A origem do feminismo radical trans-excludente: a expulsão de Beth Elliott

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Foto de Beth Elliot, por volta de 1970

Por Jéssica Milaré

É comum se deparar com alguma “polêmica” nas redes sociais entre as feministas radicais trans-excludentes contra pessoas trans. De fato, as trans-excludentes representam uma corrente que surgiu dentro do feminismo radical na década de 1970, dividindo-o em dois grupos: um que defende abertamente a exclusão de mulheres trans, e o outro que não se opõe à presença delas no movimento feminista. O primeiro grande evento em que essa divisão ocorreu foi a Conferência Feminista Lésbica da Costa Oeste, em Los Angeles, nos EUA, em abril de 1973.

Daughter of Bilits, 1972

Em 1971, Elliott tornou-se membro do coletivo feminista lésbico Daughter of Bilits, o que deu origem a uma forte polêmica. Foi decidido que ela poderia participar. Porém, no final de 1972, Bev Jo von Dohre, ex-amiga de Beth, acusou esta de tê-la assediado sexualmente em 1969. Entretanto, a própria descrição do “assédio sexual” em um texto da Bev Jo mostra que não houve assédio sexual: Bev Jo confessa que Beth Elliot não encostou um dedo na Bev Jo nem a ameaçou.

Eu me senti perseguida por ele [Elliot] por mais de 40 anos, mas eu não posso me afastar dele nem mesmo em espaços “somente para mulheres”. Eu acho que é ultrajante que qualquer lésbica ou mulher [sic] deveria ter que ver um homem que a assediou em um espaço que deveria ser seguro. (Este homem não me pressionou além disso, mas por favor lembre-se de que todos esses homens têm um passado e assuma que muitos deles teriam estuprado meninas ou mulheres. Eles são HOMENS, afinal de contas).

Von Dohre. Defining Lesbians Out Of Existence. Grifo nosso.

Perceba que, se Elliott tivesse realmente cometido assédio sexual, Bev Jo não confessaria que Elliott “não me pressionou além disso”, nem se basearia em pura especulação de que as mulheres trans teriam estuprado outras mulheres antes da transição. Beth pode ser acusada de carência (o que é comum entre pessoas trans, já que nós somos rejeitadas socialmente) e de manter uma relação nada saudável, mas não de assédio sexual.

Eu podia sentir Elliot me observando pelos meses que se seguiram, e, se eu parecia começar a ser amiga de outros homens, ele ficava com raiva e chorava. Em me transferi para outra escola para tentar ficar com Marg, mas ainda mantive contato com Elliot. Ele disse que se apaixonou por outra lésbica e que ela tinha transado com ele como se ele “fosse uma mulher”. Ele também me disse que transou com um homem. Depois de um tempo, ele decidiu que era uma lésbica e escolheu o primeiro nome o mais próximo possível ao meu e pintou seu cabelo com um vermelho semelhante ao meu. (Isso não é de arrepiar?).

Von Dohre, op. cit.

Por que ter um nome parecido e um cabelo da mesma cor seria “de arrepiar”? Ora, porque ela tem ódio das mulheres trans.

É engraçado como eles [as mulheres trans] estão tão acostumados que as feministas imediatamente se curvem pra eles que eles não sabem lidar com quando nós não nos importamos com o que acontece com eles. Eles esperam que nós fiquemos chocadas com as estatísticas sobre eles sendo mortos, mas não percebem que algumas de nós desejamos que eles TODOS fossem mortos.

Von Dohre, op. cit.

Conferência Feminista Lésbica, 1973

Na conferência, um grupo denominado The Gutter Dykes distribuiu um panfleto contra a presença de “um homem” (sic), no caso, a Beth Elliott. Robin Morgan, baseando-se na acusação de Bev Jo, fez um discurso questionando a audiência por que algumas delas defendiam a “obscenidade do travestismo masculino” (sic).

Não, eu não vou chamar um homem de ‘ela’; trinta e dois anos de sofrimento e sobrevivência nessa sociedade androcêntrica me fizeram merecer o título de ‘mulher’; um passeio na rua por um travesti masculino, cinco minutos de assédio (que ele deve gostar), e ele ousa, ousa pensar que entende nosso sofrimento? Não, pelos nomes de nossas mães e pelos nossos, não devemos chamá-lo de irmã. […] Eu o acuso de oportunista, infiltrador e destruidor – com a mentalidade de um estuprador. E vocês mulheres desta Conferência sabem quem ele é. Agora. Vocês podem deixar ele entrar em nossas oficinas – ou vocês podem lidar com ele.

Robin Morgan, durante seu discurso.

Mais de dois terços das conferencistas votaram pelo direito de Beth Elliott permanecer no evento. Quando Elliott subiu no palco com seu violão para se apresentar, um grupo de feministas radicais também subiu com o intuito de expulsá-la. Robin Tyler e Patty Harrison, que também eram feministas radicais, subiram no palco para defender Elliott.

