A participação das mulheres nas religiões de matriz africana

Por Cássia Millene, de terreiro desde sempre.

 

As religiões de matriz africana vieram para o Brasil juntamente com as negras e os negros sequestradas/os da África no período de escravidão. Os primeiros povos foram os bantos, seguidos dos povos da África Ocidental (principalmente do Golfo do Benin). O tráfico de escravos durou 350 anos e mais de 4 milhões de negras e negros foram trazidas/os para o Brasil. “Essas/es negras/os trouxeram consigo o trabalho com o ferro-foram mestres da mineralogia, mestres da agricultura tropical e foram os mestres da criação de gado extensiva”-Alberto da Costa e Silva (Diplomata e Historiador/RJ).

Trouxeram também sua religiosidade, que lhes servia de forma de comunicação, por conta da oralidade, e resistência: o Candomblé e o Vodum. No Candomblé temos uma forte ligação familiar (os Orixás cultuados são ancestrais divinizados) e no Vodum, a coletividade, nunca o individualismo (os Voduns são protetores das comunidades, que podem ser aldeias, famílias ou reinos). (A Rota dos Orixás)

A presença das mulheres na religião é marcante. Elas participam de tudo: Desde Orishás que são mulheres com características ”masculinizadas” pela sociedade patriarcal e machista que temos- como por exemplo: Guerreira (Yansã); Forças das águas doces (Oxum) e todas as demais orishás possuem características também (mesmo que não sendo a principal)- até na função de zeladoras (Yás/Yalorixás/Yabás) dos Ylês (terreiros/barracões). São elas as responsáveis pelo desenvolvimento espiritual e pela transmissão do conhecimento como as histórias da origem até as doutrinas entoadas nas giras.

O primeiro terreiro de Vodum no Maranhão é a Casa das Minas datada de 1849 e fundada por uma negra escravizada do Daomé, mãe do rei de Gezo provavelmente. Quando Adandozé foi feito rei, ele procurou se desfazer do outro lado da família. Ele mandou vender a rainha, Nã Agomtimé (mãe de Gezo, um príncipe), e toda sua comitiva como escravos.

Nos terreiros as mulheres são a grande maioria e têm lugar de destaque, não podendo apenas ser ogãs (tocar os tambores/atabaques) que é apenas para homens (vivência local). Participam ativamente da vida e funcionalidade do Ylê em todos os aspectos. São respeitadas e consultadas sempre por todas as pessoas que frequentam o Ylê sobre os mais diversos aspectos de suas vidas.

As religiões de matrizes africanas são das poucas (se não as únicas) que ainda conservam como modelo funcional o hierárquico matriarcal, onde a centralidade da mulher no que tange o poder decisório de tudo, ao lado dos homens que colaboram e participam, é respeitado em sua totalidade. Os chamados “Orixás de cabeça” (nossa proteção que em nada tem a ver com a do cristianismo/catolicismo) são três e na maioria das vezes são 2 mulheres e 1 homem para que haja equilíbrio(vivência local). Muitas das nossas características são herdadas de nossas/os guias.

Atualmente, existem vários Ylês zelados por homens, porém as mulheres ainda são maioria nas giras e ficando aos homens a função de ogãs.

O diário de Lisa – Relatos diário da Diabulimia.

“Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”. ‒ Naomi Wolf
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Academias lotadas, barriga de “tanquinho”, barriga negativa, dietas, corpos magros sem gorduras, busca pelo “corpo perfeito”. A exigência do padrão de beleza para corpos cada vez mais magros tem deixado um rastro agro de violência emocional, psicológica e morte, as mulheres são as maiores vítimas, e as estratégias destrutivas para atingir corpos magros tem saltado nos aos olhos cotidianamente. Um dos casos que nos sobreveio foi o de Lisa, nos deixa para sentirmos, seus escritos, regados de uma busca desenfreada e doentia pelo ideal de beleza imposto que a ceifou em 12 de Setembro de 2015.
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Lisa, foi diagnosticada com Diabetes tipo 1 na adolescência, aos 14 anos. O médico recomendou a Lisa que escrevesse um diário sobre seus hábitos alimentares e usasse – o de controle para aplicação de insulina, fazendo a manutenção correta de seus índices Glicêmicos. Ela começou a escrever o diário em 2001.
 
