DO BOTA ABAIXO DOS CORTIÇOS (1904) AOS TEMPOS DAS DESOCUPAÇÕES DA COPA (2010 / 2014)

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A Copa se aproxima e o mundo aguarda esta linda festa que será realizada aqui no Brasil, país do futebol! Já podemos até imaginar a abertura com muitos famosos, brilho, luzes, o Pelé sendo focado por uma câmera sorrindo, quiçá até abraçado com o Galvão, a Cláudia Leite em dueto com a Jennifer Lopez contagiando o público que teve condições de pagar para está ali, todos muito felizes! Mas toda grande produção tem seus bastidores que é onde se esconde toda sujeira, aparas e tudo mais de feio que não aparece em nosso televisor. E é neste ponto que pretendemos chegar.

Acompanhado as denúncias realizadas pelos Comitês dos Atingidos pela Copa é possível perceber que os bastidores da construção do mundial não é tão lindo quanto parece, pelo contrário, nos deparamos com uma coleção de bizarrices sendo a pior delas as desocupações para deixar a cidade “mais limpa” nos arredores ou vias de acesso aos estádios. Desde 2010 essas desocupações vêm acontecendo de forma desumana e truculenta, tanto no RJ como em outras capitais. No RJ temos o exemplo da comunidade próxima a Estação Mangueira, onde funcionários da prefeitura inicialmente realizaram medições e marcaram as casas com a sigla SMH (Secretaria Municipal de Habitação) alegando ser pesquisa para ampliação de benefícios, como a do bolsa família, porém alguns dias depois voltaram e obrigaram a população a assinar um laudo de interdição afirmando estarem sobre área de risco, o que não é verdade.

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Acontece que a comunidade da Estação Mangueira, como outras na zona Oeste do Rio, estão próximas ao Maracanã ou localizadas onde estão sendo construídos os corredores do projeto de mobilidade urbana modelo BRT (Bus Rapid Transit) e também do local onde será a concentração das Olimpíadas. Em função disso, os moradores vêm sofrendo pressões para saírem de suas casas e aceitar o valor das indenizações. Houve casos de família que receberam notificação de apenas cinco dias para o despejo e as casas foram derrubadas antes mesmo do pagamento das indenizações, algumas famílias que desocuparam os terrenos até hoje aguardam benefícios do programa Minha Casa Minha Vida e estão morando em alojamentos improvisados, os últimos que resistiram foram retiradas com toda violência que as bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo dão “direito” à PM. Vale lembrar que a maioria dos moradores dessas comunidades, cerca de mais de 500 famílias, residem no mesmo local a mais de quarenta anos, e como é comum nas periferias, grande parte dessas famílias são chefiadas por mulheres que sozinhas batalham para sustentar seus filhos. As desocupações da Copa retoma a lembrança do “Bota Baixo dos Cortiços”, iniciados por volta de 1904, onde o foco do novo governo foi à urbanização das principais cidades brasileira, em especial o Rio de Janeiro que acabara de se tornar a capital da Republica. Apoiada pelas elites cafeeiras e pelos setores médios urbanos que almejavam a expansão de seus negócios, o projeto republicano de concepções elitistas visava transformar o Brasil em uma nação forte, capitalista aos moldes da Inglaterra, França e EUA, porém, o Rio de Janeiro apresentava vários problemas que impactariam no crescimento da cidade, sobretudo os problemas sanitários e de habitação popular que tomaram maior atenção da elite republicana.

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Existia naquela época um gravíssimo problema de habitação, oriundo do descaso do poder público, pois como o Rio de Janeiro havia se tornado umas das principais economias do país, por isso atraía muitos migrantes e imigrantes desde o século XVIII, também com a abolição da escravidão em 1888 e a revolução industrial no início do século XX, houve um salto na concentração populacional criando uma crise habitacional, já que desde então nenhuma providência foi tomada com relação à moradia da população de baixa renda, tornado os alugueis cada vez mais caros e obrigando a classe trabalhadora de baixo poder aquisitivo a viver em situação precária nos antigos casarões da nobreza que se transforam nos chamados cortiços.

 

Então com a sangria capitalista de modernização das cidades, os cortiços foram os principais alvos, pois eles se encontravam nas regiões centrais, o que cobiçava o interesse da especulação imobiliária, e como os moradores não tinham condições de pagar os caros alugueis e ao mesmo tempo manter a conservação e higiene dos cortiços, que também foram negligenciados pelos proprietários, recaiu sobre os cortiços toda a culpa do atraso social e outros malefícios acorridos na época.

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A vida nos cortiços era muito difícil, os proprietários dividiam os antigos casarões em vários cômodos para aumentar o lucro com maior numero de locatários, com isso às famílias se apertavam em espaço cada vez menores, sem janelas e suas higienes pessoais eram realizadas em banheiros coletivos. Além disso, o recolhimento de lixo não era realizado pelos órgãos públicos, como também faltava água constantemente propiciando a proliferação de doenças. Desta forma, as famílias mais abastadas foram se afastando do Centro para se refugiarem mais próximas ao mar, fazendo aumentar a culpabilização da pobreza.

 

Com todo o descaso do governo é muito injusto associar os danos de higiene e saúde aos pobres, mas a elite só enxerga o que lhes interessa, com isso, juntamente com o aval dos médicos sanitarista criaram a “teoria higienista”, o que reforçou o terror com tudo relacionado aos cortiços e foi o argumento crucial para demolição dos antigos destes casarões.

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Como as favelas de hoje são a herança dos cortiços, algumas semelhanças entre eles são bem marcantes, como por exemplo, a predominância das mulheres, sobretudo negras, que se dividem sozinhas entre as tarefas do lar e o trabalho para o sustento da família, a relação subjugada que a sociedade fazia dos cortiços, como não bastasse o preconceito sobre pobres e negros, mais também a construção de estereótipos considerando sair de lá as prostitutas, os bêbados, a criminalidade e todas outras pessoas perigosas que é a mesma associação que fazem das favelas. E assim, sobre a cobertura da “teoria higienista” foi autorizado o “bota abaixo dos cortiços”, onde de forma truculenta resultou em centenas de famílias desapropriadas e sem nenhuma assistência do governo foram obrigadas a ocupar os morros formando as primeiras favelas.

 

Mais de um século se passou e temos novo “bota abaixo”, desta vez nas comunidades próximas aos estádios e sobre a tutela de novas “teorias”, como a “teoria da segurança”, “teoria da mobilização urbana”, “teoria antitráfico”. Assim a população pobre mais uma vez é tratada como o lixo que é escondido debaixo do tapete.

