Sobre gleidedavis

24 anos, Feminista Negra Marxista, Formada em Recursos Humanos, estudante de Serviço Social, poetisa em: gleidefraga.wix.com/eurevolucao

Representatividade e o governo Obama

O governo de Barack  Obama chegaram ao fim neste 20 de janeiro de 2017.

Entretanto, ao fazermos um balanço no que diz respeito ao debate de opressões nos EUA, o governo Obama deixou uma herança póstuma de um número gigantesco de assassinados no país, numero que supera o governo Bush. O programa de drones americanos matou milhares de inocentes, crianças não foram poupadas, a população síria também não escapou dos desmandos do ex-presidente.

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Os estados unidos é a maior potencia capitalista da atualidade, com enormes massacres à países mais pobres e com uma gigantesca violência policial, o governo Obama representou exatamente o que concerne os limites do imperialismo norte-americano, não deixando duvidas de que para se estar a frente de um país referencia da economia mundial, os interesses a serem colocados, serão sempre os da burguesia.

Mesmo com tantas contradições, a era Obama deixa uma movimentação de tristeza por parte de alguns movimentos sociais que aclamam a pauta da representatividade política. A autoestima da população negra dos Estados Unidos foi colocada em cheque, como se cada morte realizada pela polícia, cada assassinato e deportação de estrangeiros não tivessem o mesmo peso político.

É importante avaliar os nossos reais interesses políticos, pensarmos no que queremos para a nossa sociedade a curto, médio e longo prazo. A quanto custa as nossas vidas, a manutenção dos interesses do capital para a população mais pobre, negra, feminina e LGBT. A guerra contra as drogas que tem matado milhares de jovens negros todos os anos na periferia que rema junto a permanência da policia militar; a não legalização do aborto que tem matado milhares de mulheres; a não criminalização da homofobia; o pouco ou nenhum espaço para a população T no mercado de trabalho. Todas as nossas reivindicações politicas tem andado em círculos nas ultimas décadas, e internacionalmente falando, a situação tem ficado cada dia pior, com um cerco de conservadorismo e uma crescente de discursos fascistas.

O governo Trump nem de longe é um afago para as minorias estadunidenses, ao contrário, veio para aumentar o discurso nacionalista, branco, heterossexual e cristão, diminuir as chances da população estrangeira, restringir a liberdade civil da população negra, aumentando o ascenso do conservadorismo e discurso de ódio contra as minorias.

É tempo de avaliarmos a representação política, escolher um candidato que jogue ao lado e atenda aos interesses da classe trabalhadora.

A nossa representatividade deve ir além dos limites de gênero e raça, a nossa representatividade deve ser de um governo que preze pelo bem coletivo, que governe para os mais pobres, para as pessoas negras, para mulheres e LGBT.

“Eu preferiria um candidato branco, que criticasse o capitalismo, o inter-racismo e as prisões do que um candidato negro que é do status quo” Angela Davis.

Aquilombar é ocupar

Durante o mês de novembro haverá a Marcha da Periferia em todo o Brasil. Esta marcha representa para nós, no mês da consolidação da consciência racial, as únicas heranças que nossos ancestrais nos deixaram e que nenhum colonizador conseguiu nos roubar: a nossa resistência através da nossa cultura, através da nossa coletividade.

“A culpa não é só de quem atira, mas de quem manda atirar”
A PM não mata sozinha, ela nasceu no Brasil colônia idealizada pela elite portuguesa para capturar e torturar negros escravizados que fugiam das senzalas. E nada mudou, ainda somos tratados como propriedades do estado, a nossa liberdade só foi assinada para que nos tornássemos mãos de obra baratas, ainda não podemos andar livremente pelas ruas a hora em que quisermos e aonde quisermos, sem que no mínimo sejamos tratados como animais desenjaulados.

Tudo isso é minuciosamente pensado para que a elite nos aprisione nas periferias, em subempregos, com uma sub-educação que aprisiona o nosso senso crítico e molda nossas vidas em servir à burguesia, seja pela ideologia que enclausura nossas mentes, seja através da força física que a PM se propõe a agir, como ditadores em pleno sistema democrático que não chega à periferia.

A burguesia tem nos matado com suas armas visíveis e invisíveis há séculos. A nossa capacidade de resistir até aqui dependeu apenas de nós. Mas nem sempre é assim, as cicatrizes que o genocídio tem deixado no nosso povo vão além das marcas de bala nos nossos mortos e feridos.

