A ESQUERDA E A MULHER NEGRA – Uma Auto Crítica Necessária

Angela-Davis

Diante do contexto dos movimentos negro e feminista, vemos uma semelhança que permeiam ambos: a homogeneização de indivíduos participantes dos movimentos, logicamente que existe em teoria algumas vertentes feministas e do próprio movimento negro que que pautam questões especificas das mulheres negras, entretanto, na prática, dar voz política a estas mulheres dentro dos movimentos, é cada vez mais difícil.

Acredita-se ainda que mulheres negras que ganham destaque na sua bagagem intelectual são minorias, e que por este motivo, a coletivização da intelectualidade dessas mulheres devem ser delegadas único e exclusivamente por elas. Também pode-se ver em várias práticas de coletivos femininos, trabalhos físicos que são delegados só para mulheres negras e outros com menos intensidade física e mais esforço intelectual para as mulheres brancas. Os espaços mistos ainda tem sido bastante nocivo para as mulheres negras, estas ainda lutam fortemente para estabelecerem sua independência intelectual fora de um contexto de servidão e submissão; é ignorado a esta mulher que ela possui demandas muito maiores em sua maior parte das vezes, do que das demais mulheres.

As mulheres negras em sua massiva maioria são residentes das periferias, estão em situação de desemprego e muitas ainda sonham em sustentar sua carreira acadêmica mesmo com um contexto socioeconômico que lhes desfavorece, e paralelo a isto, ainda manter uma vida política ativa, oferecendo sua propriedade intelectual que é muitas vezes menosprezada ou delegada a falar unicamente de coisas que foquem no seu campo representativo; espaços de militância mistos ignoram que mulheres negras possam falar sobre economia, conjuntura política do século XX, direito, ciências sociais e quaisquer outros assuntos pertinentes a sociedade que não cabelo, racismo, empoderamento estético e apropriação cultural; a mulher negra não tem autonomia política para se expressar livremente caso ela tenha conhecimentos teóricos para além do racismo, mesmo que ela mostre uma clara gama de instrução sobre outras linhas de conhecimento.

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A militância das mulheres negras é paralela e conflitante à militância “genuinamente” (sic) de esquerda, não porque elas fogem das pautas estabelecidas por estes movimentos, mas porque as suas demandas são tão especificas, que são muitas vezes ignoradas e tratadas como histerismo e radicalismo extremo por parte dos indivíduos que não sofrem as suas demandas de opressão, seja estruturalmente, seja cotidianamente.

Enquanto mulheres, e em grande parte das vezes residentes da periferia; as mulheres negras possuem uma tripla militância didática todo santo dia para ser exercida. Ser mulher é ser violentada física ou sexualmente a cada 12 segundos no Brasil, ser negro, é ter 72% de chances de sofrer violência policial (sem precedentes), ser mulher e negra, é sofrer com a estigmatização da nossa cultura, da nossa aparência, é ter de construir todos os dias a nossa autoestima enquanto mulher, pois a nossa representação nos principais meios midiáticos é reduzida à cargos braçais pertinentes ainda ao peso do contexto escravocrata, como se a nós ainda fosse cabível apenas ocuparmos a estes locais; E o impacto gerado por essa estigmatização, atinge as mulheres negras em vários níveis; tangíveis e intangíveis, e dentro deste contexto, estão em diversas relações sociais e de trabalho que temos que enfrentar ao longo de nossas vidas.

Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo, as negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo; Lutam pra reverter o processo de aniquilação que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão.” – Eduardo Taddeo.

Temos no Brasil uma história que permeiam quase 400 anos de escravidão e pouco mais de 100 de pós escravagismo, por isso, ainda trazemos conosco o peso da hierarquização de raça como uma consequência histórica da construção da falsa democracia racial montada pelo estupro de mulheres negras escravizadas e mulheres indígenas; sem ignorar o processo cruel de embranquecimento do mercado através da imigração da mão de obra europeia para ocupar lugares que outrora pertenciam aos escravos, então livres; o embranquecimento da estética feminina, delegando às mulheres brancas, o posto de padronização e modelo de representação da beleza perfeita brasileira, e às mulheres negras o posto de subalternas deste processo, e que para que o preterimento não pesasse a ponto de um celibato e ostracismo social completo, era/é necessário a aproximação dos estereótipos de beleza da mulher branca, através do alisamento capilar, técnicas de maquiagem para afinar traços faciais, negação da auto declaração racial e etc.

A luta das mulheres negras não se resume apenas aos espaços de senso comum, mas a sua labuta diária é também inserida fortemente nos meios de militância, exigindo para nós, um exercício maçante e diário de desconstrução de indivíduos que teoricamente possuem um grau de consciência, ora de gênero, ora de raça e em pouquíssimos casos, inclui-se também, a consciência de classe.

A nós, a que fomos delegadas a inaptidão do abandono de nossas forças para suportarem as mazelas da vida; da falta de oportunidades; da falta de espaços de crescimento intelectual; do genocídio que atinge aos nossos e consequentemente a nós mesmas.

Se o socialismo tiver sempre a face branca, masculina e cisgênera; o socialismo jamais irá acontecer.

A revolução virá principalmente pelas mãos das mulheres pretas, ou não virá.

O feminismo e a cláusula de Barreiras.

O que temos a ver com isso?

2016-04-28

O feminismo é uma luta política que muitas vezes apresenta se desconectado das situações que se apresentam. Aparentemente o movimento só se une em volta de ataques diretos às mulheres sem perceber que existe entre linhas de processos que nos atacam de forma embutida e mascarada. É importante saber que qualquer ataque a democracia, qualquer cerceamento, silenciamento político, é um ataque também a nós todas, afinal deixamos de ter contato com opções e propostas que podem nos beneficiar e jogar do nosso lado e possa de quebra ressaltar e beneficiar conservadores que usarão tudo que estiver a seu favor para nos retirar direitos.

A clausula de barreira é um trâmite político que deve estar sobre nossas vistas.

A partir destas eleições esta em vigor a tal Clausula de barreiras que vem sendo tão falada nos últimos dias. A cláusula é prevista pela Lei dos Partidos Políticos (Lei 9096/95).

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Do que se trata?

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Apenas terão pleno funcionamento parlamentar os partidos que obtiverem o mínimo de 5% dos votos para deputado federal no país e 2% em pelo menos nove estados. Os partidos que não cumprirem tais exigências não poderá eleger líderes na Câmara dos Deputados, formarem bancadas, participar da composição das mesas e indicar membros para comissões. Também perderão direito à maior parte dos recursos do fundo partidário e da propaganda eleitoral gratuita.