 

imagesNão existe sujeira maior para a burguesia que a pobreza, e para a festa da Copa ser bonita, os anfitriões devem deixar os olhos de todos bem limpinhos de tudo aquilo que incomoda os amantes do capitalismo. Tanto nos tempos dos cortiços como nos dias atuais, quando os interesses econômicos da burguesia vão de encontro com o bem estar da classe trabalhadora, toda uma articulação fascista é iniciada, e por mais que a mídia tente nos enganar que a Copa e as Olimpíadas é um excelente negocio para o Brasil, os únicos beneficiados desta festa são aqueles que já chegaram com o bolso cheio de grana.

POR QUE AS MULHERES SÃO “VULGARES”?

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Como sei já sei da possibilidade de surgir infinitos comentários se referindo à generalização do título, para proteger nossos olhos de chorumes adianto, estou te provocando! Mas se tiver paciência fique mais um pouco que abaixo te explicarei.

“Vulgar: que é homógrafa em inglês e português, vem do latim vulgaris, uma derivação de vulgus, que significa multidão. Vulgar é aquilo, portanto, que é usado pelo povo e não possui traços de nobreza ou distinção”.

A primeira observação que faço com relação à palavra vulgar é que de acordo com a definição mencionada ela se originou a partir do olhar de uma elite para as classes mais pobres, logo também é uma palavra burguesa.

Dentro de uma sociedade capitalista que almeja alcançar a elite, todos os padrões de comportamento e educação que nos é repassado são inspirados aos moldes da moral burguesa, logo a educação dada às mulheres tem por objetivo transformá-las numa dama, que fale baixo, saiba se comportar agradavelmente nos ambientes sociais sem chamar muita atenção para si sendo discreta, elegante, sendo física e moralmente atraente para conquistar a admiração masculina e consequentemente um bom casamento. Por isso desde a infância nos é ensinado, sentar de pernas fechadas, falar baixo, não sorrir demais (senão poderão pensar que estamos dando bola e seremos julgadas como fáceis), não namorar muito cedo, não transar antes do casamento, aprender tarefas domesticas, não se envolver em assuntos de homem, nem gostar de atividades e outras coisas predominantemente masculinas e outras várias enciclopédias de proibições. E assim, dentro de tudo que nos é ensinado passamos a moldar e repudiar a imagem daquilo ou daquela que foge às regras e personificamos o termo burguês “vulgar“.

Voltando ao passado podemos compreender o porquê dos ensinamentos da moral burguesas às mulheres. No Livro A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels, teórico revolucionário alemão, parceiro de Marx, faz a análise da condição da mulher dentro do capitalismo e patriarcado. Ele afirma que a opressão da mulher nem sempre existiu e se deu a partir da instituição da família monogâmica patriarcal e da propriedade privada. Quando houve o desenvolvimento das primeiras técnicas de agricultura na sociedade pré-histórica antes da instituição do Estado, fixando a produção em um determinado espaço, extinguiu a tarefa do homem de buscar alimento. Não precisando mais se descolar para ir atrás do alimento, iniciam-se as trocas e o acúmulo de riquezas. Como estes alimentos são criados ou cultivados pelos membros masculinos da família, os meios de produção e os instrumentos de trabalho passam a pertencer ao homem. Desta forma à medida que a riqueza aumentava dava ao homem uma posição mais importante na família com relação à mulher, e com esta nova posição fez com que nascesse a ideia de valer-se dessa vantagem construindo ainda mais riqueza para deixá-la aos filhos legítimos, porém enquanto a filiação se mantivesse sobre o direito materno, não seria possível assegurar a filiação paterna. Assim, em nome da riqueza para ser repassada como herança apenas aos filhos legítimos a mulher foi destituída na participação social e as famílias passam de matriarcais para patriarcais e com o patriarcalismos surge a família monogâmica. A mulher deixar os espaços sociais para cuidar apenas das tarefas do lar não ajudando mais na produção dos meios de subsistência para família. Com isso o homem também apoderou-se da direção da casa, a mulher foi convertida à servidora do homem e degradada a simples instrumento de procriação. O comportamento da mulher foi moldado ao julgamento e submissão dos homens e aquela que descumpria as regras ou se mostrava subversiva, era excluída do seio familiar e lançadas à prostituição.

Em condição de prostituição essas mulheres não precisavam mais servir o padrão moral que fora instituído se tornando livres para se portarem com bem quisessem, porém como forma de condenação elas foram rebaixadas dentro da integridade moral daquela sociedade que para se manter, instaurou uma ideologia de ódio que foi disseminada principalmente entre as próprias mulheres que sentiam-se enciumadas por compartilharem seus maridos com as prostitutas.

No livro anteriormente citado, Engels reafirma toda esta vigilância que se constituiu em torno do comportamento feminino na seguinte passagem ”Ao homem, igualmente, se concede o direito à infidelidade conjugal, sancionado ao menos pelo costume (o Código de Napoleão outorga-o expressamente, desde que ele não traga a concubina ao domicílio conjugal), e esse direito se exerce cada vez mais amplamente, à medida que se processa a evolução da sociedade. Quando a mulher, por acaso, recorda as antigas práticas sexuais e intenta renová-las, é castigada mais rigorosamente do que em qualquer outra época.” E é exatamente o que estamos assistido no mundo atual.

Daí lanço os questionamentos, por que é tão incomum empregar o termo vulgar como adjetivo ao comportamento masculino? Para a mulher existem vários xingamentos que fazem referência ao comportamento e liberdade sexual (puta, piranha, safada, vadia, galinha, vagabunda) são referências à mulher vulgar, porém quais são os adjetivos depreciativos que fazem referência à liberdade sexual dos homens? Chamar um homem de vadio tem o mesmo significado de chamar uma mulher de vadia?

Buscando a palavra Vagabundos (no plural) no dicionário informal obtive o seguinte resultado:

* Resultado no masculino: “Aquele que vivem de maneira desocupada e sem trabalho”
*“Sinônimos: malandros inconstantes instáveis volúveis grosseiros medíocres ordinários errantes gaudérios larápios mendigos nômades ociosos prófugos tunantes, vadios, vagantes.”

*Resultado no feminino: “Vadia, mulher que gosta de ter muitos homens; puta; que transa facilmente”
*Sinônimos: mulher vadia, promíscua, libertina.

Notem que no feminino a palavra faz referência ao comportamento sexual já no masculino não.

Chamar uma mulher de vulgar nada mais é que um meio de reprodução do machismo já que culturalmente não é usado para criticar o comportamento masculino. A promiscuidade masculina é muita bem aceita em nossa sociedade que não a condena, já o comportamento feminismo é monitorado inclusive por nós mulheres que reproduzimos justamente o que o sistema quer de nós, à submissão, nosso quadrado de incubadoras sociais, a linha de produção moralidade burguesa que só se fortalece quando naturalizamos nossas próprias opressões.

