O Dia das Mulheres

 

Introdução

NÓS VAMOS COM ÃNGELA DAVIS E ALEXANDRA KOLLONTAI, ATÉ A REVOLUÇÃO

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Por: Verinha Kollontai

Vamos postar este texto da Alexandra Kollontai hoje, por que como praticamente tudo que ela escreveu há tantos anos, é de uma atualidade espantosa e nos suscita o questionamento de que tantos anos depois continuamos no mesmo compasso, atrasados e misturadas a movimentos que pretendem reformas pontuais por dentro do sistema e que de forma alguma sanarão em sua completude a questão da opressão da mulher.

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Os recentes ataques que a classe trabalhadora vem sofrendo atingem de cheio a mulher, parte mais frágil da classe, que incorpora as filas do exercito de reserva, fora que os ataques somam se a retiradas de direitos conquistados pelas mulheres, como aposentadoria com idade inferior a do homem devido a dupla jornada de trabalho, no mercado de trabalho e em casa.

A retirada de direitos deixa claro que nada que conquistamos dentro do sistema capitalista será nosso de forma definitiva. Não por isso deixaremos de reivindicar direitos humanos para as mulheres nem deixaremos de lutar contra o machismo esperando pela revolução, mas temos que atrelar nossa luta a construção do processo revolucionário, rumo a derrubada do Capitalismo e para implantação de um novo modelo de vida numa sociedade socialista.

Por isso, não vamos hoje a Sé, nos juntarmos as mulheres que decidiram por uma luta reformista e com apoio a candidatura de Lula para 2018. Não vamos sair em defesa de reformas e de uma solução magica por dentro do sistema se sabemos que este sistema tem que ser destruído como unica opção para nossa libertaçao. Vamos ao Masp, chamando uma Greve Internacional de mulheres, em coro com ANGELA DAVIS (1) que lançou com outras intelectuais um chamado/ para uma ação revolucionária, para que a manifestação contra TRUMP, que foi a maior manifestação das mulheres que consta na nossa historia, seja arquivada como uma bela manifestação, mas que ela seja o começo de um REVOLUÇÃO.

 

O Dia da Mulher

Alexandra Kollontai

O que é o dia da Mulher? É realmente necessário? Não seria uma concessão às mulheres da classe burguesa, às feministas e sufragistas¹? Não seria nocivo à unidade do movimento operário? Estas questões ainda se escutam na Rússia, embora já não no exterior. A própria vida já deu uma resposta clara e eloquente a tais perguntas.

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O Dia da Mulher é um elo na longa e sólida cadeia da mulher no movimento operário. O exército organizado de mulheres trabalhadoras cresce cada dia. Há vinte anos, as organizações operárias não tinham mais do que grupos dispersos de mulheres nas bases dos partidos operários… Agora os sindicatos ingleses têm mais de 292.000 mulheres sindicalizadas; na Alemanha são em torno de 200.000 sindicalizadas e 150.000 no partido operário, na Áustria há 47.000 nos sindicatos e 20.000 no partido. Em toda a parte, em Itália, na Hungria, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e na Suíça, as mulheres da classe operária estão se organizando. O exército de mulheres socialistas tem perto de um milhão de membros. Uma força poderosa! Uma força com a qual os poderes do mundo devem lidar quando se trata do custo da vida, a segurança da maternidade, o trabalho infantil ou a legislação para proteger as mulheres trabalhadoras.

Houve um tempo em que os homens trabalhadores pensavam que deveriam carregar sobre os seus ombros o peso da luta contra o capital, pensavam que eles sozinhos deveriam enfrentar o “velho mundo” sem o apoio das suas companheiras. Porém, como as mulheres da classe trabalhadora entrando nas fileiras daqueles que vendem o seu trabalho em troca de um salário, forçadas a entrar no mercado de trabalho por necessidade, porque o seu marido ou pai estava desempregado, os trabalhadores começaram a reparar que deixar atrás as mulheres nas fileiras dos “não-conscientes de classe” era prejudicar a sua causa e evitar que avançassem. Que consciência de classe possui uma mulher que senta no fogão, que não tem direitos na sociedade, no Estado ou na família? Ela não tem ideias próprias! Todo o faz é segundo ordena o seu pai ou marido…²

O atraso e a falta de direitos sofridos pelas mulheres, a sua dependência e indiferença não são benéficos para a classe trabalhadora, e de fato são um mal direto para a luta operária. Mas, como entrará a mulher nesta luta, como acordará?

A social-democracia estrangeira não vai encontrar solução correta imediatamente. As organizações operárias estavam abertas às mulheres, mas só umas poucas entravam. Por quê? Porque a classe trabalhadora, ao começo, não vai dar por si que a mulher trabalhadora é o membro mais privado, tanto legal quanto socialmente, da classe operária, que ela foi espancada, intimidada, encurralada ao longo dos séculos, e que para estimular a sua mente e o seu coração necessita uma aproximação especial, palavras que ela, como mulher, entenda. Os trabalhadores não se vão dar conta imediatamente de que neste mundo de falta de direitos e de exploração, a mulher está oprimida não só como trabalhadora, mas também como mãe, mulher. Porém, quando membros do partido socialista operário entenderam isto, fizeram sua a luta pela defesa das trabalhadoras como assalariadas, como mães e como mulheres.