Este diário veio a tona apenas após a morte precoce de Lisa aos 18 anos. No diário havia um relato triste de como a jovem lidava com seus transtornos alimentares e distorção da sua aparência diante do espelho, procurando de forma incansável atingir um padrão de beleza, uma magreza que tinha como objetivo caber em um vestido vermelho, que talvez tenha sido usado por ela, há anos atrás, quando seu corpo nem mesmo era um corpo adulto.
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Lisa saiu de um corpo saudável, para uma magreza cada vez mais doentia, atingida com vômitos provocados, privações alimentares, e uso inadequado de insulina, deixava de aplicar ou reduzia as doses de insulina com o objetivo de perder peso.
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Ela também praticava atividade física em excesso e tem esta situação relatada no diário.
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Lisa sofria de DIABULIMIA que é a situação em que o paciente diminui as doses de insulina ou deixa de tomar o hormônio para provocar emagrecimento.
O pâncreas dos diabéticos tipo 1 produz pouca ou nenhuma insulina, que é necessária para metabolizar o alimento ingerido e convertê-lo em energia. Nessas pessoas, se o corpo não receber insulina, ele não tem como produzir energia derivada dos alimentos, provocando portanto, uma brusca perda de peso.

Desse modo, as vítimas da diabulimia, após se renderem aos episódios de compulsão seguidas por vômito induzido típicos da bulimia, o diabético diminui as aplicações de insulina ou ainda, deixa de receber suas doses diárias, na tentativa de emagrecer.

O ciclo de diabulimia.
 
1 – Sentimentos negativos sobre a imagem corporal, forma e peso;
2 – Depressão, ansiedade e vergonha;
3 – Hiperglicemia crônica (açúcar no sangue elevado durante muito tempo)
4 – Comprometimento nos cuidados com o diabetes, com restrição ou diminuição de insulina.
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Lisa desenvolveu um grave problema gástrico que fazia com que seu estômago rejeitasse a comida. Lisa morreu devido aos problemas desenvolvidos com os transtornos alimentares.
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O mundo que exige cada vez mais das mulheres esforços desumanos para atingir um padrão de beleza irreal para muitos biótipos, tem produzidos mulheres alienadas, distanciadas do mundo real, aprisionadas em tentativas doentias de alcançar o objetivo que foge mil passos o horizonte da realidade.
Força mulheres, reneguem as imposições que violentam sua humanidade. Não existe ideal de beleza que não seja fabricado para paralisar as mulheres, o ideal de beleza é uma mentira que mata e enlouquece mulheres que não conseguem já, observar a beleza que tem.

Taísa: xingada, espancada e esfaqueada por ser trans

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Por Jéssica Milaré

É perturbador. Muitas pessoas viram o vídeo da mulher trans sendo espancada em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, por três rapazes, um deles com um pedaço de pau, em meio a xingamentos e ameaças de morte. A filmagem mostra a irmã, empregada doméstica, tentando socorrê-la, gritando “Para!”, “Chega!”, que também acabou sendo empurrada e agredida. As notícias de hoje contam mais detalhes dessa história: Taísa foi esfaqueada e espancada depois que respondeu aos xingamentos de um dos rapazes.

Taísa Silva e a irmã, Luciana Silva, entraram numa van de transporte alternativo para voltar pra casa. Nela, estavam também os três agressores, que proferiram xingamentos LGBTfóbicos a Taísa. “A gente entrou na van e esses três rapazes já estavam lá”, relatou Luciana em entrevista [2]. “Quando a gente sentou, esse menino (Rodrigo) já jogou piada para minha irmã. Ele a chamou de ‘veado’ e começou as gracinhas. A minha irmã se alterou e começou o bate-boca. Começou tudo com dois. Depois, o terceiro, que estava dormindo, acordou e se envolveu na briga.”

A agressão começou ainda dentro da van. “Com a van em movimento eles começaram a agredir (Taísa Silva)”, continuou o relato. “Foi quando para se defender ela foi pra cima deles. Nisso, eles saltaram da van e ele (Rodrigo) com uma faca tentou acertar minha irmã, que rebateu com o braço. Ela se jogou no chão, pegou a faca que tinha caído e deu um golpe nele também. Ele (Rodrigo) se alterou e os outros dois saíram da van.”