Assim como a “Vadia”, a “mulher vulgar” é um mito que a sociedade inventou como castigo por ela fugir dos padrões. Como todas nós temos o desejo de ser verdadeiramente livres e sonhamos em nos libertar das correntes que nos privam do prazer da vida, somos tão iguais àquelas que talvez algum dia você condenou, única diferença é que elas tiveram mais coragem de se livrar das correntes antes de você. Nos libertar não é uma tarefa fácil, mas vamos lá! O primeiro passo é amar umas as outras como irmãs e rasgar os rótulos. “Rótulos foram feitos para produtos, não para mulheres!”

Carol Vitória

 

Um lugar chamado Branquitude, conhece?

Por: Verinha Kollontai

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Você esta lá, acomodada em um local muito confortável chamado branquitude. Um topo, um lugar alto, de visão privilegiada de onde observa os demais que são considerados exóticos, simplesmente por não serem brancos, por não atenderem aos requisitos para adentrar este lugar especial e protegido.

Com os seus você forma uma irmandade tão forte quanto a irmandade que as mulheres reclamam dos homens, onde protegem se mutuamente, e para garantir este lugar privilegiado, estes irmãos quando ouvem as pessoas negras reclamarem de racismo dizem em uníssono:

– Vitimismo!
– Não existe mais racismo!
– Os negros estão em todos os lugares!
– Eles tem mais voz que eu!

Você não sabe exatamente por que faz isso, né? Mas vou te dizer por que: A negação do racismo e contra-ataque a denuncias de racismo tem uma motivação, manter seguro seu lugar de privilégio.

A mulher negra chora debruçada sobre o corpo frio do filho morto, a policia atirou pelas costas, ele estava correndo, não da policia, brincava com os amigos na comunidade que nasceu, e por barbárie, ali também morreu.

O homem negro roubou pela primeira vez na vida, era pobre, morava numa casa simples, sonhando com bens de consumo que ostentam as pessoas ricas, pensando em como ter o que esta do outro lado da vitrine, que outra forma, se não fosse através do crime? Ninguém quis saber sua história de exclusão, de desumanização, espancaram até a morte, nem para o crime ele teve sorte, amarrado no poste sem vida, não é assim que se cicatrizará a ferida. Curioso é constatar, o homem branco, parceiro de atividade, foi espancado, mas não até a morte e nem foi também exposto de forma covarde, para ele, uma segunda chance, a detenção, para o homem branco, o crime tem perdão.

Do alto da sua branquitude, você não se importa com nada disso… Não se importa com a Cláudia, nem com o Amarildo, o que aconteceu á eles não pode te tocar, você meneia a cabeça vendo as cenas na televisão, com esta negação demonstra lamentar, vira as costas para cena e torna ao seu agradável jantar.

Prá que importar?

Quando a violência esta longe do seu lugar seguro? Quando é aqui na periferia e na favela, ninguém se importa, mas quando desce o morro e chega até a elite, torna-se uma verdadeira esquizofrenia. Visão seletiva e hipocrisia, estão neste olhar privilegiado sobre o qual você tem observado a vida passar, deste lugar onde sua cor conseguiu te colocar.

Quem é a Mãe desta criança?

Por: Marina Françanegra1
Texto para o dia Contra a Redução da maioridade penal.

**Esclarecimento prévio: vou focar nesse texto jovens pobres (na sua imensa maioria são pessoas negras), pois a gente sabe muito bem que filho de rico não vai preso. A gente sabe inclusive que rico, mesmo sendo maior de idade não vai preso, né?

Como mãe que cria um filho (negro) sozinha me irrita demais ouvir essa frase “quem é a mãe dessa criança?”. Eu mesma assumo, com vergonha, que já a repeti algumas vezes, mas depois que me aproximei do feminismo, em especial o feminismo marxista, percebi o quanto essa frase é equivocada. Por que cargas d´água a criança é responsabilidade única e exclusiva da mãe? Ou por que a responsabilidade é única e exclusivamente responsabilidade da família?

Pensar desse forma, “quem pariu Mateus que o balance”, é uma imensa reprodução da forma individualista de ver o mundo, essa totalmente ligada a forma capitalista de produzir a vida. Ela se liga diretamente com essa ideologia liberal de que quem fez, que cuide. Oras, se vivemos em sociedade, como a criação de uma criança pode ser responsabilidade exclusiva de quem fez? Se quem fez, não quer cuidar ou não pode cuidar que se foda a criança? Que forma mais esdrúxula de se ver o mundo. Principalmente quando ainda vivemos num país no qual o aborto é criminalizado. Criminalizado para a mulher pobre (que não por acaso é muitas vezes a mulher negra. Não por acaso porque ainda não conseguimos socialmente superar os efeitos de mais de quatro séculos de escravidão).

Essa forma de ver o mundo se aproxima ainda mais dos interesses do capital quando vivemos numa fase de reestruturação produtiva e de grande desorganização da classe trabalhadora que gera a gradual perda dos direitos conquistados, como vemos com a proposta da PL 4330 (da terceirização). Ela vai ao encontro dos interesses do capital, pois tira do Estado a obrigação de prover, saúde, educação e lazer. Ué, se a responsabilidade pela criança é exclusiva de “quem a fez” por que o Estado deveria garantir educação pública gratuita e de qualidade? Os “responsáveis” que deveriam se matar de trabalhar para dar conta disso?

Mas qual o problema dessa ideologia? Será que se matando de trabalhar é possível garantir uma vida de qualidade para si e para nossas crias? A realidade concreta mostra que não. Principalmente num mundo na qual a organização da produção está pautada para o lucro das empresas, ou em termos marxistas, organizada para a acumulação do capital. Daí que grande parte das famílias trabalhadoras podem morrer trabalhando que jamais alcançarão as condições das famílias de classe média (não que a classe crie bem suas crianças, mas filho da classe média não é presso, como já disse).

Classe média essa que ao contrário das propagandas eleitorais do Partido (não mais) dos Trabalhadores não está aumentando coisa nenhuma, como coloca muito bem o professor da Unicamp Márcio Pochmann (é só jogar no google que diversos trabalhos deles vão aparecer). Em suma, o que deveria ser direito, educação, saúde e lazer passa cada vez mais a ser transformado em mercadoria e fonte de acumulação para o capital. Um excelente trabalho sobre isso é o livro Os sentidos do trabalho do também professor da Unicamp, Ricardo Antunes.

Ora, nesse aspecto a proposta da PEC 171 (piada pronta, né?) mostra a incapacidade do capitalismo resolver os problemas que ele próprio cria. Ele é incapaz de lidar com a pobreza que é essencial para a manutenção da acumulação capitalista. E qual é a saída que encontra? Criminalizar a pobreza.