Essas marcas vivem nas nossas almas e tem nos matado aos poucos todos os dias. Mães têm literalmente morrido de tristeza ao não suportar o fato de ter de enterrar seus filhos adolescentes que tiveram seus sonhos interrompidos pela violência genocida e racista da elite, famílias tem vivido sobre as suas dores, entes queridos que mesmo vivos, já não sentem mais a razão de sua existência por saberem que isso não tem prazo pra acabar e que a cada hora, cada vez mais jovens negros serão assassinados para manter a hierarquia de classes no Brasil.

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O revide virá.

Não basta saber, é hora de agir. A juventude periférica já ocupa as escolas e universidades de todo o Brasil, os quilombos resistem bravamente às tentativas de aniquilação. Não abaixaremos as nossas cabeças para os desmandos de uma elite racista e cada vez menos preocupada em fingir que se importa.

É hora de relembrarmos a luta de Dandara, que preferiu morrer à voltar aos chicotes da casa grande. De Zumbi, que resistiu até o fim de sua vida em nome da libertação de seu povo. Dos panteras negras, que se organizaram em nome da raça e da classe de sua gente para acabar com o encarceramento em massa e o genocídio do povo preto nos Estados Unidos. Por Amarildo, Cláudia, pelos 12 do Cabula (Salvador), pelo menino Eduardo, pelos cinco da Leste (São Paulo).

É tempo de ocupar para reparar tudo o que nos foi roubado. Nossas casas, nossos nomes, nossa fé, nossos irmãos, nossos sonhos. Invadiremos tudo o que é nosso por direito, queremos ainda mais do que reparação histórica. As cotas são só o começo

A ESQUERDA E A MULHER NEGRA – Uma Auto Crítica Necessária

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Diante do contexto dos movimentos negro e feminista, vemos uma semelhança que permeiam ambos: a homogeneização de indivíduos participantes dos movimentos, logicamente que existe em teoria algumas vertentes feministas e do próprio movimento negro que que pautam questões especificas das mulheres negras, entretanto, na prática, dar voz política a estas mulheres dentro dos movimentos, é cada vez mais difícil.

Acredita-se ainda que mulheres negras que ganham destaque na sua bagagem intelectual são minorias, e que por este motivo, a coletivização da intelectualidade dessas mulheres devem ser delegadas único e exclusivamente por elas. Também pode-se ver em várias práticas de coletivos femininos, trabalhos físicos que são delegados só para mulheres negras e outros com menos intensidade física e mais esforço intelectual para as mulheres brancas. Os espaços mistos ainda tem sido bastante nocivo para as mulheres negras, estas ainda lutam fortemente para estabelecerem sua independência intelectual fora de um contexto de servidão e submissão; é ignorado a esta mulher que ela possui demandas muito maiores em sua maior parte das vezes, do que das demais mulheres.

As mulheres negras em sua massiva maioria são residentes das periferias, estão em situação de desemprego e muitas ainda sonham em sustentar sua carreira acadêmica mesmo com um contexto socioeconômico que lhes desfavorece, e paralelo a isto, ainda manter uma vida política ativa, oferecendo sua propriedade intelectual que é muitas vezes menosprezada ou delegada a falar unicamente de coisas que foquem no seu campo representativo; espaços de militância mistos ignoram que mulheres negras possam falar sobre economia, conjuntura política do século XX, direito, ciências sociais e quaisquer outros assuntos pertinentes a sociedade que não cabelo, racismo, empoderamento estético e apropriação cultural; a mulher negra não tem autonomia política para se expressar livremente caso ela tenha conhecimentos teóricos para além do racismo, mesmo que ela mostre uma clara gama de instrução sobre outras linhas de conhecimento.

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A militância das mulheres negras é paralela e conflitante à militância “genuinamente” (sic) de esquerda, não porque elas fogem das pautas estabelecidas por estes movimentos, mas porque as suas demandas são tão especificas, que são muitas vezes ignoradas e tratadas como histerismo e radicalismo extremo por parte dos indivíduos que não sofrem as suas demandas de opressão, seja estruturalmente, seja cotidianamente.