Robin Morgan subiu no palco com esse discurso horrível e, quando Beth subiu para tocar seu violão e cantar, elas começaram a ameaçá-la. Patty e eu subimos no palco e fomos agredidas, porque elas subiram no palco para fisicamente agredi-la. […] Nós subimos e defendemos Beth

Robin Tyler, em uma entrevista.

Para evitar maiores confrontos, Beth Elliott retirou-se do evento.

Com o tempo, feministas cisgêneras, radicais ou não, passaram a diferenciar-se da vertente das feministas trans-excludentes, denominando-a como trans-exclusionary radical feminism (feminismo radical trans-excludente), abreviadamente TERF.

Novembro Negro e a Marcha Fúnebre prossegue

“A mulher negra chora debruçada sobre o corpo frio do filho morto, a policia atirou pelas costas, ele estava correndo, não da policia, brincava com os amigos na comunidade que nasceu, e por barbárie, ali também” (Um lugar chamado branquitude – Verinha K.)
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A mídia completamente posta do lado da Burguesia faz um serviço ao Estado ajudando o imaginário dos cidadãos a escolher um lado, e obviamente não é o lugar dos seus semelhantes, mas o da classe dominante. Enquanto rascunho este texto ouço a repórter da rede Record contar que a Cidade de Deus esta ocupada, ela relata a morte de 7 pessoas, mas deixa entender que pode ter sido uma execução ou apenas vitimas do tiroteio. Ela ardilosamente cita a ficha criminal dos assassinados, como se quisesse dizer aos telespectadores “Viu? Ainda bem que morreram, esta gente não presta”. Crimes como roubo por exemplo, foram citados e este mesmo torna aceitável a pena de morte, até daqueles que eram ficha limpa.
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Arte de Mikaela Masettias

 

Já os policiais?
Ah os policiais…eles te nome, eles deixam famílias, mães e filhos, todos choram em seus  velórios, tem currículos invejáveis… é uma tragédia a morte deles, e claro que toda morte gera comoção, mas incomoda a você, leitor, que ninguém estranhe que os sete mortos não tem mães, pais, irmãos e irmãs, esposas, filhos e filhas? Eles tem, mas a mídia omite, propositalmente para impedir a comoção e impelir a escolha de um lado.
Do que estamos falando?
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NOVEMBRO NEGRO

No mês da Consciência Negra que homenageia e relembra a resistência negra contra o racismo, e nomes como  de Zumbi, Dandara, Acotirene, Luiza Mahim, João Cândido, Solano Trindade, dos Panteras Negras, de Malcolm X, todos aqueles que lutaram contra a opressão sexual, racial, homofóbica e contra a exploração capitalista são evocados, o Brasil assiste no Rio de Janeiro, mais um episódio do genocídio da juventude negra.

 

No dia 19 de Novembro um Helicóptero caiu na cidade de Deus, estavam dando apoio pelo ar a operação terrestre que a policia fazia atrás de “traficantes”. O Helicóptero caiu, isso mesmo, caiu. Quatro policiais que estavam na aeronave morreram. Repito: Caiu. Não há sinais de perícia que aprovem que tenha sida abatida, não há tiros na aeronave, não há tiro os policiais, pode ter sido falha mecânica, pode ter sido erro humano, não importa quantos anos de experiência se tenha, um dia… a gente pode errar.
 
No dia 20 é aprovado uma invasão na cidade de Deus, se os policiais já fazem atrocidades, atiram a esmos nas comunidades como forma de intimidação, muitas vezes, tiros que encontram lugar em moradores completamente alheios a qualquer situação. (Estamos cansadas de ver isso).
 
SETE corpos foram encontrados
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Sinais de execução: Mães, esposas, irmãs, pais, tanta gente sofrendo, por que a policia resolveu RETALIAR a queda do helicóptero. Mas venhamos e convenhamos, tudo que a policia militar quer é um motivo para chacinar, verdadeiros tribunais autorizados pelo Governo, onde a pena de morte de gente preta, pobre, da classe trabalhadora é permitida.
Eles, jovens negros vitimas da Policia tem nome:

De acordo com a Polícia Civil, os corpos encontrados são de Leonardo Camilo da Silva, 30 anos, Rogério Alberto de Carvalho Júnior, 34, Marlon César Jesus de Araújo, 22, Robert Souza dos Anjos, 24, Renan da Silva Monteiro, 20, Leonardo Martins da Silva Júnior, 22, e de um adolescente de 17 anos.

 
Hoje, 21 de Novembro, há uma operação de Guerra na cidade de Deus. Sete mil alunos sem aulas, comércio fechado. Moradores apavorados, “a marcha fúnebre prossegue”, como diria Eduardo Taddeo.
Os policiais que estavam por terra no momento da queda do helicóptero eram das UPPs, defendidas pelo Estado e vergonhosamente, até por algumas figuras carimbadas da esquerda, como o Freixo.
 
A realidade é que as UPPs são carro chefe de politicas que pretendem a criminalização da pobreza, a política da UPP não resolve. O que resolve é: Saúde, educação e saneamento básico. O que resolve é a descriminalização do uso recreativo de drogas.
 