Num estado como São Paulo, no qual a PM mata duas pessoas por dia, sendo que apenas em 2014, o número de mortes realizados por essa corporação subiu 97%, no qual o governador fecha mais de 2000 salas de aula apenas esse ano, clamar pela redução da maioridade penal é no mínimo esquizofrenia. É condenar, mais uma vez a população pobre e negra a se manter na situação de exclusão que se encontra desde que o primeiro negro foi trazido ao Brasil para servir como força de trabalho escrava. Logo, é uma postura, sim, racista e elitista. É o medo esquizofrênico de uma classe média e burguesia que não consegue ver o outro como humano, como ser que deve ter os mesmos direitos que ela.

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Ainda mais quando a todo esse quadro se junta ao fota de que apenas 1% dos menores em conflito com a lei cometeram algum crime hediondo. E que o ECA prevê, sim, punição para os crimes. Mas prevê também a possibilidade do menor em conflito com a lei ser reeducado. Ou seja, ser reumanizado.

Assim, olhando para além do senso comum, refletindo com base na realidade concreta (e não com o que a Rede Bobo passa no jornal) vejo que a redução da maioridade penal é indefensável. É ela, como já dito, é mais uma forma pura e simples de criminalização da pobreza. É novamente “lavar as mãos” e perguntar quem é a mãe da criança, mas não fazer nada para ajudar a criança. É se negar a assumir a responsabilidade pelo mundo em que vivemos e tentar transformá-lo.

Redução da Maioridade Penal – A discussão que divide a classe trabalhadora e o Sucesso da Burguesia em nos Fracionar

Por: Verinha Kollontai

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Eu escrevi tanto sobre por que sou contra a redução da maioridade penal, mas parece que não foi suficiente, não consegui explicar, ou será que as pessoas não querem entender? Eu sei que é mais fácil tomar opiniões prontas e dizer “Sim, eu penso exatamente assim”. Na verdade vocês foram educados para receber o pronto, e o pronto é sempre a ideologia da classe dominante.

Todos os dias e em todos os lugares onde esta a mão do Estado, a mão do capital e da elite, você recebe uma carga de ideologia da classe dominante, e você aceita. A educação libertadora de Paulo Freire, que ensina o educando a pensar por si mesmo, e a interagir com o mundo, analisando situações dialeticamente não existe, não te ensinam a fazer isso, é de propósito, querem você como aprendiz da educação bancária, onde apenas deposita-se conhecimento pronto e acabado, e este conhecimento vem todo contaminado de providência que não defendem nem a você a nem os seus.

Um dos argumentos que eu mais vejo nos debates e admito, é um dos argumentos que mais odeio, diz assim “Você é contra até que um menor mate alguém da sua familia”. Este é um argumento muito reacionário, individualista e personificador. Eu queria falar sobre isso, queria dizer que uma das grandes sacadas da Burguesia, e jogar nós que somos da classe trabalhadora uns contra os outros.

O capitalismo produz a miséria, a exclusão, vivemos em um sistema que promete que todos nós podemos ser ricos e bem sucedidos porém, a realidade não é esta, as desigualdades entre ricos e pobres atingiram o nível mais alto desde que a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) começou a medição dos dados há 30 anos. Atualmente, nos 34 países dessa instituição, a parcela dos 10% mais favorecidos concentra 50% da riqueza, enquanto os 40% mais pobres têm acesso apenas a 3% dela. Ou seja, não temos oportunidades tais quais o sistema nos promete, e a realidade é que uma minoria concentra a riqueza, e o restante … E nós somos o restante. Nós somos muito mais próximos dos que estão aqui embaixo do que daqueles que estão lá em cima.

Mas o que sucede é que, mesmo aqui embaixo, mesmo não tendo acesso a riqueza, uma parcela da classe trabalhadora, maioria branca, consegue se estabelecer, ter casa própria, carro… o que é uma vida conquistada com muito esforço e suor, mas ainda assim é privilegiada, por que o sistema deixa aberta as portas para determinados indivíduos, que são pessoas brancas e graduadas.

Nesse ponto da discussão sempre aparece brancos dizendo que as oportunidades são iguais para todos, ou uma pessoa negra contando sua história de superação.

Primeiro: As oportunidades não são iguais para todos e; Segundo: A história individual de alguns indivíduos não é sinônimo de que traça a realidade, e não traça mesmo e nós temos os dados do Brasil para comprovar isso:

O Censo 2010 mostra que os brancos dominam o ensino superior no país: considerando a faixa etária entre 15 e 24 anos, 31,1% da população branca frequentava a universidade. Em relação aos pardos e pretos, os índices são de 13,4% e 12,8%, respectivamente. Agora vamos falar da taxa de analfabetismo? A taxa de analfabetismo entre os negros (11,5) é mais de duas vezes maior que entre os brancos (5,2).

Entre a população negra, a taxa de desemprego é maior que entre os brancos. Segundo dados do estudo Retrato das desigualdades de gênero e raça, do Ipea, enquanto o desemprego atinge 5,3% dos homens brancos, entre os negros, o índice chega a 6,6%. Entre as mulheres, a diferença é ainda maior. Entre as brancas, o desemprego é de 9,2% enquanto entre as mulheres negras, ultrapassa os 12%.

Com estes dados em mãos sabemos que dentro da classe trabalhadora existe uma parcela que vai viver de forma confortável e outra parcela que vai viver com muita dificuldade. Ainda assim estas duas parcelas,servem ao capitalismo, são trabalhadores explorados. Mas tem uma galera que apesar de servir ao capitalismo como exercito de reserva, que são majoritariamente negros e negras, não são relevantes para o sistema e por isso vivem marginalizadas, vivem de trabalhos informais, sem direitos, vivem de forma precarizada, para quem o envolvimento com o crime normalmente não é uma opção, é a unica forma de sobreviver.

Neste ponto aparecem pessoa dizendo que não é para sobreviver é para ter poder dinheiro.

Pensar assim é ilógico por que até mesmo dentro da criminalidade existe hierarquia, e por exemplo dentro do tráfico, apenas os traficantes/empresários, é que estão no topo desfrutando de todo dinheiro que a ilegalidade da venda de drogas concede, os demais são explorados, são iludidos com uma falsa sensação de poder, de pertencimento, de acolhimento… São promessas tão falsas quanto aquela de que se você se esforçar muito, trabalhar muito, um dia será rico, e mudará de classe social.

Os criminosos menores, estes que cometem crimes contra o patrimônio acabam assaltando onde é mais fácil e onde há menor resistência, que dentro da própria classe trabalhadora, acredite, eles aprendem na prática que a policia existe para proteger os ricos, que se uma viatura for chamada nos jardins ela vira em minutos, num bairro da periferia, talvez leve horas, ou nem atenda a chamada.

Pronto, descobriu por que nós da classe trabalhadora somos os mais afetados pela criminalidade? Percebeu também que a concentração de riquezas nas mãos de poucos, que as desigualdades sociais e racismo são molas propulsoras da criminalidade? Percebeu qual a cor dos jovens que serão trancafiados? Entendeu por que a medida é racista? E ai? Quem é responsável pelo embrião da criminalidade?