Os socialistas em cada país começam a demandar uma proteção especial para o trabalho das mulheres, segurança para as mães e os seus filhos, direitos políticos para as mulheres e a defesa dos seus interesses.

Quanto mais claramente o partido operário percebia esta dicotomia mulher/trabalhadora, mais ansiosamente as mulheres se uniam ao partido, mais apreciavam o rol do partido como o seu verdadeiro defensor e mais decididamente sentiam que a classe trabalhadora também lutava pelas suas necessidades. As mulheres trabalhadoras, organizadas e conscientes, muito fizeram para elucidar este objetivo. Agora, o peso do trabalho para atrair as trabalhadoras ao movimento socialista reside nas mesmas trabalhadoras. Os partidos em cada país têm os seus comitês de mulheres, com os seus secretariados para a mulher. Estes comitês de mulheres trabalham na ainda grande população de mulheres não conscientes politicamente, levantando a consciência das trabalhadoras e organizando-as. Também examinam as demandas e questões que afetam mais diretamente à mulher: proteção e provisão para as mães grávidas ou com filhos, legislação do trabalho feminimo, campanha contra a prostituição e o trabalho infantil, a demanda de direitos políticos para as mulheres, a campanha contra o aumento do custo da vida…

Assim, como membros do partido, as mulheres trabalhadoras lutam pela causa comum da classe, enquanto ao mesmo tempo delineiam e põem em questão aquelas necessidades e as suas demandas que lhes dizem respeito mais diretamente como mulheres, como donas de casa e como mães. O partido apoia estas demandas e luta por elas. Estas necessidades das mulheres trabalhadoras são parte da causa dos trabalhadores como classe.

No dia da mulher as mulheres organizadas manifestam-se contra a sua falta de direitos. Mas alguns dirão, por que esta separação das lutas das mulheres? Por que há um dia da mulher, panfletos especiais para trabalhadoras, conferências e comício? Não é, enfim, uma concessão às feministas e sufragistas burguesas? Só aqueles que não compreendem a diferença radical entre o movimento das mulheres socialistas e as sufragistas burguesas podem pensar desta maneira.

Qual o objetivo das feministas burguesas? Conseguir os mesmos avanços, o mesmo poder, os mesmo direitos na sociedade capitalista que possuem agora os seus maridos, pais e irmãos. Qual o objetivo das operárias socialistas? Abolir todo o tipo de privilégios que derivem do nascimento ou da riqueza. À mulher operária lhe é indiferente se o seu patrão é um homem ou uma mulher.

As feministas burguesas demandam a igualdade de direitos sempre e em qualquer lugar. As mulheres trabalhadoras respondem: demandamos direitos para todos os cidadãos, homens e mulheres, mas nós não só somos mulheres e trabalhadoras, também somos mães. E como mães, como mulheres que teremos filhos no futuro, demandamos uma atenção especial do governo, proteção especial do Estado e da sociedade.

As feministas burguesas estão lutando para conseguir direitos políticos: também aqui os nossos caminhos se separam. Para as mulheres burguesas, os direitos políticos são simplesmente um meio para conseguir os seus objetivos mais comodamente e com mais segurança neste mundo baseado na exploração dos trabalhadores. Para as mulheres operárias, os direitos políticos são um passo no caminho empedrado e difícil que leva ao desejado reino do trabalho.

Os caminhos seguidos pelas mulheres trabalhadoras e as sufragistas burguesas separaram-se há tempo. Há uma grande diferença entre os seus objetivos. Há também uma grande contradição entre os interesses de uma mulher operária e as donas proprietárias, entre a criada e a senhora… portanto, os trabalhadores não devem temer que haja um dia separado e assinalado como o Dia da Mulher, nem que haja conferências especiais e panfletos ou imprensa especial para as mulheres.

Cada distinção especial para as mulheres no trabalho de uma organização operária é uma forma de elevar a consciência das trabalhadoras e aproximá-las das fileiras de aqueles que estão a lutar por um futuro melhor. O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a auto-consciência da mulher trabalhadora estão servindo à causa, não da divisão, mas da união da classe trabalhadora.

Deixe que um sentimento alegra de servir à causa comum da classe trabalhadora e de lutar simultaneamente pela emancipação feminina inspire os trabalhadores a unirem-se à celebração do Dia da Mulher.

 

Citações:

  1. Beyond Lean-In: For a Feminism of the 99% and a Militant International Strike on March 8.

<http://www.revistaforum.com.br/2017/02/07/angela-davis-e-nancy-fraser-convocam-mulheres-para-uma-greve-geral-no-dia-8-de-marco/&gt;

Notas:

1.O movimento de mulheres socialistas da época procurava se diferenciar dos movimentos feministas e sufragistas de então por estes terem uma direção e política de caráter majoritariamente burguês ou pequeno burguês. Porém, como o texto deixa claro, as socialistas não negligenciavam a causa do sufrágio feminino ou outras causas específicas das mulheres.