A Lei foi proposta com a falsa intenção de combater legendas de aluguel, porém a verdadeira motivação é de perpetuar no poder os mesmo partidos, esta clausula na verdade cria verdadeiros monstros conservadores travestidos de partido, fruto da junção de partidos menores com os maiores, fortalecendo partidos reacionários.

A cláusula de barreiras não cumpre a função de combater partidos de alugueis, o PMDB apesar de ter uma representação expressiva é também um partido de aluguel e não será afetado. E a idéia proposta de que isso combateria os corruptos não passa de história para boi dormir, afinal 35 dos 72 parlamentares envolvidos no escândalo dos sanguessugas e 13 dos 19 mensaleiros estão nos grandes partidos, que cumprem as metas da cláusula.

A eliminação da clausula de barreira é uma vitória democrática dentro dos marcos da democracia burguesia.

Em outros períodos da nossa história política esta famigerada cláusula apareceu também, porém, desde 1988 estamos livres dela, que vigorou em épocas diferentes, cumprindo diferentes requisitos para participação das eleições:

Em 1950, o Código Eleitoral previa que o partido que não conseguisse fazer um representante no Congresso Nacional ou não alcançasse pelo menos 50 mil votos teria seu registro cancelado.

Nos tempos da ditadura, a regra endureceu. A Constituição de 1967, no artigo 149, inciso VII, estabelecia a extinção dos partidos políticos que não atingissem: a) 10% dos eleitores votantes na última eleição geral para a Câmara dos Deputados, distribuídos em 2/3 dos estados, com o mínimo de 7% em cada um deles; b) 10% de deputados em pelo menos 1/3 dos estados; c) 10% dos senadores. A intenção era evitar a existência de partidos políticos contrários ao regime militar.

A cláusula de barreira volta a ser fomentada no governo de FHC, trazendo para nós um retrocesso a um período autoritário,resgatado diretamente do período mais antidemocrático da nossa história: A ditadura militar. Para ilustrar o cenário, em 1982, o PT elegeu oito deputados federais e 1,7% das cadeiras da Camara dos deputados. Se na época houvesse esta lei,não passaria na cláusula e nunca teria chegado onde chegou.

A Clausula de barreiras nada mais é do que uma forma de impedir que fortaleça se os partidos ideológicos como PSTU e PCB e apesar de terem votado a favor da Clausula de barreiras, até o PSOL esta sendo barrado de expor suas idéias em debates televisivos, com o é o caso da BAND, com base nesta lei. É importante ressaltar a grande traição do PSOL a esquerda, um jogo sujo para tirar do pário os partidos com menos representação e obrigá-los ou a exclusão ou aliar se a ele. Porém, nem tudo deu certo ao PSOL, não alcançaram a meta de uma grande adesão dos partidos em coligações que o fortalecesse e ainda perdeu espaço com base na lei que os parlamentares deste partido, juntinhos com Eduardo Cunha, ajudaram aprovar.

A contrário do PSOL que pensou em aproveitar se desta lei para beneficiar – se eleitoralmente, nós acreditamos que todos os partidos devem ter espaço garantido em todas as instancias democráticas a fim de que o povo decida-se qual a melhor opção para administração do país. Questionem-se sempre, por que estão silenciando partidos, obviamente não querem que as pessoas conheçam suas propostas e denúncias. Quem não deve não teme. Abaixo já a cláusula de Barreiras, queremos todos os candidatos nos debates e com igualdade de ação quando eleitos.

A importância para nós feministas do conhecimento de todo este processo é principalmente saber que os partidos que mais nos apóiam em nossas lutas, são os que estão sendo retirados dos espaços de divulgação de seus programas.

 

A Esquerda na Direita do direito dos LGBTQI

Eu sou Helena, nova colaboradora do blog Feminismo sem Demagogia. Eu sou uma mulher transexual. Vou aproveitar este espaço para dialogar com todos e todas, sobre as questões e pautas Transfeministas fazendo o recorte de raça e classe, pelo viés da vertente Marxista.

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Vou falar um pouco do cenário que conheço das lutas contra opressão, cenário do qual me afastei devido a intolerância da militância sobre o que eu sou, Mulher.

 Transicionei a 3 anos e a 3 anos sobrevivo nesse sistema que nos faz cada vez mais ir a margem da sociedade. Ser mulher trans no Brasil é viver com as seguintes estatísticas nas costas: 90% da população de mulheres trans e travestis estão na prostituição, que a expectativa de vida é de 33 anos, eu tenho 28 e o resto da população é de 73,62 segundo o IBGE (IBGE, 2012), a estimativa é de 43% de tentativas de suicídio entre pessoas trans, enquanto a média de suicídios bem sucedidos é 4,8 a cada 100 mil habitantes. É assim que ando e perpasso a vida com essas expectativas nas costas. Dados como esses são bem raros porque somos tão exclusas que nem em estatísticas estamos.

Direitos são negados diariamente a pessoas trans: uso do nome social como forma de evitar constrangimentos nos atendimentos e contatos entre pessoas, negação de direito a uso do banheiro de acordo com o gênero, agressões físicas e verbais.

Ao longo dessa caminhada os “compas” que me deparei ou fetichizavam minha identidade ou ainda ignoravam totalmente o fato de eu ser uma mulher. Um mulhertrans, mas trans é só mais um adjetivo. Posso ser bonita, legal, trans, cis. Mas antes de tudo sou mulher, pra eles eu era a trans.

As pautas então eram novidade, não sabem como o processo todo é burocrático e como o Estado brasileiro através de seus protocolos e falta de leis dificulta ainda mais a vida de qualquer LGBTQI. Não existe lei no Brasil que garanta que eu consiga mudar de nome, vai do juiz assim como gênero nos documentos.

Obviamente que não generalizo e muito pelo contrário encontrei pessoas muito boas e que tinham algum real conhecimento da realidade de ser trans/travesti. Mas de fato a maioria não sabe o que é, e isso me preocupa porque como minoria, quem são as LGBTQI e ocupam quanto nessa fatia de minorias, além de isso se intersecionar com outras minorias.

Não sabemos.

Enquanto um grupo de luta for deixado pra trás sem pensar em suas necessidades de cada letra que forma as LGBTQI, é um grupo a menos na derrubada do capitalismo.

E ahhh meu bem somos muitos e muitas por aí viu?!

Bora lutar nesses 5 anos de expectativa de vida que me restam segundo a expectativa de vida de pessoas trans e travestis.

“Camila Camila”

Um grito de denuncia contra a violência machista.

Passei os últimos dias ouvindo uma música e refletindo sobre o entorno dela, a música é “Camila, Camila”,lançada em 1985, da banda Nenhum de nós, composta por Thedy Corrêa. Uma das minhas conclusões foi que o discurso feminista de que os homens não podem ser aliados da luta pelos direitos das mulheres, lançando uma enorme polêmica se homens podem ou não ser chamado de pró-feminista, perde completamente o sentido quando encontramos homens sendo aliados da luta.