Reduzir a maioridade penal não vai alterar nada disto que citei, teremos o encarceramento de jovens que fazem parte do exercito de reserva do capitalismo e procuram na criminalidade ter o que todo mundo tem, mas que lhe é negado, e agora você sabe, baseado em dados estatísticos, que é negado mesmo!

Ficamos nós aqui da classe trabalhadora nos odiando, e enquanto nos odiamos a burguesia permanece no seu lugar de poder, mantendo o status quo, e com esta manutenção, novos jovens surgirão para servir a criminalidade. O medo não impedirá as pessoas de irem para a criminalidade, assim como o medo, não impede a mulher de abortar. É óbvio, que se não fizermos o corte na raiz do problema, não haverá mudança real.

Deveríamos combater a lógica dominante nos apoiando, denunciando o jogo da burguesia de nos por uns contra os outros, denunciando que quem cria a situação para que os jovens entre em conflito com a lei é o capitalismo e sua classe dominante. Mas não, as pessoas estão por ai reproduzindo o discurso da rede globo, Record, e veículos disseminadores de ideologia reacionária.

Vamos exigir que nós da classe trabalhadora tenhamos os mesmo direitos que os ricos desfrutam, que desapareçam as diferenças descaradas de salário, que exista vaga de empregos para todos, ainda que para isso reduza-se a carga horária de trabalho sem redução de salário. Estatização da educação, para que tanto os filhos da burguesia quanto a classe trabalhadora tenham as mesmas chances e oportunidades; Estatização dos serviços de saúde; Vamos exigir que existam creches com vagas suficientes para atender nossas crianças, possibilitando mães e pais irem trabalhar deixando os filhos em segurança e com pessoas especializadas; Vamos exigir que as empresas cumpram a lei que diz que a partir de 30% de funcionárias maior de 18 anos, toda empresa deve manter uma creche; Vamos exigir que as escolas além dos estudos convencionais, mantenha atividades extra – classe, como esportes, artes, cursos, que mantenham os jovens ocupados e longe da criminalidade. Vamos exigir medidas que destruam a possibilidade de existir o jovem em conflito com a lei. Trancafiá-lo não não fará com ele pare de surgir e ressurgir, gerado por um sistema injusto e excludente.

Dados mostram o abismo social entre negros e brancos
http://exame.abril.com.br/…/8-dados-que-mostram-o-abismo-so…

Desigualdade entre ricos e pobres atinge o maior nível em 30 anos
http://www.em.com.br/…/desigualdade-entre-ricos-e-pobres-at…

O Genocídio Capitalista Contra a Mulher Negra

Por: Gleide Fragra150814_capitalismo_racismo

Como muitos sabem, o capitalismo é um sistema econômico-político-social que não funcionou. Teoricamente, seria o sistema onde todos pudessem enriquecer livremente (com os vieses liberais) com as devidas oportunidades ao qual cada um criaria por si só. Porém, fica claro e notório que nós não possuímos as mesmas oportunidades no contexto social, existem fatores aos quais influenciam fortemente a ascensão social e econômica de cada individuo: a classe social em que ele nasceu, a educação familiar e escolar que ele recebeu, e por fim e muito importante; a sua etnia, gênero e por vezes a sua orientação sexual e até mesmo o seu estilo de vida. Nessa hierarquização de classe, gênero, etnia, o capitalismo se fortalece; porque não é benéfico para o mesmo que todos possuam as mesmas oportunidades, assim, fica impossível que a classe trabalhadora enriqueça completamente e gradativamente tal qual a dominante. O capitalismo se beneficia pela alta produção baseada em exploração do homem sobre o homem (homem = ser humano), e da falta de competitividade e hegemonia comercial.

Diante dessa hierarquia, onde podemos visualizar uma pirâmide em relação a benefícios e ascensão social, a mulher negra encontra-se na base, onde se há mais dificuldade em crescimento social e oportunidades para tal. Sabe-se que no mercado atual, a mulher encontra-se em desvantagem exorbitante no que diz respeito a carteira assinada (cerca de 72% das mulheres trabalhavam em cargos domésticos sem carteira assinada em 2012)), em relação a salários, dados divulgados, em 2011, no Anuário da Mulher apontam que, em 2009, o rendimento médio mensal dos trabalhadores não negros era de R$ 1.534,00; das mulheres não negras R$ 1.001,00; dos homens negros R$ 839,00 e das mulheres negras R$ 558,00. Logicamente que esses números aumentaram com o aumento de salário, porem o distanciamento de renda não mudou quase nada.

Em relação à família construída compulsoriamente por fatores sociais embutidos, tais como a criminalização do aborto que só atinge às camadas mais pobres da sociedade, pois a mulher negra e pobre, é a única que está submetida a morrer por falta de dinheiro para uma clinica ilegal segura e técnicas de aborto que preservem a sua vida, o aborto não deixa de acontecer em função da sua não legalidade, mas ele só mata quem não pode pagar por ele.

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Com isso, sabe-se que as mulheres negras estão em sua grande maioria, como chefes de família, por serem abandonadas ou estarem submetidas à relações de bigamia, por falta de conhecimento ou puramente por medo da solidão. (Sobre a solidão da mulher negra) – essas famílias, analisando o contexto de mercado, tem enormes chances de possuírem baixa renda, devido a pouquíssimas oportunidades de crescimento profissional, e quase nenhuma assistência do estado que ofereça amparo para que essas mulheres possam trabalhar e sustentar suas famílias, muitas precisam optar por trabalharem ou cuidar de seus filhos; obrigando-se a inserir renda familiar e sobreviver, muitas delas sem qualificação acadêmica e profissional o suficiente, acabam inserindo-se na venda de drogas, drogas aos quais são previstas em leis como ilegais, mas que logicamente só atinge as populações mais marginalizadas.

“O Brasil tem a quarta população carcerária do mundo, com 550 mil detentos, dos quais 35 mil são mulheres, o que corresponde a 7% do total, um número que vem crescendo de a forma assustadora, principalmente pelo envolvimento com tráfico de drogas, e elas sofrem com discriminação, violência e falta de assistência médica nas cadeias, segundo o juiz auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Luciano Losekann.”

Essa situação de encarceramento é visivelmente apontada para as pessoas negras, por questões de marginalização social e racismo inconstitucionalizado.

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“O perfil da mulher presidiária no Brasil é o da mulher com filho, sem estudo formal ou com pouco estudo na escola elementar, pertencente à camada financeiramente hipossuficiente e que, na época do crime, encontrava-se desempregada ou subempregada. Em geral, as mulheres criminosas são negras ou pardas (20.756 delas, enquanto apenas 9.318 são brancas – MACEDO, 2010 -, num universo em que a população negra ou parda é de 91 e a branca de 92 milhões de pessoas, no Brasil – SEADE, 2011:1).