2. Neste texto Alexandra Kollontai levanta a questão da formação de consciência de classe da mulher que recém adentrou no trabalho assalariado, e que antes estava confinada ao trabalho doméstico, que Kollontai considerava embrutecedor.

Uma nova moral para o Amor

A moral do Amor

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O amor vem sido contado de variadas formas, e são vários os tipos de amor que elencaram para nossas vidas: Amor materno, amor paterno, amor fraterno, amor apaixonado, os altruísmo… Todas as formas de amor são exaltadas e idealizadas, como se qualquer passo a fora do que foi previsto para o amor fosse uma heresia, uma profanação a sagrada religião do amor, com castigo de ser excomungado do templo onde ele habita.

Parece um exagero, mas é assim que o amor vem sendo tratado, como uma religião sagrada que tem neste sentimento um rito que deve ser cumprido á risca. O tipo de amor que mais causa espanto quanto a estas considerações, é o amor materno, mas o amor entre pares também não esta livre, não é livre.

Vem direcionado a nós através das mídias e artes em geral, o amor romântico servido ao mundo como algo inevitável, irresistível, imutável, sofredor, apaixonado, eterno… São algumas das características que compõe o amor. Nada disso é uma verdade absoluta, pode ser que seja assim para alguns povos vivendo em determinadas localidades onde este tipo de construção foi eleito a forma plena de amar, mas não se aplica a o mundo todo de forma imutável.

O amor não é algo nato, que nos salta aos olhos a primeira vista do outro. É sabido que a paixão provoca reações químicas no cérebro e corpo, nos levando a uma súbita atração pelo outro, mas que este episódio de atração chama se paixão e pode ser comparado a um Cio animais não humanos. Por meio do mapeamento cerebral, foi descoberto que o estado mental alterado pela paixão dura, geralmente, de 18 a 48 meses.  É um período breve para a construção de um amor, nem sempre se concretizam, os pares se separam quando cessam as doses de hormônios que são liberadas pelo período apaixonado quando a construção do amor não é alicerçada.

O amor são as conexões que aparecem durante o período que a paixão une o par, seja homem e mulher, sejam casais homoafetivos. A evolução da espécie na verdade não enxerga a sexualidade dos indivíduos, apenas temos internalizado as formas de unirmos – nos em pares para perpetuação da espécie. O amor é uma construção social que traduz – se para cada época, para cada sociedade, para cada ideologia dominante de uma época.

O nascimento do amor

Algumas explicações de com o nasce o amor já nos mostra bem que tipo de construção nos reserva. Na mitologia Grega, Eros nasce de uma Deusa chamada Penúria, extremamente miserável, que vivia sedenta e faminta. Aconteceu que haveria uma festa e Penúria não foi convidada, esfomeada, ela chega ao término da festa e come e bebe os restos, come tanto que se farta de migalhas.

Penúria, encontra um Deus chamado Poros, dormindo embriagado (pobrezinho) e mesmo sendo considerado astuto e engenhoso dono de uma personalidade envolvente, ele é abusado por Penúria, que faz sexo com ele “inconsciente”. Desta noite te sexo, nasce EROS, o Deus do amor, aquele menininho loiro de cabelos encaracolados que atira flechas nas pessoas, flechas envenenadas de paixão e amor.  Eros, numa genética fantástica, viria a conciliar em sua essência tanto a carência e a miséria de sua mãe Penúria, como a abundância e a prosperidade de seu pai Poro.

Para Platão: “Com efeito, o saber está entre as coisas mais belas é o Amor é o desejo do belo; portanto, forçosamente o amor é filósofo e, sendo filósofo está situado entre o sábio e o ignorante. Ainda é sua origem a causa disso, pois é filho de um pai sábio e industrioso e duma mãe ignorante e apalermada”.

Os homens não amam?

O que podemos tirar desta fabula da mitologia grega? Que a figura que remete ao amor em construção feminina é a de fome, tanta fome, que as migalhas lhes bastam, a sedução e altivez ficam por conta da figura masculina e não só isso, ela o conheceu por que era um Deus convidado para festa, logo era abastado, para ter os privilégios de uma vida plena, a mulher precisa lutar ou enganar o homem para conquistá-la, e engravidar do homem seria uma forma de garantir um espaço neste céu de deidades.

O amor nasceria da fome e da miséria, do desespero e da desonestidade do ser humano do gênero feminino, que precisa ser abraçado e envolvido pela sedução, riqueza e beleza alheia para saciar – se. Impossível imaginar o amor dentro desta perspectiva, pois ela traz a dependência como imagem de amor. Ou saciar se do outro, ou morrer de fome. A riqueza, a prosperidade, tudo de maravilhoso esta na outra pessoa e precisaríamos desta pessoa permanentemente ao nosso lado para sermos melhores e completas.