Após receber um chute de Jorge, caiu, bateu a cabeça no asfalto e ficou inconsciente. O vídeo mostra a barbárie: Taísa é repetidamente agredida enquanto está caída no chão, apenas tentando se proteger dos golpes. Um deles pega um pedaço de pau para agredi-la. Luciana, ao tentar protegê-la, é empurrada e também acaba caindo. É possível ver um deles gritando: “Não me segura!” Em um momento do vídeo, os agressores pareciam ter interrompido o crime. Porém, quando Taísa começa a se levantar, a agressão recomeça.

Segundo Luciana, as agressões pararam apenas quando algumas pessoas num ponto de ônibus que estavam próximas interviram.

Na manhã de hoje, os três rapazes foram presos e vão responder pelo crime de tentativa de homicídio.

A barbárie social

Taísa apanhou por se defender, por se não aceitar a humilhação, por erguer a cabeça. Na mente dos transfóbicos, Taísa tinha que aceitar todas as humilhações e agressões que recebeu sem responder. Permanecendo em seu suposto lugar, de cabeça baixa. O caso de Taísa não é, de forma alguma, um evento isolado. As agressões sofridas pelas travestis e mulheres trans, em especial as que sobrevivem da prostituição, são cotidianas.

Mas a violência não acontece apenas na rua. Ela acontece também dentro de casa. Ainda está na memória o caso de Leelah Alcorn, mulher trans estadunidense que foi deixada de castigo dentro do quarto por meses depois que se assumiu como mulher trans, sem nem mesmo ter acesso às redes sociais. Os pais forçaram-na a fazer terapias para “curá-la”. Depois de toda essa violência, Leelah fez um relato no seu Facebook e cometeu suicídio [4]. Várias pesquisas mostram que cerca de 40% das pessoas trans já tentaram cometer suicídio.

A violência também acontece frequentemente na escola. As pessoas oprimidas sempre são as principais vítimas do tal do bullying. Ainda está na memória o caso de uma escola em Ribeirão Cascalheira, no Mato Grosso, em que pais e mães fundamentalistas fizeram um abaixo-assinado para que uma aluna trans fosse proibida de usar o banheiro feminino. Essa aluna já usava o banheiro feminino há quatro anos, a convite das próprias amigas, pois, no banheiro masculino, quase sempre alguém passava a mão nela. Mas alguns pais e mães fundamentalistas, com o incentivo do pastor Deocarlos Villas Boas, fizeram um protesto na escola, xingaram a menina e outras pessoas que a defendiam. Queriam que a escola construísse um terceiro banheiro pra ela! Sim, defendiam um novo apartheid para pessoas trans, assim, na cara dura!

É por isso que muitas mulheres trans e travestis estão fora de casa, da escola e vão parar na prostituição, a única alternativa de sobrevivência para muitas. E a violência não para aí, ela acontece também por parte da polícia. Ainda está na memória o caso de Laura Vermont, que, após ter sido espancada por cinco caras em um bar, depois de pedir socorro da polícia, em vez de receber ajuda, foi baleada [6]. Também não esqueceremos de Verônica Bolina, que não teve seu direito à cela exclusiva respeitado, acabou entrando em confusão com outros presos e com o carcereiro, foi espancada pela polícia, teve suas roupas rasgadas, sua cabeça raspada, seus seios expostos e a mídia, além de tratá-la no masculino, tratou-a como bandida, criminosa, não como vítima de tortura policial [7]!

Nós não nos esqueceremos. É preciso criminalizar a LGBTfobia. Deixar uma criança trans de castigo ou forçá-la a frequentar um terapeuta para “curá-la” tem que ser crime. Proibir uma pessoa trans de usar o banheiro conforme sua identidade de gênero, expulsar uma criança por ser trans da família ou da escola, negar emprego ou demitir alguém por ser trans, assédio moral contra uma funcionária ou funcionário trans, obrigar uma mulher trans a raspar seu cabelo ou retirar sua peruca, rasgar suas roupas, expor seu corpo, ridicularização, tudo isso tem que ser crime! Não abaixaremos a cabeça para os transfóbicos!