Enquanto mulheres, e em grande parte das vezes residentes da periferia; as mulheres negras possuem uma tripla militância didática todo santo dia para ser exercida. Ser mulher é ser violentada física ou sexualmente a cada 12 segundos no Brasil, ser negro, é ter 72% de chances de sofrer violência policial (sem precedentes), ser mulher e negra, é sofrer com a estigmatização da nossa cultura, da nossa aparência, é ter de construir todos os dias a nossa autoestima enquanto mulher, pois a nossa representação nos principais meios midiáticos é reduzida à cargos braçais pertinentes ainda ao peso do contexto escravocrata, como se a nós ainda fosse cabível apenas ocuparmos a estes locais; E o impacto gerado por essa estigmatização, atinge as mulheres negras em vários níveis; tangíveis e intangíveis, e dentro deste contexto, estão em diversas relações sociais e de trabalho que temos que enfrentar ao longo de nossas vidas.

Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo, as negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo; Lutam pra reverter o processo de aniquilação que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão.” – Eduardo Taddeo.

Temos no Brasil uma história que permeiam quase 400 anos de escravidão e pouco mais de 100 de pós escravagismo, por isso, ainda trazemos conosco o peso da hierarquização de raça como uma consequência histórica da construção da falsa democracia racial montada pelo estupro de mulheres negras escravizadas e mulheres indígenas; sem ignorar o processo cruel de embranquecimento do mercado através da imigração da mão de obra europeia para ocupar lugares que outrora pertenciam aos escravos, então livres; o embranquecimento da estética feminina, delegando às mulheres brancas, o posto de padronização e modelo de representação da beleza perfeita brasileira, e às mulheres negras o posto de subalternas deste processo, e que para que o preterimento não pesasse a ponto de um celibato e ostracismo social completo, era/é necessário a aproximação dos estereótipos de beleza da mulher branca, através do alisamento capilar, técnicas de maquiagem para afinar traços faciais, negação da auto declaração racial e etc.

A luta das mulheres negras não se resume apenas aos espaços de senso comum, mas a sua labuta diária é também inserida fortemente nos meios de militância, exigindo para nós, um exercício maçante e diário de desconstrução de indivíduos que teoricamente possuem um grau de consciência, ora de gênero, ora de raça e em pouquíssimos casos, inclui-se também, a consciência de classe.

A nós, a que fomos delegadas a inaptidão do abandono de nossas forças para suportarem as mazelas da vida; da falta de oportunidades; da falta de espaços de crescimento intelectual; do genocídio que atinge aos nossos e consequentemente a nós mesmas.

Se o socialismo tiver sempre a face branca, masculina e cisgênera; o socialismo jamais irá acontecer.

A revolução virá principalmente pelas mãos das mulheres pretas, ou não virá.

A ESPERANÇA COMO UM ATO POLITICO

Por: Gleide Fraga e Thomas Angelo

Vivemos épocas de grandes controvérsias sociais. Entre a militância que acredita na construção familiar católica, caucasiana, heterossexual e classe média, há desordem na ordem natural das coisas; pois para estes, o mundo anda cada vez menos aceitável e moral aos seus ideais de valores. Já para aqueles de militância realmente igualitária, encontramos cada vez menos espaço de acordo social que beneficie a todos, cada vez mais representantes perdem suas vidas em função das opressões sociais e cada vez menos encontramos razões para continuar lutando.

Por um lado, entendemos que existe o reforço capitalista para as opressões de raça, gênero, sexualidade e classe; sabemos que elas existem, sabemos que o pensamento que as favorecem são maioria e que ainda somos o diferencial em menor numero, entendemos cada vez mais a face do machismo; porque cada vez mais vemos noticias de homens que matam, estupram, agridem suas companheiras ou qualquer mulher que lhes convir, e cria motivos (como se motivos realmente pudessem existir) pifeis para justificar suas agressões morais, físicas, psicológicas.

Por outro lado, quero dizer-lhes que, existem ainda motivos para acreditar nas mudanças realmente efetivas na sociedade; essas mudanças virão gradativamente, através da conscientização das vanguardas mais jovens; das garotas periféricas e negras que com 15 anos de idade já sabem afrontar injurias raciais com muita convicção; nos jovens de 16 anos que assumem a sua sexualidade em espaços públicos. As novas gerações que virão em forma de revolução em sua existência, que visualizam o mundo de uma maneira mais libertária, pois contemplam a esperança na sua visão de mundo.

