossos pais, tios, irmãos e depois de um homem que surgirá e ocupará este espaço. Somos criadas para sonhar com um homem que virá e tomará o lugar do nosso pai, que nos ama e nos protege (deveriam pelo menos), mas o mesmo pai que ama e protege, também abusa emocionalmente e agride fisicamente, logo estamos preparadas para entender que amor “tem destas coisas”.

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Com o terreno arado e adubado, plantam paulatinamente a ideologia machistas em nossas meninas, e quando chegam a fase adulta, tudo isto está ali, muito internalizado, com raízes muito profundas e estas raízes são cuidadas, todos os dias recebem reforço de mecanismo ideológicos, tais como a mídia, filmes e novelas românticas trazem um aprofundamento do ensinamento “você um dia irá casar e ser muito feliz”, “encontrar o par perfeito”; As religiões que enfiam em nossa cabeça uma verdadeira Ode ao amor romântico, a família nuclear, a fidelidade, sobre custas de caso falharmos incorrermos em um pecado grave; As músicas que falam de amor romântico, sexo baseado em amor (o tal do fazer amor para esconder o “eu quero fazer sexo com você”). Toda romantização das relações afetivas acaba por ser um fertilizante eficaz para acionar na mulher sonhos advindos das plantações machistas internalizadas, e que florescem ao serem iluminadas por este discurso.

O Cavalheirismo no Flerte

 As mulheres relatam que no momento do flerte os homens são exatamente tudo que elas esperavam, elas sentem se fragilizadas, baixam a guarda por que ele está trazendo até ela sinais que acionam seus sonhos pré-fabricados ideologicamente.

Os homens costumam no período do flerte tratar as mulheres de uma forma elevada, elogiam suas qualidades, tratam-nas com delicadeza, assumem um papel de cavalheiro, protetor e gentil. Neste período eles criam expectativas na mulher com uma encenação falsa e que não condiz com sua verdadeira personalidade, trata-se de vestir um personagem que também lhes foi ensinado desde o nascimento.

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Para quem for questionar o fato do cavalheirismo ser algo diferente de machismo, lembremos que o só o nome já nos remete a um período ultrapassado da história onde as mulheres eram ainda mais dependentes dos homens e dependiam destes para arrancá-las de uma torre protegida por um dragão, levando-as para serem feliz com a vida doméstica e cheia de filhos, num final feliz para sempre, não sei bem para quem, talvez para o dragão, ok, analogias a parte, cavalheirismo é uma gentileza especifica do homem para com a mulher que ele tem interesse, subliminarmente ele incute na mulher a ideia de que ela é frágil e precisa de um homem que irá protegê-la, até em coisa absurdas, como andar ao lado dela voltado para o lado da rua para caso algum carro venha a colidir ele a proteja com seu corpo, abrir a porta do carro, afinal desprovida de força fisica, de destreza, até nisso precisa de ajuda…Não se iludam, o cavalheirismo não passa de um “prêmio” do machismo para mulheres que se submetem.

Já-vi-muito.

É importante que as mulheres entendam que durante cerca de 5 mil anos as mulheres foram consideradas inferiores, julgadas por sua biologia, tratadas como limitadas, incompetentes, ações de cavalheirismo podem parecer inocentes porém, não são, alias são extremamente prejudiciais por que acionam inconscientemente ideias internalizadas. Cavalheirismo é diferente de gentileza. A gentileza é algo que fazemos por qualquer pessoa, sem intenções românticas ou sexuais.

Muito natural quando estamos conhecendo uma pessoa querer saber sobre ela e querer contar-lhe sobre nós, no flerte romântico isso se dá de varias formas, mas uma das formas mais acessadas e vocês me digam se é razoável aponta-la, é acessar a mulher do jogo romântico, com músicas. Uma forma aliás inteligente, o homem manda músicas com mensagens românticas para a mulher a fim de enfiar imagens e expectativas em sua cabeça, faz a mulher sonhar, ela acredita que ele está se declarando, e ela acredita nisso por que o amor romântico plantando na ceara dos seus sentimentos, por mais que ela queira renegar, recebe este sinal e aflora. Duas coisas sobre isso: A primeira é que como ele não disse com todas as palavras o que queria dizer e sim mandou músicas, ele pode mais tarde dizer que “eram apenas músicas e que não tem culpa das suas expectativas românticas”, a outra coisa é que trata-se de um mecanismo machista de manipulação da mulher, usado para acionar o amor romântico internalizado quando na verdade se quer apenas um sexo gostoso.