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Imagem do filme “O Silêncio de Melinda”

Esta música é uma denúncia a respeito da violência machista contra as mulheres e os compositores mostram – se sensíveis a toda situação, a voz de Thedy, possui uma dor sentida, revolta com a sensação de impotência. Quem ouve a música e já esteve ou está em situação semelhante sente se convidada a sair, ao cantar o refrão, Thedy chama Camila a despertar e a reagir.

Confuso? Um homem transmitir este tipo de sensação de força a uma mulher sendo ele parte do grupo de humanos que replica e dissemina atitudes machistas? Ele não sente na pele, não é o “lugar de fala” dele, mas ele consegue transmitir toda tragédia que é a violência que o machismo nos submete, como isso pode ser?

Resposta: Exercendo a empatia que sente pela mulher oprimida, sendo consciente do machismo, renegando e repudiando a violência contra a mulher.

Outras reflexões sobre a música, fortalece a idéia de que ela  merece ser lembrada, numa época que nada era dito sobre violência física e sexual contra mulheres, “Camila Camila” vem à tona e emplaca como um HIT de sucesso, ficando em primeiro lugar nas paradas das rádios por vários meses. Quem era adolescente naquela época lembra-se, com certeza.

Em entrevista para MTV  o vocalista da banda Nenhum de nós explicou a música. Após ler a explicação notei que passei grande parte da infância e adolescência cantando esta música sem entender sobre o que ela falava, a compreensão só chegou a mim a poucos anos, 3 anos talvez, por que após ser vitima de violência física e psicológica, ouvi-la começou  fazer sentido.

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É sobre uma adolescente de 17 anos que esta em um relacionamento abusivo e sofre violência emocional e física. Segundo o vocalista da banda, foi inspirada em fatos reais do ano de 1985, quando os rapazes da banda teriam tido contato com uma colega de escola que vivia um relacionamento com um namorado violento, eles questionavam – se por que ela se submetia aos maus tratos e tantas situações constrangedoras, e assim quiseram fazer esta canção para Camila e para as mulheres que sofriam violência.

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Trecho da entrevista a MTV do vocalista Thedy:

 “A música Camila, Camila veio de uma história real de uma menina que a gente conhecia na época (1985). Ela estava passando por uma situação de abuso e violência com o namorado. Acho importante num país como o Brasil fazer músicas desse tipo. Aqui é mais confortável fazer letras que estimulem o sexismo ou utilizem violência como ingrediente. Na real, acho que ninguém fala de abuso porque não vende. A questão está no que cada um acredita e quer.”

Na contramão de “Camila Camila” que era muito progressiva, músicas que exaltavam ou naturalizavam a violência contra mulher eram a temática mais presente, encontradas em todos os estilos, tais como:

1985 – Ultraje a Rigor.  Música: “Ciúme” que fala de um homem tentando levar uma vida “moderninha”, de “não ser machista e não bancar o possessivo”, porém existe um fracasso na tentativa, ironizando a opressão contra a mulher e fazendo parecer que é “natural” do homem tratar as mulheres com machismo.

1986 – Camisa de Vênus. Música: “Silvia Piranha”, a música toda é uma degradação a mulher, mas uma parte dela diz “Todo homem que sabe o que quer, Pega o pau pra bater na mulher”.

1987 – Chitãozinho e Xororó, Fogão de Lenha , tem um refrão imperativo: “Pegue a viola/ e a sanfona que eu tocava/ Deixe um bule de café em cima do fogão/ Fogão de lenha, e uma rede na varanda/ Arrume tudo mãe querida, que seu filho vai voltar”. A música romantiza o papel da mãe/ mulher como cuidadora, uma empregada não remunerada que cumpre ordens do filho e isso a faz feliz.

1982- Roberto e Erasmo Carlos. “Mesmo Que Seja Eu”.  A música diz  “Você precisa é de um homem pra chamar de seu / Mesmo que esse homem seja eu…” A mulher é inferior, fraca, incompleta, ela precisa de um homem para sua vida ter sentido. Este tipo de romantização da inferioridade da mulher frente ao homem, é um dos motivos do por que as mulheres demoram tanto para sair de relação abusivas, elas acreditam que precisam de um homem para serem felizes e precisavam fazer de tudo para dar certo a relação, mesmo quando estão sendo destruídas pelo companheiro. “Mesmo que seja eu” a música diz. Mesmo que não seja como ela queria que fosse, ela tem que aceitar o que tiver.

Músicas como “Camila Camila” são muito importantes para a identificação do quadro de violência, para fomentar o debate sobe machismo. Na época do lançamento da musica, com o seu sucesso, a MTV fez uma pesquisa e somente esta canção abordava esta temática, talvez o ultimo defensor da mulher,contra a violência machista tenha sido Cartola, em 1950, com a música “Vou contar tintim por tintim. A música relata a mulher agredida que se revolta e procura justiça:

 “Eu fui tão maltratada / Foi tanta pancada que ele me deu / Que estou toda doída / Estou toda ferida / Ninguém me socorreu / Ninguém lá em casa apareceu / Mas eu vou ao distrito / Está mais do que visto/ Isto não fica assim / Vou contar tintim por tintim / Tudo nele eu aturo / Menos tapas e murros / Isto não é para mim”.

Vamos á música?

“Camila, Camila”

Depois da última noite de festa

Chorando e esperando amanhecer, amanhecer

Nesta parte da música, pelas testemunhas oculares, Camila foi a uma festa onde foi maltratada publicamente pelo namorado, ela esperava, chorando, amanhecer para ir embora,

As coisas aconteciam com alguma explicação

Com alguma explicação

Todos os maltratos e violências são sempre por algum motivo. Normalmente a mulher se culpa, acreditando que fez algo para que o homem tenha se descontrolado e praticado os abusos. Eles mesmos apontam motivos em nossa postura para justiçarem se. Sempre há uma explicação, hoje em dia a mais comum é a de que eles estão passando por processos de depressão, algum  transtorno psiquiátrico.

Depois da última noite de chuva

Chorando e esperando amanhecer, amanhecer

Outra noite e madrugada de violência, Camila passa a noite chorando e esperando. Neste trecho eu me vejo. Na ultima vez que meu ex-marido me tratou com violência, ele simplesmente trancou a casa toda e com as chaves em seu poder ele queria me obrigar a conversar com ele sobre nosso relacionamento, depois de eu ter dito a ele que queria o divórcio, eu estava exausta e ele mantinha as luzes acesas e me impedia dormir, sentado no meio da cama ele dizia que “eu teria de conversar com ele”, até que ele montou sobre mim e com minha mão ele desferiu vários golpes no seu rosto, meu pulso abriu com a força empregada… Ele só parou quando me ouviu chorar. Chorei a noite e madrugada toda, com medo dele, esperando amanhecer para pedir socorro.