Não quero convidar-lhes a visualizar o mundo de uma maneira utópica, como quem visualiza a sua frente um paraíso perfeito e inapto a erros e opressões, mas mentalizar a nossa realização social com um caráter de fé, nos aprofundarmos mais no amor que não exige, não se apropria, mas liberta e encoraja; um amor que aliado a esperança nos dará cada vez mais força para redigir novas linhas de uma realidade social que se parece mais com uma arvore de bons frutos e menos com uma sociedade que permanecerá racista, elitista, machista e lgbtfóbica.

Realmente é bonito ser a exceção da regra, pra quem não é, quem é sabe o peso de se carregar esse fardo nas costas, o fardo de ser exemplo, o peso de ter de sempre provar a si mesmo que você não é um erro, que não foi um erro ter sobrevivido.  Seja lá o que for fazer, não seja “Bom” naquilo, seja o melhor!

A todo aquele que vem dos extremos da simplicidade de uma capital que segrega, saiba que acreditamos em você de todo coração… Poderemos e devemos ser tudo o que quisermos. Colecionem vitórias e lágrimas de felicidade junto aos seus, tenham em si a esperança que disseram que vocês não poderiam ter por vir daqui, ensinem a eles que humildade nada tem a ver com se humilhar.

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Construímos até aqui, uma militância de caráter realista, mas que se confunde cada vez mais com o pessimismo e a pouca percepção de que dias melhores realmente podem vir; de que conhecendo o inferno de perto, temos propriedade o suficiente para tecer novos caminhos de liberdade igualitária. A sociedade que idealizamos está por vir, ela irá demorar de acontecer, talvez a nossa geração não as veja em vida, mas somos nós, a semente da liberdade que está para nascer.

Cruzem os tecidos sociais, ergam a cabeça, e andem rumo a um novo amanhecer, onde veremos nossas mães felizes em nos ver vencer…

Dum spiro spero! [Enquanto há vida, há esperança!] … Se eu fosse um dos corpos celestiais, eu olharia com completo desapego para esta bola miserável de sujeira e poeira … Eu brilharia indiferente entre o bem e o mal … Mas eu sou um homem. (…) Enquanto eu respirar, eu lutarei pelo futuro, este radiante futuro no qual o homem, poderoso e belo, se tornará mestre do fluxo incerto da História e irá direcioná-lo para um horizonte sem fim de beleza, alegria e felicidade!”  – Leon Trotsky

PELO DEVER DE LUTA POR POLÍTICAS DE RAÇA E CLASSE

Por: Gleide Fraga e Arthur Souza.

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Não existe nenhuma lei no código civil que me impeça de ser comunista, isso é fato. Mas expande-se uma ideia moral de que negros estão para o comunismo, assim como estão para o nazismo; lógico que não pelos mesmos motivos (espero que isso esteja lógico na sua cabeça também), mas sim por falta de afinidade ideológica, segundo os críticos do assunto.

É lógico também, – para nós negros e comunistas, que estas afirmações são de embasamento raso (ou até mesmo a falta dele), que não correspondem aos ideais do movimento, pois quando se trata da classe trabalhadora, principalmente em países cuja colonização se deu através da exploração, estamos falando da população negra. Não só porque no Brasil a população negra é maioria, ou por corresponderem a maior parcela dos marginalizados, dos que recebem até 3 salários mínimos, do que estão inclusive, desempregados.

“Conforme análise do Ipea, em 2014, o Brasil possuía 2,4 milhões de mulheres negras desocupadas contra 1,2 milhão de homens brancos desempregados. Além do menor índice de empregos formais, os rendimentos também são diferentes: apesar de as distâncias terem diminuído desde 2004, os homens brancos ainda recebem, em média, rendimentos 60% superiores aos das mulheres negras.” (http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/12/apesar-de-queda-na-desigualdade-desemprego-e-maior-e-renda-menor-entre-negros-no-brasil-4940581.html)

 

Mas porque esta é uma questão social, que tem um âmbito de peso histórico e politico muito grande, e consequentemente nos leva a crer que é impossível militar sozinho, de que é impossível o fechamento de grupos sociais cuja única identificação social é a cor de pele. Há de se levar em consideração de que o empoderamento estético tem uma enorme expressão social e um peso relevante no que diz respeito ao auto reconhecimento de valorização humana, a desanimalização e o fim da automutilação social, seja nos pequenos meios cotidianos, seja em grandes camadas, como a mídia por exemplo.