Fica explícita a sobreposição de excludentes sociais, gerando grupos marginalizados em decorrência de mais de um fator.

Conforme dados do DEPEN, 60% da população carcerária feminina encontram-se presa em razão de tráfico nacional de drogas[1]. (DEPEN, 2010)”

Porém com a desvalorização da força de trabalho feminina e negra no Brasil, o número de mulheres negras em situação de encarceramento está em constante crescimento em relação ao número de homens:

“Mapa do encarceramento: O estudo demonstrou que entre os anos de 2005 e 2012 a população carcerária do Brasil aumentou 74%, principalmente em razão da prisão de jovens, negros e mulheres. Embora o número de presos do sexo masculino ainda seja maior que o do sexo feminino, o crescimento do índice de homens presos foi de 70% enquanto o de mulheres presas foi de 146%, mais que o dobro percentual.”

Essa desumanização adotada pelo capitalismo é extremamente racista e classista, beneficiando a camada social que possui mais chances de saírem de situação de riscos sociais e ilícitos, dando margem à analises que permeiam a falta de estrutura educacional e social oferecidas pelo sistema como arma para a falta de capacidade de questionamento desses indivíduos em situação de marginalização social.

A teoria comunista deixa explicita a preocupação na estatização da educação, proporcionando o viés de articulação de melhorias no sistema estrutural, que por sua vez, insere a capacidade de questionar valores e capacidade de crescimento social diante da sua colocação enquanto individuo na sociedade, bem como o poder de trabalho dado a classe trabalhadora, fechando precedentes de exploração.

Esse viés comunista, aplicado a intersecionalidade das lutas sociais atuais, aplica-se como uma estratégia perfeitamente inserida como uma luta que beneficia as mulheres trabalhadoras e por sua vez, as mulheres negras, pois são as que estão em sua grande maioria no domínio das famílias de baixa renda e de baixo apoio educacional e incentivo ao crescimento profissional.

[…] ao concentrar a riqueza nas mãos de uma minoria e ao privar de toda propriedade a imensa maioria da população, haveria de proporcionar primeiro o domínio social e político à burguesia, e provocar depois a luta de classe entre a burguesia e o proletariado, luta que só pode terminar com a liquidação da burguesia e a abolição de todos os antagonismos de classe (ENGELS).

– Gleide Fraga

Referências:

http://emporio-do-direito.jusbrasil.com.br/noticias/197060352/novo-relatorio-do-pnud-e-da-snj-afirma-que-populacao-carceraria-brasileira-cresceu-74-em-sete-anos-e-cerca-de-70-das-prisoes-sao-motivadas-por-questoes-patrimoniais-e-de-drogas-confira-a-integra-do-mapa-do-encarceramento

http://professoraalice.jusbrasil.com.br/artigos/121814131/mulheres-trafico-de-drogas-e-sua-maior-vulnerabilidade-serie-mulher-e-crime

http://agencia-brasil.jusbrasil.com.br/noticias/100658428/mulheres-sao-7-da-populacao-carceraria-no-brasil

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Sobre meninas com idade entre a infância e adolescência, e homens mais velhos.

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Há algumas semanas surgiu por ai um debate acalorado sobre meninas que relacionam– se com homens mais velhos. Lançar o questionamento sobre o assunto bastou para que houvesse um verdadeiro surto de mulheres defendendo com ferocidade que “Onde esta a liberdade de escolha?”, ou “só por que elas são adolescentes não tem direito a exercer sua sexualidade?” ou “Esta critica é moralista” ou “Pergunte a elas como elas se sentem!”. Por trás deste protesto todo existe um pensamento enraizado, uma visão de como devem ser as coisas sobre um viés liberal.

Todas as vezes que as feministas da esquerda levantam se para problematizar a sexualidade, são atacadas com todo tipo de acusação que as identifique como moralistas, como se tudo que as feministas da esquerda quisessem fosse impor regras sobre a sexualidade alheia,  mas não trata-se de impor regras, não trata se de moralismo, trata se de fazer uma análise materialista da situação, ir além da repetição de jargões que levantam a bandeira da individualidade sem observar o que acontece no geral, como se dá a maioria dos processos.

Tem sido nítido a propagação de ideias liberais e isso nota se facilmente  na forma que as pessoas argumentam trazendo como verdade incontestável  suas histórias pessoais, e como se dá isso? Surge uma mulher e diz “Eu fui uma menina de 14 anos que namorou um homem de 40 anos e sou feliz até hoje…” A personalização da critica, a individualização da mesma, é o cerne do pensamento liberal, que deixa de analisar toda uma conjuntura para basear se nas experiências pessoais, e é este mesmo tipo de ideia que o capitalismo usa para reforçar, por exemplo, a meritocracia, o sistema deixa passar, por exemplo, um proletariado que pode ser único, mas que chegou lá, enriqueceu, driblou o “azar” e por mérito próprio, superou as dificuldades. Com este exemplo eles dizem aos demais que é possível: “veja só, existe quem conseguiu”, mas acontece que a análise conjuntural da situação mostra claramente que a meritocracia é uma mentira, e como se constata isso? Observando que existem milhares de trabalhadores honestos que se esforçam diariamente e jamais chegaram lá, no topo.

As idéias mais difundidas hoje no feminismo são as da vertente liberal que tende a defender que existe liberdade no privado, ou seja, que na vida privativa as pessoas podem fazer o que quiserem, que ninguém deve interferir, que intrometer se “no tesão alheio” é moralismo. Normalmente usam este tipo de argumento para fazer calar as feministas interseccionais e socialistas, quando estas resolvem problematizar situações defendidas por este viés burguês, mas esta defesa cai por terra, por exemplo, quando fala se de estupro marital, violência doméstica, como defender a mulher desta opressão sem interferir no privado? Só lembrando que muitas mulheres não entendem que estão sendo vitimas de estupro, muitas mulheres defendem seus agressores, e o fazem por ignorância, por submissão, por vários motivos que impossibilitam – nas de livrar se destas situações, e uma das grandes sacadas da lei Maria da Penha é justamente que não há necessidade da pessoa em situação de violência denunciar, pode ser alguém que seja testemunha da situação a fazê-lo.

A intromissão no privado  em casos de violência doméstica tem sido muito bem vindo, porém só nestes casos é muito bem vinda,  não em todos os casos, não é mesmo? As mulheres envolvidas pela ideia liberal de feminismo têm cada vez mais reivindicando que não toquemos no seu privado, naquele assunto que elas não querem que seja debatido, aquele assunto que para elas, pessoalmente não traz problemas. Mas estas mesmas mulheres, que assumem esta posição individualista, recusam-se a analisar como segue a situação da esmagadora maioria das pessoas vivenciando esta mesma situação e tendo sobre si uma carga opressiva que trará danos, muitas vezes irreversíveis as suas vidas.