Referências

[1] https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/travestis-sao-espancadas-no-rj-e-caso-gera-revolta-na-internet/
[2] http://extra.globo.com/casos-de-policia/irma-de-transexual-agredida-no-rio-relata-ataque-era-para-ela-estar-morta-20108785.html
[3] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/09/video-mostra-travesti-e-irma-sendo-espancadas.html
[4] http://www.dailymail.co.uk/news/article-2891267/Transgender-teenager-leaves-heartbreaking-suicide-note-blaming-Christian-parents-walking-tractor-trailer-highway.html
[5] http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2015/10/abaixo-assinado-tenta-impedir-aluna-transexual-de-usar-banheiro-feminino.html
[6] http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/farsa-da-pm-no-assassinato-da-transexual-laura-vermont-e-desvendada.html
[7] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/04/travesti-fica-desfigurada-apos-prisao-defensoria-diz-haver-indicio-de-tortura.html

Representatividade e empoderamento

No curso de publicidade existe uma matéria chamada “Psicologia do Consumidor”, ela tem por objetivo estudar os desejos dos potenciais compradores, basicamente oferecer aos grupos o que eles querem. Sabemos que a “propaganda é a alma do negócio”, exatamente por isso os publicitários estudam os grupos sociais, o objetivo é entender o que as pessoas buscam em um produto. Além da qualidade e preço, existem outras motivações que determinam se o produto vendido será o A ou o B.

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A publicidade é umas das principais armas da livre concorrência do mercado capitalista, além de mercantilizar e coisificar as relações humanas, transforma até os sentimentos mais sublimes, como amor e amizade, em meras mercadorias, o foco é apenas um: O lucro.

Nos últimos anos as pautas sociais têm ganhado muito espaço, principalmente entre os mais jovens, por conta do avanço das redes sociais. Temas como machismo, racismo e LGBTfóbia são muito discutidos e estão na maioria dos debates, majoritariamente entre jovens e na internet.

As “propagandas do bem” não são inocentes, as grandes marcas sabem que devem acompanhar as mudanças do público se quiserem ter destaque para o comprador, existe um novo conceito de venda: a inclusão. Seguindo a onda do “politicamente correto” um determinado público dentro dos consumidores vem crescendo, é o grupo que busca produtos que pensem na natureza, incluam minorias em suas propagandas, doe para movimentos sociais, ONGs, etc.

A publicidade mais ligada, já assimilou bem a campanha “Não me vejo, Não compro”, é bem verdade que os marqueteiros em sua grande maioria invisibilizam os negros nas propagandas, nos outdoors.

O movimento pensa em “representatividade”, mas (infelizmente), o capitalismo pensa apenas em não perder seu lucro. Se apropriando das pautas em voga para mercantilizá-las. Sem necessidade de manipulação, o “Deus Mercado” oferece apenas o que pedimos. Se por um lado temos a Avon “empoderando” mulheres e enchendo suas propagandas de mulheres fora do padrão (Negras, Gordas, etc), por outro lado temos uma empresa que explora mulheres e lucra com o trabalho de revendedoras que não possuem nenhum direito trabalhista garantido.

O empoderamento é para todas ou somente para as que possuem poder de compra?

A ativista do movimento negro Keeanga-Yamahta Taylor em um artigo da revista “In these times” nos alerta:

“Baltimore é um exemplo revelador. A prefeita Blake Rawlings pode ser afro-americana, mas, sob sua liderança, grandes áreas da Baltimore negra permaneceram pobres, desempregadas e eternamente perseguidas e abusadas pela polícia.”

Mesmo com negros em altos postos de comando, a vida dos negros pobres e oprimidos não teve nenhum avanço. O presidente negro, Barack Obama, não impediu os ataques racistas em Baltimore. Ainda sobre Obama temos o comentário de Angela Davis (feminista e comunista norte-americana).

“Eu preferiria um candidato branco, que criticasse o capitalismo, o inter-racismo e as prisões, do que um candidato negro que é do status quo”.

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Do mesmo modo, as poucas mulheres que estão em cargos de poder no Brasil, não tem olhado de maneira categórica para os problemas das mulheres. A ex-presidenta Dilma, por exemplo, barrou o projeto que descriminalizava o aborto. O governo de uma mulher não impediu que o Brasil tivesse o aborto como a quinta maior causa de morte materna no país.

Quando clamamos por representatividade, podemos cair no erro de louvar aqueles que não tem compromisso com uma mudança estrutural da sociedade. Não podemos esquecer de considerar a CLASSE. Não basta ser mulher, negro e/ou LGBT, tem que lutar pela emancipação e ser contra todas as formas de opressão e exploração.

Nós não queremos “ocupar espaços de poder” queremos destruir os espaços excludentes.

              “As ferramentas do mestre nunca vão desmantelar a casa-grande” – Audre Lorde.