Entretanto, não se pode parar por aí, é necessário se ater às questões de gênero, raça , sexualidade e classe de uma maneira mais profunda, e isso entende-se que, para que além do meu empoderamento individual e do meu grupo, eu preciso contribuir para que a massa trabalhadora, negra, feminina, LGBT possa se empoderar como grupo, possa encontrar vieses de libertação social que determinem o fim das opressões sistemáticas, da padronização estética, intelectual, cultural, literária, familiar e etc; e isso só será possível se cada massa trabalhadora se unir enquanto maioria (afinal, somos muitos dos que não detém capital) determinando o protagonismo de suas ações e buscando aliados de luta, sejam eles homens trabalhadores, brancos e heterossexuais trabalhadores. Afinal, homens continuam nascendo todos os dias, assim como heteros e brancos, e eles poderão ou não perpetuar suas opressões com as quais o sistema lhes dá com o falso privilégio, contribuindo para os mecanismos de hierarquia que o capitalismo fortaleceu.

E o que seriam falsos privilégios? A ideia de que uma pessoa branca tem potencial racista não é inteiramente verdade, assim como não é de um todo mentira, ela pode sim colher frutos da escravidão como privilégio racial, entretanto, ela não pode ser determinadamente racista, tendo em vista de que se trata de uma única pessoa, que não pode sozinha manipular todo o sistema de opressão racista através do mercado de trabalho, relações interpessoais, mídia, indústria e afins; esta pessoa nasce e cresce numa sociedade que já era racista antes mesmo dela nascer, ela não carrega genes racistas, mas recebe uma educação tal qual; por isso ela pode ao longo de sua vida manifestar comportamento racista, assim como uma pessoa negra; a diferença é que uma não sofrerá retaliações deste comportamento, a outra por outro lado, poderá ate mesmo ser morta por isso.

Mas então, por que ser negro e comunista?

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Para entender que os mecanismos de opressão vão além de manifestações e relações individuais, mas fruto de um problema enraizado na sociedade através do capital e da propriedade privada.

“Senhoras, foi acabado de ser dito que nós não devemos lutar, que devemos ser gentis e boas para os nossos inimigos, para aqueles que estão em guerra. Eu não posso concordar com isso. Todas sabemos que a causa da guerra – é o capitalismo. Não podemos dar a esses maus capitalistas o seu jantar e pô-los na cama da mesma forma que fazemos com as nossas crianças. Temos de lutar contra eles.” Ângela Davis

Para entendermos porque defendemos um combate ao capitalismo, precisamos voltar alguns períodos no tempo.

A justificativa para a escravidão sempre foi a crença de que uns são mais fortes e deveriam governar sobre os mais fracos. Foi o que sustentou a maior parte da escravidão na antiguidade, quando um povo vencia o outro em uma guerra.

No Brasil, a escravidão indígena caiu principalmente pela familiaridade dos mesmos com as terras e pela não adaptação ao trabalho pesado. Era extremamente difícil controlar as fugas dos índios, que conheciam as terras como a palma da mão. Na África, havia centenas de tribos diferentes que venciam umas às outras nas batalhas, e os colonizadores viram como uma oportunidade de mão de obra barata, alheia ao espaço de exploração e não familiarizados com os outros escravos, de outras tribos.

Com o passar do tempo, a igreja passou a sustentar a ideia de que havia um povo naturalmente infiel e inferior. O tráfico negreiro foi brutalmente estendido, e a justificativa anteriormente religiosa e moral, com o advento do renascimento científico, foi substituída por uma justificativa também científica. Agora, podem até ter alma, mas são biologicamente inferiores.

Quando foi favorável ao capital, as nações passaram a defender a abolição da escravidão, em prol de um mercado consumidor que atendesse às demandas.

Somos comunistas porque acreditamos que o racismo historicamente foi uma justificativa criada pelo colonialismo e imperialismo para o controle das nações, e somente com a abolição da propriedade privada ele pode ser destruído. O racismo é a base de sustentação do capitalismo, que sob quaisquer tipos de justificativas, morais, religiosas ou científicas, irá defender a exploração de um povo sobre outro.

Somos comunistas porque acreditamos na luta pela libertação da África que muitos companheiros construíram, assim como a luta de outros povos não europeus. Todos esses lutadores nos são exemplo de que o marxismo pode e deve ser utilizado como uma teoria de libertação, adaptada à realidade de cada região.