Os homens aprenderam que para ter sexo com mulheres precisam cortejá-las, (sim, pense em algo ultrapassado?) e corteja-las significa enganá-las, fazendo as pensar que o que está acontecendo entre os dois é algo muito mais forte do que realmente é e com potencial para relacionamento afetivo estável e duradouro. Mas eles não querem nada disso, eles só querem sexo. Por que eles não dizem “Eu te acho linda, adoraria sair com você casualmente e ver o que rola, estou falando de sexo casual, o que você acha?”. Eles não perguntam isso por que sabem que fomos criadas para viver o amor, do jeito que igreja prega e do jeito que a família nuclear precisa, de forma romantizada e temem que a resposta seja invariavelmente negativa, ou seja, pautam se no privilégio de saber de nossas construções opressivas para acioná-las e nos fragilizar a ponto de nos entregarmos sexualmente. Eles não nos dão a opção de decidir se queremos sexo casual ou não, é muito mais fácil valer se da construção social opressiva da mulher e depois dar aquelas desculpas esfarrapadas: “Não é nada com você, sou eu o problema”, “Não estou preparado para um relacionamento agora”, e a máxima “Você entendeu tudo errado”. Infelizmente, os homens carregam essa ideologia e prática machista, parte dela inclusive profundamente introjetada (enraizada dentro de cada um) e “naturalizada” (vista como se fosse natural e não cultural ou adquirida, como realmente é).

 

O Relacionamento abusivo

Há a possibilidade do homem querer levar adiante a relação e começar a redirecionar o uso de suas habilidades com mecanismos machistas, e é assim que as mulheres caem em relacionamentos abusivos, com homens valendo-se da opressão machista a que ela foi submetida a vida toda, e que mesmo tendo levantado bandeira (feminista) de luta contra tal opressão, ainda a tem dentro de si internalizada.

Toda a situação do período do Flerte monta um cenário de amor romântico com o homem fortalecendo as expectativas e idealizações românticas da mulher, ela pensa que encontrou o homem dos sonhos (plantados ideologicamente no campo dos seus sentimentos), ela pensa que será feliz, ela se entrega a este sonho, e ruma para concretizá-lo, contudo, o que é performático não se mantém por muito tempo, sabe a música do Frejat “E eu vou trata-la bem para que ela não tenha medo, quando começar a conhecer os meus segredos”?

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É isso que acontece, um tempo em que o homem se monta em cima da idealização da parceira e um tempo para mostrar a parceira que aquele homem não existe, contudo ela não consegue se desligar do homem que conheceu e não aceita que tudo aquilo era mentira, neste ponto a mulher começa a esperar e lutar para que aquele parceiro gentil, apaixonado, querido… retorne para que os sonhos tomem forma, mas isso não acontece.

Somos criadas para nos sentir responsáveis pelos sucesso do relacionamento, a religião cristã diz “a mulher sábia edifica seu lar”, a sociedade pergunta “O que você fez para dar errado?’  E além da pergunta invasiva e culpabilizadora, os olhares e murmúrios sociais dizem que a mulher fracassou no intento de manter a família unida. Por isso continuamos tentando, de forma irracional, recobrar aquele tempo feliz. Lembre se que tudo que fazemos vai além do racional, é como seguir instruções inconscientes.

A ideologia machista é isso, uma mentira contada desde nossa infância para que a tenhamos guardada em nossas mentes e sejamos conduzidas por ela sem sabermos que somos. Desta forma entramos em ciclos de relacionamento, onde para nos reconquistar o homem tenta retornar a performance do Flerte, quando não consegue manter, aparecem as brigas e em algum momento violência física, emocional, moral e patrimonial.

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Estamos em um período que muitas mulheres tem descoberto a ação destes mecanismos machistas em suas vidas e precavido –se para não se envolverem em situações deletérias para sua vida afetiva, mas nem sempre é possível, as vezes a gente cai e cai feio, mas isso não faz de nenhuma de nós menor ou maior, nós faz apenas humanas e em boa parte das vezes, pessoas que confiam e são traídas, leve sempre com você o fato de que a traição é um erro e tenha completa ciência de que a sociedade capitalista na qual estamos imersas, é extremamente machista e, inclusive, hoje ainda mais machista, fruto do retrocesso ideológico dos últimos anos. Estamos cercadas como ilhas, e o machismo continua um mar revolto e perigoso querendo nos engolir.

Recado para Esquerda Revolucionária

Para as mulheres marxistas revolucionárias e para os homens que compõem a mesma luta, não cabe mais utilizar destes mecanismos machistas e sutis contra as mulheres, se o fazem é uma postura conscientemente contra revolucionária. O fim da opressão sobre as mulheres é parte do programa revolucionário e está profundamente ligado a nossa visão de mundo por duas razões muito simples: a primeira é que um mundo socialista deve acabar com toda exploração e toda opressão e, nesse sentido, libertar toda a humanidade. A segunda é que para derrotar a burguesia e tomar o poder é preciso unir a classe operária e esta acaudilhar (dirigir) todos os demais setores explorados e oprimidos na luta pelo socialismo e pela revolução e, para tal, deve ser vanguarda da luta contra toda a opressão e preconceito.

Importante deixar a mensagem para os homens da esquerda que não é a luta das mulheres que enfraquece a luta de classes e sim o machismo. O machismo joga as mulheres contra os homens, forjam nelas desconfianças graves sobre sua moral e como poderiam as mulheres chamarem  de camaradas homens que usam de sua opressão estrutural para manipula-las ? Tenham em mente: O grande fim revolucionário rejeita meios indignosque jogam uma parte do proletariado contra outras, a prática e a defesa do machismo é imoral, divide a classe, ataca, oprime, coloca em crise e destrói mulheres, camaradas e ativistas do movimento inviabilizando a luta revolucionária.