Importante ter em vista que o amor tem sido algo remetido como algo próprio da mulher, sendo ele feminino, tanto que as qualidades do amor são minimizadas em discursos machistas como sendo “preocupações de mulher”. Simone Beauvoir disse que “O amor foi apontado à mulher como uma suprema vocação e, quando se dedica a um homem vê nele um deus […]”. E tem sido assim, tanto que “o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante de uma mulher”, e infelizmente,  o amor transformou-se em uma arma do machismo para submeter às mulheres.

Do amor degenerado ao Amor pleno

O amor que conhecemos hoje, e fruto de várias construções ideológicas de classes que foram e das que são dominantes ainda hoje. Durante a passagem da linha do tempo, encontramos o “amor” sempre atrelado a promover equilíbrio e beneficiar a moral das famílias e do fator econômico da classe. Esta forma degenerada de caracterizar o amor foi destruindo – o em sua essência e moldando o para suprir interesses alheios aos anseios humanos.

Atualmente temos a humanidade aprisionada sobre os signos da paixão e enganosamente chamando a este sentimento de amor, a avidez em devorar o outro em tudo que ele é para saciar lhe a fome, ate que a fome passa e o ser humano que antes lhe dava sensações incríveis é abandonado para que enfim, a busca por outro que lhe dê novamente as sensações anteriormente sentidas.

Alexandra Kollontai, em sua obra, a Nova Mulher e a Moral Sexual, descreve a condição da humanidade daquela época, que se assemelha incrivelmente com a de hoje ainda, dizendo:

 “A época atual caracteriza se pela ausência da arte de amar. Os homens desconhecem em absoluto a arte de saber conservar relações amorosas, claras, luminosas, leves. Não sabem todo valor que encerra a amizade amorosa. O amor para os homens de nossa época é uma tragédia que destroça a alma (…). É preciso tirar a humanidade deste atoleiro (…). A psicologia do homem não estará aberta para receber o verdadeiro amor (…) até que passe pela escola da amizade amorosa.”

O amor é uma construção social. Engana- se quem acredita que o amor é algo nato, que é um dom, não é. O amor esta na história que desenvolvemos com nossos pares no decorrer do encantamento da paixão, são as afinidades mutuas o espírito de solidariedade com o outro, a cumplicidade, lealdade, a os momentos felizes e os de superação. Todos estes elementos transformam a relação em uma ponte de acesso livre, por onde um caminha até o outro, uma ponte sólida que consegue suportar o peso que é descobrir o outro assim como ele é, sem as idealizações da paixão, sem mascaras.

O que temos hoje é um amontoado de ideologias sobre o amor que nos confundem e nos impedem de compreender e viver plenamente o sentimento. Para Alexandra Kollontai,

“A solução para este complicado problema só é possível mediante uma reeducação fundamental de nossa psicologia, reeducação esta que, por sua vez, só é possível por uma transformação de todas as bases sociais que condicionam o conteúdo moral da humanidade.”

Bibliografia

KOLLONTAI, Alexandra. A nova mulher e a moral sexual. Expressão Popular, 2003

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Venda Nova: Bertrand, 1976.

BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. Petrópolis, R.J: Vozes, 1991.

PLATÃO. Diálogos. Trad. e seleção Jaime Bru

A família burguesa não nos contempla

A burguesia e conservadora e retrograda – Pensei comigo logo após começar a ler a querida Alexandra Kollontai em “O comunismo e a família”. São muitas informações que ela traz neste escrito, eu gosto de perceber que a família nunca foi algo estático, mas adaptável ao contexto histórico e social ao seu redor.

Houve época em que a família era uma mãe anciã e todos os filhos a sua volta, ouvindo e obedecendo – lhe conforme sua sabedoria houve tempo em que o pai era o líder da família, e agia como um patrão dos filhos e esposa há lugares que homens casam se com várias mulheres e é permitido por lei, formam se famílias extensas, há lugares que as mulheres são exaltadas pela quantidade de amantes que colecionou na vida (algumas tribos)… Qual e a família ideal?

O mundo muda e gira, e se expandem, novas tecnologias chegam e alavancam o futuro e tem uma classe que espera que mesmo com toda esta velocidade de acontecimentos a família patriarcal mantenha se estática e respeitada por todos, não só respeitada, mas, admirada, desejada e reproduzida, ainda que este tipo de família não corresponda em nada o que rodeia a vida de outras pessoas.

A burguesia ainda prima pela família tradicional patriarcal por que ainda tem o que proteger e manter seguro para transferir a seus herdeiros, eles são donos dos meios de produção e o que excede a produção em forma de lucro e juntado, controlado e guardado para manutenção do futuro daquela família no topo da classe social.

Para nós da classe trabalhadora que não temos nada para guardar, nem posses e nem dinheiro, para que precisamos de uma família cheia de herdeiros legítimos, com uma mãe zelosa em casa garantindo a educação destes filhos para que assumam posteriormente os negócios da família?

A família da classe trabalhadora faz muito tempo que não é a mesma imagem da família burguesa, mas devido ser a burguesia ser a classe dominante, o que se propaga como certo e perfeito é a sua moral, e suas construções. A mídia e a igreja são as principais propagandistas de que um lar equilibrado e feliz tem uma mãe zelosa e abdicada, que abandonou a carreira ou ajustou – se para poder ser mãe a profissional, os filhos sendo criados e educados pela mulher, que é uma colaboradora do homem, não só na educação e criação dos filhos, mas aconselhando o e segurando suas crises emocionais etc.