A desqualificação da problematização que as feministas da esquerda trazem mostra uma tentativa de naturalização da sexualidade; e naturalizar é um passo fundamental para que cessem os questionamentos e para tanto, levar para máxima “sempre foi assim e sempre será”. Nós não podemos concordar com este tipo de análise e argumentação, pois a sexualidade, assim como as relações que estabelecemos são socialmente e historicamente construídas, a sexualidade não é natural, é construída e por isso precisa ser analisada dentro da dialética, sobre seus aspectos materiais.

Dito tudo isso quero reforçar aqui que não quero neste diálogo falar de casos isolados e minoritários, que destacam se por terem dado certo, não quero falar de Malu e de Marcelo, não quero falar daquele caso que você acompanhou e que deu certo, muito menos da sua história pessoal, sua vivência é válida sim, mas além do sensível, além das suas experiências pessoais, existe um mundo de pessoas vivendo por ai para serem analisadas, e é ai que entra o método cientifico de análise, tomar o todo, verificar como se dá a maioria dos casos, e com base na maioria diagnosticar onde esta o problema e traçar formas de superação do mesmo.

Vamos fazer uma viagem pela realidade da vida, onde não existem Malus e nem Marcelos, mas sim Daianes, Polianas, Stephannys, Gabrielles, Josefas, Rutes, Eloás, Shirleys… Uma rápida busca pela internet e temos uma porção de casos onde relacionamentos de mulheres adolescentes com homens mais velhos acabaram em tragédia, e não estamos falando dos casos de exceção que as pessoas insistem em levantar como sucesso desta modalidade de relação, mas são a esmagadora maioria, alguns deles para exemplificar:

– Shirley tinha 16 anos e namorava com José Ramos dos Santos, de 23 anos. Ela confessou uma traição, ele a matou e decapitou.

– Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, ela namorava com Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o domicílio de sua ex-namorada, manteve-a refém, e acabou tirando a vida da adolescente com um tiro por não aceitar o fim do relacionamento.

– Britânico de 34 anos matou a namorada de 14 anos por ciúmes, ela não quis dar a senha de suas redes sociais para ele.

– Daiane de 14 anos, foi morta por Adilson de 19 anos, ele disse a Daiane que se ela rompesse o relacionamento, não ficaria com mais ninguém.

– Poliana Alexandra de Araújo Alves, de 14 anos, e a amiga dela, Luzinete Lemos Rodrigues, de 16 anos foram mortas por Diego José da Silva, ele desconfiava que as duas tivessem um relacionamento homoafetivo;

– Sthefanny Oliveira Silva, de 14 anos, e a mãe da adolescente, Cássia Oliveira da Silva, de 35 anos, mortas pelo namorado da adolescente que tinha 20 anos.

– Gabriele de Assis Cassemiro, de 14, assassinada pelo namorado Adelson de Morais Lima, de 25 anos.

Por que tantas meninas relacionam se com homens tão mais velhos que elas? Existem tantas possibilidades para esta pergunta quando trata se do por que a adolescentes se envolve com homens mais velhos, mas existem poucas para o porque dos homens adultos envolverem-se com mulheres tão mais jovens que eles, a motivação esta no poder que facilmente é exercido sobre pessoas que estão em desigualdade fomentadas pelo machismo. Sem deixar passar que outras motivações que esta discussão quer mascarar é a sexualização de meninas, adultização de crianças, pedofilia, exaltação das Lolitas e naturalização do abuso.

Como foi dito no começo do texto, aqui nós não queremos falar de casais específicos, nem pessoalizar a critica que será feita, queremos fala de dados estatísticos de uma maioria de mulheres que acabam submetendo se a relacionamentos em idade muito precoce, e perdem parte de suas vidas, adquirindo para si responsabilidades da vida adulta. Muitas mulheres que tiveram relacionamentos na adolescência com homens mais velhos relatam que havia algo marcante neste tipo de relação, elas eram crianças demais, quando eles queriam que a opinião deles prevalecesse, elas eram maduras para idade quando concordavam com eles, ou seja, a relação de poder estava ali, imposta, com desqualificação das opiniões contrárias as deles, levando as a submeter se a vida que eles traçavam para elas.

Outra situação importante relatada por estas mulheres é que um dos momentos em que eles sempre a aplaudiam como maduras, era quando tratava- se de sexo, eram incentivadas a fazer posições variadas e agradá-los sexualmente com realização de fantasias, tudo sobre o incentivo de que isso seria ser madura, mesmo que estivessem fazendo coisas que não agradassem a elas, o importante era para estas meninas, firmar-se como madura para aquele homem. Estas observações foram feitas em relatos enviados para pagina na própria postagem que levantou o assunto, e também em debate com as moderadoras da página FSD, que vivenciaram este tipo de situação.

Mas quem seria a esmagadora maioria das meninas e adolescentes envolvidas em relacionamentos precoces?

Um estudo realizado pela Secretaria da Saúde mostra que as maiorias das mães que são adolescentes engravidam de homens cinco anos mais velhos em média. Estas mulheres relacionadas neste estudo têm de 10 a 20 anos. É necessário deixar bem claro aqui que o comportamento das meninas mais jovens quando relacionando se com homens mais velhos é de submissão. Elas admitem o fato de serem menos experientes e ou confiam neles ou sentem se constrangidas de impor determinadas posições, como por exemplo, o uso de preservativo. Para a coordenadora do programa de Saúde do Adolescente da Secretaria da Saúde, Albertina Takiuti, diante de homens mais velhos, as meninas ficam inibidas de propor uso de preservativo.

Em outro estudo realizado foram pesquisadas 1000 adolescentes em um hospital, entre elas: 24% foram atendidas por motivo de gestação, 7% foram atendidas para curetagem pós-abortamento, 93% para parturição. Com idade média de 17 anos, sendo que 17% tinham até 15 anos. As classes sociais em que estas adolescentes estão inseridas são as mais baixas, entre C, D, E. Na época do parto 67% não estudavam. Estes dados são muito importantes, por que demonstram claramente qual o perfil das adolescentes que perde a juventude, perde o tempo em que deveriam estar preparando se para a vida adulta, adquirindo precocemente responsabilidades da vida adulta, elas são pobres e são periféricas.