Às vezes peço a ele que vá embora

Que vá embora

Nesta parte Camila esta desesperada, ela quer dar fim a esta situação, ela pede para ele ir embora, pois não suporta mais tanto sofrimento.

Camila

Camila, Camila

O Clamor pelo nome da Vitima, é como se quisessem chamá-la para fora do ciclo de violência. Uma forma de pedir a ela que liberte – se, que peça ajuda…

Eu que tenho medo até de suas mãos

Mas o ódio cega e você não percebe

Mas o ódio cega

E eu que tenho medo até do seu olhar

Mas o ódio cega e você não percebe

Mas o ódio cega

Camila tinha medo de quando ele a tocava tinha medo do seu olhar, ela sabia qualquer coisa que ela fizesse e desagradasse a ele, o ódio o cegaria de tal forma que não exitaria em agredi-la, ele movido por um ódio que o cega, nem percebe que esta destruindo a vida da mulher. Camila já entende que ele não ama, que o que ele sente é ódio e posse.

A lembrança do silêncio

Daquelas tardes, daquelas tardes

Camila se cala a respeito das agressões, ela não consegue pedir ajuda esta completamente fragilizada e enfraquecida… Um sofrimento calado, escondido e contido, muito comum em vitimas de violência.

Da vergonha do espelho

Naquelas marcas, naquelas marcas

Camila tentava esconder as marcas da violência em seu corpo, ela sofria já com danos emocionais e psicológicos que a impediam de olhar se no espelho.

Esta parte da música me traz a lembrança de mim, quando ele me agrediu, mordendo meu braço e deixando uma marca no antebraço que cobria o quase todo. Eu entrei no banheiro e passei base para tentar cobrir, não adiantava, não cobria, sentei na sala, de tão desequilibrada com a situação, me passou pela cabeça ir à cozinha, pegar uma faca e cortar a parte do braço com aquele hematoma. Eu entendo a Camila…

Havia algo de insano

Naqueles olhos, olhos insanos

Os olhos que passavam o dia

A me vigiar, a me vigiar

Os olhos dele que a vigiavam, fiscalizando a vida de Camila, olhos em que ela reconhecia uma insanidade, olhos que veriam motivo para agredi-la por qualquer motivo que fosse e os olhos que lhe impunham submissão.

É comum a vitima de violência confundir a misoginia e o machismo com insanidade, eu Tb acreditava que eram problemas psicológicos, ate que um dia um amigo meu me disse “Você acha que ele é louco? A loucura dele o faz bater em homens também?”

Camila

Camila, Camila

Camila

Camila, Camila

E eu que tinha apenas 17 anos

Baixava a minha cabeça pra tudo

Esta parte da música eu acredito que seja digna de uma nota de destaque. Camila era só uma adolescente, ela não teria nem experiência e nem vivência para identificar o que estava lhe acontecendo, os adolescentes lidam com seus dilemas com o que podem e não será com a mesma plenitude que um adulto, afinal de contas, desenvolver estratégias e soluções para sair de um problema quando se tem o cérebro completamente formado e quando ainda o tem em formação, é bem diferente. A música não fala, mas se o namorado de Camila fosse um homem mais velho, a facilidade em manipular a vitima seria muito maior.

Desta forma, Camila seguia submissa, baixava sua cabeça para tudo, sem condições de enfrentá-lo e denunciá-lo.

Era assim que as coisas aconteciam

Era assim que eu via tudo acontecer

E era assim que as coisas aconteciam para Camila, era assim que a testemunha ocular via tudo acontecer. Infelizmente, na época de Camila não existia a lei Maria da Penha para que Thedy e os outros integrantes da banda pudessem ir à delegacia da mulher e fazerem a denuncia por ela, naquela época o que eles puderam fazer, foi denunciar através da música.

 

A História da Policia Militar explicando a quem ela serve

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Por Gleide Davis e Verinha Kollontai

A Policia Militar tem figurado casos de violência contra cidadãos e estes casos têm ganhado grande repercussão nas redes sociais, nas mídias virtuais e até mesmo em alguns noticiários televisivos. Os casos são os mais variados, em todos eles, a mídia noticia como se a policia tivesse agido de forma acidental, tirando das costas dos policiais militares a culpa pela morte e agressões a cidadãos, numa tentativa de esconder para que serve e a quem serve a Policia Militar.

Em 2013, o Anuário de Segurança Publica confirmou que para cada dez mortes violentas evitáveis no mundo em 2012, uma ocorreu no Brasil. O perfil dos homicídios no Brasil é caracterizado especialmente por homens negros, jovens e pobres. Segundo o IPEA para cada 100 mil habitantes, contabiliza de 36 mortes de pessoas negras enquanto pessoas “não negras” contabilizam se 15,2%. Além disso, temos a maior população carcerária do Brasil, os presos são em sua maioria jovens com idade entre 18 e 29 anos, 61% são negros e pardos, ou seja, o trabalho da policia e da justiça brasileira tem sido feito contra um grupo especifico da nossa população e não é contra os ditos “não negros”. A impunidade é reconhecidamente um direito reservado para os ricos e brancos, para negros, pobres e periféricos, resta à morte informal ou o sistema prisional e toda sua barbárie.

Luana, Vânia, Claudia, Amarildo… A lista é enorme. Todos mortos pela policia, todos negros, pobres e periféricos.

A quem a Policia serve?

A Policia militar serve à classe dominante, existe para a finalidade de proteger aos ricos, o seu Estado, os seus símbolos de poder, o seu regime, que no caso do Brasil é a democracia burguesa.

O próprio histórico da policia militar mostra para que foi criada. A Policia Militar não foi criada na época da ditadura como muitos pensam, ela foi criada no século 19 quando Dom João VI chegou ao Brasil, tendo a Guarda Real de Policia de Lisboa permanecido em Portugal, foi necessário a criação do seu equivalente por aqui. Já tinham uma estrutura militarizada desde sua criação com companhias de infantaria e cavalaria. A Função da policia militar era desde sua invenção a proteção da classe dominante, que naquele período eram monarcas e nobreza, contra aqueles que de alguma forma insurgissem contra eles colocando em perigo seus privilégios.

No período da ditadura o que acontece é uma reestruturação da Policia militar que passa a ser subordinada ao exército. As policias militares estaduais, desta forma, passaram a ser comandadas por oficiais do exercito e foram usadas como arma de combate a todos que levantavam se contra a ditadura. Existe aqui a continuidade da razão pelo qual ela foi criada, a proteção da classe dominante, do seu Estado, dos seus privilégios, e para isso esteve e ainda está autorizado uso de treinamento militar para combater civis que rebelam se contra o sistema, como se fossem inimigos. De lá para cá, nada mudou a não ser a quem se subordina a Policia Militar, que agora reporta – se diretamente ao Governador do Estado.