Somos comunistas porque proletário não tem pátria, e a luta pela sua libertação é a luta pela libertação de todos os povos oprimidos.

Assim os Panteras Negras se recusavam a ir lutar pelos EUA uma luta que não era a deles, e que dizimar outros povos simplesmente por uma questão de nação seria ir contra a independência deles mesmos.

Por fim, somos comunistas porque defendemos que nossa luta contra o racismo é uma luta contra o capital, contra a exploração de todos os trabalhadores do mundo, contra a burguesia, que justifica a escravidão dos povos, e que apenas de mãos dadas com esses trabalhadores podemos libertar a humanidade.

De Dandara à Davis, A resistência do 20 de novembro

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O 20 de novembro para mim é mais do que um dia de feriado, mais do que um final de semana prolongado. Minha vida em diáspora hoje para o senso comum tem dupla validade.
Não quero ser repetitiva, sei a importância do dia de hoje para nós negros, vanguarda de luta e para nossos aliados.
Hoje é mais do que o afronto a farsa do dia 13 de maio; mais do que lembrar a importância da luta de Dandara e Zumbi para a emancipação do nosso povo; hoje é dia de lembrarmos da nossa resistência à sociedade que insiste em relutar a consciência negra enquanto parte da história brasileira, e insiste na “consciência humana” enquanto nos outros 364 dias ninguém se lembra que aquele moleque metralhado pela PM e jogado numa vala era um ser humano, que aquele assaltante na fome do crack, sem comida, sem esperança era um ser humano, que não tem 1% de maldade de quem lucra com câncer, HIV e fetos mal formados.
Não se lembram da importância da parcela da população humana que tem sua história desrespeitada enquanto disseminação e conscientização, mesmo que isso seja sancionada como diz a lei 10.639/03:
“Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.”

“A forma mais extrema de alienação humana é a redução ao status de propriedade.” Ângela Davis

Para eles é só um dia. Para nós é ancestralidade, é dia de levar aos meios despolitizados a importância do nosso protagonismo frente a nossa opressão enquanto mulheres e homens que tiveram sua ancestralidade, sua herança genealógica roubadas; do quanto ainda somos escravizados nos moldes capitalistas; quanto temos nossas propriedade filosófica e intelectual roubadas; do quanto ainda precisamos provar que somos bons o bastante para eles (que para nós é ser duas vezes melhor), ou quando nosso direito de sermos bons o bastante nos foi retirado; do quanto temos nosso valor subestimado no mercado de trabalho, nas escolas, universidades, nos relacionamentos, na vida.

Para nós, a consciência negra deve ser trabalhada e debatida todos os dias.

“Só vamos deixar o corredor da morte anunciada; quando nosso tempo não for usado pra limpar nota manchada, quando odiarmos o regime que faz nossas mulheres tirar saliva podre de boy em talheres.
Comemore a Consciência Negra todos os dias, exija direito à vida com ou sem data Fifa” Eduardo Taddeo

Antagonismo nos Movimentos Sociais

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Um questionamento que vem me inquietando bastante, é sobre até que ponto devemos exercer o protagonismo na luta das massas, qual o limite dos vieses protagonistas nas lutas sociais. Faço essa pergunta, porque esse pensamento tem se difundido com ruídos pelos “telefones sem fios” que surgem na internet todos os dias (aqui você pode pôr páginas de esquerda, grupos e até perfis pessoais com mais popularidade), ruídos que geram duvidas, debates, discussões acaloradas que podem até mesmo gerar inimizades e divisões de grupos dentro de um mesmo ideal político.

Tenho observado que muitos integrantes se preocupam mais com seu conceito de moral e valores pessoais, do que com o senso de coletividade dentro dos movimentos; inclusive com pessoas que ocupam a mesma posição na pirâmide social criando rivalidades desnecessárias, articulando guerras e grupos que se preocupam com o seu bem estar, ou o bem estar do “líder” do seu grupo, e ignorando completamente a problemática de pessoas que estão nas mesmas condições que estas.

As acusações de racismo, machismo e LGBTFOBIA são e devem ser consideradas por seus integrantes, pois ao contrário das clausulas conservadoras da justiça brasileira, os espaços sociais de esquerda, devem ter acolhimento pelas minorias e suas respectivas opressões. O que não está de acordo com essa realidade, são acusações de racismo/machismo/LGBTFOBIA que não foram concebidas, na verdade, isso é disfarçado por mágoas pessoais contra outra pessoa dentro de um relacionamento que aconteceu e terminou de maneira comum. Entra em questão, a opressão banalizada por mágoas pessoais entre pessoas que ocupam as mesmas classes sociais e mesmo espaço de luta na trincheira. É sempre importante ter em mente que quem se beneficia com a opressão, em última instância, é a classe dominante. Devemos sim denunciar casos de opressão, mas buscando o diálogo e a educação sempre que possível.