Quantas mulheres podem hoje em dia se dar ao luxo de trabalhar apenas meio período e dedicar se a criação dos filhos no restante do tempo? Quantas mulheres tem esta estrutura formada dentro de casa “mãe, pai e filhos”? Sabemos que existe uma grande quantidade de crianças que sequer tem o nome do pai na certidão de nascimento quem dirá ter a mulher apoio do homem na criação dos filhos?

Passamos muito tempo perseguindo projetos que não cabem em nossa vida, e por isso, passamos muito tempo alheios a nossas condições e sem conseguir construir para nós uma moral que nos caiba e nos represente uma moral coletiva, baseada em camaradagem, que nos faça a todos uma grande família, que supere o cla familiar burguês e se expanda em amor e cooperação com todos e todas de nossa classe.

A família montada sobre a moral burguesa é individualista, começa com um casal que terá seus filhos e ficam responsáveis pela criação e educação destes filhos, voltam se apenas para seus clãs familiares, treinando os obstinadamente para a competição do mundo capitalista, a fim de que galguem os melhores postos, as mais altas patentes…

Aqui na classe trabalhadora, seguimos este mesmo projeto, sem perceber que para que a classe dominante esteja nesta posição, somos todos explorados e do suor nosso trabalho nasce às condições da família burguesa manter sues valores e formato. O mesmo capitalismo que chamou as mulheres de volta ao mercado de trabalho, não as aliviou de suas tarefas domésticas, inviabilizando completamente a possibilidade de ser ter em casa a mãe preconizada pela burguesia. O próprio sistema econômico impossibilita a família padrão. Enquanto isso a igreja e a sociedade louvam – na.

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A classe trabalhadora aprende viver sem vida familiar, passa mais tempo com seus companheiros de trabalho do que com sua família estabelecida por contratos, acordos e laços consanguíneos. Passamos cerca de 9 horas no ambiente de trabalho, outras tantas horas presos no trajeto do trabalho até em casa, quantas horas passamos efetivamente em casa durante a semana para estabelecer relações familiares consistentes.

A família como clã no seio da classe trabalhadora não funciona, a intimidade dos membros se perde, falta tempo para o dialogo e intimidade para fazê-lo, muitas vezes amamos mais um amigo que convivemos todos os dias no ambiente de trabalho, e que se projeta para nossa vida pessoal com grande ganho de intimidade do que um irmão de laço consanguíneo.

O que estou tentando demonstrar é que a classe dominante tem uma moral conservadora para família e que expandi-la como a correta e aceita, contudo ela é impossível para nós e nos culpamos por não conseguir ter e manter esta família perseguimos ideais que são horizontes se afastando continuamente quanto mais caminhamos em sua direção.

UM ATAQUE A APOSENTARIA DA CATEGORIA QUE MAIS TEM MULHERES EM SUA CONSTITUIÇÃO

 

Aposentadoria especial dos professores será extinta. Muitas pessoas podem pensar “ah mas por que eles tem aposentadoria especial?” Pode- se de forma equivocada, acreditar que trata-se de um privilégio, mas não é nada disso. A aposentadoria especial diz respeito a exposição destes profissionais a agentes nocivos a sua saúde.

Basta um Google rápido para descobrir que a saúde mental dos professores é um assunto muito comentado, e não é a toa, O estresse é o responsável pelo exagerado número de professores que se afastam da sala de aula, por falta de tempo para planejamento e excesso em sala de aula, momentos de lazer, pela falta de valorização profissional, pela ausência de apoio da família, e até mesmo dos alunos.

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Transtornos mentais e comportamentais foram as principais causas de afastamento por doença dos professores da rede municipal de São Paulo no ano passado. Foram 4,9 mil afastamentos para uma categoria com 55 mil profissionais, o que equivale a quase 10% dos trabalhadores.

Os dados são de um levantamento que está sendo feito pelo Departamento de Saúde do Servidor (DSS) da Secretaria Municipal de Gestão e Desburocratização. O estudo aponta o crescimento de problemas psiquiátricos entre os professores. Em 1999, esses transtornos eram responsáveis por cerca de 16% dos afastamentos. Dez anos depois, a porcentagem subiu para 30% – de um universo aproximado de 16 mil afastados. (1)

O noticiário é cheio de matérias sobre salas abarrotadas de alunos, 30 a 40 alunos em salas onde o certo seria 20 alunos, no máximo. O professor é explorado, pois oferece suas aulas a um valor que comportaria uma sala de 20 alunos, mas assume 30 a 40, beneficiando o Estado ou escolas particulares populares, o professor realiza um trabalho não pago, ou seja, a área da educação extraí  também mais valia destes profissionais.