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A FORÇA FEMININA NAS OCUPAÇÕES DAS ESCOLAS

Em meio ao caos de 64, lá estava ela, fazendo seu bolo preferido e enquanto estava no forno, ela fazia seus outros afazeres de casa: lavar a roupa, arrumar as camas, coisas de mulher, sabe? Já ele estava cuidando de coisas realmente importantes, afinal, foi uma época muito difícil para o Brasil. Uma reunião atrás da outra, escondido dos militares, é claro. “Como acabar com a ditadura militar no Brasil? ”
Já nos presídios, os presos políticos recebiam visitas de suas esposas onde na barra das suas saias traziam cartas, fazendo a intermediação dos políticos de dentro e fora dos presídios, as mulheres, por sua vez, taxadas de burras e sem pensamento crítico, passavam por revistas imunes, já que os próprios militares desafiavam a inteligência das mesmas.
Estas mulheres tiveram um significado muito grande, mas não é certo deixa-las de escanteio. Precisamos introduzir mais mulheres no processo revolucionário. Se não fosse o machismo da época, teríamos mais mulheres em reuniões e fazendo a base, talvez a história teria sido diferente. Trazer nossos aliados para lutar conosco com o propósito de destruir o capitalismo é extremamente importante.
Não é só destruir o capitalismo e pronto. É avaliar todo esse processo com um olhar marxista, visto por mulheres cis e transexuais, LGBT’S, negros e negras, da nossa classe.
Os anos se passaram e quando menos esperávamos veio a surpresa: O Brasil inteiro se movimentou por seus direitos em 2013. E foi aí que eu e muitos outros brasileiros começaram a entender o quanto éramos explorados e tínhamos nossos direitos violados pelo estado burguês. Desde então, a internet foi a responsável por me fazer entender o movimento feminista, outro que até então eu não tinha conhecimento. De fato, o movimento que aconteceu em 2013 foi um dos grandes responsáveis por trazer muitos militantes/simpatizantes para a esquerda. Eu, inclusive, fui uma dessas pessoas.
Quando comecei a militar no final de 2014, pegando o começo de 2015 lembro-me bem que as manifestações e reuniões em que eu frequentava eram de uma maioria masculina e de universidades. É um tanto como complicado, você frequentar lugares e perceber que é a minoria, mas por quê? Por que eu fazia parte dessa minoria que frequentava esses espaços? Sendo que eu como mulher, filha de trabalhadores, vivendo em um mundo capitalista, sofro uma dupla opressão e como dizia Lênin “A operária e a camponesa são oprimidas pelo Capital, e mesmo nas repúblicas burguesas mais democráticas, elas não dispõem de direitos iguais aos dos homens, já que a lei não lhes concede essa igualdade”.

 
Outubro de 2015: O governo do Estado de São Paulo decreta que acontecerá uma Reorganização escolar.

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O primeiro grande ato foi visivelmente claro de que o cenário tinha mudado desde 64, a maioria entre nós eram meninas e secundaristas. Sim, meninas e secundaristas, isso porque os atos tinham pelo menos 5 mil pessoas. Lembro-me bem da emoção que foi chegar ao Palácio dos Bandeirantes do lado de meninas que puxavam frases de efeitos, faziam paródias para denunciar o descaso da educação pública, aquilo foi simplesmente encantador, fez-me sentir de que eu estava no lugar certo e ao mesmo tempo perguntar-me: como conseguimos introduzir tantas secundaristas na luta?
Dias depois o governo soltou uma lista com pelo menos 93 escolas que seriam fechadas e uma reorganização em pelo menos 300 escolas do Estado. Mal sabiam ele de que estavam cutucando uma onça com vara curta. Noutro dia, já era possível ler sobre a primeira escola ocupada “E.E Diadema” e foi só o primeiro passo, já que na outra semana tínhamos mais de 100 ocupações escolares e todas com uma característica muito forte: uma linha de frente de meninas. O debate sobre nossa conjuntura, sobre sociedades, cultura, o machismo nos meninos, eram constantes e as intervenções feministas nas escolas era algo simplesmente normal. E mais, o que se escutava de todos, tanto meninos, como meninas, era de que aquilo era o modelo de escola que eles queriam e querem, algo que eles sentissem o prazer de acordar todos os dias e saber de que iriam para a escola, aprender coisas que fariam com que eles cada vez mais fossem seres críticos.
Medidas como comissões de cozinha, limpeza e segurança sendo 50% masculina e 50% feminina, ou reuniões das meninas 1 vez por semana, entre outras, fizeram com que as ocupações escolares fossem as grandes responsáveis por esse papel tão importante na história do Brasil: introduzir as mulheres na luta.