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No Estado de São Paulo o autoritarismo é motivo de orgulho para a corporação, no brasão que a representa existem 18 estrelas. Você sabe o que significa estas estrelas? Vou te contar: golpe militar de 1964 (chamado “Revolução de Março”) e a repressão à revoltas popula­res, como à greve de 1917 e o massacre de Canudos. Como você pode perceber, momentos “memoráveis” em que a classe dominante conseguiu esmagar revoltas contra seu sistema injusto e excludente. A força policial é um instrumento da burguesia, fundamental, para conter os jovens e trabalhadores que se insurgem contra ela.

REPRESENTATIVIDADE – A presença de indivíduos de grupos oprimidos dentro da corporação 

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Manifestantes NEGROS falam com policiais NEGROS, presentes a manifestação por morte de jovem NEGRO pela Policia norte americana.De que lado eles, os policiais, estão?

Mesmo com mudanças na ementa de leis do código penal brasileiro que teoricamente protegem a moral física e psicológica das mulheres, o número de casos de violência contra a mulher aumentou nos últimos anos; entre N fatores estruturais que influenciam a ocorrência, muitos casos noticiados mostram que já haviam uma grande número de registros de boletim de ocorrência por parte das vítimas; mostrando uma clara apatia e falta de efetividade no treinamento desses ditos “profissionais” para receber mulheres vítimas de crimes em especifico.

Outro gritante aspecto da polícia militar é a responsabilidade pelo genocídio da população negra nas periferias não só brasileiras, mas do mundo inteiro. Vemos casos de pessoas negras que foram assassinadas por abuso de poder de um policial; que tiveram suas vidas ceifadas por estarem segurando objetos como pipoca, ferramentas, etc; policiais que alegam que crianças de 10 anos (o menino Eduardo) os assustaram e por isso atirou “sem querer”; quantos jovens e crianças brancas de classe média são assassinadas diariamente por algum desiquilíbrio ou confusão mental de um policial? Segundo o mapa da violência de 2013, morrem 153% mais negros do que brancos vítimas de violência no Brasil, negros são 71,4% nas vítimas de homicídio.

Temos claramente uma separação de classes ditadas por raça no país, e quem aclama essa separação fazendo o trabalho sujo por meio da força amada, é a polícia militar. Os números de violência contra a mulher, contra a população negra e contra a população LGBT só cresceram nos últimos anos, mesmo que a PM registre um aumento significativo de indivíduos negros e mulheres no seu corpo de funcionários, mesmo com políticas de apoio as mulheres e com um forte apelo de movimentos sociais para pressionar o estado a mudar leis criadas na pós ditadura que só beneficiam os indivíduos que não precisam de leis, porque a sua posição social e poder monetário os colocam acima delas.

“Militantes sagram, denunciando a injustiça seletiva

Que criminaliza, condena, dizima a população empobrecida

A Síria se assustaria com 8 carros funerários

Saindo do mesmo bairro, no mesmo horário

Em uma semana os protetores dos “Lords” brancos

Matam mais que a ditadura em 20 anos”

Eduardo Taddeo

Não devemos entregar nossas demandas sociais urgentes ou não, na mão dos instrumentos de poder da burguesia, não devemos nos iludir ao pensar que a representação negra e feminina dentro da corporação militar irá diminuir gradativamente uma demanda de opressões e violências que são de encargo de toda uma corporação que desde o treinamento de iniciação até o percorrer das suas práticas, tem como alvo principal, a população negra, periférica, travesti; que guarda apatia, rechaço e deboche para com a violência contra a mulher e salvaguarda a vida da população classe média, mesmo que essa cometa os mesmos crimes que qualquer cidadão periférico.

Sobre o assassinatos de homens negros nos Estados Unidos e a revolta seletiva dos corservadores

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Vamos analisar o que é racismo empregado no nosso dia a dia:

– Dois homens negros são mortos pela policia norte americana.

CASTILE – Era um dos homens estava dentro de seu carro com sua namorada, ele foi abordado pela policia por motivo de (ser negro, por que não havia motivo), foi solicitado a ele sua identificação, ele estava procurando dentro de sua bolsa e avisou o policial que estava portando uma arma de fogo, por que ele, assim com o qualquer cidadão norte americano, tem direito a ter. O policial ordenou que ele levasse às mãos a cabeça e sem esperar que ele obedecesse disparou quatro tiros que o mataram. O fato ocorreu e Mennisota.  (Assista aqui, o video que a namorada dele fez no momento do assassinato https://www.youtube.com/watch?v=HNCbgJ55jQY)

STERLING- Um homem negro de 37 anos, que morreu na terça-feira em Baton Rouge (Luisiana) após uma ação envolvendo dois policiais brancos, incidente que foi gravado e que provocou vários protestos. O homem que numa ação policial já estava imobilizado, teve uma arma apontada para sua cabeça seguida de um tiro que tirou sua vida.(Assista aqui:https://www.youtube.com/watch?v=pdGXhSQvTKc)

 

Estes casos seriam mais um dos tatos casos que ocorrem por ai todos os dias e ficariam sem protesto por manterem se desconhecidos da população, se não tivessem sido filmados e postados na internet causando grande comoção.

Além de todo racismo impregnado nestes dois casos, pois está óbvio que a ação policia foi truculenta contra dois homens que não ofereciam perigo, e nós não temos noticias de ações deste porte contra pessoas brancas, certo? Certo. Temos ainda o fato de que estes dois acontecimentos ficaram completamente ofuscados quando um homem negro surge dos protestos das pessoas negras contra o racismo da policia norte americana, e mata cinco policiais.

Não é minha intenção de forma alguma admitir que exista desculpa para o fato de matar cinco pessoas, afinal a lei deve punir os culpados por crimes com a mesma proporcionalidade, sabemos que isso não acontece, principalmente se a pessoa for negra, mas para impedir que os conservadores racistas venham me encher os ovários, de antemão digo, ele é culpado por ter matado os cinco policiais, porém, não teria isso justificativa?

O homem que atirou nos policiais serviu as forças armadas norte americanas por anos e lutou por seu país contra o “inimigo”, mas dentro do seu próprio pais, ele não retorna como herói, ele é o inimigo a ser combatido, assim como qualquer outro homem da mesma cor que ele. Sentir se e ser tratado como inimigo por que sua cor de pele não é a mesma da classe dominante, é cruel e mexe como a sanidade de qualquer pessoa.