Um dos principais argumentos para criminalizar as comunidades pobres e carentes e justificar a militarização destes territórios. Vale lembrar que esta polícia foi formada historicamente para agredir e reprimir os mais pobres, movimentos sociais e etc. Não podemos nos submeter a polícia que nos mata!
 
Exigimos:
 
1- A investigação e punição de todos os culpados por este Chacina na Cidade de Deus!
2- O fim do genocídio da juventude negra e pobre das favelas!
3- O imediato investimento em saneamento básico, saúde, energia elétrica e educação nas favelas ocupadas pela UPP!
4- A legalização das drogas e o fim da criminalização da pobreza!
5- O fim da Polícia Militar, como já foi indicado até pela ONU, e a criação de uma polícia unificada e que os delegados sejam eleitos pelos trabalhadores da região em que eles vão atuar!

Aquilombar é ocupar

Durante o mês de novembro haverá a Marcha da Periferia em todo o Brasil. Esta marcha representa para nós, no mês da consolidação da consciência racial, as únicas heranças que nossos ancestrais nos deixaram e que nenhum colonizador conseguiu nos roubar: a nossa resistência através da nossa cultura, através da nossa coletividade.

“A culpa não é só de quem atira, mas de quem manda atirar”
A PM não mata sozinha, ela nasceu no Brasil colônia idealizada pela elite portuguesa para capturar e torturar negros escravizados que fugiam das senzalas. E nada mudou, ainda somos tratados como propriedades do estado, a nossa liberdade só foi assinada para que nos tornássemos mãos de obra baratas, ainda não podemos andar livremente pelas ruas a hora em que quisermos e aonde quisermos, sem que no mínimo sejamos tratados como animais desenjaulados.

Tudo isso é minuciosamente pensado para que a elite nos aprisione nas periferias, em subempregos, com uma sub-educação que aprisiona o nosso senso crítico e molda nossas vidas em servir à burguesia, seja pela ideologia que enclausura nossas mentes, seja através da força física que a PM se propõe a agir, como ditadores em pleno sistema democrático que não chega à periferia.

A burguesia tem nos matado com suas armas visíveis e invisíveis há séculos. A nossa capacidade de resistir até aqui dependeu apenas de nós. Mas nem sempre é assim, as cicatrizes que o genocídio tem deixado no nosso povo vão além das marcas de bala nos nossos mortos e feridos.

Essas marcas vivem nas nossas almas e tem nos matado aos poucos todos os dias. Mães têm literalmente morrido de tristeza ao não suportar o fato de ter de enterrar seus filhos adolescentes que tiveram seus sonhos interrompidos pela violência genocida e racista da elite, famílias tem vivido sobre as suas dores, entes queridos que mesmo vivos, já não sentem mais a razão de sua existência por saberem que isso não tem prazo pra acabar e que a cada hora, cada vez mais jovens negros serão assassinados para manter a hierarquia de classes no Brasil.

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O revide virá.

Não basta saber, é hora de agir. A juventude periférica já ocupa as escolas e universidades de todo o Brasil, os quilombos resistem bravamente às tentativas de aniquilação. Não abaixaremos as nossas cabeças para os desmandos de uma elite racista e cada vez menos preocupada em fingir que se importa.

É hora de relembrarmos a luta de Dandara, que preferiu morrer à voltar aos chicotes da casa grande. De Zumbi, que resistiu até o fim de sua vida em nome da libertação de seu povo. Dos panteras negras, que se organizaram em nome da raça e da classe de sua gente para acabar com o encarceramento em massa e o genocídio do povo preto nos Estados Unidos. Por Amarildo, Cláudia, pelos 12 do Cabula (Salvador), pelo menino Eduardo, pelos cinco da Leste (São Paulo).

É tempo de ocupar para reparar tudo o que nos foi roubado. Nossas casas, nossos nomes, nossa fé, nossos irmãos, nossos sonhos. Invadiremos tudo o que é nosso por direito, queremos ainda mais do que reparação histórica. As cotas são só o começo

A desumanização das vitimas de FEMINICIDIO

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A violência doméstica mata:

  •  Por hora 5 mulheres em todo mundo (Action Aid)
  • Por dia 119 mulheres (Nações Unidas)
  • No Brasil, por dia são 15 mulheres assassinadas.
  • O Brasil é de 84 países, o quinto que mais mata mulheres, superando a Síria.

Não bastou no Brasil que exista uma lei, a de numero 8.305/14 que classifica o feminicídio como crime hediondo e modificou o Código Penal, incluindo o crime entre os tipos de homicídio qualificado… Ás mulheres seguem morrendo assassinadas por companheiros e ex- companheiros e até mesmo por homens com quem nunca se relacionaram, mas que não aceitam o fato de serem rejeitados.

Um fato muito interessante sobre o crescimento da mortalidade das mulheres por este tipo de crime é que elas tornam – se números, são apenas estatísticas, sem rosto, sem história e sem humanidade. Se tantas mulheres morrem da mesma forma no Brasil, por que não vemos divulgado na mídia a perda de cada uma delas?