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Conquistas no Estado soviético

As mulheres soviéticas conquistaram, antes dos países capitalistas mais avançados, o direito ao divórcio, ao aborto, a eliminação do poderio matrimonial etc. Na Rússia pós-revolução, as mulheres e os homens tinham igualdade de direitos perante as leis.
A mulher foi introduzida na economia social, no poder legislativo e nos postos de governo. Tiveram acesso as instituições educacionais e aumentaram sua capacidade profissional, social e intelectual. Foram criadas cozinhas, restaurantes e lavanderias comunitárias, além de creches e escolas para crianças. O esforço era para por em prática o programa comunista de transferir para a sociedade as funções educativas e econômicas da família, que até então recaiam sobre a mulher. Era parte fundamental do programa da revolução libertar a mulher da fadiga e da escravidão doméstica e do estado de submissão ao homem, para que pudessem desenvolver plenamente seus talentos e suas inclinações.

A lição que Lênin tirou desse processo foi que os investimentos na busca da emancipação da mulher fortaleciam a revolução e a construção do poder dos trabalhadores na Rússia. A incorporação de mais mulheres nas lutas revolucionárias e a tomada de suas bandeiras por todos os trabalhadores cumpriam uma dupla função: aproximava as mulheres e contribuía para a educação dos homens, combatendo os privilégios machistas e a divisão da classe” – Cilene Gadelha – Lênin e a questão da Mulher

“Por isso é totalmente justo que apresentemos reivindicações em favor das mulheres (…). Nossas reivindicações se desprendem praticamente da tremenda miséria e das vergonhosas humilhações que a mulher sofre, débil e desamparada, no regime burguês.

Com isto mostramos que conhecemos estas necessidades, que compreendemos igualmente a opressão da mulher. Que compreendemos a situação privilegiada do homem e a odiamos – e queremos eliminar tudo o que oprime e atormenta a operária, a mulher do homem simples e, inclusive, em muitos casos, a mulher da classe acomodada. Os direitos e as medidas sociais que exigimos da sociedade burguesa para a mulher são uma prova de que compreendemos a situação e interesses da mulher e de que, na ditadura do proletariado, as levamos em conta.” – Lênin

Lênin e Nadezhda Krupskaia, sua esposa. Gorki, agosto de 1922.

Lênin e Nadezhda Krupskaia, sua esposa. Gorki, agosto de 1922.
O cenário mudou muito desde 64 para cá, foram lutas e lutas até chegarmos onde chegamos, ainda falta muito, mas estamos no caminho certo. Vamos continuar lutando pelo nosso lugar nessa luta que também é um direito nosso.

A ESQUERDA E A MULHER NEGRA – Uma Auto Crítica Necessária

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Diante do contexto dos movimentos negro e feminista, vemos uma semelhança que permeiam ambos: a homogeneização de indivíduos participantes dos movimentos, logicamente que existe em teoria algumas vertentes feministas e do próprio movimento negro que que pautam questões especificas das mulheres negras, entretanto, na prática, dar voz política a estas mulheres dentro dos movimentos, é cada vez mais difícil.

Acredita-se ainda que mulheres negras que ganham destaque na sua bagagem intelectual são minorias, e que por este motivo, a coletivização da intelectualidade dessas mulheres devem ser delegadas único e exclusivamente por elas. Também pode-se ver em várias práticas de coletivos femininos, trabalhos físicos que são delegados só para mulheres negras e outros com menos intensidade física e mais esforço intelectual para as mulheres brancas. Os espaços mistos ainda tem sido bastante nocivo para as mulheres negras, estas ainda lutam fortemente para estabelecerem sua independência intelectual fora de um contexto de servidão e submissão; é ignorado a esta mulher que ela possui demandas muito maiores em sua maior parte das vezes, do que das demais mulheres.