Quantas pessoas negras morreram dentro das fronteiras dos Estados unidos assassinadas por policiais? A proporcionalidade seria a mesma para a quantidade de policiais BRANCOS mortos por pessoas negras?

Neste ano, nos Estados Unidos, 70% dos policiais assassinados, não foram mortos por pessoas negras fãs da Beyonce, não foram mortos por pessoas membros de gangues latinas, eles foram assassinados pelos homens de bem, os bons e queridinhos da America, os homens brancos.

Você já viu um clamor imenso e poderoso por que um homem branco matou um policial? Você já viu passeatas nos Estados Unidos por que homens brancos assassinaram policiais?

O Racismo esta é transformar em clamor coletivo por justiça quando o crime é cometido por um individuo pertencente a uma minoria oprimida, fazendo o crime cometido por ele, tornar-se num crime que qualquer pessoa daquele grupo poderia cometer. Havia uma multidão de negros protestando pacificamente, apenas um saiu do contexto e pratico homicídio, mas a partir dali todos os negros passam a ser passíveis de cometer o mesmo ato.

Isso não acontece com pessoas brancas, vamos dar um rolê na América do norte:

Em Fevereiro quando os policiais estavam protestando contra a Beyoncé, 7 dos 8 policiais que haviam sido mortos até aquele momento haviam sido mortos por homens brancos, por que eles não estavam protestando contra estes homens e exaltando inclusive a cor da pele dele? Estes brancos assassinos de policiais acho que nem deveriam curtir Beyonce, nem seriam inflamados por ela a cometer algum crime… Só acho…

Curtis Ayers, já ouviu falar dele? Ele é um homem brancos que, atirou e matou Brad Lancaster, veterano das forças armadas, pai de dois filhos. Viram manifestações dos conservadores contra este crime?

Lincoln Rutledge, um homem branco, assassinou o oficial, Steven Smith, que também era pai de dois meninos e casado. Onde estaria à ala conservadora em favor da família e que defende a vida dos valorosos policiais quando um homem branco mata outro homem… Branco?

Você não vê estrondo, e nem grandes mobilizações, muito menos verá discursos inflamados contra a violência cometida contra as forças armadas e policiais em nenhum destes casos por que não trata se de rostos negros estrelando assassinatos, e sim rostos brancos que devem ser poupados para que o estereótipo de inimigo da população mantenha se sobre as pessoas negras, crimes cometidos contra pessoas negras são expostos e dramatizados para comoção pública a fim de conservar e reafirmar os estereótipos racistas contra esta parcela da população.

 

 

A cultura do estupro da sua origem até a atualidade

A cultura do Estupro até os nossos dias

Diariamente, os noticiários divulgam casos de estupro. Dentre os denunciados, apenas uma porcentagem chega ao nosso conhecimento pelas mídias. No Brasil, segundo dados do IPEA, 0,26% da população sofre violência sexual, indicando, anualmente, 527 mil tentativas e casos de estupro consumados no país.

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Em 2013, o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontou que em 2012 foram notificados 50.617 casos de estupro no Brasil. Para nosso assombro, constata-se que existe uma porcentagem que não chega a ser denunciada. A taxa de notificação à polícia é estimada em apenas 19,1% (IPEA).

São diversos os motivos para as denúncias não serem realizadas, todos eles relacionados com o fato de que, socialmente, existe a imputação pela culpa do ato à própria vítima, ao mesmo tempo em que há a vitimização do estuprador. A reprodução desta imputação de culpa vitima duplamente a mulher.

Por que isso acontece?

Como bem disse Engels (Friedrich Engels), a violência de gênero é um reflexo direto da maior derrota histórica do sexo feminino, quando, ao serem retiradas da esfera do trabalho produtivo para serem encarceradas dentro de casa, as mulheres passam a servircomo reprodutoras de herdeiros para os homens que detinham os meios de produção.

É importante frisar que nem todas as mulheres serviram a este propósito. As mulheres pobres, em sua grande parcela, por exemplo, passaram a servir à prostituição. O advento da propriedade privada celebra a inauguração do mundo patriarcal e a redução da humanidade histórica das mulheres a meros objetos, parte delas servindo a produção de herdeiros e outra parte à satisfação da luxúria dos homens.

A construção da Cultura do Estupro

Quando lemos este tipo de explicação, parece que tudo aconteceu de forma pacífica, mas não foi bem assim. Sabemos que houve resistência por parte das mulheres. Imagine o cenário: antes livres, as mulheres possuíam liberdade para exercer sua sexualidade, trabalhavam na esfera produtiva ombro a ombro com os homens e detinham o mesmo respeito pela comunidade e, de repente, passam a ser trancafiadas dentro do lar reduzidas a objeto de procriação? Foi com muita violência que os homens submeteram as mulheres a este cárcere privado em um primeiro momento para mais tarde utilizarem-se da tática da ideologia.

As ideologias são conjuntos de falsas ideias usadas para justificar a inferioridade de um grupo de pessoas por ser quem são. Um bom exemplo é a ideologia de gênero, que fixa rígidos papéis para o homem e a mulher, colocando o gênero feminino em uma posição subalterna e dependente do homem, tanto financeiramente quanto emocionalmente. Desta forma, criadas para acreditar em sua inferioridade frente aos homens, as mulheres passaram a se submeter às tentativas de se encaixar em um estereótipo e reproduzindo a rivalidade entre si, onde o homem é visto como troféu.

Neste período, temos relatos de mulheres que eram vendidas por seus pais a homens que as colocariam em uma posição de serventia ou de matrimônio forçado. Em ambos os casos, elas são entregues para ser estuprada. Não há romantismo na criação da instituição família, esta é a verdade.

Após o advento da propriedade privada dos meios de produção, a violência sexual contra a mulher ganha ares de romance e passa a ser naturalizada em todos os tempos. Passamos por várias culturas e tempos históricos, e a mulher é sempre contemplada como um objeto, que existe para servir aos homens. Vivendo em posição desumana, nenhuma afronta à humanidade da mulher foi prontamente repudiada, nem mesmo crimes, que sempre foram minimizados. Os exemplos de banalização da violência sexual contra a mulher são antigos e não é difícil encontrar a romantização destes exemplos pela literatura:

Na Grécia, temos a mais alta divindade do panteão Grego, que se divertia sexualmente raptando e estuprando mulheres, como foi o caso de Europa, que o estupro lhe rendeu uma gravidez.

O mito conta que Zeus, metamorfoseou–se em um touro branco, e quando Europa colhia Flores o avistou e encantou–se, foi acariciá-lo e num momento de distração, Zeus a raptou e a levou para a ilha de Creta, onde sem revelar sua identidade,estuprou-a e a engravidou. Europa foi mãe de Minos, que tornaria–se rei de Creta. Quanto a este caso não houve protesto, ninguém se indignou.