Assistindo o Jornal, destes sensacionalistas, nos admiramos com a quantidade de mulheres assassinadas por maridos, ex-maridos, namorados, ex-namorados e até mesmos desconhecidos em ataques sexuais e ás vezes por motivos completamente inacreditáveis, motivo nenhum… É só por ser mulher mesmo. Os casos amontoam – se.

Comumente caracterizados com crime “por amar demais”, crime por “paixão”, a mídia deseduca a população que assiste os noticiários sangrentos com mortes brutais, onde não há nada de ação de amor ou paixão, mas deixam muito claro o teor de ódio e de como os homens são ensinados pela cultura machista a não amar mulheres, mas amar  o poder que tem sobre elas, o poder de submetê-las a seu bel prazer, compreendendo -nas como seres inferiores que devem suas vidas a eles e assim eles dispõem da vida das mulheres, quando acreditam que não estão obedecendo suas ordens ou não servem mais as seus propósitos.

#Somostodasmaristela?

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Em 11/11/2016 uma mulher pobre, moradora de uma comunidade, tudo que ela teria era um barraco e um filho. Maristela Nicolau, de 58 anos, foi espancada até a morte pelo companheiro, após uma briga ocorrida na madrugada desta sexta-feira dia 11. O caso acabou sendo noticiado no dia 12 de Novembro, um pouco antes de ser noticiado o caso de Edna.

Em 12/11/16 Edna morreu, alvejada por 4 tiros, dentro de seu apartamento na região Centro sul de Sampa, bairro do Paraíso. Após divorciar-se de seu ex-marido partiu de Goiás para São Paulo onde recomeçaria a vida longe do homem que já teria uma medida restritiva que o impedia de aproximar-se dela. O homem, Hugo, viajou de carro de Goiás a São Paulo para matá-la e feriu um amigo dela que estava no apartamento.

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Mariana Menezes de Araújo Costa Pinto, sobrinha-neta de SARNEY, foi encontrada morta em casa. Lucas Leite Ribeiro Porto, cunhado da vítima, é o principal suspeito.

“Violentamente espancada”, “ferida com golpes de facão”, “amarrada dentro da própria casa”, “incendiada pelo marido”. A violência contra a mulher está presente em todos os estados, em todos os estratos sociais.

A diferença é a humanização que as vitimas burguesas recebem a ausência de investigação da vida pregressa delas, a admissão do crime e repúdio. Varias imagens das vitimas são veiculadas, a imagem dos rostos, é o que nos humaniza e desperta a empatia.

Quantas matérias sobre femicidio de mulheres pobres sequer se mostra o rosto delas? Não há imagem nem dela e nem do agressor, quantas matérias com citação da vida pregressa vitima, buscam fatos que justifiquem a brutalidade sofrida pela vitima.

Desde dia 12 vários canais falam da sobrinha neta de Sarney e falam de Edna, e não é que não devessem falar, mas deveriam falar de todos, dar rosto as vitimas, dar nome, citar suas histórias e a interrupção de seus planos e sonhos, ou os planos e sonhos que nunca vingaram por causa da miséria imposta sobre elas e que para o desfecho infeliz, morrem nas mãos do homem que depositaram confiança e esperança de pelo menos o verdadeiro amor terem encontrado e vivido.

#SomostodasJoana?

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Acontecido em 5/10/16 ,um caso que merecia ser divulgado a exaustão foi o de  Joana de Oliveira Mendes, professora, de 34 anos, tinha dois filhos: um adolescente de 14 anos, fruto do primeiro casamento, e um menino de apenas 2 anos, fruto do seu relacionamento com o homem que tirou a sua vida, Arnóbio Henrique Melo. A vítima teve seu rosto completamente desfigurado, comprovando que o autor do crime, que lhe deferiu 31 facadas, tinha o intuito, não só de tirar a vida, mas desfigurar a mulher. Destruir sua imagem.

As tragédias das burguesas são relatadas de forma humanizada, quando falam sobre, até parece que é algo raro, que não acontece todos os dias, que não se trata de milhares todos os anos, perguntamos – nos, por que algumas vidas (ricas) valem tanto e vidas pobres recebem a banalidade e o “é assim mesmo”, como se a pobreza nos tornasse pessoas brutas que convivem naturalmente com a morte violenta acometida por ódio e como se o mesmo não pudesse acontecer na burguesia por seu refinamento e superioridade.

Na democracia Burguesa, a proteção e justiça têm endereço certo e não mira as periferias.

As mulheres da classe trabalhadora são as maiores vitimas da violência machista e as que menos tem destaque nas emissoras de tv e rádio, dependentes do Estado para obter proteção e algum tipo de justiça, espera na lei Maria da Penha, o fim da violência que as acomete, contudo  a Lei Maria da Penha, que foi a principal política dos governos petistas para as mulheres, não pode ser plenamente aplicada por falta de estrutura. Menos de 10% dos municípios brasileiros têm delegacias especializadas, e pouco mais de 1% com casas-abrigo. Seria possível, já hoje, construir centros de referência e casas abrigo, realizar campanhas contra a violência, desmistificar a cultura do estupro, ampliar o atendimento médico e psicológico, entre outras medidas. Com 1% do PIB anual investido no combate à violência contra a mulher, tudo isso poderia se tornar realidade.