As mulheres negras em sua massiva maioria são residentes das periferias, estão em situação de desemprego e muitas ainda sonham em sustentar sua carreira acadêmica mesmo com um contexto socioeconômico que lhes desfavorece, e paralelo a isto, ainda manter uma vida política ativa, oferecendo sua propriedade intelectual que é muitas vezes menosprezada ou delegada a falar unicamente de coisas que foquem no seu campo representativo; espaços de militância mistos ignoram que mulheres negras possam falar sobre economia, conjuntura política do século XX, direito, ciências sociais e quaisquer outros assuntos pertinentes a sociedade que não cabelo, racismo, empoderamento estético e apropriação cultural; a mulher negra não tem autonomia política para se expressar livremente caso ela tenha conhecimentos teóricos para além do racismo, mesmo que ela mostre uma clara gama de instrução sobre outras linhas de conhecimento.

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A militância das mulheres negras é paralela e conflitante à militância “genuinamente” (sic) de esquerda, não porque elas fogem das pautas estabelecidas por estes movimentos, mas porque as suas demandas são tão especificas, que são muitas vezes ignoradas e tratadas como histerismo e radicalismo extremo por parte dos indivíduos que não sofrem as suas demandas de opressão, seja estruturalmente, seja cotidianamente.

Enquanto mulheres, e em grande parte das vezes residentes da periferia; as mulheres negras possuem uma tripla militância didática todo santo dia para ser exercida. Ser mulher é ser violentada física ou sexualmente a cada 12 segundos no Brasil, ser negro, é ter 72% de chances de sofrer violência policial (sem precedentes), ser mulher e negra, é sofrer com a estigmatização da nossa cultura, da nossa aparência, é ter de construir todos os dias a nossa autoestima enquanto mulher, pois a nossa representação nos principais meios midiáticos é reduzida à cargos braçais pertinentes ainda ao peso do contexto escravocrata, como se a nós ainda fosse cabível apenas ocuparmos a estes locais; E o impacto gerado por essa estigmatização, atinge as mulheres negras em vários níveis; tangíveis e intangíveis, e dentro deste contexto, estão em diversas relações sociais e de trabalho que temos que enfrentar ao longo de nossas vidas.

Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo, as negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo; Lutam pra reverter o processo de aniquilação que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão.” – Eduardo Taddeo.

Temos no Brasil uma história que permeiam quase 400 anos de escravidão e pouco mais de 100 de pós escravagismo, por isso, ainda trazemos conosco o peso da hierarquização de raça como uma consequência histórica da construção da falsa democracia racial montada pelo estupro de mulheres negras escravizadas e mulheres indígenas; sem ignorar o processo cruel de embranquecimento do mercado através da imigração da mão de obra europeia para ocupar lugares que outrora pertenciam aos escravos, então livres; o embranquecimento da estética feminina, delegando às mulheres brancas, o posto de padronização e modelo de representação da beleza perfeita brasileira, e às mulheres negras o posto de subalternas deste processo, e que para que o preterimento não pesasse a ponto de um celibato e ostracismo social completo, era/é necessário a aproximação dos estereótipos de beleza da mulher branca, através do alisamento capilar, técnicas de maquiagem para afinar traços faciais, negação da auto declaração racial e etc.

A luta das mulheres negras não se resume apenas aos espaços de senso comum, mas a sua labuta diária é também inserida fortemente nos meios de militância, exigindo para nós, um exercício maçante e diário de desconstrução de indivíduos que teoricamente possuem um grau de consciência, ora de gênero, ora de raça e em pouquíssimos casos, inclui-se também, a consciência de classe.

A nós, a que fomos delegadas a inaptidão do abandono de nossas forças para suportarem as mazelas da vida; da falta de oportunidades; da falta de espaços de crescimento intelectual; do genocídio que atinge aos nossos e consequentemente a nós mesmas.

Se o socialismo tiver sempre a face branca, masculina e cisgênera; o socialismo jamais irá acontecer.

A revolução virá principalmente pelas mãos das mulheres pretas, ou não virá.

O feminismo e a cláusula de Barreiras.

O que temos a ver com isso?

2016-04-28

O feminismo é uma luta política que muitas vezes apresenta se desconectado das situações que se apresentam. Aparentemente o movimento só se une em volta de ataques diretos às mulheres sem perceber que existe entre linhas de processos que nos atacam de forma embutida e mascarada. É importante saber que qualquer ataque a democracia, qualquer cerceamento, silenciamento político, é um ataque também a nós todas, afinal deixamos de ter contato com opções e propostas que podem nos beneficiar e jogar do nosso lado e possa de quebra ressaltar e beneficiar conservadores que usarão tudo que estiver a seu favor para nos retirar direitos.