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Por outro lado temos exemplo do estupro de homens também, e a postura que se assume é completamente diferente. Na mitologia grega encontramos o caso de Laio, que estuprou Chrysippus, este ataque sexual ficou conhecido como “O crime de Laio”, foi caracterizado como um exemplo de arrogância no sentido original da palavra, ou seja, violenta indignação. Neste caso, não houve romancear da situação, houve punição! Sua punição foi tão grave que destruiu não só o próprio Laio, mas também seu filho, Édipo, sua esposa Jocasta, seus netos (incluindo Antígona) e membros de sua família.

Constatamos por aí que a naturalização do estupro além de perniciosa, é sexista: Para estupros cometidos contra as mulheres, silêncio. Para estupros cometidos contra homens, indignação, criminalização e punição.

Outro caso envolvendo Zeus, onde ele se acumplicia do estupro da própria filha que teve com Deméter, a jovem Perséphone, foi eternizado em mármore, numa escultura que mostra todo desespero da mulher que raptada por Hades, foi levada ao inferno onde foi violada.

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Os Tempos Bíblicos, relatados no velho testamento, também são um grande exemplo: a mulher era caracterizada como propriedade masculina, previsto por lei. (Êxodos 20:17, a mulher aparece listada entre os bens materiais do homens). Em Israel, assim como em todo Oriente Médio, o ato do estupro não era entendido como um abuso, mas sim como um adultério. Visto que a mulher era vista como propriedade do homem, a vítima do crime era o homem, que detinha a propriedade que fora “danificada”.

E assim segue Roma, que acreditava que existiam assuntos que o Estado não deveria interferir. Se continuarmos a pesquisa, podemos analisar que, em todo cenário, há um silêncio cúmplice da violência sexual cometida contra a mulher.

No Brasil Colônia

No Brasil a história do estupro vem desde seu descobrimento, quando os portugueses chegam ao Brasil, encontram as mulheres indígenas e as estupram. A miscigenação do povo brasileiro começa aí.

Mais adiante com a chegada de negros e negras para fins de servirem em sistema de escravidão aos senhores da casa grande, as mulheres negras, que não estavam nesta polarização esposa x prostituta, eram violentadas sexualmente, pelos senhores. Se engravidassem, o filho seria mais um escravo da fazenda como todos os outros ou seria vendido. Para o escravizador, mulheres negras eram bens móveis sub-humanos, apenas propriedades.

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Dentre os homens negros, um era escolhido para ser usado como “reprodutor”, sempre um escravizado forte e de boa saúde. O tratamento dispensado a ele era diferenciado da escravaria, a função dele não era a lida pesada, mas sim estuprar as mulheres negras para engravidá-las, assim tornando-se uma fábrica de bebês que serviriam como novos escravos ou seriam vendidos e de alguma forma atenderiam as demandas que gerariam riquezas a seus donos.

A maioria dos nossos antepassados foram geradospor estupros. Mulheres negras e índias, que sem opção da escolha de parceiros afetivos, eram obrigadas a gestar numerosas proles resultantes destes estupros, estão no centro da história da miscigenação do povo brasileiro. E tudo isso, era visto com grande naturalidade.

 A reação à cultura do Estupro

A tentativa de superação da herança patriarcal é relativamente recente na história. Apenas no século 19 a palavra “estuprador” foi mencionada oficialmente, e sua menção era carregada de cunho racista. O termo, registrado no dicionário Oxford, onde foi feita sua primeira referência, era originalmente “RAPENIGGER”, ou “estuprador negro”. Homens brancos raramente eram punidos por crimes de estupro e se fossem condenados, suas penas eram irrisórias. Para os homens negros, o castigo era diferente: eles eram facilmente julgados e condenados.

O movimento feminista ocidental desponta no final dos séculos XIX e XX e faz parte da reação contra a cultura do estupro. Entretanto, no Brasil, apenas há uma década iniciou-se o debate a respeito do assunto. No código Civil de 1916, onde o homem era chefe de família e a mulher era considerada relativamente incapaz, admitia-se a tese de legítima defesa da honra para inocentar feminicidas. Em 1979, começou a discussão da possibilidade do marido ser responsabilizado pelo estupro da esposa, já que a ideologia até então, passada de geração em geração, fixada pelo patriarcado, é a de propriedade, servidão sexual e submissão.

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Como vitória do movimento feminista de 1970 e 1980, em 1988, a Constituição Federal foi modificada, dando à mulher igualdade das funções em âmbito familiar. Com relação ao estupro, é vergonhoso que apenas em 2009 as leis tenham sido alteradas para tornar-se um crime contra a mulher. Anteriormente, era descrita como um ataque ao homem, pai ou marido, que tivesse sua integridade moral afrontada e manchada pelo crime sexual sofrido pela mulher. Com a Lei n° 12.015, de 7 de agosto de 2009, o estupro passou a ser um crime contra a dignidade e liberdade sexual da vítima.

A Cultura do Estupro na prática

A reação à cultura do estupro ainda é pequena. Com o advento das redes sociais, ficou mais fácil para os grupos oprimidos se organizarem em torno de pautas cruciais. Desta forma, temos ouvido falar com mais frequência do termo “cultura do Estupro”. Mas o que seria isto afinal?

Dolce Gabbana e a glamuralização do do estupro.

Dolce Gabbana e a glamuralização do do estupro.

A cultura do estupro é banalização do estupro, a ponto de ser naturalizado pela sociedade e não trazer espanto e nem indignação. Esta cultura se fortalece pela mistura de ideologias de ódio, que se interseccionam. É muito fácil perceber a misoginia sendo gritada em discursos que culpabilizam as vitimas.

Idéias propagadas

A cultura do estupro se estabelece a partir da aceitação do estupro como uma punição social. O castigo se dá por um suposto rompimento com os papéis de gênero rigidamente fixado. E as ideias que o lugar da mulher é longe de espaços públicos são ainda frequentes.

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Lugar de mulher é dentro de casa, protegida pelas paredes do lar, pelo seu marido, cuidando dos filhos e servindo a família. Fora disso, qualquer mulher que seja estuprada estaria provocando a situação. Esta ideia é completamente falsa já que, no geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima. Ou seja, a maioria dos agressores está dentro de casa.

A mulher deve se precaver para não ser estuprada, tratando o homem como um ser irracional, incapaz de conter seus extintos, como se eles fossem imutáveis. Sabemos que o ato de estuprar é algo que foi concebido e fortalecido socialmente baseado no poder do homem sobre a mulher, logo não é biológico e nem imutável.