Hoje o investimento do governo por mulher é de aproximandamente 0,23 centavos. Estamos a beira de um ataque a população da classe trabalhadora que nos fará retroceder de forma que nossa mente sequer pode alcançar a dimensão. A PEC 241 que agora chega ao senado como PEC 55, que pretende congelar gastos públicos por 20 anos, fala muito sobre como os governantes estão, com o perdão da palavra, cagando para a situação aberrante da mulher brasileira frente a violência machista.

Assistiremos passivamente o congelamento do andamento das ações públicas que possam minimizar os ataques aos direitos humanos das mulheres?

É necessário organizar as mulheres e sairmos as ruas, contra a PEC que nos assalta de nossos direitos, roubando 20 anos de investimentos em áreas prioritárias para a classe trabalhadora, principalmente para as mulheres da classe trabalhadora, devemos exigir que os investimentos sejam proporcionais ao tamanho do problema da violência a fim de proteger a vida das mulheres.

 

Padrão de beleza um ataque ao Gênero e a Classe das Mulheres

Ninguém nasce odiando a si mesmo, somos ensinadas a isso, para algumas mulheres este ensinamento começa nos primeiros anos da infância, as mulheres negras, creio, desde o nascimento, outras no decorrer da vida, mas existe, um perfil do que é ser bonita que está engessado socialmente, servindo para distorcer a imagem das mulheres diante do espelho a ponto delas terem medo do espelho e ódio a própria imagem.

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Pra quem dúvida e desdenha da afirmação de que os padrões de beleza são enfiados na cabeça das mulheres desde a infância, dê uma conferida se existem princesas da Disney que sejam gordas, muito recentemente com o clamor por representatividade, surgiram uma ou duas negras, uma ou duas corajosas e valentes, a maioria é: Branca, magra, delicada, traços finos, esguia, e dócil. Recado dado: “Você não é uma princesa se não estiver dentro destes padrões.”

Hoje a beleza tem padrão eurocêntrico: A beleza é branca, alta, magra, dócil, obediente…

Dando uma passada pela evolução histórica dos padrões de beleza, temos que no período renascentista, entre século XIV e XVI, a mulher que era admirada com exemplo de beleza era gorda.  Por que isso acontecia? Somente as mulheres que pertenciam às famílias mais abastadas eram gordas. Ou seja, a beleza retratava a classe dominante. Só lembrando que o Renascimento, começa na Itália, o padrão vem exportado de lá, onde eram comuns mulheres gordas, brancas, altas, olhos claros, loiras e cabelos lisos.

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No Século XIX, a revolução industrial passa a dar uma qualidade de vida melhor para o proletariado, permitindo uma alimentação mais adequada e abastada para as classes subalternas, neste período, a classe dominante que é a burguesia, passa a escolher o que o que acha belo, era as mulheres gordas, brancas, de rosto corado. O corpo elogiado era o que teria a forma de ampulheta e as mulheres para obtê-lo, começaram a usar espartilhos, desconfortáveis e apertados.

Depois aparece o padrão de beleza com corpo magro, não por acaso, um corpo possível para a elite, e um corpo alcançável para as mulheres da classe trabalhadora através de muito esforço, e uma frustração sem remédio, para as mulheres que não tem biótipo para serem magras. Nos anos 20 além de execrada, a gordura era vista como atributo de classe inferior.  Existiam umas charges que corriam soltas, onde as mulheres de baixa renda, normalmente retratadas com domésticas, eram gordas, eram feias, desarrumadas, relaxadas. Enquanto isso, as patroas, eram representadas como esbeltas, esguias, altas, postura corporal ereta, delicadas…

A beleza sempre será a representação da classe dominante, antes as mulheres gordas eram tidas como mulheres belas, por que a fartura de comida era um atributo da nobreza, porém a classe subalterna tem suas formas de manter a sobrevivência, e a alimentação baseada em carboidratos passa a lhes dar a forma volumosa desejada pelo padrão. O que a classe dominante faz? Passa a escolher para padrão as mulheres gordas com rosto corado, era comum nas odes e travas, ouvir os poetas cantando para “minha senhora, branca e rosa”.

A alimentação das pessoas pobres com base em carboidrato não lhes conferia boa saúde, muitas eram anêmicas e descoradas, na classe dominante, isso era mais raro. Mas nem para as mulheres da classe dominante era tão fácil assim, elas teriam que reformular seu corpo para ter a forma de ampulheta, que era o desejado. Ou seja, o padrão dele beleza é o da classe dominante e ditado pelos homens, é o que eles desejam e é nisso que a mulher deve transformar-se, afinal, a utilidade das mulheres, desde a invenção do patriarcado, é de servi-los.