Agora, somemos isso ao fato de que a maioria do contingente de professores é feminino e temos uma bomba, pois a dupla jornada de trabalho está ali massacrando as trabalhadoras que além das salas lotadas, do estresse, do abandono, salários defasados, exploração, ainda arcam com a responsabilidade dos serviços do lar e cuidado com a família.

Apoiar a luta dos professores é apoiar as mulheres na luta pelos seus direitos e reconhecimento de que dupla jornada e exploração, somada a fatores estressantes da profissão mais do que justificam uma aposentadoria especial. Acabar com a exploração e duplas jornadas ninguém dá um pio a respeito, mas aprofundar o ataque as mulheres trabalhadoras, sempre esta em pauta para estes governantes corruptos que não tem o menor problema em atacar trabalhadores para salvar os lucros dos burgueses.

A postura dos governos é de intransigência e total descaso com as reivindicações da educação pública.É preciso garantir todo apoio e solidariedade aos professores de todo o país! Pela unificação das greves e pela realização de uma Greve Geral da Educação!
Pelo atendimento das reivindicações da categoria!

1 – Transtorno mental afeta mais professores – Problema cresce na rede municipal de São Paulo e já atinge 10% dos docentes. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,transtorno-mental-afeta-mais-professores-imp-,579869.

 

Representatividade e o governo Obama

O governo de Barack  Obama chegaram ao fim neste 20 de janeiro de 2017.

Entretanto, ao fazermos um balanço no que diz respeito ao debate de opressões nos EUA, o governo Obama deixou uma herança póstuma de um número gigantesco de assassinados no país, numero que supera o governo Bush. O programa de drones americanos matou milhares de inocentes, crianças não foram poupadas, a população síria também não escapou dos desmandos do ex-presidente.

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Os estados unidos é a maior potencia capitalista da atualidade, com enormes massacres à países mais pobres e com uma gigantesca violência policial, o governo Obama representou exatamente o que concerne os limites do imperialismo norte-americano, não deixando duvidas de que para se estar a frente de um país referencia da economia mundial, os interesses a serem colocados, serão sempre os da burguesia.

Mesmo com tantas contradições, a era Obama deixa uma movimentação de tristeza por parte de alguns movimentos sociais que aclamam a pauta da representatividade política. A autoestima da população negra dos Estados Unidos foi colocada em cheque, como se cada morte realizada pela polícia, cada assassinato e deportação de estrangeiros não tivessem o mesmo peso político.

É importante avaliar os nossos reais interesses políticos, pensarmos no que queremos para a nossa sociedade a curto, médio e longo prazo. A quanto custa as nossas vidas, a manutenção dos interesses do capital para a população mais pobre, negra, feminina e LGBT. A guerra contra as drogas que tem matado milhares de jovens negros todos os anos na periferia que rema junto a permanência da policia militar; a não legalização do aborto que tem matado milhares de mulheres; a não criminalização da homofobia; o pouco ou nenhum espaço para a população T no mercado de trabalho. Todas as nossas reivindicações politicas tem andado em círculos nas ultimas décadas, e internacionalmente falando, a situação tem ficado cada dia pior, com um cerco de conservadorismo e uma crescente de discursos fascistas.

O governo Trump nem de longe é um afago para as minorias estadunidenses, ao contrário, veio para aumentar o discurso nacionalista, branco, heterossexual e cristão, diminuir as chances da população estrangeira, restringir a liberdade civil da população negra, aumentando o ascenso do conservadorismo e discurso de ódio contra as minorias.

É tempo de avaliarmos a representação política, escolher um candidato que jogue ao lado e atenda aos interesses da classe trabalhadora.

A nossa representatividade deve ir além dos limites de gênero e raça, a nossa representatividade deve ser de um governo que preze pelo bem coletivo, que governe para os mais pobres, para as pessoas negras, para mulheres e LGBT.

“Eu preferiria um candidato branco, que criticasse o capitalismo, o inter-racismo e as prisões do que um candidato negro que é do status quo” Angela Davis.

Nossos terreiros também são quilombos

Por: Cássia Clovié*, de terreiro.

No mês de novembro é lembrada a morte de Zumbi dos Palmares, que ao lado de sua companheira Dandara construiu e liderou o maior Quilombo já existente no Brasil Colônia, o Quilombo dos Palmares, que chegou a abrigar mais de vinte mil pessoas, entre negras/os escravizadas/os, indígenas e brancas/os pobres, se tornando o local mais significativo da resistência negra. A morte de Zumbi é homenageada no Dia Nacional da Consciência Negra, uma data muito importante para o movimento negro, resultante de muita luta.

Para nós, essa data precisa ser reconhecida não só para comemorar, mas para resgatar nossa história e lembrar que ainda temos muito por fazer, todos os dias, não só no dia 20 de movembro. Somos o legado de Dandara e Zumbi, resistimos e lutamos diariamente pelo direito de viver, contra o genocídio do nosso povo nas periferias, contra o mito da democracia racial, por políticas afirmativas. Mas, também resistimos e lutamos com nossa identidade e ancestralidade. Esta, por vezes esquecida, precisa ser exaltada também. Nossas religiões também são expressão máxima disso. Precisamos falar do candomblé e de nossos terreiros.