A clausula de barreira é um trâmite político que deve estar sobre nossas vistas.

A partir destas eleições esta em vigor a tal Clausula de barreiras que vem sendo tão falada nos últimos dias. A cláusula é prevista pela Lei dos Partidos Políticos (Lei 9096/95).

2016-04-281

Do que se trata?

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Apenas terão pleno funcionamento parlamentar os partidos que obtiverem o mínimo de 5% dos votos para deputado federal no país e 2% em pelo menos nove estados. Os partidos que não cumprirem tais exigências não poderá eleger líderes na Câmara dos Deputados, formarem bancadas, participar da composição das mesas e indicar membros para comissões. Também perderão direito à maior parte dos recursos do fundo partidário e da propaganda eleitoral gratuita.

A Lei foi proposta com a falsa intenção de combater legendas de aluguel, porém a verdadeira motivação é de perpetuar no poder os mesmo partidos, esta clausula na verdade cria verdadeiros monstros conservadores travestidos de partido, fruto da junção de partidos menores com os maiores, fortalecendo partidos reacionários.

A cláusula de barreiras não cumpre a função de combater partidos de alugueis, o PMDB apesar de ter uma representação expressiva é também um partido de aluguel e não será afetado. E a idéia proposta de que isso combateria os corruptos não passa de história para boi dormir, afinal 35 dos 72 parlamentares envolvidos no escândalo dos sanguessugas e 13 dos 19 mensaleiros estão nos grandes partidos, que cumprem as metas da cláusula.

A eliminação da clausula de barreira é uma vitória democrática dentro dos marcos da democracia burguesia.

Em outros períodos da nossa história política esta famigerada cláusula apareceu também, porém, desde 1988 estamos livres dela, que vigorou em épocas diferentes, cumprindo diferentes requisitos para participação das eleições:

Em 1950, o Código Eleitoral previa que o partido que não conseguisse fazer um representante no Congresso Nacional ou não alcançasse pelo menos 50 mil votos teria seu registro cancelado.

Nos tempos da ditadura, a regra endureceu. A Constituição de 1967, no artigo 149, inciso VII, estabelecia a extinção dos partidos políticos que não atingissem: a) 10% dos eleitores votantes na última eleição geral para a Câmara dos Deputados, distribuídos em 2/3 dos estados, com o mínimo de 7% em cada um deles; b) 10% de deputados em pelo menos 1/3 dos estados; c) 10% dos senadores. A intenção era evitar a existência de partidos políticos contrários ao regime militar.

A cláusula de barreira volta a ser fomentada no governo de FHC, trazendo para nós um retrocesso a um período autoritário,resgatado diretamente do período mais antidemocrático da nossa história: A ditadura militar. Para ilustrar o cenário, em 1982, o PT elegeu oito deputados federais e 1,7% das cadeiras da Camara dos deputados. Se na época houvesse esta lei,não passaria na cláusula e nunca teria chegado onde chegou.

A Clausula de barreiras nada mais é do que uma forma de impedir que fortaleça se os partidos ideológicos como PSTU e PCB e apesar de terem votado a favor da Clausula de barreiras, até o PSOL esta sendo barrado de expor suas idéias em debates televisivos, com o é o caso da BAND, com base nesta lei. É importante ressaltar a grande traição do PSOL a esquerda, um jogo sujo para tirar do pário os partidos com menos representação e obrigá-los ou a exclusão ou aliar se a ele. Porém, nem tudo deu certo ao PSOL, não alcançaram a meta de uma grande adesão dos partidos em coligações que o fortalecesse e ainda perdeu espaço com base na lei que os parlamentares deste partido, juntinhos com Eduardo Cunha, ajudaram aprovar.

A contrário do PSOL que pensou em aproveitar se desta lei para beneficiar – se eleitoralmente, nós acreditamos que todos os partidos devem ter espaço garantido em todas as instancias democráticas a fim de que o povo decida-se qual a melhor opção para administração do país. Questionem-se sempre, por que estão silenciando partidos, obviamente não querem que as pessoas conheçam suas propostas e denúncias. Quem não deve não teme. Abaixo já a cláusula de Barreiras, queremos todos os candidatos nos debates e com igualdade de ação quando eleitos.

A importância para nós feministas do conhecimento de todo este processo é principalmente saber que os partidos que mais nos apóiam em nossas lutas, são os que estão sendo retirados dos espaços de divulgação de seus programas.