O padrão magro esta em voga há muito tempo. Mais precisamente em 1960, entra para o padrão mulheres com quadril estreito, umas das propagandas veiculadas na época diziam que mulheres não devem parecer – se com uma pêra. Que era o ideal de beleza passado, conseguido com ajuda dos corseletes, né? Lembram?

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Em 1970 Farrah Fawcett torna-se garota propaganda do padrão de beleza: alta, magra e rainha da dança. Era permitido na época de tudo para que as mulheres chegassem a este padrão, inclusive, fumar. A propaganda de cigarro dizia que “fumar emagrece” (não diziam que o câncer provocado por cigarro emagrece, mas sim que fumar consumir aquele produto danoso a saúde, para parecer ter um corpo saudável).

Em 1990, o corpo é pequeno e fino. Em 2000, o corpo é malhado. Em 2010 passa se a aceitar corpos com bunda grande, até desproporcional, como a Valeska Popozuda, mas segue renegado pela indústria da moda, afinal é um padrão das classes subalternas, a elite continua magra e sem formas abundantes.

O grande mote dos dias atuais é que o corpo magro é padrão por que é saudável e harmônico.

É muito interessante notar que todos os padrões que passaram pela linha histórica dos tempos é como ele surge ditado pelas classes dominantes e como a as classes subalternas precisam seguir aquele ideal mesmo sem ter as condições para isso. As mulheres da classe dominante, também sofrem com esta opressão estética, mas elas têm capital para investir no corpo padrão, além de contratarem treinadores particulares, que montam treinos específicos para cada uma, elas têm a sua disposição medicações e tratamentos estéticos variados para atingir a meta do corpo magro, mesmo que não tenha nada de saudável no resultado final de sua busca desenfreada.

As mulheres pobres por sua vez encontram se desprovidas do capital e de um dos critérios importantíssimos para o investimento num corpo padrão: Tempo.  As mulheres da classe trabalhadora ao contrário das burguesas começam a trabalhar muito cedo, passam o dia exercendo atividades remuneradas para ajudar a compor a renda da família, isso quando não é arrimo da família. Ganham salários baixos que muitas vezes cumprem apenas a função de manutenção da casa sem sobrar um centavo para cultura, diversão e muito menos para tratamentos estéticos e academias. As mulheres da classe trabalhadora não têm sequer a sua disposição lugares públicos bem iluminados específicos para exercitarem… Para nós tudo isso é negado.  Desta forma, o jeito mais simples de emagrecer é entupir se de remédios, e esquecer a fome, e muitas mulheres tem optado pela cirurgia bariátrica. O elogio a magreza é sádico.

Além desta observação, vamos além: O Brasil é um país onde a miscigenação é um traço que deve ser levado em consideração. Exportar um padrão de beleza Europeu, e impô-lo as mulheres Brasileiras é, de novo, sádico. Nós não temos o biótipo lá de fora, somos diferentes, temos nossos traços e sobre eles devemos ser elogiadas, e não sobre traços alheios a que somos. Por exemplo, no Brasil existe uma grande colônia Italiana, o padrão destas mulheres é o renascentista: Brancas, loiras, gordas e de rosto rosado. Não é por que o padrão de beleza mudou, ditado pela classe dominante, que o padrão de beleza destas mulheres deve mudar.

Todas NÓS deveríamos estar representadas como Tipos de beleza, sem padrão, mas ai vem à burguesia, o capitalismo, o machismo e unificados, usam deste ditame para lucrar em cima das nossas fragilidades, do nosso auto – ódio.

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A burguesia tem usado o ódio que nos ensinam desde muito cedo para lucrar. Consumimos desvairadamente produtos que nos prometem de forma fácil o corpo padrão, e quando nos frustramos sem conseguir, nos enfiamos e morremos em clinicas de lipoaspiração em busca do corpo perfeito, submetemos – nos as bariátricas, mesmo que não tenhamos indicação para esta cirurgia de grande porte entre outras medidas desesperadas, mulheres que são diabéticas, reduzem o uso da insulina, correndo riscos atrelados à ausência da mesma no organismo, para emagrecer. A classe dominante nos quer assim, completamente fora da realidade, obstinadas com um padrão impossível, enquanto eles dominam a política, dominam a economia, dominam o mundo em mantém o Status quo inalterado, assim eles enriquecem explorando-nos com base em nossa opressão.

UM DEPOIMENTO PESSOAL

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Eu, que vos escrevo, sou uma mulher gorda, sempre fui uma mulher gorda, e senti na pele desde a infância a rejeição ao meu biótipo, ao meu corpo, as minhas medidas, as minhas banhas. Muitas vezes fugia do espelho com medo de encontrar-me comigo mesma ali e reforçar o que eu pensava que aconteceria, eu sabia que odiaria a pessoa que veria refletida.

Meu padrão é o renascentista, minha ascendência é de Italianos da Calábria. Sou alta, branca, gorda, loira, cabelos lisos.