O candomblé se construiu da necessidade que as diferentes tribos de negras/os trazidas/os de África para serem escravizadas no Brasil tiveram de se comunicar, já que falavam dialetos diferentes entre si. A oralidade é a principal forma de comunicação e transmissão de conhecimento, sendo utilizada até hoje. No Candomblé, as/os Orixás são ancestrais divinizados, representantes das forças da natureza com as/os quais se mantém uma forte ligação familiar. As gerações passadas e os seus conhecimentos trazem consigo enorme importância, refletindo a preocupação com a conexão entre o passado, presente e futuro. Nesse sentido, expressam um respeito à ancestralidade e ao equilíbrio da natureza.

No Brasil, que é o terceiro país mais negro fora da África, com cerca de 50,7% de autodeclarações de pretos e pardos segundo dados do IBGE de 2010, apontam que 0,3% de negras/os e pardas/os são praticantes do candomblé e/ou umbanda. É preciso lembrar que a umbanda não é de matriz africana, mas o IBGE aponta as duas religiões como iguais. A presença de mulheres nos terreiros é expressiva, no entanto, os dados colhidos apresentam um resultado bastante diferente da realidade, apontando que de um universo de 335.135 homens, 293 são adeptos do candomblé e umbanda, ao passo que de 334.391 mulheres 262 assumiram seguir as duas religiões.

Quando fazemos o recorte de raça no que tange a religião, os dados do IBGE são desconcertantes. Entre brancas e brancos o número que se assumiu enquanto praticantes do candomblé e, ou umbanda foi de 149 pessoas de um total de 159.161. Já entre negras e negros esses dados foram de 128 pessoas de 56.205.

Ainda que o número de praticantes de candomblé entre pessoas negras seja bem mais expressivo, a banalização dos rituais, vestimentas e paramentos é impactante e parte de uma apropriação religiosa por parte de não-negras/os e do racismo religioso que tem nos silenciado cotidianamente em nossos terreiros e fora deles.

Em 2015, foi lançado o pré-relatório da intolerância religiosa organizado pela parceria de pesquisas entre os interlocutores e pesquisadores da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Centro de Articulação de Populações Marginalizadas e o Laboratório de História das Experiências Religiosas do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Visa apresentar dados do racismo religioso, velado ou não.

Os dados do Disque 100, criado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, apontam 697 casos de intolerância religiosa entre 2011 e dezembro de 2015, a maioria registrada nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No Estado do Rio, o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir), criado em 2012, registrou 1.014 casos entre julho de 2012 e agosto de 2015, sendo 71% contra adeptos de religiões de matrizes africanas, 7,7% contra evangélicos, 3,8% contra católicos, 3,8% contra judeus e sem religião e 3,8% de ataques contra a liberdade religiosa de forma geral.

Dentre as pesquisas citadas, um estudo da PUC Rio sugere que há subnotificação no tema. Foram ouvidas lideranças de 847 terreiros, que revelaram 430 relatos de intolerância, sendo que apenas 160 foram legalizados com notificação. Do total, somente 58 levaram a algum tipo de ação judicial.

O trabalho também aponta que 70% das agressões são verbais e incluem ofensas como “macumbeiro e filho do demônio”, mas as manifestações também incluem pichações em muros, postagens na internet e redes sociais, além das mais graves que chegam a invasões de terreiros, furtos, quebra de símbolos sagrados, incêndios e agressões físicas.

Com base nestes dados é possível constatar que não se trata de casos de intolerância religiosa, mas de racismo religioso, tendo em vista que a grande maioria dos casos é relacionada às religiões de matriz africana. Para minimizar os efeitos danosos deste é preciso que nos apropriemos da história religiosa através de cursos, palestras e debates e nos aprofundemos nos reflexos dessas práticas na perpetuação dos nossos rituais, na nossa auto estima e reconhecimento dos nossos terreiros como locais de professar a fé como todos os outros.

O combate ao preconceito contra as religiões de matriz africana perpassa por compreendê-lo sob a perspectiva do racismo. É preciso discutir estas religiões transversalizadas pelo debate de raça e classe e da organização do povo de Ashé, para armar nosso povo de terreiro para o enfrentamento diário do que se convencionou chamar de intolerância religiosa. E o combate ao racismo perpassa por combater a violência contra os candomblecistas e os terreiros, e isso significa lutar por leis e políticas concretas de enfrentamento a esta violência.

Para aquilombar de verdade, é preciso passar por dentro do terreiro.

Foto: Terreiro Xambá do Quilombo do Portão do Gelo

A origem do feminismo radical trans-excludente: a expulsão de Beth Elliott

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Foto de Beth Elliot, por volta de 1970

Por Jéssica Milaré

É comum se deparar com alguma “polêmica” nas redes sociais entre as feministas radicais trans-excludentes contra pessoas trans. De fato, as trans-excludentes representam uma corrente que surgiu dentro do feminismo radical na década de 1970, dividindo-o em dois grupos: um que defende abertamente a exclusão de mulheres trans, e o outro que não se opõe à presença delas no movimento feminista. O primeiro grande evento em que essa divisão ocorreu foi a Conferência Feminista Lésbica da Costa Oeste, em Los Angeles, nos EUA, em abril de 1973.