Nas classes mais abastadas este índice é infinitamente inferior, vivemos numa sociedade pautada em que a educação e cuidado com os filhos esta entregue aos pais, é uma faceta do próprio sistema capitalista louvar a família nuclear, justamente por que ela será à base de formação dos novos trabalhadores para o sistema, porém, este mesmo capitalismo força a ausência dos pais de casa por longos períodos a fim de manter a sobrevivência. As classes mais baixas têm uma configuração diferente se comparadas às famílias de classe média e ricas, nas classes baixas a família é formada em sua grande maioria por mães que chefiam a família sem a presença do companheiro, divorciadas ou abandonadas, trabalham por cerca de 9 horas fora de casa, se analisarmos as dificuldades para chegar em casa, visto que apesar de morar na periferia a maioria das vagas de emprego estão nas regiões centrais, estas mulheres levam até 3 horas para chegar em casa, quando chegam tem que se ocupar dos afazeres domésticos, e então fica a pergunta, onde existe tempo neste cotidiano perverso de educar uma filha, acompanhá-la em seus dilemas adolescentes, protegê-las de relacionamentos danosos?

A família burguesa, classe média alta tem outra formação, são maioria formada por casais, se por aparência ou não é outro papo, mas apresentam se assim, existe disponibilidade de pelo menos um dos pais para assumir a responsabilidade da educação dos filhos e filhas, normalmente a mãe faz este papel, se observamos a classe médica, por exemplo, uma área que agrega alta porcentagem de pessoas de classe média alta ou burguesa, a grande maioria das pessoas que se graduam são mulheres, mas a grande maioria das pessoas que exercem são homens, as mulheres acabam abandonando o exercício da profissão para cuidar da educação dos filhos (as). E esta educação dada é fundamentada na importância das etapas da vida, as famílias burguesas protegem seus filhos (as) para que não interrompa se os ciclos, estimulando aos estudos sempre, cobrando resultados e acompanhando passo a passo. Notem que ao passo que existem duas formações familiares, dois tipos de caminhos pegos, um pelas adolescentes pobres e periféricas, outras pelas adolescentes de classe alta, temos um aprofundamento das desigualdades, e uma manutenção do status quo, permanecem nas classes abastadas quem já estava por lá, mantém se nas classes desprivilegiadas quem já estava lá também.

A ideia de “direito ao nosso corpo” disseminado pelas feministas liberais, não faz a problematização do que isso significa para as mulheres pobres, periféricas e de maioria negras, por que o feminismo liberal observa a libertação das mulheres de um ponto privilegiado, do ponto alto da sua classe. Desde seu surgimento, o feminismo liberal simplesmente ignorou as pautas das mulheres trabalhadoras e pobres, e um exemplo disso é que as sufragistas, feministas brancas e burguesas, queriam si lutar pelo direito a voto para as mulheres, mas não todas as mulheres, apenas as que possuíssem propriedades privadas, ou seja, mulheres trabalhadoras estavam fora da luta por direitos. Mas são estas ideias que estão disseminadas como absolutas no meio feminista até os dias de hoje e são repetidas pela esmagadora maioria das feministas sem reflexão do realmente querem dizer. Ressaltamos ainda que o que leva estas meninas a engravidarem nesta idade além da formação da família ineficaz para dar cuidados e atenção a esta fase de desenvolvimento das filhas, conclui-se que um dos fatores que levam as adolescentes a engravidar é a falta de auto continência para lidar com suas angústias e impulsos, capacidade que não foi suficientemente favorecida por suas famílias e pelo meio social em que vivem. Esta conclusão foi verificada na observação de adolescentes entre 15 a 17 anos. Entre as adolescentes avaliadas todas mantinham relacionamentos com homens mais velhos, a saber, como exemplo: Daiana com 15 anos, sexta série incompleta, o pai da criança com 25 e Sara com 16, segunda série do ensino fundamental, e o pai da criança com 34 anos. Ambas começaram a se relacionar com estes homens aos 11 anos de idade, estes homens foram os primeiros parceiros sexuais e únicos e deles elas engravidaram. Esta é a realidade. Quero deixar escurecido que a realidade não é a pintada e romanceada pela burguesia, a realidade esta com as meninas pobres, brancas ou pretas, e periféricas.

Não podemos nos pautar pelas exceções e fechar os olhos para esmagadora maioria das meninas que começam relacionar se muito jovens, deixam os estudos, assumem uma vida adulta no período da infância para adolescência, perdendo a oportunidade de estabelecer se na vida, assim como as filhas das burguesas o fazem, e sendo cobradas tanto por este homem que as tira do caminho sadio, como pela sociedade que as culpa se reclamarem, por que sempre será culpa da menina, a menina que: “Deveria estar estudando, mas estava no funk dançando até o chão e sensualizando” ou “que estava por ai pegando os caras e fazendo sexo sem proteção” ou “que não se deu ao respeito”, a culpa nunca é do homem que utilizou se do machismo para sentir se no direito de sexualizar os corpos de meninas com idade muito inferior a deles, meninas que não estão aptas a relacionamentos adultos, meninas que não estão em igualdade com eles.

A idade de consentimento no Brasil é de 14 anos, mas adolescência é um período que se estende até os 18 anos. Reforçamos que, o grande número de meninas e adolescentes vivendo relacionamentos que pautam se pela desigualdade e interferem em seu desenvolvimento sadio é alarmante e tem lugar de classe, é aqui entre as pessoas pobres e periféricas que isso acontece com frequência, naturalizar estas situações é tudo que o opressor de classe e o patriarcado desejam, assim mantemos não só a dominação masculina sobre a vida das mulheres, como também mantemos homens como privilegiados do sistema, já que mais velhos que elas, provável terem mais anos estudados, e condições de independência financeira, e de lavada, mantém se o status Quo, com as filhas de burgueses sendo preparadas para o topo da cadeia social, e sendo salvaguardadas em todas as etapas de suas vidas para que isso seja possível, enquanto as meninas das classes baixas são ceifadas de oportunidades que poderiam dar lhes emancipação.

Liberdade sobre nosso corpo é tê-lo respeitado em todas as fases do nosso desenvolvimento, é termos nosso tempo para nos adequarmos as experiências de cada etapa, e não sermos sexualizadas por homens adultos, que se aproximam e tomam de nós, através de uma sedução coercitiva, para nos envolver. Liberdade sobre nosso corpo nunca será adequarmos- nos os fetiches dos homens por lolitas e ninfetas, chamando isso de escolha, como se fosse possível escolher dentro de uma sociedade igual, quando sequer temos ainda a maturidade suficiente para decidir. A reivindicação do feminismo liberal que tenta naturalizar estas situações, realmente não nos representa.

Por: Verinha Kollontai

Bibliografia

Gravidez na adolescência: perfil sócio-demográfico e comportamental de uma população da periferia de São Paulo, Brasil. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2007000100019 Gravidez na adolescência: um estudo exploratório http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0006-59432006000200002 Estudo aponta que mães adolescentes engravidam de homens mais velhos http://www.ibvivavida.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=3344:not3530&catid=34:noticias&Itemid=54 Por : Verinha Kollontai