Nem sempre eu me odiei e foi um processo muito longo até eu deixar de me odiar. Tudo começou com o primeiro xingamento na pré-escola, eu não sabia que era diferente das outras crianças e nem que era inferior ou feia, até me dizerem que eu era uma “baleia”. Depois disso, foi ficando cada vez mais comum ouvir insultos, pessoas adultas me diziam as coisas mais dolorosas, como uma tia que “brincando” me dizia: “Você tem rosto de princesa e corpo de velha”. As amigas que não deixavam andar na bicicleta delas por que “você é muito gorda vai afundar minha bicicleta”. O professor de educação física que disse “Vai correr sozinha em volta desta quadra inteira para emagrecer e ficar como as outras meninas, magrinha”, as mulheres na igreja que atormentavam minha mãe dizendo a ela que ela deveria fazer algo com relação a isso, que eu ser gorda daquele jeito ela responsabilidade dela; Os amigos do meu irmão que diziam a ela que eu era linda de rosto, mas muito gorda, fazendo com que ele tivesse vergonha de mim e passasse boa parte do dia dele me torturando com rótulos e criticas que me destruíam.

Eu diante do espelho e não conseguia ver uma pessoa feia, eu me achava bonita, eu amava o que eu via, mas o mundo odiava o que eu era e então eu queria deixar de ser odiada. Eu queria emagrecer para ser como todas as outras pessoas e fugir daquelas vozes algozes de mim. Foram tantos tratamentos que perdi as contas. Foram tantas derrotas que perdi a conta. Foram tantos olhares de “Eu sabia que você não conseguiria”, foram muitas coisas que me matavam aos poucos.

A consciência de classe foi algo que me trouxe ciência da opressão e libertação de uma das situações mais paralisantes que atravessou minha vida: Tentar atingir um padrão de beleza que não é o meu padrão, sem ter em mãos, capital para investir nesta transformação, se tivesse, teria adquirido um corpo padrão que mente ser saudável, mas não tinha. Ainda bem que eu não tinha e não me submeti ao que dita uma minoria que pretendem – se tiranos das mulheres.

Quero terminar este texto pedindo a você que esta me lendo, que faça o mesmo exercício que eu fiz, note que nem sempre você odiou suas formas, talvez você nunca tenha deixado de sentir se bonita, você submeteu – se a pressões externas, você pensou em determinado momento que “se eles me odeiam é por que eu sou feia”, mas isso não é verdade. A Verdade é que existe uma classe dominante que impõe seus padrões e idéias, e nós acabamos através da opressão nos submetendo. Não se submeta. Vire o jogo. Dê um foda – se a quem crê se tão superior a ponto de ditar o que é ou o que não é belo.

 

Os padrões e as mulheres.

Por: Mariana Camara

Não é a balança ou o espelho que é inimigo da mulher, mas os padrões estéticos de uma sociedade racista, machista, gordofóbica e elitista. Sim, elitista, os padrões estéticos e o capitalismo estão interligados, os padrões são ditados pela ideologia da classe dominante, lembrando Marx em a ideologia Alemã “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes”.

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Por muito tempo, as mulheres, sobretudo as negras, gordas, trans, deficientes, etc., sofreram e ainda sofrem com os padrões de beleza que nos é imposto desde a infância. Quantas negras não tentaram afinar o nariz usando prendedores? Usando inúmeros truques de maquiagem? Alisando o cabelo desde pequenas? Seria mais fácil perguntas quantas não fizeram isso, e poderíamos contar, talvez, nos dedos das mãos, não é mesmo? E quantas mulheres se submeteram a dietas desumanas e cirurgias estéticas perigosas para chegar ao “corpo ideal”? Milhares. Isso acontece porque o padrão estético é branco, mesmo num país composta por negros, em sua maioria, e magro.

Atualmente, Ludmila, uma cantora negra, afinou o nariz por meio de cirurgia e isso gerou críticas e discussões sobre ela, fazendo com que muitos esquecessem que o problema não é ela, mas uma sociedade que inferioriza suas características e traços negróides.

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Isso se tornou um problema— que foi “resolvido”— que vivia na pele, tanto que sofria ataques racistas cibernéticos. Por causa disso, fora o “desejo” de ficar mais “bonita” e de bem consigo mesma, ela é uma consequência da nossa sociedade. Ela cedeu a isso para ter um pouco de paz. E isso se torna mais complicado quando é uma negra pobre e periférica que encara mais dificuldades em se encaixar nos moldes engessados pela sociedade.

Por isso esse problema não é só racista e machista mas também é um problema de classe, é uma opressão de classe. Padrões de beleza geram dinheiro e é tudo o que o capitalismo quer: dinheiro. Você precisa consumir para se enquadrar no padrão para não ser jogado à margem. Quanto mais dinheiro você possuir, mais fácil será atingir o padrão estético ora embranquecendo-se, como fez Michael Jackson, ora emagrecendo, como vemos tantas celebridades que sedem as bariátricas e cirurgias de lipoaspiração/lipoescultura etc… Muitas, nem saem da mesa de cirurgia para exibir os resultados, mesmo assim, assumem o risco, as vezes, é preferível sair morto de uma mesa de cirurgia do que viver a margem dos padrões.