Foi relatado a moderação da página feminismo sem demagogia – Original, dois casos que usarei para exemplificar:

Primeiro caso – Duas pessoas parte de grupos oprimidos, tal qual uma mulher cis e uma mulher trans, ambas negras, a mulher cis estava contrariada com uma declaração equivocada da mulher trans a respeito de menstruação, a mulher trans mostrava-se receptiva a crítica da companheira negra, que depois de explicar porque ela, como trans, não saberia o que significa o período menstrual e todos seus sintomas, o que estava aceitável para o nível do debate, ela solta: “Você só pode ser uma mulher 100% se menstruar”. Ou seja, declarou que sua oponente no debate não é uma mulher por que nunca poderá menstruar, finalizou o debate com palavras transfóbicas, usando de uma tática opressora para silenciar a outra pessoa. Não bastasse isso, a mesma ao ser questionada por sua postura transfóbica, apagou todas suas postagens do debate e bloqueou a mulher ofendida, sem nenhum tipo de retratação. Esse tipo de atitude divide e enfraquece a luta das mulheres.

Mulheres podem usar de mecanismos opressores contra mulheres e este é um exemplo de como isso pode ser feito. Trazer mecanismos opressivos para dentro do movimento feminista a fim de galgar um degrau acima das companheiras não é atitude de quem quer construir uma luta vitoriosa. Nós enquanto mulheres negras, precisamos nos colocar enquanto privilegiadas se assim for, (como é no caso citado acima a respeito da mulher trans) e escutar nossas companheiras de modo receptivo a luta delas, nos retratando e finalizando o debate de modo compreensivo.

Segundo caso – Neste depoimento temos a seguinte declaração de uma mulher negra: “Fui expulsa de um grupo de militância negra, porque expus nesse grupo que havia uma falsa acusação de racismo e que aquilo se tratava de desentendimentos pessoais entre as moças envolvidas. Porém, como a moça negra em questão tinha forte influência no grupo, ela solicitou minha expulsão, me acusando de estar colaborando com racismo, uma situação que eu também vivencio todos os dias e que eu não hesitaria em estar do lado se fosse o caso, mas não era. Era uma briga pessoal e isso me deixou bastante chateada. Fui rechaçada e expulsa de um local que deveria ser acolhedor pra mim também”. Ela ainda nos relatou que foi ameaçada de violência física, ela disse que uma das mulheres do grupo avisou: “se te pego esquento a sua cara no tapa” sentindo se inconformada por que quando denunciou a ameaça, teve sua fala desqualificada ao dizerem que se tratava apenas de linguagem de expressão. Uma “linguagem de expressão” que pretende o silenciamento através da ameaça física. Reconhecem este mecanismo de algum lugar?

O desserviço causado por este tipo de atitude, ganha uma gama imensa desvalorização e desagregação da esquerda, faz com que pessoas que queiram se afinar, encontrem um cenário de rivalidade, ignóbil e cheio de busca de ego e pouco ajuda aos outros, mas faz aumentar o marketing da sua imagem de militante imponente que não difere nem um pouco do que encontramos na direita e nem no senso comum.

Sabemos que a militância é um processo de desconstrução, ninguém nasce opressor(a), mas o estruturalismo do sistema nos tornam opressores em alguns aspectos, e mesmo estando inseridos nos espaços sociais e na militância corremos o risco de reproduzir algum tipo de opressão enraizada, mas como descontruir se não somos didáticas neste processo?

Sendo assim, pra quem está fora, inteirar-se ou não a esses movimentos, é trocar seis por meia dúzia. Isso é ruim, isso é péssimo. Afasta possíveis companheiros de luta com grande capacidade de afinamento, com força pra batalhar por um mundo onde todos possam ter direito a levantarem suas vozes com a mesma entonação, sem precisarem de um eco para repetirem aquilo que muitas vezes nem os contemplam em pensamento.
“A teoria sem a prática de nada vale, a prática sem a teoria é cega” – Lênin.