Não é Novinha! Ela é Criança ou adolescente! Uma das ideias que o movimento feminista tenta combater ultimamente é o termo oriundo da cultura do estupro: “novinha”. O que você chama de novinha, nós chamamos de criança.

Este discurso ficou evidente com o caso de Valentina, participante de 12 anos do programa de TV Master Chef, que foi alvo de ameaças de estupro nas redes sociais. O caso mais recente é o da adolescente de 17 anos, estuprada por 30 homens e exposta nas redes sociais, em vídeos gravados pelos criminosos. Os comentários de culpabilização das adolescentes pela postura e ato criminoso praticado contra elas estão facilmente acessíveis em conversas pessoais, públicas ou nas redes.

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A idade de consentimento no Brasil é de 14 anos, mas mesmo assim, o atendimento de gestantes com idade inferior e pares adultos nos hospitais públicos é rotineiro.

O conceito carregado no termo “novinha” provoca a ideia de que a jovem sabe o que está fazendo, carregando-a de responsabilidade e exigindo maturidade precoce; tudo isso nos resulta dados alarmantes. Segundo o IPEA, em 2011 88,5% das vítimas de estupro eram mulheres, mais da metade com idade abaixo dos 13 anos, 51% eram negras. Em resumo, 70% dos estupros vitimizaram crianças e adolescentes.

A ofensiva do movimento Feminista.

Embora a ofensiva do movimento feminista contra a cultura do estupro e pela punição rigorosa, exigindo respostas do legislativo e do Estado para violência sexual contra a mulher, o que temos é uma regressão em relação ao quadro.

Em 2012, nos marcos de uma derrota e retrocesso, a então presidenta Dilma Roussef, que havia sancionado a Portaria 415 do Ministério da Saúde, voltou atrás quando acusada de abrir brecha para qualquer tipo de aborto. O projeto visava autorizar o aborto para casos de estupro e anencéfalos,em todos os hospitais da rede pública. Em casos de estupro, a mulher não precisaria fazer B.O, o que seria pular uma etapa relatada como degradante pelas vítimas, já que o atendimento é feito de maneira desumanizada e com questionários humilhantes.

Em 2012 também obtivemos uma importante vitória contra a MP 557, que previa um cadastro de grávidas, facilitando a identificação das que fizessem aborto. Felizmente, a luta das mulheres obrigou o governo a não renovar a MP.

Sabemos que a violência sexual contra a mulher tem diversas consequências psicológicas e físicas, entre elas, a gravidez indesejada. Mesmo com esta ciência, em 2013, foi aprovado na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, o Estatuto do nascituro, que elaborava medidas para tratar o aborto como crime, sem analisar se houve agressão sexual que impôs para as mulheres a necessidade de decisão sobre a interrupção da gravidez. Esse estatuto foi denunciado e combatido nas ruas pelo movimento feminista e barrado.

Mas os ataques não cessam e em 2015, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 5069 que dificultaria o atendimento nas unidades de saúde às mulheres vítimas de violência sexual. O movimento feminista organizado pelas redes sociais e militância atuante foram para as ruas em diversos estados para barrar o PL e pelo Fora Cunha! O PL foi barrado.

Em 2016, diante de umas das maiores discussões levantadas sobre cultura do estupro, ocasionada pelo estupro coletivo de uma jovem de 17 anos por 30 homens, o presidente em exercício Michel Temer, acusado de não apoiar a representatividade de mulheres na composição do seu governo, nomeia Fátima Pelares para secretária de mulheres, uma mulher evangélica, conservadora e contra o aborto até em casos de estupro.

Para acabar com os Estupros é necessária uma Luta contra o machismo de Gênero, Raça e Classe.

Existe um grande descaso dos nossos governantes para com a situação das mulheres no Brasil. Segundo estudo do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE), em dez anos de mandato do PT, foi investido uma média de R$ 0,26 por mulher por ano. Mesmo com uma mulher na presidência, não obtivemos apoio para nossas pautas.

Dilma lamentou o estupro da Jovem por 33 homens em seu Facebook, mas ela se esqueceu de mencionar que, se esta jovem engravidar, não poderá ser atendida em qualquer hospital do SUS para que seja feito o aborto legal. Ela também se esqueceu de dizer que foi em seu governo que foram destinados apenas 0,26 centavos por mulher para ações preventivas e de proteção ao grupo. Outro esquecimento é o do kit anti–homofobia, que teria introduzido nas escolas o debate a respeito da diversidade, do machismo e o debate de gênero. Tudo isso seria feito se a presidenta não tivesse vetado.

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Existe uma classe conservadora, que mantém os mesmos conceitos morais. Não porque são retrógrados, mas porque se privilegiam das opressões. Os ricos, pessoas que detêm os meios de produção, exploram os grupos oprimidos para obter lucro através do seu sistema econômico, o capitalismo. É a esta classe que Dilma aliou-se para governar, se comprometendo na carta ao Povo de Deus, a não pautar o aborto em seu mandato. Dilma também retirou o status de Ministério da Secretaria de Mulheres, que passou a integrar o ministério dos direitos humanos.

Agora, Temer no poder não age de forma muito diferente, já que, contrário ao governo de Dilma, que iludia as minorias esperançosas em sua gestão, governa diretamente para a classe conservadora, sem ilusões. Ele mal chegou e já enterrou o ministério dos direitos humanos e junto com ele a secretaria de mulheres. Devido à intensa mobilização das militantes nas ruas, o presidente interino voltou atrás e recriou a Secretaria de Mulheres colocando a sua frente, uma mulher conservadora e pró – vida, contra o aborto até em casos de estupro.

Temer acaba de assumir e o congresso aprova a PL 5069 na comissão de Constituição e Justiça, o que dificulta o atendimento das vítimas de estupro. Não basta ser mulher para nos representar, é necessário que seja uma mulher da classe trabalhadora, socialista, que trave uma luta certeira contras os pilares do machismo que dissemina as violência de gênero.

Organizar a Luta contra o Machismo e a Cultura do Estupro

Organizadas, as mulheres devem tomar as ruas pelos seus direitos, derrubar Temer, mas não para que Dilma volte com suas migalhas e falsas promessas. Precisamos de um governo da classe trabalhadora, que atenda nossas pautas e apoie nossas lutas.

É preciso exigir educação de gênero nas escolas, desde os primeiros anos escolares para a desconstrução da ideologia machista nas crianças.

É preciso exigir do poder público, campanhas educativas que visem atingir todas as faixas etárias, que combatam a violência contra as mulheres e junto com ela a cultura do estupro.

É preciso posicionamento firme contra setores conservadores, que tentam interferir e boicotar as políticas públicas, que se orientam para atender os diretos das mulheres.

É preciso punição dura para os estupradores e reeducação para que voltem a sociedade sem oferecer riscos as mulheres.