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Se na maioria das vezes mulheres se submetem a se adequarem ao padrão, há também as que preferem não seguir os padrões branco, magro, de feminilidade e etc. Gabourey Ridley, uma atriz negra e gorda, que foi criticada por encenar uma cena de sexo, não se submete a isso. Ela é segura de si e é inspiração à muitas mulheres.

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Gabourey é um exemplo de superação, crítica e rompimento com padrões. Ela tem dinheiro, por que não emagrece? Porque ela não quer, porque ela é feliz consigo própria. O avanço dos movimentos sociais, como o feminismo, esse rompimento está sendo continuo. “Se todas as mulheres acordassem amando- se, quantas empresas iriam à falência?”. Por esse medo, muitas indústrias, empresas estão apoiando causas sociais porque gera lucro. Maquiagem para vários tipos de tons de pele, modelos plus size( que até é “padronizada”. A maioria tem cintura fina e não representa todas as gordas, mas é um avanço) e etc. “Mas isso não é bom?”

Há também a situação das mulheres trans e travestis que procuram se enquadrar nesse padrão para serem vistas e respeitadas na sociedade. E isso gera muita polêmica porque acham que elas se preocupam em “reforçar” estereótipos de gênero, sendo que não. Quem reforça esses padrões é o capitalismo. E isso também é muito doloroso para elas pois a maioria não têm condições financeiras para se harmonizar, etc.

É ótimo a representatividade mas ela tem uma importância diferente para a classe dominante. Queremos sim espaço e representatividade, queremos ser vistas como pessoas que merecem respeito. Não queremos só representatividade e rompimento com padrões nas novelas, mídias, propagandas. Queremos que isso acabe na vida real também, pois é muito diferente da TV à nossa realidade.

A participação das mulheres nas religiões de matriz africana

Por Cássia Millene, de terreiro desde sempre.

 

As religiões de matriz africana vieram para o Brasil juntamente com as negras e os negros sequestradas/os da África no período de escravidão. Os primeiros povos foram os bantos, seguidos dos povos da África Ocidental (principalmente do Golfo do Benin). O tráfico de escravos durou 350 anos e mais de 4 milhões de negras e negros foram trazidas/os para o Brasil. “Essas/es negras/os trouxeram consigo o trabalho com o ferro-foram mestres da mineralogia, mestres da agricultura tropical e foram os mestres da criação de gado extensiva”-Alberto da Costa e Silva (Diplomata e Historiador/RJ).

Trouxeram também sua religiosidade, que lhes servia de forma de comunicação, por conta da oralidade, e resistência: o Candomblé e o Vodum. No Candomblé temos uma forte ligação familiar (os Orixás cultuados são ancestrais divinizados) e no Vodum, a coletividade, nunca o individualismo (os Voduns são protetores das comunidades, que podem ser aldeias, famílias ou reinos). (A Rota dos Orixás)

A presença das mulheres na religião é marcante. Elas participam de tudo: Desde Orishás que são mulheres com características ”masculinizadas” pela sociedade patriarcal e machista que temos- como por exemplo: Guerreira (Yansã); Forças das águas doces (Oxum) e todas as demais orishás possuem características também (mesmo que não sendo a principal)- até na função de zeladoras (Yás/Yalorixás/Yabás) dos Ylês (terreiros/barracões). São elas as responsáveis pelo desenvolvimento espiritual e pela transmissão do conhecimento como as histórias da origem até as doutrinas entoadas nas giras.

O primeiro terreiro de Vodum no Maranhão é a Casa das Minas datada de 1849 e fundada por uma negra escravizada do Daomé, mãe do rei de Gezo provavelmente. Quando Adandozé foi feito rei, ele procurou se desfazer do outro lado da família. Ele mandou vender a rainha, Nã Agomtimé (mãe de Gezo, um príncipe), e toda sua comitiva como escravos.

Nos terreiros as mulheres são a grande maioria e têm lugar de destaque, não podendo apenas ser ogãs (tocar os tambores/atabaques) que é apenas para homens (vivência local). Participam ativamente da vida e funcionalidade do Ylê em todos os aspectos. São respeitadas e consultadas sempre por todas as pessoas que frequentam o Ylê sobre os mais diversos aspectos de suas vidas.

As religiões de matrizes africanas são das poucas (se não as únicas) que ainda conservam como modelo funcional o hierárquico matriarcal, onde a centralidade da mulher no que tange o poder decisório de tudo, ao lado dos homens que colaboram e participam, é respeitado em sua totalidade. Os chamados “Orixás de cabeça” (nossa proteção que em nada tem a ver com a do cristianismo/catolicismo) são três e na maioria das vezes são 2 mulheres e 1 homem para que haja equilíbrio(vivência local). Muitas das nossas características são herdadas de nossas/os guias.

Atualmente, existem vários Ylês zelados por homens, porém as mulheres ainda são maioria nas giras e ficando aos homens a função de ogãs.