Daughter of Bilits, 1972

Em 1971, Elliott tornou-se membro do coletivo feminista lésbico Daughter of Bilits, o que deu origem a uma forte polêmica. Foi decidido que ela poderia participar. Porém, no final de 1972, Bev Jo von Dohre, ex-amiga de Beth, acusou esta de tê-la assediado sexualmente em 1969. Entretanto, a própria descrição do “assédio sexual” em um texto da Bev Jo mostra que não houve assédio sexual: Bev Jo confessa que Beth Elliot não encostou um dedo na Bev Jo nem a ameaçou.

Eu me senti perseguida por ele [Elliot] por mais de 40 anos, mas eu não posso me afastar dele nem mesmo em espaços “somente para mulheres”. Eu acho que é ultrajante que qualquer lésbica ou mulher [sic] deveria ter que ver um homem que a assediou em um espaço que deveria ser seguro. (Este homem não me pressionou além disso, mas por favor lembre-se de que todos esses homens têm um passado e assuma que muitos deles teriam estuprado meninas ou mulheres. Eles são HOMENS, afinal de contas).

Von Dohre. Defining Lesbians Out Of Existence. Grifo nosso.

Perceba que, se Elliott tivesse realmente cometido assédio sexual, Bev Jo não confessaria que Elliott “não me pressionou além disso”, nem se basearia em pura especulação de que as mulheres trans teriam estuprado outras mulheres antes da transição. Beth pode ser acusada de carência (o que é comum entre pessoas trans, já que nós somos rejeitadas socialmente) e de manter uma relação nada saudável, mas não de assédio sexual.

Eu podia sentir Elliot me observando pelos meses que se seguiram, e, se eu parecia começar a ser amiga de outros homens, ele ficava com raiva e chorava. Em me transferi para outra escola para tentar ficar com Marg, mas ainda mantive contato com Elliot. Ele disse que se apaixonou por outra lésbica e que ela tinha transado com ele como se ele “fosse uma mulher”. Ele também me disse que transou com um homem. Depois de um tempo, ele decidiu que era uma lésbica e escolheu o primeiro nome o mais próximo possível ao meu e pintou seu cabelo com um vermelho semelhante ao meu. (Isso não é de arrepiar?).

Von Dohre, op. cit.

Por que ter um nome parecido e um cabelo da mesma cor seria “de arrepiar”? Ora, porque ela tem ódio das mulheres trans.

É engraçado como eles [as mulheres trans] estão tão acostumados que as feministas imediatamente se curvem pra eles que eles não sabem lidar com quando nós não nos importamos com o que acontece com eles. Eles esperam que nós fiquemos chocadas com as estatísticas sobre eles sendo mortos, mas não percebem que algumas de nós desejamos que eles TODOS fossem mortos.

Von Dohre, op. cit.

Conferência Feminista Lésbica, 1973

Na conferência, um grupo denominado The Gutter Dykes distribuiu um panfleto contra a presença de “um homem” (sic), no caso, a Beth Elliott. Robin Morgan, baseando-se na acusação de Bev Jo, fez um discurso questionando a audiência por que algumas delas defendiam a “obscenidade do travestismo masculino” (sic).

Não, eu não vou chamar um homem de ‘ela’; trinta e dois anos de sofrimento e sobrevivência nessa sociedade androcêntrica me fizeram merecer o título de ‘mulher’; um passeio na rua por um travesti masculino, cinco minutos de assédio (que ele deve gostar), e ele ousa, ousa pensar que entende nosso sofrimento? Não, pelos nomes de nossas mães e pelos nossos, não devemos chamá-lo de irmã. […] Eu o acuso de oportunista, infiltrador e destruidor – com a mentalidade de um estuprador. E vocês mulheres desta Conferência sabem quem ele é. Agora. Vocês podem deixar ele entrar em nossas oficinas – ou vocês podem lidar com ele.

Robin Morgan, durante seu discurso.

Mais de dois terços das conferencistas votaram pelo direito de Beth Elliott permanecer no evento. Quando Elliott subiu no palco com seu violão para se apresentar, um grupo de feministas radicais também subiu com o intuito de expulsá-la. Robin Tyler e Patty Harrison, que também eram feministas radicais, subiram no palco para defender Elliott.

Robin Morgan subiu no palco com esse discurso horrível e, quando Beth subiu para tocar seu violão e cantar, elas começaram a ameaçá-la. Patty e eu subimos no palco e fomos agredidas, porque elas subiram no palco para fisicamente agredi-la. […] Nós subimos e defendemos Beth

Robin Tyler, em uma entrevista.

Para evitar maiores confrontos, Beth Elliott retirou-se do evento.

Com o tempo, feministas cisgêneras, radicais ou não, passaram a diferenciar-se da vertente das feministas trans-excludentes, denominando-a como trans-exclusionary radical feminism (feminismo radical trans-excludente), abreviadamente TERF.